• 19/10/2010

    Encontro Macro Regional Leste Nordeste discute os impactos dos grandes projetos junto aos povos indígenas

    Com o tema “Os grandes projetos e seus impactos junto às populações indígenas nos regionais Leste e Nordeste”, o evento reuniu cerca de 27 pessoas, entre lideranças indígenas e representantes do movimento indigenista

    Por Haroldo Heleno

    Os regionais Leste e Nordeste do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) realizaram no período de 14 a 17 de outubro, na cidade de Olinda, em Pernambuco, o Encontro Macro Regional Leste Nordeste, tendo como motivação maior a discussão sobre os impactos dos grandes projetos sobre as comunidades indígenas. O encontro contou com a presença de 27 participantes, entre eles as lideranças indígenas, Neguinho Truká, cacique do povo Truká em Pernambuco, e Cícero Tumbalalá, cacique e do Povo Tumbalalá na Bahia.

    Com o tema “Os grandes projetos e seus impactos junto às populações indígenas nos regionais Leste e Nordeste”, os participantes tiveram a oportunidade de refletir sobre os impactos causados pelas grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e outros empreendimentos, muitos dos quais já em curso e/ou em processo de concretização. Durante o encontro foram destacados a transposição do rio São Francisco e a construção de usinas hidrelétricas que afetam diretamente terras tradicionais e populações indígenas que vivem às margens do Velho Chico.

    A questão da monocultura (cana de açúcar, soja, algodão) também foram levantadas, em especial a questão da monocultura do eucalipto, que atinge principalmente os povos indígenas do Espírito Santo, Sul e extremo sul da Bahia, se expandindo também para o norte de Minas. A questão da exploração e extração de minérios, construções de estradas, portos, ferrovias, pontes e empreendimentos turísticos (hotéis, resorts, pousadas) também foram destacados.

    Nas questões das barragens deu-se destaque à construção das barragens de Pedra Branca e Riacho Seco, que afetarão em muito as comunidades Truká, em Pernambuco, e Tumbalalá, na Bahia. Para Neguinho Truká tais obras representam a morte dos povos indígenas. “Se estas barragens forem construídas, isso significará a morte dos 26 povos indígenas que sobrevivem na Bacia do São Francisco”.  Cacique Cícero tem a mesma opinião e acrescenta ainda que todos têm a perder com tais obras. “Todo mundo que esta em volta do rio perde, mas os povos indígenas perdem mais, pois além dos bens materiais, também perdemos bens imateriais, que não têm preço”.

    “Que desenvolvimento é este que eles falam, que só nos leva para o buraco?”, questiona o cacique do povo Tumbalalá. Ele ainda afirma que não é justo que os indígenas sofram de geração em geração pelos erros cometidos pelos homens brancos. Indignado com o descaso e a omissão do governo, a liderança Truká também desabafa: “O invasor (governo federal), aquele que deveria garantir os nossos direitos, nossa segurança, nossas vidas, são os que tentam a todo o momento nos destruir”.

    De acordo com um levantamento preliminar apresentado por Saulo Feitosa, secretário adjunto do Cimi, cerca de 426 empreendimentos atingem diretamente as áreas indígenas, sendo que 144 se referem a empreendimentos em recursos hídricos. Destes, 81 são pequenas centrais hidrelétricas, 44 usinas e 19 outros empreendimentos.

    Violência

    Relatos impressionantes de trabalho degradante e trabalho escravo levam muitas vezes os trabalhadores a reivindicarem melhores condições de trabalho. Os relatos que não são poucos, falam até de “concretação” de trabalhadores, ou seja, que estes são enterrados vivos com concreto das obras, quando por descuido caem nas mesmas, e a obra não pode parar. A vida se tornou algo banal, diante do que eles chamam de “desenvolvimento”.

    Percebe-se também que muitas das vezes, o governo sonega informações importantes destes empreendimentos, como forma de atrair o apoio da população, que de acordo com suas propagandas sempre serão beneficiadas. No entanto, em todas essas falácias daquelas que serão impactadas direta ou indiretamente pelas obras. O discurso é sempre o mesmo não importando o empreendimento, de cunho economicista e desenvolvimentista. E aí fica a pergunta: desenvolvimento para quê e para quem? Ou ainda a indagação de Cícero Tumbalalá: “Que desenvolvimento é este que eles falam, que só nos leva para o buraco?”.

    Encaminhamentos

    Diante dos enormes desafios apresentados se viu a necessidade de continuar apoiando a luta dos povos indígenas pela recuperação e garantia de seus territórios, como forma de barrar a ganância dos desenvolvimentistas, apresentando o projeto do Bem do Viver dos povos indígenas, que trabalham justamente em outra lógica, a lógica do envolvimento e não do desenvolvimento a qualquer preço.  

    Como encaminhamento do encontro, também ficou definido que o Cimi continuará o processo de formação de índios e missionários, já em curso, como forma de qualificar o enfrentamento a este modelo. Além disso, pretende-se promover encontros e o fortalecimento das alianças com o movimento social, visando unificar a luta contra os grandes projetos.

    Provocar a rearticulação do Movimento Indígena, como forma de garantir uma luta mais unificada dos povos, acabando com o isolamento de alguns embates também é uma proposta, bem como provocar um maior envolvimento do Ministério Público nestas lutas e buscar novos aliados junto ao campo artístico e intelectual, entre outros.

    Para divulgar as lutas e reforçar o movimento, acredita-se ainda que a utilização dos meios de comunicação, inclusive os alternativos e comunitários, é indispensável. Subsidiar a sociedade com informações verdadeiras, omitidas pelo governo, sobre os impactos destas obras e suas conseqüências maléficas para a população, como forma de desmistificar o “encantamento pelo progresso e desenvolvimento” em curso também deverá ser uma tática costumas. 

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  • 18/10/2010

    Decreto Presidencial que possibilita o início da implantação da Secretaria Especial de Saúde Indígena sai esta semana

    A afirmação foi do representante do Ministério da Saúde, Antonio Alves, durante reunião na sede da APIB

    No próximo dia 19 de outubro, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) começa a sair do papel com a assinatura do Decreto Presidencial que modifica as estruturas do Ministério da Saúde e da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), antiga responsável pela saúde indígena, e permite o funcionamento efetivo do novo órgão. Quem garante é o Secretário de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP) do Ministério da Saúde, Antonio Alves, nome indicado para assumir a direção da nova secretaria, que se reuniu com os integrantes da Comissão Nacional Permanente (CNP) da APIB em Brasília.

    O secretário explicou que a aprovação no último dia 3 de agosto do Projeto de Lei de Conversão (PLV) 08/2010, originado da Medida Provisória 483/2010, autorizou a criação (estrutura e cargos) e a transferência da saúde indígena para a SESAI, vinculada diretamente ao Ministério da Saúde, com recursos próprios garantidos no orçamento da União. No entanto, para que a secretária pudesse começar a funcionar ainda faltava reajustar os órgãos de governo e o subsistema de saúde à nova realidade, o que ficará a cargo do Decreto, que está semana obteve parecer favorável das consultorias jurídicas dos Ministérios do Planejamento e da Saúde, já foi enviado a Casa Civil e agora aguarda apenas a assinatura do Presidente da República, em cerimônia prevista para acontecer no Palácio do Planalto, com a presença de lideranças indígenas.

    A maior preocupação exposta pelos representantes da APIB no encontro diz respeito à manutenção do atendimento nas aldeias durante o processo de implantação definitiva da SESAI, uma vez que diariamente chegam reclamações de todas as partes do país sobre falta de profissionais de saúde, medicamentos e equipamentos. Uma conseqüência direta da omissão e do descaso da Funasa nos últimos anos, que se intensificou desde o anúncio de criação da secretária, gerando um verdadeiro caos para aqueles que necessitam de assistência médica.

    Antonio Alves informou que um artigo do Decreto Presidencial estipula um prazo de 180 dias, a partir da publicação, para que seja finalizada a transição da saúde indígena para a SESAI. Ele assegurou que não haverá interrupção no atendimento neste período e que, após a publicação do decreto, será criado um comitê de resposta rápida ligado a cada Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) existente, que ficará responsável pela resolução dos problemas emergenciais de cada região e pela garantia de assistência médica. A Funasa não é mais intermediária junto ao governo e agora as equipes multifuncionais subordinadas aos Dseis irão tratar com a secretaria, que por sua vez se comunicará diretamente com o Ministro da Saúde.

    Os Dseis são as unidades responsáveis pelo conjunto de atividades técnicas de atenção à saúde, que promovem a reordenação da rede de saúde e das práticas sanitárias e organizam as atividades administrativo/gerenciais e estimulam o controle social.

    Além da autorização para a criação da SESAI, o PLV aprovado pelo Congresso Nacional alterou a Lei 8745, que regulamenta o regime jurídico, permitindo, ainda, a contratação de pessoal, sem concurso público, por um período determinado, entre 2 e 4 anos. Desta forma será possível contratar profissionais que já tenham experiência com saúde indígena, bem como oferecer remuneração diferenciada compatível com as realidades locais, o que aumenta a qualidade do trabalho.

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  • 18/10/2010

    Especialistas calculam em Altamira perímetro que pode ser alagado com Belo Monte

    Medição está sendo feita a pedido do MPF, para checar dados dos Estudos e acompanhar deslocamento de população se a usina for mesmo construída

    Professores de engenharia ligados à Universidade Federal do Pará fizeram essa semana, a pedido do Ministério Público Federal, medições em Altamira para determinar quais áreas da cidade ficarão submersas na época da cheia, se as barragens da usina de Belo Monte forem mesmo construídas. Um dos reservatórios da usina será em frente à sede do município, que é banhada pelo rio Xingu.

    O trabalho faz parte de uma das investigações do MPF sobre o projeto e foi necessário pela falta de diálogo dos empreendedores com a população possivelmente afetada e por causa de dúvidas que permanecem sobre os dados apresentados nos Estudos de Impacto Ambiental.

    A população das áreas mais baixas da cidade se queixa ao MPF que nenhuma medida foi tomada, nem informação distribuída, sobre o deslocamento da população atingida ou indenizações, como está expressamente previsto na Licença Prévia concedida pelo Ibama para o empreendimento.

    De acordo com o EIA de Belo Monte, seriam cerca de 16 mil pessoas, mas professores de universidades brasileiras que analisaram criticamente as informações questionam os métodos do levantamento e acreditam em subdimensionamento. O MPF quer se certificar da questão e deve, com base nas informações da UFPA, acompanhar de perto os impactos aos moradores.

    O trabalho dos professores André Montenegro, Andréia Conduru e Júlio Aguiar é um levantamento topográfico planialtimétrico que vai materializar, no núcleo urbano de Altamira, pontos na cota 100 – a 100 metros de altitude em relação ao nível do mar, limite abaixo do qual, segundo o projeto de Belo Monte, poderá haver inundação.

    Hoje, os especialistas foram até o cais de arrimo de Altamira, juntamente com representantes de movimentos sociais e o procurador da República Cláudio Terre do Amaral, para marcar um ponto de cota 100 como referência para a continuidade do trabalho. A partir dele, o MPF pretende fazer um levantamento cadastral e mapear os imóveis inseridos abaixo de 100 metros, passíveis de inundação.

    A referência para o trabalho dos especialistas é um marco geodésico que o IBGE implantou em Altamira no ano passado e foi homologado internacionalmente este ano. Um marco desse tipo define com exatidão a altitude e as coordenadas do ponto onde está instalado, emitindo sinais para aparelhos de GPS e servindo de referência para medição de altitude no terreno próximo.

    O marco está localizado dentro do quartel do 51º Batalhão de Infantaria de Selva, precisamente na cota 186,26 e, a partir dele, os engenheiros da UFPA puderam determinar vários pontos em Altamira que estão na cota 100 ou abaixo e que poderão ser, em caso de construção de Belo Monte, alagados.

    A soleira da Catedral da cidade, por exemplo, está localizada na cota 101,433. Já a Casa do Índio, em frente ao cais de arrimo da cidade, está na cota 99,052, passível de alagamento com a construção da barragem.

    Veja as altitudes de alguns pontos de Altamira medidas

    Soleira da Catedral do Sagrado Coração de Jesus: 101,433m

    Cais de arrimo: 100,77m

    Eletronorte: 100,725m

    Casa do índio: 99,052m

    Ministério Público Federal no Pará
    Assessoria de Comunicação

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  • 15/10/2010

    Dom Erwin Kräutler concede entrevista coletiva neste sábado, em Belém

    Na ocasião, o bispo falará aos jornalistas sobre o Prêmio Nobel Alternativo que recebeu no último dia 30 de setembro

     

    Neste sábado, 16 de outubro, dom Erwin Kräutler, bispo da Prelazia do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), recebe a imprensa para uma entrevista coletiva. O evento acontecerá na Casa Merline, localizada na Cidade Velha, em Belém, a partir das 10h.

     

    Na pauta da entrevista está o Prêmio Nobel Alternativo 2010 recebido no último dia 30 de setembro. A premiação, concedida pela Fundação "Right Livelihood Award", é uma homenagem a dom Erwin por sua dedicação à defesa dos direitos humanos e ambientais do povos indígenas e pelo seu incansável esforço para salvar a Amazônia da destruição.

     

    Para a CNBB, ao conceder a Dom Erwin Kräutler tão grande honraria, a  fundação presta inestimável apoio às causas por ele defendidas e dá-lhes uma visibilidade de grande alcance no cenário internacional, contribuindo, assim, para o reconhecimento dos empobrecidos e a restauração de sua dignidade.

     

    Dom Erwin Kräutler nasceu na Áustria em 1939, tornou-se padre em 1964 e logo após foi para o Brasil como missionário. Em 1978, tornou-se um cidadão brasileiro (embora também mantendo a sua cidadania austríaca). Ele trabalhou entre os povos do Xingu, que inclui povos indígenas de diferentes etnias. Em 1980, dom Erwin foi nomeado bispo do Xingu, a maior diocese do Brasil. Entre 1983-1991, e desde 2006 é o presidente Cimi, entidade vinculada CNBB.

     

     

    Serviço:

    Entrevista coletiva com dom Erwin Kräutler

    Quando: sábado, 16 de outubro, às 10h

    Onde: CASA MERLINE – Cidade Velha. (Rua Tomázia Perdigão 202, Cidade Velha, atrás do Fórum Criminal)

    Entrevistados: D. Erwin Kräutler, bispo do Xingu; Maurício Matos – Comitê Metropolitano do Movimento Xingu Vivo para Sempre – Belém

    Contatos: Marquinho Mota (assessor de comunicação Rede FAOR/Comitê Metropolitano do  Movimento Xingu Vivo para Sempre)

    (91) 8268 4457 // (93) 9142 4472 // Vladiana Alves: (91) 8189-3425.

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  • 15/10/2010

    Em carta, indígenas Katukina pedem investigação de morte de parente

    Os indígenas Katukina, da aldeia Campinas, enviaram carta à Funadação Nacional do Índio, um apoio na busca de respostas para a morte do indígena Rodrigo Pequeno de Souza Katukina. Rodrigo foi atropelado em setembro deste ano, dentro da Terra Indígena Katukina, quando caminhava no acostamento da rodovia BR-364.

     

    Hoje, quase um mês após o acidente, os indígenas não sabem de que forma tudo aconteceu, pois não há resultados da perícia feita pela polícia de Cruzeiro do Sul. Os indígenas afirmam na carta que foram várias vezes à polícia solicitar informações sobre a perícia e o boletim de ocorrências, mas até hoje nada foi feito.

     

    Os indígenas pedem apoio da Funai para que a investigação seja realizada e que o assassino do irmão seja punido. Também ressaltam a falta de ação da Funai, que não enviou “sequer uma manifestação de solidariedade”. Veja a carta na íntegra:

     

     

    TERRA INDIGENA KATUKINA / ALDEIA CAMPINAS

     

    Para: FUNAI

     

    Administração Regional.

    Rio Branco Acre.

     

    Prezados senhores,

            

    Vimos por meio desta, solicitar da FUNAI – Fundação Nacional do Índio – Órgão Oficial, apoio para nos auxiliar na busca de uma resposta para o caso da morte de Rodrigo Pequeno de Souza Katukina. O mesmo foi vitima de um brutal atropelamento ocorrido no dia 16 de setembro de 2010, dentro da terra indígena, trecho cortado pela BR 364, Rodrigo trafegava no acostamento da rodovia e foi atingido por um veiculo do tipo parati que vinha do Município de Tarauacá.  Após 29 dias do ocorrido, ainda não temos informação de como foi classificado pela justiça tal acontecimento, pois até hoje ainda não temos resposta do resultado da pericia feita pela policia de Cruzeiro do Sul, no dia do ocorrido. Por várias vezes fomos à delegacia solicitar informação sobre o pericia e boletim de ocorrência e hoje ficamos sabendo que até o momento ainda não foi requerido pela delegacia de polícia, a confecção do laudo pericial. Temos ainda informação de que o motorista do que provocou o atropelamento é comerciante no Município de Tarauacá e o mesmo continua vivendo como se nada tivesse acontecido. Neste caso, queremos ainda pedir apoio da FUNAI para que seja pago uma indenização para família da vitima, pois sabemos que a pessoa que causou a morte de nosso irmão tem condições para isso.

     

    Queremos ainda ressaltar que até o momento a Funai não se manifestou a respeito do ocorrido na terra indígena, não recebemos ainda de parte da Funai, nem sequer uma manifestação de solidariedade.

     

    Por isso, vimos pedir deste órgão em nome de todo o povo Katukina, família da vitima, apoio e atenção para nos auxiliar nesta questão. Pois não queremos fazer justiça por conta própria e esperamos que as autoridades se manifestem e nos dê uma resposta.

                             

    Desde já esperamos contar vossa colaboração.

     

    Aldeia Campinas 15 de outubro de 2010.

    Atenciosamente:

    Levino Pequeno de Souza – Irmão

    Davi pequeno – Pai

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  • 15/10/2010

    Artigo – Povo Guarani Kaiowá: o clamor pela vida!

    Na última segunda-feira (11), o jornal Correio Braziliense publicou em sua edição impressa o artigo “Povo Guarani Kaiowá: o clamor pela vida!” assinado por dom Erwin Kräutler, bispo da Prelazia do Xingu (PA) e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

     

    No texto, dom Erwin fala sobre a realidade de sofrimento e desespero, mas também esperança, em que vivem os indígenas Guarani Kaiowá, de Mato Grosso do Sul. No estado aonde vive a segunda maior população indígena do país, este povo sofre com as mais diversas formas de violência e preconceito. Entre eles têm sido seguidamente registrados os maiores índices de assassinatos, suicídios, mortalidade infantil e outras mortes por desassistência.

     

    Diversas denúncias têm sido feitas ao governo brasileiro e organismos nacionais e internacionais que atuam em defesa da garantia dos direitos humanos. O Cimi juntamente com a Anistia Internacional lançou recentemente campanha pedindo às pessoas que enviem mensagens ao ministro da Justiça Luiz Paulo Barreto e também ao secretário Especial dos Direitos Humanos Paulo de Tarso Vannuchi denunciando a situação desoladora em que estes povos se encontram.

     

    Mês passado, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também emitiu nota em que condena as violências praticadas contra os Guarani Kaiowá, ao mesmo tempo em que solicita ao governo brasileiro a demarcação das terras tradicionalmente ocupadas por esses indígenas em Mato Grosso do Sul.

     

    No artigo, dom Erwin fala sobre episódios estarrecedores que têm marcado a vida dos Guarani Kaiowá, como o seqüestro e morte dos professores indígenas Rolindo Vera e Genivaldo Vera. Ele ainda afirma que cabe ao governo federal dar respostas a essas questões, bem como dar assistência aos povos indígenas.

     

    Confira o artigo na íntegra:

     

    Povo Guarani Kaiowá: o clamor pela vida!

     

    Por dom Erwin Kräutler

     

     

    Erwin Kräutler e menina Guarani Kaiowá

     

    Dor, desespero, insegurança e absoluta descrença no poder público marcam a vida e a trajetória de milhares de famílias do povo Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, estado onde vive a segunda maior população indígena do país. De lá chegam denúncias de trabalho escravo nos canaviais e usinas de álcool lá um boi no pasto vale mais do que uma criança indígena. Os indígenas estão confinados em pequenas áreas. Os índices de suicídio entre jovens, por falta de perspectiva de futuro são alarmantes. A mortalidade infantil é de 34 óbitos por 1.000 nascidos, em função das precárias condições de saneamento.

     

    De lá nos chegam todos os dias notícias sobre espancamentos e assassinatos de indígenas. As terras não foram demarcadas porque ao governo federal falta vontade de enfrentar os donos de latifúndios devido a pressões políticas. Usineiros escravocratas são tratados como se fossem heróis da pátria.

     

    Assistimos estarrecidos à tragédia em que vive a comunidade Guarani Kaiowá Ypoí, sitiada em uma minúscula área, cercada por pistoleiros armados. Mesmo que atualmente essa informação venha sendo divulgada pela imprensa, nem a Funai, nem a Polícia Federal, nem o Ministério da Justiça, nem o presidente da República tem se pronunciado a respeito ou, pelo menos, esboçado uma ação para punir os criminosos.

     

    A história de violências contra a comunidade de Ypoí é tão antiga quanto sua luta pela demarcação e garantia das terras, Em outubro de 2009 os indígenas foram atacados e expulsos de suas terras ancestrais. Na ocasião, os professores Genivaldo Vera e Rolindo Vera foram arrastados por homens armados. Dias depois, Genivaldo Vera foi encontrado morto, boiando em um riacho. O paradeiro de Rolindo vera é ignorado até hoje.

     

    Como bispo do Xingu há trinta anos e presidente do Cimi em vários mandatos, tive a oportunidade de acompanhar as lutas dos povos indígenas pela defesa de seus direitos fundamentais, em especial à vida. Preocupa-me imensamente a situação de violação de direitos a que estão submetidos os Guarani Kaiowá. Só me resta exclamar: por que tanto despreza com os povos indígenas? Por que as 324 terras reivindicadas pelos povos indígenas do Brasil, a maioria em Mato Grosso do Sul, continuam sem nenhuma providência?

     

    Cabe ao governo federal dar respostas a essas questões. É de sua responsabilidade prestar assistência aos povos indígenas, estruturar uma política que restabeleça as condições de segurança e de dignidade para esses povos, em particular aos Guarani Kaiowá. O governo tem obrigação constitucional de demarcar as terras e fiscalizá-las, assegurando o usufruto exclusivo aos indígenas, conforme determina nossa Carta Magna no artigo 231, parágrafos 1 a 6°.

     

    Infelizmente, as respostas têm sido dadas apenas quando se estabelece o conflito e, ainda assim, mediante meros paliativos que nem de longe apontam para a definitiva solução: a garantia das terras indígenas. O governo, omisso e negligente, aparentemente não se deixa impressionar pela cruel situação dos Guarani Kaiowá. Fecha os olhos diante de mais um genocídio em curso que envergonha o Brasil e tapa os ouvidos diante dos gritos ensurdecedores desse povo. Para reverter essa situação calamitosa, urge uma grande mobilização nacional que possa contar também com o apoio de organizações internacionais dedicadas às causas democráticas e aos direitos humanos.

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  • 15/10/2010

    A ofensiva do capital sobre a agricultura na América Latina

    Domingos Marileo representante mapuche, iniciou a tarde de trabalhos do dia 13 de outubro no V Congresso da CLOC. “Para nós e por nossas futuras gerações temos a necessidade urgente de valorizar a nossa identidade. Somos os primeiros povos, somos filhos da madre terra. Em nossa condição de mapuche, mas também dividindo nossa condição com outros povos originários, temos que denunciar a opressão dos governos neoliberais, que também se mostra sobre os povos originários, eles usam recursos de poder para expropriar as terras dos nossos povos. Mesmo assim, somos um povo que resiste”, declarou ele. “Através da história podemos ver que o capital tenta invadir nosso território. Os mapuches temos vivido a forma mais cruel da opressão e expropriação, com isso temos tentado lutar por um projeto democrático. Cada dia que passa necessitamos mais de um projeto alternativo em todas as áreas, que confronte o modelo neoliberal e garanta a liberdade dos povos originários”, concluiu o representante mapuche.

     

    Articulação latinoamericana frente aos grandes projetos

     

    “Vamos construindo uma articulação continental que junte as forças frente aos inimigos comuns”, com essa ideia João Pedro Stedile, membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil, iniciou sua fala que consistia em fazer um panorama da atual situação agrária na América Latina e do avanço do capital sobre essas terras.

     

    Segundo João Pedro, em cada local o capital se comporta de forma distinta, porque o projeto do capital se constrói sobre bases naturais que se diferem de região para região, de país para país. Mas ele tem um plano geral de exploração e acumulação dos lucros e riquezas, que permeia todo esse projeto. Um primeiro ponto a se destacar é que a maioria de nossos movimentos e a tradição que temos, é de que estes se formaram em um momento em que o capital industrial dominava. “Da década de 90 para cá, o capitalismo industrial está ingressando em uma nova etapa. Agora ele já não é dominado pelas fábricas, mas por um capitalismo financeiro, que é controlado pelos bancos e que também está articulado com os grandes grupos econômicos e comerciais. Temos percebido mudanças na forma que o capital chega ao campo. Não é mais o capital industrial que quer vender insumos ao produtor. Há um movimento mais amplo, que levou a tendências gerais que estão ocorrendo em todo o mundo, como a compra de ações de empresas que se transformaram em grandes conglomerados”, frisou João Pedro.

     

    Com a derrota dos países socialistas e com a economia capitalista fragilizada, organismos internacionais se transformaram em instrumentos de liberação de entrada de capital transnacional em nossos países latinoamericanos, de forma que o capital possa controlar nossas agriculturas, como no caso do FMI e do Banco Mundial. No Brasil, o setor capitalista gera, por ano, cerca 130 bilhões, mas consegue dos bancos perto de 100 bilhões. Ou seja, para gerar essa cifra ele necessita de um investimento quase similar. Segundo João Pedro, foi parte da estratégia dos governos neoliberais, também destruir as articulações e políticas públicas de produção do campo. Agora com governos progressistas no continente, se está tentando derrubar isso, e recompor políticas estatais de proteção aos camponeses.

     

    Em 2008 se instalou uma crise do capital. Era um momento, depois de um período histórico de refluxo dos movimentos sociais latinoamericanos, de retomar e alavancar as lutas no continente. Entretanto, segundo Stedile, na América Latina somente os povos bolivianos estão em ascensão, lutando por políticas públicas nas ruas, junto à população. Em nenhum outro país se viu ou se vê isso. “O que passou em nosso continente é que as contradições do sistema acabaram fortalecendo a ocupação do capital sobre nossa produção agrícola. Em nosso continente tivemos um processo crescente de desnacionalização do nosso campo. Com isso, o capital se apropriou de terras, água, sementes, hidrelétricas, mineradoras, entre outras. Nossas economias não sofreram com a crise, claro, porque o capital correu para cá, para o continente latinoamericano e, com isso, a economia cresceu, mas foi um crescimento para os capitalistas”, destacou João Pedro.

     

    A crise da reserva de petróleo chegou ao ponto de que as empresas petrolíferas e automobilísticas começaram a investir no chamado biocombustível, a quem a Via Campesina chama de agrocombustível, por considerar que essa produção não significa, de nenhuma forma, vida. No Brasil, em três anos, as empresas transnacionais desnacionalizaram 30% de toda a produção de cana de açúcar. A Cargill hoje, no Brasil, industrializa 12 milhões de toneladas de cana por ano. É mais do que toda a produção canavieira dos países do Caribe juntos. E essa é, segundo Stedile, uma proposta para todos os países.

     

    Esses grandes capitais fazem, também, especulações nas bolsas de valores. Com isso, os produtos agrícolas padronizáveis, as chamadas commodities, vendem nas bolsas de mercadoria os alimentos primários produzidos no mundo. As grandes empresas, para proteger seu capital financeiro, transformam esse dinheiro em títulos mercantis. Toda a safra de milho, trigo e soja, por exemplo, já está vendida até 2015.

     

    Capitalismo e Estado

     

    Como resultado da crise, o capitalismo, que até então não se importava com o Estado, pois considerava que o mercado controlava e resolvia tudo, passa a perceber que a saída que tinham para seus problemas era o próprio estado, pois ele é uma máquina de impostos. Os capitalistas agora, portanto, revalorizaram o estado. Por isso, voltaram a disputar os governos com os movimentos sociais e as alianças de esquerda. Isso fica claro nas tentativas de derrubar os governos progressistas no continente, como o de Rafael Correa, Evo Morales, Lula e outros, pois querem disputar dinheiro dentro do Estado.

     

    Hoje, segundo Stedile, temos uma situação muito grave, pois mudou a classe dominante no campo e o principal controle das produções agrícolas no mundo, agora, está nas mãos das empresas trasnacionais e dos bancos, que estão atrelados a eles. Trinta empresas controlam toda a produção agrícola do mundo, quando não controlam fisicamente, controlam os preços. “O fundamental para eles é controlar os preços, é assim o mercado, inclusive nos países que antes eram exportadores de determinado produto. Tudo se está privatizando. No Brasil, a Nestlé tem uma ‘taxa de ganância’ maior vendendo água do que vendendo leite. Isso também está levando a uma padronização dos alimentos, e isso é um risco para a humanidade. Querem que todos os povos comam a mesma comida. Uma comida que não é saudável e que tem aumentado os casos de doenças e câncer no mundo, principalmente por causa dos agrotóxicos”, destacou Stedile.

     

    O agronegocio veio com o monocultivo, para aumentar suas taxas de ganância. Necessitam, com isso, de máquinas agrícolas e não de mão de obra humana. Outro ponto a se destacar é que precisam sempre de grandes quantidades de venenos, agrotóxicos e, com isso, destroem tudo, água e todos os recursos naturais a sua volta. “A agricultura campesina é a única que pode salvar o planeta porque é ela que protege a biodiversidade, que protege a pachamama”, disse João Pedro.

     

    Dentro da sua lógica expansionista, o capitalismo olhou para os indígenas, afrodescendentes e comunidades tradicionais, como parcelas atrasadas. E com isso, as investidas dele sobre os territórios desses povos têm aumentado muito. Isso causa expulsão e prejudica, ainda, o modo de vida tradicional dessas comunidades. No Brasil há cidades onde se tem grande produção de soja, em que triplicou o número de abortos por causa da água da chuva que as mulheres beberam, e que já vinha com agrotóxico.

     

    “Temos agora que fazer luta de classes para disputar um modelo de produção agrícola. É impossível conviver o modelo capitalista de agronegócio com o modelo campesino, enquanto modelo de produção. Temos também que disputar territórios, para transformar grandes regiões em territórios camponeses”, enfatizou Stedile. Usando uma premissa de José Martí, um grande revolucionário cubano, de que “só o conhecimento liberta verdadeiramente as pessoas”, João Pedro concluiu sua exposição dizendo, “temos que tomar a educação como uma bandeira dos campesinos, para que o conhecimento seja patrimônio de todos que vivem no meio rural. Só é possível manter a juventude no campo, se desenvolvermos formas de emprego de que goste a juventude, aplicando, com isso, seu conhecimento e aprendizado”.

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  • 15/10/2010

    Ypo’í: apelo dramático

    Por Egon Heck

    A comunidade Guarani de Ypo’i, no município de Paranhos, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, enviou ao Ministério Público, Juizes Federais e ao Presidente da República e aos outros poderes do Brasil um documento dramático de denúncia e reivindicações.

    No documento lembram:

    “Nós fomos vítimas de despejos e violências cruéis ocorrido entre os dias 1º e 3 de outubro de 2009, naquele momento fomos massacrados, torturados e vítimas de tiroteios praticados por pistoleiros contra nós, foram também capturados os dois professores: Rolindo Vera e Genivaldo Vera consequentemente foram assassinados de forma truculenta. Em virtude do fato, viemos através deste documento denunciar e manifestar aos senhores autoridades mais uma vez as nossas demandas urgentes e a última decisão.

    1 – Conclusão imediata de identificação de nosso território.

    2 – Solicitamos medidas de segurança para nossa integridade física, ritual e cultural, com a Polícia Federal e Segurança Nacional. Hoje estamos cercados de pistoleiros armados.

    3 – Pedimos também assistência médica, além de assistência alimentar para nossa existência, conforme os nossos direitos constitucionais. No momento não temos assistência nenhuma por parte dos órgãos públicos, e os fazendeiros colocaram pistoleiros armados para nos intimidar, fazendo tiroteios todos os dias em torno de nossas barracas.   

    Depois dessa dramática denúncia fazem o apelo pela sobrevivência:

    ”Por fim, nesse sentido amplo, aos juízes federias estamos demandando o cumprimento de todos os itens de nossos direitos humanos constitucionais para garantir a nossa sobrevivência como seres humanos”.

    Momento delicado

    Mas também de luta e esperança no continente. Basta lembrar as lutas dos povos indígenas e camponeses, e em especial as mulheres guerreiras que acabam de se encontrar em assembléia de articulação em Quito. No documento reafirmam as convicções de construção de novos projetos de vida. “Ao compasso das lutas históricas  dos povos e movimentos sociais, América Latina tem empreendido um inédito caminho de mudanças, de desenvolvimento de pensamento próprio, de fortalecimento do projeto socialista, de construção do Bem Viver/Viver Bem, que se cristaliza já em processos de transição que apostam pela descolonização e por profundas transformações, que levem para sociedades de igualdade, justiça e soberanias, assim como de harmonia entre seres humanos e natureza” (Declaração de Quito – IV Assembléia de Articulação de Mulheres do Campo, outubro de 2010 )

    Estamos também num momento eleitoral no Brasil. Há oito anos os povos indígenas votaram massivamente em Lula. Várias das expectativas foram frustradas. Possivelmente o voto crítico em Dilma significará a cobrança das promessas não cumpridas, tais como, a demarcação e garantia de todas as terras indígenas e proteção dos recursos naturais nelas existentes, a aprovação e funcionamento do Conselho Nacional de Política Indigenista e o estabelecimento de referenciais claros de relações entre o Estado, sociedade e os povos indígenas, através da aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas, já há mais de 15 anos em tramitação no Congresso.

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  • 14/10/2010

    Em Honduras, indígenas e negros querem observatório para defesa de seus direitos

    Da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)

    Partindo de sua cosmovisão, indígenas e negros querem a criação de um Observatório dos Direitos Humanos que cuide e defenda seus valores, além da realização de uma Assembléia Constituinte envolvendo seus representantes.

    O acordo resultou de reunião realizada no final de semana na comunidade de Garáfuna de Sambo Creek, na cidade de Ceiba, Honduras, onde negros e indígenas estabeleceram estratégias de ações para alcançar os objetivos traçados.

    Participaram do encontro líderes das tribos tulupanes, pech, miskitos, maia-chortis, lencas e garáfunas, afro-descendentes, decididos a construir um novo modelo de vida, que só pode acontecer através da refundação da organização social, diz o documento tirado da reunião.

    Povos indígenas assinalam, no comunicado, que a partir do golpe de Estado eles viram recrudescer o colonialismo interno, com o propósito de afiançar o Plano Povo Panamá, rebatizado de Projeto Meso-América, com o qual organismos financeiros internacionais pretendem apropriar-se de rios, matas e recursos energéticos que fazem parte do habitat dessas comunidades.

    O documento diz que os povos indígenas se sentem subjugados pelos instrumentos do Fundo de Carbono das Nações Unidas, como é o caso dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpe e o programa de Redução das Emissões Derivadas do Desmatamento e da Degradação Florestal nos países em desenvolvimento (REDD).

    Também reclamaram dos históricos deslocamentos a que são obrigados, sem que o Estado os proteja, o que significa que frequentemente povos indígenas são alvos de violação dos direitos humanos, como o direito à alimentação.

    Eles reafirmam, no documento, sua condição de povos indígenas e não de minorias étnicas, como faz o Estado e os meios de comunicação, “que negam os nossos direitos históricos”.

    Lembram, ainda, o fortalecimento da articulação das mulheres indígenas, a fim de gerar uma proposta de constituinte popular baseada no respeito à vida e à dignidade, “sem patriarcado, sem racismo, sem capitalismo”. Para tanto, convocam para um encontro de mulheres indígenas e negras, em março e maio de 2011.

    Negros e indígenas pronunciaram-se contrários à criação de uma Secretaria para o Desenvolvimento de Assuntos Indígenas e Afro-Hondurenhos, porque ela promoveria a burocracia governamental, a politização da questão indígena e a divisão das organizações de seus povos.

    O documento conclama comunidades indígenas e negras a exercerem, no espírito de dignidade e rebeldia que lhes é peculiar, com mais força o direito histórico e soberano à autodeterminação, seguindo o exemplo de Lempira, Cicumba, Barauda, Satuye, Copan Galel, ancestrais que marcaram o caminho da emancipação hondurenha.

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  • 14/10/2010

    Informe nº 935: “Números oficiais escondem a omissão do estado em relação às terras indígenas”

    Afirmação é de Egon Heck, coordenador do Cimi em Mato Grosso do Sul, em carta enviada ao ministro da Justiça Luiz Paulo Barreto

     

    Egon Heck, coordenador do Cimi em Mato Grosso do Sul, envia carta ao ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, questionando suas falas em relação à questão indígena durante entrevista concedida ao jornal o Estado de São Paulo, no último dia 3 de outubro. Na oportunidade, o ministro se manifestou pela primeira vez, desde que assumiu a pasta, sobre diversas questões que envolvem os povos indígenas do país, em especial a demarcação de terras.

     

    Ao Estado de São Paulo, Luiz Paulo Barreto, afirmou que 95% das terras indígenas brasileiras já estão demarcadas, de acordo com levantamento do MJ. Egon Heck rebate essa declaração e diz que de acordo com a própria população indígena do país esses dados não correspondem à realidade.

     

    “Os números, questionáveis a partir de dados levantados com as comunidades e povos indígenas no país, escondem uma tremenda omissão com relação às reais situações dessas terras, estando grande parte delas invadidas, com a omissão ou conivência do governo, a quem cabe a proteção dessas terras e dos recursos naturais”.

     

    Na carta, Heck afirma que se coloca ao ministro não com base em posturas ideológicas, mas a partir do conhecimento adquirido ao longo de quase quatro décadas atuando junto às comunidades indígenas do país e acredita que é possível um outro projeto para o Brasil, no qual os povos indígenas tenham plena atuação. 

     

    Confira texto na íntegra:

     

     

    CARTA ABERTA AO MINISTRO DA JUSTIÇA

     

     

    Sr. Ministro Luiz Paulo Barreto,

     

     

    Gostaria de fazer algumas colocações a partir de suas recentes declarações na imprensa (ESP,3/10/10). Não as faço a despeito de posturas ideológicas (como o são algumas das afirmações feitas em sua entrevista), mas a partir dos conhecimentos de quem, há quase quatro décadas, trabalha com os povos indígenas e que acredita que é possível e necessário um outro projeto para o Brasil, com o qual os povos indígenas muito têm a contribuir.

     

    Deixo claro que considero os povos indígenas como atores políticos e sociais da maior relevância. Portanto, sem nenhuma visão de paternalismo ou tutela, ou de jardim zoológico humano. Aliás, expressões semelhantes foram insistentemente utilizadas por governos da ditadura militar para justificar a invasão das terras indígenas, e entregá-las às frentes de expansão econômica e as grandes obras pois “um punhado de índios não pode atravancar o desenvolvimento”, dizia-se naquela época.

     

    Terras-territórios ou reservas

     

    Talvez o senhor não tenha acompanhado, até porque não lhe devia interessar o assunto, mas desde a década de 1970, todas as terras indígenas no Brasil deveriam estar demarcadas. Passaram-se mais de três décadas do prazo estabelecido pelo Estatuto do Índio (Lei 6.001 de 1973) e a grande maioria dos processos de demarcação e regularização das terras indígenas estão pendentes, parados ou sem nenhuma providência. São no mínimo dúbias e enganosas afirmações de que 95% das terras indígenas estão regularizadas. Os números, questionáveis a partir de dados levantados com as comunidades e povos indígenas no país, escondem uma tremenda omissão com relação às reais situações dessas terras, estando grande parte delas invadidas, com a omissão ou conivência do governo, a quem cabe a proteção dessas terras dos recursos naturais.

     

    Além disso, as terras mais conflitivas, como no Mato Grosso do Sul, e em especial com os Kaiowá Guarani com os quais trabalho, mais de 95% das suas terras necessitam de regularização. É vergonhosa e cruel a omissão e o descaso com que se tratou essa questão. E agora que o processo de identificação está sendo finalizado, esperamos que até o final do ano os relatórios de identificação sejam publicados.

     

    O senhor relaciona a era do paternalismo e da tutela à “política de demarcação de terras”. É exatamente o contrário. O paternalismo e a tutela dificultaram a demarcação e garantia das terras indígenas. E o que é mais grave, estimularam o saque e a devastação das áreas já demarcadas.

     

    Os Guarani no Mato Grosso do Sul

     

    Esse pedido do presidente Lula não é de hoje. Inúmeras vezes ele tem se manifestado nesse sentido. É uma pena que a compreensão de solução das terras indígenas seja contra os direitos constitucionais desses povos a suas terras tradicionais, e se proponha simplesmente a “compra de terras”, e para isso se propõem a mudar a Constituição. Essa saída já foi várias vezes contestada pelos índios e instâncias políticas. É possível e urgente a solução necessitando apenas de decisão e vontade política do governo. Já existem dois projetos de lei na Assembléia Legislativa do Mato Grosso do Sul, a partir dos quais se poderia solucionar a questão inclusive da indenização dos títulos de comprovada origem legal, incidentes sobre terras indígenas.

     

    Senhor ministro, por que não aproveita seu ensejo de garantir as terras Guarani, e mande a Polícia Federal acompanhar a Funai, a Funasa e as organizações indígenas, para romperem o cerco, o cárcere privado em que está mantida a comunidade do Ypoí, no município de Paranhos?

     

    Não deixe passar essa oportunidade de resolver uma das mais cruéis situações por que passam povos indígenas hoje no continente. O Guarani Kaiowá já não aguentam mais!

     

     

    Egon Heck

    Campanha Povo Guarani Grande Povo

    Brasília, 14 de outubro de 2010

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