• 07/11/2005

    Belo Horizonte: após ocupação, Funasa e indígenas iniciam negociações

     


    Cerca de 30 indígenas ocuparam na manhã de hoje (dia 7) o prédio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em Belo Horizonte, com o objetivo de pressionar o órgão a efetivar compromissos de melhorias na estrutura de atendimento à saúde indígena que foram firmados em março de 2005 e ainda não foram cumpridos. Entre os problemas apontados estão a má qualidade do atendimento médico, falta medicamentos, falta capacitação para os agentes indígenas de saúde, falta estrutura e descaso com o planejamento aprovado pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). O grupo reivindica a participação direta e ativa das lideranças indígenas na discussão sobre o atendimento à saúde nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, que estão sob a jurisdição da Funasa de Belo Horizonte.


     


    Ainda pela manhã foram realizadas negociações entre o coordenador da Funasa de Belo Horizonte e as lideranças. De acordo com informações dos indígenas, o órgão garantiu a liberação dos veículos para o transporte de doentes das aldeias para as cidades, atendendo ao compromisso firmado em março de 2005. No acordo estaria acertado também o afastamento do chefe do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) em Governador Valadares, reivindicado pelos indígenas. Foi marcada uma reunião daqui a quinze dias, em Governador Valadares, com representantes dos nove povos indígenas de Minas Gerais.


     


    A informação do inicio da tarde é que, após este acordo, parte do grupo deixou a sede da Funasa. Permaneceu no local uma comissão de 13 lideranças. Eles afirmam que pretendem sair da Funasa com um compromisso firmado por escrito, para evitar que mais uma vez os acordos deixem de ser cumpridos. A ocupação foi feita por representantes dos povos Pataxó, Aranã e Krenak.


     


    No documento apresentado pelas lideranças, os indígenas reclamam da qualidade da assistência à saúde prestada pela Funasa e da falta de regularidade das visitas médicas: “Quando aparece um médico, muitas vezes atende precariamente, não demorando uma manhã na área”, afirmam as lideranças. “as comunidades indígenas sofrem com todo tipo de doenças, em conseqüência da má assistência e a omissão dos agentes, na maioria técnicos de empresas terceirizadas que não conhecem a realidade de nossas aldeias e que são contratados pela Funasa”, dizem no documento.


     


    Em relação aos problemas em Governador Valadares, os indígenas reclamam da falta de higiene da Casa do Índio naquela cidade e relatam que são perseguidos pelas denúncias: “Ao fazer algumas dessas denuncias estamos sendo perseguidos e retaliados, sob a ameaça de perder o contrato de agentes de saúde(de acordo a legislação, foi criada a categoria “agente de saúde indígena”).


     


     


    Veja aqui o texto do documento na íntegra


     


    DOCUMENTO DAS LIDERANÇAS INDIGENAS DENUNCIANDO  A FUNASA EM MINAS GERAIS


     


    Nós as lideranças indígenas participantes da reunião do Conselho Distrital de Saúde Indígena em Minas Gerais, iniciamos a reunião realizando um forte protesto contra o órgão federal de assistência à saúde indígena e ao mesmo tempo denunciando a falta de assistência nas aldeias. Em documento encaminhado ao Ministério Publico Federal no estado e ao Sr. Carlos Henrique, chefe da Funasa em Minas, denunciamos que enquanto a Funasa gasta dinheiro lançando revistas e livro relatando as suas ações como parte de uma propaganda enganosa, as comunidades indígenas sofrem com todo tipo de doenças, em conseqüência da má assistência e a omissão dos agentes, na maioria técnicos de empresas terceirizadas que não conhecem a realidade de nossas aldeias e que são contratados pela Funasa.


    Essa falta de assistência tem gerado indignação em nossas aldeias e causado várias reações como a ocorrida na área Pataxó fazenda Guarani, município de Carmésia, quando apreendemos um veiculo da Funasa, protestando pela falta de assistência e irregularidade no atendimento médico na aldeia. A propaganda da Funasa diz que em cada aldeia existe uma equipe médica para o atendimento, mas é mentira e quando aparece um médico, muitas vezes atende precariamente, não demorando uma manhã na área.


     


    São várias denuncias de omissão no atendimento; falta medicamentos; falta  capacitação para os


    agentes indígenas de saúde;falta estrutura e impera o descaso com o planejamento aprovado pelo DSE´I; Situações de insalubridade nos locais em que os indígenas são atendidos ou hospedados. A casa do índio em Governador Valadares é exemplo disso, na qual as famílias indígenas que se hospedam, reclamam da falta de higiene, sujeitados a dormir no chão em condições sub-humanas.


     


    Ao fazer algumas dessas denuncias estamos sendo perseguidos e retaliados, sob a ameaça de perder o contrato de agentes de saúde(de acordo a legislação, foi criada a categoria “agente de saúde indígena”, na qual os índios são contratados pela Funasa para atuar na sua comunidade).


     


    Diante disso, as lideranças dos povos Pataxó, Xakriabá, Kaxixó, Maxakali, Aranã, Xukuru-Kariri e Pankararu, convocam a imprensa para confirmar as denuncias, anunciar as nossas propostas  as suas exigências para que a Funasa resolva tamanha situação de desrespeito e descaso.


     


    Estamos convidando a imprensa mineira para se fazer presente na reunião do Conselho Distrital de Saúde Indígena, que está sendo realizada no Hotel Serra da Moeda, estrada da Moeda, Km 11, município de Moeda-MG. Telefone: (31) 3575-1166 ou 3575-1177 – Contatos: Baiara Pataxó; Dé Xakriabá e Helio.


     


     


     


     


    Assinam as Lideranças.


     


     


    Belo Horizonte, 24 de novembro de 2004

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  • 04/11/2005

    Newsletter n° 688


    Krahô-Kanela: Indigenous people and the Federal Prosecutor’s Office (MPF) will file suit to pressure Funai to make a decision


     


    The mobilization of the Krahô-Kanela people and their allies, such as the pro-Krahô-Kanela Committee, to pressure the National Foundation for Indigenous People (Funai) to make a decision in relation to recognizing the Mata Alagada land, which has been traditionally occupied by the Krahô-Kanela, will be reinforced by two lawsuits. The Krahô-Kanela and the Federal Prosecutor’s Office (MPF) will file suit to pressure Funai to state its position in relation to the demarcation of the Mata Alagada land, located in the municipality of Cristalândia, state of Tocantins.


     


    The decision to sue Funai was announced by the MPF and the Krahô-Kanela during a public hearing held in Palmas, state of Tocantins, on October 28. The federal attorney in Tocantins, Adrian Pereira Ziemba, said during the audience that there is no doubt about the fact that indigenous people have traditionally occupied the Mata Alagada land. According to him, Funai needs to play the role assigned to it and return to the Krahô-Kanela what belongs to them by right. “The indigenous people did not leave the area because they wanted to, but because they were violently expelled from it,” he said.  The Krahô-Kanela were violently expelled from the lands they occupied in 1984, when the Land Institute of Goiás (Idago) sold their land to Cia. Cervejaria Brahma, a large Brazilian brewer.


     


    The anthropological report on the occupation of the Mata Alagada land by the Krahô-Kanela began to be prepared in October 2003 and was finalized in September 2004. Therefore, it has been ready for more than a year and available to be analyzed by the president of Funai, who must decide to approve or reject it. 


     


    The anthropological study in relation to which Funai’s decision is pending was carried out by a team made up of technical experts from different public agencies and it concluded that the Mata Alagada land has been traditionally occupied by the Krahô-Kanela indigenous people.


     


    Bad health conditions – In the public hearing, the indigenous people mentioned that laboratorial tests confirmed that their area is affected by a high rate of contamination by worms as a result of the health conditions they are forced to face: they live in a confined area, without appropriate sanitary conditions, without treated water and with an open-air sewage system. Amongst the subjects to be addressed during the audience, a request will be made to the National Health Surveillance Agency (Anvisa) for it to check the health conditions in a house where 96 of the 333 members of the Krahô-Kanela have been living in the past two years, located in the municipality of Gurupi, state of Tocantins.


     


    The group began to live there after a frustrated attempt to reoccupy their lands when they reoccupied the Planeta Farm, located in the Mata Alagada land, and were evicted from it in 2004 by decision of a state court. Back then, Funai took the commitment to rent a farm where the indigenous people would stay until a final decision was made in relation to the Mata Alagada land. However, no decision has been made so far, and they continue to live in the house. (with information from the pro-Krahô-Kanela Committee)


     


     


    Brasília, 3 November 2005


    Cimi- Indianist Missionary Council


    www.cimi.org.br


     

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  • 03/11/2005

    Governo de Santa Catarina quer deslegitimar direitos indígenas

    Com bastante indignação, mas com espírito respeitoso e fraterno, tomamos a liberdade de externar nossa franca e sincera avaliação sobre o andamento dos trabalhos da Comissão Especial para Estudo das Questões Indígenas no Estado de Santa Catarina. Criada unicamente devido às pressões políticas do governo catarinense e contra a vontade manifesta dos povos indígenas deste estado, a referida Comissão tem servido apenas para responder aos interesses políticos que motivaram a sua criação.


     


    A estratégia do Governo do Estado de Santa Catarina está cada vez mais nítida. O mesmo visa ganhar tempo, deslegitimar os direitos indígenas, justificar seus discursos, jogar a opinião pública contra o governo federal, os povos indígenas e setores das Igrejas que os apóiam, tirando o foco daquilo que é de sua responsabilidade, a saber, a indenização pela terra dos pequenos agricultores que ocupam, de boa fé, as áreas tradicionalmente indígenas.


     


    Na primeira reunião da referida Comissão, realizada um ano após a sua criação,  os representantes do governo do estado conseguiram aprovar um encaminhamento segundo o qual ficaram responsáveis pela realização de um estudo próprio sobre algumas terras indígenas  para posterior comparação com o laudo já reconhecido pela Funai. Este estudo já foi feito nas terras indígenas Toldo Imbu e Pinhalzinho/Canhadão. Sem nenhuma equiparação de critérios, os resultados foram desastrosos. Algo análogo está se preparando em relação à terra indígena Toldo Pinhal. Nesta porém, com um agravante. Fez-se uma seleção dos agricultores que podem e dos que não podem participar da “reunião” com os ditos representantes, neste dia 04 de novembro no município de Seara. Os agricultores que não poderão participar foram avisados de que sua entrada no local da “reunião” não será permitida. Quem fez a tal seleção não foram os pequenos agricultores interessados. Quem e com que interesse a mesma foi feita? Por que deixar alguns agricultores fora do “estudo”? Pode haver legitimidade em algo feito com esta origem  e dessa forma?


     


    Com esta Comissão Especial, instituída pelo Ministro da Justiça, o governo federal tem proporcionado espaço e mídia a inimigos políticos seus e dos povos indígenas em Santa Catarina.  Estes têm ocupado o espaço “oficial” criado para acirrar os ânimos dos agricultores contra os índios e para indispor ainda mais o governo federal junto à sociedade regional. As referidas “reuniões” com os fazendeiros e agricultores, as emissoras de rádio e televisão e os jornais têm sido palco para discursos anti-indígenas, anti-eclesiais, anti-funai e anti-governo federal.


     


    Quem ganha com isso? Os pequenos agricultores, o governo federal, os povos indígenas? Fica evidente que somente o Governo do Estado e alguns de seus capachos têm levado vantagem nesta disputa. Até quando o governo federal continuará negando os direitos dos povos indígenas em Santa Catarina? Até perceber que está sendo mais um agente das estratégias político-eleitoreiras do governo deste estado?


     


     


    Conselho Indigenista Missionário – Regional Sul

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  • 03/11/2005

    Informe n° 688

    As mobilizações do povo Krahô-Kanela e de seus aliados, como o Comitê pró Krahô-Kanela, para conseguir que a Fundação Nacional do Índio (Funai) decida sobre o processo de reconhecimento da terra Mata Alagada, tradicionalmente ocupada por aquele povo, serão reforçadas por duas ações judiciais. Os Krahô-Kanela e o Ministério Público Federal (MPF) solicitarão judicialmente uma posição da Funai sobre a demarcação de Mata Alagada, localizada no município de Cristalândia, Tocantins.


     


    A decisão de processar a Funai foi divulgada pelo MPF e pelos Krahô-Kanela durante uma audiência pública realizada em Palmas, Tocantins, em 28 de outubro. O procurador da República no Tocantins, Adrian Pereira Ziemba, afirmou, na audiência, que não há dúvidas sobre a ocupação indígena na terra Mata Alagada. Para ele, a Funai precisa cumprir seu papel e devolver àquele povo o que lhes pertence por direito. “Os indígenas não saíram do local por opção, mas por terem sido expulsos de suas terras  em uma situação de violência”, afirmou.  Os Krahô-Kanela
     foram violentamente expulsos das terras que ocupavam em 1984, quando a terra deles foi vendida pelo Instituto de Terras de Goiás (Idago) à Cia. Cervejaria Brahma.


     


    O relatório antropológico sobre a ocupação da terra Mata Alagada pelos índios Krahô-Kanela foi iniciado em outubro de 2003 e finalizado em setembro de 2004. Portanto, há mais de um ano ele está disponível para ser analisado pela presidência da Funai, que precisa decidir por sua aprovação ou reprová-lo. 


     


    O estudo antropológico que aguarda encaminhamento pela Funai foi realizado por uma equipe composta por técnicos de diversos órgãos públicos e concluiu que a terra Mata Alagada foi tradicionalmente ocupada pelos índios Krahô-Kanela.


     


    Sem saúde – Na audiência pública, os indígenas citaram a existência de exames laboratoriais que comprovam alto índice de contaminação por verminoses, e que isto poderia ser proveniente das condições de saúde em que são obrigados a viver: confinados, sem condições sanitárias adequadas, sem água tratada e convivendo com esgoto a céu aberto. Entre os encaminhamentos da audiência, será feita a solicitação à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para que examine as condições de salubridade da casa onde, há quase dois anos, vivem 96 dos 333 indígenas deste povo, no município de Gurupi, Tocantins.


     


    O grupo foi para o local após mais uma tentativa frustrada de reaver suas terras, quando retomaram a Fazenda Planeta, situada na terra Mata Alagada, e foram retirados por ordem da Justiça Estadual, em 2004. Na época, foi firmado o compromisso de que a Funai alugaria uma fazenda para que os Indígenas permanecessem até a haver uma decisão definitiva sobre a Mata Alagada. Entretanto, até hoje nenhuma decisão foi tomada e eles permanecem na casa. (com informações do Comitê pró Krahô-Kanela)


     


     


    Brasília, 3 de novembro de 2005

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  • 01/11/2005

    XVI Congresso do Ministério Público será patrocinado por Mineradoras


    Nota de repúdio e representação a representação à corregedoria e ministério público


     


    De 06 a 09 de novembro, em Belo Horizonte/MG, acontecerá o XVI Congresso Nacional do Ministério Público. O tema será EM DEFESA DA ÉTICA E DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS. Acontece, no entanto, que referido Congresso, conforme noticiado na Folha de São Paulo de 29/10/05, pág. A 16, e segundo www.ammp.org.br/xvicongresso, está sendo patrocinado por SINDIEXTRA (Sindicato de Indústria mineral de Minas Gerais), Companhia Vale do Rio Doce, MBR (Minerações Brasileiras Reunidas) e Anglogold Ashanti, todas entidades que têm sido denunciadas por diversas irregularidades contra os Direitos Humanos (Direitos Fundamentais), especialmente contra o Meio Ambiente.


     


    Em vista disso, as organizações ambientalistas signatárias, vêm a público manifestar estranheza e repúdio a este fato. O Ministério Público não pode, nem mesmo por sua Associação, fazer tal parceria sob pena de comprometer a sua isenção em futuras atuações frente a essas mega-corporações. Sabe-se muito bem que muitas entidades aceitaram o patrocínio destas mineradoras, tal como a AMDA, e acabaram sendo cooptadas e perderam a autonomia necessária para questionar as ilegalidades e imoralidades que referidas mineradoras vêm cometendo em Minas Gerais.


     


    Se tal parceria não é ilegal é no mínimo imoral e fere, no nosso entendimento, os princípios da proteção aos interesses sociais e dos direitos individuais indisponíveis, atribuídos ao MP, conforme Art. 127 da Constituição Federal.


     


    Basta lembrar que o Ministério Público de Minas Gerais, através de cinco promotores, moveu uma Ação Civil Pública contra a MBR contra o licenciamento ambiental concedido na Mina de Capão Xavier. A Vale do Rio Doce tem sido denunciada diuturnamente pelos abusos em várias frentes de atuação, especialmente em diversas irregularidades contra as populações atingidas por barragens. A Anglogold trapaceia contra as vítimas da silicose em Nova Lima e região. Pergunta-se: qual é o interesse destas mineradoras em patrocinar um congresso do MP? Certamente calar o Ministério Público que é reconhecido pela própria Constituição Federal como um órgão autônomo e que tem inclusive orçamento próprio.


     


    Por que a Associação do Ministério Público procura e/ou aceita essa forma de patrocínio se poderia fazê-lo com universidades e outras associações de interesse público, ao invés de ficar refém dos interesses privados?


     


    O Ministério Público sairá profundamente maculado desse patrocínio. Não terá mais a isenção necessária para defender com firmeza os direitos fundamentais e muito menos a ética. O tema do Congresso é uma contradição com a prática das mineradoras patrocinadoras. Por isso, ao tempo em que repudiamos publicamente este patrocínio, encaminhamos uma representação à Corregedoria do Ministério Público nesta mesma data para as providências cabíveis.


     


    Assinam esta MOÇÃO DE REPÚDIO


    MOVIMENTO CAPÃO XAVIER VIVO – MCXVIVO


    MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR BARRAGEM – MAB


    COMISSÃO PASTORAL DA TERRA – CPT


    CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO – CIMI


    MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA – MST


    SERVIÇO FRANCISCANO DE JUSTIÇA, PAZ E ECOLOGIA – SINFRAJUPE


    CENTRO DE ECOLOGIA INTEGRAL


    ONG Amigos da Natureza


     


    Contato com: frei Gilvander (031 3221 3055), Marcilene (031 3466 0202), Dra. Delze (031 91716262) e Ana Maria Turolla (031 9613 3882).



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  • 31/10/2005

    Carta da Assembléia Popular: Mutirão por um novo Brasil

    CARTA DA ASSEMBLÉIA POPULAR –  MUTIRÃO


    POR UM NOVO BRASIL


     


    “A emancipação dos oprimidos será obra deles mesmos.” (Karl Marx)


     


    Companheiras e Companheiros, Irmãs e Irmãos do Brasil,


                Na condição de cidadãs e cidadãos, somos sujeitos de direitos iguais e habitantes de um dos territórios mais ricos em sua diversidade étnica, de regiões, clima, vegetação, fauna, solos, rios, litorais. Ricos em história, culturas, tradições, costumes, valores e espiritualidades. Viemos de diferentes biomas (regiões socioculturais/socioambientais) e queremos que o Brasil seja uma unidade da riqueza de toda esta diversidade, em favor de uma vida com dignidade para e com todas as pessoas e todos os seres vivos.


                É inaceitável que nossas regiões estejam ameaçadas de destruição, em nome do “progresso” capitalista e do apelo consumista do mercado, que só visa o lucro imediato e a acumulação de riquezas, mercantilizando a vida e, em particular, o corpo das mulheres. Explora o trabalho humano e ignora o equilíbrio da vida e da natureza. Os povos da Caatinga, da Amazônia, do Pantanal, do Cerrado, do Pampa, da Mata Atlântica – e sendo parte dela ou seus vizinhos, os povos da longa Costa marítima e a região da Floresta de Pinhais –, os povos indígenas de todas essas regiões se sentem ameaçados pelo avanço do agronegócio e de projetos que não levam em conta as potencialidades e limites de cada bioma e não se interessam pelo destino de seus povos. Um exemplo disso é o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco.


                A quem serve esse tipo de “progresso”, irresponsável, em nosso país e no mundo?


    O cenário mundial revela que, apesar dos avanços tecnológicos, se aprofundam as desigualdades sociais. O “progresso” não serve à maioria da população. Cresce o número de pobres e agrava-se sua situação de vida, excluídos de oportunidade, enquanto uma minoria de banqueiros, especuladores e grandes empresários acumula privilégios, concentra fortunas e comanda o mercado financeiro, o principal responsável pelas nefastas políticas neoliberais.


    A situação brasileira não é diferente. Um por cento da população controla e dispõe de 13% da renda nacional — a mesma quantia com que sobrevive a metade de toda a população! Um por cento dos proprietários rurais concentra mais de 46% das terras agricultáveis. Nas cidades, 1% dos proprietários controlam mais da metade dos lotes, enquanto milhares de pessoas são perseguidas por lutarem por um espaço para viver. Ainda existe considerável quantidade de não alfabetizados no Brasil e menos de 8% dos estudantes chegam às universidades, sendo que a maioria vem das escolas particulares. O programa “Universidade para Todos” retira recursos que deveriam ir para universidades públicas e os destina a universidades privadas.  A Fome é uma vergonhosa realidade em um país que tem capacidade de gerar alimentos para todos e todas. O desemprego, o subemprego e a informalidade são alarmantes.  Milhões de pessoas, sobretudo jovens e aquelas com mais de 40 anos, vivem sem garantias, desprotegidas pelo Estado e lançadas à própria sorte. O transporte público está à mercê da lógica mercantil e privatista.  O acesso à saúde e a educação de qualidade está restrito a poucos, por falta de investimentos públicos, enquanto assistimos fortunas vazarem pelo ralo dos encargos da dívida e da corrupção.


     


                É decisivo que toda a sociedade conheça as causas desse quadro de desigualdade e opressão:



    1. Elevada remuneração do capital, por meio da prática das taxas de juros mais altas do mundo, passando grande parte da riqueza nacional para o setor financeiro, que tem auferido os lucros mais elevados de todos os tempos. Além disso, o Banco Central tem promovido a liberdade cambial, que além de facilitar a lavagem de dinheiro, deixa o país à mercê da especulação financeira e atenta contra a soberania nacional.  
    2. Exploração do trabalho infantil e do trabalho escravo. Exploração de toda a classe trabalhadora, por meio de salários achatados e salário mínimo indigno, que não cumpre o disposto no artigo 7o, inciso IV, da Constituição Federal, segundo o qual “os trabalhadores urbanos e rurais têm direito ao salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim”. Nesse sentido, a Assembléia Popular se manifesta contra as reformas trabalhista, sindical e previdenciária que tiram direitos dos/das trabalhadores/as.

    3.       Distorções do sistema tributário que privilegia os ricos e castiga a classe trabalhadora, principalmente os trabalhadores e trabalhadoras de baixa renda. O sistema tributário deveria ser o principal veículo para a redistribuição da renda. Deveria tributar os grandes capitais, lucros, fortunas, heranças e latifúndios, e destinar esses recursos à garantia de políticas e serviços públicos de saúde, educação, esporte, segurança,    saneamento, assistência, criança e adolescentes, previdência, cultura, lazer etc. O atual modelo econômico, ao contrário, tira o suado dinheiro dos pobres e passa aos ricos, levando a uma concentração de renda cada vez maior. Além disso, o governo tem implementado uma legislação que favorece o grande capital.


    4.       Concentração da propriedade da terra, dos meios de produção, e ausência de uma política agrária sustentável que garanta sua democratização por meio da identificação, retomada e distribuição das terras devolutas e da reforma agrária, além da demarcação e titulação das terras indígenas e quilombolas e demais territórios tradicionais. O modelo agrário neoliberal e a ausência de uma política agrícola para os/as camponeses/as mantêm e aumentam a concentração de renda e de poder, e estão diretamente voltados à produção de dólares para pagar os encargos da dívida externa.  O agronegócio é a maior mazela do campo brasileiro! 



    1. Ausência de investimentos públicos em favor de iniciativas comunitárias e cooperativas de economia popular solidária, de pequenas e médias empresas, especialmente as empresas autogestionadas. Ausência de infra-estrutura e uma reforma urbana para melhorar a vida do povo, o que poderia gerar inúmeros empregos e impulsionar a economia do país, já que programas como o Bolsa Família têm caráter meramente assistencialista. A atual política econômica governamental exige agressivos cortes nos investimentos e gastos sociais, a fim de oferecer garantias aos credores das dívidas interna e externa através do “superávit primário”. Além de não realizar investimentos, tem ocorrido o processo inverso, por meio da privatização de empresas nacionais prestadoras de serviços essenciais e, recentemente, a entrega de bens naturais essenciais como a água, também o perigo da contaminação de sementes nativas causada pela liberação de sementes transgênicas, além da valorização do agronegócio depredador, a desnacionalização de jazidas de petróleo e a entrega do Aqüífero Guarani aos interesses do Banco Mundial
    2. Privilégios para o pagamento dos encargos das dívidas, tanto interna quanto externa, que consomem grande parte do orçamento público e da receita de exportações. A Dívida Pública é o pano de fundo dos grandes problemas nacionais. O processo de endividamento está diretamente ligado à retirada de direitos, à perda de soberania diante das imposições de políticas de ajuste fiscal e estrutural e, também, às dificuldades decorrentes do comércio injusto, que nos obriga a produzir cada vez mais para exportar, sem respeitar nossos biomas e seus povos. Por isso, exigimos a realização de uma Auditoria, prevista na Constituição Federal, dessas questionáveis dívidas que tanto têm sacrificado a nação brasileira.
    3. Impunidade para os que agridem os direitos humanos e a crescente criminalização dos pobres e dos movimentos sociais. Outro grave problema é a ausência de justiça social e segurança pública nos grandes centros urbanos e no meio rural. 

    8.       Concentração dos meios de comunicação, sob domínio direto de poucas famílias, com o objetivo de fazer a disputa e a formação ideológica da população, a partir da visão das elites. Outro problema é a permanente perseguição às rádios comunitárias. É necessário fortalecer iniciativas de comunicação como TVs e rádios comunitárias e a Telesur.  


     


    Diante desse quadro de enormes injustiças e desse conjunto de políticas contrárias às necessidades do povo, é urgente realizamos uma ampla mobilização social, de forma consciente, contra tudo que impede que as enormes potencialidades de cada região, de cada bioma, e do país como um todo atendam plenamente aos direitos de seus cidadãos e cidadãs.


         É preciso que todo o povo conheça a força do seu poder! A mobilização que estamos iniciando requer o envolvimento das organizações da sociedade civil – entidades, associações, sindicatos, movimentos sociais, igrejas, e dos cidadãos em geral – a fim de pressionar os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário para exigir o direcionamento das políticas nacionais em favor dos interesses populares, e não do mercado financeiro.  Os recursos naturais como a água não podem ser mercantilizados. O Brasil precisa que se valorize a reciclagem e o reaproveitamento dos materiais em um processo de trabalho gerido pelos próprios catadores e catadoras. É necessário respeitar a livre orientação sexual e acabar com a homofobia. Exigimos comportamento transparente e ético de todas as pessoas responsáveis por serviços públicos, bem como a apuração completa de todas as denúncias de corrupção e o ressarcimento dos recursos desviados aos cofres públicos. É necessário viabilizar instrumentos de fiscalização popular da aplicação de recursos públicos e acabar com a impunidade parlamentar e sua aposentadoria privilegiada.   


         A participação dos cidadãos e cidadãs nas Assembléias Populares contribuirá para instituir uma soberania popular efetiva, e não meramente simbólica. As Assembléias serão nossa força para impedir a subordinação do bem comum do povo ao interesse particular, bem como a subserviência da nação aos interesses estrangeiros. Elas serão nossa força para tornar efetivo o poder popular, para construir um Brasil livre, pluriétnico, autônomo, soberano e socialista, que queremos para nós e para as futuras gerações, convivendo com todos os povos da Terra em espírito de cooperação e solidariedade


    Brasília, 28 de outubro de 2005

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  • 31/10/2005

    Assembléia Popular: bandeiras e lutas comuns definidas pelos movimentos

    NOSSOS   PRÓXIMOS PASSOS


     


    I- AGENDA DE  LUTAS COMUNS


    O povo luta todos os dias pela sobrevivência.  Luta por seus direitos.  Muitos movimentos populares, sindicais, sociais, lutam também por defender os interesses de grupos sociais.  Mas agora, precisamos construir uma pauta comum, do que poderíamos fazer, lutar  todos juntos e que interessa a todos e a todas.


     


    1. Lutar por uma reforma política de fato, que mude o processo de representação política.


    A crise política atual revelou que os brasileiros não acreditam nos atuais políticos.  Acontece que o sistema de representação não respeita a vontade do povo.  Depois de eleitos, fazem o que querem.  Existem várias propostas de reforma apresentadas.  Uma delas com aval da OAB, CNBB e entidades, que defende a introdução de mecanismos de democracia direta, de plebiscito, de revogar mandatos etc.


          Precisamos lutar, precisamos promover amplos debates exigindo mudanças no sistema político-eleitoral e na organização sócio-político-economica.


     


    2. Auditoria e suspensão  do pagamento da divida externa.


    Está previsto na Constituição brasileira que deveríamos fazer uma Auditoria da dívida externa e ver o que já foi pago e o que devemos de fato pagar.  O Brasil já pagou mais de uma vez sua divida externa.  Por isso é urgente e necessário a auditoria da divida externa.


     


    3. Lutar pela valorização do salário mínimo e das aposentadorias.


    O aumento do salário mínimo e da aposentadoria são as principais formas de recuperar a renda dos mais pobres. É a melhor forma de garantir a distribuição de renda.  O governo Lula, em campanha, havia se comprometido a dobrar seu poder aquisitivo durante os quatro anos.  Se ele cumprisse a promessa, hoje o salário mínimo, segundo o DIEESE, deveria ser de 454 reais, e em maio do ano que vem, deveria ser de 566,00.  Mas o governo enviou mensagem ao Congresso, propondo um salário de 324 reais para 2006.   Lutar pelo projeto de aposentadoria das donas-de-casa.


     


    4. Lutar pelo direito ao trabalho e pela redução da jornada de trabalho.


    Milhões de brasileiros estão desempregados ou no trabalho informal.  O direito ao trabalho é fundamental.  A maioria de nossos jovens não têm essa oportunidade.  Por isso precisamos desenvolver uma luta pelo direito ao trabalho, em especial para o jovens da cidade e do campo.


     


    5. Lutar contra o pagamento da dívida interna e os altos juros com dinheiro do orçamento publico, que é nosso.


    O governo está gastando mais de 120 bilhões de reais por ano em juros da divida interna. E é o Banco Central que marca a taxa de juros todos os meses. E hoje é a mais alta taxa de juro do mundo.   O governo usa o dinheiro do povo para transferir aos bancos.  Isso precisa acabar.


     


    6. Lutar por uma política externa soberana baseada no princípio da solidariedade entre os povos e na defesa da biodiversidade.


              Contra os acordos da ALCA e da OMC;


              Pela retirada das tropas brasileiras no Haiti;


              Pelo fim da exploração por parte da Petrobrás e de outras empresas brasileiras nos países vizinhos;


              Mobilizar-se pela adesão à Aliança Bolivariana das Américas -ALBA.


     


    7. Lutar pela educação pública gratuita e de qualidade para todos, garantindo o acesso ao ensino médio e fundamental para todos e dobrando as vagas nas universidades públicas.


    Nós temos muitas universidades públicas.  Poderíamos dobrar o numero de estudantes, com as mesmas instalações, apenas aumentando os professores, os cursos, os horários e os investimentos. Garantir que essas vagas sejam prioritariamente destinadas ao jovens mais pobres.


     


    8. Realizar uma jornada nacional pela reforma agrária e em defesa das águas articulada com:


              As lutas pela demarcação de todos os territórios indígenas e quilombolas;


              Por um novo modelo de desenvolvimento agrícola;


              Por uma agricultura livre de transgênicos;


              Contra a privatização das águas, somando-se à campanha pela revitalização e contra a transposição do Rio São Francisco.


     


    9. Lutar para que os recursos do orçamento público, sejam destinados prioritariamente para as políticas sociais, como saúde e educação.


              Propor mecanismos de controle popular sobre as políticas públicas;


              Programar jornadas nacionais em defesa das políticas públicas;


     


    10. Promover uma jornada nacional de luta pela democratização dos meios de comunicação.


              Estimular todos os meios e práticas de comunicação popular, comunitárias e livres;


              Combater o atual monopólio dos meios de comunicação;


              Somar-se a semana de lutas pela democratização dos meios de comunicação a realizar-se em torno do dia 17 de outubro de 2006.


     


     


    II. COMO AMPLIAR  NOSSA ORGANIZAÇÃO E MANTER-N@S ARTICULAD@S?


    O segundo passo que precisamos dar se refere à continuidade de nosso esforço organizativo com o povo, com as bases.


     


    1. Assembléias Populares Locais.


    Quando decidimos realizar a Assembléia Popular – Mutirão por um Novo Brasil em âmbito nacional, havíamos planejado realizar assembléias municipais e estaduais.  Infelizmente, por falta de tempo e capacidade organizativa, conseguimos realizar apenas assembléias estaduais.  Mas agora, precisamos realizar assembléias populares nos municípios do interior e nos bairros das grandes cidades.  O povo precisa ter um espaço para falar, debater seus problemas.   Sem preocupação com delegação de poder, todos podem e devem se manifestar.  E nas assembléias, retomar os temas debatidos nos documentos da assembléia nacional.  Em outros espaços organizados, como sindicatos, paróquias, centros acadêmicos, assentamentos, comunidades rurais, também  podemos realizar assembléias populares e debater.


    Uma assembléia popular é a participação de todo povo:  crianças, jovens, adultos, idosos, homens e mulheres.  As Assembléias Populares podem também planejar atividades de ação direta que permitam mobilizar em torno de problemas e soluções comuns e que sirvam de exercício de pedagogia de massa.


     


     


    2. Realizar um mutirão de debate de base.


    Utilizar os documentos que serão aprovados nesta Assembléia, sobretudo o documento O BRASIL QUE QUEREMOS, transformá-los em cartilhas, com perguntas e de forma didática, para discutir com o povo.   E combinar que tod@s nós, ao voltarmos às nossas bases, durante um certo período, fossemos de casa-em-casa,   levando a cartilha e discutindo com o povo.  Devemos aproveitar também os espaços comunitários onde nossa base está acostumada a se reunir como: centros comunitários, associações, paróquias, sindicatos, etc.


     


     


    3. Assembléia Popular Nacional Permanente


    Podemos afirmar que, a partir de agora, nos comprometemos a manter-nos em assembléia popular permanente.


    Realizarmos uma nova Assembléia Popular Nacional com representações, delegados, por todos os setores sociais, e seguiremos adiante nessa longa jornada do povo ir construindo suas próprias instâncias, seus próprios espaços de debate e decisão.


     


     


    Calendário de Lutas:


              8 a 14 de março: Jornada Nacional em Defesa das Águas;


              8 de março: Dia Internacional da Mulher;


              17 de abril a 1º de maio: Lutas em Defesa da Reforma Agrária, do Salário Mínimo e pelo Direito ao Trabalho;


              19 de abril: Dia dos Povos Indígenas;


              1º a 7 de setembro: Jornada Nacional pela Soberania Nacional e Contra o pagamento da Dívida Interna e Externa;


              17 de outubro: Semana de Luta pela Democratização dos Meios de Comunicação.


     


     


    Calendário Organizativo:


     


    1º Etapa: De janeiro a maio de 2006


              Desenvolver o trabalho de base;


              Promover as Assembléias municipais;


              Divulgar os documentos da Assembléia Popular/2005;


              Elaborar cartilhas de estudo;


     


    2º Etapa: De maio a junho de 2006


              Promover as Assembléias Populares Estaduais;


     


    3• Etapa: Assembléia Nacional


              Surgiram três alternativas de datas que precisam ser definidas pela coordenação da Assembléia Popular Nacional;


    a)      Antes das eleições de 2006;


    b)      Depois das eleições;


    c)      Início de 2007.


     


    AAssembléia Popular Nacional


     


    Brasília/DF, 28 de outubro de 2005l

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  • 27/10/2005

    “Não Queremos Guerra, Queremos Nossas Terras”

    A guerra da terra


     


    Na região da fronteira do Brasil com o Paraguai o clima é de guerra contra os Kaiowá Guarani e nossos direitos. Nossas terras foram sendo tomadas pelos fazendeiros e lavoureiros e nosso povo confinados nos pequenos pedaços de terra que o SPI tinha demarcado há quase um século. Não agüentando mais tanta violência e desrespeito começamos a retomar nossos tekoha, territórios tradicionais. Entre essas terras retomadas estão Yvy Katu, retomado em dezembro de 2003 e Sombrerito para onde voltamos em junho deste ano. Sofremos muita violência e pressão. Mataram e torturam nossos parentes. E foi por isso que resolvemos fazer aqui a nossa Grande Assembléia Kaiowá Guarani do Mato Grosso do Sul. Queremos dizer ao Brasil e ao mundo que não queremos guerra, mas que as autoridades políticas e judiciais reconheça e nos devolva com urgência nossas terras tradicionais para poder viver nossa vida em paz. Também nos reunimos ali para comemorar as vitórias que tivemos na justiça e que vão dar possibilidade de prosseguir a demarcação dessas terras.


     


    O assunto mais discutido em nossa Assembléia de Yvy Katu foi novamente a situação da terra.Nos revolta saber que a Funai tinha decidido não mais mandar grupos para identificar as terras indígenas até julho do ano que vem. Isso é um absurdo, as lideranças indígenas presentes na  Aty Guasu exige da Funai que crie com urgência Grupos de Trabalho para identificar nossas terras. E nos reunimos por regiões para dizer quais são os tekoha que precisam ser demarcados. Foram dezenas de terras tradicionais descritas e que queremos que a Funai demarque. Mandamos essa relação para a Procuradoria e para a Funai. Esperamos que se cumpra a Constituição que nos garante essas terras.


     


    Denunciamos aqui que os fazendeiros espalharam a notícia de que estávamos retomando terra, só para dificultar ou impedir nossa reunião. A polícia federal veio lá e viu que era tudo mentira. Também procuraram usar patrícios nossos para espalhar medo e ameaças. Falaram até o preço que estariam pagando pela cabeça de lideranças nossas e de nossos aliados.Tudo isso é terrorrismo que estão procurando fazer para impedir a luta pelos nossos direitos. Mas não deixamos que isso atrapalhasse nossa Assembléia.


     


    Nosso povo e as fronteiras


     


    Outro assunto que discutimos foi sobre a nossa realidade do povo Guarani, num e noutro lado das fronteiras.Seja na fronteira ou não nosso direito à terra deve ser garantido e demarcado porque  nosso povo ajudou a definir os limites, esteve presentes nas lutas para conserva-las, muitos morreram, no entanto, tomaram nossas terras, estamos divididos pelas fronteiras. Queremos que demarquem nossas terras e que sejamos respeitados em nossos direitos de  viver como povo conforme garante a Convenção 169 da OIT. Muitas vezes querem negar nosso direito dizendo que somos “índios paraguaios”. Somos Guarani, Avá/Guarani, Kaiowá/Pay Tavyterã, Mbya, que vivemos há milhares de anos nesta grande região onde se formaram os países do Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia, e queremos viver com dignidade e ser respeitados em nosso grande território tradicional.  Para fortalecer nossa luta em garantir nossos direitos convidamos para nossa Assembléia nossos parentes que vivem no Paraguai, que nos falaram sobre as dificuldades que passam. Fizemos um documento dando apoio a eles. Sabemos que são os mesmos fazendeiros brasileiros que  estão ocupando as terras também do lado do Paraguai, destruindo o que resta da mata, inclusive nas terras indígenas. 


     


    Celebrando nossas lutas e resistência


     


    Sempre quando nos reunimos sentimos com força que não estamos só. Buscamos força dos que tombaram lutando pelo nosso povo. É o sangue de milhares de nossos guerreiros, sábios, ñanderu e caciques que nos dá força e a certeza de que vamos vencer um dia. Nesta Aty Guasu fomos informados e conversamos sobre a  celebração da memória de um grande líder do nosso povo na resistência, que foi Sepé Tiaraju, que liderou nossos guerreiros contra os exércitos de Espanha e Portugal e foi morto em 1756. Para falar sobre isso esteve conosco nosso parente Guarani Mbya Mauricio, que mora no Rio Grande do Sul. Depois que explicou todo o significado daquela luta e o que elas tem a ver com as nossas lutas de hoje, decidimos que assumir a realização de uma grande Assembléia Continental Guarani – Nemboaty Guasu, em fevereiro do próximo ano, no local em que Sepé Tiaraju foi morto.


     


    Também queremos lembrar a memória das nossas lideranças que morreram lutando pela terra e vida do nosso povo, dentre os quais Marçal Tupã’y, Marcos Veron, Dorival Benites.


     


    Nosso direito à educação escolar diferenciada e de qualidade


    Os professores indígenas estiveram conosco discutindo sobre os problemas e avanços que tem conseguido nas escolas indígenas e na implantação de currículos, calendário com tempos e conteúdos específicos. Mas ainda tem muitos desafios pela frente. Por isso enviamos carta ao Ministério da Educação, Secretaria de Educação do MS e municípios, pedindo que respeitem e valorizem os professores e as escolas indígenas, que continuem e ampliem a formação dos professores indígenas e que respeitem nossa autonomia na construção de projetos e programas desde as aldeias até os cursos de nível superior.


     


    Realizamos mais essa importante Assembléia fortalecendo nossa união e buscando mais amigos e aliados na região, no Brasil e no mundo, para que possamos ter nossos direitos,respeitados especialmente a terra.


     


    Yvy katu, outubro de 2005.


     


    Comissão de Direitos Kaiowá Guarani


    Conselho Estadual de Direitos Indígenas do Mato Grosso do Sul


    Aty Guasu


     

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  • 27/10/2005

    Informe nº 687: Invasores ameaçam índios sem contato em Mato Grosso

    INVASORES AMEAÇAM ÍNDIOS SEM CONTATO EM MATO GROSSO


     


    Um grupo de indígenas sem contato que vive no Mato Grosso está ameaçado pela ação de  grileiros, que planejam aumentar sua presença na terra indígena Rio Pardo, na região dos municípios de Colniza e Aripuanã. As ameaças partem de três grupos distintos, mas relacionados.


     


    Uma equipe da Funai que visitou o local relata a existência de acampamentos de base dos grupos invasores. Em um acampamento foram encontradas duas bombas, motosserras, equipamentos como GPS e placas com coordenadas das terras pleiteadas pelos invasores.


     


    “A ação dos madeireiros é forte. É necessário tomar medidas urgentes para garantir a vida dos indígenas. A Polícia Federal e o governo brasileiro têm que agir: retirar os invasores da área, garantir a presença da Polícia Federal e iniciar a identificação da terra”, afirma o procurador da República em Mato Grosso, Mario Lucio de Avelar.


     


    Entre os invasores está a Associação dos Proprietários Rurais de Colniza, acusada de grilar terras na região norte da Serra Morena, fronteira do Mato Grosso com o Amazonas. Um projeto de colonização da Associação planeja o assentamento de 107 famílias para exploração de madeira e ecoturismo e afirma que não há “vestígios de povos silvícolas que conteste a legitimidade da posse na área pelos associados”.


     


    Há grilagem também na parte noroeste da terra. Ali já se instalaram 200 pessoas e há previsão de entrada de mais 400 nos próximos dias. Nas regiões sul e leste da terra, as ameaças vêm através de grupos madeireiros e agropecuários que ocupam grandes áreas. Algumas têm mais de  23 mil hectares.


     


    A terra se encontra interditada pela Funai devido à presença de povo sem contato, mas o Grupo Técnico para identificação ainda não iniciou o processo de reconhecimento da terra, havendo o risco de haver a desinterdição da terra, já solicitada pelos invasores. Quando há grupos isolados, é normal que a área seja interditada para garantir a vida dos indígenas enquanto os estudos antropológicos são realizados. 


     


    Mais ameaças – Indígenas do povo Chiquitano também são ameaçados de morte por fazendeiros em Mato Grosso. Este povo vive na terra indígena Lago Grande, município de Pontes e Lacerda. Em 20 de outubro, um padre presenciou ameaças à comunidade feitas pela fazendeira Terezinha Helena Staut Costa, acompanhada de jagunços armados. A terra indígena está em estudo de identificação desde 2003. A procuradoria da Funai pediu instauração de inquérito para apuração das denúncias.





     


    MAIS DE 180 INDÍGENAS PARTICIPAM DA ASSEMBLÉIA POPULAR: MUTIRÃO POR UM NOVO BRASIL


     


    Entre as oito mil pessoas que participam da Assembléia Popular: Mutirão por um novo Brasil, que acontece em Brasília desde terça-feira (25), estão 180 indígenas de 20 povos, vindos de 10 estados brasileiros. Ontem, os indígenas tiveram participação intensa nos debates sobre “Valores, Gênero e Etnias”, um dos 10 temas da Assembléia. Mas os participantes ressaltam que não vieram para debater apenas temas específicos: “Todos os temas do debate têm relação com indígenas. Saúde e educação, por exemplo. Se queremos construir um Brasil novo, o respeito à diversidade deste país precisa estar presente em todos os assuntos”, afirmou Aurivan dos Santos Barros, o Neguinho, cacique do povo Truká.


     


    Questões econômicas e políticas debatidas na Assembléia também tocam diretamente os indígenas. Um novo Brasil terá que necessariamente ter uma nova estrutura fundiária onde as terras e territórios indígenas sejam reconhecidos, bem como outras formas coletivas de terra e convivência com a natureza e todas as formas de vida. Os grandes projetos – como a construção de barragens ou a transposição do Rio São Francisco – também afetam de forma semelhante indígenas e pequenos produtores.


     


    A transposição do Rio São Francisco foi um dos temas fortes do debate, que contou com a presença de D. Luiz Cappio, bispo que realizou greve de fome e conseguiu reabrir o debate sobre a obra. Os movimentos reafirmaram que são contrários à transposição e questionam a ausência de debates mesmo depois do acordo de adiar o início das obras, firmado pelo governo Lula. O baixo impacto para a diminuição da pobreza no semi-árido é outro problema apontado, ao lado da falta de informações sobre o real objetivo da transposição. “Esse projeto, na verdade, promove a apropriação de dois tipos de recursos públicos: (a) recursos financeiros vultosos que poderiam ser empregados em projetos mais eficazes, de convivência com o semi-árido; (b) recursos hídricos disponíveis nos estados supostamente “beneficiados”, faltando apenas sistemas adequados de distribuição e gerenciamento, na contramão do que se implantará o mercado de águas com a comercialização dos recursos hídricos transpostos do São Francisco”.


     


    Entre as propostas apresentadas, estão alternativas para a convivência com o semi-árido, o aproveitamento dos mananciais existentes, gestão competente e democrática das águas acumuladas e de um verdadeiro programa de desenvolvimento integrado.


     


    A construção de um novo Brasil – A Assembléia é resultado de anos de mobilizações e de assembléias populares locais, e busca formas de intensificar a participação da população nas decisões políticas do país. Pelo acúmulo anterior de debates, algumas premissas da discussão já estão traçadas. Instrumentos como referendos e plebiscitos são essenciais à democracia. Luiz Bassegio, sociólogo e membro da Secretaria Intercontinental do Grito dos Excluídos, também afirmou que “só as eleições não irão resolver os problemas do povo brasileiro. É preciso que a população participe diretamente das questões que irão definir os rumos da sua própria vida”.


     


    O plebiscito do último domingo (23/11) sobre a comercialização de armas de fogo e munições foi analisado segundo Dom Odilo como exercício de participação popular, ainda que não tenha tido o debate necessário. “O povo decidiu, mas não houve espaço de reflexão profunda sobre o tema. A sociedade entendeu que não pode confiar na segurança pública e isso soa como distorção do real significado que tem o Estado de Direito”, explica o secretário-geral da CNBB, Dom Odilo Pedro Scherer.


     


    A Assembléia busca construir formas de enfrentar os desafios do desemprego e do mundo do trabalho em intensa precarização, de indicar caminhos para a criação de políticas públicas consistentes em saúde, educação e comunicação; de incluir a população excluída da cidade e do campo. O encontro tem como temas também a construção de caminhos para a soberania do Brasil em relação a seus recursos naturais, culturais e econômicos.


     


    A Assembléia deve traçar uma agenda unificada de ações para 2006. Ela é promovida por mais de 60 entidades religiosas e movimentos sociais de todo o país, entre elas a Campanha Jubileu Sul, a 4ª Semana Social, a Cáritas Brasileira, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).


     


    Brasília, 27 de outubro de 2005.


     


    Cimi – Conselho Indigenista Missionário


     

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  • 26/10/2005

    Carta ao presidente Lula


    Brasília, 26 de outubro de 2005.


     


    Excelentíssimo Senhor Presidente da República,


    Luís Inácio Lula da Silva


     


    e todo o povo brasileiro,


     


                As redes de organizações e movimentos sociais da sociedade civil abaixo-assinadas dirigem-se à Vossa Excelência e publicamente vêm reafirmar posição contrária ao projeto de transposição de águas do Rio São Francisco. Pelas razões a seguir expostas:


     


    Ausência de Debate          


    Vossa Excelência, durante campanha presidencial, explicitou a complexidade do projeto e a necessidade de garantir um amplo debate e novos estudos sobre o assunto, o que até agora não ocorreu satisfatoriamente. Pior, o governo se recusa a aceitar os resultados dos poucos espaços de debates existentes, quando esses se mostram contrários ao projeto. Por exemplo, o governo de Vossa Excelência se recusa a aceitar as condições estabelecidas pelo Comitê de Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) ou da I Conferência Nacional do Meio Ambiente que aprovou uma moção de repúdio e uma deliberação de proibição da transposição de águas do Rio São Francisco. Igualmente com relação aos pareceres críticos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC e do Centro de Estudos e Projetos do Nordeste – CEPEN, resultados de seminário ocorrido em Recife, em outubro de 2004.


     


    Falta de Transparência


    O governo se recusa, mesmo depois da pressão e insistência da sociedade civil, a divulgar, muito menos considerar, estudos técnicos que evidenciam a ineficácia do projeto, como o do Banco Mundial. O fato desta instituição vetar também o atual projeto porque, entre outros motivos, “a ligação com os pobres pode ser fraca”, teria “baixo impacto” na diminuição da pobreza, teria “pouco efeito no custo do suprimento hidráulico emergencial durante os anos de secas”, além das críticas de natureza técnica, reflete as contradições deste projeto. Se até o Banco Mundial, conhecido por muitos por financiar projetos com impactos socioambientais negativos, é contra o projeto, por que essa informação não é disseminada como subsídio para um amplo debate e levada em conta pelo governo?


    Por que é sonegada informação sobre os reais objetivos do projeto, que antes de pretender resolver o alegado déficit hídrico para consumo humano no Nordeste Setentrional, levará água para expansão do agro e hidronegócio no semi-árido?


     


    O projeto


    A transposição do Rio São Francisco, ao contrário do que afirma o governo de Vossa Excelência, não vai resolver o problema da sede e da fome das populações mais necessitadas do semi-árido, pois se trata de um projeto de alto custo, voltado para interesses outros que não são os destas populações. Desde sempre as oligarquias regionais utilizaram-se da indústria da seca para desviar recursos do poder central e os grandes projetos hídricos serviram sempre para concentrar terra e água, riqueza e poder. Esse projeto, na verdade, promove a apropriação de dois tipos de recursos públicos: (a) recursos financeiros vultosos que poderiam ser empregados em projetos mais eficazes, de convivência com o semi-árido; (b) recursos hídricos disponíveis nos estados supostamente “beneficiados”, faltando apenas sistemas adequados de distribuição e gerenciamento, na contramão do que se implantará o mercado de águas com a comercialização dos recursos hídricos transpostos do São Francisco.


    Vossa Excelência disse que o projeto dará de beber a “12 milhões de famílias da região mais pobre e mais seca do Nordeste”. Nós dizemos: O acesso à água é um Direito Humano básico, mas o projeto não vai dar de beber a quem tem sede; vai entregar, mais uma vez, nossas riquezas naturais aos oligarcas, tradicionais e novos, aos que sempre foram e continuam sendo os donos do poder naquela região. Chega a ser cruel, em nome da sede, favorecer os que dela tiram proveito e até a promovem. Além disso, vale ressaltar que 12 milhões de famílias representam mais de 43 milhões de pessoas, o que inclui praticamente todos os nordestinos, inclusive aqueles da bacia “doadora” do São Francisco. Ainda que fossem 12 milhões de pessoas seria toda a população do Nordeste Setentrional, quando sabemos que o projeto beneficiaria, na verdade, 3 milhões de pessoas, sendo 2,2 milhões na Região Metropolitana de Fortaleza – CE.


     


    Algumas questões técnicas


    Os períodos de maior necessidade de água serão aqueles, de cinco a sete meses, em que os rios intermitentes do semi-árido deixam de correr. É justamente nesse mesmo período que o Rio São Francisco torna-se menos volumoso e mais esquálido, obrigando à manutenção de reservas hídricas para assegurar a continuidade da produção de energia elétrica pelo sistema CHESF, responsável por 98% do consumo do Nordeste. A transposição aumentará o risco de “apagão”, como ocorreu em 2001.


    Os pseudotécnicos, mais preocupados em servir a interesses privados que à ciência e à técnica, despreparados para prever os múltiplos impactos sociais, econômicos e ecológicos do projeto, também não consideraram todas as questões técnicas. Por exemplo, não prevêem o elevadíssimo índice de evaporação, no domínio da caatinga, por onde passaria a maior parte dos canais.


     


    Viabilidade Ambiental


    Não é possível declarar a viabilidade ambiental do projeto sem conhecimento da dinâmica climática e da periodicidade do rio que vai perder água e dos rios intermitentes e sazonais que vão receber filetes das águas transpostas. Não só este conhecimento não está sendo considerado, como outros sobre impactos na bacia doadora. Desta forma, foi uma temeridade e uma irresponsabilidade a licença ambiental dada pelo IBAMA.


     


    Custo financeiro e custo social do projeto


    O custo financeiro do projeto, que é em torno de R$  4,5 bilhões, nos dois anos iniciais, é alto demais para um país endividado. O projeto exigirá a liberalização de recursos a cada ano e, portanto, qualquer descontinuidade eliminará qualquer avanço obtido com os recursos já investidos. Será jogar dinheiro fora. Esse é um projeto que transcende um só governo. E ocorre em um país que diz não ter recursos para garantir os serviços públicos básicos à sua população, que desvincula cada vez mais os gastos sociais do orçamento esmagado pela política econômica de arrocho fiscal – principalmente dos altos superávits primários – implementada sob a tutela das Instituições Financeiras com o objetivo de pagar uma dívida já paga inúmeras vezes, sem considerar os custos sócio-ambientais.


    Além disso, a sociedade precisa saber que quando os estudos são feitos, os custos são minimizados e os benefícios inflados. Desse modo, mostra-se que o balanço custo/beneficio é altamente favorável, mas sabemos que depois do projeto estar pronto, ele acaba custando três ou quatro vezes mais. Assim foi com a construção das hidrelétricas de Itaipu, Tucuruí, Sobradinho e outras. 


     


    Então: vai beneficiar a quem?


                A transposição se baseia em um modelo que prioriza o agronegócio, em detrimento da agricultura familiar, apontando para ações de privatização e comercialização da água.


    Mesmo sabendo de todos os possíveis e irreversíveis impactos sócio-ambientais, este governo fez a clara opção de atender aos interesses do grande capital – da grande indústria, como a de ferro e cimento, das empreiteiras, das corporações técnicas, do agronegócio, do hidronegócio, da carcinicultura e das novas oligarquias, os reais beneficiados. Como se já não bastassem os inúmeros outros mega-projetos de infra-estrutura, que continuam sendo tarefa do Estado, a despeito do discurso neoliberal de primazia da livre-iniciativa. Este projeto aumentará a concentração de renda e a desigualdade social, além de transformar a água em mercadoria, a ser vendida através de leilões, um dos mais rentáveis negócios contemporâneos, que neste caso vai se estabelecer com a CHESF / Águas, empresa criada para gerenciar as águas transpostas. Apenas 26 m3/s serão para “matar a sede”, mas o projeto está dimensionado para muito mais.


     


    Alternativas


                As soluções para o semi-árido e suas secas cíclicas e previsíveis não dependem de grandes projetos. Dependem do aproveitamento dos mananciais existentes e suficientes (de chuva, superfície, solo e subsolo), de uma gestão competente e democrática das águas acumuladas e de um verdadeiro Programa de Desenvolvimento Integrado Sustentável e Solidário que considere formas alternativas, eficientes e mais baratas de acesso a água, em conformidade com a grande variedade de situações geo-climáticas do semi-árido.


     


     


     


     


    As redes de organizações e movimentos sociais da sociedade civil abaixo-assinadas exigem:


     


    1. Quanto ao Projeto de Transposição


     


    1.1 – Que o governo federal paralise imediatamente o andamento do projeto de transposição do Rio São Francisco;


    1.2 – Que a revitalização da Bacia do São Francisco seja definida como prioridade de governo;


    1.3 – Que o povo do semi-árido, as populações ribeirinhas e as organizações sociais e profissionais que trabalham com e/ou estudam o tema sejam ouvidos e respeitados, fazendo, assim, parte do processo de decisão sobre do projeto;


    1.4 – Que um amplo e transparente debate sobre a transposição do Rio São Francisco e seus impactos seja realizado em todo o país, com efetiva participação de organizações da sociedade civil, movimentos sociais, comunidade acadêmica e das populações a serem atingidas pelo projeto. Queremos e temos o direito de saber os verdadeiros custos do projeto “irrigação-indústria-carcinicultura”. Quanto vai custar a água de irrigação? Quanto vai ser a produção? Quem vai produzir? O quê? Para quê? A que custo? Quem vai pagar?


     


    2. Quanto à sustentabilidade hídrica do semi-árido brasileiro


     


    2.1. Construir malhas de distribuição sustentável das águas estocadas nos açudes do Nordeste Sententrional e das águas da Bacia do São Francisco, para abastecer a população realmente necessitada de água para consumo humano e dessedentação animal, porque tanto uma como outra região padecem da mesma necessidade;


    2.2. Implementar o uso sustentável das águas subterrâneas no semi-árido;


    2.3. Implementar uma minuciosa política de captação da água de chuva, baseada nas tecnologias sociais de eficácia comprovada, para consumo humano e para produção agro-pecuária;


    2.4. Por fim, não basta água, é preciso terra. É condição incontornável implementar uma reforma agrária inteligente e apropriada às condições do semi-árido.


     


    A quem vai servir, e a que custo social e ambiental, a transposição das águas do Rio São Francisco? Essa é uma pergunta indispensável e se o governo de Vossa Excelência a fizesse, honestamente, paralisaria já esse projeto! Essa atitude pode ser a oportunidade para o Governo Lula recuperar sua identidade e resgatar a autêntica esperança que acendeu no coração do povo brasileiro ao ser eleito.


     


    Águas para a vida e não para a morte!


     


    Brasília, 26 de outubro de 2005.


     


    Entidades Assinantes:


    ABRANDH – Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos


    ADITAL – Agência de Informação Tito de Alencar para América Latina;


    AMB – Articulação de Mulheres Brasileiras


    ANOTE – Agência de Notícias Esperança


    CAMIC – Centro de Atendimento dos Migrantes e Indígenas da Cidade – Roraima


    Campanha Brasileira Contra a ALCA


    Campanha pela Auditoria da Dívida Externa


    Caritas Brasileira


    Casa da Mulher 8 de Março – Tocantins


    CBJP – Comissão Brasileira de Justiça e Paz


    CDDH – Centro de Defesa dos Direitos Humanos – Roraima


    CEBs – Comunidades Eclesiais de Base


    CERIS – Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais


    CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço


    CIMI – Conselho Indigenista Missionário


    CMP – Central de Movimentos Populares


    CMP – SE


    CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil


    CNL – Conselho Nacional de Leigos


    CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs


    CPT – Comissão Pastoral da Terra


    CRB – Conferência dos Religiosos do Brasil


    ESPLAR – Centro de Pesquisa e Assessoria


    FASE – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional


    FASUBRA


    Federação dos Metalúrgicos do Rio Grande do Sul


    Federação Nacional dos Metalúrgicos


    FENAJUFE


    Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o  Desenvolvimento (FBOMS)


    Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional (FBSAN)


    Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)


    Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos (FENDH)


    Fórum de Mulheres de Santa Catarina


    Fórum dos Movimentos Sociais de Blumenau – SC


    Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo


    Fórum Permanente em Defesa do São Francisco – Bahia


    Fundação Águas do Piauí (FUNAGUAS)


    GEJA – Grupo Especial de Jovens e de Adolescentes – Acre


    Grito dos Excluídos / Continental


    Grito dos Excluídos / Nacional


    Grupo de Trabalho Amazônico (GTA)


    IBRADES – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Social


    Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS)


    JOC Brasil – Juventude Operária Católica


    MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens


    Marcha Mundial das Mulheres


    MNDH – Movimento Nacional dos Direitos Humanos


    MOPS/SE


    Movimento Consulta Popular


    Movimento Nós Existimos – Roraima


    MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores


    MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra


    Mutirão de Superação da Miséria e da Fome da CNBB


    PACS – Políticas Alternativas para o Cone Sul


    Pastoral Afro-Brasileira


    Pastoral Carcerária


    Pastoral da AIDS


    Pastoral da Criança


    Pastoral da Juventude do Brasil


    Pastoral da Mobilidade Humana


    Pastoral da Mulher Marginalizada


    Pastoral da Pessoa Idosa


    Pastoral da Saúde


    Pastoral da Sobriedade


    Pastoral do Menor


    Pastoral do Povo de Rua


    Pastoral dos Nômades


    Pastoral dos Pescadores


    Pastoral Indígena da Cidade – Roraima


    Pastoral Operária Nacional


    Pastoral Social da CNBB


    Pastorais Sociais – Regional Santa Catarina


    Rede Brasileira de Integração dos Povos (REBRIP)


    Rede Brasileira de Justiça Ambiental


    Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais


    Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH)


    Rede de Informações do Terceiro Setor (RITS)


    Rede Economia e Feminismo


    Rede Jubileu Sul/Brasil


    Rede Social de Justiça e Direitos Humanos


    SPM – Serviço Pastoral do Migrante


    Sindicato dos Advogados de São Paulo


    Sindicato dos Bancários de Blumenau – SC


    Secretaria de Relações Internacionais da CUT


    Unafisco – Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal


    UNAFISCO / Sindical – SP


    UNE – União Nacional dos Estudantes


    União Brasileira de Mulheres – Núcleo Chapecó/SC

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