• 04/05/2010

    Cartilha para Entender a Criminalização dos Movimentos Sociais é lançada no Pará

    Movimentos sociais divulgaram no Pará, no último dia 27, a "Cartilha para Entender a Criminalização dos Movimentos Sociais". O objetivo da iniciativa é incentivar novos relatos de criminalização dos movimentos sociais para a elaboração de um dossiê sobre o problema.  Realizado de forma coletiva, o documento reúne depoimentos de organizações que sofreram alguma forma de repressão.

     

    A cartilha mostra que, para a criminalização dos movimentos, são tomadas ações que "vão desde a aplicação exorbitante de multas até proibições de passar em frente a prédios públicos".  De acordo com o documento, tais atitudes, baseadas no medo, "tão utilizadas em épocas de Estados totalitaristas, são difundidas de uma forma moderna e com todos os recursos da tecnologia que o dinheiro pode comprar na atualidade".

     

    Os movimentos sociais responsáveis pela iniciativa alegam que veículos de comunicação de massa, governo e grandes empresas usam a criminalização para "eliminar, de forma organizada, as possibilidades encontradas pela luta, restringindo-a tão somente ao plano das idéias ou de uma história passada".  A estratégia, conforme apontam, já foi usada contra várias culturas e povos que existiram ao longo da história.

     

    Na prática, são disseminadas informações que não levam em consideração as problemáticas geradoras de reivindicações das populações excluídas.  "As mensagens são sutis e buscam relacionar as condutas de protestos de trabalhadores como se fossem ações criminosas de grupos organizados que ameaçam a ‘ordem pública’", explica a cartilha.

     

    A propaganda também é apontada como uma ferramenta de manipulação utilizada pelas empresas.  "Rios de dinheiro são gastos com publicidades que disseminam a idéia de que ‘estão reflorestando’, que ‘o agronegócio faz bem para os negócios do país’, que ‘cuidar da saúde é investir em plano privado’, que existe ‘responsabilidade social’… e assim nos introduzem goela abaixo ideias que constroem um imaginário positivo de quem lucra à custa da manutenção das desigualdades", diz o documento.

     

    A cartilha foi produzida pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), em parceria com Movimento dos Trabalhadores (as) Rurais Sem Terra (MST), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimentos dos Atingidos (as) por Barragens (MAB), Intersindical, Conlutas e Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

     

    O lançamento oficial da cartilha aconteceu durante a programação do Seminário Nacional da Amazônia, promovido pelo Fórum Nacional por Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA), no Hotel Beira Rio.  A união dos movimentos sociais pretende somar esforços para "demonstrar que a organização e a mobilização popular não podem ser tratadas como atos criminosos, mas como necessidade e dever de todos que almejam uma mudança estrutural para o Brasil e para o mundo".

     

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  • 04/05/2010

    Guarani Kaiowá pedem apoio à cidade de São Paulo

    A gente vai perdendo a esperança e não sabe mais a quem recorrer”. Esta frase dita por Bráulio Armoa, liderança Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul, mostra o estado de espírito deste povo frente a tantos problemas que vêm sofrendo neste estado e a disposição que têm em buscar apoio em outras regiões.

     

    Por isso seis representantes deste povo estão chegando a São Paulo na próxima 5ª. feira, dia 7, para fazer contatos com grupos e entidades da capital paulista, para sensibilizá-los sobre a situação em que estão vivendo.

     

    Também nesta semana, em São Paulo, estão sendo julgados os assassinos de Marcos Veron, liderança indígena morta em janeiro de 2003, em Juti, no interior de Mato Grosso do Sul. Na ocasião, quatro homens armados ameaçaram, espancaram e atiraram nos líderes indígenas no assentamento, atingindo o cacique Veron, com 72 anos, que sofreu traumatismo craniano, morrendo logo a seguir. Por não haver isenção nos julgamentos envolvendo indígenas naquele estado, o Ministério Público Federal pediu que o processo fosse julgado na capital paulista.

     

    A violência no Mato Grosso do Sul não apenas continua, como tem aumentado. Em 2006 foram mortos 28 indígenas, em 2007, 53 indígenas, e em 2008, 42 pessoas.

    No ano passado dois professores indígenas desapareceram da aldeia, sendo que um deles foi encontrado morto. O segundo até hoje continua desaparecido.

     

    Estarão em São Paulo nesta semana, a partir de 5ª feira, familiares destes dois professores, além de representantes das aldeias Kurussu Ambá, onde no ano passado foram assassinadas duas lideranças, e representantes da aldeia Laranjeira Ñanderu, cuja comunidade foi despejada por ordem judicial e está acampada à beira da BR-163.

    O que se questiona agora é a falta de isenção do judiciário regional, que pouca sensibilidade tem para com estes povos originários, favorecendo de maneira sistemática os fazendeiros e pessoas ligadas ao agro-negócio.

     

    Estão sendo programados no pátio do Museu da Cultura da PUC-SP (dia 7, 6ª feira, às 19h. Rua Monte Alegre, 984, Perdizes, tel.: 3670 8331 / 8559), projeção do vídeo Terra Negada (CIMI MS) e debate com estas lideranças, aberto ao grande público, e uma fala das lideranças no Curso da Defensoria do Estado de São Paulo – A questão indígena: caminhos e desafios – no dia 8, sábado, às 9h (Defensoria da União, rua Fernando de Albuquerque, 155, Consolação, restrito aos participantes do curso).

     

    Organização: Conselho Indigenista Missionário do Mato Grosso do Sul e da Grande São Paulo (CIMI MS e SP), Pastoral Indigenista de São Paulo, Programa Pindorama da PUC/ SP, Museu da Cultura da PUC/SP e Núcleo de Estudos de Etnologia Indígena, Meio Ambiente e Populações Tradicionais (NEMA).

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  • 04/05/2010

    Leilão de Belo Monte: escândalo anunciado

    Por Lúcio Flávio Pinto *

     

    Em 1982 o milionário americano Daniel Ludwig decidiu não pagar a prestação que vencia do empréstimo japonês, de 200 milhões de dólares para a construção – no Japão – da fábrica de celulose e da usina de energia do Jari, de propriedade daquele que era então considerado um dos homens mais ricos do mundo.  Seria uma questão do mundo de negócios se o tesouro nacional não fosse o avalista da operação.  Uma vez constituída a inadimplência, o governo brasileiro teria que quitar a dívida.  E executar o devedor para ter de volta o seu dinheiro.  O problema é que Ludwig, pressentindo os prejuízos que teria e que não previu, não queria mais continuar à frente do Projeto Jari, que era seu desde 1967.  O desfecho da história seria uma heresia para o governo do general João Figueiredo: estatizar um empreendimento que era a vitrine da colaboração estatal com o capital estrangeiro.

     

    O ainda todo-poderoso ministro Delfim Neto entrou em ação.  Ele ligou para um grupo de empresários, sobretudo empreiteiros e banqueiros, que deviam favores ou benefícios do governo, e "convidou-os" a formar um consórcio para nacionalizar o super-projeto de Ludwig, até então cantado em prosa e verso.  O comando ficaria com o mineiro Augusto Antunes, amigo de Ludwig e que atuava na região desde a década de 50, associado à segunda maior multinacional do aço, a Bethlehem Steel, na exploração da jazida de manganês de Serra do Navio, no Amapá.  Esperto, Antunes ficou só para si com a coroa do espólio de Ludwig, a Cadam, empresa de caulim, a única que já era rentável.

     

    Não podendo dizer não a Delfim, os empresários entraram na sociedade.  Mas cada um ficaria com apenas 3% do capital e só integralizaria de imediato 10% dessa parcela.  Antunes ficaria com 40% e o controle acionário, mas não colocaria dinheiro vivo.  A integralização seria feita com a Cadam.  Como a principal atividade do projeto, a fábrica de celulose, era deficitária e assim continuaria por longo tempo, quem colocaria capital para valer?

     

    Ora, o BNDES.  Em seguida, quando o rolo cresceu, também o Banco do Brasil.  A soma das aplicações foi além de 500 milhões de dólares, sem retorno, porque a contrapartida dos bancos estatais foi receber ações preferenciais, sem poder sobre a administração.  Teriam apenas direito a preferência na distribuição de lucro, que nunca houve.  O dinheiro público não voltou até hoje e o empreendimento continuou privado, agora com o grupo Orsa, de São Paulo.

     

    Dos 23 empresários contatados por Delfim, apenas um foi ver com seus próprios olhos o negócio oferecido: sozinho, em vôo de carreira, o banqueiro Olavo Setúbal, dono do Itaú.  Na ida e na volta ao Jari, conversei com ele no aeroporto de Belém.  Setúbal disse, com tranqüilidade, que não entraria no consórcio.  Não havia rentabilidade.  Logo, não era de interesse para um empresário.  E não entrou.  Para não cometer a heresia de estatizar o Jari, o governo enfiou num buraco sem fundo meio bilhão de dólares para que os supostos donos continuassem a tocar o empreendimento.

     

    O leilão da hidrelétrica de Belo Monte tem muitos pontos de identidade com a "nacionalização" do célebre Projeto Jari, quase 30 anos atrás.  Também sem similitudes com a venda da Companhia Vale do Rio Doce, em 1997, um dos escândalos – talvez só superado pela privatização do sistema estatal de telecomunicações – do governo Fernando Henrique Cardoso.  A CVRD talvez também pudesse ser privatizada, para o bem da nação.  Mas nunca por aquele preço irrisório.  E jamais na íntegra, incluindo seu sistema logístico, que só se constituiu porque a Vale era estatal.  Em poder de uma empresa privada, não seria aceito nem nos Estados Unidos ou na Inglaterra dos nossos dias.

     

    O projeto de Belo Monte se tornou um monstro, um Frankenstein, depois de tantas mudanças, correções, ajustes e mistificações feitos nos seus 30 anos de história.  Começou como uma cópia do modelo de hidrelétricas no Brasil, com ênfase em Tucuruí, apenas com ligeiras correções e adaptações.  Consistia numa sucessão de seis barragens, uma delas, a de maior reservatório, para estocar água do Xingu e garantir sua energia média viável da maior das casas de forças, num rio com grande variação de vazão (diferença de mais de 230 vezes entre o inverno e o verão).

     

    O facão da índia Tuíra, passado no rosto do tecnocrata com o principal papel nesse enredo, o engenheiro José Antônio Muniz Lopes, encerrou essa etapa, em 1989, durante o Encontro dos Povos Indígenas em Altamira.  O Banco Mundial decidiu não mais financiar grandes barragens na Amazônia.  Fechou-se a grande porta de financiamento internacional, base de sustentação do "barragismo" no Brasil.

     

    Belo Monte parecia condenada ao esquecimento.  Mas em 2002 ela foi reapresentada com nova moldura: sem as demais barragens rio acima e com seu reservatório reduzido a um terço do tamanho original (de 1.200 para 400 km2), metade dele coincidindo com a área natural de inundação do Xingu à altura de Altamira.  Era a primeira grande hidrelétrica a fio d’água do Brasil, destinada a ser a terceira maior do planeta sem qualquer dos efeitos dramáticos de Tucuruí, que tem 3.100 km2.

     

    Mas sem o estoque de água da barragem de Babaquara, as 18 enormes turbinas da casa de força ficariam paradas, por absoluta falta de água, durante três meses e funcionariam a baixa potência por igual período.  A energia firme ficaria abaixo do nível recomendado, de 50%, podendo bater em pouco mais de 30%.  E havia ainda outro problema: o custo da transmissão da energia crescera tanto que se aproximou do custo da geração, relação inédita nesse tipo de orçamento.

     

    A preocupação com a imagem ambiental do projeto, abalada desde 1989, afetou a viabilidade técnica e econômica do projeto, que se tornou tremendamente complexo e inseguro.  A construção dos diques para conduzir a água por dois igarapés até a casa de força, num desnível de 90 metros e uma distância de 50 quilômetros, demanda um volume enorme de concreto e requer uma precisão tal para evitar vazamentos temerários diante das condições da área na Volta Grande do Xingu.  Uma barragem secundária foi concebida para manter a vazão pelo leito natural do rio, impedindo-o de secar, mas depois foram aduzidas turbinas a bulbo, que produzem – embora em muito menor quantidade do que as Francis da casa de força – com água corrente.

     

    A condução do projeto também se tornou descontínua.  Depois de ficar sob o controle total da Eletronorte, foi dividido entre a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, e a Chesf substituiu a estatal amazônica, sem condições financeiras, enquanto as duas empreiteiras privadas acabaram se desinteressando por apresentar o lance vencedor no leilão.  O consórcio que arrematou a concessão será incapaz de executar a obra, convicção a que se pode chegar apenas examinando as empresas que o compuseram.

     

    A expectativa de que o outro competidor seria o vencedor, por combinar construtoras experientes e habilitadas com grupos de consumidores intensivos de energia (como a Vale e a CBA), se frustrou por algum incidente de bastidores ainda não reconstituído.  A própria marginalia do leilão deve ter crescido tanto que, se chegar a ser revelada, desnudará provavelmente um escândalo de acertos prévios e cartas marcadas, o maior do governo Lula.

     

    A sofreguidão do presidente arrematou a sucessão de erros e irregularidades com a decisão de que, se tudo der errado, como está acontecendo, o governo assumirá sozinho o projeto, estatizando-o de vez.  As tinturas de privatização são tênues demais para que se acredite nelas.  O BNDES se dispõe a financiar 80% dos 19 bilhões de reais orçados para a obra, a Sudam já comprometeu isenção de 75% do imposto de renda e outros benefícios já se incorporaram à cesta de favores, com o objetivo de reduzir ao mínimo o risco do empreendedor.  Com tudo isso, a rentabilidade do negócio dependerá ainda da disposição do governo de ir além porque a obra poderá ultrapassar R$ 30 bilhões, nela ainda não está prevista a transmissão, e ficam pendentes detalhes técnicos que não podem ser minimizados diante da grandiosidade do projeto.

     

    Se ainda estivesse vivo e fosse ao Xingu ver o que estavam lhe oferecendo, o banqueiro Olavo Setúbal certamente voltaria de lá com a mesma convicção que trouxe do Jari.  O negócio só pode ir em frente com muito dinheiro público.  E quando isso acontece, sem uma diretriz firme, a história começa a feder.

     

    * Jornalista paraense.  Publica o Jornal Pessoal (JP)

     

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  • 04/05/2010

    Leituras de Veja – A reserva de mentiras

    A revista Veja destacou três repórteres para aquilo que deveria ser uma reportagem definitiva sobre a suposta ameaça de o Brasil ter seu território produtivo amputado por milhares de reservas de proteção ambiental e destinadas a grupos étnicos específicos.

    A publicação que mais vende no país chega a afirmar que "áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil".

    Segundo a revista, se a conta incluir ainda as cidades, os assentamentos para reforma agrária, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total do território proibido para "atividades produtivas" chegaria a 90,6% e os brasileiros do futuro teriam que se contentar em produzir numa área do tamanho de São Paulo e Minas Gerais.

    Tamanho nonsense, enunciado no início da reportagem, deveria bastar para afastar qualquer leitor com algum sentido de realidade. Mas Veja parece ter definitivamente aderido a alguma seita movida a alucinógenos pesados. E viaja no preconceito.

    Entrevista inexistente

    A revista afirma que existe uma organização altamente articulada que se dedica a congelar grandes fatias do território nacional, formada por organizações não governamentais e apoiada por antropólogos. Essa suposta "indústria da demarcação" seria a grande ameaça ao futuro do Brasil.

    O texto embrulha no mesmo pacote reservas extrativistas da Amazônia – onde a produtividade econômica é muitas vezes superior à da pecuária, gera mais emprego e produz e distribui mais riqueza –, não diferencia áreas de proteção de áreas de exploração restrita, confunde conceitos antropológicos e inventa pelo menos uma declaração.

    O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, distribuiu no sábado (1/5) uma mensagem na qual garante que a citação de uma frase sua por parte da revista é uma completa mentira.

    Para fundamentar uma de suas afirmações, Veja atribui ao antropólogo a frase segundo a qual "não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original". Castro assegura que não deu a entrevista, que não pensa assim e que considera a reportagem "repugnante".

    Veja acaba de inventar a reserva de frases manipuladas.

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  • 03/05/2010

    Começa hoje julgamento dos acusados da morte de Marcos Verón

    Inicia hoje (3) o julgamento de três dos acusados do assassinato do líder indígena Marcos Verón, morto em janeiro de 2003. O julgamento foi transferido de Dourados para São Paulo para garantir a lisura e imparcialidade no julgamento dos responsáveis pelo assassinato. O que os familiares, a comunidade de Takuara, onde ocorreu a violência, e os Kaiowá Guarani do Mato Grosso do Sul esperam é punição exemplar dos responsáveis pela morte do líder indígena.

     

    O início do julgamento estava previsto para o mês passado, porém houve o adiamento por solicitação da parte dos réus. Na ocasião uma delegação indígena foi a São Paulo. Porém para esta nova data a Funai disse não ter recursos para possibilitar a presença de uma delegação indígena.

     

    O que os Guarani Kaiowá continuam se perguntando é porque mais de 200 membros de seu povo estão nas prisões do Mato Grosso do Sul, enquanto nenhum dos assassinos de suas lideranças estão na cadeia. Na década de 90 foram julgados e absolvidos os assassinos de Marçal de Souza Tupã’y  morto dia 25 de novembro de 1983. O julgamento foi em Ponta Porã, onde hoje estão se encontrando os presidentes do Brasil e Paraguai.

     

    Egon Heck

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  • 03/05/2010

    Lula e Lugo na fronteira

    Este dia 3 de maio não será um dia qualquer na fronteira do Brasil e Paraguai. Afinal de contas não é sempre que presidentes de dois países se encontram para discutir relevantes questões para a região, marcada por sérios problemas e controversos interesses.

     

    A região, particularmente no lado paraguaio onde foi decretado estado de exceção, está marcado por violências e assassinatos nos últimos dias. Dentre os assuntos anunciados na pauta consta a proposta de construção de uma linha de transmissão desde Itaipu até Assunción. O custo previsto de mais de 400 milhões de dólares será totalmente financiado pelo Brasil. Ou melhor recursos desembolsados serão feitos pelo BNDES, hoje o banco de maiores recursos em termos mundiais.

     

    E os Guarani onde ficam nessa história

     

    A região onde o Brasil já foi Paraguai, está sem dúvida marcada por uma realidade muito anterior à “grande guerra”, “genocídio paraguaio” ou “Guerra do Paraguai”, dependendo do ângulo de que é olhado o conflito histórico que levou a milhões de mortes na segunda metade do século 19. O fato é que bem antes da formação dos estados nacionais de Brasil e Paraguai, essa região era densamente ocupada pelo povo Guarani.  Povo estimado em dois milhões de pessoas, antes da chegada dos espanhóis e portugueses nessas terras. Recente trabalho de levantamento demográfico para a elaboração do mapa Guarani Retã, localiza mais de 500 comunidades Guarani orientais entre a província de Missiones, na Argentina, e o Mato Grosso do Sul, no Brasil. São aproximadamente 100 mil Guarani. Esse povo, o mais expressivo da América do Sul, é formado por quase uma dezena de povos, desde a Bolívia até o Uruguai, com uma população superior a 300 mil pessoas.

     

    O território Guarani é hoje palco de disputa dos grandes interesses econômicos ligados ao agronegócio da monocultura da soja, cana, milho, eucaliptos-pinus, além da tradicional pecuária, que só no Mato Grosso do Sul é constituído de mais de 22 milhões de cabeças de gado. Grupos multinacionais e nacionais estão ocupando vorazmente essas terras para implantação de grandes projetos. As últimas reservas de mata Atlântica estão sendo ameaçadas. Os últimos refúgios de mata dos Guarani estão sendo derrubados. Isso tudo em meio à omissão dos estados nacionais em garantir o mínimo de terra a esses povos. As tímidas iniciativas neste sentido acabam sendo ineficazes e atropelados pelos interesses e expansão dos interesses econômicos.

     

    Um dos temas anunciados na pauta entre os dois presidentes, é o relacionado à Itaipu. Nunca é demais lembrar como os Guarani foram escorraçados nos dois lados do Rio Paraná. Quando da formação do lago de Itaipu, pelo menos 32 comunidades Guarani tiveram suas terras inundadas do lado paraguaio. Foram transferidos para longe, em pequeno pedaço de terra de um pouco mais de 2 mil hectares. A promessa era de que teriam garantidos territórios onde pudessem viver com dignidade. Promessa até hoje não cumprida. Já do lado brasileiro, foram acomodados em poucos hectares de Terra. Ocoí, uma minúscula extensão de terra infestada por insetos, é o símbolo de como esse povo vem sendo tratado. Hoje existem vários acampamentos Guarani na região do Paraná. Um dos “benefícios” que a Itaipu fez foi comprar um pedaço de terra onde se estabeleceu a comunidade de Añetete, onde em fevereiro deste ano se realizou o Encontro dos Guarani da América do Sul.

     

    A região de fronteira está marcada pela violência agravada pelo narcotráfico e contrabando de armas.  O Juiz Odilon de Oliveira tornou público essa realidade afirmando que já haviam sido identificados mais de 200 mil hectares como terras em mãos de narcotraficantes nesta região de fronteira no Mato Grosso do Sul.

     

     

     

    O que dirão os presidentes

     

    Os Guarani e os sem-terra, ou brasiguaios, pouco ou quase nada esperam desse encontro dos mandatários máximos dos dois países. Até porque dificilmente conseguirão fazer chegar suas vozes e seus clamores, pelo forte esquema de segurança e interesses que cercam os presidentes dos dois países. 

     

    A região está marcada pela violência. No Brasil, os Guarani estão submetidos a uma violência diária nos minúsculos confinamentos em que se encontram e nos acampamentos à beira da estrada. Os processos de identificação das terras continuam paralisados. A proposta do presidente Lula de comprar 5 mil hectares de terra para os Guarani no Mato Grosso do Sul,  para diminuir o problema , foi considerado um despropósito pelas lideranças Guarani na recente reunião do Conselho da Aty Guasu, realizada em Amambai.

     

    Já o presidente Lugo, cada vez mais envolto nas contradições em que foi se afundando, pouca força terá para cumprir as promessas feitas em sua posse, quando afirmou que a questão indígena seria uma de suas prioridades. E a Itaipu binacional, porque não se empenha em devolver pelo menos pequena parte das terras que a usina usurpou quando da instalação da obra?

     

    Os Guarani têm muito a dizer e exigir

     

    No Encontro de Añetete mais de 800 Guarani dos quatro países solicitaram: “garantia e respeito, a partir de mudanças das leis de fronteira, o livre transito cultural, de acordo com as tradições dos povos indígenas nas fronteiras entre Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia, compreendendo que para nós, povo Guarani os territórios étnicos e ancestrais sempre nos pertenceu – abertura das fronteiras”.  Neste mesmo encontro o ministro Juca Ferreira em sua breve fala destacou a importância dos Guarani na fronteira:  “Essa cooperação e essa presença dos povos indígenas nas proximidades das fronteiras, longe se ser um problema é uma solução para o Brasil. Para nós do Ministério da Cultura não temos nenhum medo, nenhum temor da presença dos povos indígenas e demarcação de seus territórios próximos à fronteira. Os povos indígenas têm direito, e além de direito eles são segurança para a estabilidade ecológica, social e política na medida em que  estabelecem relações afetivas com os parentes que vivem nos outros países”.

     

    Na Aty Guasu de Arroyo Korá, realizado no mês passado, os Guarani Kaiowá disseram: “Não entendemos por que continuam fazendo essas injustiças com o nosso povo. Estamos na região de fronteira. Para nós, essas decisões incentivam organizações criminosas na fronteira, de pistoleiros, traficantes de armas e drogas. A terra indígena demarcada traria mais segurança para a região de fronteira”.

     

     

    Leia também:

     

    Julgamento dos assassinos de Marcos Verón Kaiowá Guarani

     

    Egon Heck

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  • 03/05/2010

    Renasce Kurusu Ambá

    As crianças correm e brincam livres e alegres. As pequenas clareiras em meio à mata se tornaram parques de diversão e refúgio de plantações de milho, mandioca, abobora, feijão. O córrego corre limpo por entre as árvores. Em vários lugares a água brota como uma benção da terra. As “minas” saciam a sede de umas duas centenas de Kaiowá Guarani de Kurusu Ambá. A vida borbulha e se arrasta nas dezenas de “trilheiros” que vão ao rio, à roça, à mina.  Partem dos ranchos de sapé, ainda cheirando a novo e secando ao sol ou na sombra das árvores que os abrigam. É bonito ver a aldeia escondida na mata. É esperançoso e gratificante ver a teimosia e sabedoria guerreira fazer renascer a vida e o “teko” (jeito de viver ) Guarani em Kurusu Ambá.

     

    Já do outro lado, um mundo de terra pelada se estende ao horizonte a perder de vista. É a lavoura e seus donos “sojeiros” proclamando-se vencedores, pois conseguiram destruir a mata, sugam e destroem o solo, engordando contas bancarias e animais pelo mundo afora. É o modelo de produção, proclamado como progresso, baseado na monocultura extensiva, mecanizada. É o pé pesado no acelerador de potentes máquinas apoiadas pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

     

    Muita reza e luta

     

    Para o dia 26 de abril estava previsto o despejo da comunidade de Kurusu Ambá. Nas três vezes anteriores foram expulsos pelos pistoleiros. Deste vez, seriam removidos legalmente pela polícia federal, que já estivera no local fazendo o levantamento técnico necessário para execução do mandado. Mas havia um agravo no Tribunal Regional Federal, 3ª. Região, em São Paulo. Na Aty Guasu de Arroyo Korá, os Kaiowá Guarani decidiram marcar para essa data uma Jeroky Guasu, encontro de celebração e reza, como forma concreta de solidariedade com a comunidade.  Uma chuva torrencial se abate sobre a região. Falam até em tornado em Dourados, donde saiu um ônibus de indígenas, especialmente rezadores (Nhanderu e Nhandesi), para a celebração da solidariedade, resistência e memória de todos os lutadores que tombaram, especialmente os de Kurusu Ambá – Xurite, Ortiz, Arnaldo….

     

    Ao meio dia a informação de que a reintegração teria sido mantida pela justiça.  Apesar de tudo, continuava também mantida o Jeroky Guasu, na fronteira do Brasil com o Paraguai, no sul do Mato Grosso do Sul. Depois de algumas horas o alívio. O juiz-desembargador Silvio havia considerado justo o pleito do Ministério Público Federal, concedendo 90 dias para que a FUNAI desse os encaminhamentos legais necessários para a definição da terra indígena. Suspiro. Tempo precioso para exigir do governo federal que cumpra a Constituição e regularize a terra indígena.

     

    Omissões e cobranças

     

    Funai e Funasa alegaram a impossibilidade de estarem no local por se tratar de área de litígio, não podendo expor funcionários a riscos, uma vez que pistoleiros armados estariam no local. Desta forma a sexta básica foi deixada a mais de 10 km da comunidade e a Funasa prometeu assistência necessária também nessa distância, no posto de saúde da terra indígena Takuapery.

     

     

    Foram dias de muita celebração, da vida, da vitória, da memória. Afinal de contas mais de uma centena de lideranças religiosas e políticas, adultos e crianças chegaram a Kurusu Ambá. A Jeroky Guasu foi também um momento de se animarem na luta pelos direitos do povo Guarani e de denuncia forte das violências a que estão submetidos e omissões dos órgãos que deveriam estar resolvendo os problemas, especialmente da demarcação das terras.

     

     

    Dois dias antes do Jeroky Guasu, o recém criado Conselho da Aty Guasu, cujo objetivo principal é articular a luta pela terra e direitos Kaiowá Guarani, estivera reunido em Amambai. Nesta ocasião reafirmou a firme decisão de lutar de todas as formas para a urgente solução do grave problema da demarcação das terras e suas conseqüências, principalmente a violência nos confinamentos e dos acampamentos à beira das estradas. Neste encontro também foi relatado a entrega do documento ao presidente Lula, em Roraima e rejeitada a proposta que o presidente teria feito à liderança Kaiowá Guarani de comprar cinco mil hectares para assentar os acampados indígenas da região.

     

    Egon Heck – Coordenador Cimi Regional MS

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  • 03/05/2010

    Indígenas de Vilhena exigem melhorias por parte da Funasa

    Os povos indígenas de jurisdição do pólo base de Vilhena, estão reunido para discutir e exigir que a Funasa tome providências para resolver os problemas que atualmente vem atingindo a população indígena da região. A falta de assistência a saúde indígena, principalmente a falta de assistência na Casai em Vilhena, tem  preocupado muito as lideranças, pois foram muitas as promessas da Funasa e até o momento nada foi solucionado. E ainda, ao invés da Funasa executar as ações da saúde, o órgão solicitou a presença da Policia Federal para retirar os indígenas da Sede do Pólo base de Vilhena. Diante dos problemas, as lideranças indígenas solicitam as seguintes providências:

     

    1-A construção imediata do muro da Casai, para a proteção e integridade física dos pacientes indígenas;

     

    2-Que a Funasa promova a reforma da Casai de Vilhena;

     

    3-A Contratação imediata de médicos e enfermeiros para atender os paciente indígenas na Casai;

     

    4-Aquisição de colchões, cama hospitalar, cobertores, e medicamentos controlados para os pacientes indígenas que necessitam;

     

    5-Que a Funasa, providencie a ajuda de custo para os pacientes, quando os mesmo viajam para fazer o tratamento em outra cidade;

     

    6-Agilidade nos consertos dos veículos que atendem a Casai e as aldeias indígenas, para atender os casos de emergências nas aldeias;

     

    7-Promova a estruturação de um laboratório na Casai, para fazer especificamente os exames como: hemograma e outros tipos de exames;

     

    8-A exoneração da Chefe do Pólo base de Vilhena, Fernanda G. C. Pelizza;

     

    9-Que a Funasa providencie a construção e reformas dos postos de Saúde indígena nas aldeias;

     

    10-Providencia na instalação de uma linha telefônica fixa na Casai;

     

    11-Providências para realizar o saneamento básico nas aldeias;

     

    12-Ajuda aos parceiros com combustível para os veículos das comunidades que, muitas vezes, trazem os pacientes indígenas da aldeia para Casai;

     

    13-Garanta a aquisição de um micro-ônibus para atender os pacientes indígenas da Casai.

     

    Além das reivindicações, a previsão é ainda de chegar mais lideranças de outras aldeias, para continuar o manifesto no pólo de Vilhena, pois só sairão do Pólo quando  forem ouvidos e recebidos por Alda Uchoa – Coordenadora do Distrito de Saúde Indígena em Cacoal e o presidente do Conselho de Saúde Indígena, Nelsom Rikbatsa, que até o momento ainda não se manifestaram se vão ou não receber as lideranças indígenas.

     

    José Luis Kassupá

    Tesoureiro – CUNPIR

    Vilhena-RO, 29 de Abrilde 2010.

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  • 03/05/2010

    Enchentes aterrorizam povo Xokleng em SC

    Com a chegada do período chuvoso no sul do país, o drama de centenas de famílias Xokleng, no Alto Vale do Itajaí, vem à tona. As águas trazem uma história suja de barragens e progresso, contra povos indígenas e seu convívio harmonioso com a natureza

    Madrugada do dia 22 de abril. Fortes chuvas assolam a região sul do país. Em Santa Catarina, o volume de água atinge níveis alarmantes. O Rio Hercílio sobe, exigindo muito da estrutura da Barragem Norte, construída na década de 70 para conter as cheias que atingem várias cidades do Vale do Itajaí e para que não se repitam as tragédias ocorridas nos anos de 1983 e 1984 quando a cidade de Blumenau ficou completamente submersa.  

    Terra indígena La Klãnõ – Aldeia Palmeira, Alacok Patté dorme com seus filhos e netos em sua casa de alvenaria construída pela empreiteira responsável pela construção da barragem, como uma das tantas benfeitorias prometidas no Protocolo de Intenções. Alacok e sua família acordam apavoradas com o barulho do morro caindo sobre a porta de sua casa. “Com muita fé não aconteceu nada com gente. Mas para cá eu não quero mais voltar”, afirma a senhora, viúva do cacique Lauro, encontrado morto na estrada geral da aldeia. Cacique Lauro, como tantas outras lideranças, se mostrava insatisfeito com a construção da barragem.

    O Conselho dos Caciques e outras lideranças entraram em contato com a Defesa Civil, municipal e estadual, solicitando que fosse tomada alguma providência, mas não foram atendidos. “Se não for tomada uma providência pelas autoridades, o nosso posicionamento será outro, pois não podemos mais esperar”, afirma Setembrino Vomblê, membro do Conselho de Caciques.

    Para a liderança esses problemas acontecem, não somente por condições climáticas, mas pela falta de compromisso. “É tudo uma questão política”, diz. “Se fossemos 50 mil eleitores dentro da Terra Indígena, esse descaso não aconteceria. Em 1912 matavam a gente com arma de fogo, agora estão matando com caneta e computador. Tudo em nome da tecnologia, da evolução, do progresso. Entendemos o que é catástrofe. Mas aqui é falta de compromisso com o povo, é ganância”, desabafa.

    As fortes enxurradas cortaram estradas, impossibilitando inclusive o transporte escolar. “As crianças estão sem aula há uma semana, não sabemos mais o que fazer. É tudo tão difícil para a gente”, comenta a professora Margareth Patté.

    Seguindo os estragos do dilúvio, as águas também romperam o sistema de abastecimento. As sete aldeias Xokleng estão sofrendo com a falta de água. “Aqui está um caos e o governo vem falar de proteção ao meio ambiente. Eles estão acabando com a gente com essas barragens e usinas. Espero que o povo no Xingu entenda o nosso problema com a barragem e não aceite esse horrível Belo Monte”, alerta o cacique Setembrino.

    De acordo com o cacique, tem parente que precisa atravessar o rio de canoa, vendo troncos de árvores boiando bem perto da pequena embarcação. “Eu preciso rodar 200 km para sair da aldeia. E o prefeito diz que está tudo sob controle. Controle da água eu acho”, afirma. 

    Os Xokleng subiram para morar no alto, fugindo do espelho d’água, agora o céu desaba em cima de suas cabeças.

    Isolina Nunc-nfooro Jacinto, cacique da Aldeia Toldo, comunidade mais isolada da região, afirma que nunca viu tanto descaso. “O desrespeito é tão grande. Eu não sei que lei é a que pode resolver isso. E a gente briga, corre atrás, denuncia ao Ministério Público e não adianta nada. A pessoa chega ao seu limite. Quando começamos a quebrar tudo, ai vem nos dizer que somos selvagens. A defesa civil não vem aqui olhar a nossa situação. As aldeias vivem sem atendimento, as estradas estão cortadas e ficamos isolados do mundo. Saio de casa e não deixo data de quando volto”.

    Cansada com tanto pesar, Suzana Teiê, liderança da Aldeia Figueira protesta em tom de desabafo. “Índio pode morrer que ninguém atende. Ninguém fala dos índios, que estamos sendo prejudicados. Meu filho está doente há uma semana. Eu não consigo fazer nada. O problema dos Xokleng é muito sério. A Figueira está a ponto de cair”.

    Segundo o Cacique Geral do povo Xokleng, Aniel Priprá, essa enchente foi a maior dos últimos tempos e lembra dos problemas gerados por esse grande projeto. “Não foi feito nenhum estudo de impacto. Se o Ministério da Integração Nacional cumprisse com a sua palavra só iria amenizar. A barragem nos trouxe tanto mal. Perdemos nossa terra, um parte da nossa cultura, tradição e comunidade. Foram criadas 07 aldeias, antes era uma só, como uma grande família”, afirma o cacique.

    Após ofício nº 065.2010 da Procuradoria da República no município de Rio do Sul, responsável pela região, cobrando resultados à Defesa Civil, o prefeito resolveu decretar Situação de Emergência no município de José Boiteux. Entretanto não fora publicado, em virtude de não haver ninguém na prefeitura que sabia como fazê-lo.

    De acordo com dados do Departamento Estadual de Defesa Civil, o Estado de Santa Catarina possui até o momento, 60 municípios atingidos pelas enxurradas e 36 decretos de Situação de Emergência. Ao todo, 6.640 desalojados e 757 desabrigados. O número de afetados ultrapassa 160 mil pessoas.

    Povo Kokleng e a Barragem Norte

    “Foi embora a nossa riqueza. Temos muitas saudades dos Caités e Salseiros que ficavam enfeitando a beira do rio. Virou tudo um grande lamaçal, quando chove é enchente, quando seca é lama”, lembra Dona Isolina, completando com um olhar emocionado: “Dizem que o índio é saudosista. Muitos índios vivem doentes, com depressão, pois sabemos que não voltará a ser como era antes. O que mostraremos aos herdeiros do nosso povo ?

    A Barragem Norte, com capacidade para 358.000.000 m3 de água é considerada uma importante obra para conter as cheias que atingem várias cidades do Vale do Itajaí.

    Mais de 900 hectares de terra fértil do Povo Xokleng foi submerso com a construção da Barragem Norte, no final da década de 70.

    A Justiça Federal já condenou a União e o Estado de Santa Catarina a cumprirem o Protocolo de Intenções assinado em janeiro de 1992 para a compensação dos prejuízos ao povo Xokleng, em função da ocupação de parte de suas terras pela bacia de acumulação da Barragem Norte.

    O processo de ampliação de limites segue estacionado, ainda não houve compensação territorial das áreas perdidas com a barragem e os Xokleng continuam habitando as encostas.

    * foto – Diego Janatã

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  • 01/05/2010

    Belo Monte goela abaixo: da Ditadura aos dias de hoje

    A vila de Belo Monte se localiza nas proximidades do rio Xingu, Estado do Pará, no coração da selva amazônica, próxima à cidade de Altamira.  É ali que o governo brasileiro pretende construir uma das maiores hidrelétricas do mundo, também com o nome de Belo Monte, realizando um projeto do tempo da Ditadura Militar, que data dos anos 70.

     

    Originalmente, o plano previa a construção de cinco usinas na região.  Desde então, indígenas, ribeirinhos, ambientalistas e representantes da Igreja, que vivem no local, vêm lutando contra o projeto de Belo Monte.

     

    Em 1989, os índios realizaram o "Primeiro Encontro das Nações Indígenas do Xingu", que alcançou repercussão nacional e internacional.  Essa mobilização contou com o apoio do cantor Sting, que se uniu ao líder indígena Raoni na luta contra Belo Monte.  Pouco depois desse encontro, o Banco Mundial negou suporte financeiro ao projeto, fazendo com que fosse arquivado.

     

    Porém, o empreendimento não foi abandonado, e, 30 anos depois, a intenção de realizá-lo volta com toda a força.  O estímulo maior para que as obras, finalmente, saiam do papel, parte do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que incluiu a usina dentre os projetos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).

     

    Para acalmar a resistência popular a Belo Monte, o governo reduziu a proposta para a construção de uma única usina, ao invés de cinco.  Porém, estudiosos afirmam que a construção de uma usina é apenas uma etapa, e o projeto será financeiramente deficitário caso se limite a uma única barragem.  Aprovada e iniciada a primeira, o projeto das outras quatro viria necessariamente.

     

    Além disso, o volume de terra a ser retirado para formar os canais de uma única usina será tão grande quanto aquele escavado para a construção do canal do Panamá. Milhares de pessoas dos municípios de Altamira, Vitória do Xingu e Brasil Novo serão retiradas de suas terras compulsoriamente, e perderão a possibilidade de viver e obter meios de subsistência de acordo com seus costumes tradicionais.  Um terço da cidade de Altamira ficará submerso.

     

    Especialistas alertam para o fato de que o objetivo principal da energia gerada por Belo Monte será o de atender às necessidades das grandes empresas que já estão instaladas ou pretendem se estabelecer na região ou em suas proximidades.

     

    Se for construída, como pretende o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Belo Monte será a terceira maior usina hidrelétrica do mundo, com capacidade total instalada de 11.233 Megawatts (MW), dos quais somente uma média de 4.571 Megawatts (MW) terá geração assegurada, devido ao regime de cheias do rio Xingu.

     

    O custo total da obra deverá ser de R$ 19 bilhões, quantia que torna o empreendimento o segundo mais custoso do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), atrás apenas do trem-bala entre São Paulo e Rio de Janeiro, orçado em R$ 34 bilhões.

     

    Desrespeito à população continua

     

    Para garantir que projeto seja aprovado, o governo federal vem passando por cima de uma série de exigências: seriam necessárias 27 audiências públicas, mas foram feitas apenas quatro.

     

    Nesses encontros, os principais interessados, os indígenas, não tiveram acesso a informações suficientes sobre o projeto, ou tiveram acesso ao local dos debates dificultado.  Essa situação foi denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF), que, inclusive, chegou a pedir que as audiências públicas fossem anuladas, mas não teve esse pedido acatado.

     

    Para que a licença ambiental prévia fosse concedida pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) à obra, houve pressão sobre os funcionários do órgão.

     

    Dois deles, inclusive, deixaram o instituto no final do ano passado em função disso.  O Ministério das Minas e Energia (Edson Lobão) e o Ministério do Meio Ambiente (Carlos Minc) pressionaram para que a licença ambiental fosse concedida o quanto antes.  E isso, de fato, aconteceu no dia 1° de fevereiro deste ano.

     

    A Advocacia Geral da União (AGU), logo em seguida à concessão da licença, lançou uma nota – apoiada pelo Presidente da República – ameaçando processar os membros do Ministério Público que viessem a colocar em questão a licença concedida ou o próprio projeto.

     

    Essas investidas contrariam promessa feita por Lula, em julho do ano passado, durante encontro com movimentos sociais da região de Altamira e com o bispo da Prelazia do Xingu, Dom Erwin Kräutler. Na ocasião, o presidente afirmou que o projeto de Belo Monte não seria empurrado "goela abaixo" da população.

     

    Hoje, Lula faz críticas abertas às ONGs contrárias a Belo Monte, e informa que fundos de pensão poderão participar da licitação da obra.

     

    Além disso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) informou que facilitaria o empréstimo aos empreendedores da obra, apesar de questionamentos do MPF sobre essa conduta. O banco já foi avisado de que poderá ser co-responsabilizado por eventuais danos socioambientais de Belo Monte, caso insista em financiar o projeto, por meio de comunicado redigido por organizações não-governamentais.

     

    Tais atitudes também lembram práticas da Ditadura, período em que os militares construíram, de forma autoritária, grandes obras e projetos com importantes impactos socioambientais, como a inundação das Cataratas de Sete Quedas, a construção das barragens de Tucuruí e outras, a estrada Transamazônica, e a usina nuclear de Angra dos Reis.

     

    Essas obras foram realizadas, passando-se por cima da sociedade, dos povos indígenas, de populações ribeirinhas, dos atingidos por barragens e do respeito ao meio ambiente, todos vistos como obstáculos ao desenvolvimento.

     

    Impactos da obra

     

    O Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) da usina hidrelétrica de Belo Monte, apresentado pelos empreendedores, durante as audiências públicas, continha diversas falhas.

     

    Dentre os erros, foram indicados: a omissão de impactos socioambientais, falta de previsão sobre formas de compensar as famílias que serão impactadas pela obra e superestimação da energia e dos empregos que serão gerados pelo empreendimento.  As lacunas foram apresentadas por pesquisadores, Ministério Público e sociedade civil organizada.

     

    Um Painel de Especialistas, formado por 38 estudiosos dedicados a analisar o EIA/Rima da usina, identificou que impactos descritos no projeto subestimam as populações urbanas e rurais que serão afetadas pela obra e também desconsideram as conseqüências socioambientais do projeto no trecho do rio que terá sua vazão reduzida.

     

    Segundo os estudiosos, cerca de 3/4 ou 100 km da Volta Grande [do Xingu] serão submetidos a condições de uma falta de água severa com a construção da usina, o que irá prejudicar o aproveitamento do rio pela população local, para pesca e navegação.  Além disso, o empreendimento irá gerar o inchaço das cidades do entorno da obra, e não foram previstos recursos para a ampliação da oferta de serviços públicos nesses locais.

     

    Além de gerar desmatamento de 516 km² de floresta amazônica, que serão inundados com a construção da barragem, a obra, a partir da mudança da vazão do rio Xingu, levará à destruição da biodiversidade de fauna e flora existentes no trecho previsto para a instalação da usina.

     

    Por esses motivos, e também devido à falta de consulta prévia às comunidades indígenas que serão atingidas pelo empreendimento, Belo Monte foi denunciada à ONU por movimentos sociais e organizações defensoras dos direitos humanos.

     

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