• 19/10/2006

    CALL FOR ACTION AGAINST IMPUNITY

    Letter of CIMI to all solitary persons and entities



     


    After 19 years, the accused of murder of vicente cañas will finally stand trial.


     


    this judgement must be spread around and we ask for your support to guarantee that impunity will end.


     


    CIMI enters in contact with the entities and people that struggle for justice in Brazil and in other countries to ask support for the fight against the impunity of crimes against people that struggle for land and for indigenous peoples. We suggest sending this letter to newspapers in the state of Mato Grosso, with a copy to the representative of the Federal Public Prosecution Service in Cuiabá, Mario Lúcio Avelar, responsible for the accusation in the judgment.  


     


    To the Readers Letter section of the media of Mato Grosso
    To the Federal Public Prosecution Service in Mato Grosso, Mario Lúcio Avelar
    [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected]


     


    After 19 years the man behind the barbarian murder of Vicente Cañas Costa and the two persons that carried the crime out will finally sit down on the accusers bank. The trial is scheduled for October 24, at 8 a.m., in the Auditorium of the Federal Justice of Cuiabá and it can mean a great progress in the fight against impunity.  


     


    The Jesuit missionary Vicente Cañas Costa lived together with the Enawenê-Nawê people in the state of Mato Grosso. He was murdered because he struggled for the demarcation of the indigenous land Enawenê-Nawê and worked to improve the health situation of this people.


     


    Ronaldo Antônio Osmar, a former chief of police in the city of Juína, where the crime was committed, Martinez Abadio da Silva, a known gunman in the region, and José Vicente da Silva, will stand trial for aggravated homicide in exchange for money and in an ambush. The former police officer was also the first officer of the Civel Police responsible for the investigation of the case. The penalties for aggravated homicide can vary from twelve to thirty years in prison.


    Two other men who were also denounced by the Public Ministry died already (Pedro Chiquetti and Camilo Carlos Obici). The lawsuit against the third accused, farmer Antonio Mascarenhas Junqueira, has been expired because of his advanced age. 


     


    Why did they kill Vicente Cañas? 
    Vicente Cañas lived with the Enawenê-Nawê people for ten years. He participated in the first contacts between the indigenous people and the non-indigenous group in 1974. He accompanied them in their traditional fishing and agriculture activities and in their daily life. In a region where contamination for verminosis was commonplace, he acted in the prevention of these diseases. He organized constant vaccinations to prevent contagious diseases like measles, which decimated so many other indigenous groups in Brazil. The population of Enawenê-Nawê amounted 97 people when they were first contacted. Today, they are with 430.  


    Wood and lands were highly coveted by the farmers that settled in the area. Vicente Cañas fought for the demarcation of the traditional indigenous lands and for respecting the culture of the Enawenê-Nawê. He participated officially in a Funai´s working group for identification of the indigenous territory. For this reason, the competence for judging the accused was transferred to Federal Justice. 


     


    Violence 
    After receiving death threats because of his commitment to ensure the survival of the Enawenê-Nawê people, Vicente Cañas was stabbed to death by farmers in 1987, just as he was getting ready to assist in an indigenous village, taking medicines up there. After being killed, he was abandoned at the door of his hut, and the murderers fled into the forest, in direction of the farm of one of the men behind the crime.


     


    Only about forty days after the murder, his body was found by two missionaries of CIMI. His hut was in disorder, presenting signs of a fight, his glasses broken with a bat in his face. His working instruments, like the basket to take the medicines, a flashlight, rifle and a large knife, were already in the boat, with which he was planning to go to the villages, as he had informed by radio some days before the murder.  


     


    The police inquiry lasted for six years. In spite of being a voice about the involvement of the accused, the population of Juína and of the indigenous villages feared reprisals and attacks on their lives, and remained silent in relation to the persons behind the murder and the ones that carried it out. The fact that the accused were involved in the crime was revealed by indigenous people belonging to the Rikbaktsa people (canoeiros), inhabitants of the neighboring lands to the one of Enawenê-Nawê.  


     


     


    (Signed by the organization)


     

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  • 19/10/2006

    Informe n. 737: Fome, tensão e morte em Porto Cambira, Mato Grosso do Sul


    – Fome, tensão e morte em Porto Cambira, Mato Grosso do Sul 
     Tupinikim e Guarani em Brasília para cobrar decisão do MJ

    – Cimi pede solidariedade de pessoas e entidades no julgamento do caso Vicente Cañas



     


     


    Fome, tensão e morte em Passo Piraju, Mato Grosso do Sul


     


    Na manhã de quarta-feira, último dia 11 de outubro, Plácida de Oliveira e Teresa Murilha seguiram de sua aldeia, Paso Piraju, em Porto Cambira, ao município de Dourados, para pedir assistência jurídica à Funai na obtenção do auxílio reclusão – benefício concedido aos dependentes de pessoas presas que não recebam qualquer remuneração da Previdência Social.


     


    Os esposos de ambas, e mais outros sete Kaiowá Guarani de Passo Piraju foram presos de forma arbitrária, no último dia 4 de abril, depois da reação a um ataque a comunidade feito por polícias vestidos à paisana no dia primeiro de abril, sem um mandado judicial. O fato ocorreu apesar de, em fevereiro deste ano, um grupo de Trabalho de Segurança Pública composto por representantes dos órgãos de Segurança Pública do Estado, Funai, Funasa, prefeitura de Dourados e do Ministério Público Federal, terem definido que quaisquer diligências policiais que tivessem de ser realizadas dentro de áreas de conflito ocupadas por indígenas deveriam ser acompanhadas pela Funai, por meio da Operação Sucuri. A comunidade do Passo Piraju vive em 60 hectares e, apesar de anos de reivindicação e violência, ainda não foi iniciado o processo de identificação da terra.


     


    Neste dia em que Teresa e Plácida foram à cidade, foram entregues as cestas básicas do programa de combate à fome. Como só quem pode receber a cesta básica é o próprio beneficiário, mediante a assinatura de um recibo, Plácida e Teresa ficaram sem os mantimentos distribuídos. Conhecendo a necessidade pela qual passam as duas, a comunidade pediu aos agentes do governo que entregassem os alimentos ou esperassem a chegada delas. No entanto, fiscais da Justiça Eleitoral que acompanham a distribuição durante o período eleitoral impediram a entrega. Parecia um absurdo para todos deixar aquelas duas mulheres sem o que comer. Mas assim está na lei, essas são as normas para evitar desvio, campanha eleitoral ou compra de voto.


     


    As duas mulheres entraram em desespero quando voltaram da cidade e receberam a notícia de que durante a sua ausência haviam sido distribuídas as cestas básicas.


     


    A situação está muito difícil em Passo Piraju. Depois das prisões, a comunidade ficou acuada e amedrontada com a forma como foi abordada pelos jornais da região. Muitos moradores deixaram a aldeia, cansados das ameaças constantes e após terem sido  discriminados pelos moradores da cidade.


     


    As pessoas que compravam o pouco de excedente da comunidade não freqüentam mais a aldeia. Sem dinheiro, não há como comprar os produtos de higiene básica que não acompanham a cesta básica.


     


    Sem homens na aldeia para fazer reparos, os barracos que estão se desfazendo devido às fortes chuvas não são mais reerguidos, pelo menos um terço está no chão. 


     


    Plácida, uma senhora com cerca de 50 anos, mais acostumada com tanto sofrimento, resignou-se com a situação. Teresa, uma jovem de 22 anos, mãe de quatro filhos, o mais velho de sete, e a mais nova de seis meses, não. Com a notícia Teresa ficou sem saber o que fazer. Pediu conselho aos mais velhos. Os conselhos vieram, mas não iluminaram um horizonte.


     


    Sem ter o que dar de comer aos filhos, com um barraco sem cobertura, disse a dona Plácida que havia tomado a decisão de ir embora. Dona Plácida pediu que ela ficasse, mas a já jovem já havia decidido.


     


    Na manhã da última sexta-feira, o filho mais velho Teresa correu pela comunidade pedindo socorro. Teresa foi encontrada por seus parentes dentro do que restava do seu barraco, com os pés a pouco mais de um metro do chão, pendurada pelo pescoço em uma corda amarrada na madeira que sustentava um teto destelhado.


     


    Segundo o relatório “A violência contra os povos indígenas no Brasil”, entre os anos de 2003 e 2005, no estado do Mato Grosso do Sul, 68 pessoas do povo Guarani Kaiowá cometeram suicídio. A principal causa apontada destas mortes está na falta de terra. Segundo os estudos da Fundação Nacional do Índio, ainda existem mais de 100 terras tradicionais Guarani Kaiowá aguardando o início do processo de demarcação. (Cimi MS)


     


    TUPINIKIM E GUARANI EM BRASÍLIA PARA COBRAR DECISÃO DO MINISTRO DA JUSTIÇA


     


    Quatro lideranças dos povos Tupinikim e Gurani chegaram nesta quinta-feira, 19, a Brasília, para reuniões no Ministério da Justiça e no Ministério Público Federal.


     


    No Ministério da Justiça, os indígenas foram informados pela consultoria jurídica do órgão que o parecer técnico que tem que ser realizado pela consultoria ainda não foi finalizado e, portanto, ainda não chegou às mãos do ministro da Justiça. A responsável pelos pareceres no ministério, Luciana Schettini, afirmou que este trabalho é uma das prioridades do MJ. O prazo legal para a decisão do ministro da Justiça em relação ao relatório de identificação da terra expirou em 12 de outubro.


     


    O Ministério Público Federal, através do Subprocurador responsável pelo Espírito Santo, Dr. Eugênio Aragão, concorda com a posição dos indígenas de que as ações publicitárias da Aracruz têm conteúdo discriminatório e racista e que as denuncias contra elas deveriam resultar em direitos de resposta para os indígenas.


     


    Cimi pede solidariedade de pessoas e entidades no julgamento do caso Vicente Cañas


     


    Está marcado para a próxima terça-feira, 24, o julgamento de três dos seis acusados pelo assassinato do missionário jesuíta Vicente Cañas. O júri popular acontece em Cuiabá, MT. Nesta semana, o Cimi enviou a pessoas e entidades solidárias um pedido para que enviem cartas ao Ministério Público e a veículos de comunicação, apontando para a importância do caso na luta contra a impunidade, que já dura 19 anos. O crime pode prescrever em menos de um ano.


     


    Vicente Cañas foi assassinado em 1987 porque lutava pela demarcação da terra Enawenê-Nawê e trabalhava pela saúde deste povo. Para o Cimi, o resultado do julgamento pode significar um grande avanço na luta contra a impunidade. 


     


    Ele fez parte do grupo pioneiro de missionários que realizou uma forte mudança na linha de ação missionária indigenista, ao optar por uma prática de convivência com um povo distinto com atitudes de escuta, participação nas atividades do dia-a-dia, solidariedade, respeito e liberdade religiosa, o que é chamado de pela inculturação. 


     


    Para contribuir com a campanha, veja aqui o modelo de carta e endereços sugeridos


     


    Brasília, 20 de outubro de 2006

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  • 19/10/2006

    UN expert calls on Assembly to adopt declaration on the rights of indigenous peoples

    17 October 2006 – Member States should follow the lead of the United Nations Human Rights Council and quickly adopt the Declaration on the Rights of Indigenous Peoples without change, an independent UN expert has told the General Assembly.


    Member States should follow the lead of the United Nations Human Rights Council and quickly adopt the Declaration on the Rights of Indigenous Peoples without change, an independent UN expert has told the General Assembly.


     


    Rodolfo Stavenhagen, Special Rapporteur on the situation of human rights and fundamental freedoms of indigenous people also warned the Assembly’s Third Committee yesterday of the “implementation gap” between legal standards and substantive change in the lives of indigenous people. He said that in many countries, international norms and principles were not always applied in domestic legislation, adding that public officials were often ignorant of international norms and the jurisprudence of courts did not reflect international standards. Currently, the UN estimates that there are some 370 million indigenous peoples living in different parts of the world.


     


    José Antonio Ocampo, Under-Secretary-General for Economic and Social Affairs, backed the call for adoption of the Declaration, saying that it provided the international community with a comprehensive international standard towards which all should strive together.


    Mr. Ocampo noted that too often indigenous people experienced violations of their basic human rights and were excluded from national development processes, pointing out that the UN had an obligation to continue to promote respect for the full and effective participation of indigenous peoples in development processes at all levels.


     


    While many delegations expressed support for the Declaration some expressed strong reservations, although almost all the 15 representatives from countries and regional groups that took part in the debate expressed concern over the problems facing indigenous people and urged greater international cooperation to address these issues.


    In her response, the representative of New Zealand, Rosemary Banks –– speaking also on behalf of Australia and the United States –– said those countries could not accept the adoption of a text that was confusing, unworkable, contradictory and deeply flawed.


    For example, she said that the Declaration’s reference to self-determination could be misrepresented as conferring a unilateral right of self-determination and possible secession, thus threatening the political unity, territorial integrity and stability of existing Member States.


    The representative of Colombia, Claudia Blum, also expressed concerns over the manner in which the Human Rights Council had adopted the Declaration, noting that more work was needed to achieve a text that could be adopted without reservations. The Council adopted the draft Declaration in June at its first session after the legislation had been debated for years.

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  • 18/10/2006

    Entrevista Dom Pedro Casaldáliga fala sobre o julgamento de Vicente Cañas


    Uma fotografia do jesuíta Vicente Cañas com brincos e ornamentos indígenas, cabelo cortado igual ao dos Enawenê-Nawê, é uma das imagens que faz parte do Santuário dos Mártires, na prelazia de São Felix do Araguaia, no Mato Grosso.


     


    A imagem ajuda a entender a vida deste homem que escolheu conviver como o povo Enawenê-Nawê, grupo que ainda hoje tem pouco contato com a sociedade não indígena. Cañas compartilhou seus rituais, sua caça, pesca e tratava da saúde dos Enawenê, ameaçados pelo contato com os não índios que avançavam para o oeste do Brasil em busca de terra e madeira. Ele lutou pelo direito deste grupo à vida e ao território, e por isso foi assassinado.


     


    Dom Pedro Casaldáliga, ou simplesmente Pedro, como prefere ser chamado, há décadas vive no Mato Grosso acompanha os fatos da região.


     


    Ele concedeu ao Cimi, por correio eletrônico, a entrevista sobre o julgamento de Vicente Cañas que enviamos abaixo.


     


    Aqui, ele nos fala de inculturação, a prática de conviver com povos distintos com atitudes de escuta, convivência., solidariedade respeito e liberdade de espírito, aprendendo e dialogando com eles e sem querer mudar a vida do outro.


     


     


    Que ensinamentos nos deixou a vida de Vicente Cañas?


     


    Dom Pedro – A vida e a morte de Vicente Cañas nos ensinam sobretudo a vontade sincera de inculturar o Evangelho nos diferentes povos; sem etnocentrismos, com total despojamento, na monótona vida diária, arriscando e doando a própria vida, confiando na força maior do testemunho.


     


     


    Como o senhor vê o fato de este processo levar 19 anos para ser julgado?


     


    Dom Pedro  Ter levado 19 anos este processo confirma a triste sensação de falta de vontade política na causa indígena, de lerdeza (ou será omissão? ou cumplicidade? ou subserviência?) do poder judiciário. Há muitos interesses grandes no solo e no subsolo das terras indígenas e contra os direitos dos povos indígenas.


     


     


    Que significado tem a conclusão deste processo judicial?


     


    Dom Pedro  Concluir este processo judicial é chegar, muito tarde, a um desfecho que continuará sendo uma divida indigenista do nosso Brasil e de nossa Igreja.


     


     


    O senhor fala sempre da importância da solidariedade entre os povos. Como os outros povos do mundo podem contribuir neste caso?


     


    Dom Pedro – Não se pode ser solidário com as pessoas isolando-as do seu povo. A verdadeira solidariedade é interpessoal e também intercultural; na reciprocidade; enriquecendo-se mutuamente as diferentes culturas. Somente a comunhão das alteridades pode construir a outra mundialidade que sonhamos.


     

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  • 18/10/2006

    Encontro em Minas discute a importância da participação da juventude na luta indígena


    A Fazenda Guarani, lar do Povo Pataxó, recebeu entre dias 12 a 15 de outubro cerca de 400 participantes para o “1º Encontro de Jovens Indígenas da região Leste (MG, ES, e Sul da Bahia) e de Jovens solidários com a causa indígena”.


     


    Estavam presentes representantes dos Povos de Minas (Krenak, Pataxó, Xucuru-Kariri, Maxacali, Aranã, Xacriabá, Mucuriñ, Caxixó e Pankararu), do Espírito Santo (Tupinambá e Guarani) e Sul da Bahia (Pataxó Hã-hã-hãe); estudantes secundaristas e universitários, entidades, movimentos e interessados pela causa indígena.


     


    Marcado pela troca de saberes, interlocução de culturas e muita animação, o encontro contou com dois dias de atividades intensas.  A sexta-feira (13) foi recheada por oração, caminhada, painéis e grupos temáticos. O sábado (14), pela socialização do que foi discutido nesses grupos, construção do “painel dos sonhos”, celebração, pelo batizado indígena na aldeia Imbiruçu (do povo Pataxó) e terminou com uma noite cultural.


     


    Na sexta pela manhã, antes de iniciar os trabalhos, um pedido foi feito a “Vó Cabocla”: Proteger e abençoar os participantes – assim pediram em rito o Povo Xacriabá. Naquela mesma palhoça celebramos a vida, o ar, terra, água e povos.


     


    A caminhada reflexiva até a quadra (local onde as discussões aconteceram), simbolizou a penitência, o pedido de perdão pelas tantas vezes que discriminamos, somos indiferentes, não respeitamos culturas diferenciadas, mas também foi momento de refletir nossa relação, nosso comportamento com todos os tipos de vidas.


     


    Durante o trajeto três paradas aconteceram, nelas os Guarani, os Tupinambá, os Pataxó e todos os povos presentes dançaram e fizeram rituais.


     


    No painel “As diferenças fazem diferença”, cinco jovens (Letícia Aleixo, Leonardo – dos grupos de apoio Erehé e Toré; Isac – Cacique Pataxó e Douglas Krenak – Conselho dos Povos Indígenas) discutiram o protagonismo juvenil dos índios e não-índios. Colocaram a importância das novas lideranças jovens indígenas que estão surgindo, a necessidade dos jovens se unirem e cobrar políticas públicas.


     


    Cacique Isac (Hãpe na língua Pataxó) lembrou que o encontro é um caminho para a mudança que queremos, que é possível mudar o mundo, mas para que haja essa mudança é preciso empenho e união de todos: negros, índios, sociedade.


     


    Douglas Krenak ressaltou que “a juventude mora dentro de cada um de nós. Uma prova do movimento de juventude é o COPIMG – Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais”, onde a maioria é composta por jovens.


     


    Nos depoimentos de experiência concreta da juventude, Babau – Cacique Tupinambá, relatou a história do seu povo, a aproximação e integração dos jovens de sua aldeia, e a batalha travada com o Estado: “Os jovens mostraram que o povo Tupinambá não se adapta para sobreviver, morre por lutar pela terra e continua lutando quando vai para a terra dos encantados”.


     


    Elizamar Xacriabá falou das dificuldades que o seu povo encontrou ao querer sair da cidade e ir para o campo. Disse que os jovens não querem a cidade, se sentem aprisionados. 


     


    Fernando (integrante do movimento Brigada Indígena do Espírito Santo), disse que a Brigada é um movimento com aproximadamente 300 participantes, a maioria jovem, que lutam pela causa indígena no Espírito Santo. Ele denunciou o desrespeito da Aracruz Celulose com os índios daquela região.


     


    Na parte da tarde os presentes dividiram-se em grupos que discutiram as seguintes temáticas (em paralelo aconteceu a oficina para crianças):


    01-  Luta pela terra e afirmação dos direitos indígenas


    02-  Água e Meio Ambiente


    03-  Espiritualidade


    04-  Educação com espaço de transformação


    05-  Inclusão e Cidadania


    06-  Arte e Cultura


    07-  Movimento Indígena


    08-  Mudanças e Identidades


    09-  Afetividade e Sexualidade


     


     


    A noite foi esquentada por uma grande fogueira, regada por troca de saberes, experiências e lutas.


     


    No sábado, pela parte da manhã, houve a partilha das discussões realizadas nos grupos temáticos, muita pintura, artesanatos e alegria. Houve ainda a construção coletiva do painel “O Brasil que queremos”, onde colocamos numa imensa bandeira branca os nossos sonhos. Essa bandeira irá percorrer cada aldeia a fim de que cada povo expresse ali seus sentimentos.


     


    Na parte da tarde, na aldeia Imbiruçu, houve celebração e batismo de pequeninos Pataxó. Á noite muito forró, churrasco e conversa fiada.


     


    Do encontro resultou uma carta de compromisso. Encontros como esse são importantes, e devem estar sempre em debate – foi o sentimento de todos.


     


    O CEDEFES esteve presente registrando, documentando e contribuindo para a preservação da memória social destes povos.


     

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  • 17/10/2006

    Colabore nesta luta contra a impunidade


    Apelo do Cimi às pessoas e entidades solidárias


      


    Após 19 anos, aCUSADOS PELO ASSASSINATO DE Vicente Cañas sentarão no banco dos RÉUS. Precisamos garantir a divulgação deste julgamento e de posições de apoio às acusações para garantir que esta impunidade tenha fim.


     


    O Cimi entra em contato com as entidades e pessoas que lutam por justiça no Brasil e em outros países para pedir apoio a esta luta contra a impunidade de crimes contra pessoas que lutam pela terra e pela vida dos povos. Sugerimos o envio desta carta para jornais do Mato Grosso, com cópia para o procurador da República em Cuiabá, Mario Lucio Avelar, responsável pela acusação no julgamento.


      


    Às redações dos veículos de comunicação do Mato Grosso


    Ao Procurador da República em Mato Grosso, Mario Lucio Avelar (MPF-MT)


    [email protected][email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected]


     


    Após 19 anos sentarão no banco dos réus um mandante e dois executores do bárbaro assassinato de Vicente Cañas Costa, missionário jesuíta que vivia com o povo Enawenê-Nawê naquele estado. O julgamento está marcado para 24 de outubro, às 8 horas, no Auditório da Justiça Federal de Cuiabá e pode significar um grande avanço na luta contra a impunidade. 


     


    Cañas foi assassinado porque lutava pela demarcação da terra Enawenê-Nawê e trabalhava pela saúde deste povo.


     


    Serão julgados pelo Tribunal do Júri, pelos crimes de homicídio duplamente qualificado, mediante pagamento e em emboscada, Ronaldo Antônio Osmar, ex-delegado de polícia de Juína, município do crime, José Vicente da Silva e Martinez Abadio da Silva, um conhecido pistoleiro da região. O ex-delegado foi também o primeiro delegado da Polícia Civil responsável pela investigação do caso. As penas para homicídio qualificado podem variar de doze a trinta anos de reclusão.


     


    Dois mandantes denunciados pelo Ministério Púbico já morreram (Pedro Chiquetti e Camilo Carlos Obici). A ação contra o terceiro acusado de mandante, o fazendeiro Antonio Mascarenhas Junqueira, prescreveu pela sua idade avançada.


     


    Por que mataram Vicente Cañas?


     


    Vicente Cañas viveu com os Enawenê por dez anos. Participou dos primeiros contatos do grupo com não-índios, em 1974. Ele os acompanhava em suas atividades tradicionais de pesca, agricultura e na vida cotidiana. Em uma região onde contaminação por verminoses era comum, atuou na prevenção destas doenças. Manteve constantes vacinações para prevenir doenças infecto-contagiosas como sarampo, que dizimaram tantos outros grupos indígenas no Brasil. A população dos Enawenê-Nawê era de 97 pessoas quando foram contatados. Hoje, são 430.


     


    Madeira e terras eram cobiçadas pelos fazendeiros que se instalavam na região. Cañas lutava pela demarcação das terras tradicionais e pelo respeito à cultura tradicional dos Enawenê-Nawê. Ele participava oficialmente de um grupo de trabalho da Funai para identificação do território indígena. Por esta razão, a competência para o julgamento dos acusados foi transferida para a Justiça Federal.


     


    Violência


     


    Ameaçado de morte por seu comprometimento com a sobrevivência do povo Enawenê-Nawê, Vicente Cañas foi vítima da ambição e violência dos fazendeiros, que o mataram a facadas em 1987, quando se preparava para atender a uma aldeia, levando medicamentos. Após ser morto, foi abandonado à porta de seu barraco, pelos assassinos que fugiram pelas picadas abertas na mata, em direção à fazenda de um dos mandantes.


     


    Seu corpo foi encontrado cerca de quarenta dias depois da morte, por dois missionários do Cimi, com o abdômen perfurado. Seu barraco, em desordem, apresentava sinais de luta; seus óculos foram quebrados por uma porretada em seu rosto. Seus instrumentos de trabalho, como o cesto onde levava medicamentos, além de lanterna, espingarda e facão, já estavam na voadeira (barco) com a qual iria até as aldeias, como havia avisado por rádio dias antes do assassinato.


     


    O inquérito policial tramitou durante seis anos. Apesar de ser voz corrente na região sobre o envolvimento dos acusados no crime, a população de Juína e das aldeias indígenas conviveram e ainda convivem com medo de represálias e atentados às suas vidas, calando-se em relação aos mandantes e executores deste crime. A revelação do envolvimento dos acusados só se deu por testemunhos de indígenas da etnia Rikbaktsa (canoeiros), habitantes das terras vizinhas à dos Enawenê-Nawê.


     


    Assinatura (pessoal ou de organização) 

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  • 16/10/2006

    Nota de pesar pelo falecimento do Pajé Paiô, do povo Zoró

    O ADEUS A UM GUERREIRO

     

    Paiô, o pajé mais velho do povo Zoró, faleceu na última quinta-feira (12), em Ji-Paraná, Rondônia, com 92 anos, segundo a Funai, e mais de 100 anos, segundo seu povo. 

     

    Paiô  Zawyt Wãwã Zoró, líder espiritual e político e um dos mais importantes guerreiros do povo Zoró, estava com malária. Ele foi internado no hospital Municipal de Ji-Paraná, onde teve complicações cárdio-respiratórias, vindo a falecer.

     

    Paiô era uma liderança muito respeitada, era o mestre dos pajés, grande conhecedor da medicina tradicional e das ervas naturais, profundamente carismático, a referência mais clara e evidente da revitalização da cultura e autonomia do seu povo.

     

    Sempre recordaremos seu sorriso acolhedor, sua simplicidade, sua intuição e sabedoria, sua postura profética, sua serenidade que transmitia paz. Estando ao seu lado percebia-se que era um homem de profunda relação e intimidade com o sagrado. 
     

     

     
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  • 16/10/2006

    Newsletter n. 736


     


    – Maninha Xukuru-Kariri died last Wednesday in the state of Alagoas


    After 19 years, murderers of Vicente Cañas will stand trial


     


    Maninha Xukuru-Kariri died last Wednesday in the state OF Alagoas


     


    Cimi mourningly reports the death of Maninha Xukuru-Kariri last Wednesday, the 11th, at 9:30 a.m. in the city of Palmeira dos Índios, state of Alagoas. According to the information we have so far, she was experiencing respiratory problems and had a heart failure and was not treated quickly enough in the hospital of that city.


     


    Maninha took part in the Articulation of Indigenous Peoples of the Northeast Region, Minas Gerais and Espírito Santo (Apoinme) since the very first meetings of the entity. She was the first woman to take part in the coordination of Apoinme and she worked in the entity for 16 years. In 2005, she left the coordination of the entity but was invited to remain close to it advising the Articulation in its actions.


     


    Maninha was paid special homage during the 6th Assembly of Apoinme, which was held in June 2005. During the assembly, Girleno Xocó, a companion in the indigenous struggle for many years, spoke about the importance of Maninha to the struggle of indigenous peoples in the northeast and east regions of Brazil. He said that she always attended meetings that lasted for days and took part in actions to reoccupy land areas and organize indigenous peoples. “Among all those men, she would say: ‘respect is a good thing and I like it.´And all of us learned a lot with this,” Girleno said.


     


    Maninha was one of the 52 Brazilians which that the 1,000 Women Project nominated to the Nobel Peace Prize in 2005. “Society tries to deny our indigenous origin. They took away our lands, our languages and our beliefs. Today, we know who we are, what our rights are and the position we want to occupy in history,” she said when she was nominated to the prize.


     


    We will remember Maninha as a brave woman who was very concerned with the life of indigenous peoples, was engaged in all aspects of their struggle, and was actively involved in actions to ensure their right to their lands, education, and health care. The death of Maninha constitutes an irreparable loss for indigenous movement and social movements. 


      


     


    After 19 years, murderers of Vicente Cañas will stand trial


     


    Nineteen years after the barbarian murder of Vicente Cañas Costa, a Jesuit missionary who lived with the Enawenê-Nawê people in the state of Mato Grosso, the man behind the murder and the two men who carried it out will stand trial. The trial is scheduled to begin on October 24 in Cuiabá, state of Mato Grosso, and it can set a remarkable example in the struggle to put an end to impunity in Brazil. The crime was committed because Cañas supported the demarcation of the Enawenê-Nawê land and worked to ensure the availability of health care services to these people.


     


    Two other men who were also reportedly behind the crime have died already. The lawsuit against the third defendant expired because of his old age. Therefore, Ronaldo Antônio Osmar, a former chief of police in the city of Juína, where the crime was committed, Martinez Abadio da Silva and José Vicente da Silva will stand jury trial for aggravated homicide in exchange for money and in an ambush. The penalties for aggravated homicide can vary from twelve to thirty years in prison. Former chief of police Ronaldo will also be judged for aggravating circumstances, since it is believed that he promoted or organized a cooperation scheme for committing the crime, as he led the criminal activity of the other people involved in it.


     


    Vicente Cañas lived with the Enawenê people for 10 years. He took part in the first contacts between the group and non-indigenous people in 1974. He accompanied them in their traditional fishing and agricultural activities and in other daily activities. In a region where verminosis was commonplace, he acted to prevent verminosis-related diseases. He organized immunization campaigns repeatedly to prevent infectious-contagious diseases such as measles, which decimated so many other indigenous groups in Brazil. The population of the Enawenê-Nawê amounted to 97 people when they were first contacted. Today, it amounts to 430 people.


     


    He also fought for the demarcation of their traditional lands, which farmers who settled in the region coveted for, and was an official member of a Funai’s working group set up to identify their indigenous territory. For this reason, the competence for judging the defendants was transferred to a federal court.


     


    After receiving death threats because of his commitment to ensuring the survival of the Enawenê-Nawê people, Vicente Cañas was a victim of the ambition and violence of farmers, who stabbed him to death in 1987 as he was getting ready to visit an indigenous village to take medicines there. His murderers left him agonizing in pain in front of his tent and ran away through trails in the forest to the farm of one of the men who hired them to kill him. His body was found only about forty days later. The investigations lasted for six years and the fact that the defendants were involved was revealed by indigenous people belonging to the Rikbaktsa group (canoeiros), who live in lands close to those of the Enawenê-Nawê.


     


    Cimi calls on all pastoral and social movements to spread the word about this trial and invites all people who want the defendants to be punished for their crimes to be present at the Auditorium of the Federal Court of Cuiabá at 8:00 a.m. on October 24 to show the importance of this trial to putting an end to impunity.


     


    Brasília, October 11, 2006


    Cimi – Indianist Missionary Council


    www.cimi.org.br

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  • 16/10/2006

    Cartas de pesar pelo falecimento de Maninha


    Querida gente do nosso Cimi, transmitam ao povo Xukuru, queridíssimo, o testemunho da nossa constante solidariedade e de uma pascal comunhão a morte da grande militante Maninha. Da Aldeia Grande e na Paz de Deus seguirá animando a caminhada do seu povo e de todos os nossos povos indígenas.


     


    Um forte abraço na militância e na esperança do Reino.


     


    Pedro Casaldáliga


     


     


    ADEUS, GRANDE GUERREIRA XUKURU-KARIRI


    Conheci Maninha Xukuru-Kariri em 1986. Bem jovem, ela estudava no Recife. Vivia o drama de necessitar seguir uma profissão que lhe garantisse sobreviver economicamente e, por outro lado, o desejo de permanecer junto ao seu povo. Ainda não sabia bem o que fazer, mas mirava forte o exemplo de seu pai – o Pajé Antônio Celestino.


    Veio a luta pela retomada das terras da Mata da Cafurna, e com ela a polícia, o despejo ilegal e violento, as humilhações e ameaças à comunidade. Maninha decidia, então, que rumo tomar: ficar ao lado de seu povo. Meses de frio, de fome, e de espera por uma decisão judicial. Com muito sacrifício, a comunidade saiu vitoriosa. A comunidade cresceu, Maninha cresceu. Mas ainda havia tanto a fazer…


    Em 1991, surgia a Comissão Leste-Nordeste. Oito líderes indígenas – todos homens (Chicão e Zé de Santa Xukuru, Girleno Xokó, Naílton, Ninho e Manuelzinho Pataxó Hã-Hã-Hãe, Jonas Tupinikim, Caboquinho Potiguara). Maninha, a única liderança mulher no grupo. Reuniões trimestrais nas terras indígenas (Xukuru-Kariri, Xukuru, Xokó, Potiguara, Kiriri, Pataxó, Pataxó Hã-Hã-Hãe, Tupinikim – Guarani…), Maninha, a única liderança mulher na comitiva.


    Em 1995, Assembléia de criação da APOINME. Maninha, a única mulher na coordenação. Reuniões da APOINME nas capitais (Maceió, Recife, João Pessoa, Salvador, …), Maninha, a única mulher em meio às lideranças. Alguns começavam a falar em questão de gênero. Algumas falavam em mulher indígena. Maninha não falava sobre o tema, não ocupava espaço na mídia. Mas agia. Conquistou um lugar de destaque e respeito num ambiente eminentemente masculino. Oito lideranças calejadas nos duros embates da luta pela terra; muitos ameaçados de morte por defenderem seus povos; todos líderes respeitados por seus povos. Maninha, em meio a eles, ganhou a sua confiança, conquistou o seu respeito. Conquistou o respeito, como ela dizia, dos “meus parentes”, indígenas de todos os povos do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo.


    Nas reuniões, como nas tarefas da APOINME ou nas caravanas país afora, era sempre a personificação da responsabilidade, da prudência, da ponderação, do equilíbrio. Falava com mansidão, mas com autoridade. Era respeitada. Tinha, como gostava de dizer, o sangue dos Celestino, e das Santana.


    Nas lutas em defesa de seu Povo era obstinada, valente, destemida. Ameaças de morte, recebeu muitas. Mas dizia: “não quero morrer, mas não posso viver fugindo. Vou ficar.” Uma madrugada de 1995. Uma retomada para tentar salvar a mata da Jibóia. Na cidade, fazendeiros em passeata, carro de som, palavras de ordem contra os Xukuru-Kariri e suas lideranças. Em toda parte, notícias de jagunços que bebiam e se preparavam para subir a serra e despejar os índios à força.


    Na casa da fazenda, a madrugada de vigília. Crianças chorando, mulheres rezando. O ar pesado pelo anúncio de que os jagunços logo chegariam, em meio à escuridão. Me despi de meu casaco preto, e disse: “Maninha, pegue, vista e fique lá fora. Se eles chegarem, corra pela mata, se esconda. Eles vão querer você”. Manhinha agradeceu e disse: “Não, vou ficar. Não tenho o direito de fugir e deixar o meu povo. Se eles chegarem, estarei esperando”. Pegou uma borduna, seu único instrumento de defesa, e montou guarda à porta dos fundos. O dia amanheceu, trazendo o alívio da notícia de que os jagunços haviam desistido de seu intento. 


    Maninha era assim, guerreira, destemida, disposta aos maiores sacrifícios. Entregou-se de corpo e alma à luta pelos direitos de seu povo, à solidariedade com as lutas dos povos do Nordeste, e à construção da APOINME. Sacrificou seus estudos na universidade, sacrificou seu convívio familiar, sua vida pessoal, por fim, sacrificou sua saúde.


    Combateu o bom combate, e para sempre viverá.


    Vai em paz, Grande Guerreira.


    Vai ao encontro de Quitéria Celestino, de Tio Migué Celestino, do Cacique Luzanel Ricardo, do Cacique Chicão Xukuru.


    Outros guerreiros e guerreiras, teus parentes, eu sei, estão te aguardando, com seus maracás.


    Ficamos por aqui, com teus pais, teus irmãos e irmãs, sobrinhos, enfim, o Povo Xukuru-Kariri que tanto amaste, e todos aqueles que tanto te admiram e respeitam.


    Até um dia.


    De sua amiga, Rosane Lacerda.


    Brasília – DF, 11 de outubro de 2006.

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  • 11/10/2006

    Notas de pesar pelo falecimento de Maninha


     


    NOTA da COIAB


    Falece Maninha Xucuru,  vítima de enfarto


     


    A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas (FDDI), receberam com muito pesar a notícia do falecimento, em decorrência de um enfarto,  da líder indígena Etelvina Santana da Silva, mais conhecida como Maninha Xucurú, ocorrido na manhã desta quarta-feira, 11 de outubro, em Palmeira dos Índios, Estado de Alagoas.


     


    A Coiab e o FDDI, consternados, lamentam esta irreparável perda para o movimento indígena nacional, uma vez que Maninha Xucuru-Cariri foi, até seus últimos dias de vida, uma aguerrida batalhadora em prol dos direitos de seu povo, dos povos indígenas do Nordeste e do Brasil inteiro. No início da década dos anos 90, Maninha presidiu a Comissão Indígena Leste-Nordeste; depois, em 1994, promoveu, junto com outras lideranças, a criação da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), da qual foi coordenadora até o ano de 2005.


     


    Esta trajetória a fez merecedora de fazer parte da lista de 52 brasileiras indicadas pelo Comitê do Movimento Mil Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz 2005, junto a outras lideranças como Joênia Batista de Carvalho/Wapichana, Eliane Potiguara e Zenilda Maria de Araújo/Xucuru de Ororubá.


     


    Brasília, 11 de outubro de 2006.


    NOTA DA ANAÌ


    Amig@s,


     


    Em Maninha a Anaí acaba de perder uma amiga e aliada das mais importantes em nossa ação e em nosso aprendizado de indigenismo.


     


    Maninha, com suas primas Quitéria (infelizmente também prematuramente falecida) e Graciliana, inauguraram, de maneiras diferentes, uma nova geração de valorosas e combativas jovens lideranças femininas dos Xucuru Cariri e dos índios do Nordeste.


     


    Maninha em especial, foi figura decisiva em todo o processo de formação da Apoinme (Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas e Espírito Santo), de 1990 a 1995, e em seguida, com a consolidação da Apoinme, foi a figura de referência para a coordenação e para a autoridade moral da instituição de 1995 a 2005.


     


    Nesses quinze anos, Maninha sacrificou muito de sua vida pessoal pela construção da instituição que é hoje um baluarte e um marco de independência na luta dos povos indígenas do Nordeste do Brasil.


     


    Sob a liderança de Maninha e da Apoinme, os povos indígenas do Nordeste chegaram pela primeira vez a uma posição histórica de vanguarda na luta dos povos indígenas no Brasil; conquistando o profundo respeito de ” parentes” de outras regiões, de parceiros indigenistas e mesmo de instituições governamentais. Uma posição e um legado dos quais certamente não mais se arredarão!


     


    Ao deixar a coordenação da Apoinme em sua mais recente assembléia em 2005, Maninha pretendia se dedicar mais a um projeto de formação superior longamente adiado, e a voltar a viver em sua querida aldeia sagrada da Mata da Cafurna, que, com o seu pai Antonio e outras famílias xucuru-cariri, ajudou a reconquistar e a refundar ainda na década de 1980, no início de sua carreira de lutas.


     


    Desde então, Maninha foi também uma figura de referência na luta do povo Xucuru-Cariri pela reconquista e demarcação de suas terras, em incontáveis gestões junto aos órgãos oficiais, no acompanhamento direto aos muitos grupos de trabalho que se têm sucedido nessa tarefa e, principalmente, nas constantes injeções de ânimo e de coragem à frente
    do seu povo!


     


    Infelizmente, Maninha agora nos deixa sem que esse processo se tenha concluído, vitimado e paralizado, nas gavetas oficiais, pelo inominável boicote da atual gestão da Funai aos processos de regularização de terras indígenas no Brasil, em especial às terras indígenas no Nordeste; não por coincidência as que abrigam líderes e organizações que, como Maninha e a Apoinme, lhe têm feito mais renhida e corajosa oposição crítica.


     


    Por tudo que representam as lutas indígenas no Brasil de hoje, o exemplo de coragem, firmeza ética, independência e perseverança de Maninha decerto seguirá guiando os passos e as vitórias do povo Xucuru Cariri e do movimento indígena no Nordeste e no Brasil.


     


    Com muito pesar e renovada esperança,


     


    Guga Sampaio


    Coordenador Executivo


    ANAÍ – Associação Nacional de Ação Indigenista


     

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