• 01/07/2004

    Bahia- Fazendeiros planejam ação violenta contra Pataxó no extremo Sul


    Após os Pataxó realizarem duas retomadas de terras na região do Monte Pascoal, no dia 21 de junho, um grupo de fazendeiros está preparando uma ação violenta contra eles.


     Segundo as lideranças da Frente de Resistência Pataxó os fazendeiros começaram a chegar com pistoleiros e estão ocupando pontos estratégicos na vizinhança próxima ao local das retomadas.


    Os fazendeiros que lideram a iminente investida contra a comunidade indígena contam com o apoio da Associação dos Fazendeiros do Extremo Sul da Bahia. Esta ação está prevista para os próximos dias e as lideranças temem que os pistoleiros possam agir no próximo final de semana.


    Em  documento, a Frente de Resistência Pataxó, chamou a atenção das entidades de apoio, da Procuradoria Geral da República, da Comissão de Direitos Humanos e do Ministério da Justiça para o que poderá ocorrer e as conseqüências dessa violência contra os Pataxó. A omissão e conivência do Núcleo da Funai em Itamaraju, que vem se reunindo com os fazendeiros e não deu nenhuma assistência às famílias Pataxó que estão na área, também foram denunciadas.


    A Frente de Resistência denunciou ainda, uma “visita” feita pela Policia Federal de Porto Seguro à área, para exigir que os índios deixem o local e liberem a estrada. Segundo as lideranças, os agentes disseram que foram em nome do Procurador de Ilhéus, mas quando os indígenas solicitaram um mandado do Procurador, eles disseram que “haviam esquecido o papel em casa”.


    As lideranças afirmam também que representantes da Veracel Celulose foram procurá-los para negociar a não entrada das famílias Pataxó em áreas que a empresa se diz dona, em troca a empresa doaria um trator, uma caminhonete  e a reparação das estradas vicinais. A Frente de Resistência recusou qualquer negociação com a Veracel e repudia essa tentativa de suborno.


    Para por um fim a estes conflitos as lideranças Pataxó apostam na publicação urgente do Relatório Antropológico para avançar o processo de demarcação do território do Monte Pascoal e iniciar a retirada dos invasores de sua terra.


     


     


     


     


     


     


     

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  • 25/06/2004

    Tribunal anula liminar que mandava retirar índios da aldeia


     




    A Sexta Turma do Tribunal Regional Federal, Primeira Região, anulou a Liminar concedida pelo Juiz Helder Girão Barreto, da 2ª Vara Federal de Roraima, que mandava retirar a comunidade indígena Kaxirimã para reintegrar o posseiro Manoel Rufino na terra indígena Raposa Serra do Sol. A decisão foi assinada no final da tarde de hoje (28/8) pela relatora Dra. Maria do Carmo Cardoso.


    O Juiz Federal, em decisão assinada em 18 de agosto e publicada no dia 23, mandou a secretaria da 2ª Vara certificar o cumprimento da Liminar de 7 de março de 2003. Em caso de descumprimento, determinava a ação imediata de dois Oficiais de Justiça, a autorizava a requisição da Polícia Federal e Polícia Militar para retirar os índios e prender possíveis desobedientes.


    O Agravo de Instrumento que derrubou a Liminar de Reintegração de Posse foi impetrado pela advogada do Conselho Indígena de Roraima, Dra. Joênia Batista de Carvalho, da etnia Wapichana. Ela solicita no agravo “que seja, ao final, reformada a decisão, devendo ser garantido aos índios o seu direito constitucional de usufruto das terras por eles ocupadas, reconhecidas em procedimento administrativo regular”.


    A tensão na região é grande desde ontem quanto um carro da Polícia Federal deslocou-se até o vilarejo de Uiramutã, possivelmente para cumprir a ordem judicial. Segundo informações repassadas através de radiofonia, a PF aguardava apenas reforço da Polícia Militar para executar a sentença.


    Mais de 100 indígenas de 57 comunidades da Raposa Serra do Sol estão acampados em Kaxirimã dispostos a resistir a qualquer tentativa de retira-los com o uso da força policial. Em carta aberta encaminhada às autoridades, eles informaram a disposição de “defender a nossa comunidade Caxirimã a qualquer custo”, e garantiram “lutar até o último índio”.


    A gravo de instrumento com efeito suspensivo à Liminar foi comemorado com festa na sede do Conselho Indígena de Roraima e na aldeia Kaxirimã.


    28 de agosto de 2003.


    Conselho Indígena de Roraima

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  • 25/06/2004

    Quando a esperança irá vencer o medo


     




    Sobre a nota enviada à imprensa pelo Partido dos Trabalhadores, Diretório Regional de Roraima, assinada por seu secretário de comunicação e repercutida pela imprensa local no dia 21 de agosto de 2003, referente à matéria “Senador petista garante que Flamarion não será mais contra a homologação de Raposa Serra do Sol”, publicada no site do Conselho Indígena de Roraima (www.cir.org.br), a coordenação do CIR tem a esclarecer o que segue:


    O Conselho Indígena de Roraima – CIR, em reunião com o senador Sibá Machado, na sede da organização, no dia 18 de agosto de 2003, em nenhum momento questionou ao parlamentar qual era o posicionamento do governador Flamarion Portela (PT), sobre a homologação de Raposa Serra do Sol e jamais exigiu qualquer garantia por parte do senador de que o Executivo Estadual não reivindicaria recorte na terra indígena.


    Esclarece que o CIR comunicou aos principais meios de comunicação do Estado que a reunião seria aberta à imprensa e informa a quem interessar que na reunião participaram mais 30 lideranças indígenas do CIR, APIRR (Associação dos Povos Indígenas de Roraima), OMIR (Organização das Mulheres Indígenas de Roraima) e OPIRR (Organização dos Professores Indígenas de Roraima) e o Administrador Regional da Funai, Martinho Andrade, testemunhas auriculares de que todas as informações da matéria são verdadeiras e não estão desconexas do contexto ao qual foram apresentadas.


    Uma vez que o assunto da reunião era a homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol, só poderiam as lideranças indígenas concluir que a afirmativa: “o que ele [governador] está querendo é outra área para fazer uma nova gestão. O governador em nenhum momento mais vai tratar sobre a situação de fazer corte na área de vocês. Acabo de sair de uma reunião com ele, na qual isso ficou muito bem estabelecido”, significava o maior avanço político para o desfecho da homologação. Essa informação foi recebida com muita alegria e esperança.


    O CIR é uma organização que sempre trabalhou embasada nos princípios da ética e da verdade, respeitando todas as opiniões divergentes dos encaminhamentos que a organização tem dado na luta em defesa dos povos indígenas de Roraima. Muitos ataques já nos foram desferidos pelos inimigos dos povos indígenas e, em todos os casos, percorremos o caminho legal para resolver as tensões criadas pelo antiindigenismo praticado em Roraima.


    O CIR tem seus próprios meios para chegar a qualquer parlamentar ou autoridade federal, não necessitando de intermediários. Nesse sentido, não procedem os lamentos da direção estadual do PT de que o CIR tenha utilizado a direção do Partido e “a presença do senador para gerar novas especulações e polêmicas em torno da demarcação de áreas indígenas e da questão fundiária”. Na verdade, o senador Sibá Machado procurou o coordenador do CIR, Jacir José de Souza, quando o mesmo estava em Brasília e propôs uma visita à organização quando ele viesse ao estado de Roraima, o que foi prontamente aceito.


    A coordenação do CIR sustenta a afirmação da Assessora Jurídica, Joênia Wapichana, de que a filiação da prefeita Florani Mota ao Partido dos Trabalhadores é uma provocação aos indígenas, pois Uiramutã é um município instalado ilegalmente dentro da terra indígena Raposa Serra do Sol, pois quando foi criado, em 1996, a área já estava interditada para estudos antropológicos e conclusivos do processo demarcatório. A assessora em nenhum momento quis interferir em questões internas do PT ou qualquer outro partido.


    O CIR reafirma seu compromisso de buscar o caminho legal e pacífico para o desfecho da homologação de Raposa Serra do Sol de forma que atenda aos anseios dos povos indígenas que habitam a área há tempos ancestrais. Nesse sentido, consideram o senador Sibá Machado um dos seus principais aliados, e reafirmam que as relações do Conselho com o senador e outros integrantes da Frente Parlamentar em Defesa dos Povos Indígenas, jamais será abalada por atitudes inconseqüentes de integrantes do Diretório Regional do Partido dos Trabalhadores em Roraima, que reconhecidamente estão ausentes de uma discussão séria e honesta sobre os direitos indígenas.


    21 de agosto de 2003.


    Jacir José de Souza, coordenador o Conselho Indígena de Roraima.

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  • 25/06/2004

    Falsas denúcias


     


    O senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR) está usando os meios de comunicação de Boa Vista para ‘plantar’ a notícia de que uma de suas fazendas, localizada próxima à terra indígena Serra da Moça, será invadida por índios, supostamente, ‘incitados’ pelo Conselho Indígena de Roraima – CIR, e a Associação dos Povos Indígenas de Roraima – Apir. Os tuxauas da região garantem que a denúncia é infundada.


    A terra Serra da Moça está localizada a 50 quilômetros de Boa Vista, tem extensão de 11.626 hectares, com 336 indígenas da etnia wapichana, habitando em três aldeias: Serra da Moça, Morcego e Truaru. O tuxaua de Morcego, Jaime Pereira da Silva assegura que a denúncia é falsa e que na região o único conflito recente foi um índio esfaqueado por um invasor.


    A denúncia no jornal partiu do vaqueiro Nilton Pereira da Silva, empregado na fazenda Boquerão, pertencente ao senador. Ele afirmou que as duas organizações indígenas planejam e incitam os índios a invadirem a propriedade. Com base na matéria, Mozarildo entrou com Ação Judicial pedindo Liminar de Interdito Proibitório.


    Ação na Justiça Estadual foi impetrada no dia 9 de julho (feriado municipal) e na mesma data o juiz plantonista, Ângelo Augusto Graça Mendes, deferiu o pedido de Liminar garantindo o Interdito Proibitório e imediatamente mandou citar e intimar os coordenadores do CIR, Jacir do José de Souza, e da Apirr, Telmar Mota. A Ação argumenta tratar-se de uma retaliação à iniciativa do senador em propor lei que controle a atuação das ONGs e à Proposta de Emenda Constitucional – PEC 038/99.


    Em declaração a impressa local, o Senador Mozarildo alega que estaria sendo vítima de seu posicionamento no Congresso e responsabiliza o CIR e Apirr, pela reação negativa que ele obteve durante a campanha Áreas Protegidas, promovida por organizações indígenas, indigenistas e ambientalistas contrárias a PEC 038/99, devido ao seu teor inconstitucional.


    A rapidez da decisão judicial favorável ao senador, com base apenas em matéria jornalística que ouviu apenas uma versão dos fatos, revela mais uma decisão contrária aos direitos dos povos indígenas. O juiz ainda determina a multa diária de R$  2.400,00, caso seja descumprida a decisão.


    A Justiça Estadual está sendo ágil em suas decisões, mas nem sempre foi assim. O caso de Ovelário Tames, indígena torturado até a morte na delegacia do município de Normandia em 1989, tramitou 10 anos, e demorou quatro anos para se publicar um edital de citação dos réus. Julgado em 2001, os réus, como em todos os outros casos, foram absolvidos. Pela impunidade neste crime, o Brasil foi condenado na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA.


    Boa Vista – RR, 10 de julho de 2003.


    Conselho Indígena de Roraima

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  • 25/06/2004

    Invasores de Raposa Serra do Sol ameaçam indígenas

    O invasor da terra indígena Raposa Serra do Sol, conhecido por ‘João do Boi’, voltou a ameaçar os índios que estavam reunidos em Assembléia Regional do Surumu, no retiro indígena da aldeia do Barro, nos dias 29 de junho a 2 de julho. O retiro havia sido destruído, no dia 26 de maio, pela família do posseiro e as lideranças denunciam que ela fala abertamente aos moradores do vilarejo Surumu que “vai embora, mas antes vai matar índio”.


    ‘João do Boi’ é irmão do vereador de Uiramutã, Francisco das Chagas Oliveira da Silva, o ‘Chico Tripa’, ex-posseiro da fazenda Retiro, onde o índio macuxi Aldo da Silva Mota foi encontrado morto e enterrado numa cova rasa em janeiro deste ano. O indígena foi executado com um tiro no peito.


    Num afronta às comunidades, no domingo, 29/6, ele esteve no local da reunião e disse que sua saída da “área será decidida pela Justiça”. As comunidades denunciam que os jagunços de ‘João do Boi’ portam arma de fogo e praticam tiroteio durante a noite.


    O coordenador regional de Surumu, Dionísio Tobias, relatou que na tarde de domingo, um dos suspeitos de assassinar o macuxi Aldo Mota, conhecido por “Robson Belo”, que trabalha para ‘João do Boi’ , tentou agredir o jovem, Paulo Lima Peres, de apenas 16 anos. “O jovem disse que esse Robson correu atrás dele com uma arma de fogo na mão”, afirma.


    Em 2 de julho, depois de quatro dias de Assembléia, as comunidades decidiram reconstruir o retiro indígena. As lideranças afirmam que antes do invasor comprar a propriedade, ele foi alertado que a área pertencia a aldeia do Barro. ‘João do Boi’, à época, respondeu que iria comprar e cercar a área, inclusive, os igarapés que os indígenas se servem para a pesca.


    Ao final da Assembléia, foi elaborado um documento relatando a situação de conflito. A assessoria jurídica do Conselho Indígena de Roraima – CIR, encaminhou a denúncia à Funai, Ministério Público e Polícia Federal – PF. Devido às ameaças, o CIR solicitou à Justiça Federal, antecipação da audiência entre as partes, marcada para o dia 25 de julho. À PF, solicitou-se busca e apreensão das armas de posse dos jagunços.


    4 de julho de 2003.


    Conselho Indígena de Roraima

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  • 25/06/2004

    CNBB pede ao Governo Lula a homologação de Raposa/Serra do Sol


     


    Conferência Nacional dos Bispos do Brasil do Brasil


    Brasília, 29 de maio de 2003
    P- n.º 0301/03


    Excelentíssimo Senhor
    Luís Inácio Lula da Silva
    Digníssimo Presidente da República Federativa do Brasil


    Senhor Presidente,


    A nova direção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB procurou marcar uma audiência com Vossa Ex.cia. para agradecer sua honrosa visita à nossa Assembléia Geral. Não tendo sido possível um encontro pessoal, expressamos, por carta, nosso apreço e estima, almejando podermos continuar nosso diálogo em outras ocasiões.


    Em sua primeira reunião, a direção da CNBB tomou conhecimento da atual situação da população indígena do Estado de Roraima.


    A preocupação maior se prende à expectativa da imediata homologação da terra indígena RAPOSA SERRA DO SOL nesse Estado em sua integralidade. A questão dos povos indígenas sempre foi uma prioridade da missão da CNBB, exatamente pelo seu significado simbólico: apesar de representarem as raízes da cultura do Brasil, são, de fato, os mais desamparados entre os pobres de nossa população.


    Nossa missão de Igreja, à luz da evangélica opção pelos pobres, nos leva a fazer um apelo: dê prioridade à homologação daquela área que, há tanto tempo, esperamos ver, enfim, demarcada.


    Confiando na sua sensibilidade, reafirmamos nossa disposição em colaborar para o êxito de seu governo.


    Atenciosamente,











    Cardeal Geraldo Majella Ângelo,
    Presidente da CNBB


     


    Dom Antônio Celso de Queiroz
    Vice-presidente da CNBB


    Dom Odilo Pedro Scherer
    Secretário Geral da CNBB




     

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  • 25/06/2004

    CIR: Nota de Repúdio ao parecer da CCJ do Senado


     




    O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, solicitou através do Ofício Nº 92-GSIPR/SAEI, de 18 de fevereiro de 2003, pronunciamento do presidente do Senado Federal sobre projetos de decretos que objetivam homologar as demarcações administrativas das terras indígenas Jacamim, Wai Wai, Moskow, Muriru e Boqueirão no Estado de Roraima, e assim como Bajjonkôre(PA) e Cuiú-Cuiú (AM).
    A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) aprovou, no dia 2 de abril de 2003, parecer do Relator Senador Romero Jucá (PSBD-RR), favorável à edição de decretos homologando as demarcações administrativas das terras indígenas Banjonkôre e Cuiú-Cuiu, e o sobrestamento da homologação das terras Jacamim, Wai Wai, Moskow, Muriru e Boqueirão, alegando que devem merecer estudos mais acurados, por parte do Governo Federal, visando à solução definitiva dos casos conflituosos.
    A Agência Senado divulgou que as homologações serão retardadas até que sejam consultados representantes dos governos federal e estadual sobre o tema. Acrescentou ainda que ‘O Senador [Romero Jucá] ponderou que a homologação dessas áreas, onde não vê problemas demarcatórios, poderá acirrar os conflitos em outras terras indígenas, como na Raposa Serra do Sol e na região da rodovia BR 174, que fica fechada à noite [TI Waimiri-Atroari-RR/AM]”.
    O Conselho Indígena de Roraima – CIR, organização dos povos indígenas Ingaricó, Macuxi, Taurepang, Patamona, Sapará, Wai Wai, Wapichana e Yanomami que habitam o Estado de Roraima, extremamente preocupado com o tratamento aos direitos indígenas vem manifestar o seguinte:
    A solicitação da Presidência da República em análise no Senado Federal, sobretudo à vista das bases de sua justificação, importa em subversão da ordem jurídica e da natureza das coisas, ao pretender que o parecer do relator Senador Romero Jucá acolhido pela Comissão de Constituição e Justiça que faz prevalecer interesses antiindígena sobre o próprio direito à vida, tenha o poder de paralisar as homologações.
    As comunidades indígenas ao longo dos anos vêm reivindicando a regularização de suas terras. Porém, mesmo com os avanços no reconhecimento dos direitos indígenas na Constituição Federal, continuam os constantes ataques por parte dos políticos do Estado de Roraima que se utilizam de todos os meios para irem contra os direitos indígenas. Lamentamos que políticos de Roraima atuam desta forma negativa, se contrapondo inclusive às normas constitucionais.
    Entendemos que a regularização fundiárias das terras indígenas atende os critérios que a própria norma constitucional dispõem, ou seja, as necessidades dos povos indígenas para garantir sua sobrevivência física e cultural. É um dever da União fazer com que esse direito seja protegido.
    Os atos concretos de demarcação das terras indígenas não carecem de confirmação do poder legislativo, uma vez que decorrem de imperativo constitucional, expresso no caput do art. 231 da Constituição Federal em vigor, que manda a União demarcar as terras indígenas. Tal determinação, ademais, configura competência administrativa federal, visto que representa atividade administrativa da União, a qual, nesse caso, está a reger bem próprio, pois, de acordo com o art. 20, XI, da Carta Magna, as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios são bens que lhe pertencem.
    Observamos que os atos da Administração Pública devem dar-se nos limites da Lei, sendo assim a União está obrigada a editar as disposições legais ensejadoras da cobertura que lhe permitam concretizar os encargos a ela cometidos pela Constituição. Tais normas são: a Lei n° 6.001, de 19 de dezembro de 1973 [Estatuto do Índio] e o Decreto n° 1.775, de 8 de janeiro de 1996 [que regulamenta o procedimento demarcatório das terras indígenas].
    A competência do Ministro da Justiça de declarar, mediante portaria, os limites da terra indígena e determinar sua demarcação foi conferida pelo art. 2° § 10, inciso I do Decreto 1.775/96. Ao editar essa norma legal, o Presidente da República exercitou a competência de que está investido pelo art. 84, inciso II da Carta em vigor, da qual deriva o poder de “exercer, com o auxílio dos Ministros de Estado, a direção superior da administração federal”.
    Salientamos que no decorrer do procedimento demarcatório pelo Decreto 1775/96, o direito de contestação é aberto a todos os interessados, sendo ultrapassada essa fase segue o rito normal do processo declarando a posse indígena e devendo o Presidente da República confirmar os atos do Ministro da Justiça.
    A amplitude dos direitos conferidos aos povos indígenas não oferece ensejo à possibilidade de restrições decorrentes dos fatos referidos na justificativa da proposição em exame. O surgimento de tensões sociais decorrentes das medidas demarcatórias ou a imposição de obstáculos ao desenvolvimento econômico do Estado pela suposta insuficiência de seu território não representam fundamento para se imporem obstáculos às demarcações das terras indígenas.
    Ao contrário, verificadas as condições para a caracterização da natureza de terra tradicionalmente ocupada pelos índios, conforme disciplina o § 1° do art. 231, evidencia-se a posse indígena assegurada pelo § 2°, que prevalece contra qualquer outra. Tal posse prepondera, inclusive, à de portadores de alegados títulos de propriedade, por força das disposições do § 6°, que declara nulos, extintos e incapazes de produzir efeitos jurídicos os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras tradicionalmente ocupadas pelos índios.
    A terra representa a condição imanente à vida dos indígenas, por ser indispensável à existência física e cultural, de gerações presentes e futuras.
    Por ocasião da 32ª Assembléia dos Tuxauas, fevereiro de 2003, as lideranças indígenas cobraram da Presidência da República a agilização das 6 (seis) terras pendentes da homologação, Jacamim, Moskow, Muriru, Boqueirão, Wai Wai e Raposa Serra do Sol, no Estado de Roraima.
    Nossas posições foram sempre no sentido de solicitar as providências legais às autoridades competências, por isso pedimos a solução emergencial, para nos defendermos das pretensões dos que são contrários à demarcação das terras indígenas, sobretudo quanto a demarcação integral da TI Raposa Serra do Sol. A morosidade na regularização fundiária dos territórios indígenas incentiva, além do retardo, a inversão de direito.
    Defendemos e buscamos. Queremos a garantia do cumprimento da Carta Magna Brasileira, queremos o respeito e reconhecimento dos nossos direitos originários sobre a terra, nossa organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e reivindicamos que o Poder Legislativo contribua para a proteção e respeitos a todos os direitos amparados pelas Constituição Federal Brasileira.
    Em nome dos povos indígenas de Roraima em especial das comunidades indígenas das TIs Jacamim, Mosckow, Muriru, Boqueirão, Wai Wai e Raposa Serra do Sol convidamos a se manifestar em prol dos direitos povos indígenas.


     


    Boa Vista (RR), 07 de abril de 2003.


    CONSELHO INDÍGENA DE RORAIMA

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  • 25/06/2004

    Emergentes? Ressurgidos? Não, RESISTENTES

           Nos últimos 30 anos, vem (re) aparecendo no cenário sociopolítico nacional a identidade de vários povos indígenas, os quais, por muito tempo, foram tidos como desconhecidos ou considerados extintos pelos registros oficiais do Estado brasileiro.
              Até a Constituição de 1988, alguns povos indígenas tinham que usar de  vários mecanismos de resistência, como ocultar e  até mesmo negar sua identidade étnica como um meio de proteção para  continuar sobrevivendo. Acredita-se que essa tática tenha sido a principal e mais eficiente “arma” na luta contra o etnocídio proposto por políticas integracionistas. Fingindo não ser mais índio, o indivíduo pertencente a uma determinada etnia conseguia preservar sua integridade física, pois dessa forma deixava de ser perseguido pelo poder estatal que passava a considerá-lo como “integrado” à comunhão nacional, um “aculturado”. E foi assim que os povos “ressurgidos”/resistentes  passaram desapercebidos, até para os olhos mais atentos, chegando a ser considerados como extintos.
                Embora esse fenômeno aconteça em todo Brasil, é nas regiões Norte e Nordeste onde o retorno desses povos indígenas ao cenário de luta  é maior e com particularidades muito especiais, impondo à antropologia brasileira o desafio de construir um objeto próprio com abordagem etnológica totalmente diferenciada dos estudos.
                O termo utilizado por antropólogos e indigenistas para classificar este fenômeno é  “povos emergentes”. Mesmo sendo um termo generalizado nos meios acadêmico e indigenista, o Cimi usou a designação “povos ressurgidos”,  por reconhecer o status e o espaço político que esses “novos” sujeitos históricos ocupam na atual conjuntura das lutas indigenistas,  pela  participação ativa no movimento indígena, na busca de  conquistar o reconhecimento de direito, entretanto, no I Encontro Nacional dos Povos em Luta pelo Reconhecimento Étnico e Territorial, realizado em maio, de  2003,  os povos indígenas que participaram, disseram que, não são nem emergentes e nem ressurgidos, e sim povos RESISTENTES, ressaltando que, eles como os outros povos, resistiram ao etnocídio e a todas as formas de agressão nestes 503 anos de repressão e desrespeito aos seus direitos. “A nossa presença vem sendo reafirmada a cada dia, principalmente por nossa capacidade de resistir a toda sorte de agressões e massacres impostos pelo Estado brasileiro ao longo de mais de 500 anos”, trecho do documento final do encontro realizado no ano passado.   
                 Hoje são centenas de povos que lutam para retornarem a sua vida cultural, ou melhor, para  externarem o que antes tinha que ser ocultado. De norte a sul do Brasil etnias se auto-afirmam, discutem e socializam dificuldades e conquistas para ter seus direitos respeitados e assegurados.
                  O I Encontro Nacional dos Povos em Luta pelo Reconhecimento Étnico e Territorial foi um inédito e  grande momento de socialização e discussão acerca das problemáticas enfrentadas hoje por estes povos.

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  • 25/06/2004

    I Encontro Nacional de Povos em Luta Pelo Reconhecimento Étnico e Territorial

                 Mais de 90 lideranças indígenas de 47 povos  participaram do I Encontro Nacional de Povos em Luta Pelo Reconhecimento Étnico e Territorial, de  15 a 20 de maio de 2003, em Olinda, Pernambuco. O encontro teve o objetivo de socializar as informações sobre as dificuldades enfrentadas pelos povos, identificar os desafios comuns e estabelecer uma pauta de reivindicações  nacional, para favorecer ações articuladas
                Durante os cinco dias, representantes de instituições governamentais e não-governamentais debateram temas como: “Desaparecimento e Ressurgimento” : Uma abordagem histórica e antropológica sobre os povos atualmente em luta pelo reconhecimento; “Rompendo o Silêncio e a Repressão”: Uma abordagem sobre os direitos historicamente conquistados pelos povos indígenas e o desafio do reconhecimento étnico e territorial.
                  Nos debates, esclarecimentos de dúvidas, reivindicações  e relatos de  trajetórias nortearam as discussões. Os povos trocaram experiências sobre as lutas enfrentadas para sobreviver e continuar seguindo suas tradições e culturas. “A nossa presença vem sendo reafirmada a cada dia, principalmente por nossa capacidade de resistir a toda sorte de agressões e massacres impostos pelo Estado brasileiro ao longo de mais de 500 anos”, documento final.
                    Muitos negaram sua identidade por medo, como os Koiupanká, em Alagoas, outros se isolaram ou se integraram a outros povos, para continuar existindo, como os Xetá do Paraná, mas todos externaram o mesmo anseio, o de terem de volta aquilo que lhes foi tirado, a Terra. “Estamos querendo o que é nosso, nem tudo,  porque boa parte já nos roubaram”, Lucila da Costa, Nawa. “Passamos muito tempo com a voz escondida, mas não morremos e estamos muito vivos. Somos resistentes nesta luta”, Cacique Pequena, Genipapo-Kanindé. 
                      Ao final, os povos indígenas elaboraram uma pauta de reivindicações que foi  entregue em audiências, por um grupo de 12 representantes, nos Ministérios da Justiça, Educação,Saúde, Meio Ambiente, Reforma Agrária e na  Presidência da República e da Funai.
     
    Reivindicações
    ” Quanto aos diversos problemas verificados com relação à demarcação de terras, saúde e educação  diferenciada, comunicação e transporte e questões relacionadas à atuação de órgãos governamentais e não governamentais, apresentamos as seguintes exigências ao governo federal:
    1.               demarcar, regularizar e desintrusar todas as terras indígenas, bem como garantir a fiscalização e vigilância;
    2.               baixar Resolução da Funai extinguindo a exigência de laudos para identificação étnica, reconhecendo a afirmação de nossa identidade étnica e territorial conforme a Convenção 169 da Organização Internacional de Trabalho;
    3.               rever decretos que estabelecem Unidades de Conservação em áreas indígenas ou de pretensão;
    4.               valorizar, cultivar e manter nossa história e tradições, através da implementação de políticas diferenciadas;
    5.               incluir os povos resistentes nos programas de atendimento à saúde e a educação diferenciada, bem como a formação de agentes indígenas de saúde e professores indígenas para atendimento dentro das áreas;
    6.               criar políticas de auto-sustentação, com destinação de linhas de crédito próprias para projetos em áreas indígenas;
    7.                valorizar nossa medicina tradicional. “

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  • 25/06/2004

    Fruto das Reivindicações dos Povos Indígenas Resistentes

                Todos os povos em processo de reconhecimento étnico que participaram do Encontro, foram beneficiados pela proposta da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e foram reconhecidos  etnicamente pela Fundação Nacional do Índio
                 Está foi uma das reivindicações dos 47 povos que participaram do encontro, “baixar Resolução da Funai extinguindo a exigência de laudos para identificação étnica, reconhecendo a afirmação de nossa identidade étnica e territorial conforme a Convenção 169 da Organização Internacional de Trabalho”.  A convenção que tramitava no Congresso desde 1991 e foi ratificada em julho do ano passado, traz a seguinte citação; “A consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá ser considerada como critério fundamental para determinar os grupos aos que se aplicam as disposições da presente Convenção”. 
                 Está prática não era seguida pelo órgão indigenista do governo, que usava de um estudo antropológico para comprovar  a identidade de um povo, não valendo a auto-identificação. 
                Deuscreide Gonçalves Pereira, Coordenadora de Etnologia e Indigenismo da Coordenação Geral de Estudos e Pesquisa da Funai, que participou do encontro em Pernambuco, disse que este estudo começou a ser feito depois da contestação da identidade étnica do povo indígena Kaxixó em Minas Gerais, onde existiam dois laudos. Um, que concluía que eles não eram índios e outro, que confirmava a auto-identificação dos indígenas. Segundo a coordenadora em 2001, o então presidente do órgão, solicitou um terceiro estudo para subsidiar sua decisão. “Pedimos à ABA que nos indicasse um antropólogo e nos indicaram o João Pacheco que concluiu que os Kaxixó eram indígenas. A partir daí, a ABA começou a nos indicar antropólogos para fazer o estudo”.  
              Este estudo antropológico passou a ser o balizador das decisões do órgão acerca da identificação étnica de um povo, sendo considerado uma etapa no processo de reconhecimento de uma etnia, causando, por diversos fatores, atrasos demasiados para a conclusão do processo, além de contestar as tradições dos povos indígenas.
                Com a entrada do presidente, Eduardo Almeida, o órgão decidiu extinguir esta prática e fazer valer o que reza na Convenção 169 “de auto-identificação de um grupo”. Segundo a indigenista, esta já era uma decisão interna que foi explicitada na ocasião do encontro em Olinda, e depois colocada  em prática atendendo à reivindicação dos povos participantes do encontro.



     

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