• 15/02/2008

    Newsletter n. 802: Leader of the Truká people reported that he and his son were assaulted and abused by police officers

    Ailson dos Santos – known as Yssô, from the Truká people, reported through a letter disseminated yesterday (February 2) that he and his son, 16, were assaulted by military police officers from the city of Cabrobó (state of Pernambuco). He reported that his son was detained and beaten by three police officers wearing civilian clothes in the Jatobazeiro village, where he lives, under the accusation of driving a motorcycle without a license.


     


    Shortly after this incident, according to what was reported, three patrol cars approached Ailson and took him to a police station. “I was accused of being drunk, but I was not drinking. They accused me of running over a police officer, but I had left my car at home. They accused me of driving my car with too many people in it, but I wasn’t even driving. In the end, I slept in the police station without knowing why. All I know is that my motorcycle and my car were confiscated and they fined me twice for each of them.” 


     


    This is not the first time that indigenous people suffer police persecution in the state of Pernambuco. The fact that three leaders of the Xukuru people who live in the municipality of Pesqueira were recently arrested under charges of having participating in a murder in August 2007 – without any evidence – bears witness to this kind of situation.


     


    “I know that military police officers have been out of control in Pernambuco, in the city of Cabrobó, treating innocent citizens as criminals. These prejudice-driven police officers say that there are no indigenous people living on the Island [Nossa senhora da Assunção, where the Jatobazeiro village is located],” Yssô said.


     


    Ailson, who is an indigenous representative at the National Health Council, also recalled in the letter another case where Military Police officers acted violently against indigenous people in the Jatobazeiro village. In 2005, four police officers murdered two indigenous people from the Truká people (Denilson and his son).


     


    ***


     


    Land balance 2007: Four of the 20 areas declared as indigenous lands had the official declaration of their bounds suspended


    After a long period without any land demarcations during the first Lula administration (2003 – 2006), in 2007, twenty areas have been declared indigenous lands. However, other maneuvers and pressures from anti-indigenous sectors in the court system and in Congress gained momentum last year and ended up suspending the effects of four administrative rulings which had officially established the bounds of those lands.


     


    During the term of the former minister of Justice, Márcio Thomaz Bastos, administrative procedures for demarcating indigenous lands were interrupted due to regional political pressures, particularly from governors Blairo Maggi (state of Mato Grosso – MT), Luiz Henrique (state of Santa Catarina – SC), and former governor Zeca of the Workers’ Party (Mato Grosso do Sul – MS). They demanded the suspension of land demarcation processes in those states. Between 2003 and 2006, only two areas were declared indigenous lands in the State of Mato Grosso do Sul, only one in the state of Santa Catarina, and none in the state of Mato Grosso.


     


    In April 2007, four areas were declared indigenous lands in the state of Santa Catarina; however, non-indigenous occupants, following the advice of the state government and some mayors, filed several appeals with a federal court and managed to suspend the effects of the administrative rulings issued by the Ministry of Justice for the Toldo Pinhal, Guarani of Araca´y, Xapecó and Toldo Imbu indigenous lands. All these judicial proceedings are now suspended until a lawsuit filed by the Federal Administration and the Federal Prosecutor’s Office is judged.


     


    The effects of the Toldo Imbu administrative ruling had been suspended, but the Federal Regional Court of the 4th region ruled that its effects were to be reestablished


     


     


    In Congress


    Another strategy that has been often used by people who are against indigenous rights is to refer proposals for legislative decrees (PDCs) to the National Congress to suspend the effects of published administrative rulings. From a legal point of view, all these PDCs proposed by the ruralist bench are unconstitutional. This strategy has been used by the anti-indigenous bench of the state of Roraima with the aim of annulling the official confirmation of the bounds of the Yanomami and Raposa Serra do Sol indigenous lands.


     


    Representative Valdir Colatto (Party of the Brazilian Democratic Movement- state of Santa Catarina) submitted four PDCs to try and annul administrative rulings which declare certain areas in that State as indigenous lands. Representative Waldir Neves (Party of the Brazilian Social Democracy-state of Mato Grosso do Sul) submitted a PDC to suspend the only administrative ruling signed in 2007 declaring an area in the state of Mato Grosso do Sul as an indigenous land – the Cachoeirinha land belonging to the Terena people.


     


    Even if these decrees are not passed, these proposals have created a “mood” in Congress against the demarcation of indigenous lands. If more laws against the demarcation of indigenous lands are passed, the result can be disastrous.


     


    Although the minister of Justice, Tarso Genro, endorsed the administrative rulings, a lot of political will be necessary to carry out the demarcations that are yet to be executed: only 378 of the 850 lands to be demarcated had their processes completed. In order to comply with its obligation, the National Foundation for Indigenous People should now resume its official role and set up Technical Groups in charge of identifying indigenous lands to be demarcated.


     


     


    Brasília, February 7, 2008.


    Cimi – Indianist Missionary Council


    www.cimi.org.br


     

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  • 14/02/2008

    Informe nº 803 – Indígenas cobram do Estado aplicação da Declaração da ONU sobre direitos indígenas

    Entre 13 e 14 de fevereiro, 61 indígenas do Brasil e de outros países da América Latina se reuniram em Brasília para discutir como as definições da Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas podem ser incorporadas pelo Estado brasileiro. Representantes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário foram convidados pelos indígenas para participar das discussões.


     


    Um dos desafios para se conseguir a implementação da Declaração no Brasil, segundo Conceição Pitaguary, da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), é fazer com que as informações cheguem às comunidades indígenas. Visando isso, foi lançado, no dia 12 de fevereiro, o livro “Um olhar Indígena sobre a Declaração das Nações Unidas”.


     


    O livro é uma versão em português do documento com textos que esclarecem os significados dos artigos contidos na Declaração. Além disso, os indígenas planejam fazer encontros regionais para discutirem e entenderem melhor a Declaração. E, nos debates sobre o Estatuto dos Povos Indígenas, também usarão a Declaração como uma das referências.


     


    “Façam com que isso vire lei, como aconteceu na Bolívia, e com que seja cumprido”, disse Jecinaldo Sateré Mawé, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), ao entregar uma cópia do livro aos representantes do Estado que foram ao evento.


     


    A senadora Fátima Cleide (PT-RO) se comprometeu a pedir uma audiência pública no Senado para discutir o conteúdo da Declaração com os outros senadores. Manuel Castilho, secretário-geral da presidência do Supremo Tribunal Federal, levará ao órgão a proposta de socializar mais o teor da Declaração dentro do Judiciário. “Ainda há juízes que não reconhecem a Convenção 169 da OIT [Organização Internacional do Trabalho] como lei, queremos que o conteúdo da Declaração seja visto como direito nosso”, reforçou Sandro Tuxá, da Apoinme.


     


    Os participantes indígenas reclamaram a ausência de representantes do poder Executivo durante as discussões, especialmente sobre o PAC, e  os encaminhamentos de propostas. Eles registraram no documento final esta omissão e pediram mais respeito aos povos indígenas.


     


    Os oponentes da Declaração têm argumentado, em diversos países da América Latina, que ela não tem poder de lei, não é vinculante. “A Declaração Universal dos Direitos Humanos também não é vinculante e é mãe de tantas leis pelo mundo”, lembrou Juan Leon Alvarado, do povo Maya-Quiché, embaixador da Guatemala no Equador e ex-presidente da Comissão da Organização dos Estados Americanos (OEA) que discute a Declaração Americana sobre os direitos dos povos Indígenas.


     


    O evento foi organizado pela Apoinme, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Conselho Indígena de Roraima (Cir) e Instituto Warã.


     


    Declaração


    A Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas foi aprovada em 13 de setembro de 2007 pela Assembléia Geral das Nações Unidas, após 20 anos de discussões entre os países e pressão dos indígenas. Nela são tratados os direitos dos povos à livre determinação dos povos indígenas; à terra, aos territórios e aos recursos naturais; ao consentimento prévio, livre e informado; às normas não escritas que regem internamente a vida das comunidades indígenas; à propriedade intelectual.


     


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    “Copo d’água para quem tem sede é papo furado”, diz Ciro em audiência sobre Transposição


     


    Hoje (14/02), em uma audiência no Senado Federal sobre a transposição do rio São Francisco, o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), ao defender o projeto, assumiu que as populações difusas pelo semi-árido brasileiro não serão beneficiadas. Participaram da audiência Dom Luiz Cappio, bispo de Barra (Bahia) e o ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima, entre outros.


     


    Em sua fala, Dom Luiz mostrou que a transposição beneficiará os grandes produtores nordestinos, em detrimento da população sertaneja que não tem acesso à água. Ele comparou o projeto com alternativas propostas para a região como as obras do Atlas Nordeste, desenvolvido pela Agência Nacional de Águas, do próprio governo federal. Enquanto com a transposição se pretende atender 12 milhões de pessoas em 4 estados, o Atlas pode beneficiar 34 milhões de pessoas em 10 estados. Ele reforçou que o projeto de transposição tem fins econômicos, para a produção de frutas para exportação e criação de camarão em cativeiro.


     


    O bispo reafirmou que o governo faz uma propaganda enganosa em torno da transposição. “O projeto é antiético, pois usa a boa-fé das pessoas. A população deveria ser prioridade, se fosse assim, seríamos a favor”, disse.


     


    Ciro Gomes defendeu o projeto, dizendo que há vazão suficiente no rio para se retirar os 26m³/seg previstos para a transposição, sem prejudicar nenhuma funcionalidade do rio. Por outro lado reconheceu que “essa conversa mole de ‘um copo d’água pra quem tem sede’ isso tudo é papo furado. Não é a redenção do nordeste, nem nada, mas resolve a questão da segurança do abastecimento humano e dessedentação animal de 12 milhões de pessoas na área de influência do projeto”, disse o deputado.


     


    “Para chegar a 12 milhões, eles consideram cidades de médio e grande porte como Fortaleza, Mossoró, João Pessoa… cidades que não vivem situações alarmantes de seca. Quando falam de segurança hídrica, significa que a água vai para a onde ela já está concentrada”, rebate Luciano Silveira, da coordenação da Articulação do Semi-Árido (ASA), lembrando que, pela primeira vez, os defensores do projeto assumem que a população difusa no semi-árido continuará excluída.


     


    Mais debates


    Ao final das cerca de 5 horas de debates, foi tirado como encaminhamento que um novo debate para maiores esclarecimentos deve ocorrer no Senado. Além disso, uma comissão de senadores deve visitar o São Francisco em julho.


     


    “Hoje foi um dia de cidadania. Pena que está sendo depois das obras terem começado”, disse Dom Luiz ao agradecer a oportunidade. Em 2005, após o primeiro jejum de Dom Luiz em protesto contra a transposição, Lula havia se comprometido a debater o projeto antes do início das obras.


     


    Com informações de Renina Valejo – Cáritas



     


    Brasília, 14 de fevereiro de 2008.


    Cimi – Conselho Indigenista Missionário


    www.cimi.org.br


     


     

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  • 14/02/2008

    Carta de Repúdio – À Sociedade Brasileira e à Imprensa

     


    Nós, povos indígenas Pataxó Hãhãhãe e Tupinambá, juntamente com o apoio de outros povos e ONGs indígenas e indigenistas do Estado da Bahia, vimos, através deste, informar toda a sociedade e as autoridades competentes o motivo de nossa ocupação na Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), na capital da Bahia.


     


    É lamentável a situação dos povos indígenas em nosso Estado. A negligência da FUNASA e de alguns dos seus servidores está fazendo com que as comunidades indígenas tenham grandes perdas de seus parentes por falta de assistência e comprometimento com a saúde de qualidade para os povos indígenas, sobretudo porque as reivindicações que fazemos nesse momento já eram de conhecimento das autoridades do órgão citado e da Procuradoria Geral em Ilhéus-BA, desde 2000. Nenhuma providência foi tomada no sentido de solucionar os problemas, trazendo o agravante aumento de óbitos de pessoas de nossas comunidades.


     


    Por essas razões viemos a FUNASA para que as providências sejam tomadas em caratér de urgência, pois estamos revoltados com essa situação e só desocuparemos a mesma quando forem atendidas as nossas reivindicações. Nessa situação, assistimos os nossos direitos serem violados, assim como prescrito no art. Constitucional Art. 1, III da CF 88 que garante o pricípio da dignidade da pessoa humana e outras garantias constitucionais como o princípio da isonomia, pois ainda nos dias de hoje, somos discriminados e tratados como inferiores; e isso fere o que estabelece a nossa Constituição Federal de 1988, que garante um estado democrático de direito.


     


    Exigimos também que a Procuradoria Geral da República fiscalize, encaminhe e tome as providências cabíveis, pois não temos acesso à prestação de contas dos recursos que o Governo Federal repassa para as comunidades indígenas através da FUNASA, bem como a sua aplicação e gerenciamento.


     


    Gostarímaos de contar com o apoio da sociedade em geral no âmbito das nossa reivindicações.


     


     


    Atenciosamente,


     

    Povo Pataxó Hãhãhãe e Povo Tupinambá

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  • 13/02/2008

    Entrevista de Dom Erwin Kräutler ao jornal Santuário de Aparecida

    Entrevista – Jornal Santuário de Aparecida


    Deize Renó


     


    Dom Erwin Kräutler


    Bispo do Xingu


    Presidente do CIMI


     


     


    1) Muito já se disse sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, sobre a falta de fiscalização, o avanço dos madeireiros, etc. Ao mesmo tempo, o próprio governo federal dizia que nunca o desmatamento havia diminuído tanto na região. Agora, novos dados do Inpe surpreendem até o presidente da República. Como o senhor avalia essa situação? Quão grave é realmente o desmatamento na região amazônica?


     


    Não adianta fazer apenas comparações com os anos passados. Comemorava-se, por exemplo, a redução da taxa de desmatamento em 25% entre agosto de 2005 e julho de 2006. Resultou em uma sensação equivocada. Parecia vitória, mas na realidade não tínhamos nenhum motivo de festejar. Esse tipo de notícia aparentemente alvissareira me lembra a macabra constatação nos meios de comunicação que em determinada época morreram menos índios que em outra, dando assim a idéia que tudo está sob controle. Ora, se morre apenas um índio assassinado ou vítima do descaso da FUNASA é sempre um demais. Se há apenas um foco de incêndio na selva amazônica, é um demais!


     


    Agora somos informados de que segundo um levantamento do Inpe, de agosto a dezembro de 2007, „foram derrubados 3.233 quilômetros quadrados de floresta, dos quais 1.922 quilômetros quadrados em novembro e dezembro, quando normalmente não há desmate por causa das chuvas. É o governo que afirma que pode ser, no entanto, muito maior“.


     


    Segundo „Carta Maior“, o Ministro Nelson Jobim, da Defesa, após sobrevoar  em Rondônia regiões de fronteira com a Bolívia ao lado dos comandantes do 6º Batalhão de Infantaria de Selva, classificou de “escandaloso” o desmatamento que viu com os próprios olhos: “Eu achava que era exagero da mídia, mas não imaginava ver o que vi. Há um completo desconhecimento no resto do país sobre o que está acontecendo em Rondônia”, disse o Ministro. De volta à Brasília, Jobim anunciou que vai elaborar um relatório sobre o que viu na Amazônia.


     


    Importa verificar uma vez a extensão da floresta tropical que já tombou nos últimos anos e décadas e cedeu lugar a vastas pastagens ou ao monocultivo da soja. E dessas áreas seria ainda mais interessante publicar a percentagem já deteriorada. Mais cedo o mais tarde áreas que serviram ou servem hoje para a pecuária são abandonadas pois são totalmente esgotadas e logo mais a ameaça paira sobre outras terras da Amazônia.


    A marcha dos incendiários continua e se dirige à Terra do Meio. O final melancólico é aqui e acolá uma placa com oferta de venda de uma área que já não vale nada, produzindo apenas uma vegetação rasteira de ”espinhos e abrolhos“ (cf. Gn 3,18).


    Continuo a defender a tese de que é crime derrubar a floresta tropical em grande escala. A natureza reage e a estepe substituirá num futuro não remoto as selvas milenares.


    Segundo recentes cálculos de cientistas, em 2030 a metade da selva tropical da Amazônia terá sucumbido à agressão inescrupulosa do homem, se as derrubadas e queimadas continuam no ritmo de hoje. É uma previsão séria, mesmo que seja apocalíptica.


    A medida a ser tomada é a mais drástica possível. ”Parem com isso!“ ”Chega!” Não há meio termo! Já estamos no limite! Não se pode mais dar concessões!


    2) Até que ponto as atividades econômicas como produção de soja e pecuária interferem no desmatamento?


     


    A figura do módulo rural de 100 ha na Amazônia em que o agricultor apenas podia desmatar algo em torno de 20 ha foi uma ilusão desde o início. Chegaram os grandes fazendeiros e estes não se importaram com nada. Toda a mata de suas enormes propriedades foi e continua sendo sacrificada em toda a sua extensão. Até pouco tempo atrás uma região com a floresta em pé foi oficialmente considerada terra devoluta. Desmatar significava ”beneficiar”, ”valorizar” a área. Coisa espantosa! Assim aconteceu que fazendeiros simplesmente mandaram derrubar a mata em larga escala, só para mostrar que estão „beneficiando“ a terra com a finalidade de conseguir vultosos créditos de bancos que favorecem o „desenvolvimento“. Que inversão de valores! ”Desenvolvimento” se tornou sinônimo de derrubar, queimar, arrasar, matar.


    Na Amazônia, para a pecuária intensiva só servem os campos naturais nas extensas várzeas, mas não as regiões cobertas por florestas.


     


    3) Na prática, os órgãos competentes fazem “vista grossa” na fiscalização?


     


    Não iria chegar a tanto, afirmando que fazem „vista grossa“. Temos que distinguir entre o Governo e os órgãos executores de programas. Não hesito em denunciar o pouco caso e a omissão do „Governo“ que está mais preocupado em mostrar para o mundo suas „iniciativas“ contra os desmatamentos e as queimadas. Esmera-se em defender a „imagem“ do Brasil lá fora!


     


    Ao mesmo tempo o pobre Ministério do Meio Ambiente me é simpático. Defende com unhas e dentes o lar que Deus criou para tantos povos na Amazônia. Infelizmente este ministério é a „Geni da história“, longe de ter os poderes e os recursos financeiros para desempenhar adequadamente suas atribuições. A Ministra Marina sempre me pareceu uma „enteada“ do Governo, macérrima, símbolo vivo da desnutrição da pasta que ocupa. Está aí porque é do Acre e carrega consigo uma bagagem rica de engajamento em questões ambientais, de defesa da Amazônia. Mas na realidade, qual o alcance de um Ministério com tão minguados recursos. Todo mundo xinga o IBAMA! Mas o que pode fazer por exemplo o „IBAMA de Altamira“ no Pará sem o aparelhamento de que precisa para fiscalizar toda uma área do tamanho de um país europeu ou de um Estado brasileiro.


     


    Além do mais, os „executivos“ sérios do Governo e realmente comprometidos com a causa ecológica correm até risco de vida. É o caso de Roberto Scarpari, gerente do IBAMA em Altamira, homem que briga pela Amazônia. Passava merecidas férias no Rio. A Polícia retirou-o às pressas de circulação, pois descobriu-se a trama de uma simulação de assalto à mão armada contra ele. Há tempo está na mira dos madeireiros do Pará que o detestam. Matá-lo no Rio no contexto de um assalto dificilmente levantaria suspeitas sobre quem realmente encomendou o homicídio. Mas coitado! Qual é a infraestrutura, quais as ferramentas que possui para fiscalizar a área? O número de fiscais à sua disposição é para lá de insuficiente. Agora lhe deram um „helicóptero“! Parece brincadeira!


     


    4) Quais medidas o senhor sugere para conter o avanço do desmatamento? E por que elas são importantes?


    Se o atual Governo realmente tiver vontade política de conter o avanço do desmatamento, uma maneira de salvar o que resta da Amazônia é demarcar e respeitar à risca as áreas indígenas. Grande parte delas, especialmente na faixa de fronteira, não foi demarcada, embora a Constituição de 1988 tivesse determinado um prazo de 5 anos para tais procedimentos a partir da data de sua promulgação.


    Outra medida é a criação de reservas extrativistas e parques nacionais ou reservas florestais. Mas o que importa não é apenas um decreto que cria tais figuras que garantem a preservação. Nas reservas extrativistas torna-se necessário elaborar programas de acompanhamento das comunidades. Declarar uma área como „extrativista“ e depois deixar o povo que ali vive entregue à própria sorte, é no mínimo um disparate e causa desespero, a ponto de as famílias abrirem as reservas novamente para madeireiros sem plano de manejo e para outros saqueadores de plantão.


    O mesmo se diga em relação às áreas indígenas. Deixar as comunidades indígenas sem assistência alguma, a ponto de índios morrerem à míngua ou vítimas de desidratação é crime contra a humanidade.


    Reservas florestais só serão respeitadas se a fiscalização é confiável e funciona, Mais uma vez levanto a voz exigindo que o Governo aparelhe o IBAMA e dê condições ao Ministério do Meio-Ambiente para deixar de ser um organismo apenas „para inglês ver“, na realidade, porém, ineficiente e impotente.


    Também está na hora de deslanchar um processo de educação ambiental nas escolas, universidades e nos meios de comunicação, com programas interdisciplinares que alertam ao povo sobre a responsabilidade que a atual geração tem em relação as futuras gerações. Nossa geração, infelizmente, se comporta como se fosse a última.


    5) Qual o impacto desse desmatamento às populações de baixa-renda e aos indígenas?


     


    Os povos indígenas morrem, se morre o lar em que vivem. Os ribeirinhos morrem quando não há mais mata e ainda, por cima, os rios estão poluidos. A agropecuária é sustentada pelos agro-tóxicos, que poluem os mananciais e contaminam os alimentos. O espectro da morte nos rodeia a todos!


     


    6) Qual o impacto do desmatamento para o Brasil e para o mundo?


     


    A Amazônia possui 1/5 da água doce do planeta. É o maior banco genético da Terra. Até hoje não se tem ainda conhecimento pleno da quantidade de espécies vegetais e animais que nela existem.


     


    Não quero apelar para a tese de uma „Amazônia pulmão do mundo“. Não é por aí. Os cientistas concordam que a Amazônia „presta serviços ambientais ao Brasil e ao planeta“ e é um fator muito importante „na regulação da temperatura do planeta“. Mas não podemos esquecer também a função oxigenadora do mar. No entanto, a destruição da Amazônia contribuirá enormemente para as mudanças climáticas. As queimadas na Amazônia são a maior contribuição brasileira para aquecimento global. De acordo com a ONG „Iniciativa Verde“, as queimadas respondem por aproximadamente 70% das emissões brasileiras de gases do efeito estufa. „É inadmissível que o país tenha essa postura indolente em relação a um crime ambiental dessa monta”, reivindica o diretor de Iniciativa Verde, Osvaldo Martins.


     


    Não se trata de „engessar“ a Amazônia, colocando-a dentro de uma redoma. Trata-se antes de deixar de confundir „desenvolvimento“ com derrubadas e agressões à natureza e uma exploração insaciável, um verdadeiro saque às riquezas naturais em detrimento irreversível das futuras gerações.


     


    É papo furado a história da internacionalização da Amazônia. A soberania brasileira sobre a maior parte da Amazônia, ninguém duvida dela. Quem realmente poderia deixar de reconhecê-la? Mas se o Brasil não assumir decididamente o compromisso de defender esta Amazônia e não pôr um freio nesta devastação inescrupulosa, as futuras gerações acusarão o Brasil de vilão da história, de ter sido responsável por uma desgraça que ultrapassou as suas fronteiras e pôs em risco a sorbrevivência do gênero humano neste planeta.


     


    7) O Documento de Aparecida destaca a preservação da Floresta Amazônica. Quais instrumentos a Igreja da América Latina, principalmente a brasileira, dispõe para frear o desmatamento?


     


    O número 85 do Documento de Aparecida relata que o Papa Bento XVI chamou a atenção sobre a devastação ambiental da Amazônia e pediu aos jovens „um maior compromisso nos mais diversos espaços de seus povos“. Em seu discurso no Estádio do Pacaembu em São Paulo o Papa partiu de nosso Hino Nacional em que cantamos „os nossos bosques tem mais vida“. De fato, um dos compromissos de Aparecida é „criar nas Américas consciência sobre a importância da Amazônia para toda a humanidade“ (DA 475).


     


    Não cabe à Igreja elaborar programas de contenção do desmatamento e de fiscalização. A missão da Igreja é e continua sendo a conscientização e sensibilização do povo brasileiro e de seus governantes em relação à Amazônia. E neste sentido a Campanha da Fraternidade de 2007 foi um sucesso do Juí ao Oiapoque. O sistema capilar das comunidades espalhaldas por este País afora foi, durante toda a quaresma, palco de meditações e tomadas de posição em favor da Amazônia.


     


    Faço questão de citar aqui o meu grande e venerando amigo e irmão, o bispo emérito de Piracicaba, Dom Eduardo Koaik, que num artigo relativo à Campanha da Fraternidade de 2007 sintetizou magistralmente papel conscientizador da Igreja no Brasil: „’Amazônia e Fraternidade’ é um tema-desafio, apresentado como “um convite para que se conheça, se aprecie e se respeite toda a vida que a Amazônia guarda: seus povos, sua biodiversidade, sua beleza” (Texto-Base, nº 3). O que é mesmo a Amazônia? Uma dádiva de Deus de todo tamanho nas mãos do Brasil. A Campanha em seu favor é a favor de toda a humanidade. É um grande apelo, por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), contra a devastação de suas florestas, contra a ameaça à sua exuberante biodiversidade, contra a ocupação de suas terras em flagrante desrespeito ao ecossistema. Ser contra a prática de todas essas formas de violência é a única maneira de proteger esse riquíssimo patrimônio natural“ (Dom Eduardo Koaik, 27.02.2007).


     


    Fui um dos delegados da CNBB ao ‚“Sínodo da América“ em 1997 convocado pelo Papa João Paulo II. Considerei aquele evento um „kairós“ para falar da já macabra realidade amazônica e minha proposição foi literalmente inserida na Exortação Apostólica pós-sinodal „Ecclesia in America“ do Papa João Paulo II sob o número 25:  « E Deus viu que isto era bom » (Gn 1, 25). Estas palavras que lemos no primeiro capítulo do livro do Gênesis, oferecem o sentido da obra realizada por Ele. O Criador entrega ao homem, coroação de todo o processo criador, o cultivo da terra (cf. Gn 2, 15). Daí nascem para cada indivíduo específicas obrigações no que diz respeito à ecologia. O seu cumprimento supõe a abertura para uma perspectiva espiritual e ética que supere as atitudes e « os estilos de vida egoístas que acarretam o esgotamento das reservas naturais .Também neste setor, de tanta atualidade hoje em dia, a intervenção dos fiéis crentes é muitíssimo importante. É necessária a colaboração de todos os homens de boa vontade com as instâncias legislativas e governamentais, para conseguir uma proteção eficaz do ambiente, considerado como dom de Deus. Quantos abusos e prejuízos ecológicos não há inclusive em muitas regiões americanas! Pense-se na emissão descontrolada de gases nocivos ou no dramático fenômeno dos incêndios florestais, provocados por vezes intencionalmente por pessoas movidas por interesses egoistas. Estas devastações podem conduzir a uma real desertificação em muitas zonas da América, com as inevitáveis conseqüências de fome e miséria. O problema chega atingir especial entidade na floresta amazônica, imenso território que interessa a várias nações: do Brasil à Guiânia, ao Suriname, à Venezuela, à Colômbia, ao Equador, ao Peru e à Bolívia. Trata-se de um dos espaços naturais mais apreciados no mundo pela sua diversidade biológica, que o torna vital para o equilíbrio ambiental de todo o planeta ».


     

    Não faltam advertências e chamadas à atenção da Igreja. Infelizmente não surtem o efeito almejado. A ânsia por lucros imediatos, a ganância desenfreada parecem falar mais alto do que a preocupação com as consequências de empreendimentos nefastos que poderão prejudicar já a médio prazo toda a humanidade.

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  • 12/02/2008

    Organizações indígenas promovem evento para discutir Declaração da ONU

    Aprovada em 13 de setembro de 2007 pela Assembléia Geral das Nações Unidas, a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas é o tema das discussões promovidas por organizações indígenas, nos dias 13 e 14, no Hotel Nacional, em Brasília-DF.


     


    Um dos objetivos do evento, segundo Azelene Kaingang, do Warã Instituto Indígena Brasileiro, é discutir como os avanços propostos pela Declaração podem ser incorporados pela legislação brasileira. O documento é um importante instrumento para a defesa dos direitos dos povos indígenas em todo o mundo. Nele são colocados direitos como à livre determinação dos povos indígenas; à terra, aos territórios e aos recursos naturais; ao consentimento prévio, livre e informado; às normas não escritas que regem internamente a vida das comunidades indígenas; o direito de propriedade intelectual. Representantes de diversas organizações de países da América Latina participam das discussões.


     


    Em entrevista coletiva concedida hoje (12), Juan Leon Alvarado, indígena maya-quiché, embaixador da Guatemala no Equador e ex-presidente da Comissão da OEA que discute a Declaração Americana sobre os direitos dos povos Indígenas, falou do significado da Declaração da ONU para os povos de todo o mundo: “pela primeira vez, os povos indígenas são reconhecidos como sujeitos de direitos individuais e coletivos em seus Estados e internacionalmente. Em segundo lugar, a Declaração representa um avanço na legislação com a criação de novas normas que reconhecem os direitos coletivos. Também é um importante instrumento de autovaloração e auto-estima dos povos que antes não se sentiam respaldados em suas manifestações e reivindicações. Posso dizer ainda que a Declaração é um guia de como as democracias, os Estados devem respeitar os povos indígenas”.


     


    Um dos maiores desafios para a implementação da Declaração no Brasil segundo Conceição Piitaguary, da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), é conseguir fazer com que as informações cheguem às comunidades.  Na tentativa de auxiliar a solução desta questão, foi lançando, durante a coletiva, o livro “Um olhar Indígena sobre a Declaração das Nações Unidas”. O livro, publicado por organizações indígenas como o apoio da Oxfam e União Européia, é uma versão em português do documento com textos que esclarecem os significados dos artigos contidos na Declaração.


     


    O evento é organizado pela Apoinme, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Conselho Indígena de Roraima (Cir) e Warã.


     


     


    Contatos:


    Paulino Montejo, assessoria de comunicação da Coiab e do Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas (FDDI)

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  • 12/02/2008

    Homenagem a Dom Pedro Casaldáliga

    Dom Pedro Casaldáliga, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), completa 80 anos no dia 16 de fevereiro. Trabalhando desde 1968 na região, foi ordenado bispo em 1971. Ao enfrentar a ditadura da época e os grandes latifundiários, sofreu vários atentados, mas conquistou forte reconhecimento pela forma eloqüente de defender a vida e os direitos dos menos favorecidos. Importante defensor da causa indígena, participou da fundação do Cimi em 1972.


     


    Segue abaixo uma homenagem de Paulo Suess, assessor teológico do Cimi, a Casaldáliga.


     


    Homenagem a Dom Pedro


    80 anos ultraleve de Deus


     


    Profeta, posseiro


    do tempo que aras


    com pena de poeta


    e asas de ultraleve.


     


    Missionário místico,


    maracá do Reino,


    mártir de raspão,


    testemunha sempre.


     


    Peregrino das Américas,


    veleiro em alto-mar


    onde paz e tempestade


    se abraçam no perdão.


     


    Sinal de contradição,


    sino de esperança


    desde o mundo indígena


    badalando indignação.


     


    Irmão dos pobres,


    raiz com asa


    cata-vento de Deus


    romeiro sem casa.


     


    Trigo perdido


    na margem do Araguaia


    utopia nas encruzilhadas


    da memória do povo.


     


    Apareceste entre os humanos


    em tempo de vacas magras,


    lutaste para virar o mundo,


    ao avesso, para todos.


     


    Trocaste a carreira pelo Caminho,


    a correria pela caminhada,


    o grito pela canção –


    Quixote e Macunaíma.


     


    Lutaste por terra para viver,


    sonhaste vinho para todos


    e pão – como tua vida –


    consagrado, repartido.


     


    Das pedras fizeste


    caminhos e pontes,


    das perdas e dores


    novos horizontes.


     


    Pedro, divina energia


    pedra preciosa


    dom de Deus,


    presente, Eucaristia.


     


     

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  • 12/02/2008

    Lideranças indígenas acampam no polo de saúde de Feijó (Acre)

    Caros companheiros/amigos


     


    É com tristeza que informamos a vocês que os povos indígenas de Feijó, num total aproximado de 250 indígenas, estão acampados no Pólo Base de Feijó desde ontem, 12 de fevereiro, protestando contra a política de saúde adotada pela Prefeitura de Feijó com a conivência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa).


     


    Por muito tempo, os povos indígenas esperaram que as autoridades constituídas cuidassem para que a saúde chegasse às suas comunidades, pois sabiam que recurso financeiro existia na prefeitura, vindo diretamente dos cofres da União exclusivamente para esse fim – um montante mensal de mais de R$ 91 mil fora outros R$ 15 mil que a prefeitura recebe mensalmente como incentivo. Logo, cuidar para que os índios tenham saúde não era nem um favor prestado pela prefeitura, já que esta recebe recursos para isso.


     


    Com os recursos em Feijó, os procedimentos deveriam ser menos burocráticos. Porém, a má vontade da administração municipal aliada à antipatia do prefeito aos indígenas e à omissão da coordenação da Funasa tem feito as coisas ficarem cada dia pior, tanto que há mais de um ano o Movimento Indígena reivindica a retirada do recurso da prefeitura.


     


    Segundo as lideranças indígenas, eles já estão cansados de reivindicar o cumprimento dos seus direitos. Não agüentam mais ver seus parentes sendo socorridos apenas quando estão em estado terminal, indo para Rio Branco em uma maca e voltando dentro de um caixão.


     


    Dentre as reivindicações que eles tem feito e que agora reafirmam estão:


     


    – Liberação do recurso para que a equipe multidisciplinar realize as viagens para as áreas, evitando o fluxo de índios na cidade, que vêm doentes e acabam voltando ainda mais doentes;


     


    – Adequação do pólo base de saúde para que possa abrigar os pacientes em recuperação antes de voltarem para suas áreas e construção de uma casa de repouso e recuperação na aldeia Morada Nova;


     


    – Estrutura para atuação dos auxiliares de enfermagem nos pontos estratégicos do Alto Rio Envira;


     


    – Melhoria do sistema de comunicação e transporte nas comunidades;


     


    – Saneamento básico;


     


    – Reconhecimento do administrador que foi nomeado pelas lideranças e que é ignorado pela administração municipal;


     


    – Melhoria da estrutura para a equipe multidisciplinar;


     


    – Prestação de contas do recurso para a saúde indígena dede o início da vigência do Convênio (sempre que fazem solicitação de despesa baseada no planejamento das atividades de saúde existe a alegação de que não existe recurso).


     


    São muitas as reivindicações e reclamações que eles têm feito ao longo de muitos anos. Sobre aos pedidos encaminhados ao chefe do Distrito de Saúde Especial indígena (Dsei) do Alto Juruá, ele que dizia que já estava providenciado a transferência dos recursos para outra prefeitura ou o atendimento das reivindicações pela prefeitura de Feijó. Porém, o Movimento Indígena nunca tomou providências mais enérgicas. Agora chegaram ao limite de tolerância e querem intervenção do Ministério Publico para obrigar a prefeitura e a Funasa a cuidar com mais zelo da saúde dos povos indígenas.


     


    É lamentável o sofrimento de crianças, mulheres grávidas e pessoas doentes devido à omissão e ao descaso com a vida humana.


     


    No pólo base, as condições são mínimas para abrigar por muito tempo um montante de gente como o que lá está. Sem comida, água e condições sanitárias, não sabemos por quanto tempo eles vão agüentar. Esperamos sinceramente que o desfecho seja satisfatório e que seja garantida a vida dos povos indígenas de Feijó.


     


    Atenciosamente,


     


    Equipe do Cimi Feijó

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  • 11/02/2008

    Carta aberta aos ministros do Conselho Nacional de Biossegurança


    11/02/2008



     


    Excelentíssimos Senhores Ministros,


     



    A liberação comercial de plantas transgênicas é tema altamente controverso por envolver a um só tempo questões ligadas à produção e ao consumo de alimentos, à segurança e soberania alimentar, ao meio ambiente, à saúde, à dependência tecnológica, ao acesso aos recursos genéticos e aos direitos dos agricultores. Esses são motivos de preocupação que vêm motivando a sociedade civil brasileira organizada a debater e se posicionar sobre o tema em seus diferentes espaços de articulação.


     


    Com a proximidade da reunião do Conselho Nacional de Biossegurança no dia 12 de fevereiro e com a anunciada decisão governamental acerca da liberação comercial do milho transgênico, faz-se necessário recapitular e reiterar algumas dessas manifestações contrárias à liberação do milho transgênico na expectativa de que elas encontrem ouvidos sensíveis neste governo:


           Em outubro de 2007 o Comitê de Agroecologia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável – CONDRAF decidiu por encaminhar uma Moção Contra a Liberação Comercial do Milho Transgênico ao Presidente da República, ao CNBS e à CTNBio. No manifesto, os 20 signatários, representantes de setores governamentais e não-governamentais e dos movimentos sociais, destacaram que o milho é alimento de uso diário da população brasileira e que a impossibilidade de coexistência causará enormes prejuízos aos mais de 4 milhões agricultores familiares e tradicionais do País. Por fim, solicitaram aos Ministros que compõem o Conselho Nacional de Biossegurança “Que revoguem imediatamente as decisões da CTNBio de liberação comercial do milho transgênico”.


     


     


           Um mês antes, em 05/09/2007, os movimentos sociais e entidades que compõem o Fórum Nacional da Reforma Agrária e Justiça no Campo encaminharam carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertando que a liberação do milho transgênico pode destruir a agricultura familiar camponesa do país. “Nosso país não pode se submeter à força do poder econômico dessas corporações. Não podemos aceitar que controlem nossas sementes”.


     


     


           As preocupações com a liberação do milho transgênico também partiram do meio acadêmico. Professores da PUC-SP enviaram Carta Aberta ao MCT (17/04/2007) considerando que os procedimentos adotados pela presidência da CTNBio e pela maioria dos seus membros em relação à liberação do milho transgênico são incompatíveis com a democracia e com uma ciência responsável.


     


     


           Professores da USP também divulgaram carta aberta à comunidade científica e à CTNBio em 13/03/2007. Com a iminência da liberação do milho transgênico, os signatários solicitaram providências com relação à falta de definição de regras claras para liberação de sementes transgênicas para o uso comercial e criticaram a presidência da CTNBio, que reiteradas vezes utiliza-se do argumento da autoridade científica dos membros como garantia da legitimidade das decisões. Cópia da carta foi enviada ao Presidente da República, à Procuradoria Geral da República do Ministério Público Federal e às presidências da Câmara do Deputados e do Senado Federal.


     


     


           A maneira anti-científica como a CTNBio encaminhou as discussões para a aprovação das regras de coexistência e monitoramento pós-comercialização motivou 7 de seus doutores a deixarem plenário como forma de protesto (16/08/2007). Para esses conselheiros, “A CTNBio necessita debater a biossegurança e não somente pleitos da biotecnologia”.


     


     


           A preocupação com a liberação do milho transgênico está presente nas diferentes regiões do País. Os mais de 400 agricultores e agricultoras, estudantes e representantes de organizações ligadas à Articulação do Semi-Árido Brasileiro presentes ao IV Encontro Nacional da ASA-Brasil aprovaram moção se posicionando firmemente contrários às plantas transgênicas e ao projeto de agricultura representado pelo agronegócio. “Estamos demonstrando diariamente a viabilidade da agroecologia como forma de se promover o desenvolvimento do campo de forma a produzir alimentos saudáveis, em quantidade e respeitando o meio ambiente” (24/11/2006).


     


     


           No dia 14 de junho de 2007 o Conselho Nacional de Biossegurança recebeu um Manifesto Contra o Milho Transgênico, assinado por 111 entidades, redes, fóruns e movimentos sociais de todo o País, afirmando que sua liberação é uma irresponsabilidade da CTNBio, cuja maioria dos cientistas está comprometida com os interesses das empresas multinacionais. As entidades destacam a ausência de estudos sobre impactos à saúde humana, o direito de não plantar e não consumir transgênicos e a defesa da soberania sobre nossas sementes e sobre nossos alimentos para cobrar do CNBS a anulação da decisão da CTNBio.


     


     


           Para acelerar as aprovações comerciais, o governo editou uma Medida Provisória reduzindo o número de votos necessários na CTNBio. A medida foi fortemente criticada por mais de 80 organizações da sociedade civil de todas as regiões do País e por 81 deputados federais e 7 senadores que pediram veto a artigos do projeto de lei “para que a lei da impunidade não se sobreponha à de biossegurança, nem o lucro de poucas multinacionais ao interesse público” (13 de março de 2007).


     


     


    – Também o CONSEA – Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, ligado à Presidência da República, posicionou-se repetidas vezes de forma contrária à liberação dos transgênicos, sendo que o plenário da III Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional aprovou uma Moção Contra a Liberação do Milho Transgênico na qual aponta dados que colocam em dúvida perante a sociedade brasileira a conduta da CTNBio (05/07/2007).


    Outras manifestações recentes poderiam ser aqui listadas. Contudo, o mais importante é enfatizar o quanto essas preocupações se fazem cada vez mais presentes na nossa sociedade. Pesquisa de opinião do ISER apontou que 74% dos brasileiros preferem alimentos não-transgênicos.


     


    Senhores Ministros, confiamos que a responsabilidade dos cargos públicos a que vos foi confiada e o respeito ao meio ambiente e à biodiversidade, à saúde da população, guiarão vossa decisão. 


     


     


    1.      AAO – Associação de Agricultura Orgânica


    2.      ABA – Associação Brasileira de Agroecologia


    3.      ABCCON-MS  Associação Brasileira da Cidadania e do Consumidor do Mato Grosso do Sul


    4.      ABD – Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica


    5.      ABDSUL  – Associação de Agricultura Biodinâmica do Sul


    6.      ABED-CE – Associação Brasileira de Economistas Domésticos


    7.      ABIO – Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro


    8.      ABRAÇO-BA – Associação Baiana de Radiodifusão Comunitária


    9.      ABRANDH – Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos 


    10.     ABREA – Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto


    11.     ACOPA-PR – Associação dos Consumidores de Produtos Orgânicos do Paraná


    12.     ACV-RO – Associação Cidade Verde


    13.     ADEC-CE – Associação de Educação e Defesa do Consumidor


    14.     ADECON-PE – Associação de Defesa da Cidadania e do Consumidor


    15.     ADOCON/TB-SC – Associação das Donas de Casa, dos Consumidores e da Cidadania de Santa Catarina


    16.     ADOCON-SC – Associação Catarinense de Defesa dos Direitos da Mulher, Donas de Casa e Consumidor


    17.     ADOC-PR – Associação de Defesa e Orientação do Cidadão


    18.     ADUSEPS-PE  – Associação dos Usuários de Seguros, Planos e Sistemas de Saúde


    19.     AFES – Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade


    20.     AGAN – Associação Gaúcha de Nutrição 


    21.     AGAPAN – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural


    22.     AMAR – Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária  Paraná


    23.     AMAVIDA – Associação Maranhense para a Conservação da Natureza


    24.     AMPJ – Associação Movimento Paulo Jackson  Ética, Justiça, Cidadania 


    25.     ANA – Articulçação Nacional da Agroecologia


    26.     AOPA – Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia


    27.     APOINME – Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo 


    28.     APROMAC  – Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Cianorte  Paraná


    29.     ASA – Brasil  – Articulação do Semi-Árido Brasileiro


    30.     ASADEC-CE  – Associação de Apoio e Defesa do Consumidor


    31.     AS-PTA – Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa


    32.     ASSESOAR – Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural


    33.     Associação de Pequenos Agricultores da Comunidade São José (Santa Maria do Tocantins)


    34.     Associação de Pequenos Agricultores da Comunidade Soninho – APAS (Santa Maria do Tocantins-TO)


    35.     Associação Ecobé – Arroio do Meio – RS


    36.     Associação HOLOS  Meio Ambiente e Desenvolvimento


    37.     Broto Brasilis Associação para o Eco Desenvolvimento


    38.     CAPA Santa Cruz do Sul – Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor


    39.     CAPINA – Cooperação e Apoio a Projetos de Inspiração Alternativa


    40.     CDC- RN  – Centro de Defesa do Consumidor do Rio Grande do Norte


    41.     CEA – Centro de Estudos Ambientais 


    42.     CEDAC – Centro de Desenvolvimento Agroecológico do Cerrado


    43.     CEDEFES – Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva


    44.     Centro Ecológico IPÊ


    45.     Centro Nordestino de Medicina Popular


    46.     Centro Sabiá


    47.     CESE  – Coordenadoria Ecumênica de Serviço


    48.     CETAP – Centro de Tecnologias Alternativas Populares 


    49.     Comissão Pró-Índio de São Paulo


    50.     COMSEA – Itapiranga/SC – Conselho Municipal de Segurança Alimentar


    51.     Cooperativa Cedro


    52.     COOSPAT – MA – Cooperativa de Serviços, Pesquisa e Assessoria Técnica


    53.     COPATIORÔ Cooperativa de Serviço e Apoio ao Desenvolvimento Humano e Sustentável Atiorô  – Conceição do Araguaia-PA


    54.     CPT – Comissão Pastoral da Terra


    55.     CTA-ZM Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata-MG


    56.     DECONOR-SC – Comitê de Defesa do Consumidor Organizado de Florianópolis


    57.     ECOCOÊ – Soluções Ambientais


    58.     ESPLAR – Centro de Pesquisa e Assessoria


    59.     FASE – Solidariedade e Educação


    60.     FBOMS – Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais


    61.     FEAB – Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil


    62.     FEDC-RS  Fórum Estadual de Defesa do Consumidor


    63.     FETRAF-SUL – Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar


    64.     FIAN Brasil – Rede de Informação e Ação pelo Direito a se Alimentar


    65.     FNDC-BA – Comitê da Bahia Pela Democratização da Comunicação


    66.     Fórum Carajás


    67.     Fórum Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumidor


    68.     Fundação Cebrac


    69.     FVA – Fundação Vitória Amazônica


    70.     Greenpeace


    71.     Grupo de Ação Ambiental Vila Viva


    72.     Grupo Mamangava, PoA/RS


    73.     GTNA – Grupo de Assessoria em Agroecologia na Amazônia


    74.     IBASE – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas


    75.     ICONES-PA – Instituto para o Consumo Educativo Sustentável do Estado do Pará


    76.     IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor


    77.     INESC – Instituto de Estudos Socioeconômicos 


    78.     InGá – Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais


    79.     Instituto Equipe


    80.     ISA – Instituto Socioambiental 


    81.     ISPN – Instituto Sociedade, População e Natureza


    82.     MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens


    83.     Marcha Mundial de Mulheres


    84.     MDCCB  – Movimento de Donas de Casa e Consumidores da Bahia


    85.     MDCC-RS – Movimento das Donas de Casa do Rio Grande do Sul


    86.     MDC-MG – Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais


    87.     MMC – Movimento de Mulheres Camponesas


    88.     MPA – Movimento de Pequenos Agricultores


    89.     MST – Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra


    90.     Núcleo Agrário da Bancada do PT na Câmara dos Deputados


    91.     Núcleo Amigos da Terra/Brasil


    92.     Núcleo de Meio Ambiente do PT na Câmara dos Deputados


    93.     Pastoral da Criança  São Sebastião do Alto-RJ


    94.     PJR – Pastoral da Juventude Rural –


    95.     RAMA – Rede de Agroecologia do Maranhão


    96.     RAP-AL Brasil – Red de Acción en Plaguicidas y sus Alternativas para America Latina –


    97.     Rede Acreana de Mulheres e Homens do Acre


    98.     Rede Capixaba de Educação Ambiental


    99.     Rede de Intercâmbio de Tecnologias Alternativas


    100.    Rede Ecovida de Agroecologia


    101.    Rede Fitovida – Movimento Popular de Saúde Alternativa do Estado do Rio de Janeiro


    102.    Rede Social de Justiça e Direitos Humanos


    103.    Rede Virtual-Cidadã pelo Banimento do Amianto para a América Latina


    104.    SASOP – Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais


    105.    Sindicato dos Professores de Nova Friburgo e Região – RJ


    106.    Sindicato dos Sociólogos de São Paulo


    107.    Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Loreto-MA


    108.    SOS Amazônia


    109.    Terra de Direitos


    110.    Via Campesina Brasil


    111.    Vida Brasil -CE  Valorização do Indivíduo e Desenvolvimento Ativo

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  • 11/02/2008

    “Não vai acontecer. Pode escrever.”


     


    SEMI-ÁRIDO: Frei Luiz faz um balanço da greve de fome contra a transposição; gesto “despertou os movimentos sociais. Existe um ditado chinês que diz assim, ‘quando alguém aponta, os sábios olham para onde o dedo aponta e os idiotas olham para o dedo’. Já estava no 18º, 20º dia de jejum, e eles [governo] estavam altamente preocupados com a minha vida. Mas não olharam para onde o dedo apontava, e sim para o dedo, um bispo que estava morrendo.”


     


    Quem é.


    Frei Luiz Flávio Cappio nasceu em 1946, no dia de São Francisco de Assis, 4 de outubro. Paulista de Guaratinguetá, foi ordenado frade franciscano em 1971 e trabalhou por três anos na periferia de São Paulo (SP) pela Pastoral Operária. Há mais de três décadas, foi para o sertão nordestino apenas com a roupa do corpo. No dia de seu aniversário de 48 anos, iniciou uma peregrinação de 6 mil quilômetros da nascente até a foz do rio São Francisco, onde chegou exatamente no dia 4 de outubro de 1993. A experiência está retratada no livro “O Rio São Francisco – Uma Caminhada entre Vida e Morte”. Tornou-se bispo da Diocese de Barra (BA) em 1997, escolhido por não ter outro que se dispusesse a viver na região.


     


    da Redação


    Luís Brasilino e


    Tatiana Merlino


     


    No dia 20/01/2008, um mês após encerrar a greve de fome contra a transposição do rio São Francisco, o frei Luiz Flávio Cappio, bispo da Diocese de Barra (BA), fez um balanço dos 25 dias que passou sem se alimentar – “sem seqüela nenhuma, graças a Deus”. Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, ele aborda os pontos positivos e negativos do gesto, revive os momentos que encerraram o jejum e fala das perspectivas para os movimentos sociais: “continuar lutando”.


    Em fevereiro, ainda sem dia definido, as organizações voltam à Sobradinho (BA), local do protesto, para traçar as lutas para o restante do ano.


     


    Brasil de Fato – Qual balanço o senhor faz da greve de fome, como foi o apoio dos movimentos sociais, o dia-a-dia…


    Frei Luiz Flávio Cappio – Nós reassumimos o nosso jejum e oração porque quando terminamos a primeira manifestação (em outubro de 2005), um documento foi assinado por nós, representando a sociedade civil, e pelo presidente Lula, representando o governo, prevendo a abertura de um longo, profundo, transparente, sério e ético debate nacional sobre a transposição de águas do rio São Francisco. Durante esses dois anos, tentamos de todas as formas fazer com que esse acordo fosse levado adiante. Mas, infelizmente, a resposta do governo foi o início das obras utilizando o Exército. Diante dessa insensibilidade, assumimos nosso novo período de jejum; desta vez em Sobradinho.


     


    Como foi a solidariedade?


    Desde o momento em que chegamos a Sobradinho, vimos a imensa solidariedade dos movimentos sociais e, principalmente, da população ribeirinha. Causou a todos uma surpresa ver a adesão, a participação, a comunhão, o espírito fraterno da população de Sobradinho e também de Juazeiro (BA), de Petrolina (PE), do entorno da Bahia, dos Estados próximos, do Brasil e de fora. Foi muito lindo, vocês precisavam ver: o povo, na sua simplicidade, os movimentos sociais, nas diversas organizações. Depois o  pessoal das universidades, os indígenas, os quilombolas, os partidos políticos, as várias igrejas… Deu consistência e visibilidade ao gesto. Não fosse isso, nossa manifestação seria isolada, sem nenhuma representatividade. E foi justamente essa comunhão solidária e toda essa manifestação bonita de espírito de luta que fez com que o movimento e o gesto crescessem, apesar de todo o bloqueio da mídia.


     


    O senhor foi chamado de autoritário e fundamentalista. Como enxerga essas críticas?


    Vejo com naturalidade, porque quando você fustiga o leão com vara curta, ele mostra os dentes e as unhas. Acredito que essas críticas demonstram, primeiro, que estávamos mexendo com uma questão que dizia respeito à vida de muita gente e feria muitos interesses. E, segundo, que pessoas que tiveram esse tipo de comportamento, pronunciamento, é porque não conhecem nossa luta, nem a luta do rio, nem a luta do povo. Até perguntaria: com que direito nos chamariam de autoritário quando, durante dois anos, nós mendigamos, suplicamos, lutamos por todos os meios para que acontecesse aquilo que foi acordado. Estávamos apenas buscando algo que era o direito, que foi acordado, assinado. Então, eu diria: será que somos nós ou são eles os autoritários? Porque a resposta deles foi uma negativa e o início das obras utilizando o Exército. Não dou muito valor a esses tipos de críticas que são infundadas e não estão de acordo com a verdade dos fatos.


     


    Nesse ponto da abertura do diálogo, a resposta do ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) era sempre a de que, logo que assumiu o cargo (março de 2007), procurou entrar em contato com o senhor…


    Ele telefonou para mim dizendo para eu ir ao gabinete dele conversar, mas falei que não era eu e sim o coletivo. Estamos fazendo parte de uma luta que envolve muitos segmentos sociais. Então, disse que iria com a equipe de trabalho para conversarmos, por termos muitas dúvidas a dirimir, muitos pontos a questionar, mas dentro de um coletivo que esteja realmente a altura desse diálogo. Não uma conversa de gabinete regada a cafezinho e água gelada. É um workshop, uma sessão de trabalho, aí eu me disponho a dialogar. Não da forma que ele propôs, só nós dois.


     


    Como responder à crítica do presidente Lula que, no início da greve de fome, disse que, se fosse para escolher entre o senhor e 12 milhões de nordestinos, ficaria com os pobres?


    Ele incorre em duas premissas falsas. Em primeiro lugar, não são 12 milhões que serão beneficiados. Quem conhece o projeto sabe disso. Trata-se de uma propaganda falsa. A obra não é para a população, para democratizar a água, mas sim canalizar os recursos para um pequeno grupo empresarial nacional e transnacional interessado na produção de camarão em cativeiro, de frutas nobres para exportação e na construção de uma infra-estrutura hídrica para um parque industrial, o de Pecem, ao lado de Fortaleza. É esse o objetivo. Se eles estivessem realmente preocupados com a população, olhariam para os pobres onde o rio naturalmente passa. Moro na beira do São Francisco há 34 anos e, se caminhar a 500 metros da margem, vejo o povo passando sede. O maior complexo de açudes do mundo está no Nordeste brasileiro. Água em açudes em quantidade suficiente nós temos, o que precisamos é fazer com que ela chegue ao seu destino, ao povo das comunidades mais afastadas.


     


    E qual é a segunda premissa falsa?


    O governo já tem as alternativas. O projeto de transposição é economicamente absurdo, pois o governo tem, por meio da ANA (Agência Nacional de Águas), todo um complexo de alternativas mais baratas, ecologicamente sustentáveis e socialmente justas. E ainda existem as soluções da ASA para as zonas rurais. Se realmente estivesse preocupado com os pobres, origem da qual ele (Lula) faz parte, fez parte, olharia para essas alternativas.


     


    Como foi aquele princípio de negociação com o assessor da presidência Gilberto Carvalho?


    Interessante. Existe um ditado chinês que diz assim, “quando alguém aponta, os sábios olham para onde o dedo aponta e os idiotas olham para o dedo”. O que aconteceu naquele momento. Já estava no 18º, 20º dia de jejum, e eles estavam altamente preocupados com a minha vida. Mas não olharam para onde o dedo apontava, e sim para o dedo, um bispo que estava morrendo. “Vamos ver um jeito de criar uma situação para salvar as aparências e nos dirimir das responsabilidades de um possível cadáver episcopal”. Foi uma atitude emergencial, preocupada não com a causa da luta, mas com a vida do bispo que estava prestes a morrer e da imagem que isso causaria ao governo. Tanto isso é verdade que, desde o momento em que o STF (Supremo Tribunal Federal) votou a favor do governo, eles fecharam todas as negociações imediatamente. E no momento em que eu caio lá, em que cheguei ao meu limite e sou levado para a UTI, foi tudo encerrado. O problema não era o rio, o povo, era o bispo.


     


    Quando o senhor iniciou a greve de fome, qual era sua expectativa em relação à abertura de diálogo com o governo?


    Nosso desejo sempre foi o diálogo. Nunca negamos o diálogo, mas queríamos que fosse transparente, verdadeiro e aberto. E o que aconteceu? Não podemos sentar e fingir que estamos conversando quando, do outro lado, o Exército está trabalhando nas obras. Vamos sentar e nos respeitar: pára aquela obra, vamos dar uma trégua, essas foram as condições. Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho, que foi ameaçar a própria vida. O que mais eu tenho a dar quando a força dos meus argumentos não valem mais. Quem sabe minha vida possa valer alguma coisa? Então, foi essa a luta para fazer com que o diálogo acontecesse.


     


    O senhor pode falar um pouco do momento em que a greve de fome foi encerrada, quando na seqüência da decisão da Justiça, o senhor passou mal… Depois, o que aconteceu, e como foi tomada a decisão de encerrar?


    Eu não cheguei propriamente a essa decisão. Naquele momento, estava totalmente fora de mim, cheguei ao meu limite. De acordo com a convenção internacional de Malta, nesses momentos, os responsáveis diretos ou a autoridade competente devem tomar a decisão. No caso, o responsável era o meu médico, acompanhado pela minha família. Cheguei ao meu limite, não estava mais senhor das minhas ações. Eu, nos momentos de lucidez, tinha quase certeza que ia embora e estava muito em paz comigo. Tive uma experiência muito bonita, daquilo que São Paulo diz: “Viver é graça e morrer é lucro”. Eu estava tão desprendido de tudo, numa comunhão tão grande com Deus, que se eu tivesse partido naquele momento, partiria feliz. Estava bem, mas não queria morrer. Queria viver. Mas não tinha forças para me expressar, estava semi-consciente. Lembro do momento em que recebi a extrema-unção. Eu fiquei feliz de saber que fui levado para a UTI pelo médico, e não pela autoridade. E, quando voltei à consciência, ainda na UTI, pensei, o povo merece respeito e só vou parar o jejum depois que eu me comunicar com ele. Escrevi aquela carta final e ainda passei em jejum mais um dia, o 25º.


     


    Olhando para trás, quais os pontos positivos e negativos desse período?


    O grande ponto positivo de tudo isso foi que, de repente, os movimentos sociais e a sociedade acordaram. Só por isso valeu o gesto, porque o governo Lula representou muita esperança dos movimentos sociais e, ao mesmo tempo, na mesma intensidade que gerou esperança, gerou decepção. E o pessoal estava todo anestesiado, pensando “quem somos, o que queremos” e, de repente, um gesto assim joga todo mundo para cima. É a redescoberta da força dos movimentos sociais, da sua identidade, do para que viemos, quais são nossos objetivos, a importância de continuarmos lutando. Só por isso valeu. O ponto negativo é a grande insensibilidade do governo federal com o clamor do povo. Um governo que foi eleito pelas bases sociais desse país. Por causa deles que esse governo está onde está e, de repente ele dá as costas para os movimentos sociais e cospe no prato em que comeu.


     


    Como o senhor falou, o gesto despertou os movimentos sociais. Por um outro lado, isso não mostra uma certa fraqueza dessas organizações? (Em março, eles haviam montado um acampamento em Brasília – DF e em junho ocuparam o canteiro de obras da transposição em Cabrobó).


    Com toda certeza. O pessoal estava desarticulado. Havia um grande desânimo, e isso ajudou a alavancar os movimentos sociais.


     


    E as perspectivas?


    Continuar lutando. As lutas continuam e aí não é um jogo, quem ganha e quem perde, não estamos numa partida de futebol. A vida é muito mais complexa e as grandes conquistas, mais exigentes.


     


    O senhor acha que valeu a pena?


    Sempre vale, toda luta vale a pena. Muitas coisas bonitas, só aquele clima que criou naqueles dias…


     


    A transposição ainda pode ser barrada?


    Não vai acontecer. Pode escrever.


     

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  • 08/02/2008

    “Il Mondo che ci circonda” n.º 802

     


     









     “Il Mondo che ci circonda” n.º 802  Brasilia, 7  di febbraio del 2008  



     

























    SOMMARIO







     


    Leader del popolo Truká denuncia agressioni ed abusi perpretati da poliziotti


     


     


    Bilancio delle aree indigene nel 2007: delle 20 aree dichiarate, quattro sono state sospese


     


    Ailson dos Santos – Yssô, del popolo Truká, ha denunciato, per mezzo di una lettera divulgata ieri, (6/2) agressioni sofferte da lui e da suo figlio di 16 anni, praticate da poliziotti militari della cittá di Cabrobó (stato del Pernambuco). Ailson afferma che suo figlio é stato arrestato e picchiato da tre poliziotti senza uniforme, nel villaggio di Jatobazeiro, dove risiede. Suo figlio é stato accusato di dirigere uma moto senza possedere la patente.


     


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    Dopo il lungo periodo di paralisi durante il primo mandato del governo del presidente Lula (2003 – 2006), nel 2007, 20 aree sono state dichiarate come indigene. Nonostante questo avanzo, altre manovre e pressioni dei settori anti-indigeni nel Congresso e nella Magistratura hanno preso forza durante lo scorso anno e sono riuscite a sospendere gli effetti di 4 decreti ministeriali che dichiaravano le aree come indigene.


     



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    IL MONDO CHE CI CIRCONDA Nº 802


     


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