• 13/09/2017

    Indígenas Kaingang ocuparam rodovias no RS e exigem revogação do parecer anti-demarcação


    Foto: Cimi/Sul


    Na manhã desta quarta-feira (13), indígenas Kaingang ocuparam a BR 480, em Benjamim Constant do Sul, e a BR 386, em Iraí, no Rio Grande do Sul. O grupo mobiliza-se contra as medidas do governo de Michel Temer que paralisam as demarcações de Terras Indígenas (TI).

    Com faixas que reafirmam o direito tradicional a terra, jovens, mulheres, crianças e lideranças firmam posição contra o Parecer da Advocacia Geral da União (AGU). “Repudiamos as ações do governo Temer, através da AGU, que compromete a demarcação das nossas terras. Estamos manifestando nas BRs para que o parecer seja revogado. Não aceitaremos retrocessos”, sustenta Deoclides de Paula, liderança da TI Kandóia.

    Michel Temer aprovou no dia 20 de julho o parecer 001/2017 da AGU, que obriga a administração pública federal a aplicar, a todas as Terras Indígenas do país, condicionantes que o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu no caso Raposa Serra do Sol (Pet 3388/RR). No acórdão  se estabeleceu, além do marco temporal, 19 condicionantes para a demarcação da TI. A tese do marco temporal afirma que têm direito à terra somente o povo que estivesse nela na data da promulgação da Constituição Federal, em 1988.

    “Nos existimos muito antes de 88. Nossa história não começa aí. Por isso, continuaremos as retomadas e queremos que o governo pare suas parcerias com o agronegócio e com bancada ruralista. São ações tomadas para oprimir o nosso direito as terras tradicionais”, comenta Deoclides Kaingang. “Muitos ancestrais nossos morreram para que nossos direitos fossem garantidos na Constituição Federal. Enquanto existir um índio, continuaremos lutando pela nossa terra, pela nossa cultura”. 


    Foto: Mario Karai Guarani / TI Rio dos Índios.

    O parecer anti-demarcação

    O parecer afirma atender orientações do Supremo Tribunal Federa. Contudo, os ministros da corte já se manifestaram pela não obrigatoriedade da aplicação daquelas condicionantes a outros processos de demarcação. Recentemente, no julgamento do dia 16 de outubro, onde o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou improcedentes as Ações Civis Ordinárias (ACOs) 362 e 366, Luís Roberto Barroso afirmou que os parâmetros estabelecidos no caso Raposa Serra do Sol “somente se aplicavam a aquele caso”. 

    “Entendo que somente será descaracterizada a ocupação tradicional indígena caso demonstrado que os índios deixaram voluntariamente os territórios que possuam ou desde que se verifique que os laços culturais que os uniam a tal área se desfizeram”, afirmou o ministro do STF.

    Em artigo, José Afonso da Silva, professor da Faculdade de Direito da USP, e Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga e professora da USP, afirmaram que o parecer “faz parte do pacote de concessões de Temer aos interesses da frente ruralista. Os índios estão novamente sendo rifados para garantir a sobrevivência provisória do presidente no cargo”.

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  • 13/09/2017

    Servidores da Proteção Etnoambiental e Coordenação de Índios Isolados da Funai criticam em carta sucateamento e indicações políticas


    Frente de Proteção Etnoambiental no Amazonas


    Os servidores e servidoras da Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) e das Frentes de Proteção Etnoambiental (FPEs) da Fundação nacional do Índio (Funai) divulgaram nesta terça-feira, 12, uma carta dirigida ao presidente do órgão indigenista, Franklimberg Ribeiro, e à diretora de Proteção Territorial, Azelene Inácio, criticando e apresentando preocupações sobre as indicações políticas oriundas de articulações anti-indígenas de Michel de Temer a postos importantes da ação de isolados da Funai e o sucateamento do trabalho em campo.   

    "Gostaríamos de alertar Vossas Senhorias sobre as consequências que as indicações meramente políticas na CGIIRC podem acarretar para o bem-estar físico e cultural dos povos indígenas isolados e de recente contato no Brasil, haja vista que alguns desses povos estão submetidos a situações vulnerabilidade extrema, incluindo o risco de genocídio  (por exemplo, nas TIs Vale do Javari – AM, Araribóia-MA e Yanomami – RR e AM", diz trecho da carta.

    Na última semana, fatos acerca de um massacre de indígenas em isolamento voluntário ocorrido no rio Jandiatuba, interior da Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do estado do Amazonas, ganharam repercussão internacional. O Ministério Público Federal (MPF) investiga o caso e dois garimpeiros chegaram a ser presos suspeitos de envolvimento nos ataques aos chamados "flecheiros".  

    Leia na íntegra:

    CARTA DOS SERVIDORES DAS FRENTES DE PROTEÇÃO ETNOAMBIENTAL E DA COORDENAÇÃO-GERAL DE ÍNDIOS ISOLADOS E DE RECENTE CONTATO DA FUNAI

    Ao Presidente da Funai,

    Sr. Franklimberg Ribeiro

    À Diretora de Proteção Territorial,

    Sra. Azelene Inácio

    Senhor Presidente e Senhora Diretora,

    Na última semana, nós, servidores da Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) e das Frentes de Proteção Etnoambiental (FPEs), tomamos conhecimento através da mídia de que estão em tramitação na Funai as exonerações da Coordenadora-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, Leila Sílvia B. Sotto-Maior, e da Coordenadora de Planejamento e Apoio às Frentes de Proteção Etnoambiental, Paula W. L. Pires.

    Nesse sentido, temos a informar que as duas servidoras cujas exonerações estão sendo encaminhadas possuem sólida formação acadêmica na área das Ciências Humanas, possuem ampla experiência de trabalho junto aos povos indígenas e, principalmente, possuem conhecimentos técnicos relativos à gestão da Funai e das FPEs. Dito isso, caso haja intenção real de nomeações sem diálogo com as FPEs, como é de costume, e de pessoas sem o devido preparo técnico necessário, consideraríamos que seria um desmonte técnico, ou eventual ingerência política na CGIIRC e FPEs. Caso isso venha a se concretizar, só nos restaria  manifestar nossa indignação e repúdio para as autoridades competentes.

    Enfatizamos que a Política de Proteção aos Povos Isolados e de Recente Contato é coordenada pela Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) e efetivada em campo pelas equipes das Frentes de Proteção Etnoambiental (FPEs). As ações de proteção territorial e de promoção de direitos são norteadas por uma metodologia de trabalho extremamente criteriosa, consolidada ao longo de 30 anos e orientada por princípios como o do não contato, da precaução, da garantia da posse plena e da proteção ambiental dos territórios indígenas.

    Atualmente, 11 FPEs atuam na Amazônia Legal Brasileira: FPE Awá (Maranhão), FPE Médio Xingu (Pará), FPE Cuminapanema (Pará e Amapá), FPE Yanomami/Ye’kuana (Roraima e Amazonas), FPE Waimiri-Atroari (Amazonas), FPE Madeira-Purus (Amazonas), FPE Vale do Javari (Amazonas), FPE Envira (Acre), FPE Uru-Eu-Wau-Wau (Rondônia), FPE Guaporé (Rondônia) e FPE Madeirinha-Juruena (Mato Grosso). Por conta dessa atuação da Funai, a política pública brasileira de proteção de povos isolados e de recente contato é hoje reconhecida como uma política de referência por outros países onde também há a presença destas populações. Enfatizamos, inclusive, que a efetividade dessa política faz com que o Brasil continue sendo o país com o maior conjunto conhecido de povos e grupos indígenas isolados no mundo.

    Em especial, gostaríamos de alertar Vossas Senhorias sobre as consequências que as indicações meramente políticas na CGIIRC podem acarretar para o bem-estar físico e cultural dos povos indígenas isolados e de recente contato no Brasil, haja vista que alguns desses povos estão submetidos a situações vulnerabilidade extrema, incluindo o risco de genocídio  (por exemplo, nas TIs Vale do Javari – AM, Araribóia-MA e Yanomami – RR e AM).

    Enquanto política pública, o trabalho de proteção dos povos isolados e de recente contato está amparado em diversos instrumentos jurídicos e normativos, nacionais e internacionais, sendo os principais a Constituição Federal de 1988, artigo 231; o Decreto nº 1.775, de 08 de janeiro de 1996; o Estatuto da Fundação Nacional do Índio; a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais (ratificada pelo Brasil por meio do Decreto nº 5051, de 19 de abril de 2004); e a Declaração Americana Sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

    Recentemente, em 2016, por meio da Portaria/PRES148, de 07/03/2017, foi criado o Conselho da Política de Proteção e Promoção dos Direitos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato, cujo objetivo é estabelecer diretrizes e normativas dessa política pública específica.

    Mesmo tendo um sólido fundamento legal e sendo considerada como uma política indigenista de excelência, a Política de Proteção aos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato vem passando nos últimos anos, e sem dúvida com muito maior intensidade nos últimos meses, por um processo de sucateamento e desestruturação com um significativo corte de recursos humanos e financeiros.

    Conforme proposta de distribuição interna de recursos para o Projeto de Lei Orçamentaria (PLOA) – 2018 encaminhada recentemente pela gestão da Funai, o orçamento previsto para a política pública direcionada aos povos isolados e de recente contato, para o ano de 2018, será cerca de 60% menor em comparação com a LOA de 2015 ficando, desta forma, bastante abaixo da linha de cortes gerais da Funai. Nesse sentido, caso o orçamento destinado à operacionalização das FPEs não seja imediatamente readequado em função de nossas atribuições regimentais, ocorrerá o fechamento de Bases e paralisação geral das atividades das FPEs, acarretando num aumento vertiginoso de  invasões ilegais aos territórios ocupados pelos povos indígenas isolados, sob atuação das FPEs, culminando em situações de conflitos, massacres e de consequente genocídio dos povos indígenas isolados. Todos os avanços pós-constitucionais e de reconhecimento da política indigenista brasileira serão derrubados, colocando o Estado brasileiro definitivamente no quadro de países violadores de direitos humanos. Será, sem dúvida, um dos maiores retrocessos da história indigenista brasileira.  

    Tal processo vem se dando paralelamente ao processo de ataque aos direitos dos povos indígenas garantidos pela Constituição Federal de 1988 e por diversos instrumentos normativos subsequentes. Provas desse processo de sucateamento são as sucessivas cartas com reivindicações que os Coordenadores das Frentes de Proteção Etnoambiental vêm encaminhando formalmente para a Diretoria Colegiada e para a Presidência da Funai desde 2013. Além disso, o processo mais geral de sucateamento da política indigenista e de ataque aos direitos indígenas foi devidamente identificado e caracterizado no “Diagnóstico Sistêmico sobre Organização e Funcionamento da Funai”, elaborado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e no “Relatório da Missão ao Brasil da Relatora Especial sobre os Direitos dos Povos Indígenas”, elaborado pela Sra. Victoria Tauli-Corpuz, Relatora Especial da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

    Assim, considerando:

    (i) que a CGIIRC é uma Coordenação- Geral da Funai extremamente sensível em razão da natureza e da complexidade da ação indigenista junto a povos isolados e de recente contato,

    (ii) que há no Brasil povos isolados e de recente contato em risco iminente de genocídio,

    (iii) que historicamente o processo de nomeação do Coordenador-Geral da CGIIRC é fruto de um consenso entre a DPT e os Coordenadores das FPEs,

    (iv) que orçamento previsto para as FPEs está muito aquém do necessário para o cumprimento mínimo de nossas atribuições.

    Solicitamos o arquivamento imediato dos processos de exoneração e nomeação na CGIIRC, e uma audiência entre os Coordenadores das FPEs, a CGIIRC, a DPT, DAGES e a Presidência da Funai para traçamos, juntos, o futuro e fortalecimento desta política, bem como a readequação do orçamento destinado à CGIIRC/FPEs.

    Atenciosamente,

    Altair Algayer – Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé/RO

    Antonio Lima Saldanha – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari/AM

    Ariovaldo dos Santos – servidor da CGIIRC

    Bernardo Natividade Vargas da Silva – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari/AM

    Bruno da Cunha Araújo Pereira – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari/AM

    Bruno de Lima e Silva – Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Awa/MA

    Carolina Ribeiro Santana – servidora da CGIIRC

    Clarisse Jabur – Coordenadora de Políticas para Povos Indígenas de Recente Contato

    Daianne Veras Pereira – servidora da Frente de Proteção Etnoambiental Awa/MA

    Daniel Cangussu – Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Madeira-Purus/AM

    Edimar Firmino da Silva – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC

    Eumar Vasques da Silva – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari/AM

    Fabio Nogueira Ribeiro – Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema/PA

    Fábio Crespino Passos – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé/RO

    Fabrício Ferreira Amorim – Coordenador de Proteção e Localização de Índios Isolados

    Fernanda Nunes – servidora da CGIIRC

    Franciele Honorato – servidora da Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé/RO

    Gustavo Vieira Peixoto Cruz – servidor da CGIIRC

    Gustavo Sena de Souza – Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari/AM

    Idnilda Obando de Oliveira – servidora da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari/AM

    Jair Candor – Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Madeirinha-Juruena/MT

    Jeferson Lima – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC

    Joelmo Santos de Souza – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema/PA

    Luciano Pohl – Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Médio Xingu/PA

    Luciene Montessi Marcio – servidora da Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé/RO

    Luis Carlos dos Santos – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Awa/MA

    Luiz Rayone Costa de Almeida – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC

    Marcelo Fernando Batista Torres – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC

    Marcus Vinícius Boni – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC

    Maria de Jesus Bezerra Santos – servidora da Frente de Proteção Etnoambiental Awa/MA

    Maria José Rosa – servidora da CGIIRC

    Maria Socorro Martins de Paula – servidora da CGIIRC

    Neide Martins Siqueira – servidora da CGIIRC

    Pablo Rodrigues de Brito – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Médio Xingu/PA

    Pâmella Barros dos Reis Silva – servidora da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC

    Paula Wolthers Pires – Coordenadora de Planejamento e Apoio às Frentes de Proteção Etnoambiental/CGIIRC

    Paulo Pereira da Silva – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé/RO

    Paulo  Pheene – servidor da CGIIRC

    Renan Augusto da Silva Sampaio – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC

    Rieli Franciscato – Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru-Eu-Wau-Wau/RO

    Rui Fernando Sarges Carvalho – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Médio Xingu/PA

    Sérgio Ribeiro dos Santos – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Médio Xingu/PA

    Thiago Mota Meirelles – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC

    Vitor Roger Nogueira David – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari/AM

    William Iafuri – Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC

    Wilson Medeiros dos Santos – servidor da Frente de Proteção Etnoambiental Envira/AC


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  • 13/09/2017

    Indígenas do Médio Rio Negro expulsam garimpeiros de terra demarcada


    Mapa: Instituto Socioambiental (ISA)



    No início de agosto passado, indígenas da comunidade Arurá, da Terra Indígena Médio Rio Negro 2, município de Santa Isabel do Rio Negro (AM), expulsaram um grupo de pessoas que tentava se instalar na localidade para iniciar atividade de garimpo. Segundo Marivelton Rodrigues Barroso, coordenador da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), as comunidades das cinco terras indígenas, localizadas entre os municípios de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro, no oeste do Estado do Amazonas, têm se mobilizado para impedir a entrada de garimpeiros.

    Nos últimos meses, as mobilizações se intensificaram em razão das informações do massacre acontecido no Vale do Javari, onde indígenas conhecidos como “flecheiros” teriam sido mortos por garimpeiros, e das frequentes manifestações de políticos defensores da mineração em terras indígenas.


    O coordenador da Foirn considera “muito equivocada” a posição de deputados e prefeitos para quem  os povos do rio Negro querem mineração em suas terras.  “Tem mobilizações e repúdio das comunidades quanto a questão de mineração. Os Yanomami já se manifestaram, as comunidades do médio e do baixo rio Negro, as comunidades no alto rio Regro, da região dos rios Içana, Traíra e Apaporis”, relata Marivelton Rodrigues.

    “Parlamentares, vereadores, prefeitos, senadores não  podem afirmar que  os povos indígenas do rio Negro querem mineração nas suas terras”, reage o dirigente da Foirn. Para ele, qualquer iniciativa que afete as comunidades indígenas deve ser feita mediante consulta prévia, livre e informada, segundo as determinações da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “No que diz respeito a medidas que venham a ser tomadas pelo Governo, por grupo de pessoas ou parlamentares, têm que submeter à consulta prévia, livre e informada nas cinco terras indígenas da região, com participação dos 23 povos indígenas que as ocupam”, defende Marivelton.

    No início da década de 1990, centenas de garimpeiros ocuparam áreas próximas às comunidades indígenas no Médio Rio Negro. Além de relatos de interferência deles nas comunidades, aumentaram consideravelmente, na época, os casos de violência na cidade de Santa Isabel do Rio Negro, a poluição de rios e igarapés e o desmatamento. Na ocasião, as organizações indígenas promoveram campanhas contra a exploração e conseguiram retirar os garimpeiros da região com ação da Polícia Federal, Fundação Nacional do Índio (Funai) e Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais renováveis (Ibama).

    Marivelton Rodrigues destaca que, para conquistar a demarcação das terras, maior bandeira de luta dos povos indígenas do rio Negro, que unificou as organizações daquela região, foi  contra as  presença das mineradoras. Nos anos 80, por ocasião da Assembleia Nacional Constituinte (1981-1988), o movimento indígena se fortaleceu e, na região do rio Negro, depois de muitas manifestações, as organizações da região conseguiram barrar a presença de empresas mineradoras. “O que nós queremos é defender e garantir nossos territórios para as futuras gerações”, conclui Marivelton.


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  • 13/09/2017

    Guarani ocupam Parque Estadual do Jaraguá


    Movimento pacífico ocorreu na madrugada. Crédito: Amanda Signori/Cimi Regional Sul-SP


    Na madrugada desta quarta-feira (13), por volta das 4h da manhã, as comunidades guarani da Terra Indígena Jaraguá ocuparam o Parque Estadual do Jaraguá. A ocupação é contra a Portaria 683 do Ministério da Justiça, que anulou o processo de demarcação que reconhece 532 hectares de ocupação tradicional do povo Guarani Mbya. A anulação, considerada inconstitucional pelas comunidades guarani, foi solicitada ao Ministério de Justiça pelo governo do estado de São Paulo, para viabilizar, sem qualquer consulta às comunidades, um projeto de concessão dos parques estaduais para a iniciativa privada. A manifestação das comunidades guarani é um ato simbólico e pacífico, e tem por objetivo chamar a atenção da sociedade para a violação de seus direitos, e pressionar o Ministro da Justiça e o Governador de São Paulo a reverem, respectivamente, a revogação da demarcação da TI Jaraguá e o projeto de privatização dos parques estaduais. Também participam do ato outras comunidades indígenas do Estado de São Paulo: Tupi e Guarani do litoral, Terena e Tupi do interior e indígenas de Guarulhos.

    Contato para imprensa:

    Rafael Nakamura (Assessoria): 11 97394-5670

    Manifesto das Comunidades:

    Vídeo disponível em: https://www.facebook.com/yvyrupa

    O JARAGUÁ É GUARANI

    O povo guarani ocupou pacificamente hoje a sede do Parque do Jaraguá para impedir que o Governo Alckmin o coloque à venda. A pedido do Governo Alckmin, no último dia 21 de Agosto, Temer mandou cancelar a demarcação da nossa Terra Indígena do Jaraguá, cujas matas se sobrepõem parcialmente ao Parque do Jaraguá.

    Para eles, a demarcação de nossas terras tradicionais atrapalha seu objetivo de destruir as matas para fazer dinheiro. Fazemos essa ocupação simbólica e pacífica para exigir do Governo Temer a revogação da Portaria 683, do Ministério da Justiça.

    Do Governo Alckmin, exigimos o cancelamento do projeto de privatização dos Parques Estaduais, e a retirada das ações judiciais contra a demarcação da Terra Indígena Jaraguá.Nós Guarani, somos o povo originário da Mata Atlântica. Sempre protegemos essas matas, essas matas foram uma dádiva dada pelas divindades para que nós cuidássemos dela.

    Não deixaremos nenhum governo vender o que Nhanderu deixou para nós. Pedimos a todos que apoiam a preservação da natureza e a nossa luta em defesa de nosso modo de vida:  Venham imediatamente para cá nos ajudar a mostrar a todos que o Jaraguá é Guarani!

    Privatização dos Parques Estaduais de São Paulo e Terra Indígena Jaraguá

    A Lei n° 249/2013 foi aprovada em julho de 2016 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo autorizando a Fazenda do Estado a conceder a exploração de serviços ou o uso de áreas estaduais pelo período de 30 anos. A medida interfere diretamente sobre 25 Unidades de Conservação (UCs), dentre elas o Parque Estadual do Jaraguá, em suas respectivas administrações e comunidades tradicionais que nelas residem ao permitir a exploração dos serviços ou o uso de áreas inerentes ao ecoturismo e à exploração comercial madeireira ou de subprodutos florestais.

    Proposta sob regime de urgência na assembleia, a lei foi sancionada em apenas um mês após a sua propositura sem que houvesse consulta às comunidades afetadas, necessária por lei de acordo com o previsto pela Convenção 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário. Na ocasião da tramitação do Projeto de Lei na Alesp, a então Secretária de Meio Ambiente, Patrícia Iglecias, assegurou que “ficariam de fora das concessões as áreas ocupadas ou com outras restrições fundiárias”, conforme publicado por diversos veículos da imprensa, posição que não se sustentou na lei estadual efetivamente aprovada e sancionada.

    A Terra Indígena Jaraguá tem cerca de 532 hectares e o Parque Estadual do Jaraguá cerca de 493 hectares. Há sobreposição parcial entre as duas áreas protegidas num total de 308 hectares, o que representa pouco mais da metade de cada uma delas considerada isoladamente. Em reunião com lideranças indígenas, o ministro da justiça, Torquato Jardim, confirmou que a anulação (inconstitucional!) da portaria de demarcação da Terra Indígena Jaraguá foi motivada por uma encomenda do Governo do Estado.

    Em diversas ocasiões, a FUNAI e as comunidades guarani procuraram os órgãos estaduais responsáveis pela gestão do parque para a elaboração de um plano de gestão compartilhada. Contudo, diante da falta de abertura para diálogo do estado de São Paulo e da recente anulação da demarcação da Terra Indígena Jaraguá, que coloca as comunidades sob o risco de reintegrações de posse e inviabiliza o seu modo tradicional de vida, os Guarani fazer essa ocupação simbólica da sede do Parque, que não tem sobreposição com a Terra Indígena, para defender a demarcação de sua terra, e impedir degradação das matas do Jaraguá ameaçada pelo projeto de exploração comercial do Parque.

    Comissão Guarani Yvyrupa entra na Justiça contra revogação da demarcação da Terra Indígena Jaraguá

    Na segunda-feira (11), a Comissão Guarani Yvyrupa protocolou no Superior Tribunal de Justiça o Mandado de Segurança n °23770 com pedido de liminar contra a Portaria 683 do Ministério da Justiça. A portaria assinada pelo ministro Torquato Jardim, no dia 15 de agosto de 2017, anulou a declaração de 532 hectares da Terra Indígena Jaraguá reconhecidos anteriormente como de ocupação tradicional do povo Guarani Mbya.

    A representação foi elaborada em conjunto com as comunidades das cinco aldeias da Terra Indígena Jaraguá: Tekoa Ytu, Tekoa Pyau, Tekoa Itakupe, Tekoa Itaendy e Tekoa Itawera. Nas comunidades vivem cerca de 700 indígenas, mais da metade crianças, que passaram a viver sob ameaças de reintegrações de posse após a anulação da Portaria 581, de 2015.

    Mais informações:

    A população guarani que reside na Terra Indígena Jaraguá, noroeste do município de São Paulo, divisa com Osasco, é de cerca de 700 pessoas que se distribuem hoje em cinco aldeias: aldeia Ytu, aldeia Pyau, aldeia Itakupe, aldeia Ita Vera e aldeia Ita Endy.

    A TI Jaraguá foi reconhecida inicialmente na década de 1980, mas foi então regularizada com apenas 1,7 hectare, configurando-se como a menor área indígena do país. A falta absoluta de espaço é o detonante de inúmeros problemas sociais e culturais. A situação dos guarani do Jaraguá foi extremamente agravada pela construção da Rodovia dos Bandeirantes, inaugurada em 1978 sem qualquer consideração à presença indígena. A estrada suprimiu parte de suas áreas de ocupação tradicional.

    Em 2002, por fruto da luta das lideranças indígenas, iniciou-se um processo para delimitação dos limites do território dentro dos padrões estabelecidos pela Constituição Federal de 1988. Os artigos 231 e 232 da constituição garantem os direitos dos povos indígenas às terras que tradicionalmente ocupam, o que inclui as áreas de habitação, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.

    Após longos anos, no dia 30 de abril de 2013, a Fundação Nacional do Índio aprovou e publicou no Diário Oficial da União (Portaria FUNAI/PRES N° 544) os resultados dos estudos técnicos que reconhecem 532 hectares como limites constitucionais da Terra Indígena Jaraguá, incluindo as aldeias atualmente ocupadas, e as áreas necessárias para a reprodução física e cultural do grupo.

    De acordo com o Decreto Presidencial nº 1775, que regulamenta o processo de demarcação de Terras Indígenas no país, abre-se, a partir da publicação desses estudos, período de 90 dias para que os interessados apresentem contestações administrativas. Houveram três manifestações de contestantes ao processo de identificação e delimitação da TI Jaraguá que foram respondidas pela Funai. Nenhuma destas contestações foi do Governo do Estado de São Paulo, que apesar de ter sido formalmente notificado, pede a anulação da demarcação alegando não ter participado do processo.

    Dando sequência ao processo de demarcação, em 29 de maio de 2015 o Ministério da Justiça publicou a Portaria 581/2015 que declarou os 532 hectares da TI Jaraguá como de ocupação tradicional do povo Guarani Mbya. A Portaria 683/2017, também do Ministério da Justiça, anula a portaria anterior.

    Entenda os processos na justiça

    Entrevista do Instituto Socioambiental com Bruno Morais, da assessoria jurídica da Comissão Guarani Yvyrupa

    ISA – A portaria do ministro Torquato Jardim cita decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) e alega que o Estado de São Paulo não foi ouvido no processo. Por que essas ações questionam a demarcação da TI?

    Bruno Morais – O Jaraguá enfrentava três ações contrárias ao processo demarcatório. Duas eram Mandados de Segurança, que corriam no Superior Tribunal de Justiça, e um deles [MS 22086-DF] foi proposto pelo Estado de São Paulo, com a alegação de que ele teria direito de ter participado do procedimento administrativo – e que a demarcação teria sobreposto quase a totalidade do PES Jaraguá, o que não é verdade. A sobreposição pega 56% do Parque. O espólio de Antonio Pereira Leite, que é um dos supostos proprietários de um terreno onde está o Tekoa Pyau, ingressou também com um Mandado de Segurança [MS 22472-DF] no STJ, pedindo a suspensão da portaria declaratória, com base na ideia do marco temporal e da proibição da atualização dos limites da TI. Essas duas ações obtiveram liminar, no final de 2015, antes de ser ouvida a União e a própria Funai – e sem a presença da comunidade indígena no processo. A comunidade indígena pediu a habilitação no processo. Ela foi concedida, mas o mérito nunca foi julgado.

    ISA – Existem outras decisões judiciais sobre o caso?

    BM – A portaria do ministro faz referência a um recurso contra uma dessas ações [SS 5108-DF] que teria tramitado no STJ, que ficou paralisado no Supremo e teve uma decisão do Ricardo Lewandowski, que indeferiu o pedido, mas ficou carecendo de julgamento final. Assim, nenhum dos processos citados na portaria tem mais do que uma liminar: nenhum tem sentença final, nenhum foi encerrado. A portaria [683/2017] ignora a existência de um terceiro processo, ingressado diretamente no Supremo, por um dos proprietários que incidia sobre a demarcação, o [ex-deputado] Tito Costa, sobre o Tekoa Itakupe, área que foi ameaçada de despejo. Ele ingressou com o Mandado de Segurança em 2016 e levou um estrondoso “não” do [ministro do STF] Dias Toffoli, que, para além de dar uma decisão dizendo que Mandado de Segurança não servia para questionar demarcação de Terra Indígena, diz que todos os indícios que existiam naquele processo [de demarcação] apontavam pela tradicionalidade da Terra Indígena e não o contrário. Esse processo [MS 33821-DF] foi julgado finalmente e a liminar foi confirmada no plenário do Supremo – mas o Ministro da Justiça omite essa informação da portaria e cita três processos que não têm decisão final.

    ISA – Se as decisões não são definitivas, qual seria a motivação do Ministro da Justiça para revogar a portaria declaratória?

    BM – A única resposta que existe para essa questão é uma resposta política, porque juridicamente não existe motivo para revogar uma portaria declaratória. Pelo contrário: existem vários motivos para não revogar. Existe um princípio no direito administrativo – da economia ou da razoabilidade do processo – que diz que o processo administrativo não pode andar para trás; ele só pode andar pra frente. Além disso, o Decreto 1775/96 não concede competência para o Ministro da Justiça revogar uma portaria, então a revogação também fere o princípio da legalidade. Para além disso, existe um princípio maior nos direitos fundamentais: direitos humanos ou fundamentais não podem retroceder, só andar para a frente em sua implementação. Então não há qualquer justificativa jurídica que conceda legalidade à revogação dessa portaria.

    Das motivações instadas pelo Ministro da Justiça, nenhuma se sustenta juridicamente. No próprio procedimento administrativo da Funai, há uma farta documentação que desmonta a argumentação do ministro. Se olharmos o procedimento da Funai, vemos que a Funai repetidas vezes notificou o Estado de São Paulo, chegou a fazer reuniões com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente até que essa Secretaria recebeu um parecer jurídico da Procuradoria Geral do Estado, orientando todos os órgãos estaduais a parar de fazer contato com a Funai. Quer dizer: o Estado deliberadamente se ausentou do procedimento administrativo de demarcação, para alavancar uma justificativa jurídica para sua anulação. Isso revela a verdadeira motivação dessa portaria [de anulação].

    ISA – Para viabilizar o projeto de concessão privada dos Parques Estaduais (PES) do governo?

    BM – Desde o advento da portaria [do Ministério da Justiça], o Secretário de Estado do Meio Ambiente [Ricardo de Aquino Salles] tem dado entrevistas e repercutido o assunto dizendo: “Que bom que a portaria foi revogada, porque agora a gente vai conseguir destravar o processo de privatização do PES Jaraguá”. Esse projeto de privatização dos parques vem sendo tocado desde o início sem consulta às comunidades indígenas – que inclusive têm assento no Conselho Gestor da Unidade [de Conservação] – e está completamente associado à judicialização da demarcação do Jaraguá. O que demonstra a motivação política do governo federal, uma troca de favores com o governo do Estado. A motivação é política e tem ficado cada vez mais clara toda vez que o Secretário do Meio Ambiente abre a boca. Ele inclusive tem dito que o PES Jaraguá não pode conviver com os Guarani e que ele vai reassentar a comunidade indígena a partir de um acordo com a comunidade. Isso é completamente ilegal.

    Saiba mais sobre a revogação da demarcação da Terra Indígena do Jaraguá:

    – Nota de repúdio da Comissão Guarani Yvyrupa: http://www.yvyrupa.org.br/blog/2017/08/21/fora-temer-o-jaragua-e-guarani/)

    – Nota técnica do Centro de Trabalho indigenista contestando a Portaria 683/2017: http://trabalhoindigenista.org.br/repudio-anulacao-da-portaria-declaratoria-da-terra-indigena-jaragua/)

    – Nota coletiva de organizações indígenas e indigenistas: http://trabalhoindigenista.org.br/organizacoes-da-sociedade-civil-manifestam-repudio-anulacao-da-portaria-declaratoria-da-terra-indigena-jaragua-e-exigem-revogacao-das-medidas-anti-indigenas-governo-temer/

    – Nota do Conselho Indigenista Missionário: https://cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=9440&action=read

    – Matéria do Instituto Socioambiental que explica o caso: https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/guarani-prometem-resistencia-contra-anulacao-da-terra-indigena-jaragua

    Saiba mais sobre a Lei de Privatização das Unidades de Conservação em São Paulo

    – Representação da CGY contra a Lei de Privatização das Unidades de Conservação em São Paulo:

    http://trabalhoindigenista.org.br/organizacoes-encaminham-representacao-contra-lei-de-privatizacao-das-unidades-de-conservacao-em-sao-paulo/


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  • 12/09/2017

    Diocese do Alto Solimões manifesta-se sobre denúncia de massacre de indígenas no Vale do Javari


    Maloca de indígenas isolados na TI Vale do Javari. Foto: CGIIRC/Funai

    Em nota divulgada nesta segunda (11) a respeito do possível massacre de indígenas isolados no rio Jandiatuba, no interior da Terra Indígena Vale do Javari, a Diocese do Alto Solimões manifestou seu "máximo repúdio a este e a todo ato de violência para com nossos irmãos indígenas", denunciando os prejuízos que a mineração vem provocando há anos nesta região. A nota, assinada pelo Bispo de Alto Solimões (AM), Dom Adolfo Zon Pereira, lamenta "o patrocínio pelo poder público federal à mineração em detrimento das minorias, especialmente dos Povos Indígenas". Confira:

    Nota da diocese do Alto Solimões sobre os fatos nas terras do Jandiatuba (AM)

    “Os povos indígenas têm o direito coletivo de viver em liberdade, paz e segurança, como povos distintos, e não serão submetidos a qualquer ato de genocídio ou a qualquer outro ato de violência…”. (DPI Art 7º # 2)

    A Diocese do Alto Solimões, ao tomar conhecimento do suposto massacre dos índios isolados conhecidos como flecheiros acontecido no mês de agosto deste ano no rio Jandiatuba (São Paulo de Olivença-AM), na Terra Indígena do Vale do Javari, e envolvendo garimpeiros que trabalham no local, quer manifestar seu máximo repúdio a este e a todo ato de violência para com nossos irmãos indígenas, denunciar os prejuízos que a mineração provoca há anos no rio Jandiatuba e lamentar o patrocínio pelo poder público federal à mineração em detrimento das minorias, especialmente dos Povos Indígenas.

    Pede que o Governo Federal assuma com firmeza seu papel constitucional e subsidiário na política indigenista, respeitando e protegendo as terras demarcadas e completando as demarcações na calha do Jandiatuba e garanta uma efetiva proteção às áreas indígenas fortalecendo as bases de vigilância da FUNAI, que nestes últimos anos sofrem com o descaso e os cortes de recursos.

    Manifesta seu total apoio ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal para que as investigações iniciadas possam ter seu desenvolvimento e punam os suspeitos mandantes e executores deste vil crime, auspicando que seja feita efetiva justiça.

    Reafirma com palavras do papa Francisco que “é preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos e das culturas, dando assim provas de compreender que o desenvolvimento dum grupo social supõe um processo histórico no âmbito dum contexto cultural e requer constantemente o protagonismo dos atores sociais locais a partir da sua própria cultura” (Encíclica Laudato Si’ n. 144).

    Agradece as muitas manifestações de solidariedade e apoio de bispos e entidades que nos chegaram nestes dias pelos diferentes meios de comunicação.

    Nossa Senhora da Assunção, padroeira da Diocese, interceda e proteja a quantos, pela ganância e sede de lucro de poucos, são ameaçados e desrespeitados em seus direitos.

    Tabatinga, 11 de setembro de 2017.
    Dom Adolfo Zon Pereira – Bispo de Alto Solimões (AM).

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  • 12/09/2017

    Coiab e CIR divulgam notas de repúdio ao massacre contra indígenas isolados no Vale do Javari


    Povo Kanamari, do Vale do Javari, denunciam há anos tais massacres. Foto: J. Rosha/Cimi Norte I


    A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR) divulgaram nesta terça-feira, 12, notas públicas de repúdio ao massacre de indígenas isolados, conhecido como "flecheiros", ocorrido no rio Jandiatuba, interior da Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do estado do Amazonas. O Ministério Público Federal (MPF) confirmou que “investiga a denúncia de mortes de índios isolados na região do Vale do Javari” apresentada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e que “há diligências em curso”.

    Nos textos as organizações denunciam o desmonte da Funai intensificado após o sequestro por Michel Temer do Palácio do Planalto. "As diversas ameaças de retrocessos, ataques e o golpe contra a vida dos povos indígenas têm sido fatos claros neste país, ações que confirmam o preconceito, racismo e desrespeito com a vida do próximo", diz a Coiab.

    O CIR, por sua vez, ressalta "as respostas da FUNAI dada ao coordenador geral da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA), Paulo Marubo, de que não há provas sobre o massacre, como publicou hoje, 11, a Agência Carta Capital. É inadmissível que o órgão indigenista não dê atenção para um caso grave e urgente".

    Leia as notas na íntegra:

    NOTA DE REPÚDIO E EXIGÊNCIA DE INVESTIGAÇÃO NO CASO DO MASSACRE DOS POVOS ISOLADOS NO VALE DO JAVARI

    A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), instância máxima de representação e defesa dos direitos dos povos indígenas da Amazônia Brasileira, juntamente com sua rede de organizações e povos indígenas, vem por meio desta manifestar o seu incondicional APOIO, assim como compartilha e ratifica todas as notas de repúdios e manifestações dos povos indígenas do Brasil contra o massacre sofrido pelos índios isolados no interior da Terra Indígena Vale do Javari, localizada na região da tríplice fronteira Brasil, Peru e Colômbia. Assim como vimos ainda REPUDIAR veementemente tal ação brutal e violenta impetrada contra a vida desses indígenas em isolamento voluntário, em uma região que concentra a maior quantidade de povos indígenas isolados do mundo, para qual o estado brasileiro deveria garantir os direitos mínimos de territórios e proteção para a sua sobrevivência.

    Tal massacre só vem demonstrar e reafirmar o incalculável retrocesso aos direitos humanos e direito a vida dos povos indígena neste país plural. Os ataques e a morte dos nossos parentes do Vale do Javari é a morte de todos nós povos indígenas que lutamos incansavelmente pela nossa existência na nossa própria casa, que defendemos a existência da humanidade através da proteção dos recursos ainda existentes neste território.

    Manifestamos a nossa grande indignação sobre a mutilação da FUNAI, mais especificamente sobre o fechamento das Frentes de Proteção Etnoambientais e corte drástico dos recursos do órgão indigenista estatal, que minimamente possibilitam os trabalhos dos servidores para proteção desses povos. Este corte e desmonte da FUNAI é interesse dos grandes políticos que continuam saqueando nossos recursos, direitos territoriais e de existência, é interesse daqueles que defendem a mineração em terras indígenas e vem loteando as diretorias da FUNAI para seu interesse próprio.

    As diversas ameaças de retrocessos, ataques e o golpe contra a vida dos povos indígenas têm sido fatos claros neste país, ações que confirmam o preconceito, racismo e desrespeito com a vida do próximo. Os povos indígenas nunca estiveram tão ameaçados, desrespeitados e massacrados, mesmo com tantos avanços de garantias de direitos humanos, desde a invasão deste território indígena que deram o nome de Brasil.

    A COIAB exige sérias investigação e atuação urgente dos órgãos e autoridades competentes, da ouvidoria da FUNAI, da 6ª Câmara do MPF, da Polícia Federal, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara e do Senado Federal, do Conselho Nacional de Política de Índios Isolados e de Recente Contato da FUNAI/MJ, e de outros órgãos e entidades, nesse caso do massacre no Vale do Javari. Pois essa situação de ataques e mortes dos povos indígenas isolados na região não é o primeiro caso e vem se arrastando há décadas sem ter a atenção devida pelo Estado Brasileiro.

    A COIAB reafirma sua luta na defesa dos direitos indígenas e na existência dos povos indígenas do Vale do Javari, no apoio a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari – UNIVAJA e de toda a Amazônia, pelo direito a vida de cada um dos povos indígenas, bem como permanece vigilante e pronto para a guerra, se necessário for, pela garantia da existência dos nossos povos.

    Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira

    Manaus(AM), 12 de Setembro de 2017

    CIR: Nota de apoio aos povos indígenas do Vale do Javari

    O Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização indígena criada para defender os direitos e interesses dos povos indígenas de Roraima vem manifestar apoio aos povos indígenas do Vale do Javari que passam pelo piores momentos da sua história com os massacres de grupos indígenas isolados, entre eles, os identificados como “flecheiros”, ocorrido no mês de agosto no rio Jandiatuba, afluentes do rio Solimões, no município de São Paulo de Olivença, na fronteira com Peru e Colômbia, conforme noticiado nos últimos dias e confirmado pelo Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM), na última sexta-feira, 8 de agosto, segundo a Agência de Notícia Amazônia Real. Tais massacres também foram denunciados na XI Assembleia Geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), ocorrido no período de 28 a 30 de agosto, na Aldeia Sede, Terra Indígena Alto Rio Guamá, estado do Pará.

    A situação é extremamente preocupante e merece atenção por parte do Estado brasileiro que há anos, mesmo com a denúncia dos povos indígenas do Vale do Javari, e do movimento indígena regional e nacional, não faz nenhum esforço para ouvi-los e nem prestar a devida assistência.

    E com o triste fato de que estão ocorrendo, sim, os massacres indígenas por parte dos garimpeiros, maiores destruidores da nossa floresta amazônica, pedimos que o Estado brasileiro e as autoridades públicas façam uma profunda investigação, assim como a nossa única instituição indigenista, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), que apesar das inúmeras dificuldades que tem passando nos últimos tempos, tem por obrigação legal de atuar pela proteção dos territórios e pela vida dos povos indígenas do Brasil. Neste caso, pela vida dos povos indígenas do Vale do Javari.

    Na ocasião, repudiamos as respostas da FUNAI dada ao coordenador geral da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA), Paulo Marubo, de que não há provas sobre o massacre, como publicou hoje, 11, a Agência Carta Capital. É inadmissível que o órgão indigenista não dê atenção para um caso grave e urgente.  

    Por fim, reafirmamos o nosso apoio a luta dos povos indígenas do Vale do Javari, que tanto lutam em defesa dos seus direitos, proteção dos seus recursos naturais, rios, florestas, e acima de tudo, lutam em defesa da vida dos povos indígenas que ali habitam.

    “A luta continua e vivo até o último índio”.

    Boa Vista, 11 de setembro de 2017.

    Conselho Indígena de Roraima – CIR


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  • 12/09/2017

    Nota do Cimi: o inaceitável massacre de indígenas isolados no Vale do Javari


    O inaceitável massacre de indígenas isolados no Vale do Javari

    Nota do Conselho Indigenista Missionário – Cimi
     

    “Por causa de Sião não me calarei… não ficarei quieto, até que a justiça surja como a aurora e a salvação brilhe como uma lâmpada”. (Is 62, 1)

    O Conselho Indigenista Missionário vem a público manifestar profunda preocupação diante das informações acerca de possível massacre de indígenas em isolamento voluntário ocorrido no rio Jandiatuba, interior da Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do estado do Amazonas. O Ministério Público Federal (MPF) confirmou que “investiga a denúncia de mortes de índios isolados na região do Vale do Javari” apresentada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e que “há diligências em curso”. O massacre teria sido cometido no mês de agosto de 2017, por garimpeiros que vinham explorando ilegalmente a região. Suspeita-se que a chacina teria sido cometida contra o grupo conhecido como “flecheiros” de cuja existência se tem notícias desde a década de 1970.

    As atividades ilegais de garimpo na região do rio Jandiatuba já tinham sido denunciadas às autoridades várias vezes por moradores locais, lideranças indígenas, organizações da sociedade civil e pastorais. Recentemente as atividades de garimpo haviam sido intensificadas na região do limite da Terra Indígena Vale do Javari. No entanto, nenhuma operação de combate ao garimpo ilegal tinha sido deflagrada pelos órgãos de fiscalização até o mês de agosto de 2017. Uma ação neste sentido foi realizada somente no final do mês de agosto, motivada pela notícia do massacre. Causam preocupação também as denúncias de que moradores locais estariam sendo ameaçados.

    O alto curso do rio Jandiatuba, onde teria ocorrido o massacre, encontra-se dentro dos limites da Terra Indígena Vale do Javari, mas o seu médio e baixo curso são hoje parte de uma reivindicação de reconhecimento como território dos povos indígenas Kambeba, Kokama e Ticuna do município de São Paulo de Olivença. Há ao menos sete comunidades destes povos no baixo e médio Jandiatuba, que também sofrem com as consequências do garimpo. Os processos de identificação e delimitação desta área encontram-se paralisados. A referida demarcação coibiria a entrada de garimpeiros e outros invasores na região onde se localizam os indígenas isolados, o que evitaria riscos a estes grupos.
    Embora não confirmados até o momento, indígenas relatam que outros dois massacres de povos isolados teriam corrido no interior da Terra Indígena Vale do Javari, na região do rio Jutaí.

    O Vale do Javari é a região com a maior presença de povos indígenas isolados no mundo. São cerca de 15 referências, de um total de 110 existentes na Amazônia brasileira.

    Ao cortar recursos da Fundação Nacional do Índio (Funai), o governo Temer promoveu a desestruturação dos trabalhos de Bases de Proteção Etnoambientais localizadas em regiões com registro da presença de povos isolados e de recente contato na Amazônia brasileira, inclusive no Vale do Javari. As mesmas funcionam de modo extremamente limitado, não possuindo recursos para manutenção de pessoal suficiente ou para estrutura necessária ao combate de invasões nas terras indígenas.

    Com essas ações, o governo Temer assume o risco da ocorrência de massacres e genocídio desses povos, já que os mesmos ficam completamente expostos a invasões de garimpeiros, caçadores, pescadores ilegais, madeireiros e fazendeiros.

    É inaceitável que o genocídio desses povos continue se repetindo em nosso país. O Brasil está entre os países que têm os dispositivos constitucionais mais avançados do mundo em termos de garantia dos direitos dos indígenas. Dispositivos estes que responsabilizam diretamente a União por sua proteção.

    No entanto, além do abandono dos povos isolados, o governo Temer vem adotando recorrentes medidas anti-indígenas, que atendem e reforçam os interesses dos ruralistas e demais grupos econômicos interessados na invasão e exploração das terras indígenas. Ações como a aprovação do Parecer 001/2017 da Advocacia Geral da União, o Decreto relativo à Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) e a Portaria 683/17 do Ministério da Justiça desconstituem os direitos indígenas e funcionam como mecanismos de incentivo às violências contra os povos originários no Brasil.

    Por isso, qualquer massacre de indígenas isolados que tenha ocorrido ou que venha a ocorrer no Vale do Javari e ou noutras regiões da Amazônia brasileira é de responsabilidade direta do governo Temer.

    É preciso dar um basta ao genocídio de povos indígenas. Conclamamos a todos os homens e mulheres de boa fé, às organizações indígenas, à sociedade civil organizada, às igrejas e à comunidade internacional a exigir do governo brasileiro ações imediatas de proteção dos povos isolados da Amazônia brasileira e, de modo particular, do Vale do Javari. Para isso, dentre outras medidas, faz-se necessário:

    – A apuração rigorosa do massacre ocorrido no rio Jandiatuba e das denúncias sobre outros massacres de povos indígenas em isolamento voluntário na região, e a punição dos assassinos;

    – O desmantelamento definitivo dos garimpos ilegais nos rios Jutaí e Jandiatuba;

    – A criação imediata de Bases de Proteção Etnoambiental na região sul da TI do Vale do Javari;

    – A demarcação das terras dos povos indígenas do município de São Paulo de Olivença no baixo e médio curso do rio Jandiatuba;

    – A urgente proteção aos moradores locais ameaçados;

    – A dotação orçamentária necessária para que a Funai e demais órgãos oficiais de fiscalização possam exercer suas responsabilidades institucionais de combate às invasões e à exploração das terras indígenas;

    – A revogação do Parecer 001/2017 da AGU e o fim da conspiração do governo Temer contra dos direitos constitucionais dos povos indígenas no Brasil;

    Brasília, 12 de setembro de 2017
    Conselho Indigenista Missionário – Cimi


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  • 11/09/2017

    Assembleia da Juventude Tupinambá discute povos Indígenas, territórios e biomas


    Crédito da foto: Haroldo Heleno/Cimi Regional Leste


    Foi realizado no período de 25 a 27 de agosto de 2017, na Aldeia Acuípe de Baixo, Território Indígena Tupinambá de Olivença, na divisa dos municípios de Una e Ilhéus, o VI Encontro da Juventude Indígena Tupinambá de Olivença, contando com aproximadamente 90 pessoas, sendo 60 jovens indígenas. O tema do encontro foi: “Povos Indígenas, Territórios e Biomas: Berço da Vida, Lutas e Esperança”.  A partir de mesas expositoras, trabalhos em grupo, troca de experiências e muito ritual, o encontro proporcionou uma grande riqueza para a juventude Tupinambá.

    A atividade teve o apoio do Conselho Indigenista Missionário, equipe sul da Bahia e de Misereor, e faz parte do programa de formação do Cimi junto a juventude indígena. Teve como objetivo: “Retomar e Fortalecer o Processo de Articulação e Reorganização Interna da Juventude Indígena Tupinambá de Olivença”.

    A abertura com um grande ritual juntando a animação e vitalidade da juventude e a experiência dos anciãos trouxe até eles recados e a presença dos encantados, já no início do evento demonstrando a sua importância. E foi assim durante toda a atividade. Sempre mesclando momentos de trabalho e celebrando a espiritualidade.  

    A mesa de abertura contou com a presença dos organizadores do evento, das entidades de apoio, do cacique anfitrião Valdenilson, dos representantes do Colégio e da Universidade Estadual de Santa Cruz, mas o destaque foi à presença dos anciãos, o que, aliás, foi bastante valorizado e referendado pelos jovens. Na segunda mesa, os missionários do Cimi Haroldo Heleno e Jenário Alves fizeram uma rica análise de conjuntura fazendo um paralelo com a luta e a situação territorial da comunidade Tupinambá. Houve bastante interação e várias perguntas surgiram a partir da exposição.

    Na parte da tarde foram organizados grupos de trabalhos, sendo conduzido de forma brilhante pelos próprios jovens Tupinambá, os GT foram: “Organização e Território”; “Direitos e Cultura”; e “Sustentabilidade e Autonomia”. Os grupos trabalharam durante todo o dia e muitas reflexões importante e encaminhamentos foram definidos a partir destas reflexões. Em especial se destaca a necessidade da juventude retomar de forma organizada e articulada a participação no processo de luta pela reconquista e garantia de seu território, um maior envolvimento dos jovens junto às lideranças do povo nas viagens, nas reuniões.

    Na questão dos direitos se viu a necessidade de buscar maior conhecimento, de promover momento de estudo e reflexão sobre os direitos dos povos indígenas, buscar ler mais, garantir nos encontros o tema de direitos, na questão da cultura é preciso valorizar mais os anciãos, as nossas tradições, temos que retomar os nossos rituais, ficou certo retomar a prática de rituais nas comunidades, valorizar as nossas pinturas o nosso artesanato. A questão da sustentabilidade e autonomia, mas uma vez reforçamos que precisamos retomar as feituras das roças da juventude como a comunidade da Serra do Padeiro já vem fazendo, surgiu a proposta de roças conjuntas entre os jovens de diferentes comunidades, de fazer artesanato para garantir nossos encontros.

    À noite, em volta da fogueira, um momento emocionante e rico de troca de experiências e onde a juventude pode ouvir os anciãos, suas histórias, suas lutas. Puderam beber de toda riqueza que estes depositários de sua história colocavam naquele momento mágico a disposição da sedenta juventude Tupinambá. Momentos que precisam ser mais valorizados e acontecer com mais constância, afirmou um dos jovens organizadores do evento.  

    Temos papel fundamental na defesa do nosso bioma Mata Atlântica, a partir dos relatos dos nossos anciãos percebemos que devemos cuidar com muito zelo e firmeza de nosso território, pois ele é sinônimo de vida, sem ele, não temos como sobreviver, nossos encantados vivem nestas matas, e não podemos permitir que os brancos a destruam com as suas explorações de areias, madeiras e as suas grandes construções de hotéis. Junto com os anciãos e a nossas lideranças vamos defender as nossas terras sempre”. Afirmou a jovem liderança Bruno Tupinambá.

    No domingo, durante o encerramento, foi apresentada a carta final do evento, onde os jovens repudiam os ataques que vem sofrendo as comunidades indígenas em todo Brasil e se solidarizam com outras lutas. Dando um destaque a situação dos Guarani do Jaraguá.

    Leia a carta na íntegra:

    CARTA DE REPÚDIO E INDIGNAÇÃO DA JUVENTUDE TUPINAMBÁ DE OLIVENÇA                         

    Acuípe, 27 de agosto de 2017

                                                         

    Nós, Juventude indígena Tupinambá de Olivença, reunidos na Aldeia de Acuípe de Baixo, entre os dias 25 a 27 de setembro de 2017, no seminário dos jovens indígenas. Somos aproximadamente 70 jovens vindos de diversas comunidade do nosso Território. Após várias reflexões sobre a conjuntura atual do País e percebemos os enormes ataques que sofremos promovido pelo grande capital e pela bancada ruralista. Os nossos territórios e os nossos bens naturais são os motivos de tantos ataques e preconceitos. O governo brasileiro que tem o dever de defender e garantir o território pois o patrimônio pertence à União e de garantir os nossos direitos que estão na Constituição Federal, pelo contrário tem sido um dos nosso piores inimigo.

    É neste sentido que nós jovens Tupinambá de Olivença vimos por meio desta repudiar o Parecer n. 001/2017/GAB/CGU/AGU, publicado no Diário Oficial da União que obriga a Administração Pública Federal a aplicar as 19 condicionantes que o STF estabeleceu na decisão da PET n. 3.388/RR quando reconheceu a constitucionalidade da demarcação contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol a todas as terras indígenas. Solicitamos a imediata anulação deste parecer por que ele pode causar ainda mais estrago junto a nossa comunidade. Repudiamos também as falas do Ministro do STF, Gilmar Mendes no dia 16 de agosto quando do julgamento do Marco Temporal, no STF, palavras preconceituosas e de puro desconhecimento sobre o nosso povo.

    Aqui existem índios sim, senhor Ministro. Fomos reconhecidos em 2002, pelo governo federal, mas não precisamos deste reconhecimento, pois sabemos quem somos e aqui sempre estivemos. Sabemos também que a convenção 169 da OIT, nos garante o direito do auto reconhecimento. Não vai ser o senhor que vai nos ensinar o que é ser índio ou não. Aproveitamos para exigir que o governo brasileiro e os órgãos responsáveis cumpram com as suas obrigações e demarque o nosso território o mais urgente possível, não existe nenhum impedimento administrativo e sim político que o impedem de fazer isto. Esta demora tem causado muita violência contra o nosso povo e as nossas lideranças.

    Expressamos nossa solidariedade a todos os povos do Brasil que passam pelo mesmo processo de desrespeito e violência. Neste momento mostramos toda nossa indignação contra o Ministro da Justiça Torquato Jardim que revogou a demarcação da Reserva Indígena dos parentes Guarani do Jaraguá no estado de São Paulo.

    Por fim convocamos toda juventude indígena do Brasil, para que nos juntemos em defesa de nossos territórios e de nossos direitos. Não podemos mais permitir que depois de 517 anos eles continuem nos roubando e agredindo. Vamos fazer uma grande marcha da juventude indígena denunciando e pedindo providências contra esta situação.

    Juventude Indígena Tupinambá de Olivença, presente na luta, sempre!


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  • 11/09/2017

    Na luta e resistência, povo Deni celebra história em XII Assembleia da Aspodex


    Indígenas da região de Tefé têm realizado encontros de formação, entre eles a Assembleia Deni. Crédito: Lygia Kloster Apel/Cimi

    Num clima de resistência e celebração, conquista e perspectiva, o povo Deni inicia o processo de articulação e organização de sua XII Assembleia da Associação do Povo Deni do Rio Xerua (ASPODEX), que acontece entre os dias 20 e 22 de setembro, na aldeia Itauba, no município de Itamarati (AM).

    A Assembleia da ASPODEX é a instância máxima, com poder de decisão, sobre como o povo Deni deve enfrentar seus problemas e ameaças aos seus direitos e, também, celebrar sua luta e suas conquistas. Para Marizanu Deni, presidente da Associação, “a importância da Assembleia está no fortalecimento da organização do povo e é um espaço de formação, interação e fortalecimento cultural”. Nas pautas que serão debatidas, o povo Deni discutirá seus projetos de vida na perspectiva de projetar um futuro digno e com direitos respeitados.

    Para os missionários do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) de Tefé (AM), Fábio Pereira e Raimundo Francisco, que prestam assistência e assessoria à ASPODEX, o evento é um gesto de comunhão com a luta e resistência dos parentes em todo o Brasil. “Nesses tempos de ataques aos direitos indígenas, é importante discutir a conjuntura política e seus efeitos para a causa indígena”, diz o missionário Fábio Pereira.

    Como parte da mobilização e divulgação da Assembleia para a população de Itamarati, neste dia 5 de setembro, o presidente Marizanu Deni e os missionários participaram do programa A Hora do Povo, na Rádio Comunitária FM do Povo, com o comunicador Gerson Amâncio.

    Na oportunidade, Marizanu Deni fez o convite ao poder público do município para participar da Assembleia e, juntos, dialogar em busca de mecanismos que possibilitem a implementação de políticas públicas indigenistas eficazes na resolução dos problemas e desafios que enfrentam. Com essa participação, o povo Deni mostra para a sociedade envolvente que, mesmo com tanta violação aos seus direitos, que há anos vêm sofrendo, eles resistem e fortalecem seus modos de vida tradicionais e sua cultura. “Nossa Assembleia será uma IMA AMUSINAHA (festa grande)", diz Marizanu.


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  • 06/09/2017

    CNBB se manifesta sobre decretos que extinguem reserva na Amazônia


    A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nesta terça-feira, 5, dia da Amazônia, uma nota na qual manifesta “veemente repúdio” aos decretos que extinguem a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca). Para a entidade, a decisão governamental afronta a Constituição Federal ao não consultar os povos indígenas e evidencia a perversa lógica do mercado que vem sendo adotada no Brasil, “em detrimento da vida, da dignidade da pessoa e do cuidado com a Casa Comum”. “Políticas governamentais de incentivo às hidrelétricas, à mineração e ao agronegócio, com flexibilização de licenças ambientais, anulam os esforços em prol de sua preservação”, considera a CNBB.

    No texto, a conferência incentiva as comunidades e organizações sociais a se manifestarem de forma pacífica e contundente em favor da Amazônia, “exigindo a revogação integral dos decretos de extinção da Renca”.

    Leia na íntegra:

    NOTA DA CNBB EM DEFESA DA AMAZÔNIA

    “Viver a vocação de guardiões da obra de Deus”
    (Papa Francisco, Laudato si’, 217)

    A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, por ocasião do Dia da Amazônia, em união com os irmãos bispos e comunidades dos estados do Amapá e Pará, manifesta seu veemente repúdio aos decretos 9.142/2017 e 9.147/2017, de iniciativa do governo federal, que extinguem a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados – RENCA.

    Desconsiderando os povos indígenas e comunidades tradicionais, a decisão governamental afronta a Constituição Federal, no artigo 231, e evidencia a perversa lógica do mercado que vem sendo adotada em nosso país, em detrimento da vida, da dignidade da pessoa e do cuidado com a Casa Comum. “Há propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais” (Laudato si’, 38).

    A Amazônia é um “verde e vasto mundo de águas e florestas, onde as copas de árvores imensas escondem o úmido nascimento, reprodução e morte de mais de um terço das espécies que vivem sobre a Terra” (CF 2017, Texto Base, 30).

    A exuberância do bioma amazônico esconde uma enorme fragilidade. Políticas governamentais de incentivo às hidrelétricas, à mineração e ao agronegócio, com flexibilização de licenças ambientais, anulam os esforços em prol de sua preservação.

    Os danos causados pela ação humana são muitas vezes irreversíveis (cf. Laudato si’, 37-39). “O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito pela pessoa e por todas as criaturas vivas” (Papa Francisco e Patriarca Ecumênico Bartolomeu, III Jornada pela Cura da Criação, 2017).

    Aos que possuem poder de decisão e “a quantos ocupam uma posição de relevo em âmbito social, econômico, político e cultural, dirigimos um apelo urgente a prestar responsavelmente ouvidos ao grito da terra” (Papa Francisco e Patriarca Ecumênico Bartolomeu, III Jornada de Oração pela Cura da Criação, 2017).

    Renovando o compromisso de defender as riquezas e os saberes dos povos amazônicos, vitimados e ameaçados secularmente por interesses econômicos de empresas nacionais e internacionais, incentivamos nossas comunidades e organizações sociais a se manifestarem pacífica, mas de modo contundente, em favor da Amazônia, exigindo a revogação integral dos decretos de extinção da RENCA.

    Na celebração dos 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Aparecida, invocamos sua proteção sobre a Amazônia.

    Brasília-DF, 05 de setembro de 2017
    Dia da Amazônia

    Cardeal Sergio da Rocha
    Arcebispo de Brasília
    Presidente da CNBB

    Dom Murilo S. R. Krieger
    Arcebispo de Salvador
    Vice-Presidente da CNBB

    Dom Leonardo Ulrich Steiner
    Bispo Auxiliar de Brasília



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