• 13/07/2005

    FDDI pede libertação de liderança Truká

    FÓRUM EM DEFESA DOS DIREITOS INDÍGENAS


    Secretaria Executiva


    SRTVS – Centro Empresarial Assis Chateaubriand, Q701, Conj. L, Bl. 01, Salas 21/22 – Sobreloja – Brasília – DF – Fone: (61) 3323-5068 – Fax: 3224-0840


    E-mails: [email protected] / [email protected]


     


    Brasília, 13 de julho de 2005.


     


    Carta nº 152/FDDI/2005.


     


    Ao


    Excelentíssimo Senhor:


    EDSON VIDIGAL


    D.D. Presidente do Superior Tribunal de Justiça


    N e s t a


     


    Excelentíssimo Senhor,


     


    Nós Organizações Indígenas e Indigenistas, membros do Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas, vimos por meio desta compartilhar com Vossa Excelência nossa preocupação com a situação de ameaça aos direitos do Líder Indígena Aurivan dos Santos. O Cacique do Povo Truká, Aurivan dos Santos, foi preso na tarde do dia 12 de junho. Liderança de projeção nacional por sua atuação no movimento indígena, Aurivan, também chamado de Neguinho Truká, foi detido quando estava na Polícia Federal da cidade de Salgueiro – PE, atendendo a uma convocação para depor sobre o assassinato de seu irmão e seu sobrinho, mortos a tiros por policiais militares durante uma festa na Terra Indígena Truká.


     


    Neguinho liderou seu povo na luta pelo direito à Terra e, posteriormente, na reação contra o narcotráfico e na consolidação de seu povo como um dos maiores produtores de arroz do país.


     


    O mandado de prisão que levou a prisão de Neguinho é fruto de processos que o acusam por furto de 2 cabeças de gado para alimentar a comunidade Truká durante a retomada de suas Terras e formação de quadrilhas, sendo que as 2 cabeças de gado foram na época devolvidas pela comunidade ao fazendeiro. Assim, Excelência, consideramos que a prisão deste líder neste momento insere-se num processo de criminalização de lideranças indígenas que afeta grande parte dos movimentos sociais do país.


     


    Os processos são a reação das elites locais às retomadas de Terras que os Truká realizaram a partir dos anos 90 e através das quais puderam voltar a usufruir de seu território tradicional – do qual haviam sido expulsos.


     


    A prisão de uma das principais lideranças dos Truká ocorre no momento em que este povo recupera-se do choque que foi o assassinato de uma de suas lideranças – e de seu filho de 17 anos – na frente de mais de 500 pessoas da comunidade. As mortes aconteceram durante uma festa ocorrida logo após a visita do ministro de Integração Nacional, Ciro Gomes, e do presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes.


     


    Em face às motivações dos processos e tendo em vista o contexto em que foram instaurados, solicitamos ao Ministro do STJ, Dr. Edson Vidigal, que aprecie, com a urgência devida, o Hábeas Corpus 34.838/PE, que se encontra há tempos esperando julgar.


     


    Na expectativa de podermos contar com o seu inestimável apoio, desde já agradecemos a atenção e atendimento a esta solicitação, e aproveitamos para renovar nossa profunda estima e apreço.


     


    Respeitosamente,


     


    Coordenação das organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB.


    Associação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo – APOINME


    Conselho Indígena de Roraima – CIR.


    Conselho Indigenista Missionário – CIMI.


    Instituto Socioambiental – ISA.


    Frente Parlamentar Indígena.


    Centro de Trabalho Indigenista – CTI.


    Comissão Pró-Yanomami – CCPY.


    Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC.


    Associação Brasileira de antropologia – ABA.


     

    Read More
  • 13/07/2005

    Carta de Repúdio: Execução Sumária das Lideranças Truká

    Nós, professores/as e lideranças indígenas em Pernambuco, reunidos/as no XIII Encontrão da Comissão de Professores Indígenas de Pernambuco – Copipe, no povo Pankará, vimos por meio desta carta, mostrar o nosso protesto e repúdio ao assassinato do líder Truká Adenilson dos Santos e seu filho Jorge Vieira de 16 anos.


     


    Dena, liderança Truká, tinha uma fundamental atuação junto às ações implementadas por seu povo na luta pelo território tradicional e a exemplo de outras lideranças no Brasil, era perseguido, não só pelos antigos posseiros da Ilha de Assunção, mas também pela Justiça, que visando lhe incriminar para desmobilizar a luta pela terra dos Truká, movia seguidos processos contra a sua pessoa. No entanto, não bastava prender Dena, pois um dia ele iria voltar e continuaria seu trabalho junto a sua comunidade. Dena tinha que desaparecer do seu povo definitivamente. E assim se deu o plano para ceifar a vida de um grande guerreiro que tanto lutou pela dignidade de seu povo.


     


    A estratégia já estava armada há muito tempo, com um grupo de operações especiais da polícia militar que deveria coibir o tráfico de drogas. Aliado a isso, o projeto da transposição das águas do Rio São Francisco, que trouxe o Ministro da Integração Nacional – V.Exa. Ciro Gomes – para Ilha da Assunção e aí como quem quer retomar a colonização de há 500 anos atrás, constrói casas na ilha trazendo a falsa imagem do desenvolvimento. Agora sim, o circo estava armado e todos podiam depositar confiança no governo e na polícia, pois, todos estavam ali para “proteger” o povo Truká.


     


    Um povo alegre comemora o suposto desenvolvimento com festa. Momento e local propicio para aqueles que deveriam proteger, e ao contrário, se colocam a serviço dos invasores anti-indígenas e executam o plano de execução sumária que já estava planejado há muito tempo.


     


    Dena que saiu de sua casa para falar com o administrador da Funai, de repente percebe que todo povo se alvoroça, entre eles muitas crianças e velhos/as. São os policiais que à paisana, chegam de repente ao local da festa, quatro membros, cada um com duas pistolas nas mãos, já atirando e a procura do líder Truká que, ao se mostrar, foi alvejado por uma enxurrada de tiros sem ouvir um único anúncio de prisão. Dena e seu filho foram mortos e não tiveram a menor chance de se defender, nem mesmo de receber socorro, pois até isso foram impedidos por este grupo de extermínio, apelidados de policiais.


     


    Nosso maior repúdio é o fato de que vidas humanas estão sendo ceifadas, sem a menor chance de defesa, em nome de um desenvolvimento que não chega para todos, apenas para um pequeno grupo de privilegiados, e o Estado que deveria proteger, passa a ser o que executa as vidas, o que determina quem, onde e quando deve morrer. Essa polícia que tem demonstrado despreparo e alto índice de corrupção continua na rua, ameaçando e pondo medo em cidadãos/as indefesos/as.


     


    Nos sentimos totalmente desprotegidos, porém não vencidos e a luta dos nossos povos falará mais alto e não será matando nossos guerreiros que a luta pela terra irá parar, pois um guerreiro como Dena e seu filho plantado, novos guerreiros surgirão e seremos milhões.


     


    Comissão de Professores Indígenas em Pernambuco -COPIPE


     


    Aldeia Brejinho, Povo Pankará em 10 de julho de 2005.


     

    Read More
  • 13/07/2005

    Possível despejo contra povo Cocama, no Amazonas

    A notícia de que um cidadão da cidade de Fonte Boa (AM) teria em mãos uma liminar para retirar os moradores da comunidade de Santa União deixou apreensivos os mais de 140 indígenas do povo Cocama que ali vivem. A informação foi prestada por André Cruz, Coordenador de Terras da UNI/Tefé (União das Nações Indígenas de Tefé).


     


    O clima é tenso no local. Ali vivem 22 famílias Cocama há mais de cem anos, segundo o dirigente da UNI/Tefé, que não aceitam a possibilidade de serem removidas, ainda que por medida judicial. “Tememos que poderá haver conflito de graves conseqüências se tentarem retirar os indígenas”, alerta André Cruz.


     


    Segundo ele, a terra em questão tem 800 mil hectares e nela existem vários lagos onde há fartura de peixes e esta seria a razão pela qual tem despertado tanta cobiça. Vários políticos importantes da região e de outros municípios já tentaram retirar os indígenas e se apossar da terra, mas sempre esbarraram na resistência da comunidade.


     


    A UNI/Tefé está contratando um advogado para recorrer da medida, caso seja comprovada a existência da liminar. “Queremos alertar as autoridades para evitar que ocorra um massacre, pois os indígenas, que são os legítimos habitantes do local há vários anos, não vão deixar que lhes tirem do local onde nasceram e onde estão seus antepassados”, disse André Cruz.


     


    A comunidade Santa União fica em Fonte Boa – município localizado a Oeste do Amazonas, distante da capital, Manaus, 1.110 quilômetros por via fluvial -, e ainda não foi reconhecida pela Funai, de acordo com o coordenador de Terras da UNI/Tefé. 


     


    Manaus, 13/07/2005.


     


    J. Rosha – Cimi – Regional Norte I


     

    Read More
  • 13/07/2005

    Secretaria Especial de Direitos Humanos perde status de Ministério. CDH questiona ato de Lula

    Câmara dos Deputados – Comissão de Direitos Humanos e Minorias


     


    Nota Oficial: SOBRE A SECRETARIA ESPECIAL DE DIREITOS HUMANOS


     


    Manifestamos nosso descontentamento com a retirada da Secretaria Especial de Direitos Humanos do âmbito da Presidência da República e a redução de seu status de ministério, por considerar que a decisão representa um retrocesso na capacidade do Estado de atuar na defesa e promoção dos direitos humanos.


     


    A implementação desses direitos requer mudanças de valores e incidências no plano simbólico. Por isso, o governo federal transmitiu à sociedade e aos agentes políticos uma mensagem de redução da importância que atribui aos direitos humanos. Essa decisão frustra a esperança de muitos que, como nós, vêm lutando para elevar o patamar dos direitos humanos no Brasil, condição básica de avanço do processo civilizatório e do aperfeiçoamento das instituições democráticas.


     


    Face à decisão tomada, sem consultas aos segmentos organizados da área, resta expressar nossa forte preocupação no sentido de que a decisão não venha a significar interrupção dos projetos em andamento e desmonte da modesta estrutura criada para gerir as políticas públicas dessa área.


     


    Brasília, 13 de julho de 2005.


     


    Deputada Iriny Lopes (PT-ES)


    Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias


     

    Read More
  • 13/07/2005

    Pelos direitos dos nossos parentes do Tekoha Sombrerito

    Nós, mais de setecentos índios Kaiowá Guarani reunidos na Aty Guasu na aldeia Tey’Ikue no município de Caarapó, no primeiro dia do nosso Encontro, ouvimos com indignação e revolta , como foi a violência contra nossos parentes do Sombrerito, quando foi assassinado Dorival Benites e outros foram feridos e torturados. O relato foi feito por um dos nossos irmãos que foi espancado, difamado e ameaçado de morte pelos pistoleiros e fazendeiros.


     


    No final desse mesmo dia 12 de julho recebemos mais uma punhalada com a decisão do juiz federal Gilberto Mendes Sobrinho, de Naviraí-MS, de expulsão dos nossos parentes do tekoha Sombrerito. No dia 08/07 já havíamos sido atingidos pela decisão do Superior Tribunal Federal (STF), suspendendo a portaria demarcatória de Yvy Katu


     


    Já estamos cansados de tanto ver nossos direitos desrespeitados e sofrer todo tipo de violência e humilhação. Diante de mais essa decisão contra o sagrado direito do nosso povo à terra, para poder viver em paz e com dignidade, exigimos:


     


    1. Que o Ministério Público Federal e a Funai recorram da decisão judicial de expulsão dos nossos parentes do Sombrerito;


     


    2. Que seja convocada uma reunião ampla com representantes do governo federal, estadual e Ministério Público para fazer um acordo que garanta a permanência dos nossos parentes no Sombrerito enquanto continua o processo de regularização da terra;


     


    3. Que a Funai conclua logo o que está faltando para a publicação do relatório de reconhecimento dessa terra e siga os prazos do decreto 1775;


     


    4. Que a Funai e a Funasa dêem toda a assistência necessária e a que tem direito à comunidade indígena do Sombrerito;


     


    5. Que haja empenho para na retomada do processo de demarcação da Terra Indígena Yvy Katu.


     


    Queremos que esse nosso grito contra a violência e pelo reconhecimento dos nossos direitos chegue às pessoas de bem em todo o Brasil e em todas as partes do mundo, pois precisamos de muita força e muitos amigos para que acabem tantos sofrimentos, mortes de crianças de fome e desnutrição e nossas lideranças sendo assassinadas. E isso só vai acontecer quando tivermos nossas terras reconhecidas para podermos nelas viver, produzir nossos alimentos e viver em paz nosso modo de viver Kaiowá Guarani.


     


    Aldeia Tey’Ikue, 13 de julho de 2005.


     


    Participantes da Aty Guasu


     

    Read More
  • 13/07/2005

    Sepé Tiaraju e a identidade gaúcha, por Frei Luís Carlos Susin.

     


    1. Já entre os gregos, a narrativa – e a memória nela transmitida – tinha importância decisiva na formação da identidade humana. Assim, contava-se que em Tebas, uma esfinge desafiava a cidade: “Decifra-me ou devoro-te!” E exigia sacrifícios periódicos de preciosas vidas humanas. O enigma consistia em saber quem seria o animal que anda com quatro pernas pela manhã, com duas ao meio-dia e com três à tarde. Ora, “é o ser humano”, decifrou Édipo, livrando a cidade da sua assombração, ao considerar o arco da aventura humana, decifração de vida ou morte. Pois o Rio Grande do Sul tem duas esfinges: Sepé Tiaraju e o Negrinho do Pastoreio.


     


    2. A identidade gaúcha está marcada pela violência de fronteira, desde antes da demarcação final, dos inícios do século XIX, que não deixou de ser uma demarcação belicosa. É, em conseqüência, uma identidade “fronteiriça”, de “frontes” e “confrontos”, ambiguamente belicosa e hospitaleira ao mesmo tempo. Molda-se à luz de uma relação perigosa de incursões, de conquista e defesa, de vigilância dificultada pela vastidão pampeana, quase uma “terra de fundo”, corredor para bandeirantes e castelhanos. Mesmo depois de sua definição, o Rio Grande do Sul (RS) permanece com uma tendência obsessiva, repetitiva, para um dualismo resolvido na “degola”. Ximangos e maragatos são figuras desse dualismo repetitivo, que vem de antes ainda, da guerra farroupilha e se repete mimeticamente até nossos dias, em formas mais sofisticadas de degola “da outra metade”. Nas batalhas políticas, por exemplo, em que estamos sempre belicosamente divididos e querendo o pescoço do adversário. O que seria do gaúcho sem um inimigo, sem uma peleia, sem um confronto?


     


    3. Uma real pacificação do Rio Grande do Sul, precisa começar com a reabertura de um doloroso dossiê de suas origens, um dossiê escondido do ponto de vista político, acadêmico e religioso. A imposição também belicosa do positivismo, um facho de iluminismo na capital, mas com degola no campo afora, permitiu à nossa política de fronteira, ser tanto o vanguardismo como o berço da ditadura a ferro e fogo (Décio Freitas). O positivismo acadêmico varreu da história e da formação da identidade gaúcha, tudo o que se conta na memória popular cabocla e negra, remanescente do extravio indígena e da escravidão africana em nossas terras. Lendas, mitos, “causos”, essas formas de resistência da memória dos dominados e envergonhados pela cultura oficial, foram desclassificadas como incapazes de servirem de documentação ou ao menos, como indícios de verdades históricas. O catolicismo romanizado, por sua vez, ergueu a catedral de Porto Alegre sobre cabeças de figuras indígenas esmagadas – outra forma da degola – como vitória sobre a superstição.


     


    4. A alma e a mística dos povos nativos e dos povos afro-descendentes se refugiaram e se sintomatizaram no “causo”, na pageação, na literatura. A identidade gaúcha foi sendo embretada para a estância, ganhando nos CTGs, uma forma de estetização ritual e controle da violência do dualismo perigoso, que insiste em perseguir e criar curtos-circuitos no campo e na cidade. A ambigüidade dos CTGs, criados num esforço de terapia da identidade, que reproduz esteticamente, ritualmente, e ao mesmo tempo, controla a violência gaúcha, parece não dar mais conta das novas disseminações de violência e de vontade de degola, como solução radical. Estamos cada vez mais “pisando no pala” e cada vez mais “o revólver fala” (Teixeirinha).


     


    5. É necessário um remédio homeopático, buscando nas fontes do veneno, o próprio remédio. Não é, propriamente, nas lendas e nos causos, nas figuras míticas e nos gemidos, que ainda se escutariam nas regiões das charqueadas ou das Missões, que estão as assombrações a nos gelar a espinha. Estão nos rostos indiáticos, mestiços e caboclos, que jazem vivos como esfinges nas periferias, nas vilas e nos ônibus da área metropolitana, arranchados por todo canto, nas periferias das grandes e das pequenas cidades, identidades desgarradas. Esses rostos e esses corpos não são visíveis para a aristocracia acadêmica e política, a cavalo com vidro fumê, que não circula pelas periferias ou de ônibus de vila.


     


    6. Se culturalmente e socialmente, em nosso meio “quem passa de branco, negro é”, então o mesmo se pode dizer dos descendentes indígenas mestiçados e acaboclados: há multidões ao nosso redor. Desmemoriadas por um lado, mas continuando a contar suas narrativas por outro, sem mesmo saber bem por quê. Os vazios de suas memórias e a baixa auto-estima de seus rostos e sotaques, são ingredientes perigosos para a violência indomada do gaúcho, mas suas narrativas e sabedoria, como bem percebeu Simões Lopes, são a resistência de uma anterioridade a todo dualismo fronteiriço, a possibilidade de uma hospitalidade que tem o segredo da remissão e da reconciliação – as vítimas sobreviventes que têm o poder de resgatar os vencedores manchados de sangue. Contanto que tenham chance de resgatar sua auto-estima, no reconhecimento de sua dignidade. O reconhecimento e a reconciliação real e completa com os vivos, comporta, no entanto, que não se deixe de fora os que foram mortos. É o caso de Sepé Tiaraju.


     


    7. Se o corregedor da cidade missioneira de São Miguel fosse apenas o mito trágico e brilhante em que se tornou, se fosse apenas uma lenda com sucesso – como o Negrinho do Pastoreio – se São Sepé estivesse mais para são Jorge do que para Santo Antônio, ainda assim, e exatamente assim – como mito fundante e significante – teria uma importância histórica e hagiográfica decisiva, na formação da identidade gaúcha. Certamente ainda incômoda, como um São Luiz IX e uma Santa Joana D’Arc para a identidade da França moderna. Sepé está para a história do Rio Grande do Sul, como a figura histórica de Jesus para a literatura do Novo Testamento e para a história do cristianismo. O próprio Negrinho do Pastoreio: há nele o custo das vidas inocentes de muitos negrinhos de carne e osso pelo Rio Grande saladeiro. Montado no cavalo escatológico do Negrinho do Pastoreio ou no cavalo encilhado de Sepé Tiaraju, estão os descendentes todos de africanos triturados pelas charqueadas e de nativos derrubados pelas coroas ibéricas. Na vida real, continuam gaúchos peões e usuários de coletivos, de periferia e beira de estrada, que se reúnem em “gauchada” ou “indiada”, em torno de algum “índio velho” ou ainda melhor, “qüera velho”; são todos indícios de uma identidade mais antiga, mais ancestral e mais enraizada, do que a identidade gaúcha forjada mais ou menos oficialmente, no entrevero dos confrontos de interesses, resolvidos na degola e na necessidade de domar pela estética e pelo ritual, a violência e as suas assombrações.


     


    8. O Negrinho do Pastoreio, narrativa recolhida e consagrada por Simões Lopes, é a história cifrada dos que não têm os meios oficiais de documentar a sua história, situada no Rio Grande do Sul anterior às charqueadas, às estâncias e às cercas, no tempo do gado solto, chimarrão, jesuítico. Faz, portanto, como o juiz da carreira em cancha reta da história, um índio velho, um enlace com a história das Missões pelo caminho da narrativa popular. O gado missioneiro, abundante e disperso pelo trágico fim das cidades guaranis, tornou-se, com o agro-negócio, o fio dourado da economia gaúcha, passando pelas charqueadas com trabalho escravo e pela indústria coureiro-calçadista. Com a entrada de novas migrações européias, o Rio Grande do Sul se divide também economicamente em duas metades. As migrações foram introduzidas dentro de projetos de ocupação e desenvolvimento do espaço, sem nenhuma consideração ou até contra a população nativa derrotada, espantada e dispersa, tornada “índio do mato”, “bugre”, que se evita como a árvore braba, aquela que agride pela sua inoculação de substância alérgica.


     


    9. Antes do dualismo trágico de fronteira, a marcar a identidade gaúcha, está Sepé, o índio nascido e criado em cidade missioneira, no espaço de um encontro civilizatório que, por todos os testemunhos deixados, e apesar das lendas negras que logicamente se criaram ao seu redor, foi um encontro muito criativo dentro do contexto e das suas possibilidades. Nas cartas que os chefes guaranis escreveram ao governador de Buenos Aires, em resposta ao mandato do rei de Espanha de se retirarem todos os Sete Povos para a banda ocidental do Uruguai, eles deixam claro que não foram conquistados e submetidos à força. Eles mesmos chamaram os padres e aceitaram livremente a vassalagem, porém dentro de certos termos, pois não podiam aceitar, com o Tratado de Madri, sua própria destruição. Estas cartas,[1] como outros documentos indiretos,[2] revelam uma grandeza de alma, uma dignidade e uma nobreza incomparavelmente acima dos dois lados que os espremiam, espanhóis e portugueses. Mesmo em termos de linguagem e argumentos cristãos, além de humanitários e políticos.


     


    10. Os índios missioneiros, no entanto, estavam entre o rochedo e o mar. A lógica dos impérios ibéricos, lógica expansionista e mercantilista, não poderia suportar outra forma de existência com sucesso. Como interpretou Rodolfo Kusch, filósofo argentino, trata-se aqui, mais a fundo, do trágico conflito entre a hegemonia do ser sobre o estar: o ser se realiza no desdobramento através do tempo e do espaço, identidade conquistando as diferenças, para reunir tudo em si e aumentar o seu poder de ser, e assim sucessivamente. Por isso “a verdade do ser é a guerra” (Heráclito). Ora, os nativos viviam – e continuam a resistir popularmente – na lógica do “estar”, habitando ecologicamente uma terra em que, mais do que serem eles os proprietários da terra, era ela a proprietária deles, a “mãe terra”. Por isso, nos arrazoados de Santa Tecla, diante dos demarcadores, como nas cartas dirigidas ao governador de Buenos Aires, está o discurso guarani sobre a terra, que só a Deus, o Criador, pertence, dada a São Miguel no presente missioneiro, para que os nativos nela habitassem. A memória se resumiu, como sabemos, no incômodo grito profético: “Esta terra tem dono!”. Na lógica indígena – é importante sublinhar – não são eles os donos da terra, mas Aquele que as deu, para haabitarem, para criarem seus filhos, enterrarem seus mortos, plantarem seus ervais e criarem seus animais. Precisam da terra não para explorar, mas para habitar com simplicidade, e por isso precisam mais terra do que os que a transformam em matéria produtiva e negócio. Na verdade, são os guardiões naturais da ecologia, ainda não totalmente contaminados pelo ser agressivo do ocidente.


     


    11. Perdida dramaticamente, a ferro e fogo, a civilização nascida do encontro da espiritualidade barroca dos jesuítas com a mística e a sensibilidade guarani, com a dispersão em diversas direções e destinos, os índios aprenderam a sobreviver através da adaptação silenciosa, enquanto os kaingangues preferiram recuar soberanamente para as matas, e os outros “infiéis” às coroas e sua religião (charruas, minuanos, mojanes, patos etc.) foram sendo dizimados de diversas maneiras.



     


    12. Hoje, além dos povos testemunhas que, mesmo à beira de estrada, buscam viver em comunidades próprias, conservando a língua e a mística em torno de seus “karaís”, há uma multidão de autênticos descendentes de Sepé Tiaraju nos rostos mestiços, de olhos amendoados, cabeças cobertas por cabelos lisos e pretos, com o enigmático sorriso de um olhar meio envergonhado, de poucas palavras fora de seu círculo, verdadeiras multidões periféricas das cidades gaúchas, que são a esfinge – uma delas, a outra tem cor negra – a desafiar a identidade gaúcha e seus problemas de origem e de violência sistêmica.


     


    13. Evidentemente, a memória de Sepé não poderá ser apenas celebração que se torne álibi para descarrego de consciência. A primeira justiça é o reconhecimento e a efetivação da necessidade de terra e de um mínimo de meios de vida, para os povos guaranis e kaingangues. A sobrevivência deles, digna e feliz, é absolutamente necessária para o futuro da identidade gaúcha tão plural. Mas para eles e para toda a multidão de descendentes de ameríndios gaúchos, é urgente também devolver a dignidade da auto-estima, da visão positiva que dê disposição de perdão e de reconciliação, com as demais descendências vindas e crescidas no espaço gaúcho. Inclusive trazendo seus ancestrais, seus mortos, na comunhão mística de sua religiosidade, para que desapareça de nossas calçadas as suas assombrações e a sua potencial violência, obrigando a nos aprisionarmos em nossas casas com nossos juízos violentos, e para que fiquem seus mortos sobre nossas noites, como a luz brilhante e pura de Sepé, do qual possamos todos nos orgulhar e possamos todos venerar. Ele pode se tornar como um “pai Abraão” para todas as raças que habitam nesse espaço gaúcho. Até lá, continuarão os sacrifícios, as degolas, o medo até das sombras que nos assaltam, e nenhuma descendência ou ascendência terá habitação pacificada numa justa pátria gaúcha para todos.


     


    14. É por isso que, assim como o Movimento Negro lançou o desafio à auto-estima dos afro-descendentes com o slogan “Negro é bonito!”, com base na documentação e nos gestos herdados pelos descendentes índios, no ano de Sepé Tiaraju pode-se proclamar com justiça: “Índio é nobre!” 


     


    Frei Luís Carlos Susin. (Teólogo)


     






    [1] RABUSKE Arthur, Cartas de Índios Cristãos do Paraguai, Máxime dos Sete Povos, Datadas de 1753. In : Estudos Leopoldenses, Vol. 14, n. 47 (1978)p65-102. O pesquisador utiliza e melhora traduções antigas, com uma introdução situando e avaliando os documentos.



    [2] Cf, por exemplo, ESCANDON …………. O autor não está interessado diretamente nos índios, mas na defesa da reputação dos jesuítas diante da iminente perseguição. Exatamente por isso, suas notas sobre os índios antes e durante a guerra de 1756 revela de forma desinteressada, até mesmo quando menospreza, a verdade da nobreza e da fé dos índios missioneiros.

    Read More
  • 13/07/2005

    Arquivada ação contra desapropriação de área indígena no Pará

    O ministro Celso de Mello mandou arquivar Mandado de Segurança (MS 25437), com pedido de liminar, impetrado pelo município de São Felix do Xingu (PA). O objetivo da ação era o de suspender processo administrativo da Fundação Nacional do Índio (Funai) de demarcação da reserva indígena Apyterena.


     


    O município argumentou que o processo de homologação da reserva indígena está na iminência de ocorrer por decreto do presidente da República, o que pode resultar na expulsão de milhares de agricultores, pecuaristas, colonos e moradores da região.


     


     Segundo o ministro, de acordo com o artigo 6º do Código de Processo Civil,”ninguém pode pleitear em nome próprio pleito alheio, salvo quando autorizado por lei”. Desse modo, acentua Celso de Mello, o município não tem, no caso, legitimidade para propor a ação pois “limitou-se a pleitear, em seu nome, direito alheio”.   O município, na realidade, sustenta o ministro, postula, em nome próprio, a defesa de direito alheio (de agricultores, pecuaristas, colonos, pastores, comerciantes, homens, mulheres, idosos, crianças, etc).  


     


    Isso significa, segundo o ministro, que o município está na condição, no mandado de segurança, de substituto processual, “sem que exista, para tanto, qualquer base normativa que lhe permita investir-se de legitimação anômala, para efeito de instauração deste processo de mandado de segurança”.


    Read More
  • 13/07/2005

    Os zapatistas


    Uma das manifestações da crise da política do nosso tempo reside na opacidade dupla do discurso político dominante, um discurso que nega o que faz para fazer o que nega. A intervenção zapatista é feita contra esta política que não leva em conta o povo. 


    Saio da Cidade do México num momento em que a classe política e os movimentos e organizações sociais refletem sobre a última declaração política do movimento zapatista, a Sexta Declaração da Selva Lacandona. É uma declaração importante para o México, a América Latina e, em geral, para os cidadãos que em todo o mundo lutam contra a exclusão social e aspiram a uma renovação da vida política democrática. Trata-se de um texto escrito num estilo desconcertantemente simples, dirigido à “gente simples e humilde” e em termos que esta entenda, pleno de ironia e carregado de imagens que apelam à experiência vivida das classes populares.


    E este é um primeiro aspecto a salientar, já que uma das manifestações da crise da política do nosso tempo reside na opacidade dúplice do discurso político dominante, um discurso que nega o que faz (submeter-se aos imperativos do capitalismo global) para fazer o que nega (deixar de estar ao serviço do bem estar dos cidadãos).


     


    A declaração está dividida em cinco partes: o que somos; onde estamos; como vemos o mundo; como vemos o nosso país, o México; o que vamos fazer. Destaco nela três aspectos principais. O primeiro consiste na opção mais inequívoca do que nunca, pela ação política pacífica: “o que vamos fazer no México e no mundo, vamos fazê-lo sem armas, com um movimento civil e pacífico”. Está aberta, pois, a possibilidade de o movimento zapatista vir a integrar o Fórum Social Mundial (cuja carta de princípios exclui a luta armada) o que, em meu entender, seria bom para ambos. É certo que, no seguimento dos encontros “intergalácticos” promovidos pelos zapatistas na década de noventa, são propostos agora novos “encontros intercontinentais” e são mesmo avançadas datas prováveis, mas nada disto parece colidir com a entrada em força no FSM.


     


    O segundo aspecto é que a intervenção zapatista não é feita contra a política, mas antes contra “esta política que não serve, e não serve porque não toma em conta o povo, não o escuta, não faz caso dele, só se aproxima dele quando há eleições e já nem sequer quer votos, pois bastam as sondagens para dizer quem ganha”. Contra uma democracia representativa de baixa intensidade, propõe-se uma democracia de alta intensidade, que combine a democracia representativa com a participativa, pressionando os partidos a partir “de baixo”, ou seja, através de uma forte mobilização social e política, uma campanha nacional para a construção de outra forma de fazer política”, de um programa de luta nacional e de esquerda que esteja para além dos processos eleitorais.


     


    Esta mobilização deixa de se dirigir exclusivamente aos povos indígenas, a base social originária dos zapatistas, para incluir todos os explorados e excluídos: operários, camponeses, jovens, mulheres, deficientes, micro-empresários, reformados, homossexuais e lésbicas, crianças, emigrantes, etc. Trata-se, pois de organizar um vasto movimento social rebelde e pacífico.


     


    O terceiro aspecto a salientar é que a luta social e ação política de base têm de ser, não apenas intersetoriais, mas também transnacionais. A globalização neoliberal, ao globalizar os processos de exclusão social, cria também as condições para organizar globalmente a solidariedade, solidariedade, antes de tudo, com os povos latino-americanos, mas também com todos os outros povos do mundo. Eis, em pleno estilo zapatista, como se dirigem aos povos europeus: “…e queremos dizer aos irmãos e irmãs da Europa Social, ou seja, a que é digna e rebelde, que não estão sós. Que nos alegram muito os seus grandes movimentos contra as guerras neoliberais. Que seguimos com atenção as suas formas de organização e de luta para aprender com elas. Que estamos a ver os modos como apoiá-los nas suas lutas e que não vamos mandar euros pois logo se desvalorizarão dada a desordem na União Européia. Mas talvez lhes vamos mandar artesanato e café para que o comercializem e tirem disso algum proveito para as suas lutas.”


     


    Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal)


     


     


     


     

    Read More
  • 11/07/2005

    Neguinho Truká é preso ao depor sobre morte de próprio irmão

    Ao depor na Polícia Federal do município de  Salgueiro (PE) sobre a morte de seu irmão, no final da tarde de hoje, uma das principais lideranças indígenas do Brasil foi surpreendida com voz de prisão.


     


    Aurivan dos Santos, conhecido como Neguinho Truká, foi preso no momento em que depunha  sobre o assassinato de seu irmão, Adenilson dos Santos, 38 anos e seu sobrinho Jorge dos Santos, de 17 anos, mortos a tiros por policiais militares à paisana. As mortes aconteceram no dia 30 de junho, dentro da terra indígena Truká, na Ilha de Assunção, localizada no município de Cabrobó, Pernambuco, no momento em que ocorria uma festa junina com mais de 400 pessoas. Além das duas vítimas fatais, uma terceira foi gravemente ferida pelos policiais.


     


    Neguinho Truká recebeu pessoalmente a intimação da Polícia Federal para ir depor em Salgueiro. Os Truká  haviam pedido para fazer os seus depoimentos dentro da Ilha de Assunção, pois argumentavam que não se sentiam seguros em ir até a cidade com os assassinos de Adenilson e Jorge à solta.


     


    Neguinho Truká, uma das principais lideranças indígenas do Brasil, é uma pessoa pública com residência fixa. É estranho que a prisão tenha acontecido nestas circunstâncias. Para os Truká, a existência de mandados de prisão é relacionada ao processo de criminalização pelo qual este povo passou a partir dos anos 90, quando começaram a retomar as suas terras tradicionais, que estavam invadidas por fazendeiros. A demarcação da terra Truká só ocorreu após as retomadas, mas as lideranças das mobilizações foram acusadas em diversos processos de furto, formação de quadrilha, entre outros.


     

    Read More
  • 11/07/2005

    Indígenas protestam contra exploração de petróleo Petrobrás

    Indígenas Huaorani denunciam que acordos com a petroleira brasileira Petrobrás haviam sido feitos sem consulta às populações afetadas e temem os impactos que a construção da estrada e as atividades de extração da empresa terão sobre seu território. A manifestação contará com uma roda de imprensa. No Brasil, a Rede Brasileira de Justiça Ambiental prepara um estudo denunciando a adoção de um duplo padrão pela Petrobrás ao ameaçar a integridade do Parque Nacional Yasuni e do povo indígena Huaorani.


     


    Nos dias 11 e 12 de julho, em Quito, uma delegação de representantes do povo Huaorani protestará contra a presença da Petrobrás em seu território. Está prevista a participação de 120 indígenas, com uma forte presença das mulheres Huaorani. O grupo inclui populações afetadas pela REPSOL YPF, que também opera na Amazônia equatoriana e tem causado inúmeros impactos socioambientais, relatados por uma missão internacional que esteve na área em agosto de 2004.


     


    Para o primeiro dia de ação (segunda-feira) está confirmada a realização de uma roda de imprensa com a participação de correspondentes internacionais na sede da CONAIE (Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador). A marcha até o Palácio do Governo será no dia 12, terça, quando será entregue uma carta ao Presidente da República pelos Huaorani. A carta afirma que o governo do Equador deve cuidar dos indígenas e não só pelo petróleo, e fazer com que “mudem as leis para que hajam propostas para todos os equatorianos. O governo deve buscar outro projeto, não só o petróleo; para que dos recursos não afetem o futuro. Pois isto afeta não só aos huaoranis mas todo o país”.


     


    A Petrobrás tem autorização para explorar petróleo no Bloco 31, em Orellana, na região amazônica do país. Mês passado, porém, o governo do Equador solicitou uma auditoria à Controladoria Geral do Estado sobre a licença ambiental concedida à empresa, devido as inúmeras pressões da sociedade civil contra o projeto.


     


    O Bloco 31 compreende a maior parte do Parque Nacional Yasuni e o território dos povos indígenas Huaorani, incluindo os grupos Tagaeri e Taromenane, que escolheram viver isolados e dependem inteiramente da floresta.


     


    Um relatório da ONG Acción Ecológica mostra que, com as primeiras atividades da Petrobrás, iniciadas em janeiro deste ano,  iniciou-se a contaminação. Um porto, em construção em terras do povo Quíchuas do Bloco 31, não só tem poluído a água, como gerado problemas trabalhistas.


     


    Em notícia recém-publicada pelo jornal equatoriano El Comercio, o coordenador da ONHAE (Organização da Nacionalidade Huaorani da Amazônia Equatoriana), Ramón Huani, afirmou que não vai manter os acordos firmados pela gestão anterior da organização com a Petrobras, já que, além de terem sido feitos sem consulta às comunidades de base da nacionalidade Huaorani, eles sequer foram cumpridos pela empresa. A nova direção da ONHAE afirma estar decidida a não aceitar mais a exploração petroleira em seu território, em função dos inúmeros impactos que a população tem sofrido nos últimos anos por ação das companhias petrolíferas.


     


    A ruptura responde à pressão exercida principalmente pelas mulheres indígenas. Elas querem manter livre de contaminação o território de onde extraem seu alimento. Na mesma reportagem, Alicia Cahuiya, presidente da Associação de Mulheres Huaorani, disse que com a presença das indústrias petroleiras na região, os rios que abastecem as populações ficam contaminados. “Isto só traz desmatamento, extinção dos animais selvagens e introdução de maus costumes ocidentais como o alcoolismo e a prostituição”, afirmou.


     


    Os Huaorani tiveram o apoio do povo Quíchua nessa decisão. Entre os planos polêmicos da Petrobrás está a construção de uma estrada que corta, em quase 30km, o parque. Ela deve atravessar uma comunidade quíchua antes de chegar à terra Huaorani. Alvo de protestos ambientais, a abertura da estrada foi motivo da saída da ONG Wildlife Conservation Society Equador do grupo de acompanhamento para o monitoramento das atividades da Petrobrás no Parque Nacional Yasuni, em maio deste ano. No esquema atual, as comunidades locais e o grupo de monitoramento têm direito apenas de voz, e não de voto, sobre as decisões que concernem às atividades realizadas pela empresa no parque.


     


    Desde 2004, um movimento internacional visa impedir a exploração de petróleo no Parque Nacional Yasuni. A ação inclui a produção, por cientistas e militantes do Equador e de diversos países, de relatórios técnicos que projetam o impacto da presença da petroleira na reserva da biosfera, como o que resultou da missão internacional de verificação de agosto do ano passado. Os temas discutidos com a Petrobrás pela Rede Brasileira de Justiça Ambiental são também resultado desses relatórios. A rede coordena no Brasil uma campanha que denuncia a aplicação de um duplo padrão pela empresa. O estudo “Extraterritorialidade e direitos humanos: o duplo padrão da Petrobrás” em Yasuni, a ser lançado em breve, expõe o problema com mais detalhes.


     


    Ao iniciar suas atividades em uma área de grande biodiversidade e território indígena no Equador, a Petrobrás aplica um duplo padrão. O argumento se baseia no fato de que no Brasil não é permitida a exploração petrolífera em parques nacionais ou em terras indígenas.


     


    Mês passado, por exemplo, o Ibama negou à empresa canadense Newfield a licença ambiental para explorar petróleo no Bloco BMES-20, próximo ao arquipélago de Abrolhos, na Bahia. Os motivos foram justamente os riscos potenciais que uma exploração petrolífera representa a uma área que é considerada parte da Zona de Amortecimento do Parque Nacional de Abrolhos. Nenhuma empresa tem conseguido explorar petróleo nos parques nacionais do Brasil, mas a estatal brasileira tem autorização para fazer o mesmo no país vizinho. Embora a Legislação Ambiental Unificada do Equador proíba a exploração petroleira em áreas protegidas, uma série de resoluções ministeriais foi emitida ao longo da história dessa exploração no Equador a fim de garantir que a atividade pudesse ser desenvolvida nessas áreas.


     


    Para os representantes da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, a sociedade civil brasileira deve estar atenta à possibilidade de uma empresa estatal reproduzir o que inúmeras empresas transnacionais têm historicamente feito no Brasil: transferir, para locais onde há fragilidade na regulação ambiental, impactos e riscos que não são permitidos em seus países de origem.


     


     


     

    Read More
Page 1133 of 1235