• 25/06/2004

    Falsas denúcias


     


    O senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR) está usando os meios de comunicação de Boa Vista para ‘plantar’ a notícia de que uma de suas fazendas, localizada próxima à terra indígena Serra da Moça, será invadida por índios, supostamente, ‘incitados’ pelo Conselho Indígena de Roraima – CIR, e a Associação dos Povos Indígenas de Roraima – Apir. Os tuxauas da região garantem que a denúncia é infundada.


    A terra Serra da Moça está localizada a 50 quilômetros de Boa Vista, tem extensão de 11.626 hectares, com 336 indígenas da etnia wapichana, habitando em três aldeias: Serra da Moça, Morcego e Truaru. O tuxaua de Morcego, Jaime Pereira da Silva assegura que a denúncia é falsa e que na região o único conflito recente foi um índio esfaqueado por um invasor.


    A denúncia no jornal partiu do vaqueiro Nilton Pereira da Silva, empregado na fazenda Boquerão, pertencente ao senador. Ele afirmou que as duas organizações indígenas planejam e incitam os índios a invadirem a propriedade. Com base na matéria, Mozarildo entrou com Ação Judicial pedindo Liminar de Interdito Proibitório.


    Ação na Justiça Estadual foi impetrada no dia 9 de julho (feriado municipal) e na mesma data o juiz plantonista, Ângelo Augusto Graça Mendes, deferiu o pedido de Liminar garantindo o Interdito Proibitório e imediatamente mandou citar e intimar os coordenadores do CIR, Jacir do José de Souza, e da Apirr, Telmar Mota. A Ação argumenta tratar-se de uma retaliação à iniciativa do senador em propor lei que controle a atuação das ONGs e à Proposta de Emenda Constitucional – PEC 038/99.


    Em declaração a impressa local, o Senador Mozarildo alega que estaria sendo vítima de seu posicionamento no Congresso e responsabiliza o CIR e Apirr, pela reação negativa que ele obteve durante a campanha Áreas Protegidas, promovida por organizações indígenas, indigenistas e ambientalistas contrárias a PEC 038/99, devido ao seu teor inconstitucional.


    A rapidez da decisão judicial favorável ao senador, com base apenas em matéria jornalística que ouviu apenas uma versão dos fatos, revela mais uma decisão contrária aos direitos dos povos indígenas. O juiz ainda determina a multa diária de R$  2.400,00, caso seja descumprida a decisão.


    A Justiça Estadual está sendo ágil em suas decisões, mas nem sempre foi assim. O caso de Ovelário Tames, indígena torturado até a morte na delegacia do município de Normandia em 1989, tramitou 10 anos, e demorou quatro anos para se publicar um edital de citação dos réus. Julgado em 2001, os réus, como em todos os outros casos, foram absolvidos. Pela impunidade neste crime, o Brasil foi condenado na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA.


    Boa Vista – RR, 10 de julho de 2003.


    Conselho Indígena de Roraima

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  • 25/06/2004

    Invasores de Raposa Serra do Sol ameaçam indígenas

    O invasor da terra indígena Raposa Serra do Sol, conhecido por ‘João do Boi’, voltou a ameaçar os índios que estavam reunidos em Assembléia Regional do Surumu, no retiro indígena da aldeia do Barro, nos dias 29 de junho a 2 de julho. O retiro havia sido destruído, no dia 26 de maio, pela família do posseiro e as lideranças denunciam que ela fala abertamente aos moradores do vilarejo Surumu que “vai embora, mas antes vai matar índio”.


    ‘João do Boi’ é irmão do vereador de Uiramutã, Francisco das Chagas Oliveira da Silva, o ‘Chico Tripa’, ex-posseiro da fazenda Retiro, onde o índio macuxi Aldo da Silva Mota foi encontrado morto e enterrado numa cova rasa em janeiro deste ano. O indígena foi executado com um tiro no peito.


    Num afronta às comunidades, no domingo, 29/6, ele esteve no local da reunião e disse que sua saída da “área será decidida pela Justiça”. As comunidades denunciam que os jagunços de ‘João do Boi’ portam arma de fogo e praticam tiroteio durante a noite.


    O coordenador regional de Surumu, Dionísio Tobias, relatou que na tarde de domingo, um dos suspeitos de assassinar o macuxi Aldo Mota, conhecido por “Robson Belo”, que trabalha para ‘João do Boi’ , tentou agredir o jovem, Paulo Lima Peres, de apenas 16 anos. “O jovem disse que esse Robson correu atrás dele com uma arma de fogo na mão”, afirma.


    Em 2 de julho, depois de quatro dias de Assembléia, as comunidades decidiram reconstruir o retiro indígena. As lideranças afirmam que antes do invasor comprar a propriedade, ele foi alertado que a área pertencia a aldeia do Barro. ‘João do Boi’, à época, respondeu que iria comprar e cercar a área, inclusive, os igarapés que os indígenas se servem para a pesca.


    Ao final da Assembléia, foi elaborado um documento relatando a situação de conflito. A assessoria jurídica do Conselho Indígena de Roraima – CIR, encaminhou a denúncia à Funai, Ministério Público e Polícia Federal – PF. Devido às ameaças, o CIR solicitou à Justiça Federal, antecipação da audiência entre as partes, marcada para o dia 25 de julho. À PF, solicitou-se busca e apreensão das armas de posse dos jagunços.


    4 de julho de 2003.


    Conselho Indígena de Roraima

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  • 25/06/2004

    CNBB pede ao Governo Lula a homologação de Raposa/Serra do Sol


     


    Conferência Nacional dos Bispos do Brasil do Brasil


    Brasília, 29 de maio de 2003
    P- n.º 0301/03


    Excelentíssimo Senhor
    Luís Inácio Lula da Silva
    Digníssimo Presidente da República Federativa do Brasil


    Senhor Presidente,


    A nova direção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB procurou marcar uma audiência com Vossa Ex.cia. para agradecer sua honrosa visita à nossa Assembléia Geral. Não tendo sido possível um encontro pessoal, expressamos, por carta, nosso apreço e estima, almejando podermos continuar nosso diálogo em outras ocasiões.


    Em sua primeira reunião, a direção da CNBB tomou conhecimento da atual situação da população indígena do Estado de Roraima.


    A preocupação maior se prende à expectativa da imediata homologação da terra indígena RAPOSA SERRA DO SOL nesse Estado em sua integralidade. A questão dos povos indígenas sempre foi uma prioridade da missão da CNBB, exatamente pelo seu significado simbólico: apesar de representarem as raízes da cultura do Brasil, são, de fato, os mais desamparados entre os pobres de nossa população.


    Nossa missão de Igreja, à luz da evangélica opção pelos pobres, nos leva a fazer um apelo: dê prioridade à homologação daquela área que, há tanto tempo, esperamos ver, enfim, demarcada.


    Confiando na sua sensibilidade, reafirmamos nossa disposição em colaborar para o êxito de seu governo.


    Atenciosamente,











    Cardeal Geraldo Majella Ângelo,
    Presidente da CNBB


     


    Dom Antônio Celso de Queiroz
    Vice-presidente da CNBB


    Dom Odilo Pedro Scherer
    Secretário Geral da CNBB




     

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  • 25/06/2004

    CIR: Nota de Repúdio ao parecer da CCJ do Senado


     




    O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, solicitou através do Ofício Nº 92-GSIPR/SAEI, de 18 de fevereiro de 2003, pronunciamento do presidente do Senado Federal sobre projetos de decretos que objetivam homologar as demarcações administrativas das terras indígenas Jacamim, Wai Wai, Moskow, Muriru e Boqueirão no Estado de Roraima, e assim como Bajjonkôre(PA) e Cuiú-Cuiú (AM).
    A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) aprovou, no dia 2 de abril de 2003, parecer do Relator Senador Romero Jucá (PSBD-RR), favorável à edição de decretos homologando as demarcações administrativas das terras indígenas Banjonkôre e Cuiú-Cuiu, e o sobrestamento da homologação das terras Jacamim, Wai Wai, Moskow, Muriru e Boqueirão, alegando que devem merecer estudos mais acurados, por parte do Governo Federal, visando à solução definitiva dos casos conflituosos.
    A Agência Senado divulgou que as homologações serão retardadas até que sejam consultados representantes dos governos federal e estadual sobre o tema. Acrescentou ainda que ‘O Senador [Romero Jucá] ponderou que a homologação dessas áreas, onde não vê problemas demarcatórios, poderá acirrar os conflitos em outras terras indígenas, como na Raposa Serra do Sol e na região da rodovia BR 174, que fica fechada à noite [TI Waimiri-Atroari-RR/AM]”.
    O Conselho Indígena de Roraima – CIR, organização dos povos indígenas Ingaricó, Macuxi, Taurepang, Patamona, Sapará, Wai Wai, Wapichana e Yanomami que habitam o Estado de Roraima, extremamente preocupado com o tratamento aos direitos indígenas vem manifestar o seguinte:
    A solicitação da Presidência da República em análise no Senado Federal, sobretudo à vista das bases de sua justificação, importa em subversão da ordem jurídica e da natureza das coisas, ao pretender que o parecer do relator Senador Romero Jucá acolhido pela Comissão de Constituição e Justiça que faz prevalecer interesses antiindígena sobre o próprio direito à vida, tenha o poder de paralisar as homologações.
    As comunidades indígenas ao longo dos anos vêm reivindicando a regularização de suas terras. Porém, mesmo com os avanços no reconhecimento dos direitos indígenas na Constituição Federal, continuam os constantes ataques por parte dos políticos do Estado de Roraima que se utilizam de todos os meios para irem contra os direitos indígenas. Lamentamos que políticos de Roraima atuam desta forma negativa, se contrapondo inclusive às normas constitucionais.
    Entendemos que a regularização fundiárias das terras indígenas atende os critérios que a própria norma constitucional dispõem, ou seja, as necessidades dos povos indígenas para garantir sua sobrevivência física e cultural. É um dever da União fazer com que esse direito seja protegido.
    Os atos concretos de demarcação das terras indígenas não carecem de confirmação do poder legislativo, uma vez que decorrem de imperativo constitucional, expresso no caput do art. 231 da Constituição Federal em vigor, que manda a União demarcar as terras indígenas. Tal determinação, ademais, configura competência administrativa federal, visto que representa atividade administrativa da União, a qual, nesse caso, está a reger bem próprio, pois, de acordo com o art. 20, XI, da Carta Magna, as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios são bens que lhe pertencem.
    Observamos que os atos da Administração Pública devem dar-se nos limites da Lei, sendo assim a União está obrigada a editar as disposições legais ensejadoras da cobertura que lhe permitam concretizar os encargos a ela cometidos pela Constituição. Tais normas são: a Lei n° 6.001, de 19 de dezembro de 1973 [Estatuto do Índio] e o Decreto n° 1.775, de 8 de janeiro de 1996 [que regulamenta o procedimento demarcatório das terras indígenas].
    A competência do Ministro da Justiça de declarar, mediante portaria, os limites da terra indígena e determinar sua demarcação foi conferida pelo art. 2° § 10, inciso I do Decreto 1.775/96. Ao editar essa norma legal, o Presidente da República exercitou a competência de que está investido pelo art. 84, inciso II da Carta em vigor, da qual deriva o poder de “exercer, com o auxílio dos Ministros de Estado, a direção superior da administração federal”.
    Salientamos que no decorrer do procedimento demarcatório pelo Decreto 1775/96, o direito de contestação é aberto a todos os interessados, sendo ultrapassada essa fase segue o rito normal do processo declarando a posse indígena e devendo o Presidente da República confirmar os atos do Ministro da Justiça.
    A amplitude dos direitos conferidos aos povos indígenas não oferece ensejo à possibilidade de restrições decorrentes dos fatos referidos na justificativa da proposição em exame. O surgimento de tensões sociais decorrentes das medidas demarcatórias ou a imposição de obstáculos ao desenvolvimento econômico do Estado pela suposta insuficiência de seu território não representam fundamento para se imporem obstáculos às demarcações das terras indígenas.
    Ao contrário, verificadas as condições para a caracterização da natureza de terra tradicionalmente ocupada pelos índios, conforme disciplina o § 1° do art. 231, evidencia-se a posse indígena assegurada pelo § 2°, que prevalece contra qualquer outra. Tal posse prepondera, inclusive, à de portadores de alegados títulos de propriedade, por força das disposições do § 6°, que declara nulos, extintos e incapazes de produzir efeitos jurídicos os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras tradicionalmente ocupadas pelos índios.
    A terra representa a condição imanente à vida dos indígenas, por ser indispensável à existência física e cultural, de gerações presentes e futuras.
    Por ocasião da 32ª Assembléia dos Tuxauas, fevereiro de 2003, as lideranças indígenas cobraram da Presidência da República a agilização das 6 (seis) terras pendentes da homologação, Jacamim, Moskow, Muriru, Boqueirão, Wai Wai e Raposa Serra do Sol, no Estado de Roraima.
    Nossas posições foram sempre no sentido de solicitar as providências legais às autoridades competências, por isso pedimos a solução emergencial, para nos defendermos das pretensões dos que são contrários à demarcação das terras indígenas, sobretudo quanto a demarcação integral da TI Raposa Serra do Sol. A morosidade na regularização fundiária dos territórios indígenas incentiva, além do retardo, a inversão de direito.
    Defendemos e buscamos. Queremos a garantia do cumprimento da Carta Magna Brasileira, queremos o respeito e reconhecimento dos nossos direitos originários sobre a terra, nossa organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e reivindicamos que o Poder Legislativo contribua para a proteção e respeitos a todos os direitos amparados pelas Constituição Federal Brasileira.
    Em nome dos povos indígenas de Roraima em especial das comunidades indígenas das TIs Jacamim, Mosckow, Muriru, Boqueirão, Wai Wai e Raposa Serra do Sol convidamos a se manifestar em prol dos direitos povos indígenas.


     


    Boa Vista (RR), 07 de abril de 2003.


    CONSELHO INDÍGENA DE RORAIMA

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  • 25/06/2004

    Emergentes? Ressurgidos? Não, RESISTENTES

           Nos últimos 30 anos, vem (re) aparecendo no cenário sociopolítico nacional a identidade de vários povos indígenas, os quais, por muito tempo, foram tidos como desconhecidos ou considerados extintos pelos registros oficiais do Estado brasileiro.
              Até a Constituição de 1988, alguns povos indígenas tinham que usar de  vários mecanismos de resistência, como ocultar e  até mesmo negar sua identidade étnica como um meio de proteção para  continuar sobrevivendo. Acredita-se que essa tática tenha sido a principal e mais eficiente “arma” na luta contra o etnocídio proposto por políticas integracionistas. Fingindo não ser mais índio, o indivíduo pertencente a uma determinada etnia conseguia preservar sua integridade física, pois dessa forma deixava de ser perseguido pelo poder estatal que passava a considerá-lo como “integrado” à comunhão nacional, um “aculturado”. E foi assim que os povos “ressurgidos”/resistentes  passaram desapercebidos, até para os olhos mais atentos, chegando a ser considerados como extintos.
                Embora esse fenômeno aconteça em todo Brasil, é nas regiões Norte e Nordeste onde o retorno desses povos indígenas ao cenário de luta  é maior e com particularidades muito especiais, impondo à antropologia brasileira o desafio de construir um objeto próprio com abordagem etnológica totalmente diferenciada dos estudos.
                O termo utilizado por antropólogos e indigenistas para classificar este fenômeno é  “povos emergentes”. Mesmo sendo um termo generalizado nos meios acadêmico e indigenista, o Cimi usou a designação “povos ressurgidos”,  por reconhecer o status e o espaço político que esses “novos” sujeitos históricos ocupam na atual conjuntura das lutas indigenistas,  pela  participação ativa no movimento indígena, na busca de  conquistar o reconhecimento de direito, entretanto, no I Encontro Nacional dos Povos em Luta pelo Reconhecimento Étnico e Territorial, realizado em maio, de  2003,  os povos indígenas que participaram, disseram que, não são nem emergentes e nem ressurgidos, e sim povos RESISTENTES, ressaltando que, eles como os outros povos, resistiram ao etnocídio e a todas as formas de agressão nestes 503 anos de repressão e desrespeito aos seus direitos. “A nossa presença vem sendo reafirmada a cada dia, principalmente por nossa capacidade de resistir a toda sorte de agressões e massacres impostos pelo Estado brasileiro ao longo de mais de 500 anos”, trecho do documento final do encontro realizado no ano passado.   
                 Hoje são centenas de povos que lutam para retornarem a sua vida cultural, ou melhor, para  externarem o que antes tinha que ser ocultado. De norte a sul do Brasil etnias se auto-afirmam, discutem e socializam dificuldades e conquistas para ter seus direitos respeitados e assegurados.
                  O I Encontro Nacional dos Povos em Luta pelo Reconhecimento Étnico e Territorial foi um inédito e  grande momento de socialização e discussão acerca das problemáticas enfrentadas hoje por estes povos.

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  • 25/06/2004

    I Encontro Nacional de Povos em Luta Pelo Reconhecimento Étnico e Territorial

                 Mais de 90 lideranças indígenas de 47 povos  participaram do I Encontro Nacional de Povos em Luta Pelo Reconhecimento Étnico e Territorial, de  15 a 20 de maio de 2003, em Olinda, Pernambuco. O encontro teve o objetivo de socializar as informações sobre as dificuldades enfrentadas pelos povos, identificar os desafios comuns e estabelecer uma pauta de reivindicações  nacional, para favorecer ações articuladas
                Durante os cinco dias, representantes de instituições governamentais e não-governamentais debateram temas como: “Desaparecimento e Ressurgimento” : Uma abordagem histórica e antropológica sobre os povos atualmente em luta pelo reconhecimento; “Rompendo o Silêncio e a Repressão”: Uma abordagem sobre os direitos historicamente conquistados pelos povos indígenas e o desafio do reconhecimento étnico e territorial.
                  Nos debates, esclarecimentos de dúvidas, reivindicações  e relatos de  trajetórias nortearam as discussões. Os povos trocaram experiências sobre as lutas enfrentadas para sobreviver e continuar seguindo suas tradições e culturas. “A nossa presença vem sendo reafirmada a cada dia, principalmente por nossa capacidade de resistir a toda sorte de agressões e massacres impostos pelo Estado brasileiro ao longo de mais de 500 anos”, documento final.
                    Muitos negaram sua identidade por medo, como os Koiupanká, em Alagoas, outros se isolaram ou se integraram a outros povos, para continuar existindo, como os Xetá do Paraná, mas todos externaram o mesmo anseio, o de terem de volta aquilo que lhes foi tirado, a Terra. “Estamos querendo o que é nosso, nem tudo,  porque boa parte já nos roubaram”, Lucila da Costa, Nawa. “Passamos muito tempo com a voz escondida, mas não morremos e estamos muito vivos. Somos resistentes nesta luta”, Cacique Pequena, Genipapo-Kanindé. 
                      Ao final, os povos indígenas elaboraram uma pauta de reivindicações que foi  entregue em audiências, por um grupo de 12 representantes, nos Ministérios da Justiça, Educação,Saúde, Meio Ambiente, Reforma Agrária e na  Presidência da República e da Funai.
     
    Reivindicações
    ” Quanto aos diversos problemas verificados com relação à demarcação de terras, saúde e educação  diferenciada, comunicação e transporte e questões relacionadas à atuação de órgãos governamentais e não governamentais, apresentamos as seguintes exigências ao governo federal:
    1.               demarcar, regularizar e desintrusar todas as terras indígenas, bem como garantir a fiscalização e vigilância;
    2.               baixar Resolução da Funai extinguindo a exigência de laudos para identificação étnica, reconhecendo a afirmação de nossa identidade étnica e territorial conforme a Convenção 169 da Organização Internacional de Trabalho;
    3.               rever decretos que estabelecem Unidades de Conservação em áreas indígenas ou de pretensão;
    4.               valorizar, cultivar e manter nossa história e tradições, através da implementação de políticas diferenciadas;
    5.               incluir os povos resistentes nos programas de atendimento à saúde e a educação diferenciada, bem como a formação de agentes indígenas de saúde e professores indígenas para atendimento dentro das áreas;
    6.               criar políticas de auto-sustentação, com destinação de linhas de crédito próprias para projetos em áreas indígenas;
    7.                valorizar nossa medicina tradicional. “

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  • 25/06/2004

    Fruto das Reivindicações dos Povos Indígenas Resistentes

                Todos os povos em processo de reconhecimento étnico que participaram do Encontro, foram beneficiados pela proposta da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e foram reconhecidos  etnicamente pela Fundação Nacional do Índio
                 Está foi uma das reivindicações dos 47 povos que participaram do encontro, “baixar Resolução da Funai extinguindo a exigência de laudos para identificação étnica, reconhecendo a afirmação de nossa identidade étnica e territorial conforme a Convenção 169 da Organização Internacional de Trabalho”.  A convenção que tramitava no Congresso desde 1991 e foi ratificada em julho do ano passado, traz a seguinte citação; “A consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá ser considerada como critério fundamental para determinar os grupos aos que se aplicam as disposições da presente Convenção”. 
                 Está prática não era seguida pelo órgão indigenista do governo, que usava de um estudo antropológico para comprovar  a identidade de um povo, não valendo a auto-identificação. 
                Deuscreide Gonçalves Pereira, Coordenadora de Etnologia e Indigenismo da Coordenação Geral de Estudos e Pesquisa da Funai, que participou do encontro em Pernambuco, disse que este estudo começou a ser feito depois da contestação da identidade étnica do povo indígena Kaxixó em Minas Gerais, onde existiam dois laudos. Um, que concluía que eles não eram índios e outro, que confirmava a auto-identificação dos indígenas. Segundo a coordenadora em 2001, o então presidente do órgão, solicitou um terceiro estudo para subsidiar sua decisão. “Pedimos à ABA que nos indicasse um antropólogo e nos indicaram o João Pacheco que concluiu que os Kaxixó eram indígenas. A partir daí, a ABA começou a nos indicar antropólogos para fazer o estudo”.  
              Este estudo antropológico passou a ser o balizador das decisões do órgão acerca da identificação étnica de um povo, sendo considerado uma etapa no processo de reconhecimento de uma etnia, causando, por diversos fatores, atrasos demasiados para a conclusão do processo, além de contestar as tradições dos povos indígenas.
                Com a entrada do presidente, Eduardo Almeida, o órgão decidiu extinguir esta prática e fazer valer o que reza na Convenção 169 “de auto-identificação de um grupo”. Segundo a indigenista, esta já era uma decisão interna que foi explicitada na ocasião do encontro em Olinda, e depois colocada  em prática atendendo à reivindicação dos povos participantes do encontro.



     

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  • 25/06/2004

    Tuxauas de Roraima pedem a Lula a urgente demarcação das terras indígenas e o fim da impunidade

    “Quantas mortes precisa ter, senhor Ministro, para que nossa terra (Raposa/Serra do Sol) seja homologada? Senhor Coronel, quantas mortes o senhor quer fazer para sair a homologação?”
    Com essas palavras duras, carregadas de indignação, o tuxaua Nelino Galé, questionou os representantes do governo e do Exército presentes na 32ª Assembléia dos Tuxauas de Roraima, no dia 6 de fevereiro. O presidente da Funai, Eduardo Almeida, que há apenas três dias havia assumido o cargo, foi também duramente cobrado, especialmente com relação à urgente regularização das terras indígenas e o fim da violência e impunidade. “Vou marcar o senhor com a pintura do meu rosto, para conferir quanto tempo vai durar o seu compromisso com os povos indígenas”, disse o Makuxi, representante da Associação dos Povos Indígenas de Roraima, Mandô. E num gesto simbólico, porém muito significativo, passou a mão sobre o uruçu e jenipapo com que estava pintado, e marcou a testa do presidente da Funai.


    Muitos outros momentos fortes expressaram a revolta e a esperança que marcou o clima desta Assembléia. Quem mais duramente foi questionado e criticado foi o representante do Ibama, cuja ação em Roraima “beira à raia da criminalidade”, segundo a procuradora da 6ª Câmara, Dra. Débora Duprat. Também o representante do Exército, Cel. José Sena, ouviu as inúmeras denúncias de violências que os militares praticaram contra os índios. Foi solicitado por diversas vezes a retirada dos militares e suas bases de dentro das terras indígenas, como forma de por fim a tanta prepotência, preconceito e arbitrariedades cometidas contra os povos indígenas desta região, pelos membros das forças armadas.


    O bispo de Roraima, D. Aparecido, também veio trazer sua solidariedade aos povos indígenas reunidos, reiterando o total apoio às suas lutas e ao mesmo tempo conclamou a todos “para que os direitos dos índios e dos pobres de Roraima, estejam acima dos interesses econômicos, da produção e do comércio”.


    Consternação e revolta tomaram conta da Assembléia quando foram anunciadas as mortes de dois indígenas, ocorridas na Terra Indígena Xukuru, em Pesqueira, Pernambuco. Imediatamente foi aprovada uma moção de solidariedade aos índios e repúdio por mais esse crime hediondo. Eles estavam ainda sob o impacto da recente morte do Makuxi Aldo da Silva Mota e de mais seis assassinatos de índios ocorridos em pouco mais de um mês do governo Lula.


    Do Ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, e do representante do ministro da Justiça, Cláudio Beirão, as lideranças ouviram duas decisões importantes: a primeira, de que todas as 23 terras indígenas que estão com o presidente da República serão homologadas no decorrer deste ano – dentre elas estão seis terras indígenas de Roraima, inclusive Raposa/Serra do Sol. A segunda boa notícia foi anunciada por Nilmário Miranda afirmando que o decreto 4412 – que dispõem sobre a presença das Forças Armadas e da Polícia federal em terras indígenas – seria revogado. O representante do Exército apenas se limitou a justificar as ações desenvolvidas pelos militares em terras indígenas, e dizendo-se disponível para continuar dialogando sobre todos os temas relacionados à sua área de atuação.


    Marcaram presença também nesta Assembléia representantes de várias entidades indigenistas e de direitos humanos. Como tem sido tradição, o Cimi esteve junto aos povos indígenas de Roraima neste importante evento anual, através de suas equipes locais, do coordenador regional e de seu Secretário Executivo.


    A participação da COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, expressa a preocupação dos índios em articular de forma mais ampla as questões que lhes dizem respeito. Da mesma forma, contribuiu significativamente na reflexão e debates sobre o movimento indígena, Dionito Macuxi, membro da Comissão Indígena Pós-Conferência.


    As críticas e questionamentos mais duros foram com relação à atuação do Ibama nas terras indígenas em Roraima. Algumas lideranças manifestaram seu descontentamento e revolta com relação à ação nefasta dos representantes deste órgão junto a comunidades indígenas, dando nota zero ao órgão e até pedindo sua extinção. Em carta à Ministra do Meio Ambiente Marina Silva, os tuxauas pedem intervenção urgente na atuação do Ibama no Estado, para que sejam respeitados os direitos indígenas, revogados os decretos de criação de unidades de conservação que se sobrepõem às terras indígenas, dentre outras questões.


    Apesar de um certo clima de consternação e revolta, a Assembléia foi um momento de debate sério e profundo sobre os principais desafios que os atingem e, ao mesmo tempo, a manifestação de esperança e confiança neste novo momento político, quando, finalmente, esperam conquistar suas terras e a paz com justiça e dignidade, depois de tantos anos lutando. Durante os quatro dias, grupos de jovens músicos e compositores indígenas animaram a Assembléia expressando, na maioria das músicas, as lutas e anseios dos povos indígenas do Estado de Roraima e do Brasil.


    No final da Assembléia, já de noite, foram anunciados os resultados das eleições para a coordenação do Conselho Indígena de Roraima – CIR. Foram reeleitos Jacir José de Souza como coordenador e Norberto Wapixana para vice-coordenador.


    Num grande exemplo de consciência e cidadania, os tuxauas de Roraima protagonizaram mais um dos grandes momentos da história atual dos Povos Indígenas do Brasil.


    Manaus, fevereiro de 2003.


    Egon D. Heck
    Secretário Executivo do Cimi

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  • 25/06/2004

    HISTÓRIAS DE RESISTÊNCIA

      Povo  XETÁ
     
                      “Todo mundo quer viver, não é só índio não é só branco. O Brasil é grande” 
                   Um dos oito sobreviventes do povo Xetá e seu filho participaram do encontro em busca de apoio para a reconquista de seu território tradicional. José Luciano da Silva  e Claudemir da Silva esperam poder voltar a morar em sua terra tradicional, “a gente veio daquela lonjura para lutar por terra também. Nós não viemos aqui a passeio, viemos para pedir ajuda de todos os parentes para dar uma força para nós termos a nossa terra de volta, porque todo mundo tem direito”, pediram.   
                 Cerca de 50 anos depois de terem sido massacrados e quase dizimados, os oito sobreviventes do povo Xetá lutam pela reconquista do seu território tradicional,  Serra de Dourados, no noroeste do Paraná. Conta a história que a população dos Xetá era cerca de 250 pessoas, no entanto, segundo a memória dos sobreviventes, eles eram um grupo de aproximadamente 600 pessoas que ocupavam um território vasto, antes da cobiça das frentes cafeeira e agropecuária e das companhias de colonização e imigração. ” Começamos a correr e chegou uma hora que a gente não podia mais, então a turma (os brancos) foi acabando com a nossa mata e pegando os índios, foi matando nosso povo acabando com a gente. O restinho que foi sobrando foi extraviando tudo, e sobraram só 8″, relatou José Luciano da Silva, Tikueim , de 57 anos, um dos sobreviventes do massacre.
                  Tikueim foi pego pelos fazendeiros com sete anos de idade, e é um dos três que ainda falam a língua Xetá. “Eu custei para falar a língua dos brancos e a primeira vez que fui comer comida deles eu não consegui” . Hoje, ele mora com sua esposa, 13 filhos e netos em São Jerônimo da Serra,  nas terras dos Kaingang. Segundo ele, hoje os Xetá  são cerca de 250 pessoas que estão espalhadas por São Paulo e Paraná.
                 A antropóloga Carmem Lúcia da Silva, que estudou o grupo, promoveu, em 1997,  o reencontro dos Xetá. O Encontro  Xetá: Sobreviventes do Extermínio, foi  realizado em Curitiba e reuniram todos os sobreviventes e descendentes do grupo,  onde alguns dos familiares se conheceram e conversaram sobre perspectivas de futuro. “Eu sabia que tinha outros parentes, mas não sabia se estavam vivos ou mortos. A Carmem correu atrás e descobriu até a índia que mora em São Paulo”, lembrou Tikuein.       
               Em 1999, a Funai e o governo do estado do Paraná constituíram um grupo técnico para realizar estudos, levantamentos de identificação e delimitação da terra, sendo a primeira vez que  um governador assina uma portaria para esta finalidade. “O governador Jaime Lerner assinou na época, agora a gente espera que o Requião, atual governador, assine, ele assinando a gente leva para o Lula; assim que ele assinar, fim de papo, só resta alegria para nós  e vamos seguir nossa cultura para não deixar acabar nossa  tradição “, espera Claudemir da Silva de 25 anos, filho de Tikueim.
                Itakó Xetá, nome indígena que Claudemir faz questão de usar, sonha com o dia em que todos estarão em suas terras para plantar e viver juntos sua cultura.  “O que a gente pede é a terra para a gente plantar e alimentar nossos filhos e netos”. Tikueim lembra do território, que, segundo ele, tinha muita mata e agora só toco de peroba.  “Ali era tudo nosso, Campo Mourão, Cruzeiro do Oeste. De Maringá para lá ,era tudo nosso, nós andávamos por ali tudo para caçar e comer”.
     
    Povo Koiupanká
     
             “Somos os primeiros habitantes do Brasil e temos que plantar feijão e milho em metade com os fazendeiros e até mesmo arrendar a terra que é nossa” 
              Cerca de 150 famílias lutam para voltar a viver em seu território tradicional, em Inhapi, sertão de Alagoas. “Em 1883, meu bisavó, Anselmo Pankararu, deixou seu povo e veio para cá, aqui constituiu uma família, o Povo Koiupanká (Comunidade Indígena União Pankararu)”, lembrou José João, conhecido como Cacique Zezinho.
              Segundo ele, cerca de 30 pessoas vivem em uma pequena área que faz parte do território, o restante vive na cidade nas casas que eram de seu bisavó. “Os brancos chegaram e construíram a cidade,  eles continuam lá e não vão sair”. 


       O cacique lembra as muitas vezes que deixaram de fazer seus rituais com medo,  “fazíamos escondido, tínhamos medo. Fomos massacrados, discriminados e perseguidos”. Para ele, a dança é o principal ritual do povo, “eu danço com fé, tenho fé no que estou fazendo. Tivemos que guardar embaixo dos panos, mas este pequeno grupo que guardou está servindo para ensinar os outros”.  
    Motivados pela luta de outros povos, como os Kalankó e Genipapo-Kanindé, com quem mantinham contato freqüente, os Koiupanká intensificaram a luta pelos seus direitos em 2001. “A união e a organização é o que resolve tudo, a convivência com eles foi nos fortalecendo”, ressaltou Zezinho.
               Desde setembro de 2002, o povo  aguarda a criação do GT para estudo da área. “Está sendo adiado sempre e, a cada dia, fica mais difícil nossa sobrevivência. Somos os primeiros habitantes do Brasil e temos que plantar feijão e milho em metade com os fazendeiros e até mesmo arrendar a terra que é nossa”.
                Os Koiupanká lutam pela regularização e oficialização de sua terra para que possam ter uma escola diferenciada, “nossas crianças têm que aprender nossas tradições e o seu significado, para isto precisamos ter educação diferenciada”, disse o cacique.
                Para ele, o encontro foi muito importante pela troca de experiências e pela socialização das dificuldades e lutas. Ele acredita que este foi um passo significativo  para o avanço das conquistas de todos os povos que participaram. “Através deste encontro vamos alcançar um grande objetivo e vamos conseguir com apoio das entidades”, concluiu.   
     
    Povo Munduruku
     
                Localizados no Baixo Tapajós, cerca de 700 Munduruku vivem na área de conservação nacional do Tapajós. Fortemente pressionados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis -Ibama-, por não poderem caçar e plantar, seguiam  as regras impostas pelo órgão. Mas  a partir de 1998 os resistentes Munduruku deram seu grito de liberdade.  “Com a morte de meu pai, o pajé do povo, fomos à luta, a gente resolveu lutar pelo nosso reconhecimento”, comentou o cacique,  Assis Munduruku. 
                O povo vivia disperso e escondido com vergonha e medo da discriminação e do preconceito. “Nós sabíamos que éramos  índios, mais tínhamos medo de dizer e assumir”.  
               Segundo o cacique, depois que começaram a participar de encontros e debates como este, é que tiveram coragem e ânimo para enfrentar a luta. Na região, os Munduruku resistentes se dividem em três aldeias, Taquara, Bragança e Marituba.
               A aldeia Taquara foi a protagonista na história de luta do povo, sendo a primeira “a comprar a briga”. “Nós começamos e depois fomos ganhando força junto com as outras aldeias”, disse.  
                A  situação atual dos MunduruKu é bem parecida com a dos dois povos anteriores. Vivem em uma terra que não é demarcada e nem homologada, plantam quando podem e não têm acesso à saúde e a educação diferenciada, mas o cacique analisa este quadro com muito otimismo. “Já melhorou muito, hoje temos acesso a todas as áreas do nosso território para caçar. Podemos plantar sem a interferência do Ibama, isto foi conquistado por nós, pela nossa resistência”.
                 Quanto às reivindicações, Assis afirma que a regularização fundiária da terra é o primeiro passo. “Depois desta conquista vamos brigar para termos saúde, educação e tudo o que os índios têm direito”, concluiu.


     

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  • 25/06/2004

    Raposa Serra do Sol novamente manchada de sangue


     




    Os povos indígenas de Raposa Serra do Sol estão em luto e revoltados com o assassinato de Aldo da Silva Mota, macuxi, pai de nove filhos. Após sete dias desaparecido ele foi encontrado morto e enterrado na invasão denominada “Fazenda Retiro, do vereador de Uiramutã, Francisco das Chagas Oliveira da Silva.


    Aldo foi até a fazenda no dia 2 de janeiro para resgatar um bezerro do retiro “Fé em Deus”, pertencente à aldeia Maturuca, após receber recado do empregado por nome Eliseu, vulgo “Bofete”. Desde o dia 4, familiares e indígenas das comunidades vizinhas iniciaram buscas, sem sucesso, nos campos, rios e igarapés fora do limite do posseiro.


    A Funai e Polícia Federal foram comunicadas do desaparecimento do indígena desde nos dias 5 e 6 de janeiro, respectivamente. A PF solicitou apoio da Polícia Militar que não procedeu uma busca minuciosa na área, pelo contrário, preferiu acusar os índios de invadirem e fazerem reféns dois PMs, fato que nunca aconteceu.


    O vereador e posseiro, Francisco das Chagas, impediu o ingresso de indígenas na fazenda para auxiliarem nas buscas junto com a Polícia Federal e Funai. O Delegado da PF, Fabrício Argenta, recusou-se a ouvir os parentes da vítima quando esteve no local e acatou todas as orientações do fazendeiro.


    Dois agentes da Funai ficaram detidos durante quatro horas no Destacamento da Polícia Militar do vilarejo Mutum, no dia 6 de janeiro. Com a chegada da equipe da Polícia Federal e a intervenção da Administração Regional da Funai os servidores foram liberados, no entanto o Delegado Fabrício ouviu somente os Policiais Militares e o posseiro.


    O Corpo


    Às 10h50 horas da manhã de hoje, os jovens José da Silva e Estarle de Souza perceberam a movimento urubus nas proximidades da casa sede da fazenda. Resolverem averiguar e acharam o corpo de Aldo Mota enterrado numa cova rasa. A notícia foi repassada através de radiofonia ao Conselho Indígena de Roraima, que imediatamente comunicou à Polícia Federal e Funai.


    Segundo informações da administração regional da Funai, Agentes da Polícia Federal e Peritos do Instituto de Medicina legal, às 14 horas, deslocaram-se à fazenda para exumar o cadáver e translado-lo para Boa Vista. A duração do vôo de Boa Vista até a pista de pouso da aldeia Maracanã II, mais próxima da fazenda, é de uma hora. É possível que só retornem amanhã.


    Mais de 200 índios de aldeias da região das Serras estão acampados em frente à fazenda exigindo justiça. Tuxauas de comunidades de outras regiões de Raposa Serra do Sol, estavam mobilizados para somarem-se nas buscas e podem deslocar-se para área prestar solidariedade aos parentes macuxi.


    Antecedentes


    A “Fazenda Retiro” é objeto da Ação Civil Pública nº 1999.1458-9 na qual os índios solicitam a reintegração de posse. Comunidades e posseiro fizeram um acordo judicial onde as partes se comprometiam a respeitar os bens pessoais e patrimoniais de ambos até a solução definitiva do impasse. Com o crime os índios exigem a retirada imediata do invasore.


    Irene de Oliveira, esposa da vítima, explica que seu marido “era ameaçado pelos empregados do posseiro toda vez que o gado do retiro entrava na fazenda”. Numa ocasião, a cerca de quatro meses, Aldo Mota teria dito ao filho Raildo de Oliveira, que “se aparecesse morte podiam procurar o ‘Bofete’”.


    A ocupação do vereador Francisco das Chagas fica a 11 quilômetros do vilarejo Mutum, uma das cinco vilas instaladas ilegalmente dentro de Raposa Serra do Sol. Em todas elas ocorrem constantes conflitos envolvendo índios, moradores, militares e outros posseiros, principalmente por serem pontos de fornecimento de bebida alcoólica para índios e não índios.


    Os indígenas estão intranqüilos e revoltados com a forma que foi conduzida a averiguação. Desde o início suspeitava-se de homicídio, mas as autoridades competentes expressamente desviaram o objeto da denúncia com a intenção de incriminar os índios que reclamavam o corpo. Aldo é mais um índio assassinado em Raposa Serra do Sol, sem que qualquer dos envolvidos seja punidos.


    O Conselho Indígena de Roraima exige Justiça, nesse caso que não é o único ao longo dos últimos 30 anos de luta pela terra indígena Raposa Serra do Sol. Em documento encaminhado do Ministro da Justiça, Márcio Tomáz Bastos, a organização pediu a retirada imediata dos invasores, a punição dos responsáveis e da Policia Militar da terra indígena.


    O CIR solicitou à Justiça Federal a prisão preventiva dos empregados da “Fazenda Retiro” e do vereador Francisco das Chagas de Oliveira. Porém, o Conselho entende que só a homologação, com a conseqüente retirada de todos os invasores pode resolver em definitivo os conflitos na região.


    9 de janeiro de 2003


    CONSELHO INDÍGENA DE RORAIMA

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