• 24/11/2016

    Povos e comunidades tradicionais fazem ato no Ministério da Agricultura depois de marcha

    Por Tiago Miotto e Renato Santana, da Assessoria de Comunicação – Cimi
    Fotos: Tiago Miotto

    Depois de caminhada pela Esplanada dos Ministérios na manhã desta quinta-feira, 24, em Brasília, os povos indígenas, quilombolas, pescadores e pescadoras artesanais da Articulação Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais realizaram um ato em frente ao Ministério Agricultura, onde se reuniram com secretários da pasta no final da manhã e início da tarde.

    Os povos exigem a imediata revogação dos decretos 8424 e 8425, que questiona a identidade de pescadoras e pescadoras e retira seus direitos. Reivindicam ainda o cancelamento da portaria que suspende os Registros Gerais de Pesca (RGPs) dos pescadores e pescadoras. Junto com os registros não renovados, essa medida atinge quase 600 mil pessoas. O RGP garante ainda os direitos previdenciários.

    "Muitos pescadores e pescadores estão há quatro anos sem os RGPs em mãos e ficam sem direito de pegar o Recurso Defeso. Viemos aqui reivindicar a solução pra esse problema. Essa PEC (241-55) também interfere em nossos direitos, porque em uma caneta elimina o que conquistamos há muitos anos", explica o pescador artesanal Edielso Barbosa.  

    Para os pescadores e pescadoras artesanais, a sustentabilidade dos estuários e dos rios, por exemplo, é fundamental para a manutenção da prática tradicional e de sustento das comunidades. O momento de reprodução das espécies é fundamental. O Recurso Defeso, benefício estatal entendido como seguro-desemprego, garante a renda dos pescadores nos períodos em que ficam sem realizar a prática.

    Em 2015, a então ministra da Agricultura Kátia Abreu chegou a suspender por 120 dias o recurso. Em abril do mesmo ano, novas regras foram estabelecidas pelo Ministério da Aquicultura e Pesca: no acumulado dos últimos três anos, cerca de 600 mil pescadores e pescadoras artesanais deixaram de receber o RGP. Um dos quesitos para receber o Recurso Defeso é ter o registro. Do ano passado para este ano, os pescadores e pescadoras travam uma longa batalha contra as mudanças consideradas restritivas.  

    "E então a pesca artesanal precisa do Recurso Defeso pra viver quando não pode pescar. O defeso é muito importante porque a pesca predatória das grandes empresas acaba com espécies. Isso nos prejudica, mas as paralisações temporárias ", aponta Barbosa. Em 2015, 500 mil pescadores e pescadoras receberam o recurso; em 2014, 816 mil. A redução de mais de 300 mil deverá aumentar ainda mais para este ano.


    Marcha na Esplanada dos Ministérios

    Polícia barra e revista ônibus

    Uma dezena de viaturas da Polícia Militar e do Choque, um ônibus policial e algumas motos, horas antes, barraram os oito ônibus que levavam as delegações de povos indígenas, quilombolas, pescadores e pescadoras artesanais e quebradeiras de coco babaçu à Esplanada.

    Os ônibus, que transportavam os 450 integrantes da delegação, foram parados próximo à rodoviária interestadual e tiveram seu interior revistado. Em seguida, foram escoltados até a Esplanada, onde novamente foram barrados no meio da pista. A polícia proibiu os indígenas de carregarem seus arcos, flechas e bordunas, instrumentos tradicionais destes povos, ainda que todas as manifestações da semana tenham sido pacíficas.

    Os povos indígenas e as comunidades tradicionais vieram a Brasília para protestar contra a severa ofensiva dos Três Poderes em relação a seus direitos constitucionais, que foram garantidos na Constituição de 1988 com muita luta e resistência. Leia aqui a Carta Pública com as reivindicações da Articulação Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais.

    Reunião no Ministério da Agricultura

    Com a pressão, lideranças dos povos e comunidades obtiveram uma agenda com secretários do Ministério da Agricultura ligados à área da Pesca. No encontro, foi reafirmado que os decretos 8424 e 8425 serão revisados com a participação de pescadores e de pescadoras, pacto já assumido pelo governo após o movimento de ocupação do Planalto.

    Em relação aos RGPs e aos seguros-defesos cancelados e suspensos, os representantes do Ministério da Agricultura afirmaram que "não tinham poder" para revogar estas suspensões. Os povos e comunidades tradicionais exigiram, então, uma reunião ampliada, com todos os órgãos responsáveis, para evitar a "terceirização de responsabilidades" e resolver de vez a situação.

    “Sentimos que eles perceberam que não estamos para brincadeira, que vamos continuar resistindo, vamos continuar lutando. Também pontuamos que não estamos conversando com governo, é uma incidência com o Estado brasileiro, não importa qual governo fez isso ou aquilo. Vamos continuar nos fortalecendo, fortalecendo a nossa gente, e voltamos no próximo ano, com mais povo e muita vontade de fazer a luta”, afirmou Elionice Sacramento, do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais.

    Unidade entre povos e movimentos

    Enquanto uma comissão de lideranças participava da reunião no Ministério da Agricultura, do lado de fora vigorava mais um dia de luta dos povos: o batuque logo se transformava em toré, novos cantos eram compartilhados e logo aprendidos, e os tambores e maracás formavam uma única percussão.

    Durante a semana, a união entre indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, pescadores e pescadoras artesanais resultou numa série de ações de cobrança e luta contra a retirada de seus direitos. A articulação entre povos e comunidades tradicionais, ao fim de mais um dia de mobilização, foi celebrada pelas lideranças.

    “O início do nosso dia foi turbulento, por parte da ação da polícia, mas no fim conseguimos falar aqui com os secretários da Pesca. Foi importante mostrar para toda a sociedade brasileira que nós estamos juntos – pescadores, indígenas e quilombolas e outros povos. Vamos seguir sempre juntos nessa luta em prol dos nossos direitos”, afirmou o cacique Iburana Pataxó, da aldeia Tawa, no extremo sul da Bahia.

    Atualizada às 17:50

    Read More
  • 24/11/2016

    [vídeo] “Foi um desrespeito”: com spray de pimenta, povos e comunidades tradicionais novamente barrados na Câmara

    Por Tiago Miotto (DF)

    Pela segunda vez em duas semanas, os povos indígenas e comunidades tradicionais foram barrados pela Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados e impedidos de acompanhar a sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Funai e do Incra 2, que estava marcada para ocorrer às 11 horas desta quarta (23).

    Os povos indígenas, quilombolas, pescadores e pescadoras artesanais e quebradeiras de coco babaçu buscaram a negociação, tentaram entrar no Anexo 2 da Câmara, onde ocorreria a reunião da CPI, e acabaram enxotados com grande quantidade de spray de pimenta, pulverizado diretamente no rosto de diversas pessoas, inclusive de algumas crianças, que acabaram passando mal. Em seguida, as entradas e saídas dos anexos que dão acesso à sala da Comissão foram bloqueadas pela segurança e assim permaneceram pelas horas seguintes.

    Duas semanas atrás, outro grupo com cerca de 200 indígenas compareceu à Câmara e tentou negociar para que uma comissão de lideranças acompanhasse a sessão da CPI que trata diretamente sobre seus direitos, mas não obteve resultados. Na semana seguinte, grupos de extrema direita conseguiram entrar na Câmara dos Deputados sem qualquer problema e, durante mais de uma hora, manifestaram-se pela volta da Ditadura Militar.

    Impedidos de participar da sessão desta quarta, os povos e comunidades tradicionais bloquearam a entrada do anexo 3. A truculência policial não foi capaz de desanimar e desmobilizar a forma particular de luta dos povos, que seguiram cantando, dançando, batucando e fazendo rezas e rituais do lado de fora. Pela tarde, ainda buscaram uma agenda com a presidência da Casa, mas também não obtiveram resultado.


    Mais uma CPI ruralista

    A segunda edição da CPI da Funai e do Incra foi instalada no final de outubro e pretende ser um prolongamento de sua versão anterior, que durou oito meses, foi prorrogada duas vezes de forma unilateral pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e terminou sem sequer produzir um relatório.

    A nova edição não traz nenhuma novidade: a pauta é a criminalização de povos indígenas, quilombolas e seus apoiadores e o desmonte do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e da Fundação Nacional do Índio (Funai), já sucateados, e a composição é essencialmente ruralista. O presidente, os três vice-presidentes e o relator – respectivamente os deputados Alceu Moreira (PMDB-RS), Luis Carlos Heinze (PP-RS), Henrique Mandetta (DEM-MS), Nelson Marquezelli (PTB-SP) e Nilson Leitão (PMDB-MT) – são todos líderes da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), entidade oficial da bancada ruralista, e defensores de pautas anti-indígenas como a PEC 215.

    Na reunião desta tarde, sem o “incômodo” da presença dos indígenas, a CPI aprovou seu plano de trabalho e dois requerimentos, sendo um deles de transferência e acolhimento dos documentos da versão anterior da CPI.

    “Estamos aqui lutando por nossos direitos, pelo futuro, e não tem nem respeito pela cidadania, pela criança, usando spray de pimenta. Se eles quisessem discutir nossos direitos, a gente estava lá dentro discutindo, todos reunidos”, criticou a quilombola Taiana dos Santos Lopes, do quilombo Morro dos Macacos, na Bahia, que levou spray de pimenta em seu rosto, junto com seu filho de colo.

    “O Estado brasileiro nos vê como um empecilho, e hoje nós estamos aqui reivindicando nossos direitos, tentando dialogar e não estamos conseguindo, isso é um desrespeito. Os policiais militares nunca respeitaram a gente, mas nem isso deixamos enfraquecer nosso movimento, seguimos aqui firmes”, afirmou Maria Helena Gavião, indígena do Maranhão.


    Semana de lutas

    Cerca de 400 lideranças dos povos indígenas Tumbalalá, Krikati, Guajajara, Pataxó, Guarani, Kanela, Kreepyn, Krenyê, Gamela, Awá-Guajá, Kaingang, Gavião e Tenetehar/Guajajara, de quilombolas, pescadoras e pescadoras artesanais e quebradeiras de coco babaçu estão realizando uma semana de lutas em Brasília. Na terça-feira (22), os povos e comunidades tradicionais ocuparam o Palácio do Planalto, em luta contra a PEC 241-55/2016 e pelo respeito a seus direitos originários e territoriais.

    Read More
  • 23/11/2016

    Decreto de Estado de Calamidade Pública motiva prisão de oito Kaingang e três agricultores em Sananduva (RS)


    Reprodução


    Por Renato Santana e Tiago Miotto, da Assessoria de Comunicação – Cimi

    Em uma operação que contou com 180 homens das polícias Federal e Militar, cães, cavalos e helicóptero, oito indígenas Kaingang e três agricultores foram presos na manhã desta quarta-feira, 23, nos municípios de Sananduva e Cacique Doble, no Rio Grande do Sul. No final da madrugada, os Kaingang da Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha foram surpreendidos pelo contingente.

    As prisões têm relação direta com o Estado de Calamidade Pública decretado no último domingo, 20, pelo vice-prefeito em exercício de Sananduva, Leovir Fidêncio Antunes Benedetti, horas depois de um incêndio ter destruído plantações de monocultivo de fazendeiros da região. A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) acusou publicamente os Kaingang e os agricultores.  

    De acordo com os mandados da Polícia Federal, expedidos pela Justiça Estadual de Sananduva, os Kaingang e os agricultores são acusados pelos crimes de ameaça, extorsão, organização criminosa e dano ao patrimônio contra fazendeiros da região que se opõem de forma articulada contra a demarcação da Terra Indígenas Passo Grande do Rio Forquilha e que costumam punir pequenos agricultores próximos aos indígenas.

    Mesmo sem provas concretas da relação dos indígenas e agricultores com o incêndio, ou com base em qualquer apuração e investigação pelos órgãos competentes, o vice-prefeito atendeu a Farsul e baixou o decreto. “Considerando que o clima tenso e hostil provocados pelos atos dos indígenas, beirando as vias do conflito, o que pode resultar em eminente risco à segurança e a vida dos envolvidos, bem como da população sananduvense”, diz um trecho do decreto.

    Os hectares de monocultivo queimados pertencem aos fazendeiros que não permitiram a Fundação Nacional do Índio (Funai) realizar o trabalho envolvendo a demarcação da terra indígena, de acordo com as lideranças Kaingang. A Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha foi declarada, ou seja, teve o Relatório Circunstanciado publicado pelo Ministério da Justiça, em 25 de abril de 2011 e está na fase da demarcação física dos 1.916 hectares tradicionais.

    "Os pequenos deixaram fazer. A mídia coloca que os colonos estão sendo ameaçados. É mentira. Dois foram presos com nossos parentes. Fazem reportagem sem saber como convivemos, como a gente pensa. Fiquemo sentido, porque a gente assume o que faz", afirma um Kaingang de Passo Grande do Rio Forquilha que prefere não se identificar temendo represálias da Polícia Federal.

    Ação violenta e humilhante

    Conforme os Kaingang, todas as casas foram reviradas pelos policiais. Os indígenas, levados para um Centro Comunitário, foram obrigados pelos policiais a deitar com o rosto para o chão. Crianças, mulheres e idosos não foram poupados. Os policiais levantavam a cabeça dos Kaingang para identificar os que deveriam sair dali sob custódia – oito acabaram na sede da Polícia Federal.  

    "Constatamos que havia mandados de prisão para seis Kaingang. Dessa forma, dois foram liberados. Entre os presos sem mandado estava uma mulher (a mãe do cacique). Ela relatou agressões, tapas no rosto e estava com escoriações nos braços e na cabeça. Afirmou ainda que o delegado da PF a chamou várias vezes de vagabunda", relata o coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Sul, Roberto Liebgott.

    Acompanhado de um advogado do Movimento Nacional de Direitos Humanos, Liebgott esteve com os indígenas que prestaram depoimento. Os seis Kaingang e os três agricultores foram encaminhados para a Penitenciária de Lagoa Vermelha no final do dia. "Foi uma grande humilhação o que esses indígenas passaram. Montaram uma operação de guerra, foram truculentos e violentos. Tiraram todo mundo da aldeia, apreenderam equipamentos de subsistência como se fossem armas", pontua Liebgott.  

    "A polícia chegou atirando e mandou todo mundo ficar quieto. Inclusive mulheres grávidas, crianças pequenas. Botaram em cima de grama molhada de orvalho. Isso é crime. Digo isso como Kaingang. O que o delegado da PF falou vai ficar na mente da comunidade: disse que vai matar o cacique e um membro da comunidade", diz o Kaingang.

    Perseguições

    Ireni Franco Kaingang foi preso no sábado, 19, antes do incêndio. Seus dois filhos, entre eles o cacique da aldeia, estão com a prisão decretada. Os três são lideranças dos Kaingang da Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha. Com os familiares e demais membros da comunidade, passaram anos vivendo às margens de uma rodovia. Muitos morreram ali mesmo, atropelados. Depois que ocuparam o território tradicional, em represália, passaram a viver sob a perseguição da Polícia Federal e dos fazendeiros.

    A juíza Estadual Daniele Conceição Zorzi sustentou nos mandados de prisão que Ireni e os filhos agiram de forma "exclusivamente pessoal, praticando crimes comuns, ausente de interesses dos indígenas". No entanto, a defesa dos indígenas rechaça a tese de que os indígenas tenham cometido crimes. O procurador Federal da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marcelo Zeni, afirma que não há nenhum elemento que ateste a prática de crimes pelos indígenas.

    "Pra gente Kaingang é tudo uma armação. Prenderam o Ireni sem dizer quando, como e onde ele cometeu algum crime. Depois aparece o incêndio e a mídia, a Farsul e a Prefeitura de Sananduva dizem que dissemos que íamos incendiar em retaliação ao que fizeram com o Ireni. Em Sananduva dizem até que vamos queimar tudo, matar gente. Tudo mentira", explica o Kaingang.


    O coordenador do Cimi regional Sul, Roberto Liebgott, salienta: "Estamos diante de uma situação que, no mínimo, envolve conflito fundiário em terra indígena. A Justiça Estadual é incompetente para casos assim, sendo de exclusividade da Justiça Federal. Temos um conjunto de erros e arbitrariedades que caem sobre os Kaingang de forma a criminalizá-los mais uma vez no Rio Grande do Sul".

    Read More
  • 23/11/2016

    Justiça determina o despejo de indígenas Terena de fazenda que sobrepõe 35% da TI Taunay/Ipegue


    Plantações de comunidade Terena na área alvo do despejo. Fotos: Luiz Henrique Eloy Terena


    Por Renato Santana, da Assessoria de Comunicação – Cimi

    A Justiça Federal de Campo Grande (MS) determinou o despejo de 78 famílias Terena da Fazenda Esperança de propriedade da família da deputada federal ruralista Tereza Cristina (PSB/MS). A Fazenda possui 12 mil hectares sobrepostos à Terra Indígena Taunay/Ipegue, declarada em maio deste ano pelo Ministério da Justiça como de posse tradicional dos Terena. A área da Fazenda Esperança equivale a 35% do território autorizado pela Portaria Declaratória 497 a ser demarcado de maneira física, no município de Aquidauana, com marcos delimitando 33.900 hectares.

    O despacho da Justiça é do último dia 16, com prazo estipulado de execução para dez dias, e foi publicada por pressão de determinação do Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região de maio deste ano. Caso não seja realizada em dez dias, a Justiça Federal autorizou o uso de força policial para o despejo – fora multa de R$ 5 mil por dia revertida para os proprietários.

    "Registro que ao proferir a r. decisão de fl. 719, objeto da Reclamação, este Juízo ponderou as peculiaridades do caso em apreço, especialmente o tempo decorrido desde o esbulho noticiado nos autos e desde a decisão reintegratória", conforme trecho da decisão de reintegração. A Justiça Federal havia decidido ouvir a comunidade, mas os proprietários reclamaram ao TRF-3 que o juiz se negava a cumprir a decisão. Um despacho obrigou o magistrado a cumprir a decisão dos desembargadores.  

    Lideranças do Conselho Terena afirmam que as famílias não irão sair da terra – usada para a produção de alimentos, criação de animais e reflorestamento. "O governo federal precisa concluir a demarcação. Pode mandar a polícia, a gente não sai. Do nosso direito à terra não abrimos mão", diz uma liderança Terena. Em 30 de maio de 2013, a Fazenda Esperança foi retomada pelos Terena. A ação ocorreu um dia depois do assassinato de Oziel Terena, durante reintegração de posse na Terra Indígena Buriti, em Sidrolândia.

    Quando os Terena ocuparam a Fazenda, a propriedade se encontrava vazia. Dos pouco mais de 5 mil indígenas, confinados em 6 mil hectares do que tinham da Taunay/Ipegue, e com severas dificuldades de garantir a alimentação das aldeias, 78 famílias se estabeleceram em uma porção do território tradicional recuperado. Já outra parte foi destinada ao plantio e criações para o sustento; uma terceira porção foi totalmente reflorestada.  




    Taunay/Ipegue: um longo caminho

    Os donos, porém, logo apareceram: Mirian Alves Correa e Monica Alves Correa, parentes da ruralista Tereza Cristina. "Ainda em 2013 a Justiça Federal concedeu liminar e mandou reintegrar. No entanto, a comunidade recorreu e o presidente do TRF-3 suspendeu a liminar. Então as fazendeiras recorreram", explica o advogado Luiz Henrique Eloy, indígena Terena de Taunay/Ipegue.

    Novamente no mês de maio, só que deste ano, o Órgão Especial do TRF-3, uma turma destacada de desembargadores, acatou o recurso e mandou reintegrar novamente.

    "Essa decisão então chegou ao juiz de primeira instância. Só que ele entendeu que três anos se passaram das famílias no local e achou por bem ouvir a comunidade antes de qualquer decisão. As fazendeiras entraram com uma reclamação no TRF-3 dizendo que o juiz estava descumprindo a decisão e o TRF-3 despachou mandando o juiz cumprir a determinação dos desembargadores", lamenta o advogado Terena.  

    Sem ouvir a comunidade, a Justiça Federal de Campo Grande mandou reintegrar. "A existência de processo administrativo de demarcação e ampliação da Terra Indígena Taunay-Ipegue ainda em curso, não permite que o Poder Judiciário, antecipando-se a uma função própria do Poder Executivo, negue à parte autora seu legítimo direito de propriedade. (SIC)", diz o juiz em trecho da sentença.

    Taunay/Ipegue foi inicialmente reservada pelo extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI), antes da década de 1970. Como toda reserva no Mato Grosso do Sul, os Terena ficaram confinados e viram os territórios tradicionais de onde foram retirados sendo ocupados por fazendas. Em 1984 a reserva passou a ser revista, com o processo se encerrando em 1991. No entanto, realizado sob vícios pré-Constituição de 1988.


    Em 1999, os sucessivos erros passaram a ser reparados com uma nova revisão. Esse processo, que já dura 17 anos e teve como última movimentação a Portaria Declaratória, traz seguidas ameaças aos Terena. "Só nós sabemos o que passamos aqui. Dormimos num lamaçal todas as noites (…) O sonho dos nossos pais e avós era voltar pra essa terra, e seguimos adiante com esse sonho", disse uma liderança Terena em julho de 2013, depois de ataques de pistoleiros na retomada da Fazenda Esperança – assista aqui.

    Read More
  • 23/11/2016

    Após ocupação, povos e comunidades tradicionais cobram governo em reunião


    Por Tiago Miotto e Renato Santana, da Assessoria de Comunicação – Cimi
    Fotos: Tiago Miotto

    A ocupação realizada pela Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais no Palácio do Planalto na manhã desta terça-feira, 22, fez o governo federal se mexer. No final da tarde, representantes do Poder Executivo se reuniram com lideranças indígenas, quilombolas, pescadoras e quebradeiras de coco. A segurança do Palácio do Planalto impediu a entrada de água e comida aos manifestantes e, depois de quatro horas de ocupação, em negociação, os povos e comunidades tradicionais arrancaram do governo uma agenda pela parte da tarde.

    Depois de serem "recebidas" pela Tropa de Choque da Polícia Militar, na rua oposta ao Palácio do Planalto, 30 lideranças participaram do encontro no anexo 1 do Planalto. Na reunião, estavam presentes o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, Alexandre de Moraes (da Justiça), o ministro da Saúde, Ricardo Barros, e representantes da Secretaria de Segurança Institucional e da Secretaria Nacional de Articulação Social.


    Os indígenas manifestaram-se duramente contra a PEC 241-55/2016, a PEC da Morte, que pretende congelar os gastos primários do governo federal pelos próximos 20 anos. "Essa PEC, a gente chama de peste, porque ela vai trazer muita morte e muita destruição para os povos indígenas e para as populações que aqui estão", afirmou Kahú Pataxó. "Queremos uma posição mais efetiva do governo em relação à regularização das terras indígenas, quilombolas e os territórios pesqueiros, para reparar essa dívida que o Estado tem e garantir a proteção das espécies, dos povos e dos territórios", cobrou o indígena.



     

     

    Frente aos questionamentos de indígenas e quilombolas acerca da falta de recursos para o funcionamento básico da Funai e do Incra, Padilha ressaltou que o orçamento é atribuição do Congresso Nacional, e não do Executivo. “No ano que vem não vai ter mais dinheiro do que está lá [no Projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2017, entre pelo governo à Câmara dos Deputados em agosto]. Agora, se vai botar mais para as estradas, se vai botar mais na demarcação, vai ser o Congresso que vai escolher as prioridades”, afirmou o ministro.

    Com o Congresso dominado pelos interesses privados de bancadas como a ruralista, nós sabemos quais serão as prioridades dos deputados e senadores, afirma Kum’Tum Gamela, do Maranhão.



    Recado dado

    Nas últimas semanas, foi ventilada entre indígenas e indigenistas a informação de que o governo Temer estaria preparando uma portaria ou decreto para modificar o procedimento de demarcação das terras indígenas, com a possível incorporação das condicionantes impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento de Raposa Serra do Sol, como o marco temporal e a impossibilidade de revisar limites de terras indígenas.


    Durante a discussão, Kum’Tum Gamela mandou um recado direto aos ministros: “O marco temporal, para a gente, é o fim de qualquer procedimento de demarcação, é uma violação da Constituição e a negação de toda a história de violência contra os povos indígenas. O esbulho das terras indígenas e quilombolas foi violento, a saída de comunidades e povos de seus territórios tradicionais não se deu por vontade de conhecer outros lugares, se deu por uma violência imposta pelo Estado.


    Os Gamela são um dos povos que seriam afetados por esta interpretação restritiva da Constituição Federal, que o próprio STF definiu como não-vinculante às demais terras indígenas: com sua identidade negada por décadas e declarados oficialmente “extintos”, os Gamela passaram a reafirmar publicamente sua identidade indígena a partir de 2014 e lutar pela recuperação de seu território tradicional.

    A liderança indígena apontou que estas condicionantes são também formas de violência contra os povos e as comunidades tradicionais e não podem ser introduzidas em novos instrumentos demarcatórios, pois inviabilizariam o acesso aos direitos territoriais destas populações.

     

    Em resposta, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou que antes do governo discutir qualquer outra medida, a Fundação Nacional do Índio (Funai), que é ligada à sua pasta, está realizando um mapeamento de todos os procedimentos relacionados a terras indígenas” em andamento ou judicializados, o que deve ser concluído até 30 de novembro. Os representantes do governo não trataram de forma definitiva de nenhum ponto da pauta apresentada pela nota pública da ocupação ao Palácio do Planalto.


    Justamente por conta de interpretações limitadas de direitos constitucionais, Elionice Sacramento, do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais da Bahia, ressaltou: “Esta é uma incidência com o Estado brasileiro, não se trata de um diálogo amistoso com este ou aquele governo”.

    Para a pescadora, os Decretos 8424 e 8425 seguirão sendo combatidos: “Esses decretos atacam a nossa identidade. Algumas e alguns de nós dormimos pescadores e pescadoras e acordamos trabalhadores de apoio à pesca artesanal. Isso é uma afronta para nós, e esse decreto aconteceu sem processo de consulta”. O ministro Padilha afirmou que acha justa a participação dos pescadores e pescadoras numa revisão dos decretos junto do governo.


    Indígenas também se manifestaram contra a militarização da Funai e exigiram que generais e coronéis não sejam nomeados para ocupar a Presidência tampouco as coordenações do órgão. Este pleito foi defendido pelos povos
    Tumbalalá, Krikati, Guajajara, Pataxó, Guarani, Kanela, Kreepyn, Krenyê, Gamela, Awá-Guajá, Kaingang, Gavião e Tenetehar/Guajajara.

    Read More
  • 23/11/2016

    Nota Pública: CRB se manifesta contra a PEC 241-55


    Crédito: Tiago Miotto/Cimi


    A Conferência dos Religiosos e das Religiosas do Brasil, que congrega mais de 35.000 Consagrados/as em todo o país, apresenta sua posição em relação à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55/2016, que tramita no Senado Federal, após aprovada na Câmara Federal.

    A CRB Nacional, cuja Missão permanente é a Opção Preferencial pelos Pobres, não pode ficar indiferente a esta Emenda Constitucional que visa o esmagamento dos mais pobres, com o corte de despesas essenciais nos direitos do cidadão e o não reajuste do salário mínimo impedindo sua valorização.

    A PEC se apresenta como fórmula para alcançar equilíbrio dos gastos públicos, congelando as despesas primárias por 20 anos que, além de não mencionar o teto para as despesas financeiras, vai sacrificar exatamente os pobres, pois incide sobre as despesas primárias do Estado, entre elas a saúde e a educação, a infraestrutura, o funcionalismo. A estagnação ou queda dos investimentos públicos nos direitos básicos do povo durante 20 anos não contribui para retomar a confiança e o crescimento do país, também não garante maior eficiência na gestão do dinheiro público.

    A CRB Nacional concorda com a CNBB, que em sua Nota classifica a PEC 241 como injusta e seletiva. Diz a Nota: “Ela elege, para pagar a conta do descontrole dos gastos, os trabalhadores e os pobres, ou seja, aqueles que mais precisam do Estado para que seus direitos constitucionais sejam garantidos. Além disso, beneficia os detentores do capital financeiro, quando não coloca teto para o pagamento de juros, não taxa grandes fortunas e não propõe auditar a dívida pública”.

    O Brasil é um país de imensuráveis riquezas naturais e industriais, mas é apontado como um dos países mais injustos do mundo, com uma distância astronômica entre os poucos ricos e os milhões de pobres. Portanto, não é dinheiro que falta ao país, mas gestão honesta e bom uso do dinheiro público.

    Por isso, a PEC é mentirosa, ao convidar a população a conter gastos para pagar a dívida pública. O engessamento dos gastos públicos penalizará somente os pobres, deixando-os ainda mais à margem da sociedade, como explorados e indesejados.

    A CRB Nacional pede ao Poder Executivo, autor da PEC, empenho em prever projetos que promovam o cidadão, que encontre saídas sem penalizar e marginalizar os pobres, que planeja erradicar a vergonhosa desigualdade social com uma justa distribuição de renda, justiça e lei para todos. Pede ainda que eleve os impostos sobre os mais ricos, o fim das desonerações fiscais e a garantia de espaço para investimentos públicos.

    A CRB Nacional acredita que é possível reverter a aprovação da PEC, com a mobilização do povo e a organização da sociedade civil, promovendo um debate amplo e democrático e diálogo com a sociedade.

    Que a Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, com sua ternura de Boa Mãe, continue abençoando o povo brasileiro. E que Deus continue sendo o nosso único Guia e Tesouro.

    Brasília, 21 de novembro de 2016

    IR. MARIA INÊS VIEIRA RIBEIRO, MAD

    Presidente da CRB Nacional

    Read More
  • 23/11/2016

    Spray de pimenta é usado contra povos e comunidades tradicionais para barrá-los à sessão da CPI da Funai/Incra 2

    A Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados utilizou spray de pimenta contra indígenas, quilombolas, pescadores, pescadoras e quebradeiras de coco na manhã desta quarta-feira, 23, em frente ao anexo 2. O grupo negociava a entrada na Câmara no momento da ação truculenta.   

    Os povos e comunidades tradicionais queriam acompanhar a sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra a Funai e o Incra 2, marcada para começar às 11 horas (horário de Brasília). Ao tentar entrar, foram barrados pela segurança e dispersados com quantidade exagerada de spray de pimenta.  

    Crianças passaram mal e precisaram ser socorridas. Assista ao registro da ação truculenta aqui. Os povos e comunidades tradicionais seguiram em protesto em uma outra entrada da Câmara Federal, enquanto a sessão da CPI passou a acontecer sem a presença do grupo.

    Em mais uma demonstração da falta de democracia que vigora na "Casa do Povo", como é possível se constatar em outras ocasiões, os povos e comunidades tradicionais foram barrados e impedidos de acompanhar uma CPI que lhes diz respeito.  


    Os deputados ruralistas, principais interessados na retirada de direitos constitucionais ligados à demarcação territorial, além de autores tanto da primeira quando da atual CPI da Funai/Incra, dirigem os trabalhos da Comissão sem que povos indígenas e quilombolas sequer possam acompanhar as sessões.

    Read More
  • 23/11/2016

    Povos indígenas da região de Tefé (AM) exigem reparação de direitos violados e divulgam carta


    Crédito: Lígia Kloster Apel/Cimi-Tefé


    Por Lígia Kloster Apel, Assessoria de Comunicação – Cimi/Tefé

    Incentivo e aprendizado. Esses foram os dois mais importantes resultados do 1º Mutirão em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas da Região de Tefé (AM) para o Tuxaua Anilton Braz Silva, do povo Kokama, da aldeia Porto Praia de Baixo. O Mutirão aconteceu nos dias 17 e 18 de novembro, nesta região amazônica composta por dezenas de povos indígenas e direitos violados. “Para mim foi um incentivo, um aprendizado de união com toda a comunidade e sabendo que ia ter essa equipe do CIMI, órgãos comprometidos, financiadores da CAFOD e União Europeia e assessoria jurídica, a gente viu que ia ser importante pra ver que temos direitos e a gente vai lutar por eles”.

    O evento faz parte das atividades do projeto Garantindo a Defesa de Direitos e a Cidadania dos Povos Indígenas do Médio Rio Solimões e Afluentes, realizado pela Cáritas de Tefé e CIMI-Tefé, com apoio técnico e institucional da Agência Católica para o Desenvolvimento (CAFOD) e cofinanciamento da União Europeia.

    Mais de 70 indígenas participaram do Mutirão dos povos Kokama, Kambeba, Kaixana, Tikuna, Miranha e Madija, das Terras Indígenas Porto Praia, Boará/Boarazinho, Projeto Mapi e Barreira da Missão, além de representante da União dos Povos Indígenas do Médio Rio Solimões e Afluentes (UNIPI-MSA), André Cruz; da FUNAI-CTL de Tefé, Tomé Cruz; do vice-prefeito eleito de Tefé, Jean Robson Pinheiro Jacintho, e futuro secretário de produção, Antonio Nascimento; a assessora jurídica do Projeto, Chantelle Teixeira, do Cimi, além da assessora técnica Satya Caldenhoff e da representante da CAFOD, Esther Gillingham.

    O 1º Mutirão em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas da Região de Tefé se consolidou como um espaço de diálogo e esclarecimentos sobre os direitos indígenas, sobre as violações destes direitos – que são constitucionais – e que vêm acontecendo ao longo dos anos, sobre a morosidade com que o poder público trata a resolução das violações que lhe são denunciadas e sobre sua, praticamente que total, ineficiência de garantir e executar políticas específicas para os povos indígenas.

    Os trabalhos iniciaram com a apresentação dos participantes, do projeto e suas atividades e dos casos de violações de direitos indígenas apurados na 1ª Oficina de Formação Jurídico-Política em Tefé, realizada pela equipe do Cimi e sua assessoria jurídica, em setembro de 2016, na aldeia Porto Praia de Baixo, envolvendo as comunidades Porto Praia, Boará, Boará de Cima, Boarazinho e Projeto Mapi. O levantamento mostra que as violações denunciadas pelos indígenas são de toda ordem.

    Em relação ao direito à terra demarcada, o levantamento mostra que nenhuma das comunidades têm seu território reconhecido pelo Estado brasileiro, e que a falta desta regularização territorial facilita a entrada de invasores que exploram seus recursos naturais. Madeira, peixe, caça e areia foram os recursos apontados pelos indígenas como os principais alvos dos invasores. O direito dos povos originários de permanecer em seus territórios tradicionalmente ocupados é garantido pela Constituição Federal. O direito coletivo dos povos indígenas à terra é uma forma de interpretar o direito civil à propriedade, adequando-o ao modo coletivo de vida desses povos, que está sendo violado sistematicamente pelo Estado brasileiro.

    Relataram ainda que fazem as denúncias aos órgãos competentes através de documentações, mas que dificilmente recebem informações sobre os encaminhamentos dados às reivindicações.

    Quanto aos seus direitos políticos, a Oficina mostrou que as decisões tomadas pela comunidade, as quais retratam suas necessidades específicas, são desconsideradas pelo poder público. O principal exemplo são os programas de educação que são levados às aldeias que não reconhecem a realidade local e apresentam conteúdos e metodologias alheias a elas. Em um caso recente da prefeitura de Tefé, tal violação foi comprovada. A Secretaria de Educação coibiu os professores indígenas graduados em Magistério Indígena de participarem do concurso público para professores, exigindo critérios em desacordo com a legislação nacional para a educação escolar indígena, e sequer, consultou estes povos para participarem da elaboração do edital.

    E no âmbito dos direitos sociais, a maior violação de direitos está na saúde, onde há grande carência de pessoas, infraestrutura adequada, medicamentos e transporte para o atendimento de pacientes. Na educação, a violação está na contratação de professores indígenas sob o regime de contratos temporários, o que lhes deixa sem estabilidade e reféns da política partidária dos pleitos municipais. Ainda, reivindicam a contratação de professores bilíngues para que possam resgatar suas línguas maternas. Esta situação revela a inexistência do reconhecimento da educação indígena, uma vez que não há plano de carreira para os professores indígenas dos municípios.

    Um dos relatos mostrou, inclusive, que a representante da Secretaria de Educação do município exigiu a retirada de peças artesanais produzidas pela comunidade de dentro da escola. Peças essas que fazem parte da didática dos professores que mostram e refletem sobre suas habilidades, em um total desrespeito aos conhecimentos e à cultura ancestral.

    À luz deste diagnóstico, os participantes debateram com os representantes da FUNAI e da futura gestão municipal (vice-prefeito e secretaria de produção), as formas de resolução destas violações. E, ao final, foi formalizada uma Carta Aberta que será entregue ao MPF – Procuradoria Geral da República em Tefé, MPF – Procuradoria Geral da República de Manaus, Ministério Público Estadual, Justiça Federal em Tefé, Distrito Sanitário Especial Indígena do Médio Solimões e Afluentes (DSEI-MSA), à presidência da FUNAI em Brasília, Coordenação Regional da FUNAI do Alto Rio Solimões em Tabatinga e Coordenação Técnica Local da FUNAI em Tefé, bem como para órgãos públicos locais de competência afim.

    A Carta Aberta dos povos Kokama, Kambeba, Kaixana, Tikuna, Miranha e Madija (convidado), das Terras Indígenas Porto Praia, Boará/Boarazinho, Projeto Mapi e Barreira da Missão, traz a clara compreensão que os indígenas têm de sua cidadania brasileira e de seus direitos como povos originários do território nacional. Denunciam as violações que por anos a fio vêm sofrendo e revelam o descaso, discriminação e morosidade do estado brasileiro em efetivar e garantir os direitos civis, políticos e sociais da população indígena. E, dada a urgência, exigem que as soluções aos problemas sejam rápidas e efetivas.

    O evento também lembrou que este ano, no dia 10 de dezembro de 2016, comemora-se o 68º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pelas Nações Unidas. Os indígenas deram seus depoimentos falando da importância desta comemoração para reivindicar e defender seus direitos. “Os povos indígenas são a raiz da nação brasileira. E a sociedade brasileira nega sua raiz. O que acontece com uma árvore que nega a sua raiz?”, questiona Valtonino Gomes Pacaio, tuxaua da aldeia Boarazinho.

    Toda pessoa humana tem direito à vida e a vivê-la em plenitude. Todos os brasileiros e todas as brasileiras têm seus direitos assegurados pela Constituição Federal. Todos e todas indígenas têm seu direito originário, que está acima de todas as outras leis. Respeitá-los é dever da sociedade. Assegurá-los é dever do Estado.

    CARTA ABERTA DOS POVOS INDÍGENAS DE TEFÉ

    Nós, lideranças dos povos Kokama, Kambeba, Kaixana, Ticuna, Miranha e Madija, representantes das comunidades Porto Praia, Boara, Boarazinho, Boara de Cima, Projeto Mapi, Patauá, Kanata Aetu, Nova Esperança do Arauerí, Ramal do Tucano, Barreira de Cima, Barreira do Meio, Barreira de Baixo e Betel (as quatro últimas pertencentes à TI Barreira da Missão), localizadas nos municípios de Tefé e Uarini (Comunidade Tucano somente) no Amazonas, reunidos na  comunidade Porto Praia de Baixo, nos dias 17 e 18 de novembro, por ocasião do 1º Mutirão de Direitos da região de Tefé, ação promovida pelo Conselho Indigenista Missionário de Tefé e Cáritas de Tefé, com apoio de CAFOD e União Européia, atividade prevista no projeto Garantindo a Cidadania e a Defesa de Direitos dos Povos Indígenas do Médio Rio Solimões e Afluentes, para ampliar nossos conhecimentos sobre direitos civis, políticos, sociais e indígenas, partilhar as nossas realidades, demandas e aspirações e encaminhar soluções destas demandas em diálogo com o Poder Público (CTL da Funai em Tefé, DSEI Médio Rio Solimões e Afluentes, Gestão Municipal eleita para o período 2017-2020) na busca pela efetivação dos nossos direitos, vimos, à público, manifestar, denunciar e pedir a atenção e acompanhamento dos órgãos públicos competentes às violações de direitos que passaremos a relatar:

    Sabemos que a nossa Constituição Federal reconhece o caráter multiétnico e pluricultural do Estado brasileiro, portanto, o nosso direito ao tratamento diferenciado, na perspectiva da autonomia e autodeterminação dos nossos povos.

    Depois de analisarmos a situação dos nossos direitos e da política indigenista nacional, regional e local constatamos que continuamos a ser vítimas da discriminação, do preconceito e da intenção, explícita ou velada, de nos extinguir enquanto povos, com uma identidade diferenciada, vinculada intrinsecamente à espaços territoriais necessários para a nossa sobrevivência física e cultural, com organização social própria.

    Contudo, fazemos parte do Estado Nacional que, depois da colonização, se implantou sobre os territórios ocupados milenarmente por nossos povos e ancestrais, não respeitando o nosso modo de vida e impondo a sua maneira de viver aos nossos povos como a única correta para acessarmos direitos e sermos cidadãos deste Estado. Hoje, 516 anos depois, em pleno século XXI, tal situação de descaso e violação de nossos direitos, cidadania e vida, continua. Mas, temos convicção de que somos cidadãos e temos o direito de recuperar e manter nosso modo de vida.

    Os governos municipais, estaduais e federal têm se mostrado incapazes de conviver e oferecer tratamento diferenciado aos nossos povos. O Governo tem feito esforços significativos, mas continua submetido à pressão de interesses econômicos e políticos que sempre mandaram neste país, criando situações que acarretam a grave crise no atendimento à políticas públicas voltadas as nossas especificidades e à violência contra os povos indígenas.

    Diante deste quadro, estamos tristes e indignados, porém, dispostos a continuar reivindicando e lutando para termos garantidos os nossos direitos. Dessa forma, exigimos do Poder Público respostas e ações permanentes e estruturantes às demandas apresentadas por nós nesta carta aberta. Reafirmamos, porém, atenção especial às seguintes reivindicações e propostas.

    DESRESPEITO AO DIREITO À TERRA DEMARCADA E PROTEGIDA

    1. Demarcação e regularização de todas as terras indígenas da região do município de Tefé e Uarini (Comunidade Tucano), garantindo a sua devida desintrusão e proteção, para conter quaisquer tipos de invasões que ameaçam a integridade física e cultural dos nossos povos bem como a riqueza natural e da biodiversidade existente nos nossos territórios.

    – Nossos territórios vêm sendo, sistematicamente, explorados. Existe um grande interesse nos recursos naturais que preservamos, sobretudo, madeira, peixes dos lagos e rios (pesca de arrastão), invasão de lagos, caças e areia.

    – Comunidades não indígenas no entorno da comunidade Projeto Mapi vêm realizando barragens nos igarapés para formarem piscinas naturais em suas áreas para fins de lazer (balneários e “banhos”), estas ações prejudicam o abastecimento de água a esta comunidade, bem como a entrada de peixes nestes cursos de água.

    DESRESPEITO AO DIREITO À EDUCAÇÃO DIFERENCIADA E ESPECÍFICA PARA OS POVOS INDÍGENAS – EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA

    1. Implementação de uma política de educação escolar indígena de qualidade, bilíngue, específica e diferenciada, que garanta condições para o ensino fundamental e médio completo nas nossas comunidades. Concretamente reivindicamos:

    a) Respeito à autonomia e o direito à consulta das comunidades, para que participem da criação, implementação, monitoramento e fiscalização das políticas públicas municipais de educação escolar indígena; b) Criação do cargo de professor indígena municipal com concurso público diferenciado, plano de carreira e garantia de estabilidade funcional; c) Criação da categoria Escola Indígena Municipal, para que seja garantida a autonomia e organização própria das escolas indígenas, com Projetos Políticos Pedagógicos específicos e próprios para cada escola e realidade; Compra e repasse de merenda escolar que atenda o número de alunos de cada escola, hoje faltam alimentos nas escolas. Ainda, requeremos a regionalização da merenda escolar nas escolas indígenas e a criação do Conselho de Educação Escolar Indígena; d) Construção de prédios escolares nas comunidades onde as escolas funcionam em estruturas precárias construídas pelas próprias comunidades; e) Contratação de professores indígenas e bilíngues para as escolas indígenas;

    DESRESPEITO AO DIREITO À SAÚDE DIFERENCIADA DOS POVOS INDÍGENAS

    1. Prestação dos serviços de atendimento à saúde indígena que respeite à cultura e especificidade de cada povo, bem como se paute em um modelo de abordagem integral contemplando os aspectos de assistência à saúde, saneamento básico, nutrição, habitação, meio ambiente. Para tanto, concretamente reivindicamos:

    a) Implementação de saneamento básico às comunidades, principalmente o cuidado ao acesso de todos à água potável; b) contratação de profissionais de saúde para o atendimento nas comunidades, bem como que estes profissionais sejam capacitados para trabalhar com povos indígenas e que sejam consultadas as comunidades para a contratação destes profissionais; c) Maior investimento na infraestrutura para a prestação dos serviços de saúde indígena (construção de postos de saúde adequados, meio de transporte para a remoção de pacientes das comunidades para o Polo Base de Saúde ou município, compra de medicamentos); d) capacitação dos profissionais indígenas que trabalham na saúde – Agente Indígena de Saúde e Agente Indígena de Saneamento – última realizada na região foi em 2008; atendimento de indígenas nos postos de saúde e hospitais de referência do SUS presentes no município de Tefé, muitas vezes, temos o atendimento negado nestes centros de atendimento à saúde porque somos indígenas. Sabemos que a saúde indígena é um subsistema do Sistema Único de Saúde, que é universal e tem como obrigação constitucional o atendimento à saúde em todo o país e para qualquer cidadão brasileiro, inclusive estrangeiro.

    DESRESPEITO AO DIREITO À AUTONOMIA E AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS

    1. Respeito à autonomia e autodeterminação dos povos e comunidades indígenas. Nós temos o direito a definir nossas prioridades de desenvolvimento, participar da criação, implementação e fiscalização de planos de desenvolvimento do governo municipal, estadual e federal, bem como em sermos consultados em relação às medidas administrativas e legislativas dos governos que nos afetem diretamente. Muitas das nossas decisões e reivindicações não são atendidas pelo Poder Público, principalmente em relação à educação escolar indígena. As comunidades escolhem professores e gestores para a suas escolas, porém, a Secretaria Municipal de Educação não leva em consideração nossa vontade e impõe a contratação de professores e gestores que, muitas vezes, nem são indígenas.

    Conquistamos com muita luta nossos direitos na Constituição que este ano completou 28 anos, mas os governos municipais, estaduais e federais ainda não estão cumprindo com seu dever de torná-los realidade.

    Contra as falsas acusações de que atrapalhamos o projeto econômico em curso, afirmamos claramente que nós, povos indígenas, com base em nossas próprias histórias, valores e culturas, temos muito a contribuir com o desenvolvimento sustentável do país, na perspectiva da construção de uma sociedade justa e de um Estado verdadeiramente pluriétnico e democrático no Brasil.

    Assim, exigimos atenção, acompanhamento e ações dos órgãos públicos para que nossos direitos sejam garantidos e cessem as situações de violações acima descritas.

    Read More
  • 22/11/2016

    Indígenas, quilombolas e pescadores ocupam Palácio do Planalto contra a PEC 241-55


    Crédito das fotos: Tiago Miotto/Cimi


    Cerca de 500 lideranças indígenas (de vários povos do MA, BA, RS, SC e SP), de pescadores e pescadoras artesanais, quilombolas e quebradeiras de coco ocuparam o Palácio do Planalto, na manhã desta terça-feira, 22. A ocupação é realizada pela Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais.  

    Esta é a primeira ocupação do Palácio do Planalto na gestão Michel Temer. Na pauta dos movimentos está a posição contrária à PEC 241-55/16 (a PEC da Morte), à PEC 215/00 (a PEC do fim das demarcações de terras indígenas) e ao PL 4059/12, que libera a venda de terras para estrangeiros.

    Os povos e comunidades tradicionais também cobram o presidente Michel Temer sobre os recentes boatos de possíveis mudanças que o governo estaria planejando fazer nos procedimentos administrativos de demarcação das terras indígenas.

    Além disso, os povos manifestam-se pela retomada das demarcações das terras indígenas, quilombolas e reconhecimento e regularização dos territórios pesqueiros. Os povos e comunidades tradicionais divulgam ainda uma nota sobre a ocupação.

    Leia na íntegra:

    Nenhum direito a menos! Contra as propostas de morte aos povos indígenas, quilombolas e pescadores e pescadoras artesanais!

    Nós povos indígenas originários, comunidades tradicionais pesqueiras, comunidades quilombolas, e quebradeiras de coco babaçu,  estamos em mobilização nacional denunciando  o programa neoliberal dos governos, com apoio e aval do poder legislativo e judiciário e  nos colocamos contra todo e qualquer retrocesso nos nossos direitos já conquistados, com muita luta e sangue derramado.

    Nesse sentido denunciamos:

    • 1- Marco temporal: constitui-se num grave atentado contra o direito originário dos povos indígenas à demarcação de suas terras e contra o direito dos quilombolas de terem suas terras devidamente tituladas. Viola a Constituição Brasileira  e os tratados internacionais, ao mesmo tempo que legitima a violência e o esbulho territorial cometida contra os povos até 1988;

     

    • 2- A tramitação da PEC 215/00, da PEC 68, PL 1610/96, PL 4059/12 que libera a venda de Terras para estrangeiros, por entendermos que são mecanismos criados para expropriação dos territórios tradicionais para implantação de grandes projetos do agro – hidronegócio, mineração, produção de energia e monocultivos;

    • 3- A PEC 241-5516 representa a intensificação do processo de sucateamento de políticas públicas para efetivação de direitos fundamentais. É a PEC da morte;

    • 4- A atuação do poder judiciário na concessão de medidas liminares de reintegração de posse nas áreas de retomada dentro dos territórios tradicionais;

    • 5- A criminalização de lideranças de comunidades indígenas, pescadores e quilombolas por parte do ICMBio nas áreas de sobreposição de unidades de conservação de proteção integral sobre territórios tradicionais.

    Exigimos do Estado Brasileiro:

    • 1- Aceleração dos processos de demarcação, desintrusão e proteção de terras indígenas e quilombolas, sem mudanças nos procedimentos de demarcação das terras indígenas;

    • 2- Reconhecimento e regularização dos territórios tradicionais pesqueiros;

    • 3- Liberação e aumento de recursos financeiros e pessoal para  órgãos como INCRA, FUNAI, SPU  e outros para execução  de processos demarcatórios de territórios de povos e comunidades tradicionais;

    • 4- Autonomia e protagonismo das comunidades nos processos de gestão e fiscalização dos territórios e das áreas de preservação;

    • 5- Revogação do Decreto 8424 e 8425  por violarem os direitos das pescadoras e pescadores artesanais;

    • 6- Retorno do Ministério do Desenvolvimento Agrário para o atendimento das  demandas das comunidades tradicionais e da agricultura familiar.

    Brasília, Novembro de 2016.

    Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais


    Read More
  • 21/11/2016

    Missão do Sagrado Coração: Convivência junto aos povos indígenas do MS



    O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. (Jo 10,10)

    “Para que sejam respeitados os povos indígenas, ameaçados na sua identidade e na sua própria existência”. Essa foi a prece que o papa Francisco fez em favor dos indígenas que historicamente são maltratados, excluídos, desprezados, massacrados, mortos. O Espírito Santo que conduz a história rumo a cristificação do universo e distribui os dons e carismas conforme a vontade do Pai e as necessidades da humanidade jamais deixou que os primeiros habitantes da tão sofrida América viessem a desaparecer, sendo que em meio a tanta opressão surgiram sempre vozes que se levantaram para os defender. Mesmo que por vezes parece que a busca pela ‘Terra sem males’ torna-se cada vez mais distante, a esperança de sua realização jamais se afastou do coração e dos ideais dos povos indígenas deste nosso imenso país.


    Na certeza de que Deus está a encaminhar os nossos corações, em abril de 2016 nos é apresentado a proposta de viver com os povos indígenas do Mato Grosso do Sul pelo período de aproximadamente 15 dias. Tal proposta foi acolhida com abertura e alegria, sem muitas pretensões mas apenas o desejo de estar e viver com tal realidade que por vezes nos é apresentado tão distante e em extinção.

    Sendo assim, após 14 horas de viagem chegamos a Campo Grande (MS), onde somos recebidos pelos missionários do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), e pelas Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida. Com uma fraterna acolhida e um profundo espírito missionários nos é apresentado um panorama geral e histórico da situação da população indígena no Mato Grosso do Sul. Pelo engajamento e pela emoção com que os envolvidos falaram, logo percebe-se que pela situação complicada, desafiadora e degradante há um profundo apelo evangélico que clama por libertação. Índios desaparecidos, muitos assassinados, famílias despejadas, crianças morrendo em consequência ao uso de agrotóxicos, um verdadeiro genocídio. Uma militarização formada por deputados, fazendeiros, meios de comunicação, força militar, guardas (jagunços) contratados por fazendeiros para “proteger as terras” e que matam os indígenas indiscriminadamente. Logo percebe-se que seria uma experiência inesquecível.  

    Ao longo dos 11 dias, na medida em que se vive a experiência de conhecimento da cultura indígena, há um processo de desconstrução dos conceitos prévios que recebemos, uma abertura para uma compreensão humanizadora e a construção de um grande amor. Rapidamente se percebe que ali há um grande tesouro, por que vale a pena gastar a vida, na luta pela justiça, lado a lado com esse povo.  

    Na região de Dourados vivem cerca de 45 mil indígenas, sendo que em sua maioria Guarani e Kaiowá, constituindo assim a segunda maior população indígena do país. No processo histórico os Guarani e Kaiowá foram expulsos seus tekoha (seu habitat natural, o que faz o Guarani ser o que ele é, é parte de sua identidade, é onde se vive e se comunica com o transcendente). Este processo de expulsão, mesmo tendo acontecido há décadas atrás, está fortemente registrado em suas memórias, transmitidas pela tradição oral. Foi um despejo muito traumático pela violência aplicada, sendo relatados do caminhão vir buscar e os que se recusavam a ir embora eram quebrados o calcanhar para não conseguirem mais caminhar. Expulsos de seus tekoha são obrigados a viver em reservas, como que ilhas cercadas por grandes fazendas que formam como que um mar de soja e cana de açúcar, que avança a cada dia diminuindo ainda mais seu território, e com o rápido crescimento demográfico torna-se pequeno para ter uma vida digna com seus ritos e cultura.

    Os Guarani e Kaiowá pela situação a que foram obrigados viver, são sentenciados a morrer gradativamente esmagados pela ganância capitalista, do agrobanditismo, disfarçado de agronegócio. Como último suspiro de alguém que está prestes a morrer, e ainda existe uma chama de esperança que está fumegando, no ano de 2013 em uma reunião, os Guarani e Kaiowá decidem a morrerem retomando sua terra, inicia-se assim os processos de retomadas de seus tekoha, que continua até hoje lutando pacificamente pelo que lhes é de direito, mesmo que sejam assassinados em massa, como está acontecendo.

    As retomadas vão muito além de voltar a sua terra ancestral. Retomar seu tekoha é reviver a cultura, os hábitos, as crenças, em um ambiente que lhes propicie viver e ser aquilo que são.  A consequência de estar fora de seu tekoha é a perda de identidade, perda de sentido para a vida, perca de perspectivas futuras.  Esses são os principais motivos que acorrem no uso de drogas, alcoolismo e o suicídio especialmente entre os jovens indígenas de 10 a 18 anos.  

    Diante de tal realidade é impossível se fazer indiferente, pois vai além da capacidade de entender como pessoas que se dizem cristãos, dão tão pouco ou nenhum valor a vida, dom de Deus dado a todos, independente da raça, cultura ou da fé de cada um, uma vida é uma vida, e nada nem ninguém tem o direito de tirá-la.

    Pergunta-se que desenvolvimento é esse que na busca pelo progresso de alguns, em benefício da nação de poucos, dá ao agronegócio o direito de matar, mutilar e destruir milhares de vidas dentre ela os Guarani e Kaiowá? Vidas tão preciosas, quanto a minha ou a sua, aos olhos do Pai Criador de tudo. Durante os diversos dias que estivemos em área, a situação mais desumana é de dona Damiana, uma senhora de 74 anos, viúva, que cuida de um neto. Com alguns parentes foi despejada de seu tekoha de três hectares, onde está o cemitério de sua família coberto pela cana.  Uma cena revoltante para quem acompanhou o despejo.


    Mais de 60 policiais armados, apoiados por máquinas retroescavadeira e tratores, que destruíram e feriram não só os barracos mas história, a memória, o coração e a esperança de uma família que pela quinta vez é despejada. Tiram à força de sua terra, e são jogados na beira da estrada com seus poucos móveis encharcados com a chuva, pelas lágrimas do próprio Deus. É uma situação desoladora e revoltante. Como pode a ganância humana chegar a esse ponto?  A coragem da cacique  Damiana, faz de sua pequena estatura uma  gigante para todos que conhecem sua história de vida, esperança e luta. Como ela mesma diz “Eu só quero voltar para o meu tekoha, lá está toda minha família. Não importa que me matem, aqui fora do meu tekoha já estou morta, eu não posso sair daqui, eu pertenço a esse tekoha.

    Nós, os Karai (homem branco), temos muito que aprender com os Guaranis e Kaiowá, que mesmo em meios a tantas injustiças, massacres, genocídio continuam com coragem e esperança de voltar a viver no seu tekoha e o sonho de encontrar a “Terra sem males” que já buscam a mais de 500 anos.

    Ao concluir uma missão como esta, e voltar a nossas missão cotidianas é impossível se fazer indiferente a causa indígena, de não voltar o nosso coração, oração, e lágrimas a dor que este povo, nosso povo continua a sofrer. Que as preces de nosso Papa Francisco sejam ouvidas por Ñanderú Guasu, Criador do céu e da terra que nunca abandona o seu povo sofrido e escuta o gemido de seus amados filhos. Que nós como sociedade civil e como Igreja não tapemos os nosso olhos e não fechemos os nossos ouvidos a esta súplica. Deus dos pobres vem nos libertar desta escravidão! O desejo que permanece é de voltar e festejar no mba’e marangatu tomando chicha em meio a cânticos e danças.

    Missionários do Sagrado Coração,

    Adilson Gomes Teixeira, msc;

    Eugenio Luedke, msc ;

    Lucas Fonseca Machowsky, msc.


    Read More
Page 393 of 1236