12/09/2017

Coiab e CIR divulgam notas de repúdio ao massacre contra indígenas isolados no Vale do Javari


Povo Kanamari, do Vale do Javari, denunciam há anos tais massacres. Foto: J. Rosha/Cimi Norte I


A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR) divulgaram nesta terça-feira, 12, notas públicas de repúdio ao massacre de indígenas isolados, conhecido como "flecheiros", ocorrido no rio Jandiatuba, interior da Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do estado do Amazonas. O Ministério Público Federal (MPF) confirmou que “investiga a denúncia de mortes de índios isolados na região do Vale do Javari” apresentada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e que “há diligências em curso”.

Nos textos as organizações denunciam o desmonte da Funai intensificado após o sequestro por Michel Temer do Palácio do Planalto. "As diversas ameaças de retrocessos, ataques e o golpe contra a vida dos povos indígenas têm sido fatos claros neste país, ações que confirmam o preconceito, racismo e desrespeito com a vida do próximo", diz a Coiab.

O CIR, por sua vez, ressalta "as respostas da FUNAI dada ao coordenador geral da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA), Paulo Marubo, de que não há provas sobre o massacre, como publicou hoje, 11, a Agência Carta Capital. É inadmissível que o órgão indigenista não dê atenção para um caso grave e urgente".

Leia as notas na íntegra:

NOTA DE REPÚDIO E EXIGÊNCIA DE INVESTIGAÇÃO NO CASO DO MASSACRE DOS POVOS ISOLADOS NO VALE DO JAVARI

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), instância máxima de representação e defesa dos direitos dos povos indígenas da Amazônia Brasileira, juntamente com sua rede de organizações e povos indígenas, vem por meio desta manifestar o seu incondicional APOIO, assim como compartilha e ratifica todas as notas de repúdios e manifestações dos povos indígenas do Brasil contra o massacre sofrido pelos índios isolados no interior da Terra Indígena Vale do Javari, localizada na região da tríplice fronteira Brasil, Peru e Colômbia. Assim como vimos ainda REPUDIAR veementemente tal ação brutal e violenta impetrada contra a vida desses indígenas em isolamento voluntário, em uma região que concentra a maior quantidade de povos indígenas isolados do mundo, para qual o estado brasileiro deveria garantir os direitos mínimos de territórios e proteção para a sua sobrevivência.

Tal massacre só vem demonstrar e reafirmar o incalculável retrocesso aos direitos humanos e direito a vida dos povos indígena neste país plural. Os ataques e a morte dos nossos parentes do Vale do Javari é a morte de todos nós povos indígenas que lutamos incansavelmente pela nossa existência na nossa própria casa, que defendemos a existência da humanidade através da proteção dos recursos ainda existentes neste território.

Manifestamos a nossa grande indignação sobre a mutilação da FUNAI, mais especificamente sobre o fechamento das Frentes de Proteção Etnoambientais e corte drástico dos recursos do órgão indigenista estatal, que minimamente possibilitam os trabalhos dos servidores para proteção desses povos. Este corte e desmonte da FUNAI é interesse dos grandes políticos que continuam saqueando nossos recursos, direitos territoriais e de existência, é interesse daqueles que defendem a mineração em terras indígenas e vem loteando as diretorias da FUNAI para seu interesse próprio.

As diversas ameaças de retrocessos, ataques e o golpe contra a vida dos povos indígenas têm sido fatos claros neste país, ações que confirmam o preconceito, racismo e desrespeito com a vida do próximo. Os povos indígenas nunca estiveram tão ameaçados, desrespeitados e massacrados, mesmo com tantos avanços de garantias de direitos humanos, desde a invasão deste território indígena que deram o nome de Brasil.

A COIAB exige sérias investigação e atuação urgente dos órgãos e autoridades competentes, da ouvidoria da FUNAI, da 6ª Câmara do MPF, da Polícia Federal, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara e do Senado Federal, do Conselho Nacional de Política de Índios Isolados e de Recente Contato da FUNAI/MJ, e de outros órgãos e entidades, nesse caso do massacre no Vale do Javari. Pois essa situação de ataques e mortes dos povos indígenas isolados na região não é o primeiro caso e vem se arrastando há décadas sem ter a atenção devida pelo Estado Brasileiro.

A COIAB reafirma sua luta na defesa dos direitos indígenas e na existência dos povos indígenas do Vale do Javari, no apoio a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari – UNIVAJA e de toda a Amazônia, pelo direito a vida de cada um dos povos indígenas, bem como permanece vigilante e pronto para a guerra, se necessário for, pela garantia da existência dos nossos povos.

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira

Manaus(AM), 12 de Setembro de 2017

CIR: Nota de apoio aos povos indígenas do Vale do Javari

O Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização indígena criada para defender os direitos e interesses dos povos indígenas de Roraima vem manifestar apoio aos povos indígenas do Vale do Javari que passam pelo piores momentos da sua história com os massacres de grupos indígenas isolados, entre eles, os identificados como “flecheiros”, ocorrido no mês de agosto no rio Jandiatuba, afluentes do rio Solimões, no município de São Paulo de Olivença, na fronteira com Peru e Colômbia, conforme noticiado nos últimos dias e confirmado pelo Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM), na última sexta-feira, 8 de agosto, segundo a Agência de Notícia Amazônia Real. Tais massacres também foram denunciados na XI Assembleia Geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), ocorrido no período de 28 a 30 de agosto, na Aldeia Sede, Terra Indígena Alto Rio Guamá, estado do Pará.

A situação é extremamente preocupante e merece atenção por parte do Estado brasileiro que há anos, mesmo com a denúncia dos povos indígenas do Vale do Javari, e do movimento indígena regional e nacional, não faz nenhum esforço para ouvi-los e nem prestar a devida assistência.

E com o triste fato de que estão ocorrendo, sim, os massacres indígenas por parte dos garimpeiros, maiores destruidores da nossa floresta amazônica, pedimos que o Estado brasileiro e as autoridades públicas façam uma profunda investigação, assim como a nossa única instituição indigenista, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), que apesar das inúmeras dificuldades que tem passando nos últimos tempos, tem por obrigação legal de atuar pela proteção dos territórios e pela vida dos povos indígenas do Brasil. Neste caso, pela vida dos povos indígenas do Vale do Javari.

Na ocasião, repudiamos as respostas da FUNAI dada ao coordenador geral da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA), Paulo Marubo, de que não há provas sobre o massacre, como publicou hoje, 11, a Agência Carta Capital. É inadmissível que o órgão indigenista não dê atenção para um caso grave e urgente.  

Por fim, reafirmamos o nosso apoio a luta dos povos indígenas do Vale do Javari, que tanto lutam em defesa dos seus direitos, proteção dos seus recursos naturais, rios, florestas, e acima de tudo, lutam em defesa da vida dos povos indígenas que ali habitam.

“A luta continua e vivo até o último índio”.

Boa Vista, 11 de setembro de 2017.

Conselho Indígena de Roraima – CIR


Fonte: Assessoria de Comunicação - Cimi
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