• 28/11/2011

    Intimidação a indígenas reforça necessidade de intervenção Federal no MS

    Cleber Buzatto

    Secretário Executivo do Cimi

     

    Na tarde deste domingo (27) um grupo de lideranças Kaiowá Guarani foi abordado e sofreu explícita tentativa de intimidação por parte de fazendeiros e do presidente do Sindicato Rural de Iguatemi, Mato Grosso do Sul (MS). As lideranças estavam acompanhados de dirigentes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), de representantes de entidades de apoio, entre as quais o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), de funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da comitiva do Governo Federal que realiza visita oficial ao estado.

     

    Nem mesmo a presença da Força Nacional de Segurança foi suficiente para intimidar os fazendeiros que, munidos de câmaras fotográficas e de uma “caneta espiã”, passaram a filmar e fotografar ostensivamente as lideranças indígenas, apoiadores e mesmo os integrantes da comitiva oficial. Além disso, o presidente do Sindicato Rural, portando-se como uma autoridade policial, passou a exigir a identificação do coordenador da comitiva, o secretário Nacional de Articulação Social, Paulo Maldos, ao que se seguiu uma intensa discussão entre ambos.  

     

    O presidente do sindicato realizou alguns telefonemas e, em poucos minutos, o prefeito do município de Iguatemi também chegou ao local. Ao ser questionado sobre os motivos pelos quais nenhum membro da prefeitura fora designado para acompanhar a visita à comunidade de Pyelito Kue, o prefeito respondeu que isso não havia sido possível pelo fato da visita estar sendo feita num domingo. No entanto, ao ser questionado sobre as motivações dele próprio ter atendido imediatamente ao chamado dos fazendeiros em plena tarde de domingo, o prefeito reagiu com grande agressividade verbal contra um dos apoiadores dos indígenas. O prefeito precisou ser contido pelos agentes da Força Nacional de Segurança.

     

    Os agentes da Força Nacional identificaram os fazendeiros e o presidente do sindicato rural. Por solicitação das lideranças indígenas, as fotografias que haviam sido tiradas por um dos fazendeiros foram apagadas. No entanto, as filmagens feitas pelo presidente do sindicato rural não foram deletadas, uma vez que o mesmo repassou a “caneta espiã” que portava a pessoas que passaram pelo local numa camionete cor prata.

     

    O episódio ocorreu numa via pública, ao lado da rodovia estadual MS-386, entre os municípios de Iguatemi e Tucuru, ao sul do estado do Mato Grosso do Sul. A comitiva governamental, formada por representantes da Secretaria Geral da Presidência da República e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, com as lideranças indígenas e apoiadores, retornava de visita aos indígenas da comunidade Pyelito Kue. Lideranças dessa comunidade relataram que têm sofrido ataques sistemáticos de fazendeiros e seus jagunços. Os mais graves foram realizados no último mês de agosto. No entanto, segundo os indígenas, todos os dias são disparados tiros sobre o acampamento.

     

    Os Kaiowá Guarani que foram filmados pelo presidente do Sindicato Rural de Iguatemi estão muito apreensivos, uma vez que são lideranças de outros acampamentos e muitos deles têm sido ameaçados na região.

     

    O fato ocorrido demonstra a total inexistência de limites por parte desse setor anti-indígena no estado do Mato Grosso do Sul. Se essas pessoas não se intimidam, em plena luz do dia, nem mesmo diante de agentes armados da Força Nacional de Segurança, o que são capazes de fazer, à noite, a indígenas desarmados que vivem em acampamentos e barracos sem o mínimo de proteção e segurança?

     

    Fica cada vez mais nítida a legitimidade e a urgência no atendimento à reivindicação feita pelos Kaiowá Guarani, em Manifesto entregue à comitiva governamental, na tarde deste ddomingo, em que exigem, entre outras medidas, “imediata intervenção Federal no estado do Mato Grosso do Sul” e “proteção às nossas lideranças e comunidades que estão sendo constantemente ameaçadas por grupos paramilitares existentes no Mato Grosso do Sul”.

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  • 28/11/2011

    Aty Jeroky Guasu Guarani e Kaiowá: Declaração contra ameaças de morte

    ATY JEROKY GUASU GUARANI E KAIOWÁ

     

    DECLARAÇÃO CONTRA AMEAÇAS DE MORTE

     

    Vimos através deste documento, socializar e denunciar as ameaças de morte ocorridas no dia 27/11/2011, às 16:15hs, na estrada pública distante 20 km da entrada do acampamento indígena tekoha Pyelito kue-Mbarakay, município de Iguatemi-MS.

     

    Cerca de 100 lideranças indígenas Guarani e Kaiowá, após Aty Guasu no tekoha Yvy Katu, encerrada na manhã desse mesmo dia, fomos acompanhar a comitiva da Presidência da República do Brasil (Sr. Secretário de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência, Paulos Maldos, acompanhado do sr. Thiago Garcia e do sr. Bruno, da Secretaria de Direitos Humanos) em visita ao dito tekoha Pyelito kue-Mbarakay.

     

    A comitiva da Presidência da República do Brasil atendeu a solicitação do Conselho da Aty Guasu, por isso agendou uma visita ao acampamento do Pyelito-Kue Mbarakay. A equipe visitou o acampamento destruído na margem da estrada pública. No local, o grupo indígena foi atacado violentamente por pistoleiros no dia 23/08/2011. Ali, aconteceu reunião Aty com a comitiva do Governo Federal. O encontro durou três horas – de 13:00 a 16:00.  As lideranças do Pyelito Kue- Mbarakay narraram ameaças de morte existente contra o acampamento. Todas as noites há tiros de arma de fogo em torno do acampamento, não há segurança. Além disso, no acampamento, não há assistência à saúde e educação. A comitiva federal e sua visita foram escoltadas por equipe da Força Nacional de Segurança Pública.  

     

    Depois desta reunião, às 16 horas, retornamos do acampamento Pyelito, e, quando chegamos à encruzilhada da vicinal com a estrada asfaltada que liga Iguatemi a Tacuru, nos deparamos com três caminhonetes. Os quatro ocupantes desses veículos estavam com filmadoras na mão, filmando-nos. Fizeram ameaça publicamente: “Vamos queimar esses ônibus com índios! Índios vagabundos! Ficam invadindo fazendas”. Disseram ainda: “Recebi orientação da Roseli do CNJ para fazer isso, cercar os senhores e filmar e tirar fotos. Isso não vai ficar assim não! Esses índios vão pagar pelos seus atos, invasores das fazendas! Por isso tiro fotos… Ninguém pode com nós! Nós que mandamos aqui. Vai acontecer do jeito que nós queremos, nunca vamos deixar os índios e nem a FUNAI invadir fazendas”. E assim continuou, filmando nós todos, com voz de tom nervoso. Diante disso, a polícia da Força Nacional e os integrantes da comitiva da Presidência da República desceram dos carros oficiais para conversarem com os quatros que estavam tirando fotos. Um deles se apresentou como prefeito de Iguatemi, e outro, como presidente do Sindicato Rural de Iguatemi-MS. Os dois são fazendeiros da região de Pyelito Kue-Mbarakay.     

     

    Nós todos, cem lideranças, fomos filmados, tiraram as nossas fotos, e antes mesmo de a polícia retirar dele a máquina fotográfica, entregaram para outra pessoa, em caminhonete S10 que saiu imediatamente do local indo em direção à cidade de Iguatemi-MS.

     

    Diante disso, pedimos a todas as autoridades, com urgência, que tomem providências legais cabíveis em relação ao caso narrado, em que houve ameaça de morte anunciada pelo prefeito e pelo presidente do Sindicato Rural.

     

    Aty Guasu do povo Guarani e Kaiowá-MS

     

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  • 27/11/2011

    Manifesto – Reunião Extraordinária do Conselho da Aty Guasu

    O manifesto abaixo  foi entregue à comitiva de autoridades que visitam comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul.


     

    Manifesto – Reunião Extraordinária do Conselho da Aty Guasu

    Povo Kaiowá e Guarani – Terra Indígena Yvy Katu

     

    Nós, lideranças Kaiowá e Guarani, juntamente com representantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e de organizações aliadas da nossa causa, nos reunimos, de forma extraordinária, na Terra Indígena Yvy Katu, município de Japorã (MS), nos dias 26 e 27 de novembro de 2011, para conversarmos e definirmos estratégias para reagir às graves violências que estão sendo cometidas contra nosso povo. Após dezenas de exposições emocionadas de nossos líderes, muitos dos quais ameaçados de morte, tomamos as seguintes decisões:

     

    1- Exigimos que haja uma imediata intervenção federal no estado do Mato Grosso do Sul.

     

    2- Exigimos proteção às nossas lideranças e comunidades que estão sendo constantemente ameaçadas por grupos paramilitares existentes no Mato Grosso do Sul.

     

    3- Exigimos a publicação, ainda em 2011, dos relatórios circunstanciados de identificação e delimitação das terras indígenas em estudo pelos 06 Grupos Técnicos criados em 2008.

     

    4- Exigimos a rápida conclusão dos procedimentos administrativos de demarcação, nos quais muitas de nossas terras já estão declaradas e homologadas, mas continuam invadidas pelos fazendeiros. Esse pedido se estende também à Justiça Federal, que muitas vezes demora muitos anos para decidir sobre ações judiciais impetradas por fazendeiros que questionam nosso direito.

     

    5- Exigimos a investigação rigorosa e a efetiva prisão dos criminosos que realizaram o covarde ataque armado à comunidade de Guaiviry, em Aral Moreira, no último dia 18 de novembro. Que sejam apresentados resultados concretos das investigações ainda no decorrer deste ano de 2011.

     

    6- Exigimos que a Justiça Federal acolha imediatamente a denúncia feita pelo MPF no caso do ataque ao Tekoha Ypo’y, em Paranhos, no qual foram mortos os professores Jenivaldo e Rolindo Vera. 

     

    Por fim, queremos que o mundo saiba: não mais aceitaremos calados que nossos líderes continuem irrigando com seu sangue a nossa própria terra, enquanto ela continua sendo pisada pelos bois de fazendeiros assassinos. Já esperamos muito. Já sofremos muito. Já choramos muito. Por isso, exigimos que as autoridades brasileiras cumpram as leis de nosso país, garantam a nossa proteção e efetivem nossos direitos. Caso o governo federal e a presidente Dilma não solucionem imediatamente o problema da violência contra nossas comunidades e não dêem sinais concretos de que irão demarcar nossas terras, nós, enquanto povo Kaiowá e Guarani, tomaremos as nossas próprias medidas para nos defender e para reconquistar nosso território. Toda e qualquer conseqüência advinda disso será de total responsabilidade da presidente Dilma, do seu governo e do Estado Brasileiro.

     

    Terra Indígena Yvy Katu, 27 de novembro de 2011.

     

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  • 26/11/2011

    De Marçal a Nisio – semente e sonho Guarani

     

    “Há 28 anos quiseram fazer calar a voz do líder indígena Marçal, o grito foi além fronteiras e fez ao mundo dirigir o seu olhar para o povo Guarani-Kaiowá , porque é forte o grito dos homens,  que estão juntos como um arco-íris no abraço de Mar a mar. Vamos continuar a gritar a invencível causa dos pobres, como irmãos e irmãs com o amor da Mãe Terra,  como um sinal de bondade de ternura e vida plena, acreditemos na proposta de vida dos povos indígenas” (Francy Perez).

     

    Os milhares de manifestações, de atos contra a impunidade e solidariedade ao povo Guarani, são sinais claros de que é necessário dar um basta a esse massacre e genocídio dos povos nativos desta terra. Essa guerra secular tem que acabar!

     

    “É o que está acontecendo neste Estado, onde, em ondas sucessivas de repetidos assassinatos contra grupos indígenas, semeia-se ao lado de corpos crivados de balas, a sensação de que se vive num Estado cuja lei só submete os pequenos. Enquanto aguardam pela identificação e delimitação de suas áreas, um a um do povo Guarani vai tombando, semeando cruzes, misturando-se ao pó e ao capim braquiária e a cana, e seu dono, de hálito de pólvora e bovinos métodos de extermínio” (Carlos Alberto – “Acorda Mato Grosso do Sul” – novembro 2011).

     

    Contra a impunidade e em defesa dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul

     

    “Queremos justiça, queremos justiça!” Em coro, mais de 300 pessoas, gritam no auditório da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul. A voz potente de Mercedes Sosa, pede que não sejamos indiferentes ante tantas vidas matadas, num mundo tão injusto! De Marçal Tupã’i a Nisio Kaiowá Guarani,  muitas vidas foram plantadas no chão encharcado de sangue. Forte emoção no plenário. Uma criança Kaiowá entra trazendo uma vela acesa. A luz não pode ser sepultada. Nisio, assim como Marçal e centenas de lideranças desse povo, irão iluminar os passos na reconquista de suas terras.

     

    No documento assinado por mais de 70 entidades, é exposta a gravidade extrema da violência e as urgentes e necessárias providências. “O atentado contra Nísio Gomes e sua comunidade reflete ao mundo um dos piores quadros de violações de direitos humanos contra povos originários. Os índices de terras ocupadas efetivamente pelos povos indígenas de Mato Grosso do Sul maculam a medida do bom senso, com reservas superlotadas e infestadas pela falta de condições dignas de vida para seus habitantes… A agressividade em que os setores contrários aos direitos indígenas impõem seus interesses é intolerável, mas tem sido respaldada pelas omissões do Estado brasileiro. O Brasil não poderia reivindicar espaços nos órgãos internacionais, como a ONU, defendendo direitos de povos no mundo afora sem sequer ter reconhecido os direitos dos povos brasileiros. Uma contradição insustentável que deve ter atenção especial dos organismos nacionais e internacionais”.

     

    Para finalizar o ato, o deputado Pedro Kemp, batalhador da causa e propositor do evento, convidou os presentes para cantar com ele o hino em homenagem a Marçal, para lembrar os 28 anos em que ele foi plantado nessa terra para dar certeza de que os Guarani terão de volta as terras que lhes pertencem secularmente. “Marçal, Marçal, tua morte só apressa o dia em que o alto preço dessa covardia será cobrada pelos Guarani”. O ato começou com a emoção do hino nacional cantado em Guarani, e terminou com essa linda canção em homenagem aos lutadores, heróis e mártires desse povo.

     

    Uma comissão da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República esteve no local para se inteirar dos fatos e tomar algumas providências imediatas. Segundo Ramaís Silveira, “enquanto houver um impasse sobre a posse das terras, equipes da Força Nacional serão mantidas na entrada da fazenda. A medida foi tomada pelo governo brasileiro para evitar outro conflito na área”. É uma vitória da terra e de seus filhos.

     

    A Polícia Federal considera que as investigações estão bem avançadas. "Os vestígios de sangue estão sendo analisados pela perícia. Pela quantidade de sangue encontrado no local, pode se afirmar com convicção que o ferimento que o cacique tenha recebido foi mortal", revela Edgar Marcon, superintendente da Polícia Federal de Mato Grosso do Sul (G1, 25/11/2011).

     

    Comitê Nacional de Defesa dos Povos Indígenas do Mato Grosso do Sul

     

    A indignação deve se transformar em ações concretas, em solidariedade transformadora. E movimentos sociais, acadêmicos e de instituições nacionais como a OAB, trataram logo de criar um instrumento em defesa permanente dos povos indígenas deste estado, para colocar um basta nesse processo de morte, de genocídio. No dia 24 deste mês foi criado um organismo integrado por mais de 40 entidades regionais e nacionais com o objetivo de “defender a população indígena contra todas as formas de violência, seja por ação, ou por omissão, seja por parte de particulares ou do poder público”.

     

    Assim como em 1980 em Campo Grande se criou a União das Nações Indígenas – UNI, da qual Marcal Tupã’i era vice presidente, aqui se cria um instituição nacional em defesa dos direitos dos Povos Indígenas. No encontro de fundação já foram indicadas algumas ações concretas, como o encaminhamento de uma ação à Organização dos Estados Americanos (OEA) e solicitar a intervenção na fronteira do Mato Grosso do Sul, para evitar que novas violências sejam perpetradas contra os Kaiowá Guarani e Terena.

     

    Semeando cruzes e sonhos

     

    O dia amanhece!

    Sobre as cruzes Guarani,

    Cresce o capim,

    A soja e a cana,

    No caldo amargo

    De vidas moídas

    Na engrenagem

    Do sistema de ambição!

    Outro dia amanhece

    Cresce a revolta,

    Forma-se um turbilhão,

    Da gente Guarani Kaiowá,

    Dizendo – Alto lá!

    Chega de invasão e morte,

    Queremos justiça,

    Que é vida, paz,

    Liberdade

    No caminho

    Da terra sem males!

    Anoitece!

    O Brasil fecha os olhos

    A seus filhos primeiros

     

    Egon Heck

    Povo Guarani Grande Povo

    Cimi 40 anos, novembro de 2011.

     

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  • 25/11/2011

    Grupo móvel do MPT e da SRTE/PA constata condições precárias de trabalho em obra de empreiteira da Norte Energia

    O Ministério Público do Trabalho da 8ª Região juntamente com a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Pará, em cumprimento às operações anuais de fiscalização de obras do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento do governo federal) e de combate ao trabalho escravo, constataram condições precárias de trabalho na região de Pimental, um dos sítios de Belo Monte, localizado a 40 km de Altamira, no oeste do Estado.  

     

    Em atendimento a denúncias, o grupo móvel do MPT e da SRTE/PA encontrou sérias irregularidades na construção de uma escola, localizada nas proximidades do sítio que abrigará a casa de força complementar da usina. Quem responde pela obra é a empresa Tropical Engenharia, com sede em Brasília, contratada pela Norte Energia para executar uma das exigências condicionantes de Belo Monte – isto é, obras compensatórias dos impactos causados pelo empreendimento. 

     

    Após a constatação de precariedades referentes, principalmente, às condições de alojamento e higiene dispensadas aos trabalhadores, a obra da escola foi imediatamente interditada. O responsável pela Tropical Engenharia não foi encontrado, no primeiro momento, para receber a notificação do Ministério.

     

    O MPT já comunicou a Norte Energia sobre a situação irregular de sua contratada e advertiu sobre a necessidade de fiscalização mais rigorosa quanto às terceirizadas pela empresa, a qual deve ser responsabilizada de forma solidária no caso. A continuidade das investigações ficará a cargo da Procuradoria Regional do Trabalho no Município de Santarém.

     

    Ministério Público do Trabalho

    Assessoria de Comunicação

     

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  • 25/11/2011

    Carta em Defesa dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul

    Nós, representantes de entidades da sociedade civil e movimentos sociais de Mato Grosso do Sul, presentes no “Ato Contra a Impunidade e em Defesa dos Povos Indígenas do Mato Grosso do Sul”, realizado no dia 25 de novembro de 2011, na Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul, diante do atentado ao líder religioso (Nhanderú) Kaiowá Guarani Nisio Gomes e o seu desaparecimento ocorrido no dia 18 de novembro, após o ataque de milícias armadas contra à sua comunidade, dentro da terra tradicional Guaiviry, há anos reivindicada para demarcação, manifestamos nossa indignação por mais este fato de violência contra os povos indígenas desta Unidade Federativa.

     

    Queremos prestar nossa solidariedade aos familiares de Nisio Gomes, lembrando os 28 anos do assassinato de Marçal de Souza e clamando por soluções imediatas. Em 25 de Novembro de 1983, tombava uma das mais importantes lideranças indígenas de Mato Grosso do Sul. Marçal de Souza relatou ao mundo a sua luta, assim como todo sofrimento de seu povo pela falta de suas terras. Denunciou a omissão do Estado brasileiro e as ameaças que vinha sofrendo. Cobrava a punição dos agressores de indígenas e soluções concretas para as demarcações de suas terras. Em face destas reivindicações teve sua vida ceifada.

     

    Após sua morte, outros continuaram a luta por reconhecimento de suas terras e também se foram. Marcos Verón, Dorvalino Rocha, Dorival Benites, Julite Lopes, Ortiz Lopes, Oswaldo Lopes, Jenivaldo Vera, Rolindo Vera foram assassinados brutalmente por estarem defendendo os direitos de seu povo.

     

    Entre os casos, guarda-se uma semelhança estarrecedora: a impunidade total dos crimes e a contínua negação dos direitos indígenas no estado. Estamos abalados pelo atentado e desaparecimento de Nísio Gomes ocorrido no dia 18 de novembro.

     

    Nisio era a liderança (Nhanderú) de seu grupo no seu território tradicional conhecido por eles como tekohá Guayviri. Foram várias tentativas de retorno para sua área, e foram várias as expulsões violentas feitas por grupos armados da região. Porém, Nisio estava decidido. Não suportava mais viver nas condições precárias estabelecidas nas antigas Reservas criadas pelo SPI. Queria deixar as terras para o futuro de seu povo. Sabia que corria risco de morte. Mesmo assim, não recuou. Foi covardemente atacado por milícias armadas, permanecendo desaparecido até o momento. Tentaram calar sua voz, mas alimentaram ainda mais a sua luta, onde outros, em seu nome, avançam na conquista de seus direitos.

     

    O atentado contra Nísio Gomes e sua comunidade reflete ao mundo um dos piores quadros de violações de direitos humanos contra povos originários. Os  índices de terras ocupadas efetivamente pelos povos indígenas de Mato Grosso do Sul maculam a medida do bom senso, com reservas superlotadas e infestadas pela falta de condições dignas de vida para seus habitantes.

     

    Os mais de 31 acampamentos de beiras de estradas só confirmam a necessidade inadiável de soluções concretas pelo Estado brasileiro. O que, infelizmente, ainda não veio.

     

    A omissão e o descaso das autoridades públicas são históricas e permanecem nos dias atuais sem previsões otimistas de uma nova postura que respeitem os direitos humanos destes povos.

     

    A agressividade em que os setores contrários aos direitos indígenas impõem seus interesses é intolerável, mas tem sido respaldada pelas omissões do Estado brasileiro. O Brasil não poderia reivindicar espaços nos órgãos internacionais, como a ONU, defendendo direitos de povos no mundo afora sem sequer ter reconhecido os direitos dos povos brasileiros. Uma contradição insustentável que deve ter atenção especial dos organismos nacionais e internacionais.

     

    Queremos firmar nosso repúdio às manifestações de preconceito e racismo constantemente registradas em Mato Grosso do Sul, que só agravam o cenário já caótico de violações de direitos humanos dos povos indígenas no estado.

     

    Tratam os indígenas como “incapazes” ou alegam que “não são índios” conforme as conveniências, visando legitimar as agressões. Os povos indígenas são protagonistas históricos de um processo de resistência que perdura por mais de 500 anos. Lutas onde as armas, foram a palavra e os Mbaracas de seus rezadores.

     

    Deste modo solicitamos às autoridades do Estado brasileiro que sejam tomadas as seguintes medidas visando soluções concretas para os conflitos na região.

     

    1 – Seja garantida uma “força tarefa” de proteção policial aos povos indígenas de Mato Grosso do Sul contra as várias formas de violências praticadas contra a comunidade e suas lideranças.

     

    2 – Seja concluída a investigação pelo desaparecimento de Nísio Gomes, do tekohá Guaiviry, apontando todos os criminosos envolvidos e suas respectivas prisões visando assegurar que não ocorram novas violências na região.

     

    3 – Que sejam aprofundadas as investigações sobre o sequestro de crianças indígenas quando do desaparecimento de Nisio Gomes e a possível localização das mesmas.

     

    4 – Que seja determinada intervenção federal na região visando concluir as investigações sobre o assassinato de lideranças indígenas e a conclusão das demarcações das terras indígenas no estado.

     

    5 – Que sejam publicados os Relatórios de Identificação das terras do povo Kaiowá e Guarani conforme a previsão contida no TAC assinado entre o Ministério Público Federal e FUNAI.

     

    Campo Grande, MS, 25 de novembro de 2011.

     

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  • 25/11/2011

    Anistia Internacional – Ação Urgente – Brasil: Líder Indígena Executado

    AÇÃO URGENTE

    BRASIL: LÍDER INDÍGENA EXECUTADO

     

    Cerca de 100 índios Guarani-Kaiowá estão acampados em suas terras ancestrais. Em 18 de novembro, 40 pistoleiros invadiram o acampamento, matando um líder indígena e sequestrando três crianças. O grupo indígena jurou permanecer em suas terras ancestrais.

     

    Por volta das 6h30 do dia 18 de novembro, 40 homens armados, muitos dos quais encapuzados, chegaram em cerca de uma dúzia de caminhões ao acampamento Guaiviry, um assentamento montado em fazendas no Mato Grosso do Sul. O grupo atacou a comunidade, ferindo várias pessoas. O líder indígena Nísio Gomes foi dominado e alvejado repetidamente. Seu neto tentou intervir, mas foi espancado pelos atiradores.

     

    Segundo testemunhas, o corpo de Gomes foi arrastado pelo chão e jogado em um dos caminhões. Três crianças, um menino de 12 anos e duas meninas com idades entre cinco e 12 anos, foram capturadas pelo grupo e levadas no caminhão, não sendo vistas desde então. O corpo de Nísio Gomes ainda não foi encontrado e há temores de que ele possa ter sido levado para o outro lado da fronteira com o Paraguai, tornando o rastreio difícil. A Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a FUNAI estão investigando os ataques.

     

    A comunidade indígena, que acampava na beira da rodovia MS-386 em condições extremamente precárias, havia reocupado suas terras ancestrais em 1º de novembro, montando um acampamento nas fazendas que haviam sido destinadas à demarcação desde novembro de 2008. A pesquisa antropológica foi concluída, mas as terras não podem ser oficialmente identificadas antes que os relatórios antropológicos tenham sido publicados. Antes do ataque 18 de novembro, o acampamento havia sido repetidamente ameaçado por homens armados. Dois dias antes, eles ameaçaram matar Nísio Gomes.

     

    Apesar dos graves riscos, a comunidade prometeu permanecer em suas terras ancestrais. “O povo continua no acampamento, nós vamos morrer tudo aqui mesmo. Não vamos sair do nosso tekoha (terra ancestral)”, disse um membro da comunidade a um representante do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em 18 de Novembro. A comunidade está pedindo às autoridades para redobrar os esforços na busca pelo corpo de Nísio Gomes e procura das crianças desaparecidas.

     

    Por favor, escreva sem demora, em português ou em seu idioma:

    – Apelando às autoridades para que investiguem de forma independente, completa e minuciosa a morte de Nísio Gomes e o rapto das três crianças, e levem os responsáveis ​​à justiça;

    – Apontando que as autoridades falharam por um longo tempo em assegurar a proteção dos Guarani-Kaiowá, e instando-as a oferecer proteção total de acordo com os desejos da comunidade;

    – Instando as autoridades a cumprirem suas obrigações sob a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Constituição Brasileira de 1988, completando todas as demarcações de terras ainda pendentes.

     

    POR FAVOR, ENVIE APELOS ANTES DE 02 DE JANEIRO DE 2012 PARA:

     

    Ministro da Justiça:

    Exmo. Sr. José Eduardo Martins Cardozo

    Esplanada dos Ministérios, Bloco "T" 

    70.712-902 – Brasília / DF

    Brasil

    Fax: + 55 61 2025 7803

    Tratamento: Exmo. Senhor Ministro

    Secretaria dos Direitos Humanos:

    Exma. Sra. Ministra Maria do Rosário

    Setor Comercial Sul-B, Quadra 9, Lote C

    Edifício Parque Cidade Corporate, Torre "A", 10º andar

    Brasília, DF CEP: 70308-200

    Brasil

    Fax: + 55 61 2025 9414

    Tratamento: Exma. Senhora Ministra

    Organização local:

    Conselho Indigenista Missionário (CIMI)

    CIMI Regional Mato Grosso do Sul

    Av. Afonso Pena, 1557 Sala 208 Bl. B

    79002-070 Campo Grande/MS

    Brasil

     

    Com cópias para:

    Envie cópias também para os representantes diplomáticos acreditados em seu país. Por favor, insira o endereço diplomático local abaixo, como segue:
    Nome               Endereço:                     Fax:                 E-mail               Saudação:

    Por favor, verifique com o escritório de sua seção ou com a RAU-Brasil caso deseje enviar apelos após a data citada.

     

    AÇÃO URGENTE

    ataque a comunidade indígena ameaçada

     

    Informações adicionais

     

    O Mato Grosso do Sul conta com algumas das menores, mais pobres e mais densamente povoadas áreas indígenas no Brasil: bolsões de pobreza rural rodeados por grandes plantações de soja e de cana de açúcar e fazendas de gado, onde a vida é marcada por problemas de saúde e condições de vida miseráveis. Cerca de 60 mil indígenas da tribo Guarani-Kaiowá vivem uma existência precária – colapso social que tem levado a altos níveis de violência, suicídio e desnutrição. Frustrados com a lentidão do processo de demarcação de suas terras, os Guarani-Kaiowá começaram a reocupar suas terras ancestrais, mas têm sido submetidos à intimidação e violência.

     

    Numerosos Guarani-Kaiowás foram expulsos à força e acabaram vivendo à beira das estradas. Eles foram expostos a ameaças por parte de seguranças contratados para impedi-los de tentar reocupar terras, a problemas de saúde relacionados à vida abrigos temporários inadequados e à falta de assistência médica. Além disso, um grande número de indígenas foi morto ou ferido em acidentes de trânsito.

     

    Durante a última década houve vários ataques e assassinatos decorrentes da luta pela terra dos Guarani-Kaiowá. Empresas de segurança privada, contratadas por proprietários de terras locais, frequentemente fazem uso de ameaças e violência impunemente.

     

    Em novembro de 2007, o Ministério da Justiça, o Ministério Público Federal, FUNAI e 23 lideranças indígenas assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que comprometia a FUNAI na identificação de 36 diferentes terras ancestrais dos Guarani-Kaiowá – incluindo a terra Guaiviry- até abril de 2010. Falta de recursos e desafios legais atrasaram o processo de identificação, que ainda não aconteceu, embora a FUNAI tenha anunciado recentemente que alguns dos estudos antropológicos seriam publicados em março de 2012. O estudo relacionado à terra Guaiviry estava em vias de ser concluído quando os ataques contra a comunidade ocorreram.

     

    Tanto a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que o Brasil assinou em 2007, quanto a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil também faz parte, consagram aos povos indígenas o direito às terras ancestrais e apelam aos países para estabelecerem mecanismos pelos quais esses direitos possam ser julgados e reconhecidos. A Constituição do Brasil (1988) também afirma os direitos dos povos indígenas brasileiros às suas terras e à responsabilidade do Brasil em demarcá-las.

     

    Mudanças recentes significam que todas as identificações de terras indígenas em potencial terão que passar pelo do gabinete presidencial antes de serem aprovadas – ONGs temem que tal procedimento comprometa os direitos constitucionais dos povos indígenas às suas terras.

     

    Nome: 100 cidadãos Guarani-Kaiowá

    Sexor: Ambos

     


    AU: 339/11 – Índice: AMR 19/018/2011 – Data de Emissão: 21 de novembro de 2011

     

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  • 25/11/2011

    Ataque ocorreu um mês após governo prometer proteção aos Guarani

    Brasil de Fato

    da Redação

    O ataque aos Guarani Kaiowá do Acampamento Tekohá Guaiviry ocorreu um mês após secretário nacional de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República Paulo Maldos, visitar a região e receber denúncias dos indígenas sobre as ameaças que sofrem por por parte dos fazendeiros que ocupam seu território tradicional.

    Maldos visitou o acampamento Y Po’i, no município de Paranhos, Mato Grosso do Sul, em 20 de outubro e afirmou que a segurança de todos os guarani do estado estava garantida. “Se um pistoleiro chegar, quero que a informação seja passada no mesmo dia para o meu telefone para a gente já dar o troco também, para eles saberem que a gente não está brincando não”, disse Maldos.

    Um vídeo produzido pelo projeto Rede de Saberes mostra como foi a visita do representante do governo ao acampamento Ypo’i em outubro. Na ocasião, os indígenas denunciaram as ameças de morte que sofrem constantemente. Além disso, pediram ao governo a conclusão do processo de demarcação de terras no estado, escola para as crianças, liberdade para circular fora dos acampamentos, oportunidade para plantar e condições de segurança.

    O vídeo mostra o momento em que Paulo Maldos se compromete com a segurança dos indígenas. “Eu não quero sair daqui e tudo que eu falei ficar no vento e chegar pistoleiro aqui para fazer terrorismo”, disse.

    No entanto, a promessa de segurança aos Guarani Kaiowá não foi cumprida. Na última sexta-feira (18), cerca de 40 pistoleiros fortemente armados invadiram o acampamento Tekohá Guaiviry, entre os municípios de Amambaí e Ponta Porã. A ação resultou na morte do cacique Nísio Gomes e no desaparecimento de outros três indígenas.

    Após o ataque, representantes do Ministério Público Federal (MPF), da Polícia Federal e da Fundação Nacional do Índio (Funai) estiveram no acampamento. Um inquérito foi aberto para investigar o caso.

    O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto de Carvalho, disse nesta quinta-feira (24) que o governo federal considera a solução dos problemas indígenas do Mato Grosso do Sul uma “questão de honra”. “Estamos fazendo todo o esforço [para reverter essa situação]”, disse o ministro.

    Segundo Carvalho, um grupo de trabalho dedicado especificamente à questão indígena foi constituído, com a presença da Funai e do governo estadual. Além disso, no dia 28, será instalado um comitê gestor na cidade de Dourados, que realizará uma série de políticas públicas para os cerca de 45 mil indígenas da região. “Está próximo [o fechamento de] um acordo com o governo do estado para que a gente consiga ter uma área delimitada para os Guarani Kaiowá. É uma preocupação, um compromisso”, garantiu Carvalho.

    No entanto, o coordenador da Funai de Ponta Porã, Sílvio Raimundo da Silva, reconheceu que ainda há risco para os guarani kaiowá. “É lógico que existe um risco de ataque, mas nem nós [a Funai] nem a Polícia Federal temos como colocar uma guarda montada lá”, disse.

    Os indígenas decidiram permanecer no local, seguindo a orientação do cacique assassinado, mesmo com o risco de novos ataques. Os Guarani ocupam há 25 dias a terra localizada entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde – instaladas em Território Indígena de ocupação tradicional dos Kaiowá. Antes, a comunidade vivia na beira de uma Rodovia Estadual. A área ocupada pela comunidade está em processo de identificação desde 2008 e em fase de conclusão do relatório pela Funai.

    De acordo com Silva, rondas serão feitas no entorno do acampamento Guaiviry, o que pode “garantir que as pessoas que fizeram esse ataque sintam que existe a presença do Estado no local”.

    Y Po’i

    O acampamento Ypo’i, visitado por Paulo Maldos, foi alvo em 2009 de ataque semelhante ao que ocorreu na última sexta-feira no acampamento Guaiviry. Homens armados invadiram o acampamento em caminhões e caminhonetes, efetuando disparos com pelo menos sete armas de fogo de vários calibres contra um grupo de 50 indígenas. A ação resultou na morte dos professores indígenas Jenivaldo Vera e Rolindo Vera. Além disso, Mário Vera, à época com 89 anos, foi agredido pauladas nas costas, ombros e pernas.

    O ataque tinha como objetivo expulsar os indígenas da área ocupada por eles na Fazenda São Luíz, reivindicada como território tradicional. No entanto, em 2010 os indígenas guarani kaiowá reocuparam a área de reserva legal, amparados por decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) que cassou a ordem de reintegração de posse da fazenda até que sejam produzidos os estudos que confirmem que a área é de ocupação tradicional dos indígenas.

    Em 14 de outubro, o Ministério Público Federal (MPF) do Mato Grosso do Sul denunciou à Justiça Federal seis pessoas pelo envolvimento no ataque contra o acampamento Ypo’i e na morte dos dois professores.

    Fermino Aurélio Escolbar Filho, Rui Evaldo Nunes Escobar e Evaldo Luís Nunes Escobar – filhos do proprietário da Fazenda São Luís -, Moacir João Macedo – vereador e presidente do Sindicato Rural de Paranhos -, Antônio Pereira – comerciante da região -, e Joanelse Tavares Pinheiro – ex-candidato a prefeito de Paranhos -, foram denunciados por homicídio qualificado – sem possibilidade de defesa da vítima -, ocultação dos cadáveres, disparo de arma de fogo e lesão corporal contra idoso.

    Se a denúncia for aceita pela Justiça Federal, os acusados responderão como réus a ação penal.

    Guarani

    Conforme recente publicação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) sobre a violência praticada contra os povos indígenas do MS nos últimos oito anos, mais de 1200 famílias vivem em condições degradantes à beira de rodovias ou sitiadas em fazendas, expostas a violências diversas. Somente em 2010, 60 indígenas foram assassinados no Brasil.

    De acordo com o Cimi, há informações, ainda não confirmadas, de que exista uma lista de lideranças Guarani Kaiowá que estariam marcadas para morrer. “As denúncias nomeiam quatro importantes lideranças”, afirma em nota. (com informações do Cimi)

     

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  • 24/11/2011

    A dor dos corpos roubados

    Egon Heck

    Dia 31 de outubro de 2009. Os Kaiowá Guarani acampados no tekohá Ypoí são atacados. Vários índios são feridos, os barracos destruídos. Os professores Guarani Jenivaldo e Rolindo são levados pelos assassinos. O corpo de jenivaldo foi encontrado no rio Ipo’y, sete dias depois de raptado. O corpo de Rolindo até hoje não foi localizado.

    Em dezembro de 2009. O grupo do tekohá  Mabarakaí, município de Iguatemi, retornou , pela segunda vez, a seu Tekohá. Poucos dias depois são atacados por jagunços, resultando vários feridos, dentre os quais Arcelino Texeira, de 22 anos. Sua mãe, em depoimento, afirma que viu o corpo do filho estendido no chão. O corpo nunca foi encontrado.  Com lágrimas a mãe narra os acontecimentos.

    Dia 18 de novembro 2011. O cacique Nisio do tekohá Guaiviry é morto com três tiros de espingarda, diante de pessoas de seu grupo. Seu corpo é arrastado e jogado na carroceria de uma camionete. Até o momento não se tem nenhuma notícia do corpo.

    Não existe dor maior do que a de não poderem dar sepultamento aos corpos dos entes queridos, para que seu espírito amainado possa estar em paz e restabelecer a tranqüilidade na comunidade. Enquanto isso não acontecer todos os membros do grupo ficam em permanente estado de tensão e aflição.  Por isso os familiares de  Rolindo, Arcelino e de Nizio clamam pela localização e entrega  dos corpos para que possam realizar os rituais necessários para  que as comunidades possam  viver em paz.

    O cinismo e a impunidade

    No caso do corpo de Nisio, sequestrado e ocultado há cinco dias (no Brasil ou no Paraguai), a Policia Federal afirma que “o suposto corpo ainda não foi encontrado e o caso tratado como desaparecimento pela Polícia Federal, que investiga o ataque. (Midiamax, 23 de novembro)”.

    Com relação à morte e ocultamento de corpo de Rolindo Vera e a sugestão da Polícia Federal de arquivamento do processo por falta de provas, assim se expressa o procurador da República em Ponta Porá, Thiago dos Santos Luz – que aproveita para criticar o trabalho da Polícia em relação ao caso:

    “É intrigante constatar que pelo menos seis indígenas, as únicas testemunhas oculares dos fatos, em depoimentos detalhados, verossímeis e harmônicos, prestados logo após os crimes, tenham expressamente nominado e reconhecido três indivíduos que participaram direta e pessoalmente do violento ataque a Ypo´i e nenhuma delas tenha sido sequer indiciada pela autoridade policial, que concluiu o caso sugerindo o arquivamento. Pergunto-me: quantos testemunhos mais seriam necessários? Depoimentos de índios não valem nada?”, diz.

    No dia 14 de outubro, lideranças indígenas, após ritual e denúncia diante da sede do Ministério Público em Ponta Porã, seguiram, juntamente com o procurador Thiago dos Santos Luz, para entregar a denúncia na Justiça Federal e na Polícia Federal. Infelizmente passado mais de um mês, a Justiça Federal não se manifestou a respeito do pedido do indiciamento dos seis acusados e da reabertura do inquérito.

    Muitos boatos, acusações e intimidações correm na região. A Polícia Federal se refere aos fatos como havendo apenas um “desaparecimento”, utilização exclusiva de balas de borracha. Há pessoas que chegam ao absurdo de dizer que o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) estaria escondendo Nísio. Outros afirmam que nada sabem e nada aconteceu no município de Aral Moreira, no Guaiviry.

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  • 23/11/2011

    MPF/MS denuncia seis pessoas por assassinato de professores indígenas

    Assessoria do MPF/MS

     

    Seis pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF/MS) pelo envolvimento no ataque à comunidade indígena Ypo’i (Paranhos, sul do estado) e a morte dos professores indígenas Jenivaldo Vera e Rolindo Vera. Entre os denunciados estão políticos e fazendeiros da região. Eles são acusados por homicídio qualificado – sem possibilidade de defesa da vítima -, ocultação dos cadáveres, disparo de arma de fogo e lesão corporal contra idoso.

     

    Foram denunciados Fermino Aurélio Escolbar Filho, Rui Evaldo Nunes Escobar e Evaldo Luís Nunes Escobar – filhos do proprietário da Fazenda São Luís -, Moacir João Macedo – vereador e presidente do Sindicato Rural de Paranhos-, Antônio Pereira – comerciante da região, e Joanelse Tavares Pinheiro – ex-candidato a prefeito de Paranhos.

     

    A denúncia foi protocolada em 14 de outubro, na Justiça Federal de Ponta Porã, por indígenas da etnia guarani-kaiowá. Se a denúncia for recebida pela Justiça, os investigados responderão como réus a ação penal. A decisão pode sair a qualquer momento.

     

    O MPF entende que há elementos suficientes contra os denunciados para a abertura da ação penal. Para o procurador da República Thiago dos Santos Luz, “não se pode pretender encerrar precocemente o caso e impedir o órgão acusatório (MPF) de provar as suas alegações, no âmbito do devido processo legal. Além de todo o arcabouço fático-probatório produzido durante as investigações, já bastante para autorizar a deflagração do processo penal, outras medidas estão em curso”.

     

    Ainda segundo o procurador, “é intrigante constatar que pelo menos seis indígenas, as únicas testemunhas oculares dos fatos, em depoimentos detalhados, verossímeis e harmônicos, prestados logo após os crimes, tenham expressamente nominado e reconhecido três indivíduos que participaram direta e pessoalmente do violento ataque a Ypo´i e nenhuma delas tenha sido sequer indiciada pela autoridade policial, que concluiu o caso sugerindo o arquivamento. Pergunto-me: quantos testemunhos mais seriam necessários? Depoimentos de índios não valem nada?”.

     

    Ataque

     

    As mortes ocorreram durante expulsão de área reivindicada pelos indígenas como de ocupação tradicional indígena da etnia guarani-kaiowá (Tekoha Ypo´i), na Fazenda São Luiz, em Paranhos, em 31 de outubro de 2009. Alguns dos denunciados e outras pessoas ainda não identificadas chegaram ao local em caminhões e caminhonetes, efetuando disparos com pelo menos sete armas de fogo de vários calibres (12, 32, 36, 9mm Luger, 30 e 38) e agredindo o grupo de 50 indígenas. Mário Vera, à época com 89 anos, recebeu pauladas nas costas, ombros e pernas. Os dois professores foram mortos e os corpos, ocultados.

     

    O corpo de Jenivaldo foi encontrado uma semana depois, em 7 de novembro, dentro no Rio Ypo´i, próximo ao local do conflito. Segundo boletim de ocorrência, Jenivaldo “estava sem camisa, com cueca e calção, descalço, com perfuração de arma de grosso calibre frontal no peito e nas costas”.

     

    A perícia comprovou que a morte foi causada por um tiro nas costas, que saiu pelo peito, causando a hemorragia fatal. Apesar das buscas realizadas pela Polícia com o auxílio do Exército e do Corpo de Bombeiros, o corpo de Rolindo não foi encontrado até hoje.O MPF também requisitou abertura de novo inquérito na Polícia Federal de Ponta Porã para investigação da participação de outras pessoas nos crimes, além de indícios de utilização de veículo oficial da Prefeitura de Paranhos no deslocamento do grupo que atacou os indígenas.

     

    Entenda o caso

     

    Os estudos de identificação e delimitação da terra indígena Ypo´i foram previstos no TAC celebrado entre o MPF e a Funai em novembro de 2007. Como a entidade indigenista não cumpriu os prazos ali previstos, o MPF, em meados de 2010, ingressou com duas ações judiciais de execução de título extrajudicial, que estão em tramitação na Justiça Federal em Dourados(MS).

     

    Depois de expulsos em 2009, os indígenas guarani-kaiowá reocuparam a área de reserva legal da Fazenda São Luís em 19 de agosto de 2010. Eles estão amparados por decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região – TRF3 – que cassou ordem de reintegração de posse “até a produção de prova pericial antropológica”, ou seja, os estudos que confirmem os indícios de ocupação tradicional da região por aquele grupo étnico. Segundo o Tribunal "existem provas de que a Fazenda São Luiz pode vir a ser demarcada como área tradicionalmente ocupada pelos índios".

     

    Assistência, Saúde e Educação

     

    Desde então, a assistência aos indígenas – que ocupam uma área de mata de difícil acesso – vem sendo realizada graças a uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal perante a Justiça Federal em Ponta Porá (MS), que autorizou os órgãos responsáveis a entrar na fazenda duas vezes por mês para entrega de cestas básicas e remédios aos indígenas acampados.

     

    Recentemente, a Justiça também deferiu pedido do MPF para o ingresso na área, três vezes por dia, de ônibus escolar para o transporte dos estudantes indígenas de Ypo´i. A medida está em fase de implementação, por causa do encerramento do ano letivo e a necessidade de compatibilização com o calendário das escolas indígenas da região.

     

    Enterro raro em área ocupada

     

    A Justiça Federal também autorizou o enterro do indígena Teodoro Recalde na área ocupada pelos índios dentro da Fazenda São Luís. Recalde, 33, foi encontrado morto com sinais de violência em setembro deste ano. O caso está sob investigação. Pela tradição, o índio deve ser sepultado em terra de seus ancestrais, daí a insistência dos guarani-kaiowá para realizar o enterro dentro da fazenda.

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