• 03/11/2011

    Informe nº 988: Construtoras voltam a atacar Santuário dos Pajés; 14 pessoas foram presas

    Renato Santana

    De Brasília

     

    As construtoras Brasal, João Fortes e Emplavi retomaram na manhã desta quinta-feira (3) as obras de um condomínio de luxo na Terra Indígena Bananal – Santuários dos Pajés, Setor Noroeste, Brasília (DF). Amparadas por forte aparato da Polícia Militar, que utilizou inclusive um helicóptero e Tropa de Choque, as empresas devastaram novas áreas e 14 pessoas acabaram presas.

     

    Conforme mapeamento do laudo antropológico, feito pela Fundação Nacional do Índio (Funai) por força de decisão Judicial, mais provas da ocupação tradicional estão em risco – ou já foram destruídas. Nada disso, além das terras estarem sob ação judicial e, portanto, ainda em disputa, impediu que o fato consumado da especulação imobiliária fosse mais uma vez tatuado nas terras sagradas.   

     

    Com base numa decisão do Tribunal Regional Federal, proferida pela desembargadora federal Serene Maria de Almeida – que permitiu os trabalhos apenas no lote reivindicado pela Emplavi – as empresas, de forma orquestrada, ligaram suas máquinas e seguiram com as obras em todos os lotes invadidos há um mês – ampliando para outras áreas de cerrado.

     

    Indígenas e apoiadores resistiram. Sentados entre os lotes reivindicados pela Brasal e João Fortes – ou seja, fora da área de decisão da desembargadora Selene – o grupo impedia a passagem dos tratores para devastação de nova área. Não depredavam os maquinários ou agrediam alguém. Mesmo assim, policiais prenderam 12 não-indígenas com a virulência de um conflito deflagrado.

     

    Algemados, todos foram encaminhados ao 2º Distrito Policial da Asa Norte, próximo ao Santuário. Agressões e uso de spray de pimenta após as prisões foram relatados pelos resistentes detidos. Cledi Pereira foi um deles. O jovem aponta truculência, sendo ele mesmo imobilizado por quatro policiais.

     

    “Na delegacia fomos acusados de desacatar a ordem da juíza. Na verdade a gente estava impedindo que eles desmatassem uma nova área. A decisão diz que a Emplavi pode atuar onde ela já está”, diz. Mesmo com a Polícia Civil em greve, o 2º DP abriu suas portas para receber os apoiadores presos. O cidadão que chegasse com qualquer outra ocorrência não era atendido.

     

    Segundo o apurado, a delegacia abriu por um pedido do secretário de Segurança do Governo do Distrito Federal. “Isso é terrível porque mostra o quanto o Poder Público está a serviço de particulares, no caso as construtoras. É a ditadura do capital, do poder econômico sobre a vida da sociedade”, diz o secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto.

     

    Os policiais militares diziam, na porta do distrito, que os jovens foram presos por desacato e resistência, versão mudada e esquecida posteriormente. “Não sei a razão das prisões. Eu não estava na hora. Isso será apurado no inquérito da Polícia Civil”, afirma o major Antunes, da PM, principal interlocutor da repressão com o movimento de resistência e comandante da operação.

     

    Polícia: a serviço de quem?

     

    “Estou indignada porque os jovens presos hoje pela manhã estavam reunidos numa área pública, sob juízo. Esse tipo de ação policial indigna. Lutamos muito contra o regime militar para termos direito de reunião, protesto. Tudo isso está sendo demolido pela ação conjunta da Polícia Militar e Civil”, afirma Simone Lima, professora da Universidade de Brasília (UNB) e mãe de uma e tia de duas das apoiadoras presas.

     

    As famílias que chegaram para acompanhar filhos e parentes presos foram pressionadas a se retirarem da delegacia. “Houve uma coação por parte do delegado e um contingente da PM tentou nos tirar do distrito. A minha sobrinha foi algemada e depois jogaram gás de pimenta no rosto dela, já imobilizada”, diz Simone.

     

    Os pais e familiares estavam surpresos com a postura dos policiais. Desse modo, diziam não confiar no que pudesse acontecer aos seus filhos e parentes. “Por isso dizemos que íamos ficar porque sabemos dos direitos conquistados e que todos os presos os estavam exercendo”, pontua.

     

    Razões para se questionar e denunciar a ação policial não faltam. Enquanto os 12 primeiros detidos prestavam depoimento, chegou ao distrito mais uma viatura policial trazendo dois outros jovens apoiadores da luta indígena no Santuário dos Pajés. Conforme testemunhou uma jornalista de um dos veículos de imprensa presentes no Santuário, os jovens estavam filmando e fotografando uma área devastada quando policiais os imobilizaram, os jogaram no chão e algemaram. Todos foram liberados horas depois.

     

    De acordo com o advogado e assessor jurídico do Cimi, Adelar Cupsinski, que esteve no Distrito Policial, as prisões foram ilegais e sem justificativa porque os detidos não apresentaram resistência e tampouco desrespeitaram a decisão da Justiça. “Inclusive porque ficaram e estavam à margem do terreno onde incide a decisão da desembargadora”, afirma Adelar.

     

    “Agora o que espanta é que a ação (das empresas e policial) acontece no dia útil seguinte à diligência que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal fez aqui. Tivemos como resposta a isso uma intervenção policial dessa magnitude”, disse a deputada distrital Erika Kokay (PT/DF).   

     

    Para ela, a decisão da desembargadora que aponta para apenas quatro hectares como de ocupação tradicional a ser preservada, não têm sua poligonal definida, ou seja, seu espaço e localização determinados. “É inadmissível helicóptero sobrevoando, jovens presos, agressões. Falei com o Secretário de Segurança e ele me disse que não tem o comando da operação aqui no Santuário”, diz a deputada.

     

    A participação da Funai é absolutamente fundamental, segundo ela. O processo de demarcação, segue a deputada, foi iniciado e precisa ser concluído com a construção de um Grupo de Trabalho. Por outro lado, aponta “como absurdo” o fato de que o atual advogado da Emplavi foi o presidente da Terracap (Companhia Habitacional de Brasília) que vendeu lotes dentro da Terra Indígena para as construtoras que hoje tentam tocar as obras nelas.   

     

    Derrubando cercas e parando máquinas

     

    À tarde o quadro não mudou. A polícia passou a negociar com o movimento de resistência o que ele próprio poderia fazer. Enquanto isso, as máquinas da Emplavi continuavam trabalhando e foram paradas pelos indígenas. Operários da Brasal e João Fortes devastavam novas áreas e levantavam cercas, fora da área da Emplavi, prontamente derrubadas pelos indígenas e apoiadores.

     

    “O branco vive disso, desmatando tudo. Polui e toma as terras dos índios. É assim no Brasil inteiro, mas não vamos sair daqui não. Vamos resistir ao lado dos nossos parentes Fulni-ô”, disse o cacique João Machado Gujajara que vive com usa comunidade numa área dentro dos 50 hectares de área tradicional reclamada pelos indígenas.

     

    O acesso ao Santuário foi fechado pelos indígenas, indignados com a violência desferida pela polícia durante a manhã. O major Antunes alegava cumprir decisão do TRF, mas não explicava a ninguém onde estavam os quatro hectares que a desembargadora, com base em dados cedidos pela Funai, dizia que era área indígena e, portanto, a ser preservada. Durante a tarde, o major prometeu trazer documentos para corroborar com a tese de defesa dós lotes ditos particulares. Nunca trouxe.

     

    “Mas quem determinou esses quatro hectares? Onde está o estudo? Ninguém foi até o Santuário e junto conosco apontou os marcos desses quatro hectares. Agora como a desembargadora, que não é antropóloga, pode determinar o que é Terra Indígena e com base em que estudo?”, ataca Awá-Mirim Fulni-ô.

     

    Enquanto protestavam na área da Brasal, indígenas e apoiadores foram cercados por um contingente com cerca de 100 policiais. Armados com sprays de pimenta, cassetetes e armas de fogo, assediavam o grupo com cerca de 70 pessoas – sentadas, entoavam gritos de resistência e permaneceram ladeadas pelos indígenas.

     

    Depois de muita negociação, major Antunes liberou a saída do grupo do círculo formado pelos policiais – prostrados, pareciam prontos para iniciar uma ciranda, mas logo se dispersaram para o barracão da construtora Brasal atrás de sombra e água fresca. Mais um dia de lutas caminhava para o fim sob o sol do cerrado.

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  • 03/11/2011

    Entre os dentes das usinas

    Belo Monte lança sua penumbra sobre os insaciáveis interesses econômicos que envolvem essa insanidade de hidrelétrica, moendo entre seus dentes, as gentes e a natureza. O canteiro de obras chegou a ser ocupado por um dia pelas vítimas do megaempreendimento, tão a gosto do desenvolvimentismo acelerado do atual governo. No dia seguinte, Megaron Txukaramãe, destacada liderança da região, foi demitido da Funai, sem justificativa outra, a não ser sua firme postura contra Belo Monte.

     

    Conforme Megaron, a demissão foi política. “Com certeza é por causa da minha oposição a Belo Monte e às hidrelétricas do Teles Pires e do Tapajós. Não tem outro motivo. É perseguição política. E eles são tão covardes que não me chamaram para conversar, só recebi a notificação da Funai”.

     

    Sheyla Juruna vê nessa atitude, que mais parece uma atualização das atitudes da ditadura militar, uma retaliação. “A decisão da Funai assume um caráter de retaliação a partir do momento em que ocorre um dia após a ocupação do canteiro de obras de Belo Monte em Altamira, na madrugada do dia 27. É inacreditável que se trate dessa forma, com essa falta de respeito, um cacique e chefe da nação kayapó. Parece vingança mesquinha. É de uma inadmissível falta de compostura e dignidade por parte do governo brasileiro. Esta é a única resposta que ele tem a nos dar quando exigimos nossos direitos constitucionais, jogados no lixo com o projeto de Belo Monte? Acha que com isso desistiremos de lutar? É uma injustiça que me revolta, mas isso só aumenta nossa força de resistência contra Belo Monte e todas as outras hidrelétricas planejadas na nossa Amazônia”.

     

    Enquanto se consegue jogar um pouco de areia na máquina maquiavélica das usinas na região amazônica, no Mato Grosso do Sul as usinas de álcool-etanol, vão de vento em popa. Para as 40 usinas ainda a serem construídas ou em construção, tudo parece céu de brigadeiro. Mesmo o fato de várias delas serem construídas em território tradicional Kaiowá Guarani, parece não ser obstáculo. Fala-se que a “insegurança jurídica” estaria afastando o capital e desvalorizando as terras. Porém, mesmo essas “ameaças” parecem não demover a expansão da agroindústria, especialmente o setor sucroalcooleiro e de celulose.

     

    É neste contexto do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que se entende a atitude da presidente Dilma, chamar para si a decisão sobre a formação de qualquer Grupo de Trabalho para identificação de terras indígenas (Editorial Porantim, setembro 2011). E mais, ao invés de estimular o diálogo e debate para a definição das políticas indigenistas de seu governo, sequer se dignou de conceder audiência ao presidente da Funai.

     

    Relatório de Violências contra os povos indígenas no Mato Grosso do Sul

     

    Em decorrência dessas atitudes e a omissão com relação à demarcação das terras indígenas, principalmente no Mato Grosso do Sul, temos um aumento assombroso de violências, estimulado pela impunidade e não demarcação das terras. Isso ficou evidenciado no lançamento da publicação pelo Cimi Regional MS, em que as estatísticas e gráficos demonstram claramente esse processo genocida. E o mais grave é que não existe nenhum indicativo de políticas que enfrentem as causas dessa calamidade. O império da violência se desdobra em números assustadores. Dos 38 assassinatos de indígenas neste ano de 2011, 27, portanto, 71% ocorreram no Mato Grosso do Sul.

     

    Segundo Lindomar Terena, “os números da violência são altos, mas não nos intimidam de lutarmos por nossos direitos. Vamos buscá-los a qualquer custo. O estado do Mato Grosso do Sul continua banhado com sangue indígena”. E pergunta: “Quantos bandidos matadores de indígenas estão presos? Enquanto isso inúmeros índios estão atrás das grades. Convido o Estado a fazer essa reflexão… Temos números para apresentar um quadro de guerra”.

     

    Eliseu Lopes Kaiowá, da comunidade de Kurusu Ambá, sofreu na pele a violência de que foram vítimas nesses últimos anos. Tiveram quatro lideranças assassinadas, várias feridas e presas. Ele mesmo sofreu uma acusação injusta que o obrigou a ficar fora de sua comunidade. “O Estado vem massacrando nossas comunidades no Mato Grosso do Sul. Matar um índio que luta pelos seus direitos é que nem matar um cachorro. Os índios enfrentam as balas com sua arma que é o mbaraka (instrumento de ritual). Somos um incômodo para o Estado. Chamam-nos de terroristas. Caso o governo não demarque nossas terras, os Guarani-Kaiowá estão se organizando para demarcar nossas terras. Eu sou uma das pessoas ameaçadas. Mas essas ameaças não nos intimidam. Somos povos resistentes e vamos resistir até o fim”.

     

    Dom Dimas Lara Barbosa, arcebispo de Campo Grande, disse que o evento fala por si. Por isso não apenas cedeu o espaço para a entrevista coletiva à imprensa, mas fez questão de estar presente. “Tenho percebido uma vontade muito grande dos povos indígenas, mesmo em meio a tanto sofrimento, de dialogar… Os povos indígenas nos obrigam a viver com o diferente… Precisamos levar mais informações corretas à população”. Lamentou a lentidão na demarcação das terras. Lembrou que foram cometidos erros históricos com o registro de títulos sobre as terras indígenas. Defendeu que devem ser reparados esses erros indenizando os títulos de boa fé e devolvendo as terras a seus verdadeiros donos, os povos indígenas.

     

    No dia dos mortos

     

    Chegamos à casa de Damiana para convidá-la para o encontro dos acampamentos indígenas, que se realizará no acampamento Ita´y, a partir do dia 12 deste mês. Como era o Dia de Finados, ela nos convidou para visitar o local do sepultamento de seu filho Sidnei, atropelado na BR-163, em junho deste ano.

     

    Damiana não esconde seu sentimento de dor e revolta por se encontrar a dez anos à beira da estrada, já tendo perdido muitos dos seus entes queridos, inclusive seu marido Ilário, também morto por atropelamento.

     

    Desta vez entramos numa picada, sem o temor de repressão. Lá em meio ao silêncio da mata, estava uma grande cruz, com um colar. Ao pé da cruz, sinal de velas queimadas. Lembranças com muita saudade de todos os que partiram. O mbaraká de Damiana soou no ermo da cruz, em homenagem aos lutadores de seu povo, vítimas da violência.

     

    Já Chamirim Kuatiá traz à memória os dois anos do assassinato dos professores Jenivaldo e Rolindo. “O tempo passa e tudo vai ficando no esquecimento. A mídia falava o que devia e não devia, porém hoje faz dois anos que um professor guarani se encontra desaparecido. Sua família passando por situação difícil. Sua filha crescendo sem conhecê-lo ou ter noticias e seus pais na esperança de encontrar ao menos seus restos mortais. As investigações sigilosas, os boatos não investigados, mas afinal cadê Rolindo? Jenivaldo jaz em uma caixa esperando o dia de voltar a sua terra. Até quando terá que ficar sozinho no esquecimento de uma sociedade hipócrita e assassina?”.

     

    Egon Heck

    Cimi 40 anos – Equipe Dourados, 03 de novembro 2011.

    Povo Guarani! Grande Povo!

     

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  • 03/11/2011

    Lideranças Tapirapé são ameaçadas de morte

    Há alguns dias recebemos um breve comunicado de que havia um conflito iminente na TI Urubu Branco, do povo Tapirapé, em virtude da permanência dos invasores na área norte do território indígena, que continuam a depredar impunemente a área, embora haja a presença de um posto da Funai e tenha havido algumas operações da Polícia Federal pela região.

    Depois de uma consulta à pessoas do local, soubemos que os Tapirapé, cansados de verem os invasores desmatando para a retirada de palanques para seus currais e venda de madeira, apreenderam algumas cabeças de gado, arma, moto-serra e um trator dos invasores. A arma foi entregue, posteriormente, à Polícia Federal que esteve na área. O gado e o trator permanecem sob a guarda da comunidade, à espera da solução para as repetidas invasões.

    A reação dos Tapirapé ao processo de esbulho de seu território resultou em ameaças às lideranças do povo. Hoje há três lideranças que receberam ameaças de morte via telefone. Sabemos que estas ameaças não são novidade, já que o cacique da aldeia Tapi’itãwa já havia sofrido um atentado em que, propositadamente, chocaram uma outra motocicleta contra a dele. O cacique, por sorte, sofreu "apenas" deslocamento no ombro, mas foi extremamente ferido pela desatenção da polícia em que não quis lavrar o Boletim de Ocorrência, para o qual exigiam o nome de quem o derrubou (sic).

    Também houve outros atentados, em que queimaram partes da mata, o que impossibilitou a reforma da casa cerimonial por falta de materiais; e, segundo informações, um carro da equipe da Funai também foi queimado e invasores efetuaram disparos de arma de fogo contra o posto de vigilância, onde estavam os Tapirapé e funcionários da Funai. Ou seja, a situação é conflituosa e não é de hoje.

    Ainda em 2004, em pleno período de festas do povo, a Polícia Militar cercou a casa tradicional, tendo inclusive ingressado com uma policial dentro da Takãra, espaço proibido para mulheres neste período. Ela foi retirada pelos Tapirapé que se sentiram invadidos (como de fato foram).

    Nesta ocasião a PM acompanhava o fazendeiro de apelido "Ruela", que ainda hoje é invasor do território e, como outros, se mantém no território indígena através de seguidas liminares. A Terra Indígena Urubu Branco é homologada desde 1998 e os invasores já receberam indenizações por parte da Funai. Entretanto, um grupo deles continua na área, desmatando e retirando madeira ilegalmente.

    Parece que, mais uma vez, os Tapirapé dão sinais claros de que querem uma solução e a Paz, mesmo que isso signifique muita luta de resistência à invasão de seu território.

    Espera-se que, concretamente, ações sejam efetivadas no sentido não só de garantir a segurança do povo e de suas lideranças, mas que o motivo principal do conflito – a invasão da terra indígena – seja sanado.

     

    Cuiabá, 03 de novembro de 2.011. 

     

    CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO

    CIMI – REGIONAL MATO GROSSO

     

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  • 03/11/2011

    Neste momento, Polícia Militar cerca indígenas e apoiadores no Santuário dos Pajés

    O clima é de tensão neste momento no Santuário dos Pajés, em Brasília. Um contingente policial está na área, onde tenta intimidar os indígenas e seus apoiadores na luta contra a devastação ambiental de uma área de 50 hectares de ocupação tradicional indígena.

    Relatos dão conta de que o contingente formou um circulo em volta do grupo, que aos poucos vai sendo acuado. Os policiais estão armados. Com a tensão eminente e o desrespeito aos direitos humanos, fica cada vez mais intenso o risco de um enfrentamento.

    Mais cedo

    Hoje pela manhã (3), a construtora Emplavi voltou a invadir os 50 hectares de ocupação tradicional do Santuário dos Pajés, no setor Noroeste, em Brasília (DF).

    Máquinas invadiram uma área do Santuário justamente no local onde o laudo antropológico encomendado pela Funai – depois de determinação judicial – aponta sítios arqueológicos indígenas. Sítios que são provas da ocupação tradicional pela comunidade indígena.

    Os indígenas e os apoiadores resistiram à invasão, tentando parar a derrubada da área. Em resposta, a polícia agiu com bastante truculência, tomando 16 pessoas presas, todos não-indígenas. As apreensões, porém, não pararam a resistência, que continua no Santuário.

    “A invasão pela empresa é ilegal, na nossa visão, considerando as ações jurídicas em curso. Eles estão desmatando e derrubando uma parte da área indígena, destruindo provas que atestam a tradicionalidade da área”, afirma Cléber Buzatto, secretário adjunto do Cimi, que acompanha as ações.

     

    De acordo com o secretário, a ação da polícia foi bastante truculenta, pois os apoiadores estavam tentando impedir de forma pacífica a derruba das árvores. “Não houve nenhum tipo de enfrentamento ou confronto por parte deles. A polícia chegou a agredir inclusive jovens já apreendidos. Houve ainda o absurdo de duas pessoas receberem voz de prisão somente por tirarem fotos das máquinas que estão desmatando a área”, declarou.

    Os indígenas e os apoiadores continuam fazendo resistência pacífica para impedir a derruba das árvores, se colocando, abraçados, na frente das máquinas.

    Há aproximadamente cem indígenas e apoiadores fazendo a resistência, cercado por um aparato repressivo de cerca de duzentos policias. Existe a possibilidade de escalação do conflito.

     

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  • 02/11/2011

    Povos Indígenas do Rio Grande do Sul: mais um capítulo de desrespeito aos seus direitos

    A Constituição Federal do Brasil, no caput do Artigo 231, diz: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. Essa norma define não apenas um conjunto de direitos indígenas, como também a responsabilidade direta e intransferível da União no que tange à garantia da terra. Assim sendo, as possibilidades de intervenção ou ingerência de governos estaduais e municipais em procedimentos de demarcação de terras ficam restritas.  Essa norma estabelece os limites e possibilidades de intervenção ou ingerência de governos estaduais e municipais no que tange à demarcação de terras e às políticas a serem desenvolvidas para povos e comunidades indígenas em âmbito nacional.

     

    Além da União, os demais entes da federação podem colaborar, em articulação com o Governo Federal e cumprindo todas as normas legais, nas ações e serviços a serem executados nas áreas de saúde, educação, atividades produtivas dentro das terras indígenas. É vedado, no entanto, que estados e municípios interfiram nos procedimentos de demarcação através da imposição de critérios e/ou instrumentos que não estejam previstos nas normas administrativas definidas pela União, e esta, por sua vez, precisa se organizar, se estruturar e garantir orçamento para implementar tais normas.

     

    O debate que vem sendo proposto no Estado do Rio Grande do Sul sobre a temática indígena e a demarcação de terras (dos indígenas e quilombolas) assume um viés ideológico e utilitarista extremamente perigoso: em nome de um modelo de desenvolvimento baseado na ampliação da produção, especialmente a agrícola, se pretende restringir os direitos territoriais das comunidades tradicionais, condicionando a demarcação a um pressuposto de produtividade presente e futura. Em outras palavras, querem atrelar os direitos originários sobre as terras a um modelo de produção que se concretiza através da exploração máxima dos recursos, desrespeitando-se, de uma só vez, dois preceitos constitucionais: o reconhecimento aos índios de sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, e o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nas terras por eles ocupadas (caput e § 2º do Art. 231). É a tentativa de colocar as terras indígenas à disposição do mercado explorador e predatório.

     

    Para dar respaldo a esta proposição, adquirem visibilidade certos discursos que vitimizam os pequenos agricultores com a alegação de que sofrerão prejuízos com a demarcação das terras. Argumenta-se que, no caso do Rio Grande do Sul, os agricultores compraram as terras e possuem os títulos de propriedade sobre as áreas reivindicadas pelos “índios e quilombolas”. E, além disso, se acrescenta ao argumento da propriedade o fato de que os agricultores produzem nas terras a serem demarcadas o alimento que a população consome.

     

    Três questões importantes devem ser colocadas em relação a esta linha de argumentação: a primeira é que os povos indígenas não estão sendo considerados no debate como sujeitos de direitos. Ao contrário, são tratados como o problema ou o obstáculo a ser removido; a segunda é que, ao estabelecer a polarização agricultores versus indígenas/quilombolas, cria-se um conflito entre os pequenos quando, de fato, há grandes interesses implicados. E a terceira questão é que, para o modelo econômico, os indígenas e quilombolas são tidos como improdutivos e, portanto, não cabe a eles o direito a terra.

     

    É com essa intenção que a CNA (Confederação Nacional da Agricultura), uma espécie de ONG do latifúndio e do agronegócio, promove  a discussão em torno da questão indígena no Brasil. Ela promove um grande lobby no Congresso Nacional visando mudar o Artigo 231 da Constituição Federal e utiliza sua influência política e econômica para pressionar os governos nas esferas municipal, estadual e federal. Para a CNA a legislação que protege os direitos dos povos indígenas e quilombolas se constitui em instrumento limitador da lucratividade daqueles setores que ela, de fato, representa. E, por sua vez, os latifundiários e as empresas produtoras de soja, milho, cana-de-açúcar, arroz e eucalipto nutrem grande expectativa em torno das pretensas mudanças na legislação indigenista, quilombola e ambiental, a partir desta ofensiva política e ideológica da CNA.

     

    Não se trata, neste debate, como afirmam prefeitos, deputados, senadores, secretários de Estado e as matérias escritas ou televisivas da mídia, de um conflito entre “pequenos proprietários rurais”, indígenas e quilombolas, e sim um conflito entre modelos de produção diferentes – um que prima pelos direitos das pessoas e pelo meio ambiente e outro que propõe a máxima produção e a maior lucratividade. Vale ressaltar que a maioria dos países desenvolvidos, que experimentam hoje o amargo sabor da crise, já estabeleceu medidas para conter o ímpeto produtivista e apelam para formas menos nocivas de produzir e de consumir.

     

    O conflito estabelecido no Rio Grande do Sul não decorre da legislação propriamente, e sim dos interesses sobre as terras e as formas de entender sua função social. Há um forte investimento discursivo no sentido de culpabilizar os povos indígenas e quilombolas, quando a solução depende exclusivamente da vontade política e de uma eficaz ação do governo para, de um lado, demarcar e fazer respeitar as terras tradicionais destes povos e comunidades e, de outro, buscar soluções concretas e plausíveis para os problemas dos agricultores que foram assentados em terras indígenas. Cabe, neste debate, bom senso, disposição política e, mais do que isso, destinação de recursos financeiros para pagamento das indenizações dos afetados e o cumprimento da legislação estadual que determina que o Estado deve indenizar as famílias assentadas em áreas demarcadas ou em demarcação.

     

    Lamentavelmente, no Rio Grande do Sul, este tema vem sendo matizado por pressões políticas da CNA e pelo impulso da mídia. O governo estadual entrou no jogo de interesses e, em virtude disto, classifica os direitos indígenas como problemas. Volta-se contra a Constituição ao invés de agir através dela.  As reuniões promovidas para debater e questionar os direitos indígenas e quilombolas sem ouvi-los atenta contra princípios elementares de democracia e afronta a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

     

    Essa atitude de desconhecer ou ignorar as comunidades indígenas tem se constituído  em prática corriqueira dos administradores do Estado. A realização da audiência pública promovida pela Comissão de Agricultura do Senado Federal, em 21 de outubro, na Assembleia Legislativa, foi uma das etapas dos “debates” com a exclusão das populações diretamente afetadas pelas propostas que se anunciam. Vale relembrar que neste evento reuniram-se centenas de agricultores e representantes do agronegócio e que os povos indígenas e comunidades quilombolas sequer foram convidados. Eles participaram por iniciativa própria e, ao se pronunciarem publicamente, foram veementemente vaiados.

     

    No dia 27, seis dias depois, a Casa Civil do governo do Estado promoveu um encontro do Secretário de Desenvolvimento Rural, Ivar Pavan, e outros governistas para dialogar com agricultores e políticos do Rio Grande do Sul sobre as demarcações de terras. Mais uma vez, nenhuma liderança indígena foi convidada.

     

    O fato mais revoltante, associado a esta última reunião, foi o anúncio de que o Governo Federal, através da Funai, e o governo do Estado firmaram um Termo de Cooperação com vistas a por fim aos problemas. Um dos itens deste termo é a suspensão de todas as demarcações de terras indígenas em processo no Estado. Ivar Pavan foi enfático ao dizer que não vão aceitar nenhuma demarcação de terra enquanto não forem atendidas as demandas dos agricultores. Informou ainda que o governador Tarso Genro exigiu do presidente da Funai a imediata paralisação de todas as demarcações de terras. Entende-se, assim, porque Tarso Genro, enquanto exerceu a função de ministro da Justiça, não demarcou nenhuma terra indígena no Rio Grande do Sul.


    É importante salientar que essa proposta não passa de retórica, uma vez que não compete ao governo estadual requerer a suspensão de demarcações de terras, posto que, no item XIV do Artigo 22 da Constituição Federal se estabelece a competência privativa da União para legislar sobre as populações indígenas. Caso a Funai se submeta a pressões políticas estará agindo contra os interesses da União e poderá ser responsabilizada por não cumprir com as atribuições que lhe são imputadas e que definem, em grande medida, a sua função e a razão de sua existência.

     

    Outro exemplo que reafirma a postura intransigente do governo com relação aos povos indígenas vincula-se à criação de um Grupo de Trabalho, no âmbito da Casa Civil do Estado, para “Avaliação e formulação de alternativas para as áreas indígenas e o aperfeiçoamento das políticas públicas destinadas às comunidades indígenas no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”, sem a necessária presença ao menos de um representante indígena.

     

    Os resultados deste grupo de trabalho foram apresentados através de um relatório que visa, entre outras coisas, enaltecer a gestão do ex-governador Olívio Dutra que ocorreu há 10 anos. O relatório omite as ações dos dois governos subsequentes; anuncia que a partir do próximo ano serão resolvidas as questões através da liberação de verbas financeiras, especialmente para a indenização das famílias não indígenas que vivem sobre terras demarcadas, e que serão investidos recursos públicos para acabar com o déficit habitacional nas áreas indígenas.

     

     Se o governo do Estado assim procedesse, estaria apenas cumprindo uma obrigação legal que é indenizar famílias de agricultores que foram assentadas indevidamente nas terras indígenas (por culpa do Estado) e auxiliando o Governo Federal a melhorar as habitações indígenas.

     

    Mas não é o que de fato vem ocorrendo. O relatório apresentado pelo GT da Casa Civil expressa, na página 11, o seguinte: “De outra banda, ainda que se trate de matéria diversa àquela que exclusivamente compete à Casa Civil, registramos de forma consensuada com todas as secretarias e integrantes da base do governo, a permanente necessidade de reformatação legislativa do CEPI, bem como opinamos pela imediata substituição de sua coordenação, a qual vem reiteradamente articulando as comunidades indígenas em desfavor da institucionalidade, além de empreender conduta denuncista junto ao MPE, MPF e FUNAI abdicando de, efetivamente, buscar construir de forma coletiva as soluções que se impõem àquela coletividade”.

     

    Sem nenhuma dúvida, este parágrafo visa cercear e impor limites à atuação do CEPI (Conselho Estadual dos Povos Indígenas). Este Conselho foi criado pelo governo do Estado e deveria se constituir num espaço de controle social a ser exercido pelas lideranças e representantes indígenas, e se constituir em fórum de discussão das políticas destinadas às populações indígenas, bem como para pensar e planejar as ações do Estado tendo em vista sua contribuição junto ao Governo Federal na execução das políticas públicas. Além disso, o CEPI deveria acompanhar e fiscalizar o Governo Federal no que se refere aos procedimentos de demarcação das terras, a sua proteção e fiscalização.

     

    Alega-se no relatório da Casa Civil que o CEPI está empreendendo uma postura denuncista e faz um desfavor a institucionalidade. Lamentável que uma manifestação desta tenha origem em um grupo de trabalho constituído por servidores e assessores de um governo dito “democrático e popular”. Lamentável que haja censura a um Conselho do Estado quando este cumpre com suas atribuições. É também lamentável que o relatório tenha sido acatado de forma imediata, sem nenhuma discussão ou debate com os demais conselheiros (17 indígenas Kaingang, 17 Guarani e um Charrua) quanto à substituição de sua coordenação. Vale ressaltar que a coordenação é composta por um representante Guarani, um Kaingang e uma secretária executiva, cargo e função designados pelo governo do Estado. A secretária executiva Sônia Lopes foi afastada do Cepi no dia 26 de outubro de 2011.

     

    Santiago Franco, uma das lideranças do povo Guarani no Estado do Rio Grande do Sul, mesmo sem ter sido convidado para participar de reunião (27/10/2011) promovida pelo governo com os representantes dos agricultores e políticos, depois de ouvir os discursos contra os direitos indígenas, pediu permissão para falar e, com lamento, se pronunciou: “Se suspenderem as demarcações, que já têm processos muito demorados, qual será o futuro das comunidades indígenas? Vamos continuar por mais 100 anos em barracos de lonas, na beira das estradas? Essa atitude do governo em pedir a paralisação das demarcações vai afetar a nossa vida, vai matar mais o nosso povo”.


    É esta a solução que o governo do  Estado do Rio Grande do Sul propõe para os problemas indígenas e quilombolas?


    Porto Alegre, RS, 02 de novembro de 2011.

     

    Roberto Antonio Liebgott

    Cimi Regional Sul – Equipe Porto Alegre

     

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  • 01/11/2011

    Índios e soberania

     

    Dalmo Dallari*

     

    Estabelece a Constituição brasileira, no artigo 12, que “são brasileiros natos os nascidos na República Federativa do Brasil”. Assim, é mais do que óbvio que os índios nascidos no território brasileiro são brasileiros, com todos os direitos da cidadania brasileira. A par disso, é também evidente que a ocupação de terras por brasileiros, índios e não índios, em qualquer parte do território nacional e segundo as normas da legislação vigente, merece todo o respeito e toda a proteção, por ser expressão jurídica da soberania do Estado brasileiro sobre seu território. Por incrível que pareça, isso que é claramente disposto em normas constitucionais está sendo ignorado por um senador da República, que, na defesa apaixonada dos interesses do agronegócio, chegou ao absurdo de afirmar que a manutenção dos índios em seus territórios tradicionais põe em risco a soberania brasileira.

     

    De acordo com o que está expressa e claramente disposto no artigo 231 da Constituição, “são reconhecidos aos índios os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”. Os índios não são proprietários dessas terras, que integram o patrimônio da União e são inalienáveis, como estabelece o mesmo artigo 231. Tudo isso está sendo ignorado pelo senador Aldo Rebelo, que, eleito pelo Partido Comunista do Brasil, vem agindo contrariamente aos fundamentos programáticos de seu partido, defendendo com persistência e reiteradamente os interesses do agronegócio, assumindo posições contrárias aos interesses do povo brasileiro. Com efeito, na condição de relator do projeto de reforma do Código Florestal, o senador Rebelo propôs e defendeu com grande veemência disposições que, como tem sido demonstrado, são claramente contrárias ao interesse público.

     

    Afrontando os princípios e as normas básicas, internacionalmente consagrados, que recomendam o uso das terras de modo a preservar o meio ambiente, as posições por ele defendidas priorizam escancaradamente os interesses econômicos do agronegócio. É oportuno assinalar que, surpreendentemente, suas posições seguem a orientação adotada pela senadora pelo Estado de Tocantins Kátia Abreu, que acaba de ser reeleita presidente da Confederação Nacional da Agricultura. Assim, além de introduzir no projeto de Código Agrário disposições que fragilizam a defesa do meio ambiente, o senador Aldo Rebelo defendeu também a concessão de anistia aos praticantes de crimes ambientais já condenados ao pagamento de elevadas multas. Isso significa que, além de não serem punidos pelo grave prejuízo que causaram ao meio ambiente, esses infratores deixarão de pagar muitos milhões de reais que são devidos ao povo brasileiro sob a forma de multas impostas pela autoridade federal. Esse prejuízo ao povo é direto e mais do que óbvio, sendo absolutamente contraditória sua defesa por um mandatário do povo eleito pelo PCdoB.     

     

    Culminando nas contradições, o senador Aldo Rebelo publicou artigo no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 19 de outubro, no qual se manifesta contra o respeito à diversidade cultural e diz que com a concessão, às comunidades indígenas, do direito ao uso dos territórios que tradicionalmente ocupam, o Estado brasileiro “perde a soberania para dispor do território”. É curioso que o mesmo raciocínio não seja aplicado aos grandes proprietários de áreas rurais, que, além de serem proprietários — enquanto os índios são apenas ocupantes das terras em que vivem e a propriedade é da União — usam seu direito de modo contrário aos interesses do povo brasileiro, agredindo o meio ambiente e sendo sistematicamente perdoados e dispensados de pagar as quantias devidas pelas infrações cometidas. Neste caso se poderia dizer com maior propriedade que o Estado brasileiro está abrindo mão de seu poder de dispor soberanamente sobre seu território, pois as regras por ele estabelecidas não são respeitadas, e isso não gera consequências. Em resumo, a permanência nas terras que tradicionalmente ocupam e delas fazem uso para residência, atividades produtivas e bem-estar, bem como para “sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições”, tem fundamento na Constituição, que é expressão da vontade do povo brasileiro. E essa ocupação por cidadãos brasileiros índios é uma forma de exercício da soberania do Estado brasileiro. 

     

    * Dalmo de Abreu Dallari é jurista

     

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  • 01/11/2011

    GT da Funai para demarcar terras indígenas só com autorização da presidenta

    O gabinete das ilusões perdidas

     

    Conforme o apurado junto a fontes governamentais, toda a abertura de Grupo de Trabalho (GT) da Fundação Nacional do Índio (Funai) para identificação e demarcação de Terra Indígena, já há alguns meses, deve passar pelo gabinete da presidenta Dilma Rousseff – conforme ela mesmo exigiu.

     

    Além de nenhuma terra ter sido homologada este ano, o atual governo comprova a máxima: toda história é uma história do presente. Quando presidente, José Sarney baixou decreto com decisão semelhante, antes das conquistas indígenas na Constituição promulgada em 1988.

     

    Dilma toma tal decisão, autoritária e centralizadora, depois de 23 anos da Constituição em vigor. O que ela faz é tornar o direito a terra tradicional, presente na carta máxima, em barganha política e transforma a Funai em mero títere numa encenação democrática perversa. Dilma se coloca acima de conquistas populares num dos episódios que inaugurou o maior período democrático da história desse país. Tal como o rei absolutista francês Luís XIV, a presidenta nos diz: L’État c’est moi (O Estado Sou Eu).

     

    Na Roma Antiga, os imperadores levantavam ou baixavam o polegar para decidir se o gladiador derrotado deveria viver ou morrer – sempre ponderando a opinião de seus convidados e do público inebriado. Muitas semelhanças com a postura de Dilma.

     

    Conveniente para a presidenta trazer a si tamanho poder: enquanto ela assiste ao massacre dos índios pelas quadrilhas de pistoleiros, políticos e latifundiários, a instauração de um GT fica a cargo de interesses construídos junto aos aliados do agronegócio – em tempos não tão distantes chamados de latifundiários e combatidos com todo ardor pelo PT, partido da presidenta.

     

    Nos últimos tempos, o polegar de Dilma sempre aponta para baixo e os golpes de morte são desferidos sobre os indígenas. Quando a presidenta avoca para si a decisão de montar ou não um GT – postura essa de bastidores, ou seja, sem chance de contraponto nos púlpitos da democracia – ela rasga a Constituição e decide em punhos de ferro o destino de existência dos povos originários.

     

    É bem sabido que o Território Indígena tem importância mais do que material para os povos. Afinal, o que se vê desde o período da invasão e posterior colonização? Expulsões de terras, massacres e doenças dizimaram inúmeros povos e numa estimativa conservadora, nos primeiros anos de política além-mar europeia, 20 milhões de índios foram varridos do mapa apenas no litoral brasileiro.

     

    A história é sempre uma história do presente. A atual presidenta e seu governo, somados aos oito anos de Lula, desconstroem a cada dia o arcabouço ideológico que permeou a vitória dos campos populares em 2002. Transforma essa luta num réquiem para a construção de um país cujo desenvolvimento se espelha nas fórmulas capitalistas. O atual governo, no entanto, segue firme no ufanismo nacionalista de que seguram o bastião das transformações do país, mas não consultam aqueles que dizem representar.  

     

    Enquanto diz que combate a pobreza, esconde que a desigualdade e o fosso entre ricos e pobres ainda é o mesmo, pois a perspectiva do consumo apenas lançou aos braços do capital uma fatia da população que sofria em suas mãos, mas nem chegava perto de gozá-lo; enquanto diz que constrói um país para todos, massacra populações indígenas, ribeirinhas, pescadoras e camponesas numa aliança medonha com o latifúndio e empreiteiras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Trata-se de um governo, como bem diz dom Pedro Casaldáliga, de baixa democracia.

     

    O repúdio à postura da presidenta em dar a última palavra sobre a construção de GT para identificação e demarcação de terras indígenas é preciso ser entendido como um grito para que se faça cumprir a Constituição. Se Dilma insistiu em sua campanha eleitoral que foi vítima do arbítrio, é preciso se insistir agora para que ela não o cometa contra as populações originárias – como já vem fazendo.

     

    Editorial do jornal Porantim da edição de setembro

     

     

     

     

     

     

     

      

     

     

     

      

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  • 01/11/2011

    Relatório de Violências Contra os Povos Indígenas em Mato Grosso do Sul

    Produzido e publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o relatório analisa dados de violências coletados nos últimos oito anos.

     

    Através de artigos especializados, aprofunda as causas, consequências e caminhos para uma das realidades indígenas mais violentas do mundo.

     

    Clique aqui e acesso o relatório, na íntegra.

     

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  • 31/10/2011

    Etnias do Santuário dos Pajés exigem estudo antropológico da terra

    Camila Queiroz

    Jornalista da ADITAL

    Adital

     

    Os indígenas do Santuário dos Pajés, área de 50 hectares dentro da Reserva Ambiental Bananal, na capital do Brasil, Brasília, estão vivendo forte tensão. A terra, que tem valor sagrado para eles, está em disputa com empresas empreiteiras que pretendem construir um condomínio de luxo.

     

    Para garantir seus direitos, os indígenas de várias etnias, majoritariamente da Tapuya-Fulni-ô, precisam que a Fundação Nacional do Índio (Funai) constitua um Grupo de Trabalho para determinar, a partir de estudo antropológico, se o território é indígena e, com isso, demarcá-lo.

     

    O secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto critica fortemente a atitude da Funai. "Adota postura ilegítima e ilegal. Sem fazer estudo – disposto no decreto 1775/2006, processo administrativo que regulamenta procedimento de demarcação de terra – tem feito afirmações, inclusive à Justiça, de que não se trata de terra indígena. Só o Grupo de Trabalho, presidido por um antropólogo e formado por profissionais de diversas áreas pode dizer isso, mas esse grupo nem chegou a ser constituído”, aponta.

     

    Buzatto caracteriza ainda como "perigoso” o tratamento que a Funai está dando ao caso. "(…) desloca o direito de definir do instrumento legal (decreto 1775) para as posições políticas de quem estiver na Funai”, comenta.

     

    Em resistência, indígenas e toda uma rede de apoiadores, composta principalmente pelo movimento estudantil e ambiental, têm impedido que as empreiteiras entrem na área e reivindicam sua preservação, para que o estudo de reconhecimento da terra seja possível.

     

    "Queremos garantir que o local seja preservado, o que significa a não entrada e não início das obras. Como as empresas entram e derrubam árvores, estarão destruindo provas potenciais nesse processo”, explica. Buzatto acrescentou que além de realizar manifestações para pressionar a Funai, o movimento cogita entrar com ação jurídica para que o estudo seja realizado.

     

    Até o ano de 2010, a terra pertencia ao Poder Público, que havia comprado a antiga fazenda Bananal. Mesmo tendo conhecimento da importância do território para os grupos indígenas, o Governo do Distrito Federal, por meio da Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap), leiloou as terras para empreiteiras interessadas em levantar empreendimentos no Setor Noroeste, onde está localizado o Santuário dos Pajés e agora é a última região disponível para construção em Brasília.

     

    A luta é marcada por muitas reviravoltas jurídicas. Para proteger a terra que os indígenas reivindicam, o Ministério Público conseguiu uma liminar na Justiça inviabilizando obras no local até que o processo de estudo da tradicionalidade fosse concluído, porém, a liminar caiu no mês de agosto.

     

    Já no último dia 14, a juíza Clara Mota determinou a suspensão das obras, que haviam iniciando. Pouco depois, a juíza Selene Almeida cassou a liminar. Até o momento, a empresa não tentou retomar a construção, o que Buzatto credita à forte resistência e apoio da sociedade. Para amanhã (1º) está marcada diligência da Comissão de Direitos HUmanos da Câmara Federal na área.

     

    "Drástico é toda a tensão, que tem mudado a tranquilidade dos indígenas. Eles estão em constante estado de vigília para impedir entrada das máquinas. Uma parte foi derrubada. Tudo isso é um transtorno, que não é próprio das comunidades indígenas”, conta.

     

    Sobre a importância do caso, o secretário executivo do Cimi considera que garantir o direito das etnias do Santuário dos Pajés "seria um marco na legislação brasileira, no que diz respeito ao território indígena, por estar localizado em território urbano”.

     

    Há 50 anos, o território em que os indígenas caçavam, plantavam e criavam animais era de mil hectares. O local é também um centro religioso e de culto de diversas tradições religiosas, onde seus ancestrais estão abrigados. Além disso, é um ponto de encontro para a população indígena nacional e internacional.

     

    Especulação imobiliária

     

    O Setor Noroeste, última região disponível para construção dentro da área tombada de Brasília, ficou super valorizado, tendo o metro quadrado para construir mais caro do Brasil, avaliado em mais de 10 mil reais.

     

    No território do Santuário dos Pajés, as empresas planejam construir apartamentos de alto padrão, acessíveis a uma camada que não tem necessidade de moradia, pois já possui imóveis em outros locais e tem renda mensal acima de 20 mil reais.

     

    "Esse empreendimento não tem justificativa social, não é um empreendimento que responda a uma demanda da sociedade. Vai servir a uma pequena elite, para gerar mais especulação imobiliária ou funcionar como uma espécie de poupança. Não justifica destruir cerrado e tirar população que já vive lá há mais de 50 anos”, destaca Buzatto.

     

    Uma das empresas envolvidas, Emplavi, é apontada como doadora de 1,5 milhão de reais para a candidatura do atual governador, Agnelo Queiroz.

     

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  • 31/10/2011

    Indígenas ocupam sede da Funai em Imperatriz (MA)

    Renato Santana

    De Brasília

     

    Cerca de 150 indígenas dos povos Krikati, Gavião e Guajajara ocuparam na noite deste domingo (30) a sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Imperatriz, município localizado na região sudoeste do Maranhão (MA). Com severas críticas a reestruturação da Funai, a ação ocorreu de forma pacífica.  

     

    Reivindicando mudanças na política indigenista estatal regional e a exoneração do coordenador do órgão no Estado, os indígenas exigem a presença de representantes da Funai de Brasília (DF) no prédio ocupado para discutir a pauta apresentada pelo movimento.

     

    “Ficamos aqui por tempo indeterminado porque só sairemos quando a Funai atender nossas reivindicações”, afirma Silvio Guajajara. A previsão é de que uma delegação do povo Ka’apor e mais um grupo de Guajajara cheguem para fortalecer a ocupação, subindo o número de indígenas em protesto para cerca de 300.

     

    O quadro no Maranhão é o principal motivador da ocupação. Conforme os indígenas, a reestruturação da Funai não passou por consulta entre os povos e desde 28 dezembro 2009, data da publicação do decreto presidencial, nenhum seminário para tratar das mudanças foi realizado no Estado.

     

    “Há dois anos que pedimos um seminário para tratar da reestruturação, fazer com que os indígenas a entendam e que os representantes do órgão nos esclareçam o que estão pensando. Nunca aconteceu”, diz Edilena Krikati. Com a mudança, de acordo com os povos, a situação dos indígenas só piorou.

     

    Extrusão: demora de 14 anos

        

    A continuidade da invasão madeireira, situação fundiária indefinida, processos de demarcação e homologação concluídos com a permanência de não indígenas nas terras são problemas persistentes e cotidianos. “Meu povo está há 14 anos esperando que a Funai faça a extrusão de 218 posseiros com ocupações já consideradas de má fé”, diz Edilena.

     

    Com a situação não resolvida, o conflito e a tensão entre indígenas e invasores são marcas do dia a dia. De acordo com a indígena, uma das aldeias Krikati fica em área ocupada por um fazendeiro. Para ela, a inoperância joga os indígenas para a vulnerabilidade e violência.

         

    A inexistência de atuação do órgão dentro das comunidades permite a invasão de madeireiros e caçadores. “Todas as terras estão numa onda de invasão. Não existe a presença dos órgãos nas áreas indígenas. Os funcionários (da Funai) se metem entre os índios para jogar uns contra os outros”, denuncia Silvio Guajajara.   

     

    Para Gilderlan Rodrigues da Silva, integrante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Maranhão, “a reivindicação dos indígenas é legítima. A políticas não conseguem atender as demandas que têm dentro das comunidades”.

     

    Cita como exemplo a Terra Indígena Arariboia, dos Awá-Guaja, onde a ação de madeireiros ocorre dentro da aldeia com homens armados ameaçando e aliciando os indígenas – atacados dentro da floresta e sendo um povo caçador e coletor as consequências são perversas.

     

    A reestruturação, portanto, acabou sendo o estopim para a conjuntura ser problematizada pelos indígenas: “Quero falar isso para o Brasil e para o mundo: estamos abandonados e por isso estão invadindo as nossas terras, ameaçando nosso povo. Não toleramos mais isso”, avisa Silvio Guajajara.

     

    Outra preocupação colocada pelos povos são os grandes empreendimentos em áreas indígenas ou no entorno. “Além dos impactos na natureza, no meio ambiente, há o alcoolismo, as drogas e outros problemas vindos com as obras”, encerra Edilena Krikati.

     

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