• 18/04/2012

    CNBB: “A garantia da propriedade das terras secularmente ocupadas por eles é dever constitucional e compromisso ético-moral”

    “A garantia da propriedade das terras secularmente ocupadas por eles é dever constitucional e compromisso ético-moral”. Desta forma, a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil se manifestou por meio de nota nesta terça-feira, 17/04, a respeito do julgamento que será realizado pelo Supremo Tribunal Federal quanto à titulação de terras quilombolas pela União.

     

    A Conferência recorda no documento que os artigos 215 e 216 da Constituição Federal asseguram aos quilombolas o direito à preservação da própria cultura e do seu patrimônio imaterial.

     

    Confira, a seguir, a íntegra da declaração:

     

    Nota Sobre as Comunidades Quilombolas

     

    Diante do iminente julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da Ação Direta de Inconstitucionalidade, que questiona a titulação de terras quilombolas pela União, como determina o Decreto 4887/2003, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil vem ratificar seu apoio à manutenção do referido Decreto, assegurando o atual processo de reconhecimento, demarcação e titulação das terras quilombolas.

     

    O Brasil tem uma dívida histórica para com a população afro-brasileira, da qual muitos são remanescentes de quilombos. A garantia da propriedade das terras secularmente ocupadas por eles é dever constitucional e compromisso ético-moral.  Os Quilombos são de vital importância na estruturação da cultura brasileira. São espaço do cultivo da terra para a sobrevivência e também da continuidade de um modo de vida original, rico e diverso, reconhecido mundialmente.

     

    Os artigos 215 e 216 da Constituição Federal asseguram aos quilombolas o direito à preservação da própria cultura e do seu patrimônio imaterial. A garantia constitucional do reconhecimento de seus territórios é, portanto, fundamental para a manutenção desta trajetória de resistência.  Acrescente-se, ainda, que o disposto no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias determina que cabe ao Estado garantir a propriedade dos ocupantes das terras remanescentes dos quilombos.

     

    A CNBB, fundada na norma constitucional, insiste no respeito a estes dispositivos legais que garantem a tradição quilombola ligada à posse e a propriedade da terra. Os territórios quilombolas sustentam a memória cultural, a identidade étnica e são o principio de uma existência cidadã.

     

    Na fidelidade à opção evangélica e preferencial pelos pobres, a CNBB coloca-se, mais uma vez, ao lado das comunidades Quilombolas para as quais pede especial proteção e bênção de Nossa Senhora Aparecida, padroeira e mãe de todos os brasileiros.

     

    Cardeal Dom Raymundo Damasceno Assis

    Arcebispo de Aparecida

    Presidente da CNBB

     

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  • 17/04/2012

    União tem 1 ano para demarcar terra indígena no sul de MS

    Justiça segue argumentos do MPF e suspende reintegração de posse de fazenda onde dois professores indígenas foram mortos em 2009

     

    A União tem um ano, a partir de abril, para realizar a demarcação das terras reivindicadas por índios da etnia guarani-kaiowá e conhecidas como tekohá Ypo’i, em Paranhos, sul de Mato Grosso do Sul. A ação de reintegração de posse de parte da Fazenda São Luís, ocupada pelos indígenas desde agosto de 2010, foi suspensa até a demarcação final das terras. A multa mensal pelo descumprimento da decisão é de R$ 50 mil.

     

    A decisão, rara, considera a “imprescindibilidade de demarcação urgente e precisa” de terras indígenas como forma de acabar com o conflito que gera prejuízos “não só aos índios mas a quem possui ou pretende possuir terras nesta região”. O juiz da Vara Federal de Ponta Porã desconsiderou a produção de prova pericial judicial, que pudesse dizer se a área é ou não indígena, já que, pela Constituição, é a União que deve realizar os estudos e a demarcação.

     

    A Justiça aceitou os argumentos do Ministério Público Federal (MPF), de que a Constituição define que o direito dos índios às suas terras de ocupação tradicional é anterior ao direito de propriedade, sendo que os títulos das áreas incidentes sobre terras indígenas é nulo: “Saber se os autores detêm ou não a posse da área, pressupõe saber se a terra é ou não de ocupação tradicional indígena”, afirma o parecer do MPF.

     

    Mortes de indígenas

     

    A região é palco de conflitos. Em 31 de outubro de 2009, um grupo armado foi até a Fazenda São Luís, área reivindicada como de ocupação tradicional indígena da etnia guarani-kaiowá (Tekoha Ypo´i), para expulsar os índios que ocupavam a área de mata da fazenda. Na ação, os professores Jenivaldo e Rolindo Vera foram mortos. Denunciados pelo MPF, políticos e fazendeiros da região respondem na Justiça por homicídio qualificado – sem possibilidade de defesa da vítima -, ocultação dos cadáveres, disparo de arma de fogo e lesão corporal contra idoso.

     

    O corpo de Jenivaldo foi encontrado uma semana depois, em 7 de novembro, dentro no Rio Ypo´i, próximo ao local do conflito. Segundo boletim de ocorrência, Jenivaldo “estava sem camisa, com cueca e calção, descalço, com perfuração de arma de grosso calibre frontal no peito e nas costas”. A perícia comprovou que a morte foi causada por um tiro nas costas, que saiu pelo peito, causando a hemorragia fatal. Apesar das buscas realizadas pela Polícia com o auxílio do Exército e do Corpo de Bombeiros, o corpo de Rolindo não foi encontrado até hoje.

     

    Depois de expulsos em 2009, os indígenas guarani-kaiowá reocuparam a área de reserva legal da fazenda em 19 de agosto de 2010. Até a atual decisão, eles ficaram amparados por decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região – TRF3 – que cassou ordem de reintegração de posse “até a produção de prova pericial antropológica”. Segundo o Tribunal "existem provas de que a Fazenda São Luiz pode vir a ser demarcada como área tradicionalmente ocupada pelos índios".

     

    Referência processual na Justiça Federal de Ponta Porã: 0002584-96.2010.4.03.6005

     

    Assessoria de Comunicação Social

    Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul

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  • 17/04/2012

    Encontro dos Povos Indígenas de Mato Grosso começa contra retirada de direitos

    Por Keka Werneck,

    de Cuiabá (MT)

     

    É interessante ouvir, a pouco mais de um metro, um velho índio da etnia Mỹky falar em língua própria, com muita revolta, sobre a preocupação dele (mas que não é só dele) com a afronta às reservas indígenas e à natureza, em Mato Grosso e no Brasil.

     

    A etnia Mỹky é uma das 42 que vivem neste estado. Dessas pelo menos 14 estão representadas no Encontro dos Povos Indígenas de Mato Grosso, que começou nesta segunda-feira, 16, no auditório da Medicina Veterinária da Universidade Federal de Mato Grosso (Famev-UFMT), em Cuiabá. O encontro vai até esta quarta-feira, 18.

     

    Além dessas etnias formalmente reconhecidas, Mato Grosso também é terra de oito povos indígenas ainda isolados, sendo que sete vivem dentro do território mato-grossense e dois na fronteira.

     

    O velho Mỹky foi um dos que se manifestaram na abertura do evento, após a fala contundente da palestrante Francisca Novantino ou Chiquinha Paresi, que fez uma análise de conjuntura. “Não podemos nem contar quantos índios sangraram lutando pelos nossos direitos até a Constituição de 1988, que em seu capítulo quinto trata sobre as terras indígenas. Não podemos esquecer que a luta dos povos indígenas é uma luta mais ampla, porque contempla os interesses de todo o povo brasileiro, já que protege o meio ambiente. É uma luta que propõe uma vida melhor, mais natural, um Bem Viver”.

     

    No Encontro, índios de Mato Grosso farão debates na SEMANA DE LUTO! contra a PEC 215 e outras mais de 15 que versam sobre terras indígenas, quilombolas e de comunidades originárias, em trâmite no Congresso Nacional. A PEC 215 quer reduzir reservas e ampliar áreas de plantio, transferindo para deputados e senadores a demarcação e homologação de terras indígenas, quilombolas e áreas de preservação ambiental, tarefa do executivo.

     

    Em nome das comunidades negras, Emílio de Souza, do Morro Cambambe, na Chapada dos Guimarães, disse que, em relação ao movimento indígena, os quilombolas estão “engatinhando que nem tartaruga, mas firmes e conscientes de que têm direitos”. Segundo ele, quilombolas deixam o campo e vão para cidade sofrer nas periferias e “isso não é vida!”.

     

    Na quarta-feira, às 9 horas, sai da praça Ulisses Guimarães uma marcha de índios, quilombolas e sem-terra, que nessa semana também fazem protestos em Cuiabá por reforma agrária. Vão direto aos poderes constituídos, para protestar juntos. Dia 19 de abril, quinta-feira, é Dia do Índio, mas o movimento indígena afirma que não há nada a comemorar, nada mesmo.

     

    “Estamos com medo de perder conquistas históricas”, lamenta Gilberto Vieira, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

     

    Conforme Chiquinha Paresi, projetos governamentais e políticos tramam a invasão das terras indígenas “na surdina”, passando com o “trator” sobre os interesses econômicos, sobre a história indígena, além dos valores e da cultura dos povos. Segundo ela, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), seja o um, dois ou três, impacta aldeias, porque propõem grandes obras sobre elas ou em suas proximidades.

     

    “O que está acontecendo com a nossa sociedade? A Constituição de 1988 está sendo rasgada na nossa frente. É a desconstrução de todos os nossos direitos. E para piorar não estamos conseguindo dialogar com o governo federal. O Governo Dilma ainda não nos recebeu nem uma única vez”, salienta a indígena.

     

    A primeira coisa que talvez passe na cabeça, ao ouvir o velho Mỹky, é que o Brasil é de fato um país muito rico culturalmente. “Se tirarem nossas reservas, como vamos fazer nossas roças de milho e batata, caçar e pescar?”, perguntou o indígena, conforme tradução de um jovem da mesma etnia.

     

    A segunda coisa que talvez passe na cabeça, ao ouvi-lo, é que, nas reservas, onde a dinâmica do capitalismo passa longe, o meio ambiente está seguro. O velho Mỹky também lembrou que todo o território do município onde fica a aldeia, município de Brasnorte, era do povo dele, assim como a faixa da Grande Cuiabá era terra dos Bororo.

     

    Outro índio, Jair Nambiquara, de Comodoro, lembra que, quando os portugueses chegaram ao Brasil, eles, os índios, já estavam aqui, sadios e felizes. “De lá para cá eles foram invadindo, invadindo, nossas terras. Foi aquela matança”.

     

    “Faz muito tempo que não há uma articulação de índios como esta”, comemorou Vieira, do Cimi. É medo dessas PECs.

     

    “Num piscar de olhos podemos perder nossas terras, porque são grandes as bancadas ruralista e evangélica no Congresso Nacional e elas estão articuladas contra nós”, reagiu Félix Bororo, que veio de São Félix do Araguaia para o encontro. “A Frente Indigenista, puxada pelo padre Tom (PT/RO) é pequena”.

     

    Para Jair Rikbaktsá, querem acabar com os índios. “Boa parte das pessoas não gostam de nós”, lamenta, se mostrando marginalizado, embora os índios sejam brasileiros como outros quaisquer.

     

    A acadêmica em enfermagem na UFMT Jurenilda Chiquitano propõe que o movimento indígena pense saídas para o longo prazo, o futuro, porque, na visão dela “se as coisas continuarem assim, nossos filhos e netos não poderá olhar para os rios que vimos, não vão conhecer nossas tradições, nem nossa cultura, enquanto deixarmos que acabem com nossa terra, nossa gente”.

     

    O velho Myky diz, por fim, que é preciso falar com os “chefes grandes”, que eles também vão fenecer, caso insistam nessa política de destruição.

     

     

     

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  • 16/04/2012

    Nota do Conselho da Aty Guasu Guarani-Kaiowá ao Governo e Justiça Federal

    Considerando o “Dia do Índio” oficial do Brasil, 19 de Abril, um dia especial em que comumente a sociedade em geral e autoridades municipais, estaduais e federais lembram-se dos indígenas, nesse contexto, nós lideranças Guarani-Kaiowá da grande assembleia Aty Guasu vimos por meio desta nota repudiar a continuidade da ameaça de morte das lideranças indígenas das terras reocupadas no  Cone Sul de Mato Grosso do Sul e pedir, mais uma vez, às autoridades federais para concluir a investigação/inquéritos de assassinato de lideranças, sobretudo solicitar a investigação da ameaça de morte das lideranças Guarani-Kaiowá. Por fim, requeremos novamente a publicação imediata dos relatórios antropológicos de identificação de todos os territórios tradicionais Guarani e Kaiowá.

     

    Uma das ameaças de morte destacada das lideranças Guarani-Kaiowá ocorreu em estrada pública próximo da aldeia Pirajuí/Paranhos/MS, no dia 06 de abril do ano corrente (vide abaixo mensagem escrita pelo antropólogo e líder Guarani-Kaiowá Tonico Benites divulgada amplamente na mídia nacional e na comunidade científica das diversas universidades brasileiras).

     

    Com honra, reconhecemos que o líder e professor Tonico Benites é único na história do povo Guarani-Kaiowá que conseguiu concluir mestrado em Etnologia/Antropologia Social e continuar cursando o doutorado na UFRJ. Ele foi consultor do Ministério da Educação/MEC. Como cientista social o Tonico colaborou de diversas formas com os Grupos Técnicos de Identificação e Delimitação de Terras Indígenas Kaiowá em Guarani em Mato Grosso Sul. Além disso, desde criança, ele desempenha o papel importante de tradutor/intérprete de lideranças kaiowá e guarani da Aty Guasu, tomemos conhecimento que ele sofreu ameaça e está sendo ameaçado de morte, por essa razão, pedimos a segurança e proteção tanto para o Tonico Benites quanto para demais lideranças Guarani-Kaiowá ameaçadas dos territórios em conflito.

     

    Além disso, nesta nota destacamos a situação mísera, perplexa e instável permanente de vida de 30 mil Guarani-Kaiowá expulsos dos territórios tradicionais que se encontram em oito Postos Indígenas/aldeias superlotadas criada entre 1915 e 1928 pelo órgão indigenista Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Há mais de cinco mil Guarani-Kaiowá despejados das terras antigas que estão dispersos nas pequenas áreas/acampamentos em conflito, nas margens das rodovias BR e nas periferias das cidades do Cone Sul de MS. De fato, a vida mísera e instável, ameaças, assassinatos, suicídios e desnutrição que atingem a nova geração Guarani e Kaiowá são o resultado direto de violentas expulsões dos indígenas dos territórios antigos praticadas por pistoleiros das fazendas do atual Cone Sul de MS ao longo das décadas de 1970 e 1980.

     

    Nestas reservas/aldeias não há mais espaço, recursos naturais, mina d’ água, são superlotadas e, por conta desta superlotação, há nelas muita violência. De fato, em decorrência desses vários despejos violentos já resultaram centenas de suicídios, mortes por desnutrição em todas as reservas/aldeias superlotadas. Nestas reservas e na margem da rodovia BR não há como praticar e preservar mais nosso modo de ser e viver Guarani-Kaiowá. Diante disso que muitas famílias Guarani-Kaiowá decidiram e tentaram retornar aos territórios antigos, ocupando pequenas parcelas de terra ancestral, com o objetivo de sobreviver culturalmente e para praticar os rituais religiosos e se afastar do mundo de violências das reservas/aldeias superlotadas. Como exemplo, temos: as comunidades de Laranjeira Ñanderu – Rio Brilhantes -MS, Takuará-Juti, Kurusu Amba-Coronel Sapucaia, Guaiviry-Aral/Moreira, Guyra Roka-Caarapó, Ypo’i-Paranhos, Pyelito Kue e Mbarakay-Iguatemi entre outros. Nestes pequenos espaços reocupados por famílias extensas Guarani-Kaiowá, em que ocorre diariamente a prática de rituais religiosos, os grupos recomeçaram revitalizar as culturas tradicionais que garantem a boa vida futura. Isto não é mais possível nas reservas/aldeias e na margem das rodovias BR.

     

    Já vivemos e sentimos que as consequências das ações de ameaças de morte, ataque e despejos tanto pelos pistoleiros das fazendas, quanto pela Justiça, os resultados foram, são e serão extremamente truculentos e nocivos para a nova geração Guarani-Kaiowá.  

     

    Entendemos que a ameaça de morte e os assassinatos das lideranças faz parte de um processo sistemático de etnocídio/genocídio histórico. Assim, a impunidade de autores e mandantes de violências contra povos indígenas brasileiros alimentam o extermínio total do povo Guarani-Kaiowá do Cone Sul de Mato Grosso do Sul.

     

    Ressaltamos que nos Guarani e Kaiowá temos uma ligação especial com o território próprio, pertencemos à determinada terra sagrada específica, não pertencemos a qualquer terra do Cone Sul de MS. Assim, a terra ocupada por nossos recentes antepassados é vista por nós como uma fundamentação de vida boa, vida em paz, sobretudo é a fonte primária de saúde, bem estar da comunidade e famílias indígenas.  Dessa forma, o nosso território ancestral é vital para nossa sobrevivência e desenvolvimento de atividades culturais que permitem a vida boa como um forte sentimento religioso de pertencimento à terra antiga, fundamentada em termos cosmológicos, sob a compreensão de que nos Guarani-Kaiowá fomos destinados, em nossa origem, como humanidade, a viver e a cuidar deste específico território antigo.

     

    Diante disso, vimos através desta nota apresentar os nossos pedidos ao Governo Federal e Justiça brasileira. Nosso povo Guarani-Kaiowá quer sobreviver fisicamente e culturalmente como povo originário do Brasil. Não queremos ser extintos pela própria ação e mando dos fazendeiros e agronegócio etc. Como primeiro povo indígena do Brasil e da America do Sul, a principio, queremos ser protegidos pelo Governo Federal, Justiça brasileira e legislações internacionais.

     

    Queremos que o Governo Federal e Justiça Brasileira considerem em primeiro lugar que as reservas/aldeias indígenas existentes no Cone Sul do atual Estado de Mato Grosso do Sul são superlotadas, onde não há mais espaço, infraestrutura e recursos naturais para sobreviver como povo Guarani-Kaiowá. Nas margens da rodovia há diversos perigos de vida e miséria e nos acampamentos há isolamento, cerco e ameaça de pistoleiros.

     

    Não queremos ver mais as nossas lideranças, os nossos parentes serem ameaçados, assassinados e expulsos dos pequenos espaços em seus territórios tradicionais, aumentando e alimentando mais violências contra o povo Guarani-Kaiowá. Por essa razão, nós lideranças e porta vozes da assembleia do Aty Guasu do povo Guarani Kaiowá do MS, nesta semana do Dia do Índio de 2012, pedimos reiteradamente, a conclusão de inquéritos policiais abertos para apurar assassinatos de lideranças Nisio Gomes, Rolindo e Genivaldo Vera entre outros e, sobretudo a punição dos autores e mandantes. Por fim, solicitamos a conclusão imediata e publicação dos relatórios antropológicos de identificação de todos os territórios tradicionais Guarani e Kaiowá em estudo.

     

    Atenciosamente,

     

    Conselho da Aty Guasu Guarani e Kaiowá – Dourados, 16 de abril de 2012.

     

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  • 16/04/2012

    Ritual sagrado e alimentação de indígenas estão sob ameaça por falta de peixe

    Um dos mais longos rituais indígenas da Amazônia brasileira, o Yaõkwa, inscrito no livro de registro das celebrações do Iphan e incluído na lista do Patrimônio Imaterial da Unesco, está sob ameaça. Uma carta do povo Enawene Nawe, protocolada no Ministério Público Federal no dia 30 de março, relata a falta de peixes no rio Juruena e nos demais rios onde estão instaladas as centrais hidrelétricas do Complexo Juruena, na região norte de Mato Grosso.

     

    A oferta de peixes na Terra Indígena Enawene Nawe está ameaçada, entre outros fatores, pela construção de um complexo de hidrelétricas no rio Juruena, o que já modificou a dinâmica hídrica e reduziu a abundância de peixes, essenciais para os rituais sagrados e para a alimentação deste povo indígena que não consome carne vermelha.

    Para que os rituais sejam realizados e para garantir a alimentação dos indígenas, o Ministério Público Federal expediu ofício ao presidente da Funai, Márcio Meira, e ao diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai, Aloysio Guapindaia, pedindo providências imediatas para a doação de peixes. O ofício foi expedido no dia 03 de abril determinando o prazo de resposta de cinco dias, contados a partir do recebimento do ofício.

     

    O MPF também recorreu à via judicial pedindo que a Justiça Federal determine a imediata doação de peixes aos Enawene Nawe. No pedido, o MPF defendeu a necessidade e a importância da intensificação do programa emergencial de doação de peixes para mitigar a falta de alimento e salvaguardar as práticas culturais indígenas até que se conheça com maior precisão os efeitos negativos dos empreendimentos hidrelétricos na alimentação dos indígenas, que são objetos de um estudo complementar, cuja conclusão ainda não foi apresentada pela Funai.

     

    No dia 9 de abril, o juiz federal da 2ª Vara da Justiça Federal em Mato Grosso deferiu o pedido e determinou a intimação da Funai e das empresas Campos de Júlio Energia, Parecis Energia, Rondon Energia, Sapezal Energia, Telegráfica Energia para que antecipem a doação de peixes, a fim de assegurar o ritual sagrado da comunidade indígena.

     

    Os indígenas realizam o ritual diariamente durante sete meses. O ritual envolve a pesca de barragem, com sofisticadas armações que configuram elaboradas obras de engenharia, feitas com matéria-prima da floresta amazônica. Inclui ainda música, dança e oferendas para os espíritos. O peixe pescado também é salgado de forma a se preservar para o consumo dos indígenas durante meses.

     

    Assessoria de Comunicação

    Procuradoria da República em Mato Grosso

    Contato com a imprensa: Lenita Violato Ferri e Marymila Mendes

    Tel: (65) 3612-5083 / 9286-2891

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  • 16/04/2012

    MPF apura suposto racismo contra grupo indígena de rap no Facebook

    Discriminação acontece em plena Semana do Índio. MS tem a 2ª maior população indígena do país.

     

    O Ministério Público Federal em Dourados investiga a ocorrência do crime de racismo contra um grupo indígena de rap no site de relacionamentos Facebook. O grupo Brô MC’s participou no último sábado (14) do programa TV Xuxa, da rede Globo. A representação encaminhada ao MPF reproduz a página do site, onde é possível ler comentários depreciativos sobre os indígenas. Como um em que a autora classifica a apresentação do grupo como um “lixo”, chama os músicos de "índios fedorentos" e utiliza palavras de baixo calão.

     

    O MPF vai requisitar informações ao site para verificar a veracidade das mensagens. Se forem verídicas, poderá ser instaurado inquérito e posterior processo penal pelo crime de racismo, previsto pelo artigo 20 da Lei 7.716/89. A pena prevista para esse crime é de um a três anos de reclusão. Quando o crime é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza, a pena passa a ser de dois a cinco anos de prisão e multa.

     

    A autora das mensagens e as pessoas que as reproduziram também poderão ser chamadas a depor e, em tese, responderão a ação penal por racismo.

     

    Brô MC’s

     

    Formado por quatro jovens da aldeia Jaguapiru Bororó em Dourados – sul de Mato Grosso do Sul – o Brô MC’s é o primeiro grupo indígena de rap do Brasil. Com letras cantadas em guarani, as músicas falam do cotidiano dos índios, do preconceito e da falta de visibilidade na sociedade. Os integrantes utilizam o rap como uma forma de protesto, além de ajudar a manter a cultura indígena viva. O grupo já se apresentou na posse da presidente Dilma Roussef e abriu um show de Milton Nascimento.

     

    Precedente em Dourados

     

    Em 2011, outro crime de racismo levou o Ministério Público Federal a denunciar o advogado e articulista Isaac Duarte de Barros Júnior pelo crime de racismo contra etnia indígena. Isaac foi condenado a dois anos de prisão, em uma sentença rara no país.

     

    Na sentença, o juiz afirmou que a liberdade de expressão não é uma garantia absoluta. “A dignidade da pessoa humana, base do estado democrático de direito, prevalece sobre qualquer manifestação de pensamento que incite ao preconceito ou à discriminação racial, étnica e cultural”

     

    Assessoria de Comunicação Social

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  • 16/04/2012

    Povo Pataxó Hã-Hã-Hãe retoma quase a totalidade de Caramuru-Paraguassú

    Por Renato Santana,

    de Brasília

     

    Faltam apenas seis áreas para indígenas do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe reocupar a Terra Indígena Caramuru-Paraguassú, entre Itajú do Colônia, Camacã e Pau Brasil,   na Bahia. Durante a madrugada de domingo, 15, os indígenas iniciaram novo ciclo de retomadas, incluindo a fazenda Vitória, usada para inseminações artificiais de sêmen em éguas para a procriação de cavalos de raça e principal cenário para os fatos que desencadearam as retomadas.

     

    Na região de Rio Pardo, oito fazendas foram retomadas. De acordo com caciques, as ocupações foram decididas pela comunidade depois que os indígenas foram acusados de organizar emboscada contra um fazendeiro e incendiar de forma criminosa um imóvel da fazenda Vitória. Indignados com a criminalização sofrida, decidiram retirar do território, demarcado entre 1936 e 1937, os causadores das calúnias propagadas pela Rede Globo, na edição da última sexta-feira, 15, do Jornal Nacional.      

    O proprietário Armando Pinto acusa os Pataxó Hã-Hã-Hãe do incêndio, depois de terem matado, numa emboscada, Ana Maria dos Santos Oliveira, na segunda-feira, 9. No entanto, as direções das polícias Civil e Federal, que cobrem a região, trabalham com a hipótese de que o assassinato e o incêndio tenham como autores pistoleiros contratados por fazendeiros, contrariando as acusações feitas contra os indígenas em rede nacional.

     

    Conforme os delegados Fábio Marques (PF) e Francesco Denis Santana (PC), o alvo dos assassinos era o coordenador da Fundação Nacional do Índio (Funai) na região, Jovanildo Vieira dos Santos Titiá. Dessa forma, os delegados consideram remota a participação dos indígenas na morte de Ana Maria. Além disso, de acordo com a polícia, os moldes da emboscada não se adéquam aos indígenas e nenhuma arma de grosso calibre foi encontrada na posse dos Pataxó Hã-Hã-Hãe.

     

    Incêndio e reféns

     

    Os indícios da participação dos indígenas no incêndio, de acordo com as investigações, são ainda menores. Apenas uma casa da fazenda foi queimada, sendo que os incendiários ainda tiveram o cuidado de retirar do imóvel alguns móveis. No restante da sede, nenhuma depredação. Os cinco mil litros de leite armazenados e a central de inseminação artificial ficaram intactos.

     

    Para os policiais, essa também não é uma prática dos Pataxó Hã-Hã-Hãe, que há décadas vivem em conflito com invasores da terra indígena e nunca promoveram incêndios. Quanto a manutenção de reféns nas fazendas retomadas pelos índios, a polícia não comprovou nada e apenas recebeu denúncias dos fazendeiros – que acusam os indígenas de manterem 30 indivíduos presos nas áreas.

     

    “A polícia está direto nas fazendas ocupadas por nós e veria se tivéssemos com reféns. Agora mesmo: a imprensa está aqui, a polícia está aqui e o povo está em ritual. O que pedimos é que os funcionários dos invasores retirem o gado para depois ninguém dizer que roubamos”, afirma o cacique Nailton Pataxó Hã-Hã-Hãe.

     

    O indígena está numa das áreas retomadas na madrugada do último domingo, a cinco quilômetros da cidade de Pau Brasil. “Não existe envolvimento dos indígenas na emboscada que vitimou a mulher (Ana Maria dos Santos Oliveira). No dia da morte, estávamos distantes do local. A emboscada foi praticada por pistoleiros, contratados por fazendeiros, que estão na região”, destaca o cacique.

     

    Para a liderança indígena, os pistoleiros se confundiram por conta do veículo: a caminhonete usada pelo esposo de Ana Maria é de mesma marca (L 200) do veículo oficial utilizado pelo coordenador regional da Funai, suposto alvo da emboscada. Depois que perceberam o equívoco, o incêndio seria uma forma de forjar sucessivos ataques provocados pelos Pataxó Hã-Hã-Hãe, que desde janeiro promovem ações de retomadas das fazendas que incidem dentro da Terra Indígena Caramuru- Paraguassú.  

     

    Servidores ameaçados

     

    “Faz três meses que sofremos ameaças”, denuncia o servidor da Funai Wilson Jesus de Souza, que atua na Caramuru-Paraguassú. Ele conta que já foi ameaçado no centro de Itajú do Colônia por homens interessados nas terras dos Pataxó Hã-Hã-Hãe. Também é taxativo ao afirmar que os indígenas não estão envolvidos no assassinato e no incêndio.

     

    O servidor atua na região há uma década. Explica que a área do conflito estava longe do local onde aconteceu a emboscada e a morte de Ana Maria. “Os índios estavam na região das Alegrias. Ilhados a cerca de 10 quilômetros da cidade, porque a estrada que dá acesso a Itajú do Colônia, local da emboscada e da fazenda Vitória, estava tomada de pistoleiros e ninguém passava por ela. Então os índios não tinham como estar ali”, explica Souza.

     

    Nas conversas com os indígenas, o servidor ouviu que as retomadas deste final de semana são em resposta às acusações contra os Pataxó Hã-Hã-Hãe e para que nenhum pistoleiro atue mais dentro da terra indígena. “Estavam revoltados e disseram que agora vão retomar todo o território”, explica. Na manhã desta segunda-feira, 16, Souza esteve nas oito fazendas retomadas na região do Rio Pardo, convocado pela equipe da Polícia Federal de Ilhéus. Denúncias davam conta de reféns, torturas, famílias sequestradas e fazendeiros assassinados.  

     

    “O delegado da PF ficou bastante indignado, pois nenhuma acusação foi comprovada. Os funcionários estavam lá em harmonia com os índios e aguardando transporte para fazer a mudança de pertences. Os agentes da PF viram tudo isso de perto”, conta o servidor da Funai. Ele reafirma: permanecem na Terra Indígena Caramuru-Paraguassú apenas seis dos 396 proprietários de fazendas no território de ocupação tradicional.

     

    Histórico das recentes retomadas

     

    Para os indígenas, as retomadas são mecanismos de defesa: com as fazendas cercadas de pistoleiros, a forma de proteção dos indígenas é o acesso ao território de forma integral. Assim, não sofrem emboscadas na área de ocupação tradicional e transitam livremente por ela. Dentro dessa perspectiva, no dia 1º de janeiro deste uma onda de retomadas inundou as fazendas que incidem na Caramuru-Paraguassú.

     

    Os Pataxó Hã-Hã-Hãe ocupavam 18 dos 54 mil hectares da Terra Indígena Caramuru-Paraguassu, localizada entre os municípios de Itajú do Colônia, Camacã e Pau Brasil, na Bahia, até o final de 2011. Até então, os indígenas aguardavam os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) votar pela nulidade dos títulos dos ocupantes do território, que corre há 30 anos sem votação, sendo que o ex-ministro Eros Grau, relator do processo, votou de forma favorável aos indígenas, ou seja, pela anulação dos títulos.

     

    O restante da área, demarcada na década de 1930 do século passado, estava nas mãos de fazendeiros que, a partir de 1960, obtiveram títulos de propriedade emitidos de forma irregular pelo governo baiano, na gestão de Antônio Carlos Magalhães, o ACM – títulos que hoje são objeto da ação que corre no STF.

     

    Até o dia 23 de fevereiro deste ano, os Pataxó Hã-Hã-Hãe retomaram 48 fazendas. Dos 18 mil hectares de área, os indígenas passaram a ocupar 42 mil, ainda restando 12 mil – compreendendo a região de Rio Pardo, área onde ocorrem os episódios das últimas oito retomadas ocorridas a partir deste último final de semana.

     

     

     

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  • 16/04/2012

    Que sob a toga dos ministros do STF não se esconda nenhum escravocrata

    NOTA PÚBLICA

     

    A Diretoria e Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra, CPT, às vésperas do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, STF, da Ação Direta de Inconstitucionalidade, ADI, 3239, proposta pelo partido dos Democratas, contra o Decreto Federal 4887/2003, vem expressar sua profunda preocupação com o que está acontecendo neste país.

     

    Está em curso uma nova caça aos povos indígenas, comunidades quilombolas, e outras comunidades tradicionais, por um contingente expressivo de escravocratas, que lançam seus tentáculos em diferentes espaços do Estado Brasileiro e tem apoio de diferentes órgãos da imprensa nacional.

     

    Como à época do Brasil Colônia, povos indígenas inteiros foram devastados por não quererem se submeter aos ditames dos invasores; à época da escravidão, os senhores de escravos contavam com toda a estrutura do poder público para perseguir e destruir os espaços de liberdade construídos pelos negros, chamados de quilombos, hoje, novos escravocratas, com voracidade incomum, atentam contra as comunidades indígenas e quilombolas, com ações diretas ou utilizando de trincheiras, assim chamadas legais, para impedir o reconhecimento dos territórios historicamente por elas ocupados.

     

    Sucedem-se os ataques diretos às comunidades indígenas e quilombolas. Os dados coligidos pela CPT nos dão conta que em 2011, foram assassinados 4 indígenas e 4 quilombolas, nas disputas territoriais. 82 conflitos por terra envolveram os índios e 100 os quilombolas. 77 quilombolas e 18 indígenas foram ameaçados de morte e 8 indígenas e 3 quilombolas, sofreram tentativas de assassinato.

     

    No plano dito “legal” são muitas as ações que os novos colonizadores e escravocratas movem contra a continuidade dos processos de identificação e titulação das terras indígenas, e dos territórios quilombolas e de outras comunidades tradicionais. Estas encontram fácil acolhida em diversas instâncias do poder Judiciário.

     

    Mas, possivelmente, é na trincheira do Congresso Nacional que os novos colonizadores e escravocratas têm seus mais firmes tentáculos. Há poucos dias a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a proposta de emenda Constitucional, PEC 215, pela qual os parlamentares querem ter exclusividade na demarcação de terras indígenas, de quilombolas e de unidades de conservação ambiental, retirando esta competência do Executivo. Com isso praticamente fica inviabilizado qualquer reconhecimento de novas áreas. E são inúmeros os projetos de lei que buscam restringir os parcos direitos territoriais dos povos indígenas e das comunidades quilombolas.

     

    O Decreto Federal 4887/2003, assinado pelo ex-presidente Lula que regulamentou o processo de titulação das terras dos remanescentes das comunidades de quilombos criando mecanismos que facilitam o processo de identificação e posterior titulação de comunidades, encontrou no partido dos Democratas (um dos últimos resquícios da sustentação parlamentar da ditadura militar) ferrenha oposição. O Decreto que ratificou o estabelecido no Artigo 68 das Disposições Transitórias da Constituição Federal: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”, foi considerado pelos “democratas” (triste contradição), inconstitucional.

     

    Os novos escravocratas se espalham pelo Congresso Nacional, nos mais diversos partidos, tendo constituído a assim chamada Bancada Ruralista. Esta bancada, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), é formada por 159 parlamentares, sendo 141 deputados e 18 senadores. Ela lidera as desastrosas mudanças no Código Florestal e em toda a legislação ambiental; desde 2004, praticamente, impede a última votação da PEC 438 que determina o confisco das áreas onde for constatada a exploração de trabalho escravo; e se opõe a qualquer tentativa de reconhecimento dos direitos territoriais dos povos indígenas e das comunidades quilombolas e outras.

     

    A ADI 3239, proposta pelos “democratas” vai a julgamento no STF, nos próximos dias. As comunidades quilombolas que saudaram os pequenos avanços no reconhecimento de sua cidadania e de seus direitos expressos no Decreto Federal 4887/2003, não podem ser defraudadas.

     

    A Comissão Pastoral da Terra espera que os ministros do STF julguem esta ação a partir dos direitos fundamentais da pessoa humana e não se enredem em questões minúsculas de formalidades jurídicas. Está em jogo o direito de populações que historicamente foram discriminadas, massacradas, jogadas à margem da sociedade. É mais que necessário que se garantam os poucos direitos tão duramente conquistados. A CPT quer acreditar que sob a toga dos ministros do STF não se esconde nenhum dos escravocratas atuais.

     

    Goiânia, 16 de abril de 2012.

     

    Dom Enemésio Lazzaris

    Presidente da CPT

     

    Maiores Informações:

    Cristiane Passos (Assessoria de Comunicação da CPT Nacional) – (62) 4008-6406 / 8111-2890

    Antônio Canuto (Assessoria de Comunicação da CPT Nacional) – (62) 4008-6412

    www.cptnacional.org.br

    @cptnacional

     

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  • 16/04/2012

    Agroecologia – produção sem agronegócio

    Produção de alimentos saudáveis e em abundância, sem agrotóxicos nem transgênicos, nos territórios indígenas e quilombolas, nas terras e territórios dos assentamentos, das populações tradicionais, na agricultura familiar. Isso é mais do que um sonho, é uma realidade em disputa, uma construção que avança através da agroecologia, da produção orgânica, da permacultura, das áreas agroflorestais e mesmo unidades da conservação. Porém é um caminho ainda árduo, enfrentado com galhardia e dignidade em meio ao mar agressivo do agronegócio, reinando absoluto, com todo apoio do atual modelo de produção agrícola, do sistema neoliberal brasileiro e mundial.

     

    Foi neste contexto de fazer avançar, ampliar o espaço da produção agroecológica e orgânica que se realizou na semana passada, no Centro de Formação Vicente Canhas, em Luziânia, o Seminário Nacional por uma Política Nacional de Agroecologia e Sistemas Orgânicos de Produção. Foram três dias de intenso debate e discussão de uma proposta de decreto a ser aprovado pelo governo nos próximos meses. Mais de 70 pessoas ligadas a sistemas de produção agroecológica em nível nacional fizeram um grande esforço em sintetizar as propostas elaboradas e aprovadas em cinco seminários regionais.

     

    Com muito realismo e firmeza política, apesar da constatação do avanço acelerado do agronegócio, dos retrocessos em termos dos marcos legais e mesmo projetos de alteração da Constituição (como a PEC 215, dentre muitas outras) reafirmaram a disposição de continuar fazendo avançar os sistemas de produção agroecológicos e orgânicos, cientes de que não é possível a convivência da agroecologia com o agronegócio, e seu necrófilo e destrutivo sistema de produção no campo.

     

    Afirmaram a primazia da luta pela terra e territórios indígenas, quilombolas e das populações tradicionais e da agricultura familiar, dos assentamentos, da reforma agrária como condição para se conquistar espaços importantes que possam levar à superação do agronegócio e instituir uma forma diferente de produção de alimentos saudáveis, com uma nova forma de relação com a terra.

     

    É claro que ainda estamos longe de conquistas como na Bolívia e outros países onde se reconhece na constituição os direitos da Mãe Terra, e a pluralidade das culturas e suas formas harmônicas e respeitosas de se relacionar com a natureza e a terra.

     

    Territórios Indígenas, Rio+20 e Cúpula dos Povos

     

    É importante ressaltar que o governo brasileiro está numa corrida para chegar com bons saldos para apresentar ao mundo na Rio+20. Um desses trunfos é a aprovação de um Plano Nacional de Agroecologia. Os representantes do governo, presentes no início do Seminário, não deixaram dúvidas de que alguns setores e ministérios do governo têm interesse em estimular e apoiar a agroecologia, chegando a aninhar essa proposta sob as asas do governo, porém mostraram pressa, pois esse deverá ser um dos trunfos para o grande evento mundial a se realizar no Rio, em junho, para o qual já confirmaram a presença dos presidentes e representantes de 90 países.

     

    É bom lembrarmos que o presidente Collor também quis mostrar serviço, e dentre os trunfos um deles foi a demarcação do território Yanomami, contrariando a postura dos militares e do governo Sarney de não demarcar terras indígenas na faixa de fronteira. Quem sabe a presidente Dilma chegue à Rio+20 tendo regularizado, identificado e demarcado todas as terras e territórios dos povos Guarani no Mato Grosso do Sul e Sul do país.

     

    Na Cúpula dos Povos, encontro paralelo ao oficial, no Rio de Janeiro, questão do agronegócio, agrotóxicos, transgênicos e territórios livres dessas pragas, será debatido e tomado posições em nível mundial contra essas barbaridades. E com certeza a realidade de negação dos territórios dos índios da Nação Guarani, nos quatro países (Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia) e a conseqüente violência e genocídio, serão cobrados pelos movimentos indígenas, sociais e populares do mundo.

     

    Mobilização quilombolas e indígenas

     

    “Atualmente, são mais de 5000 comunidades que reivindicam quilombolas em todo o país. Comunidades que ao longo dos quase 400 anos de escravismo e nos últimos 124, após a abolição, resistem bravamente às investidas brutais e criminosas, dos escravistas, dos latifundiários, e agora dos ruralistas do agronegócio exportador, das madeireiras, das mineradoras, do próprio Estado brasileiro, dos governos estaduais e municipais.

     

    A questão fundiária no Brasil sempre foi tratada pelas oligarquias rurais e agrárias e pelos governos de forma reacionária, um tabu imexível, na perspectiva de mantê-los no controle dessas propriedades, cada vez maiores, através da grilagem, expulsão, atentados e assassinatos de lideranças quilombolas, indígenas, de sindicalistas e pequenos camponeses, de trabalhadores rurais sem terra, ambientalistas e religiosos solidários, sem que os governos lhes garantam a proteção de direito.

     

    “A Articulação Nacional de Agroecologia defende a manutenção do decreto 4887, e é contrária a PEC 215, acreditando que é fundamental a garantia dos direitos territoriais das Comunidades Quilombolas, o que fortalece a Agroecologia, garantindo a diversidade cultural e biológica brasileira” (documento do Seminário Nacional da ANA – Articulação Nacional de Agroecologia).

     

    A articulação dos povos descendentes dos quilombos e povos indígenas conclama a população brasileira a se manifestar e se unir às mobilizações para que a investida retrógrada não prevaleça no julgamento da ação de inconstitucionalidade (ADIN) que quer invalidar o processo de reconhecimento das terras e territórios quilombolas. O julgamento pelo Supremo Tribunal Federal está prevista para dia 18. Para esta semana estão previstas manifestações do movimento quilombola e indígena e seus aliados, em Brasília.

     

    Egon Heck

    Povo Guarani Grande Povo

    Cimi 40 anos

     

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  • 13/04/2012

    Quilombolas realizam mobilização em Brasília contra ADIN 239 e PEC 215

    Reginaldo Bispo,

    de Campinas (SP)

    O Supremo Tribunal Federal (STF) deverá votar na próxima quarta-feira, 18, a ADIN 3239, do partido Democratas, contra o Decreto 4887, que disciplina as titulações dos territórios quilombolas. Em vista dessa votação e contra a aprovação e seguimento da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que visa transferir do Executivo para o Legislativo a demarcação de terras quilombolas e indígenas, cerca de 800 quilombolas realizam mobilizações na próxima semana, em Brasília. O movimento indígena estará junto.  

    Atualmente, são mais de 5000 comunidades que se reivindicam quilombolas em todo o país. Comunidades que ao longo dos quase 400 anos de escravismo e nos últimos 124, após a abolição, resistem bravamente às investidas brutais e criminosas, dos escravistas, dos latifundiários, e agora dos ruralistas do agronegócio exportador, das madeireiras, das mineradoras, do próprio Estado brasileiro, dos governos estaduais e municipais.

    A questão fundiária no Brasil sempre foi tratada pelas oligarquias rurais e agrárias e pelos governos de forma reacionária, um tabu imexível, na perspectiva de mantê-los sob o controle dessas propriedades, cada vez maiores, através da grilagem, expulsão, atentados e assassinatos de lideranças quilombolas, indígenas, de sindicalistas e pequenos camponeses, de trabalhadores rurais sem terra, ambientalistas e religiosos solidários, sem que os governos lhes garantam a proteção de direito.

    Nos dias 14 e 15 de Abril, acontecerá o Seminário da Frente Nacional em Defesa da Titulação dos Territórios Quilombolas, na CONTAG, também em Brasília, para discutir as formas de mobilização e de organização da Frente. Nos dias 16 e 17, os quilombolas participarão de um mutirão de pressão sobre o executivo e o legislativo, e no dia 18, de um grande ato em frente do STF, pela rejeição da ADIN do DEM e dos ruralistas.

    O desenvolvimento sustentável do Brasil, com respeito a natureza, passa pelo reconhecimento e preservação dos territórios das comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais. Passa pela democratização do acesso e a garantia de posse da terra a quem nela vive e produz, diminuindo assim a pressão sobre os grandes centros urbanos, aumentando e barateando a oferta de alimentos saudáveis (o produzido pelo agronegócio é puro veneno, utilizam de defensivos agroquímicos em grande escala).

    Trata-se também de uma questão de justiça e cidadania, pois lança as bases de um Projeto Político de Nação (inexistente no Brasil até hoje), incluindo-os e garantindo seus direitos enquanto brasileiros, bem como a segurança (de morar, produzir, criar seus filhos, educar, viver e praticar a sua cultura em paz, sem sofrer a violência das elites) destes seguimentos rurais tão vilipendiados e violentados em seus direitos enquanto brasileiros nos últimos cinco séculos.

    Milhares de militantes, de todo o Brasil, estão se dirigindo para Brasília. Temos por enquanto, a confirmação dos quilombolas da Frente Nacional em Defesa da Titulação dos Territórios Quilombolas dos estados do MA, RS, BA, GO, MG, SC, PA, RJ, DF. Centenas de lideranças e entidades do Movimento Negro brasileiro também estão indo em apoio, enquanto organizações quilombolas e do Movimento Negro farão vigílias e manifestações em suas próprias cidades e estados.

     

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