• 31/03/2016

    Racismo: deputados não aceitam depoimento de indígena Terena na língua materna

    Numa cena de racismo arrepiante, parlamentares que compõem a CPI do Genocídio inviabilizaram o depoimento do indígena Paulino Terena, da terra indígena Pillad Rebuá, nesta quinta-feira, 31. Ele é a liderança de uma das principais retomadas Terena em Miranda (MS), região do Pantanal, e falaria sobre as pressões da vida na reserva e os ataques que ele e a comunidade vem sofrendo no acampamento onde moram desde 2013.

    Paulino foi convocado à depor na CPI na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul. Optou por dar seu depoimento em sua língua materna. Mesmo com a presença de intérprete, os deputados Paulo Correa (PR), Mara Caseiro (PSDB) e Professor Rinaldo (PSDB), contudo, opuseram-se veementemente, inviabilizando a contribuição do indígena, acusando a ele e à intérprete Terena, a professora e mestre em educação Maria de Lourdes Elias, da aldeia Cachoeirinha, de mentirem sobre compreenderem ou não a língua portuguesa.

    "É nos chamar de palhaços ter que transcorrer toda a nossa CPI com depoimento em Terena! Eu não entendo Terena! O senhor entende, deputado Paulo Correa? O senhor entende, deputado Rinaldo?", gritava Mara Caseiro. "(…) se ele tá no Brasil, nós precisamos ouvi-lo em português!". Correa chegou a apresentar vídeos em que Paulino dá entrevistas em português, como prova da má-fé do depoente.

    ILEGALIDADE

    "Não interessa se ele fala português ou não, é prerrogativa dele falar no idioma materno", explica o indígena Terena e advogado do Conselho Indigenista Missionário, Luiz Henrique Eloy. "Se o deputado obrigar ele falar português, comete constrangimento ilegal".

    "A liderança é vítima de vários atentados, mas sai da Assembleia Legislativa como réu", comenta Eloy. "O artigo 231 da Constituição garante o respeito à cultura e à língua; o artigo 210 autoriza o uso da língua materna nas escolas… O artigo 193 do Código de Processo Penal e o artigo 12 da Convenção 169 da OIT asseguram o uso do idioma materno nos procedimentos judiciais. Como esses parlamentares podem simplesmente ignorar isso?", conclui.

    HISTÓRICO

    Paulino cresceu na Aldeia Moreira, uma reserva indígena de 94 hectares onde vivem cerca de 2,2 mil Terena. Em 2013, liderou a retomada de Pillad Rebuá, e foi alvo de diversas ameaças e ataques no contexto da luta pela terra.

    Em dezembro de 2013, quatro homens encapuzados atearam fogo no carro de Paulino, que estava dentro do veículo. Na época, a tentativa de homicídio foi registrada na Polícia Civil da cidade, e foi atribuída a produtores rurais da região, em disputa pela posse de territórios reivindicados como tradicionais pelos Terena. Nas investigações nunca foram concluídas.

    Também em Miranda, em junho de 2011, um ônibus que transportava cerca de 30 estudantes Terena, a maioria entre 15 e 17 anos, foi atacado com pedras e coquetéis molotov. Seis pessoas, incluindo o motorista, sofreram queimaduras. Quatro foram internadas em estado grave. A estudante Lurdesvoni Pires, de 28 anos, faleceu, vítima de ferimentos causados pelas queimaduras. Na época, lideranças Terena creditaram o ataque a proprietários rurais da região, no contexto da disputa pela demarcação das terras indígenas.

    RACISMO

    Apesar da pressão, Paulino insistiu em dar o depoimento em sua língua. No entanto, sob a intransigência dos três parlamentares, o presidente da CPI, João Grandão (PT) acabou por dispensar o indígena da oitiva, que saiu de lá direto para o Ministério Público Federal (MPF), onde registrará queixa-crime de racismo contra os deputados Paulo Correa e Mara Caseiro.

    O Guarani Ñandeva Erpídio Pires, do tekoha Potrero Guasu, no município de Paranhos, também foi acompanhado de intérprete, mas, pressionado pelos parlamentares, aceitou depor em português.

    ONU

    Em visita ao Brasil, a relatora da ONU para direitos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, disse que "chorou junto" com Paulino, em reunião com o Conselho Terena em Campo Grande, em março deste ano.

    "Este jovem quando falou comigo me contou como sua casa foi queimada pelos pistoleiros dos fazendeiros, para impedir o acesso dos Terena ao seu território ancestral. Enquanto este homem falava nos chorávamos juntos, eu, ele e muitos outros naquela sala. Ele disse que tem quatro filhos pequenos, e que é constantemente ameaçado. Ele não sabe até quando irá viver por causa de todas estas ameaças contra suas vidas", escreveu Victoria.

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  • 31/03/2016

    Saúde Indígena: o desafio de uma nova transição

    A saúde indígena no Brasil está em festa! Saiu ontem no Diário Oficial da União a exoneração do médico cirurgião Antonio Alves da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) em Brasília. Encerra-se assim o capítulo mais tenebroso da história do subsistema de atenção à saúde indígena no país, iniciada na década de oitenta com os primeiros passos dados pelo movimento indígena para a criação de um modelo de atenção à saúde indígena específico e diferenciado, e que teve continuidade com a criação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) em 1999, da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) em 2002, e finalmente da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) no ano de 2010.

    O agora ex-secretário esteve à frente da saúde indígena desde o ano de 2009, quando coordenou um grupo de trabalho responsável por uma interminável transição da gestão da FUNASA para a SESAI, que se arrastou por mais de dois anos, em meio à total inoperância e alheio aos graves problemas que demandavam medidas urgentes por parte do governo federal para salvaguardar a saúde das comunidades indígenas. Neste período o secretário limitou-se a organizar inúmeras oficinas para discussão e preparação da sua base de apoio nos distritos, criando mecanismos para o exercício de um controle social às avessas, onde a saúde não estava a serviço de um autêntico protagonismo indígena, mas procurava reforçar formas paralelas de organização social.

    A desastrosa gestão do ex-secretário à frente da SESAI por mais de cinco anos se caracterizou pela paralisação dos programas de formação de Agentes Indígenas de Saúde e demais profissionais indígenas, destruição da autonomia dos conselhos distritais e das instâncias de controle social em todos os distritos, intensificação dos critérios clientelistas e de apadrinhamento político para os cargos de gestão e composição das equipes multidisciplinares de saúde, grave ineficiência na execução dos programas de atenção à saúde com piora acentuada nos indicadores de saúde, e total inoperância na execução nos investimentos na infraestrutura de saúde e no saneamento básico das comunidades indígenas.

    O mais grave de tudo talvez tenha sido o enorme desperdício de dinheiro público, alardeado pelo ex-secretário e seus apoiadores como um a grande conquista ocorrida neste período. O subsistema de atenção à saúde indígena, desde a sua efetiva implantação no final do ano de 1999, conseguiu conquistar e consolidar de forma plenamente sustentável, por meio de um forte protagonismo e participação das lideranças e organizações indígenas em todo o país, um orçamento que girava em torno de quatrocentos milhões de reais ao ano. Este orçamento distribuído e administrado com transparência e participação indígena permitiu alcançar resultados muito satisfatórios na maior parte dos distritos sanitários do Brasil.

    Com a implantação da SESAI e a ascensão do ex-secretário à gestão da saúde indígena, foi anunciado um incremento neste orçamento para mais de um bilhão de reais ao ano, o que infelizmente não redundou em melhoras na assistência, mas no reforço dos mecanismos de clientelismo, uso político e práticas de corrupção em todo o país, conforme inúmeras denúncias apresentadas por organizações indígenas e pelo Ministério Público Federal neste período. Esta gastança vai cobrar seu preço agora, no momento em que o governo federal se defronta com o ‘tempo das vacas magras’, e mais do que nunca se torna necessária a racionalização e o bom uso dos recursos públicos. Só nos resta desejar boa sorte a todos os que agora estarão à frente deste enorme desafio…

    Paulo Daniel Moraes

    Boa Vista – RR, 31/03/2016

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  • 29/03/2016

    Ação em defesa das águas e da vida reúne povos indígenas e comunidades tradicionais em Araguaína (TO)

    Com o tema Águas do Cerrado, Casa Comum: Nossa Responsabilidade, foi realizado no último 22 de março de 2016 na Praça da Bandeira na cidade de Araguaína (TO), ação ecumênica para celebrar o Dia Internacional da Água. O ato foi uma realização das Pastorais Sociais, Universidade Federal do Tocantins (UFT) e Diocese de Tocantinópolis (TO). Ao menos 450 pessoas participaram das palestras, apresentação de trabalho escolar, amostra de documentários, comercialização de produtos da agricultura familiar, venda de livros e distribuição (gratuita) de jornais e revistas.

    Na ocasião, representantes dos povos Apinajé, Krahô e Karajá Xambioá, Ribeirinhos, Quilombolas, Trabalhadores Rurais, Estudantes e Professores manifestaram suas angústias e preocupações com a violenta destruição do Bioma Cerrado para produção de grãos para exportação. As lideranças denunciaram que as atividades promovidas pelo agronegócio estão provocando fome, sede, escravidão, expulsão de trabalhadores rurais e agravando os conflitos no campo.

    Os povos repudiaram a implantação do Programa MATOPIBA na região que abrange os Estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (saiba mais). Este megaprojeto é uma imposição violenta das grandes empresas para sufocar os pequenos agricultores familiares, povos indígenas e populações quilombolas e conta com vultosos recursos do Governo Federal. Enquanto isso, as aldeias indígenas e as comunidades camponesas não recebem sequer a visita de um técnico da EMATER ou do RURATINS para acompanhar e dar orientações a quem produz para alimentar a população do campo e da cidade.

    “Se o campo não planta a cidade não come”. Os camponeses ressaltaram que 70% dos produtos que alimentam as cidades vem da Agricultura Familiar e destacaram a diversidade e a qualidade dos produtos orgânicos produzidos. Os trabalhadores organizaram uma pequena feira com diversas espécies de macaxeiras, abóboras, milho verde, bananas, feijão e outros produtos trazidos da roça e colocados à venda no local. Essa iniciativa serviu também como intercâmbio e troca de experiências, produtos e sementes.

    Em depoimentos, os participantes alertaram que se o Cerrado não for protegido em breve não teremos mais águas limpas para beber e banhar. O fato é que centenas de nascentes e mananciais hídricos estão comprometidos e ameaçados pelo desmatamento para implantação de carvoarias e plantio de eucalipto, soja, milho e cana. No entorno das T.Is. Apinajé e Karajá Xambioá algumas nascentes já estão secas (leia aqui o manifesto dos povos do Cerrado no Dia Mundial da Água).

    Na realidade, estamos assistindo essa classe política desacreditada e corrupta implantar e consolidar às custas de vidas humanas a barbárie e a tirania do latifúndio no campo brasileiro. Nessa conjuntura difícil para evitar a extinção do Cerrado, a morte dos rios, o massacre dos camponeses e o genocídio dos povos indígenas temos que nos unir, lutar e resistir. Não podemos permitir que a anarquia, o retrocesso, a corrupção e a desordem social tomem conta do Brasil novamente.

    Sabemos também que essa classe política sempre esteve a serviço de grandes empresas do agronegócio como Monsanto, Basf, Bayer, Bunge, Dow, Dupont e Syngenta. Essas empresas que sempre dominaram a fabricação e o comércio de sementes transgênicas, de venenos, (pesticidas) e adubos químicos em todo o Mundo e agora estão invadindo, grilando e roubando as terras do Cerrado para o plantio e produção de grãos em larga escala. São esses políticos que inventaram o MATOPIBA e agora estão entregando o Cerrado para as transnacionais.

    Por essa razão os ruralistas são inimigos declarados dos povos indígenas, das populações quilombolas e dos agricultores familiares brasileiros. Movidos pela ganancia cega e pela fome de lucros sem limites esse bando está sempre em guerra contra a natureza, não respeitam as leis e violentam os direitos das populações mais empobrecidas, desinformadas e isoladas do Brasil. A saúde da população e do meio ambiente também é coisa ignorada desrespeitada pelos ruralistas.

    O evento também teve muita mística e cantorias indígenas, essa parte foi conduzida e ficou por conta do povo Krahô, que sempre anima os eventos com maracás e cantos que dialogam com a natureza trazendo sempre muita força e energia positiva para nossos encontros e reuniões. Seja nas praças, nas ruas, nas escolas, nos sindicatos, nas aldeias, nas cidades ou nas estradas, esperamos em breve nos encontrar novamente na luta em Defesa das Águas e da Vida em todas as suas dimensões.

    fotos: Antônio Veríssimo

    Terra Indígena Apinajé, 29 de março de 2016
    Associação União das Aldeias Apinajé-Pempxà


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  • 29/03/2016

    Povo Pataxó Hã-Hã-Hãe cria Conselho de Segurança Comunitário Indígena

    O povo Pataxó Hã-Hã-Hãe realizou no último dia 22 de março de 2016 (Dia Mundial da Água) mais uma assembleia ordinária, com o objetivo de fortalecer o seu Regimento Interno aprovado na Assembleia Geral do ano passado. Entre os vários temas discutidos nesta assembleia, tratou-se da apresentação, escolha e posse dos/as conselheiros/as das diversas regiões da comunidade que comporão o Conselho de Segurança Comunitário Indígena Pataxó Hã-Hã-Hãe – Conscip.

    O Conscip tem entre suas finalidades “desenvolver ações que visem garantir a solução de problemas que afetem a segurança dos moradores da comunidade Pataxó Hã-Hã-Hãe, bem como a resolução e prevenção contra as práticas de delitos que prejudiquem a comunidade, além de discutirem e implementarem projetos que venham a garantir a melhoria na qualidade de vida dos indígenas”.

    Além dos caciques e do Conselho de Anciãos, que são membros natos deste Conselho, foram empossados mais 15 representantes das regiões. Representantes da Funai, Policia Federal e Ministério Público se somarão a este quadro de lideranças e representantes da comunidade. No próximo dia 06 de abril já haverá uma primeira reunião do Conscip com os representantes indígenas, para elaborarem algumas normas e procedimentos, bem como agenda de trabalho do Conselho.

    A criação do Conscip é um desejo antigo da comunidade Pataxó Hã-Hã-Hãe, que se consolida como mais uma ação provocada pelo Conselho de Anciões da Comunidade e apoiada pelos caciques e a grande maioria da comunidade. E se concretiza em uma oportunidade importante para a comunidade que vive momentos de tensão e violência provocada pelo avanço da cidade sobre a área, em especial o tráfico de drogas que aflige muitas famílias.

    A Assembleia teve a presença de mais de 180 representantes familiares de todas as regiões da Terra Indígena Caramuru-Catarina-Paraguaçu, de representantes do Conselho de Anciões, Professores, Agentes de Saúde, além dos caciques, tivemos ainda a participação do representante da Funai, de representantes do Cimi Itabuna, da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), do chefe do Polo base da Sesai em Pau Brasil e do representante do Projeto Gestão Ambiental e Territorial Indígena (Gati).

    O Regimento Interno foi lido na íntegra, sem haver nenhuma dispersão por parte da comunidade, o que se viu, foi muita atenção na leitura, demostrando o interesse e comprometimento de todos que ali estavam. Após a leitura do Regimento foi feito um ritual muito rico para empossar os/as conselheiros/as.

    Ainda durante a tarde foi informado para a comunidade como e porque esta sendo feito o processo de recadastramento da Sesai, no sentido de atualizar os dados e melhorar o atendimento, já que o último senso feito foi realizado em 2008. Também houve informes de como esta se dando o projeto Gati dentro da área, suas dificuldades e seus avanços no processo de levantamentos e reflorestamento das nascentes.

    No Dia Mundial da Água, foi um momento muito forte quando a liderança Romildo Pereira denunciou a situação do Rio Mundo Novo, mostrando a todos um vaso com água, que mais parecia saída de uma poça de lama do que de um Rio.

    Em conversa particular com diversas lideranças presentes no evento, todas foram unânimes em afirmar que esta Assembleia foi muito importante para a comunidade. Algumas delas chegaram a afirmam que “não estavam mais acreditando” que as coisas pudessem melhorar na aldeia, mas com esta Assembleia a esperança voltou e eles voltaram a se animar.

    Para os coordenadores da atividade, os objetivos propostos a partir da pauta construída foram alcançados e o principal ponto, que era a consolidação do Conscip, aconteceu. “É mais um passo dado para fortalecer o nosso Regimento Interno, aos poucos, aquilo que muitos acreditavam que não aconteceria está acontecendo e a comunidade está nos apoiando muito. Sem ela, a comunidade, nada valeria a pena e nada teria acontecido”, comentou um dos coordenadores, Fábio Titiah.

    Aos poucos, após a reconquista da terra, a comunidade Pataxó Hã-Hã-Hãe vai reconstruindo a sua organização interna, após muitos anos de sofrimento e lutas. Exemplos, experiências e motivações eles a tem muito, e nós acreditamos e apostamos nesta reconstrução feita em mutirão. 


    Pau Brasil, 23 de março de 2016

    Conselho Indigenista Missionário – Equipe Sul da Bahia

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  • 28/03/2016

    Comitê de Direito à Verdade do Amazonas divulga nota em defesa da democracia

    Frente ao atual cenário político, o Comitê Estadual de Direito à Verdade, à Memória e à Justiça do Amazonas (CEVMJ/AM) divulgou um manifesto em defesa da democracia, da legalidade e contra a tentativa de golpe, no qual afirma que “a redemocratização e a Constituição de 1988 foram conquistas dos movimentos populares e da classe trabalhadora das quais não podemos abrir mão”.

    Em manifestação contra a tentativa de ruptura da legalidade democrática em curso, o documento relembra alguns dos povos indígenas que foram massacrados durante o regime ditatorial que assumiu o comando do país após o golpe militar de 1964.

    Em dezembro de 2014, o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada para apurar os crimes da Ditadura Militar no Brasil, apontou que apenas entre os dez povos indígenas pesquisados, ocorreram 8.500 mortes em decorrência da violência direta e indireta do regime ditatorial – entre as quais encontram-se as vítimas do genocídio praticado contra o povo Waimiri-Atroari (saiba mais).

    Muitos outros crimes da Ditadura contra os povos indígenas foram trazidos à tona pelo ressurgimento do Relatório Figueiredo, em 2013. O relatório, desaparecido por 45 anos, relata massacres e violações de direitos humanos contra os indígenas ainda mais intensos do que os vivenciados por estes povos nos dias de hoje.

    No último dia 18, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), as Pastorais e organismos ligados à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também divulgaram uma carta aberta em defesa da democracia (clique aqui para ler).

    Leia, abaixo, a íntegra do manifesto do Comitê estadual de Direito à Verdade, à Memória e à Justiça do AM:

    MANIFESTO EM DEFESA DA DEMOCRACIA, DA LEGALIDADE E CONTRA A TENTATIVA DE GOLPE
     
    O Comitê Estadual de Direito à Verdade, à Memória e à Justiça do Amazonas (CEVMJ/AM) entidade que congrega representantes dos movimentos sociais, sindicais e da sociedade civil organizada, vem a público manifestar seu firme posicionamento a favor da democracia, do respeito à Constituição, do combate à corrupção e contra o aprofundamento da violência e a volta do autoritarismo de passado recente.

    Foi com muito sacrifício que os movimentos sociais conseguiram derrubar o governo ditatorial implantado pelo Golpe de 1964. Cerca de 9 mil pessoas foram mortas durante a ditadura militar no Brasil. Milhares de Waimiri-Atroari, Tenharim, Cinta Larga, Suruí, Panará (Krenakarore), Kanê, Avá-Canoeiro, Parakanã, Arara, Guarani, camponeses, estudantes, militantes, quilombolas e tantos outros povos, populações e indivíduos foram vitimados por se oporem aos planos e ao regime ditatorial.

    A redemocratização e a Constituição de 1988 foram conquistas dos movimentos populares e da classe trabalhadora das quais não podemos abrir mão. Foram elas que possibilitaram novas conquistas, especialmente no campo da efetivação de direitos humanos e coletivos.

    A efetivação de direitos como o acesso à terra, ao território tradicional, à saúde, à educação democrática diferenciada, a alimentação de qualidade e ao transporte ainda carecem de mais lutas. Mas essa tentativa de golpe, se concretizada, tal como no passado, levará a retrocessos e mais violência contra povos, populações e indivíduos que hoje lutam por justiça social e seus direitos.

    A ruptura da legalidade democrática em curso está sendo conduzida de forma venal pelos conglomerados de mídia e setores do Judiciário e da Polícia Federal, em sintonia com os partidos que perderam as eleições presidenciais, em 2014. É preciso darmos um basta a tudo isso. O povo organizado nas manifestações de rua, no último 18 de março, as discussões nas universidades, as ações de sindicatos e outras entidades de trabalhadores já começaram a mostrar o caminho para superação da crise.

    Em defesa da democracia, contra o Golpe!

    Não ao retrocesso político!

    Manaus, 24 de março de 2016.

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  • 28/03/2016

    “Há muito tempo alertamos sobre racismo contra nós, mas universidades têm sido omissas”

    Estudantes indígenas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e apoiadores divulgaram uma carta em solidariedade ao estudante indígena Nerlei Kaingang, agredido no dia 19 de março, em Porto Alegre (RS). A agressão do estudante Kaingang por seis homens ocorreu em frente à Casa do Estudante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), universidade na qual Nerlei é cotista indígena e cursa Medicina Veterinária (saiba mais).

    Câmeras de segurança filmaram a violência contra o indígena, que chegou a perder os sentidos após a agressão, e testemunhas já identificam os agressores como estudantes de engenharia da UFRGS e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS).

    “Esses [agressores] seguem com os nomes em sigilo e, provavelmente, frequentando as aulas normalmente como se nada tivesse acontecido. Já Nerlei, pelo contrário, segue abalado e sem frequentar as aulas”, afirma a nota dos estudantes indígenas da UFSC.

    “A agressão física foi a gota d’água, o extremo das agressões sofridas diariamente, essa não é a primeira vez que nós Povos Indígenas sofreremos com ato semelhante”, complementam os estudantes.

    Na nota, os estudantes indígenas afirmam que situações de racismo e preconceito são corriqueiras contra cotistas indígenas e já vêm sendo denunciadas há tempos, sem que providências de combate a essas práticas sejam tomadas por parte das instituições.

    “Nossa presença em universidades públicas vem acontecendo de forma crescente e tem incomodado a elite conservadora e causado desconforto em todos aqueles que perpetuam ideias estereotipadas sobre nós. Há muito tempo estamos alertando sobre casos de racismo contra nós, mas as universidades vêm sendo omissas aos fatos, compactuando com tais atos”, diz a nota.

    “Esse é o momento de questionar que universidade queremos, qual é seu papel diante de crimes como esse e reafirmar que a inclusão não é apenas dispor de vagas, precisamos discutir permanência”, concluem os indígenas, que cobram uma postura mais firme das universidades no combate à discriminação racial e a expulsão dos envolvidos no crime contra Nerlei.

    Um inquérito para investigação do ocorrido e identificação dos suspeitos já foi aberto na Polícia Federal e um procedimento interno para apurar o caso também foi aberto na UFRGS.

    Leia, abaixo, a íntegra da carta dos estudantes indígenas da UFSC e apoiadores:

    Carta aberta dos estudantes indígenas da UFSC em solidariedade ao parente de luta Kaingang estudante da UFRGS

    Nós, estudantes indígenas da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, viemos tornar público nossa solidariedade com nosso parente de luta Nerlei Kaingang que sofreu violência física e psicológica, decorrente de preconceito étnico-racial, e também repudiar tamanha brutalidade criminosa. Na madrugada do dia 19 de março deste ano (2016), o estudante de medicina veterinária Nerlei, pertencente ao povo Kaingang, foi agredido brutalmente por um grupo, de aproximadamente seis pessoas em frente a Casa do Estudante Universitário (CEU) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O crime motivado por racismo, foi filmado por uma câmera de segurança do local. Segundo Nerlei Kaingang os agressores repetiram a seguinte frase “o que esses índios estão fazendo aqui?”. Além de diversas palavras carregados de ódio e racismo, Nerlei Kaingang foi covardemente espancado, chegando a perder os sentidos. Dois dos estudantes agressores que cometeram crime de ódio, racismo e agressão física contra Nerlei Kaingang, são estudantes da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), e os outros são também estudantes da UFRGS que, em sua maioria são dos cursos das engenharias. Esses seguem com os nomes em sigilo e, provavelmente frequentando as aulas normalmente como se nada tivesse acontecido. Já Nerlei pelo contrário, segue abalado e sem frequentar as aulas. Segundo seu advogado, ele passa bem, na medida do possível e retornará às aulas na segunda-feira. Mas nós sabemos que não está nada bem, a agressão física foi a gota d’agua, o extremo das agressões sofridas diariamente, essa não é a primeira vez que nós Povos Indígenas sofreremos com ato semelhante. Nossa presença em universidades públicas vem acontecendo de forma crescente e tem incomodado a elite conservadora e causado desconforto em todos aqueles que perpetuam ideias estereotipadas sobre nós. Há muito tempo estamos alertando sobre casos de racismo contra nós, mas as universidades vêm sendo omissas aos fatos, compactuando com tais atos. É bom frisar que a UFRGS tornou público o caso de Nerlei Kaingang, mas se limitou a cinco pobres linhas, que em nenhum momento questiona o porquê de os seguranças da moradia não terem intervindo no ocorrido. Também vemos como uma falha, a instituição não usar do ocorrido como um momento propício para a promoção da igualdade. Tornar público um caso criminoso como esse, é o mínimo que se espera de uma instituição pública. Na segunda-feira a UFRGS abrirá sindicância sobre o ocorrido para apurar os fatos.

    Em caso recente nós estudantes indígenas da UFSC também fomos alvos de racismo, por meio de um grupo do facebook que leva o nome da instituição, tivemos nossa imagem exposta, nossa presença na universidade questionada e ainda fomos alvo de chacotas. Tais atos não são incomuns a nós, mas não vamos naturalizar, não foi um mal entendido, foi crime, prescrito na Constituição Federal. Esse é o momento de questionar que universidade queremos, qual é seu papel diante de crimes como esse e reafirmar que a inclusão não é apenas dispor de vagas, precisamos discutir permanência. Fazemos coro a expulsão desses criminosos, não podemos aceitar conviver com pessoas que cometem esse tipo de crime. Que sirva de exemplo, a violência não é apenas física, o racismo não é só o explícito, mas a nossa resistência é certa, casos como esse não serão esquecidos e muito menos abafados.

    Toda solidariedade ao parente Nerlei Kaingang e ao seu sobrinho, que Ãgglenẽ e os espíritos da natureza conforte sua alma, nossos Aggõnhka sempre nos protegerão, nós somos povos guerreiros e isso não vai nos silenciar. Isso não vai acabar em branco.

    Força! Luta! Resistência! A Universidade vai ser Indígena!

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  • 26/03/2016

    Saúde indígena: direito de consulta ou disputa pela indicação de cargos?

    A grave crise em que se encontra o Distrito Sanitário Indígena do Leste de Roraima ensejou um movimento desencadeado por membros do Conselho Distrital de Saúde que desde o início de 2016 se apresenta como defensor do direito de consulta pelos povos indígenas. As reivindicações deste movimento, no entanto, se resumem à luta contra a chamada ‘indicação política’ para a coordenação do distrito, ocorrida nos últimos dias do ano de 2015. O grupo que encabeça o movimento, e a pessoa que se apresenta como candidata ao cargo de coordenadora do distrito, apoiou durante mais de cinco anos a antiga coordenadora do distrito, responsável por sérios desmandos e ineficiência na gestão da saúde indígena, e contestada fortemente pela maior parte do movimento indígena no estado.

    O Direito de Consulta nunca deve ser confundido com a mera indicação e controle dos cargos (e verbas) disponíveis nos diversos órgãos responsáveis pelas políticas públicas no país. Durante o processo amplamente participativo de discussão da Política de Atenção à Saúde Indígena na década de noventa, foi consenso entre todas as organizações envolvidas que as indicações para os cargos de gestão deveriam ser baseadas em critérios técnicos e culturais, e não seriam feitas pelos conselhos distritais de saúde ou organizações indígenas, mas apenas avaliadas e discutidas por eles. O motivo é que aquele que faz a indicação se torna responsável pela pessoa indicada. Como um conselho distrital ou organização indígena vai poder fiscalizar ou criticar uma pessoa que foi indicada por ele mesmo?

    A forma como o atual governo federal faz as indicações para os cargos do primeiro ao quinto escalão nos últimos treze anos se baseia nas indicações políticas de parlamentares ou partidos da base do governo. Isto tem acontecido em todos os cargos públicos, sem exceção, da Funai, Sesai, Funasa, MDA, MEC etc. O critério do apadrinhamento político tem sido criticado desde a ascensão deste grupo político ao poder. O Conselho Distrital do Distrito Sanitário do Leste de Roraima recebeu já em 2003 uma carta do então ministro da Casa Civil José Dirceu defendendo e justificando a ‘indicação política’ do coordenador regional da Funasa Ramiro Teixeira, que viria a ser preso alguns anos depois por corrupção generalizada no órgão. Esta indicação era contestada fortemente pelo conselho e pelas lideranças indígenas do estado.

    A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) durante o VII Acampamento Terra Livre realizado em Campo Grande (MS) no ano de 2010, já propunha que “a indicação dos coordenadores distritais e a contratação de profissionais para a Sesai não deve ser norteada por critérios políticos e de apadrinhamento, mas deve ser técnica com a participação das lideranças indígenas”. As nomeações para todos os órgãos públicos na esfera federal deveriam ser precedidas de uma adequada consulta sobre os critérios e o perfil da pessoa indicada, mas são de responsabilidade do governo que, independentemente de ‘indicação política’ ou realização da consulta prévia aos povos indígenas, deve responder pelas consequências positivas ou negativas de suas decisões.

    Os Conselhos Distritais de Saúde não podem ser instâncias puramente burocráticas e totalmente alheias aos verdadeiros anseios das comunidades e suas organizações, como tem acontecido em todo o Brasil nos últimos anos. O melhor exemplo deste afastamento brutal entre os conselhos distritais de saúde e o autêntico movimento indígena aconteceu durante as discussões sobre a criação do Instituto Nacional de Saúde Indígena (INSI), entidade privada proposta pela coordenação da Sesai para assumir a gestão da saúde indígena em todo o país. Enquanto a proposta foi duramente rejeitada por todo o movimento indígena através de suas principais organizações em nível regional e nacional, a criação do instituto foi aprovada pela grande maioria dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena, através de manobras obscuras patrocinadas pelos atuais gestores da Sesai.

    O verdadeiro Direito de Consulta somente será conquistado quando houver a efetivação da autonomia política, financeira e administrativa dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas, com participação plena e controle social efetivo dos povos e organizações indígenas nos âmbitos local e nacional. O controle social não pode ser exercido às avessas, servindo como forma de controle dos gestores sobre as comunidades envolvidas. Para isto, devem ser respeitados os mecanismos próprios de deliberação e as formas tradicionais de consulta à população, como encontros e assembleias realizados nos espaços locais e regionais mais próximos às comunidades, com total liberdade de manifestação e sob a coordenação de suas legítimas lideranças.  

    A luta pela autogestão na saúde indígena protagonizada pelos povos indígenas conquistou vitórias significativas nas últimas décadas, como a criação e implementação dos Distritos Sanitários Indígenas, da Política Nacional de Saúde Indígena e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). O Direito à Consulta e ao Consentimento Livre, Prévio e Informado dos Povos Indígenas está assegurado na Constituição Federal, Convenção 169 da OIT e Declaração dos Direitos Indígenas da ONU, e deveria ser estendido a todos os órgãos do governo. Isto não significa que os povos e suas organizações devam fazer as indicações para estes cargos, o que acarretaria sérios danos à sua autonomia no exercício do controle social e fiscalização das políticas implementadas, mas o cumprimento dos critérios mínimos de idoneidade, adequação cultural e compromisso dos gestores indicados com os povos com os quais trabalham.

    O modelo de assistência proposto na Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas está respaldado por documentos Internacionais, como a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas da ONU, aprovada em 2007, que afirma que “os povos indígenas têm direito a suas próprias medicinas tradicionais e a manter suas práticas de saúde, bem como desfrutar do nível mais alto possível de saúde, e os Estados devem tomar as medidas necessárias para atingir progressivamente a plena realização deste direito” (artigo 24). A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de 1989 afirma que “os sistemas de assistência à saúde devem dar preferência à formação e ao emprego de pessoal de saúde das comunidades locais, e concentrar-se nos cuidados básicos de saúde, assegurando ao mesmo tempo vínculos estreitos com os demais níveis de assistência à saúde” (artigo 25).

    Boa Vista, RR, 24 de março de 2016.

    Paulo Daniel Moraes

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  • 23/03/2016

    Estudante indígena é agredido em Porto Alegre

    Na madrugada do dia 19, Nerlei Kaingang, estudante indígena da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi agredido por um grupo de rapazes em frente à moradia estudantil da UFRGS, no centro de Porto Alegre (RS). Segundo o relato do indígena Kaingang, que é cotista da universidade federal e estuda Medicina Veterinária, os jovens insultaram de forma racista a ele e ao outro indígena que o acompanhava, que é seu sobrinho.

    A agressão foi filmada pelas câmeras de segurança da universidade e mostra os indígenas passando por um grupo de homens. No vídeo, é possível ver que, após passar duas vezes pelo grupo, o indígena dá meia volta e se dirige a eles. Após alguns minutos de discussão, os homens começam a agredir os indígenas. Segundo os Kaingang agredidos, em pelo menos dois momentos os agressores disseram “o que esses indígenas estão fazendo aí?”, questionando a presença indígena na casa do estudante (veja vídeo abaixo ou veja versão resumida aqui).

    Depois das covardes agressões feitas por um grupo de pelo menos seis homens, Nerlei perdeu os sentidos e foi socorrido pelo sobrinho, que o acompanhava e conseguiu se esquivar dos agressores, como pode-se ver no vídeo. Na segunda-feira (22), um boletim de ocorrência foi feito e um inquérito para investigar as agressões e o crime de racismo já foi aberto pela Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. O indígena também já fez exame de corpo de delito, cujo laudo deve ficar pronto em breve.

    Segundo testemunhas ouvidas pelo advogado de Nerlei, Onir Araújo, os agressores seriam todos estudantes, a maioria deles do curso de engenharia da UFRGS, e pelo menos dois estudantes da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

    O Kaingang agredido está bastante abalado com a situação e não está frequentando as aulas de seu curso. Além disso, Onir conta que ele sendo vítima de uma campanha de difamação feita pelos agressores. Ele também destaca que houve negligência na defesa e na prestação de socorro a Nerlei. “A segurança da casa do estudante, que funciona 24 horas, não fez nada e só entrou em contato com a direção da casa para relatar o ocorrido na segunda-feira”, afirma Onir.

    Preconceito contra cotistas

    Para o advogado, que é integrante da Frente de Defesa dos Territórios Quilombolas, a situação de racismo e preconceito contra estudantes cotistas na UFRGS não é uma novidade, apenas chegou a uma situação mais extrema.

    “A gente já vinha há praticamente dez anos alertando sobre essa situação de racismo contra cotistas negros, indígenas e estudantes de convênios africanos. Mesmo com as câmeras, eles não tiveram nenhuma dificuldade em fazer essa agressão”, afirma Onir.

    “Não é uma novidade. As cotas foram conquistadas por uma ampla mobilização de movimentos sociais, movimento indígena, movimento quilombola, movimento negro. Na época em que se estava para votar a implementação das cotas, surgiram uma série de pichações dizendo coisas como ‘lugar de negro é na cozinha do RU’ [Restaurante Universitário]. Nunca essa elite aceitou a democratização da universidade pública. Existe um clima de racismo ativo, partindo para as vias de fato. Esse é um quadro extremamente grave”, conclui o advogado.

    Clima de intolerância

    No momento em que ocorreram as agressões, Nerlei e seu sobrinho Catãi estavam voltando do Parque da Harmonia, um dos locais da capital gaúcha em que os indígenas vendem artesanato – uma prática tradicional do povo Kaingang que se intensifica em épocas como esta, próxima da Páscoa. Eles foram até a casa do estudante para ver se encontravam outro sobrinho de Nerlei, também estudante, que havia se desprendido do grupo poucos momentos antes.

    Em 30 de dezembro, o indígena Vítor Pinto, também Kaingang e de apenas dois anos, foi brutalmente assassinado em Imbituba (SC) numa situação correlata. Na ocasião, Vítor estava no colo de sua mãe, que frequentava a cidade litorânea no auge do verão com a finalidade de vender artesanato (saiba mais).

    Para Onir, existe no sul do país um forte sentimento de racismo e de intolerância contra os povos indígenas, que acaba sendo fomentado e difundido por diferentes agentes públicos. “Num estado em que dois parlamentares falam em audiência pública que ‘gay, lésbica, indígena e quilombola’ é tudo que não presta e não acontece nada, todas as denúncias foram arquivadas, ambos foram muito bem votados, se está na mesma lógica de 516 anos. Permanece o preconceito de que o indígena é um estorvo, atrapalha”.

    Além da investigação policial que está sendo feita na Superintendência Regional da Polícia Federal no RS, também foi aberto um procedimento administrativo interno na UFRGS para averiguar o caso e tomar as providências cabíveis dentro da universidade.