• 14/03/2012

    REED e as tentativas de criminalização dos povos indígenas

    Nota Pública

    REED e as tentativas de criminalização dos povos indígenas

    Depois de abordada pelo conjunto da imprensa brasileira na última semana, a questão que envolve contratos de Redução de Emissão por Desmatamento e Degradação (REDD) feito por empresas estrangeiras, caso da irlandesa Celestial Green, com comunidades indígenas brasileiras, sobretudo as localizadas no Norte do país, gerou reações em diversos setores da sociedade.

    Algumas dessas reportagens abordaram o assunto de forma honesta; outras, por sua vez, fizeram questão de criminalizar os povos indígenas disseminando inverdades e tampouco oferecendo o direito de defesa às comunidades. Dentre tais mentiras, a principal delas é a de que os indígenas estariam vendendo suas terras.

    Em vista da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Federal, que propõe levar para o Congresso Nacional a autorização para demarcação e homologação de terras indígenas e quilombolas, nos perguntamos: a quem interessa perverter informações e criminalizar os indígenas?

    Tais contratos de REED não envolvem vendas de terras indígenas, o que seria inconstitucional e traria severos prejuízos aos supostos compradores, posto que as terras são de propriedade da União e de usufruto permanente dos indígenas que nela vivem em ocupação tradicional. Os contratos são de exploração de hectares de floresta preservada visando o carbono contido nessas áreas para fim de compensação ambiental. Nada de venda de terras.

    Não obstante, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) reafirma seu completo repúdio por tais contratos e suas motivações, tridimensionadas em mecanismos oriundos do capitalismo verde, onde as práticas tradicionais dos povos indígenas e a natureza são negociadas em mercados de carbono para benefício exclusivo do capital internacional – que precisa continuar poluindo, sem constrangimentos internacionais, em prol de um desenvolvimento torpe e desigual.

    No entendimento do Cimi, esses contratos são ilegais, inconstitucionais e juridicamente inválidos, uma vez que atentam contra o usufruto exclusivo dos indígenas sobre as terras tradicionalmente ocupadas. No mais, tais contratos já trazem prejuízos aos indígenas e tais acordos não podem servir para justificar a não demarcação de terras, como sugere de forma sutil algumas matérias jornalísticas que têm sido veiculadas pela imprensa.

    O Cimi entende que o governo federal tem responsabilidade sobre a temática e deve acionar os órgãos competentes para anular os contratos que por ventura já tenham sido firmados, bem como fiscalizar a ação de agenciadores particulares – alguns até se expondo na imprensa – e ONGs – ditas ambientais – que atuam no sentido de envolver os povos nesses acordos e práticas. Ao mesmo tempo, o governo precisa retomar a demarcação e homologação de terras indígenas no país.

    Além disso, crime comete governos estaduais que celebram acordos com governos de outros países para prestação de serviços ambientais, caso do REED, e assediam os povos indígenas a assinar tais contratos. O Ministério Público Federal está atento e no Acre interpelou o governo de Tião Viana para que se explique sobre acordo feito nesse sentido com o governo da Califórnia, nos Estados Unidos. O MPF interveio, diante de tais práticas, também no Pará.

    O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) Márcio Meira se posicionou publicamente dizendo que o órgão é contra tais contratos e os considera ilegais. No entanto, é importante que a direção da Funai oriente seus servidores regionais a não intermediar tais acordos ou incentivar os indígenas a assinar tais documentos. O Cimi constatou que em algumas regiões e estados os servidores da Funai estão desempenhando esse vergonhosa e irresponsável função.

    Contra o cinismo, as mentiras, a espoliação da natureza e de um novo tipo de colonização de nossas terras e dos povos indígenas que nelas vivem, o Cimi divulgou em janeiro deste ano nota pública contra o REED, que é possível encontrar na íntegra no link https://cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=6135&action=read

     

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  • 13/03/2012

    A sanha do capitalismo verde: REED e as artimanhas contra os povos indígenas

    Nota Pública

    A sanha do capitalismo verde

    Agora não chegam as caravelas com portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e outros do norte desenvolvido. Chegam empresas transnacionais do norte, trazendo a tiracolo os governos de seus países, com propostas "ecologicamente corretas" e carregando em seu bojo a subordinação ainda maior dos povos do sul. A terra, lastro do capital natural, está sendo comercializada em bolsas de valores. Tal sanha também se estende aos outros elementos da natureza, como o ar, a biodiversidade, a cultura, o carbono – patrimônios da humanidade.

    Essa estratégia, por um lado, está sendo utilizada pelos donos do grande capital, receosos que fique mais evidente para a humanidade que as catástrofes ambientais não são tão naturais e sim resultado da exploração sem limites da natureza, com o objetivo de engordar seus já polpudos lucros através da cultura do consumo exagerado, imposta com sutileza às sociedades. Por outro lado, como saída para a crise mundial por qual passa o capitalismo – agora travestido de verde -, demonstrando a capacidade de reciclar-se. É nesse contexto que o capital vem apresentando, desde a Eco 92, suas propostas nas convenções do clima até agora realizadas.

    O mecanismo de Redução de Emissão por Desmatamento e Degradação (REDD) não diminuirá a poluição. É uma farsa. Na verdade, na melhor das hipóteses, significa trocar ‘seis por meia dúzia’. As empresas poluidoras dos países ricos do norte pagarão para os países do sul e continuarão a poluir. Nesse contexto, povos indígenas estão sendo assediados por ONGs a serviço das empresas do norte para que firmem contrato cedendo suas terras e florestas para a captura de CO2.

    Com o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), a relação com a natureza passa a ser mercantilista, ou seja, os princípios de respeito do ser humano para com a natureza passam a ter valor de mercado e medidos nas bolsas de valores. O dinheiro resolve tudo, paga tudo.

    Os mecanismos do "capitalismo verde" reduzem a capacidade de intervenção do Estado e dos povos na gestão de suas florestas, bem como de seus territórios, que passam a ter o ônus de viabilizar compensações ambientais massivas em favor da manutenção do insustentável padrão de desenvolvimento dos países ricos – e em franco desenvolvimento, caso do próprio Brasil.

    Mecanismos de compensação para captura de carbono colocam em risco a soberania nacional, através da expansão das transnacionais na consolidação do poder e controle sobre povos e governos, águas, territórios e sementes nos países do sul, além de modificar os modos de vida das comunidades locais, agora tratadas como fornecedoras de "serviços ambientais".

    Os chamados Mecanismos de Desenvolvimento Limpos (MDL) justificam a construção de hidrelétricas por serem estas classificadas nesta categoria. Não é por acaso que tantas estão sendo construídas, muitas atingindo povos indígenas como é o caso de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau.

    Ao aceitarem fazer contratos de REDD, as comunidades indígenas obrigam-se a ceder suas florestas por 30 anos, não podendo mais utilizá-las, sob pena de serem criminalizadas. É o "pagador" quem vai definir o que o "recebedor" pode ou não fazer; ficam subordinadas às grandes empresas transnacionais e governos internacionais.

    Esses "contratos de carbono" ferem a Constituição Federal, que garante aos povos indígenas o usufruto exclusivo do seu território. O povo perde a autonomia na gestão de seu território, em troca de ter os recursos naturais integrados ao mercado internacional.

    Trata-se de um novo momento histórico, absolutamente novo, mas com características vistas em outros momentos: a reterritorialização do capital internacional e desterritorialização dos povos indígenas.

    Os povos atrelados a tais contratos são transformados em empregados dos ricos, passando da condição de filhos, cuidadores e protetores da Mãe Natureza (Pacha Mama) para a condição de promotores do capital natural, criando-se assim uma nova categoria: operários da indústria do carbono.

    Para os povos indígenas a terra é mãe. As árvores são os cabelos, os rios são o sangue que corre em suas veias. Para o "capitalismo verde", os rios são considerados infraestrutura natural e a natureza uma força que precisa ser domada em benefício de um dito progresso, profundamente autofágico, perverso e totalitário.

    Exemplos de como se dá a relação dos indígenas com a natureza não faltam. Para os Guarani entrarem na floresta, logo de manhã, rezam e pedem ao Nhanderú orientação na direção em que devem caminhar. REDD, PSA transformam a natureza em mercadoria, a gratuidade em obrigação, a mística em cláusula contratual, o bem estar em supostos "benefícios do capital". É a mercantilização do sagrado e a coisificação das relações humanas em interface com o meio ambiente.

    É preciso recuperar a memória da humanidade sobre nossos vínculos com a natureza, expresso no Suma Kawsay (Bem Viver). O meio ambiente e as culturas que vivem em harmonia com ela devem ser as bases para o desenvolvimento humano e das sociedades; não um item da economia de mercado.

    Na convivência com os povos indígenas, percebemos que são eles, com seus conhecimentos e sabedoria, as fontes inspiradoras para um outro tipo de modelo de sociedade onde o SER prevaleça sobre o TER, respeitando e vivendo em harmonia com a natureza.

    O "capitalismo verde" é sinônimo de neocolonialismo. Em pleno século 21, surgem novos "espelhinhos" – os PSA, o REDD – lembrando a estratégia usada pelos colonizadores no século 16 para conquistar e destruir os povos indígenas, apoderando-se de seus territórios.

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), após analisar a lógica do "capitalismo verde" – dito sustentável – e suas consequências para as populações mais sofridas e exploradas do planeta, em especial os povos indígenas, quer juntar-se aos demais setores organizados que dizem NÃO a financeirização da natureza, NÃO a "economia verde" e NÃO ao mercado de carbono.

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  • 13/03/2012

    Lago da UHE Belo Monte pode atingir 9 mil pessoas a mais que o anunciado

    O número de moradores de Altamira que serão impactados diretamente pela inundação do lago da usina hidrelétrica de Belo Monte poderá ser 55% maior que o registrado nos estudos de impactos ambientais do projeto, concluiu pesquisa feita pelo Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará (UFPA).


    O levantamento, feito a pedido do Ministério Público Federal (MPF), aponta que o total de pessoas atingidas será de 25,4 mil moradores, e não de 16,4 mil, conforme previsão registrada no relatório de impactos ambientais do projeto.


    A discrepância entre os resultados é causada, em resumo, porque os cálculos foram feitos a partir de referências diferentes. Enquanto a UFPA se baseou apenas em um marco topográfico homologado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a equipe contratada pela Norte Energia S.A (Nesa) adotou uma série de outros pontos topográficos que estão desatualizados ou que não são do IBGE. Além disso, esses diversos pontos, tecnicamente chamados de Referências de Nível, não estão ligados entre si.


    O ponto do IBGE utilizado nas medições feitas pela UFPA, que fica no 51º Batalhão de Infantaria de Selva, em Altamira, foi estabelecido a partir de medidas de 2009. Já alguns dos pontos do IBGE que a contratada da Nesa alega ter utilizado foram medidos em 1976. Por terem sido estabelecidos a partir de critérios técnicos não mais utilizados no país, o próprio IBGE alerta que tais pontos não são muito precisos.


    Além de utilizar referências ultrapassadas, a equipe contratada pela construtora de Belo Monte também fez medições com base em pontos que não são do IBGE, e sim da Companhia de Habitação do Estado do Pará (Cohab/PA). O problema técnico criado pode ter sido causado, portanto, pelo uso de referências de nível heterogêneos, de fontes e épocas diferentes.


    Essas duas formas de medir a altura máxima que o lago pode chegar à cidade de Altamira levaram a duas previsões diferentes. Para a UFPA, o nível de segurança de 100 metros abaixo do qual todos os moradores terão que ser retirados pode estar 90 centímetros acima do que calcularam os técnicos e empresas contratados pela Norte Energia.


    Referência internacional

     

    Segundo os relatórios assinados pelos professores de engenharia da UFPA André Augusto Montenegro, Júlio César Aguiar, Evelyn Carvalho e Myrian Cardoso e ainda pela professora da Universidade da Amazônia Andreia Conduru Cardoso, o ponto adotado por eles na pesquisa (chamado tecnicamente de estação geodésica 99510 ou PAAT) é um marco oficial homologado pelo IBGE como referência internacional e estabelecido “dentro das mais modernas metodologias e técnicas, através de equipamentos altamente sofisticados, por equipe de profissionais de formação sólida e altíssima qualidade do IBGE”.


    Em contrapartida, representantes da Nesa afirmaram em audiência pública realizada no final de 2011 na cidade de Altamira, que a referência internacional adotada pela UFPA é que é inadequada, errada em sua altura. A Nesa afirmou na ocasião que por causa do erro do IBGE, o cálculo da UFPA é que estaria incorreto.
    Para que a questão não fique apenas no plano teórico e a controvérsia seja resolvida antes que efetivamente as águas alcancem suas alturas máximas após a construção da barragem, produzindo danos irreparáveis, o relatório da UFPA propõe que a Nesa promova a realização de um estudo transparente e acompanhado pela sociedade.


    “Trabalho que poderá ou deverá ser realizado por uma empresa ou em um projeto específico contratado pela Nesa, mas que adote referências confiáveis e seguras, sob o controle da sociedade civil que, em última análise, é quem efetivamente será impactada ou penalizada”, sugere a UFPA, em função dos altos custos que o referido trabalho demanda.

    Entenda o caso:

    • Duas equipes técnicas (uma contratada pela construtora da hidrelétrica e outra da UFPA, convidada pelo MPF) utilizaram formas diferentes de calcular a altura que o lago de Belo Monte pode atingir em Altamira na máxima cheia, altura que determina também quantos e quais moradores perderão suas casas.
    • O MPF fez a solicitação de uma medição independente da cota de segurança para alagamentos diante do histórico das usinas hidrelétricas na região amazônica. Em todas houve erros graves na previsão de alagamento.
    • A UFPA diz que o lago pode chegar a um nível cerca de 90 centímetros mais alto que o nível calculado pelos pesquisadores contratados pela Norte Energia.
    • Em vez de impactar 16,4 mil pessoas, conforme cálculo dos contratados da Norte Energia, o lago inundaria uma área onde vivem 25,4 mil pessoas, segundo avaliação da UFPA.
    • Cada uma das equipes de pesquisadores defende suas conclusões dizendo que a referência ou base de cálculo utilizada pela outra equipe não é a mais adequada.
    • Para solucionar as dúvidas, o relatório da UFPA propõe que a Nesa invista em um trabalho aprofundado, rigoroso e independente, talvez a ser desenvolvido sob a tutoria ou fiscalização técnica do próprio IBGE, trabalho que possa ser acompanhado e avaliado pela sociedade. A proposta tem o apoio do MPF.


    Veja as íntegras dos estudos da UFPA:

    Relatório de 2012: http://bit.ly/AvRUSo
    Relatório de 2011: http://bit.ly/x2cCGW
    Relatório de 2010: http://bit.ly/zJqsfJ

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  • 12/03/2012

    Povo Xavante desmente suposto acordo com fazendeiros sobre Marãiwatsédé

    Gilberto Vieira

    Coordenador do Cimi/MT

     

    Através de um documento protocolado no Ministério Público Federal (MPF), em Cuiabá, o povo Xavante da Terra Indígena Marãiwatsédé denuncia novas manobras dos invasores que visam prejudicar a desocupação da área.

     

    No documento, uma carta assinada pelas lideranças Xavante e por mais de 370 membros da comunidade indígena, referendam a liderança do cacique Damião e reafirmam a convicção do povo de permanecer em sua terra, contrapondo, mais uma vez, supostos interesses de que sejam levados para o Parque Estadual do Araguaia, como sugerido pela Lei aprovada pela Assembléia Legislativa de Mato Grosso em junho de 2011.

     

    Na carta afirmam que o Parque do Araguaia nunca foi ocupado pelos Xavante, mas sim Marãiwatsédé. É nesta terra que estão os vestígios, a cultura, monumentos e espíritos sagrados para os Xavante.

     

    Denunciam ainda articulações de má fé de alguns invasores que estariam levando um grupo de Xavante de outra terra indígena para o Parque. Este grupo, afirmam na carta, está sendo manipulado e não tem legitimidade para falar ou fazer acordos em nome dos Xavante de Marãiwatsédé. Estas manobras visam falsear um suposto acordo de permuta, algo que além de contrariar a vontade da comunidade de Marãiwatsédé se daria sem base legal, visto que a Constituição Federal Brasileira não permite que qualquer terra indígena seja permutada por outra área (Art. 231/CF).

     

    Ao que parece, o mesmo desconhecimento ou ignorância sobre a Carta Magna que levou o governador a sancionar a absurda Lei 9.564/2011, contaminou outras pessoas.

     

    O deslocamento, portanto, de qualquer grupo Xavante para aquela região ou outra qualquer em que se divulgue ser em troca de Marãiwatsédé é fruto de mancomunação que visa, sobretudo, forjar um suposto acordo entre Xavante de Marãiwatsédé e fazendeiros, o que além de inconstitucional, imoral e forçoso é uma afronta aos direitos e interesses do povo Xavante da Terra Indígena Marãiwatsédé.

     

    Histórico

     

    Os primeiros contatos da sociedade nacional com os Xavante se deram por volta de 1957. A partir desse momento, os indígenas foram sendo “empurrados” para fora da área que interessava aos não-indígenas, que se apossaram das terras, promovendo a degradação do meio ambiente e dificultando assim os meios de sobrevivência dos indígenas.

     

    Apesar das terras indígenas já serem protegidas pela Constituição vigente, as terras Xavante foram tituladas pelo estado de Mato Grosso a partir do ano de 1960.

     

    Em 1966, encurralados numa pequena área alagadiça e expostos a inúmeras doenças, os Xavante foram transferidos pela Força Aérea Brasileira (FAB) para a Terra Indígena São Marcos, ao sul do estado, numa articulação entre particulares e governo militar. Grande parte da comunidade morreu na chegada em São Marcos, devido a uma epidemia de sarampo.

     

    Em 1980 a fazenda Suiá-Missu – área incidente na Terra Indígena Marãiwatsédé, de 1,7 milhão de hectares, maior que a área do Distrito Federal e considerada então “o maior latifúndio do mundo” – foi vendida para a empresa petrolífera italiana Agip. Em 1992, durante a Conferência de Meio Ambiente realizada no Rio de Janeiro, a Eco 92, a Agip anunciou, sob pressão, que iria devolver Marãiwatsédé aos Xavante.

     

    Em 1° de outubro de 1993, o ministro da Justiça declarou a posse permanente indígena para efeito de demarcação, a ser realizada administrativamente pela Fundação Nacional do Índio (Funai). As contestações contra a demarcação são julgadas improcedentes e, em 11 de dezembro de 1998, o presidente da República homologou a demarcação administrativa da Terra Indígena Marãiwatsédé, por decreto – ato administrativo que reconhece a legalidade do procedimento como um todo.

     

    Após os trâmites das novas contestações judiciais, em fevereiro de 2007, o juiz da 5ª Vara, José Pires da Cunha, sentenciou a retirada de todos os invasores, caracterizando a presença dos não-índios como ocupação de má fé, além de determinar a recuperação das áreas degradadas da terra indígena Marãiwatsédé. Em outubro de 2010 a Quinta Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (sediada em Brasília) confirmou, por unanimidade, a decisão do juiz Dr. José Pires da Cunha.

     

    Diante da morosidade na efetivação da decisão judicial, no dia 19 de junho de 2011 o juiz federal Julier Sebastião da Silva, da 1ª Vara da Justiça Federal de Mato Grosso, determinou a remoção, em até 20 dias, das famílias de não índios que vivem na Terra Indígena Marãiwatsédé. Contudo, em 1° de julho, o desembargador Fagundes de Deus suspendeu temporariamente este mandado de desocupação, acatando o pedido de defesa dos invasores sob o argumento de que algum acordo pudesse ser feito em torno da terra indígena.

     

    Os próprios moradores de Marãiwatsédé, através de uma carta endereçada à 5ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRF) já haviam manifestado sua determinação em não aceitar qualquer permuta ou acordo e ficarem em sua terra tradicional, já demarcada. Também, em outras oportunidades, repudiaram veementemente a aprovação da Lei Estadual 9.564.

     

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  • 08/03/2012

    Lideranças indígenas enfrentam ruralistas em comissão do Senado

    Renato Santana

    Editor do jornal Porantim

     

    Lideranças indígenas reunidas em Brasília enfrentaram nesta quinta-feira, 8, a bancada ruralista e representantes do latifúndio de Rondônia em debate feito na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado Federal, presidida por Acir Gurgacz (PDT/RO).

     

    Na pauta, a demarcação de terras indígenas, dentro do processo de identificação e delimitação.

     

    Para o debate, foram convidados representantes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), do Sindicato dos Pecuaristas de Porto Velho, Fundação Nacional do Índio (Funai), Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (Apib).

     

    O que os ruralistas não esperavam era a grande mobilização de indígenas, que tomaram conta da sala onde transcorreu o encontro da comissão. Tiveram que ouvir de cabeça baixa a fala do representante da Apib, Eliseu Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul.

     

    Momentos antes, o senador Waldemir Moka (PMDB/MS) bancou o cínico e disse que em seu estado a relação entre indígenas e fazendeiros era boa. Eliseu falou na sequência e lembrou dos 250 Guarani Kaiowá assassinados entre 2003 e 2010 no Mato Grosso do Sul.

     

    “Não pode dizer que é um ser humano quem mata e depois some com o corpo”, disse Eliseu lembrando que as mortes eram fruto do massacre imposto aos indígenas que lutam por seu território tradicional no estado.

     

    A participação dos indígenas pode ser considerada um termômetro, cujo indicador altera de maneira significativa apontando para a mobilização dos povos indígenas de forma ascendente. O recado é claro: os ruralistas não vão fazer o que bem entendem com as leis para entrar nas terras indígenas com seu gado, tratores e truculência desumana, sempre ao arrepio dos direitos constitucionais. Podemos perguntar, afinal: onde estavam esses senhores enquanto o povo brasileiro brigava pela carta constitucional?

     

    A comissão tratou das demarcações em todo país, mas com destaque para a situação de Rondônia. De terça-feira, 6, até esta quinta-feira, 8, aconteceu um encontro de lideranças indígenas do estado e noroeste de Mato Grosso. O documento final segue na íntegra e compõe a conjuntura das discussões travadas no Senado Federal.

     

    Documento Final

     

    Nos dias 06 a 08 de março de 2012, lideranças indígenas dos povos Arara, Puruborá, Wayoró, Djeoromitxi, Aruá, Makurap, Cujubim, Tupari, Kassupá, Mamaindê, Karitiana, Gavião, Migueleno, Zoró, com assessoria da liderança Babau Tupinambá, nos reunimos em Ji-Paraná, Rondônia, para discutir a demanda territorial dos povos indígenas de Rondônia e noroeste do Mato Grosso, baseado na Constituição Federal, que reconhece e garante aos povos indígenas os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam.

     

    Para nós, povos indígenas, a terra e a água são sagradas, fonte de vida e sustentação para nós e para as gerações futuras. Por isso, não a temos como objeto de exploração econômica, como fazem os grupos econômicos, que a vêem como mercadoria a ser negociada.

     

    Somos impactados por grandes empreendimentos, como as hidrelétricas de Jirau e Santo Antonio, as Pequenas Centrais Hidrelétricas que são seis na bacia do rio Branco, rio Cascata, Altoé e outras; rodovias, Projeto Terra Legal, agronegócio,  agropecuária e outras grandes obras a serem implantadas em Rondônia como as hidrelétricas de Tabajara e Ribeirão, as hidrovias, ferrovia transcontinental e outros projetos econômicos, que avançam sobre os nossos territórios ocasionando a discriminação, o envenenamento e assoreamento de nossos rios, diminuição da pesca e caça, invasão de madeireiros, pescadores e plantadores de soja e cana-de-açúcar, causando a vulnerabilidade e a expulsão dos povos de suas terras.

     

    Além disso, estamos constantemente sendo ameaçados por medidas governamentais e legislativas, que travam o cumprimento da Constituição Federal, no que diz respeito a garantia dos territórios tradicionais e outros direitos garantidos na Constituição Federal. Constatamos que quase todas as terras indígenas de Rondônia e noroeste do Mato Grosso demandam ao Estado ações na agilização das demarcações de terra, bem como a agilização dos Grupos de Trabalhos já constituídos.

     

    O governo diariamente passa por cima da decisão do movimento indígena, mandando para o Congresso projetos de leis que atentam contra os direitos indígenas, como a lei de mineração em terras indígenas e outras tantas. Deputados federais e senadores, inimigos dos povos indígenas, tentam através de emendas constitucionais como as PEC 38/99 e PEC 215/2000, que passa para o Congresso a competência da demarcação das terras indígenas.

     

    Exigimos do Estado medidas que garantam a posse permanente de todos os nossos territórios tradicionais:

    1. Conclusão do processo demarcatório dos povos: Puruborá, Migueleno, Wayoro, Cujubim, Karitiana;

     

    2. A constituição dos Grupos de Trabalho para os povos: Kassupá, Djeoromitxi, Tupari, Aruá, Aikanã, Zoró (Zabeawej), Gavião e Arara;

     

    3. Medidas com relação à fiscalização dos territórios contra a invasão de madeireiros, fazendeiros, garimpeiros, pescadores e projetos econômicos;

     

    4. Seja respeitado o direito a consulta, como determina a Convenção 169 da OIT;

     

    5. Garantir a sobrevivência física e cultural e a proibição de implantações de projetos econômicos, dentre eles: Hidrelétrica de Santo Antonio e Jirau, que afetam diretamente os povos que estão em situação de isolamento e risco;

     

    6. Garantir a Proteção Física de lideranças indígenas que estão sendo ameaçadas de morte;

     

    7. Aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas, nos termos propostos pela CNPI e a aprovação da Lei que cria o Conselho Nacional de Política Indigenista.  

       

     

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  • 08/03/2012

    Informe nº1004: Lideranças indígenas pedem a novo presidente da CCJ que não paute PEC 215

    Renato Santana
    de Brasília (DF)
     
    As sessões da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Federal costumam ser agitadas. Afinal, todos os projetos de lei, emendas constitucionais e alterações das principais leis do país passam por ela antes de regressarem ao plenário da casa. Este ano, a agitação promete ser dobrada.
     
    Isso porque tramita na CCJ a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, onde deputados ligados aos setores ruralistas e do agronegócio propõem que a demarcação e homologação de terras indígenas e quilombolas sejam aprovadas pelo Congresso Nacional e não mais pelo Poder Executivo.
     
    Para as comunidades tradicionais a PEC 215 representa um grave retrocesso, além de ser anticonstitucional, nas palavras do próprio ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Dessa forma, desde a última segunda-feira, 5, cerca de 40 lideranças indígenas de todo o país realizam inúmeras ações no Congresso Nacional para sensibilizar o parlamento contra a PEC 215.
     
    Na posse do novo presidente da CCJ, Ricardo Berzoini (PT/SP), os indígenas compareceram e pediram ao deputado: não coloque em pauta a votação da PEC 215. “Que não a coloque em votação em nome da democracia, porque nosso artigo (231) na Constituição de 1988 foi uma vitória dos povos indígenas mobilizados”, disse Antônio Apinajé ao presidente da CCJ.
     
    Acordo a ser cumprido
     
    Berzoini reagiu ao pedido explicando que a bancada ruralista já o tinha procurado para saber se ele cumpriria o acordo feito no final ano passado pelo então presidente da CCJ, João Paulo Cunha (PT/SP). Na ocasião, por duas vezes, o movimento indígena conseguiu se articular para que a votação fosse adiada.
     
    “O acordo fechado dizia que a PEC 215 deveria ser pautada tão logo começassem os trabalhos da CCJ este ano. Não posso descumprir esse acordo, mas não sem antes conversar com o ministro da Justiça”, declarou Berzoini. O parlamentar disse ainda que comunicou aos ruralistas que, no entanto, a PEC 215 não entrará em votação nas primeiras sessões da CCJ.
     
    Apesar da boa interlocução com o novo presidente da comissão, os indígenas saíram do Congresso Nacional certo de que a batalha apenas começou, pois a PEC 215 deverá ir para a pauta. Ainda assim, não perderam a oportunidade de mostrar ao parlamentar o que de fato a proposta representa para as comunidades indígenas e quilombolas.
     
    Mobilizações
     
    “Essa PEC visa a nossa extinção. É isso que os latifundiários, madeireiros, caçadores e grileiros querem. Somos sofredores há muito tempo”, declarou Cláudio Hohotimbira, do Maranhão. Berzoini ouviu a todos, mesmo que já esperasse encontrar a problemática logo que assumisse a presidência da CCJ.  
     
    Já Uelton Aikawara, do Pará, frisou que a Constituição precisa ser implementada no que diz respeito aos direitos indígenas, e não modificada para beneficiar grupos interessados na exploração dos territórios indígenas. “Os povos indígenas vão se levantar em todo país. Como estamos dizendo, o Congresso Nacional vai virar uma grande aldeia”, avisou.
     
    A estratégia de mobilização é unanimidade entre as lideranças indígenas. Para Félix Rondon Adugo Enau Bororo, do Mato Grosso, não há outra saída a não ser fazer com que as aldeias de todo país estejam vigilantes e presentes em Brasília. “Além disso, precisamos nos articular com nossos irmãos quilombolas. É uma luta que devemos travar juntos”, encerrou.
     
    A cantora pernambucana Elba Ramalho passou na sessão da CCJ para dar apoio aos indígenas. Disse que estava ao lado das comunidades.
     
    Mesmo com a promessa de Berzoini de que a PEC 215 não entrará na pauta nas próximas sessões, os indígenas decidiram pela manutenção permanente da mobilização na Capital Federal e conclamam a todos os povos que estejam prontos para a luta.
     
    Fotos: Renato Santana/Cimi
     
     
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  • 08/03/2012

    Lideranças Pataxó Hã-Hã-Hãe se reúnem com ministra do STF para esclarecer retomadas na Bahia

    Renato Santana

    de Brasília (DF)

     

    Os Pataxó Hã-Hã-Hãe ocupavam 18 dos 54 mil hectares da Terra Indígena Caramuru-Paraguassu, localizada entre os municípios de Itajú do Colônia, Camacã e Pau Brasil, na Bahia, até o final de 2011. Os indígenas aguardavam os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) votar pela nulidade dos títulos dos ocupantes do território.

     

    O restante da área, demarcada na década de 1930 do século passado, estava nas mãos de fazendeiros que, a partir de 1960, obtiveram títulos de propriedade emitidos de forma irregular pelo governo baiano – os mesmos que hoje são objeto da Ação Cível Originária (ACO) 312 do STF.

     

    A partir do dia 1º de janeiro até 23 de fevereiro deste ano tudo mudou: os Pataxó Hã-Hã-Hãe retomaram 48 propriedades incidentes na terra indígena. Dos 18 mil hectares de área, os indígenas passaram a ocupar 42 mil, ainda restando 12 mil – compreendendo a região de rio Pardo.

     

    Mesmo com nenhum fazendeiro agredido ou morto, tampouco funcionários das propriedades ou pistoleiros que atuam na região, informações repassadas davam conta de confrontos, violências praticadas pelos indígenas e retiradas forçadas dos ditos donos das terras.

     

    Com o objetivo de esclarecer a razão das retomadas e mais uma vez pedir para que a ministra Carmem Lúcia, relatora do ACO 312, encaminhe a votação no STF, cinco caciques Pataxó Hã-Hã-Hãe estiveram reunidos com a ministra nesta quarta-feira, em Brasília.

     

    “Não fizemos essas retomadas com o objetivo de pressionar o STF, mas depois que constatamos que muitas dessas fazendas em nossas áreas estavam abandonadas e outras tendo a natureza completamente destruída, optamos por retomar o que é nosso”, declarou o cacique Nailton Muniz Pataxó Hã-Hã-Hãe.

     

    Manutenção de posse   

     

    Outra justificativa apresentada por Nailton para as retomadas é que em muitas fazendas os indígenas já tinham a manutenção de posse, ainda sem cumprimento por parte da Polícia Federal (PF). “A fazenda Alegria, por exemplo, no município de Itajú do Colônia. Os índios estavam na posse, mas em 25 de outubro do ano passado os pistoleiros expulsaram as famílias na bala”, declara Nailton.

     

    Em outros casos, como na fazenda Serrana de Ouro, também em Itajú, os Pataxó Hã-Hã-Hãe tinham a manutenção de posse, mas o fazendeiro ainda continuava no local. Conforme os indígenas, os médios e pequenos proprietários já saíram da terra demarcada. Restam apenas os grandes proprietários, cerca de meia dúzia.

     

    No entanto, o abandono das propriedades era flagrante. Reginaldo Ramos Pataxó Hã-Hã-Hãe lembra que quando os índios chegavam para retomar não encontravam ninguém, no máximo um funcionário.

     

    “Estava tudo destruído: casas abandonadas, a capoeira tomando os pastos”, conta Reginaldo. Nailton completa: “Vimos bodes, carneiros e morcegos, mas nenhum morador. Os que estavam no local puderam retirar seus pertences; quem tinha gado também pode levar, fosse grande ou pequeno proprietário. Quem bate o pé por nossa terra de ocupação tradicional são os grandes. Os outros sempre colocaram as propriedades à disposição da Funai”.

     

    Isolados na própria terra

     

    Para se ter acesso a muitas dessas áreas com manutenção de posse emitida aos indígenas – e retomadas – era preciso passar por dentro de outras fazendas. A questão é que os pistoleiros não deixavam. “A fazenda Primavera estava assim. Falávamos com a Polícia Federal (PF) e nada era feito. Então nós decidimos retomar essas outras fazendas para nossa segurança”, explica Gerson Melo Pataxó Hã-Hã-Hãe.

     

    As lideranças ressaltam que a situação deixava aldeias isoladas dentro da própria terra indígena. Foi num contexto como esse que o indígena José Muniz acabou morrendo, depois de sentir fortes dores no peito durante cerca de 12 horas. Os pistoleiros repeliram à bala o transporte enviado pelo irmão do indígena, cacique Nailton, para socorrê-lo.

     

    “Depois disso foram mais três retomadas, mas aí eu me pergunto: morrem índios, mas morrem fazendeiros? Não, só o meu povo é que morre. Isso não é conflito, mas massacre! De que violências dos índios estão falando, então?”, indigna-se cacique Nailton. Mais de 30 lideranças Pataxó Hã-Hã-Hãe foram assassinadas na luta pela terra desde os anos 1980.

     

    Os indígenas afirmam que depois de iniciadas as retomadas, mais de 200 pistoleiros passaram a frequentar a região. A violência comum a qualquer cidade grande passou a amedrontar os pouco mais de 7 mil moradores de Itajú do Colônia. “Mataram um empregado de uma fazenda e disseram que foram os índios, mas depois os próprios fazendeiros denunciaram o pistoleiro, preso em Itajú do Colônia”, diz cacique Reginaldo.

     

    Além da violência, os indígenas são acusados de levar pobreza para as cidades que abrigam a Terra Indígena Caramuru-Paraguassu por acabar com os latifúndios de ocupação irregular. Para as lideranças é ao contrário: enquanto hoje um fazendeiro emprega uns poucos funcionários, com os indígenas as áreas receberão de 10 a 20 famílias.

     

    O que aponta para outra razão da onda de retomadas: o Programa de Aquisição Alimentar (PAA) gerido pelos Pataxó Hã-Hã-Hãe estava prejudicado. As cidades de Camacã, Itajú do Colônia e Pau Brasil são abastecidas pelas plantações indígenas. “Muitas famílias que dependem do PAA não podiam entregar os alimentos nas cidades. Os pistoleiros impediam. Pobreza, então, é com esses fazendeiros aqui que não deixam nada nas cidades”, ataca cacique Reginaldo.  

       

     

    Laboratório de sêmen

     

    Os grandes latifundiários que ocupam – ou ocupavam – parte da área da Caramuru-Paraguassu são essencialmente criadores de gado – numa média de 1500 e 3 mil cabeças. Outros plantam cacau e um deles mantém laboratório de sêmen para inseminações artificiais. São mais de 200 éguas reproduzindo cavalos de raça na terra indígena.

     

    “Esses animais são muito predadores, porque comem o dia inteiro. Então com isso a mata foi destruída em muitas regiões para dar lugar aos pastos”, diagnosticou cacique Reginaldo. Para irrigar esses pastos, que também servem ao gado em outras propriedades, os latifundiários represaram os rios, acabando com a fonte de água.

     

    A cacique Ilza Rodrigues Pataxó Hã-Hã-Hãe afirma que as cabeceiras dos rios estão desmatadas, com isso estão secos. Os que ainda podem ser utilizados cortam as fazendas e nesse trajeto são poluídos das mais diversas formas. “O gado morre e jogam no rio. Aquela carniça não permite que utilizemos a água para beber, tomar banho e cozinhar. Como está na área deles (latifundiários) não podemos ir tirar o bicho morto”, explica a cacique.

     

    Por tudo isso, os indígenas encontram justificativas para as 48 retomadas em menos de dois meses. Para cacique Reginaldo, a quantidade de áreas reocupadas mostra a facilidade da ação dos Pataxó Hã-Hã-Hãe, revelando a ausência dos ocupantes. “A questão é que o réu nesse processo todo é o governo da Bahia. Se ele admitisse o erro de gestões passadas e indenizasse os proprietários que têm títulos estava tudo acertado”, defende cacique Nailton.

    As fotos foram feitas pelo cacique Reginaldo com um celular e revelam o abandono das fazendas quando os indígenas as retomaram.

     

     

            

     

     

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  • 08/03/2012

    Nota da CNBB pelo Dia Internacional da Mulher

    Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunidos em Brasília-DF, de 7 a 9 de março, saudamos todas as mulheres pela celebração do Dia Internacional da Mulher. Alegra-nos perceber que, cada dia mais, cresce a consciência da dignidade da mulher e de sua específica contribuição na construção de uma sociedade justa, fraterna e solidária.

     

    Esta data histórica nos convida, antes de tudo, a agradecer às mulheres por sua vocação e missão na Igreja e no mundo.

     

    Servimo-nos, assim, da Carta às Mulheres, do Beato João Paulo II, para dizer nosso obrigado à mulher-mãe, que se faz ventre do ser humano na alegria e no sofrimento de uma experiência única e que se torna o sorriso de Deus pela criatura que é dada à luz; à mulher-esposa, que une o seu destino ao de um homem, numa relação de recíproco dom, ao serviço da comunhão e da vida; à mulher-filha e mulher-irmã, que levam ao núcleo familiar, e depois à inteira vida social, as riquezas da sua sensibilidade, intuição, generosidade e constância; à mulher-trabalhadora, empenhada em todos os âmbitos da vida social, econômica, cultural, artística, política, pela contribuição indispensável que dá à elaboração de uma cultura capaz de conjugar razão e sentimento, à edificação de estruturas econômicas e políticas mais ricas de humanidade; à mulher-consagrada, que se abre com docilidade e fidelidade ao amor de Deus; à mulher, pelo simples fato de ser mulher que, com a percepção que é própria da sua feminilidade, enriquece a compreensão do mundo e contribui para a verdade plena das relações humanas (cf. Carta às Mulheres. João Paulo II, 1995).

     

    Nosso agradecimento se estende também às mulheres cuja presença e atuação marcam fortemente a vida da nossa Igreja. Sua vocação evangelizadora, vivida no exercício dos vários ministérios, é fundamental à Igreja no desempenho de sua missão de tornar presente entre nós o Reino de Deus.

     

    O Dia Internacional da Mulher nos conclama, ainda, a aplaudir as mulheres por suas conquistas ao longo de uma história marcada pela discriminação e pelo preconceito. É cada vez mais forte sua presença na família, no mundo do trabalho, na ciência, na educação, na política, na Igreja e na sociedade. Somos testemunhas do papel decisivo da mulher no processo da redemocratização do País. Não sem razão, comemoramos em 2012 os 80 anos do voto feminino, uma conquista histórica.

     

    Apesar dos grandes avanços obtidos pelas mulheres, o Dia 8 de março continua a ser uma data para recordar e denunciar as inúmeras situações de violação de seus direitos e de sua dignidade. Milhares delas são vitimas da discriminação, do desrespeito étnico-cultural, do tráfico para exploração sexual e laboral e de inúmeras outras formas de violência. Para muitas, o lar, lugar sagrado de proteção, converteu-se em espaço de dor e sofrimento. A Lei Maria da Penha é outra vitória das mulheres, que vem combater esta violência doméstica de que são vítimas.

     

    Neste contexto, a CNBB reafirma o apelo do Documento de Aparecida: “É urgente escutar o clamor, muitas vezes silenciado, de mulheres que são submetidas a muitas maneiras de exclusão e violências em todas as suas formas e em todas as etapas de suas vidas” (Documento de Aparecida n. 454).

     

    Que Maria, modelo de mulher, seja sempre inspiração para todas as mulheres na vivência de sua vocação ao amor e ao cuidado da vida, em todas as suas dimensões, lutando por uma sociedade igualitária, de fraternidade e de paz.

     

    Brasília – DF, 8 de março de 2012.

     

    Cardeal Raymundo Damasceno Assis

    Arcebispo de Aparecida

    Presidente da CNBB

     

    Dom José Belisário da Silva

    Arcebispo de São Luís do Maranhão

    Vice-Presidente da CNBB

     

    Dom Leonardo Ulrich Steiner

    Bispo Auxiliar de Brasília

    Secretário Geral da CNBB

     

    SE/Sul – Q. 801 – Conj. “B” – CEP 70401-900 – Caixa Postal 02067 – CEP 70259-970 – Brasília-DF – Brasil – Fone: (61) 2103-8300/2103-8200 – Fax: (61) 2103-8303

    E-mail: [email protected] — Site: www.cnbb.org.br

     

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  • 08/03/2012

    Mulheres Indígenas e Camponesas unidas na luta

    Nolaila, Kaiowá Guarani, presença altiva, mesmo que silenciosa, denunciando a violência contra as mulheres indígenas e anunciando a vida, a luta pela terra mãe, o Yvy mara’ynei, a terra sem males.

     

    Pela primeira vez as mulheres do movimento indígena Kaiowá Guarani e camponesas do estado do Mato Grosso do Sul estão juntas na Jornada de Lutas, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, numa histórica luta contra o latifúndio, o agronegócio, a não demarcação das terras indígenas, a paralisação da reforma agrária e o descaso com os assentamentos.

     

    Dourados que tem se notabilizado pela corrupção nas esferas dos poderes Executivo e Legislativo locais, pela inoperância das políticas com relação aos povos indígenas, dá mostras de que a população oprimida, vítima dessas mazelas, está organizada e lutando contra todo o tipo de políticas que desrespeitem seus direitos e suas vidas. As mulheres guerreiras e lutadoras são as maiores vítimas, mas também as mais aguerridas lutadoras contra esse sistema e estrutura de violência e morte.

     

    Em documento que entregaram essa manhã no Ministério Público Federal em Dourados, fazem várias exigências: “Nós, mulheres indígenas Guarani Kaiowá e camponesas, reunidas na Jornada de Lutas, realizada nos dias 06 a 08 de março, em Dourados-MS, estamos nos unindo na luta pelos direitos de todas as mulheres de nosso Estado e do Brasil, que neste dia oito de março trazem a memória de tantas “Marias” que no silêncio e no anonimato constroem e gestam este país mais cheio de ternura e de fortaleza. Mulheres guerreiras, sim, e sempre na luta sem se cansar. Mulheres da resistência e da esperança de que outro mundo é possível, mais justo e solidário”.

     

    Indignação e organização das mulheres Kaiowá Guarani

     

    Na recente Aty Guasu, realizada na terra indígena Jaguapiré, as mulheres indígenas deram uma mostra de sua disposição e capacidade de indignação e luta pelos seus direitos.

     

    No encontro da Jornada de Lutas das Mulheres Camponesas e Indígenas do Mato Grosso do Sul, elas externaram sua dura realidade: “Cansamos de esperar nossa terra, que para nós é sagrada, é nossa vida, onde a mata é nosso espírito… Queremos nossa terra de volta. Chegou a hora das mulheres indígenas na luta, conseguirmos nossa vitória. Derramamos lágrimas pela terra. Lutamos pelos nossos direitos, sofremos pela nossa terra, olhamos para a frente, nossa terra sem males”.

     

    No documento entregue ao Ministério Público Federal, as mulheres indígenas e camponesas fazem graves denúncias de violação de seus direitos e de violências impetradas pelo sistema de concentração de terra, considerado um sistema de morte: “Desde 2008 o Brasil se transformou no maior consumidor de agrotóxico do mundo. Em 2009 foram despejados na agricultura nada menos que 1 milhão de toneladas. Nós mulheres somos as mais atingidas direta e indiretamente pelas mazelas causadas por este sistema produtivo dependente do agrotóxico, baseado no monocultivo, na concentração da terra e da riqueza. Acreditamos em outra forma de viver e produzir que contribua para a soberania alimentar do país e a  preservação da biodiversidade”.

     

    Com relação aos povos indígenas o documento reafirma as exigências da recente Aty Guasu de Jaguapiré, reafirmando sua firme decisão de lutar contra toda forma de violência e pela recuperação e garantia de seus territórios: “A urgente identificação e demarcação de nossas terras, como condição para diminuir a fome, a dependência e violência em nossas aldeias e acampamentos. Caso isso não aconteça vamos ajudar nossos guerreiros nas retomadas de nossos tekohá. Se o governo não cumprir os prazos vamos levar às instâncias internacionais como OEA e ONU”.

     

    Mas não foram apenas três dias de informação, debate, construção de alianças e solidariedade na luta. Foi também um tempo de protesto, com uma mobilização contra os agrotóxicos, numa das empresas distribuidoras desses insumos em Dourados.

     

    Em recente mensagem ao Povo Kaiowá Guarani, D. Pedro Casaldáliga, assim expressa sua solidariedade com esse sofrido, mas guerreiro povo: “Nos unimos de coração às lutas e às esperanças do sofrido povo Kaiowá Guarani. Parabéns pela sua resistência; está dentro da procura da Terra Sem Males. O Deus da Vida está com esse povo… Companheiros(as) do Cimi e de outros grupos solidários, continuem dando testemunho e acompanhando com paixão.”

     

    A organização e luta das mulheres é sem dúvida um dos maiores avanços da vida e da esperança nesse século 21.

     

    Egon Heck

    Povo Guarani Grande Povo

    Cimi 40 anos

     

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  • 08/03/2012

    Presidência

    Dom Roque Paloschi (Arcebispo de Porto Velho, Rondônia, e Presidente do Cimi)

    Emília Altini (Vice-Presidente do Cimi)

    Cleber César Buzatto (Secretário Executivo do Cimi)

     

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