• 05/04/2006

    Indígenas reúnem-se com Aldo Rebelo hoje às 15 horas

     


    Lideranças indígenas que participam do Abril Indígena reúnem-se hoje às 15 horas com o presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo. Na pauta, está a reivindicação para que os projetos de lei que tratam sobre os direitos indígenas sejam encaminhados em conjunto e atrelados aos debates do Estatuto do Índio, para garantir que haja coerência entre as matérias.  Tramitam no Congresso 105 Projetos de Lei e Projetos de Emenda Constitucional relacionados aos povos indígenas. Destes, 86 estão na Câmara dos Deputados.


     


    As lideranças buscam também a garantia de que serão ouvidos sobre as dezenas de projetos de lei que tramitam na Câmara. Esta reivindicação reforça um dos temas centrais das mobilizações indígenas dos últimos anos, em que buscam a participação ativa dos próprios indígenas nas definições que afetam a estas populações, como garante a legislação brasileira, sobretudo depois que o país assinou a Convenção 169 da OIT, há cerca de três anos.


     


    A reunião será na presidência da Câmara e contará com a presença de 20 lideranças.


     


    Contatos – Assessoria de Imprensa


     



    Priscila D. Carvalho/ Cristiano Navarro


    Conselho Indigenista Missionário (Cimi)
    (61) 21061650/ 9979 6912/  9979 7059  www.cimi.org.br


     


    Paulino Montejo


    Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira  (Coiab)


    (61) 3323 5068  www.coiab.com.br


     


    Edvard Dias Magalhães


    Centro de Trabalho Indigenista (CTI) – www.trabalhoindigenista.org.br
     (61) 3349-7769 ramal 211


     


    Programação:


    05 de Abril 


    Manhã:


     



    • Plenárias Temáticas:

    – Demarcação
    – Proteção
    – Sustentabilidade e gestão territorial
    Saúde Indígena 


     


    Tarde (14 horas):
     


    ·        Discussão sobre “Conferência Nacional dos Povos Indígenas”, organizada pela Funai


    ·        Discussão e aprovação do Documento Final do Abril Indígena/Acampamento Terra Livre 2006


     06 de Abril 


    Manhã: 



    • 10 h: Audiência Pública no Senado Federal sobre “Situação dos Direitos dos Povos Indígenas no Brasil”
    • Ato Público para divulgação do Documento Final do Acampamento Terra Livre

    Tarde (14 horas):


     



    • Mobilização / Ato Público
    • Encerramento

     

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  • 05/04/2006

    Agressão do governo Aécio Neves contra manifestantes

    O governo Aécio Neves montou uma operação de repressão, com uso da polícia militar, contra as mobilizações do I Encontro Mineiro dos Movimentos Sociais, em Belo Horizonte.
    Hoje, 3 de abril, houve agressão física e intimidação psicológica dos policiais contra os manifestantes. O aparato policial, cerca de 100 policiais armados, agrediu com gás de pimenta e cassete os manifestantes, no centro de Belo Horizonte, quando tentaram impedir a passagem da  “Marcha: água e energia para a soberania do povo brasileiro”, que junto com outras marchas de movimentos ligados à Via Campesina, somaram 2.000 pessoas.
    O Bispo Dom Luciano, os Deputados Estaduais Rogério Correia, Laudelino e Pe. João, o deputado federal César Medeiros, a Rede Nacional de Advogados Populares e outras lideranças presentes no momento interviram no conflito e evitaram a continuidade das violências.
    Os policiais também tentaram impedir o encontro da marcha com os representantes dos movimentos sociais que desde quinta-feira estavam em GREVE DE FOME, pelo direito a manifestação.
    Na sexta-feira 200 policias trancaram a marcha do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragem), na BR 040, por mais de uma hora. A Marcha do MAB saiu hoje cedo da COPASA (Companhia de
    Saneamento de Minas Gerais). Cerca de 400 atingidos por barragens estavam acampados na empresa, num ato contra a privatização da mesma e denunciaram a falta de saneamento básico para o povo. Segundo Joceli Andrioli, da coordenação do MAB, muitas viaturas policiais acompanharam os atingidos durante toda a marcha, numa tentativa de intimidação.
    O objetivo da marcha é protestar contra a política de privatização do BID (Banco Internacional de Desenvolvimento) e pela redução na tarifa de energia elétrica. O BID é responsável por boa parte do financiamento das obras das empresas construtoras de barragens hidrelétricas, mineração e outros.

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  • 04/04/2006

    Programação do Abril Indígena – Quarta-feira


    A programação do Abril Indígena prossegue nesta quarta-feira, 5 de abril, com a presença de 500 indígenas que vieram de 20 estados do país.


     


    Pela manhã, à partir das 9 horas, os indígenas estarão divididos em grupos que debaterão os temas Demarcação de terras, Proteção dos territórios, Sustentabilidade e gestão territorial, Saúde Indígena, Política indígenista e Gênero. Após os trabalhos em grupos, as conclusões serão compartilhadas entre os participantes, que se reúnem sob uma estrutura de circo montada na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Congresso Nacional, em Brasília.


     


    À tarde, a partir das 14 horas, os participantes voltam a debater os temas em plenária e aprofundam os debates sobre a política indigenista.


     


    As atividades da quinta-feira serão finalizadas com a discussão e aprovação do Documento Final do Abril Indígena/Acampamento Terra Livre 2006, que será apresentado ao Senado Federal em Audiência Pública marcada para as 10 da manhã do dia 6, quinta-feira. Após a audiência, os indígenas conversarão com o presidente da casa, Senador Renan Calheiros (PMDB). 


     


    Conjuntura e reivindicações


     


    Hoje, os trabalhos da tarde estão sendo finalizados com uma análise de conjuntura voltada para os caminhos recentes da política indigenista que, para os palestrantes indígenas e indigenistas, conserva os traços de tutela dos quais os indígenas vêm, há décadas, lutando para superar. Jecinaldo Barbosa Cabral, coordenador da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, avalia que o Abril Indígena, realizado por três anos consecutivos, e a queima simbólica, em Manaus, da carta de compromisso assinada pelo governo com os povos indígenas durante a campanha presidencial foram pontos importantes das mobilizações deste setor da sociedade e contribuíram para a manutenção da coesão entre as entidades e povos indígenas. “A luta dos movimentos sociais no Brasil culminou com a eleição de um governo de esquerda, e nos enchemos de esperança de que nossos direitos seriam colocados em prática. O título do programa de governo era uma nova política indigenista, e não a política indigenista da ditadura. Mas o governo se fechou para o diálogo com o movimento social e se alinhou aos políticos anti-indígenas de Roraima e Santa Catarina. Assim começaram as barganhas do que é mais sagrado para nós, a terra, e isso provocou um verdadeiro massacre”, afirmou.


     


    A falta aborda dois dos pontos centrais deste Abril Indígena. O primeiro deles é a continuidade da mobilização dos povos para garantir sua participação na formulação da política indigenista, o que começa a ser possível a partir da criação da Comissão Nacional de Política Indigenista, obtida em março depois de ter sido pauta das mobilizações de 2005.


    A busca de novos caminhos é atrelada às não tão novas críticas à atuação do órgão indigenista oficial. “O papel da Funai é levar as reivindicações dos índios às instâncias superiores, e  não colocar empecilhos”, afirmou Gilberto Azanha, do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), entidade que faz parte do Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas.


     


    A fala de Jecinaldo Cabral toca também em outro ponto central das reivindicações, que é a solicitação do encaminhamento, pelo Ministério da Justiça, das terras que estão paradas no órgão à espera da publicação da portaria que define seus limites, para que o processo de demarcação possa seguir adiante. Cinco das 13 terras que já haviam sido levantadas pelo movimento como prioritárias desde o ano passado estão localizadas em Santa Catarina, estado onde os acordos políticos contra a demarcação de terras indígenas são fato divulgado até pela imprensa.

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  • 04/04/2006

    Newsletter nº 708: Indigenous movement announces the mobilizations for “Indigenous April”

    Between 4 and 6 April, more than 500 indigenous leaders from all over Brazil will be in Brasília, on the Ministerial Esplanade, to hold the 3rd Free Land Camp.


     


    It was announced, today, at the headquarters of the Coordination of the Indigenous Organizations of the Brazilian Amazon (Coiab), in Brasília, that the 3rd Free Land Camp, would take place between 4 and 6 April, on the Ministerial Esplanade, and would be attended by more than 500 leaders from all over Brazil.


     


    Considered by the indigenous organizations and their supporters as the main mobilization within their calendar of struggles, the main objective of the Free Land Camp is to press the Federal Government to guarantee the constitutional rights of the indigenous people, especially the right to protection for their lands. “This camp will show our strength, and show people that we are still alive, in spite of all the massacres”, said the leader of the Guarani-Kaiowá people, Anastácio Peralta.


     


    In the opinion of the coordinator of the Forum for the Defense of Indigenous People’s Rights, Francisco Avelino, of the Apurinã people, the Camp is a way of drawing the attention of society to the real situation of the indigenous people. According to Avelino, there is still no dialog in place with the authorities to enable their demands to be permanently met, “at this time of year, the Government usually introduces some temporary measures, but we do not demobilize”.


     


    Valéria Payé, of the Tiryó people, leader of the indigenous women’s movement, sees these actions as a clear attempt to co-opt the movement. “The government tries to keep us quiet by carrying out these actions right in the month of April”, says Payé referring to the decree that set up the National Policy for Indigenous People (CONAPI) and the Indigenous People’s Conference of the National Foundation for Indigenous People.


     


    Because of the intensity of the manifestations throughout the country, the month has been called Indigenous April. As well as the Free Land Camp, the calendar for April also includes a series of manifestations throughout Brazil: 1 and 2 April: National Meeting of Indigenous Women, in Brasília; 15 April: celebration of the first anniversary of the ratification of the Raposa Serra do Sol, land in Roraima; Indigenous People’s Week, mobilization in the states planned during the Free Land Camp; 20 to 23 April: participation in the Brazilian Social Forum, in Recife; 21 to 26 April:  Coiab Meeting, in Roraima.


     


    The History of the Free Land Camp


     


    Little more than six months after President Lula took power, around 50 leaders of the Kaingang, Guarani and Xokleng peoples knocked on the doors of Brasília to claim that the promises made during the election campaign be carried out, by camping on the Ministerial Esplanade in front of the Ministry of Justice, from 26 June to 3 July.


     


    The objective of the protest was to get a meeting with the Minister of Justice, Márcio Thomaz Bastos, to deal with regulating their lands immediately. The leaders also asked the government for a clear position concerning the direction of indigenous policy in the country. As well as the peoples from the South, over the last few days the camp was reinforced by 15 indigenous leaders of the Krahô-Kanela people, who are still, today, demanding the demarcation of their lands.


     


    This action turned into an important training and reference point in the indigenous people’s struggle, such that: the following year, 200 leaders from 33 indigenous peoples from every region in the country, came together in the same place, to repeat the event camping out from 14 to 22 April. This was to be the first nationwide mobilization of the Lula government. As a symbol of their struggles, the leaders chose solidarity with the struggle of the people of Roraima for the ratification of the Raposa Serra do Sol indigenous land. The name given to the camp referred to the Assembly of the Indigenous Council of Roraima, who, even without the ratification decree, had declared the Raposa Serra do Sol as a “Free Land”.


     


    Thus, all the peoples that took part in the camp chose freedom for their territories – that is, regulation of and no intrusions into their land – as a priority of the mobilization.


     


    So that their claims could be heard, the two hundred leaders occupied the plenary hall of the National Congress for nine days. This bold action led to the indigenous movement’s first hearing with President Lula and to one of its most important conquests: promulgation of International Labor Organization Convention No. 169, which is an important normative landmark in the relationships between the nation states and indigenous peoples. The object of the convention is to put an end to integrationist policies concerning the indigenous peoples and their substitution by ethnic and cultural pluralism.


     


    As a result of this mobilization, the Forum for the Defense of Indigenous People’s Rights, which brings together the main indigenous organizations and their supporters, was started up again.


     


    In 2005, when it was held for the second time, the Free Land Camp involved more than 800 leaders from 89 peoples coming from different regions of the country. A large, colorful tent was put up an the center of the “settlement”, where plenary sessions were held to debate the indigenous land regulation processes, the bills and the constitutional amendments which threaten indigenous rights in the National Congress and the creation of the National Council for Indigenous Policy.


     


    Brasília, 30 March 2006.


     


    Cimi – Indianist Missionary Council


     

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  • 04/04/2006

    Os pobres possuirão a terra (Sl 37,11)


    Pronunciamento de Bispos e Pastores Sinodais sobre a Terra


                                      


    Introdução


     


    1. Após se completarem 25 anos do documento “Igreja e Problemas da Terra”, aprovado pela Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, em 1980; quando a Comissão Pastoral da Terra, CPT, acaba de celebrar os 30 anos de existência, a serviço dos povos da terra; ao comemorarmos o trigésimo aniversário da morte do Padre João Bosco Penido Burnier (12/10/76), o vigésimo da morte do Padre Josimo Morais Tavares (10/05/86), o 10º aniversário do massacre de Eldorado de Carajás, com a chacina de tantos pobres, leigos (17/04/96) e o primeiro aniversário da morte de Irmã Dorothy Stang, (12/02/05), mártires da terra, terra sempre prometida por Deus e sempre negada pelos detentores do poder, nós, bispos das Igrejas Anglicana, Católica, Metodista e pastores Sinodais da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, IECLB e membros do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC, queremos refletir a realidade do campo, da água e das florestas do Brasil, neste início do século XXI. Buscamos encontrar os melhores caminhos para apoiar a causa de todos os que vivem do trabalho da terra em nosso país e suas organizações e movimentos para que cresçam na construção de sua autonomia e na busca de soluções duradouras e eficazes para seus problemas.


    2. Os problemas enfrentados pelos camponeses e camponesas, trabalhadores e trabalhadoras do campo brasileiro, notadamente pelos pequenos produtores rurais, posseiros, meeiros, arrendatários, sem-terra, acampados e assentados, assalariados rurais e pelas diversas e diferentes comunidades ribeirinhas, extrativistas, quilombolas e povos indígenas, estão presentes no horizonte das preocupações pastorais de nossas Igrejas. Elas continuam a ouvir o clamor destes povos, muitos em condições mais difíceis e precárias que antes e mais excluídos dos bens que a natureza e a sociedade oferecem.


    3. É com preocupação que olhamos o presente e o futuro do povo que vive do trabalho na terra. O neoliberalismo se implantou e tornou o capital e o mercado valores absolutos. A política oficial do País subordina-se aos ditames implacáveis deste sistema e apóia e estimula abertamente o agronegócio intensivo e extensivo que está estrangulando nossos pequenos agricultores e os trabalhadores em geral, tanto da cidade, quanto do campo, inviabilizando sua sobrevivência.


    4. A questão da terra não afeta somente o campo, mas é uma questão nacional e planetária. A acelerada e violenta agressão ao meio-ambiente e aos povos da terra revela a crise de um modelo de desenvolvimento alicerçado no mito do progresso que se resume nos resultados econômicos e esquece as pessoas, sobretudo as mais pobres e todas as outras formas de vida. Por isso convidamos todas as pessoas de qualquer credo que desenvolveram o senso de justiça e fraternidade, a que procurem conhecer mais e em profundidade a emergência da situação ambiental e a realidade das pessoas que vivem da terra, a se solidarizarem com elas, a apoiarem suas, mais que justas, lutas e reivindicações. Convidamos toda a população brasileira para juntos procurarmos construir uma sociedade alicerçada na solidariedade capaz de combater a idolatria do mercado.


     


    I. RESGATANDO A HISTÓRIA


     


    A. A contribuição de nossas Igrejas


     


    5. Nas décadas de 1970 e 1980, era tão rica e diversificada a experiência de organização e tão forte a capacidade de luta por terra e pelos direitos dos trabalhadores, que a ditadura militar decidiu implantar estruturas claramente repressivas militarizando a administração da política agrária. E como, em sua visão, as oranizações dos camponeses e trabalhadores rurais assalariados poderiam resultar em movimentos revolucionários, o governo passou a acusar as Igrejas de serem insufladoras de idéias comunistas e de estarem por trás das ações ligadas aos conflitos fundiários. Chegou-se ao ponto de dizer que “a CPT criava os conflitos pela terra”. De fato, foi a partir da atuação das Igrejas que os conflitos, as violências, os assassinatos de trabalhadores passaram a ser conhecidos, tornados públicos, denunciados. Neste sentido, pode-se dizer que ela colaborou para visibilidade “política” dos conflitos e violências. Por ser uma pastoral, seus agentes tiveram uma cobertura institucional maior. Sem isso teriam sido vítimas fáceis da truculência da ditadura, como muitos camponeses, trabalhadores assalariados e militantes sociais.


    6. As Igrejas sentiram-se desafiadas a ter uma compreensão mais profunda do que estava acontecendo e a tomar posição diante da realidade. Como fruto desta reflexão, o documento aprovado pela CNBB, em 1980, fez uma importante distinção entre terra de trabalho e terra de exploração. Terra de exploração ou de negócio é a propriedade destinada ao enriquecimento contínuo por meio da exploração dos trabalhadores ou por meio da especulação. Terra de trabalh, pelo contrário é a terra de quem nela trabalha e vive. O documento ressalta que a responsabilidade pelos crescentes conflitos por causa da terra tem sua origem na expansão da propriedade capitalista da terra de exploração. A reflexão teológica e pastoral sobre a questão da terra, realizada também com apoio da análise sociológica, resultou numa série de compromissos por parte da CNBB, em nome da Igreja Católica. Foram respostas a três desafios: que faremos para que a terra seja um bem para todos? Que faremos para que a dignidade da pessoa humana seja respeitada? Que faremos para que a sociedade brasileira consiga superar a injustiça institucionalizada e rejeitar as opções políticas antievangélicas?


    7. A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, desde os primeiros momentos foi uma das protagonistas das ações da Pastoral da Terra. Um destacado grupo de pastores assumiu as lutas e as causas dos camponeses e camponesas, sobretudo em algumas regiões do país. Em 1982, a IECLB colocou como reflexão do ano a temática da terra, com o lema “Terra de Deus, Terra para todos”. Levou para dentro da Igreja o debate sobre a realidade da terra (mais da metade dos membros da Igreja era formada por pequenos agricultores). As comunidades de confissão luterana se debruçaram sobre esta realidade. O Concílio Geral da IECLB, em 1990, aprovou que a Igreja “voltasse a se empenhar pela Reforma Agrária”.


    8. A Igreja Católica, em 1986, dedicou a Campanha da Fraternidade também ao tema da terra visando sensibilizar as comunidades católicas e toda a sociedade. Com o lema “Terra de Deus, Terra de Irmãos”, apresentou dados sobre a concentração da terra no Brasil, o êxodo rural que esvaziava o campo e inchava as periferias das grandes cidades, os grandes projetos tanto públicos quanto privados, apoiados pelos governos, a violência contra os camponeses e trabalhadores.


    9. Em 1996, as Igrejas-Membro do Conselho Nacional de Igrejas – CONIC e da Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE, lançaram o documento “Os Pequenos Possuirão a Terra”, resultado do esforço comum destas duas instituições. O documento foi entregue ao governo e foi divulgado, junto com uma Carta ao Povo Brasileiro, conclamando para um dia nacional de oração pela Reforma Agrária.


    10. Em 1997, o Pontifício Conselho de Justiça e Paz, do Vaticano, lançou o documento “Por uma Melhor distribuição de Terras – O desafio da Reforma Agrária”, onde analisou a situação da concentração da terra, a situação vivida pelos agricultores e apontou caminhos para solução. Tinha caráter universal e dirigia-se, de forma clara, ao Brasil.


    11. O Colégio Episcopal da Igreja Metodista elaborou, em 2000, o documento “Diretrizes para a Ação Missionária na Questão da Terra”. Destaca que a questão da terra é uma das mais difíceis e conturbadas necessidades do povo brasileiro. Afirma ainda que interesses, nem sempre voltados para os mais carentes, se impõem e desafiam a atuação evangélica e missionária dos metodistas.


    12. “Dignidade Humana e Paz – Novo milênio sem exclusões”. Com este tema, no ano 2000, a Campanha da Fraternidade teve caráter ecumênico e foi organizada e assumida pelas Igrejas que compõem o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC. Esta Campanha assumiu compromissos com os excluídos, mais diretamente com os povos indígenas, com as populações de rua e com as populações do semi-árido. Com relação a estas últimas, apoiou a construção de cisternas de placas para captar água de chuva na perspectiva da convivência com o semi-árido.


    13. Os Bispos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, em carta pastoral de 2003, propõem um estilo de vida mais fraterno e generoso, aberto à partilha dos bens, à solidariedade para com os excluídos e pede que se pressionem os governos para que se implementem “reformas (entre elas a agrária) justas e necessárias mesmo que essas limitem vantagens de alguns em favor de todos.”


    14. A Campanha da Fraternidade de 2004, com o tema “Água, Fonte de Vida”, tornou-se uma referência nacional e  internacional. Colocou à reflexão os “múltiplos valores da água”, a água como um bem público, patrimônio de todos os seres vivos e direito fundamental da pessoa humana. Denunciou a política privatista e mercantilista da água embutida no discurso da “Oligarquia Internacional da Água”, formada por um grupo restrito de empresas do ramo, com apoio de organismos multilaterais e governos locais. Hoje, a luta pelo reconhecimento da água como direito humano é ecumênica e globalizada, assumida como uma bandeira pelo Conselho Mundial das Igrejas.


     


    B. A Reforma Agrária

     


    15. Durante os últimos trinta anos, nossas Igrejas têm se manifestado insistentemente sobre a necessidade de se realizar uma profunda e verdadeira Reforma Agrária. Porém todos os esforços e campanhas feitos para que houvesse mudanças na estrutura fundiária brasileira foram infrutíferos. Às mobilizações da sociedade por reforma agrária os governos responderam com tímidas políticas compensatórias que visavam amenizar os conflitos e desmobilizar os movimentos sociais, muitas vezes, com forte repressão.


    16. Com o fim do regime militar, o governo José Sarney sinalizou na direção de uma possível Reforma Agrária com a criação do MIRAD – Ministério Extraordinário da Reforma Agrária e do Desenvolvimento Rural – e com a formulação do 1º PNRA – Plano Nacional de Reforma Agrária – que se propunha a meta de assentar 1.400.000 famílias. Este plano não passou de uma carta de intenções: só foram assentadas 89.945 famílias.


    17. O Congresso Constituinte, em 1988, foi um dos palcos onde se defrontaram as forças pró e contra a Reforma Agrária. A questão agrária provocou intensos debates e foi um dos últimos pontos a ser votado. Foram recolhidas mais de 1.200.000 assinaturas em todo o país em defesa da Reforma Agrária. Apesar disto a bancada ruralista, com apoio da UDR, União Democrática Ruralista – ator estratégico e armado do latifúndio – conseguiu incluir no texto da Constituição dispositivo que impedia a desapropriação de terras consideradas produtivas. Desta forma retirou a força de outros artigos que subordinavam e condicionavam a propriedade à sua função social. Estabeleceu um novo ordenamento legal que representava um retrocesso em relacão à legislação anterior e ao Estatuto da Terra. Com a definição de “justas indenizações pecuniárias”, instalou-se no país uma verdadeira indústria de superindenizações de latifúndios desapropriados.


    18. As chacinas de Corumbiara e de Eldorado de Carajás, com a repercussão que tiveram, sobretudo no Exterior, e as pressões dos movimentos sociais levaram o governo Fernando Henrique Cardoso a criar o Ministério Extraordinário da Reforma Agrária (1996) que mais tarde passou a se chamar de Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA. Não se estabeleceu, porém, um programa real de Reforma Agrária e um plano com objetivos e metas para a desconcentração fundiária. Cresceu a pressão dos movimentos sociais com manifestações, marchas, ocupações de terras e de prédios públicos. Isso levou o governo a assentar dezenas de milhares de famílias como política compensatória para amenizar os focos de tensão social. A tão propalada Reforma Agrária., porém, nunca foi tratada como prioridade.


    19. Acolhendo a estratégia de amenização da pobrez, concebida pelo Banco Mundial para as áreas rurais dos países do Terceiro Mundo, em especial para a América Latina e Caribe, o governo de Fernando Henrique Cardoso adotou um novo modelo de Reforma Agrária denominado de “Novo Mundo Rural”. Era uma autêntica contra- reforma agrária. Visava substituir gradativamente o instrumento de desapropriação de áreas, por mecanismos de compra e venda de terras.  Para isto foram criados os Programas Cédula da Terra e Banco da Terra e outros programas nos quais se inclui hoje o Crédito Fundiário. Desta forma buscava-se privatizar os instrumentos de arrecadação de terras, transferir para estados e municípios o controle dos programas e desonerar a União dos seus custos financeiros e políticos. Neste contexto, o Incra foi perdendo sua função culminando com o desmonte da autarquia.


    20. Para conter o crescimento dos movimentos e suas ações, o governo Fernando Henrique Cardoso lançou a propagandeada “Reforma Agrária pelo Correio”, que só existiu nos meios de comunicação. Os sem-terra preencheriam um formulário nos Correios e em poucos meses receberiam seus lotes. Praticamente ninguém foi assentado por ela. O objetivo desta Reforma Agrária era o de desmobilizar os movimentos sociais, na tentativa de desconstruir qualquer ação organizada e coletiva. Veio acompanhada de uma série de medidas que criminalizavam as ações dos movimentos: a criação de um departamento específico na Polícia Federal para apurar crimes contra violações da propriedade rural; a proibição da vistoria das terras ocupadas, ou sob ameaça de ocupação mesmo que improdutivas; o impedimento do assentamento das pessoas e a proibição de acesso a recursos públicos das entidades que, direta ou indiretamente, se envolvessem com ocupações coletivas de latifúndios etc.


    21. Com a eleição de Lula para a presidência da República criou-se na sociedade brasileira em geral e, sobretudo nos movimentos sociais do campo a expectativa de que a Reforma Agrária se concretizaria. Foi criada uma comissão que apresentou um alentado e bem fundamentado programa de Reforma Agrária. Entretanto, este programa foi reduzido e descaracterizado. Só foi anunciado após uma Marcha organizada pelo Fórum Nacional Pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, ao final do primeiro ano do mandato (2003)


    22. Além disso, a bancada ruralista no Congresso Nacional, formada por parlamentares de diversos partidos, tem servido de instrumento para barrar todo e qualquer avanço da Reforma Agrária e dos direitos dos trabalhadores do campo. Não se consegue, por exemplo, votar a Proposta de Emenda Constitucional que estabelece a expropriação de propriedades onde se explora mão-de-obra em condições análogas à escravidão. Essa bancada, majoritária na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito das Terras, rejeitou o relatório final que denunciava a grilagem das terras públicas e aprovou um relatório substitutivo no qual os trabalhadores, vítimas da violência no campo, são denunciados como responsáveis pela mesma. Também propõe que as ocupações de terra sejam tipificadas como crime hediondo e ato terrorista.  Nunca, porém, foi criminalizada a grilagem conforme a lei já prevê desde 1966. [1]


     


    C. Nova consciência


     


    23. Vivemos uma mudança de época. Nossa geração assiste ao fim da concepção de desenvolvimento baseado no modelo industrial – em que se pressupunha a inesgotabilidade da natureza – e ao início de um modo de civilização baseado na sustentação de todas as formas de vida. O marco que separa essas duas concepções de mundo, sem dúvida, foi a tomada de consciência da “crise ecológica”. A devastação dos solos, da flora e da fauna, dos mananciais de água doce, a emissão de gases poluentes, com o conseqüente aquecimento global, feriram perigosamente o planeta em que vivemos.


    24. No decurso dos últimos anos, tem crescido a consciência dos trabalhadores em torno aos valores da terra e se resgata uma relação com a terra mais totalizante. É com satisfação que vemos que a terra está deixando de ser olhada como mero meio de produção, para ser contemplada como espaço de vida e de realização da vida e felicidade de todos os seres vivos. A terra, sem deixar de ser um fator importante para a produção dos bens necessários à vida, passou a ser percebida como o meio- ambiente, ou seja, lugar e fonte da vida. A terra é solo, água, ar, espaço, morada. Reflexões científicas mais aprofundadas deram novos fundamentos às percepções de que a Terra comporta-se como um ser vivo, onde não só uma forma de vida está vinculada à outra, mas onde a vida, para existir, pressupõe relações quase que indecifráveis também com os seres não vivos. Essa constatação científica coincide com a intuição de povos ancestrais, que viam a Terra como mãe, e que ela guarda mistérios que têm a ver com a possibilidade de compreensão do próprio ser humano.


    25. Indissociável desta nova concepção da terra está uma nova concepção da água. Hoje, em reação ao discurso da escassez, privatização e mercantilização da água em todo o planeta, ela passou a ser realçada – por ecologistas, cientistas, religiosos e estudiosos da questão social, – como um bem fundamental, indispensável a todas as formas de vida, patrimônio da humanidade e de todos os seres vivos, que não pode ser privatizada e mercantilizada. Em contraposição aos “múltiplos usos” da água, fala-se nos seus “múltiplos valores”: biológico, ambiental, social, religioso, medicinal, turístico e outros.. Exige-se uma nova racionalidade e uma nova cultura da água, em contraposição à prática predadora que determinou seu uso desde a revolução industrial. Ainda mais, ambientalistas, defensores dos direitos humanos e Igrejas lutam para que a água seja reconhecida como um direito fundamental da pessoa humana. Essa bandeira prospera no mundo inteiro, apesar das resistências das transnacionais da água, dos organismos multilaterais e dos governos locais.


    26. Cresce também o sentimento de que corremos o grave risco de um desastre total em relação à vida na Terra. Se não forem feitas mudanças profundas nas relações humanas com ela, a destruição direta dos bens naturais e a produção de diferentes tipos de poluentes reduzirão perigosamente a capacidade de a terra reciclar o que a agride. O aquecimento global, o efeito mais devastador desse modelo civilizatório, é a prova de que a humanidade precisa mudar seu relacionamento com o planeta que a abriga.


    27. Os governos, principalmente dos países mais ricos, e as grandes corporações econômicas, que são os maiores responsáveis pela agressão ao planeta Terra, pouco ou nada mudaram. Investem bilhões de dólares em monoculturas como a do eucalipto e da soja, sem se importarem com as comunidades pré-existentes, a depredação ambiental, o ressecamento dos solos. Investem outros bilhões na produção de venenos a serem jogados no solo e nas plantações a qualquer custo, e na produção e controle de sementes, inclusive as geneticamente modificadas. As pessoas que manipulam os venenos e os consumidores não contam nada..  Só contam o lucro e os impostos que esta atividade pode gerar. Coloca-se em perigo o equilíbrio da natureza, sempre em nome do progresso econômico. Os empresários aumentaram ainda mais seu tradicional controle sobre a terra agricultável, sobre o comércio das sementes e sobre a exploração de recursos naturais, como água, minérios, fósseis e florestas. Corre-se o risco de que a Lei 11.284, de 02/03/06, aprovada e sancionada recentemente, signifique a entrega das florestas públicas para a exploração privada e predatória por parte de corporações que controlam a extração e comércio de madeira no mundo. Empresários e governantes têm resistido às advertências vindas de pesquisadores, de religiosos, de ecologistas, de entidades da sociedade civil e de camponeses. Continuam aferrados à falsa idéia da terra como um bem infinito que pode ser explorada sem limites.


    28. Tudo isso faz com que seja ainda mais contraditória a situação do Brasil. As demais nações do planeta já não têm mais solos para expandir sua agricultura. Enquanto isso o Brasil ainda tem como expandir sua fronteira agrícola, pois detém aproximadamente 25% dos solos agricultáveis do planeta, 13,8% da água doce, entre 15 e 20% da biodiversidade planetária e praticamente 3 mil horas de sol sobre todo o território durante o ano inteiro. Deixando intactos os latifúndios improdutivos, a expansão agrícola está devastando biomas, como o Cerrado e a Floresta Amazônica. O Brasil tem os bens, mas não tem uma estratégia própria de aproveitamento desses bens. Infelizmente, por tradição histórica, continuamos sob a dependência dos mercados externos, depredando mais do que aproveitando os solos e os demais bens disponíveis. As tecnologias aplicadas no agronegócio, não raro, ocultam a agressão ao meio-ambiente, a super-exploração dos trabalhadores, quando não o trabalho escravo contemporâneo. Causa indignação que, para ampliar sua produção e para ser competitivo no mercado mundial, o Brasil precise utilizar esses meios espúrios e criminosos[2].


     


    II. SITUAÇÃO DO CAMPO HOJE


     


    A.  A realidade agrária e agrícola


     


    29. Vivemos, nos últimos anos, uma mudança total nas premissas que historicamente fundamentaram a política econômica. O mercado capitalista financeiro passou à condição de ente supremo para a solução de todos os problemas da economia brasileira e, inclusive, para a regulação das relações entre capital e trabalho.


    30. Passaram a ser levadas a cabo reformas neoliberais radicais, que resultaram, entre outras, na supressão de direitos sociais constitucionalmente garantidos e na precarização das já aviltantes condições de trabalho. Estas reformas foram responsáveis também pela privatização do patrimônio público com a venda de empresas estatais; pelo crescimento da grilagem de terras – a ocupação irregular e ilegal de terras públicas, inclusive as indígenas – e pela agressão, cada vez mais desenfreada, ao meio-ambiente e pelo aumento do trabalho escravo.


    31. A ausência de um programa eficaz de Reforma Agrária mantém e mesmo agrava a estrutura fundiária esboçada desde a época colonial. A concentração de terras, ao invés de diminuir, cresce. Em 1980, ao ser elaborado o documento “Igreja e Problemas da Terra”, os dados do Censo Agropecuário de 1975, indicavam que os estabelecimentos rurais com menos de 10 hectares eram 52,3% do total ocupavam 2,8% da área. Os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares eram 0,8% do total e ocupavam 42,6% da área. Em 2003, segundo os dados cadastrais do Incra, o número de imóveis com menos de 10 hectares estava reduzido a 31,6% dos imóveis, ocupando somente 1,8% da área. Enquanto o número de imóveis com mais de 1.000 hectares representava 1,6% dos imóveis que ocupavam 43,8% da área.


    32. Um dado significativo emerge da comparação dos dados cadastrais do INCRA de 1992 e 1998. Segundo estes dados os imóveis rurais acima de 2.000 hectares que, em 1992, ocupavam 121.874.647 ha, em 1998 passaram a ocupar 178.172.765 ha. Ou seja, tiveram um acréscimo de área superior a 56 milhões de hectares. No mesmo período foram destinados à “reforma agrária” só 16 milhões de hectares. Isso quer dizer que para cada hectare de terra destinado à reforma agrária, o latifúndio concentrou mais 3,5 hectares. Além disso os governos não têm tomado medidas suficientes para cumprir a Constituição no sentido de reaver as terras públicas griladas e de destiná-las para Reforma Agrária  e para demarcar as terras indígenas e quilombolas. Nem têm agido no sentido de regularizar as terras devolutas.


    33. Os parcos e burocráticos recursos destinados aos pequenos agricultores, o aviltamento dos preços da produção agrícola, a falta dos mais elementares serviços públicos de saúde e educação têm levado muitos camponeses ao desânimo. Com isso o êxodo rural continua. O governo Fernando Henrique Cardoso alardeava ter realizado o maior assentamento de famílias em toda a história do Brasil, 480 mil famílias assentadas (cerca de 2,4 milhões de pessoas) entre 1995 e 2000. Em contrapartida, entre 1996 e 2000, de cinco e sete milhões de pessoas, em grande parte jovens, abandonaram as áreas rurais. Um saldo negativo entre duas e três vezes o número dos assentados.[3]


    34. As políticas agrícola e agrária acabaram se submetendo aos interesses do agronegócio, com expansão do programa Crédito Fundiário e do Pronaf. O Crédito Fundiário acelerou o processo de uma Reforma Agrária traída e entregue à lógica do mercado. Trata-se, como já foi provado pelos anteriores programas Banco da Terra e Cédula da Terra, de um caminho que leva à inadimplência e, o que é mais grave, à progressiva substituição da figura constitucional da desapropriação por interesse social que pune o latifúndio. Em muitos casos as terras negociadas são aquelas menos férteis, devastadas ou que, pela localização e pela presença de acidentes geográficos que dificultam a mecanização, não são do interesse dos empresários do agronegócio. Por sua vez, o Pronaf leva os pequenos agricultores a se submeterem à lógica do agronegócio. Está direcionado a apoiar, sobretudo, projetos de pecuária e de monocultivos. Grupos organizados de agricultores ecológicos e outros, porém, pressionaram e conseguiram ter acesso a esses recursos para projetos alternativos. 


    35. Além disto muitas medidas tomadas pelo governo Lula vêm afetando o pequeno produtor camponês. Várias portarias do Ministério da Agricultura normatizam as agroindústrias e estabelecem tamanhas exigências, sem oferecer políticas de apoio e incentivo aos pequenos agricultores, que apenas as grandes ou médias empresas conseguem sobreviver. Os pesados investimentos econômicos que exigem, levam, por exemplo, milhares de pequenos produtores de leite e de outros produtos a se retirar do mercado fornecedor. Com isso inviabiliza-se a possibilidade de os pequenos agricultores e os assentados da Reforma Agrária terem e manterem suas  agroindústrias.


    36. As grandes corporações controladoras de sementes e alimentos pressionam para ter o domínio completo sobre estas e sobre toda a cadeia alimentar levando à uniformização do padrão alimentar. Usam de estratégias, as mais diversas, para difundir o plantio e a comercialização de suas sementes, inclusive as transgênicas. Facilitam o contrabando e o plantio ilegal destas últimas e depois usam do fato consumado para que o governo reconheça e libere tanto o plantio, como a comercialização das mesmas. Isto aconteceu com a soja. E no mesmo caminho estão indo o milho e outras sementes. As famílias e as organizações camponesas encontram muita dificuldade em utilizar e comercializar suas próprias sementes frente à falta de informação e às investidas das multinacionais e dos meios de comunicação. Com isso as empresas querem eliminar as centenas e centenas de variedades de sementes nativas, patrimônio milenar da humanidade, e provocar a total dependência dos agricultores dos seus laboratórios e comércio. A padronização dos alimentos, por outro lado, leva ao empobrecimento da dieta alimentar. Substitui a rica e imensa variedade de alimentos que as famílias consumiam, pelos poucos produtos, comercializados em todos os lugares do mundo, mas que estão sob o controle dessas empresas. 


    37. Essas corporações transnacionais acabaram impondo esta concepção à maioria dos deputados e senadores que aprovaram a lei de biossegurança, sem as necessárias precauções que a razão e o bom senso exigem. Ainda não se conhecem, suficientemente, os efeitos que os produtos transgênicos podem causar à saúde humana e ao meio-ambiente.


     


    B. O Agro e o Hidro–negócios


     


    38. A agricultura e a pecuária, nos últimos anos,  passaram por um acelerado processo de modernização com constantes ganhos de produtividade pelo melhoramento genético e pela aplicação de tecnologias de ponta. A maquinária e os implementos agrícolas, de última geração, vão indicando, a cada metro do terreno, a qualidade do solo e a quantidade de fertilizantes e de sementes necessárias.  As feiras agropecuárias se tornaram as vitrines onde todas as maravilhas e conquistas da tecnologia são apresentadas para deslumbramento dos visitantes.


    39. À agropecuária, assim modernizada, deu-se o nome de agronegócio. Este tem sido apresentado como o grande promotor do desenvolvimento nacional, responsável pelos crescentes superávites da balança comercial brasileira. Esta é a nova roupagem com que se apresenta hoje a agropecuária capitalista. Com isto quer se vender a imagem de desenvolvimento e progresso deixando intacta a perversa estrutura fundiária existente. E, desta forma, oculta o caráter concentrador e predador do latifúndio para destacar somente a produtividade.


    40. Além disto, o agronegócio tenta convencer a todos de que é responsável pela geração de milhares de empregos e coloca em sua conta a totalidade da produção agropecuária, incluindo a da agricultura camponesa e familiar.[4]


    41. Apesar dos constantes ganhos de produtividade, os defensores do agronegócio se opõem ferrenhamente a que sejam alterados os índices de produtividade estabelecidos, ainda na década de 1970, e que são utilizados para definir a produtividade da terra, para fins de desapropriação. Exigem, porém, uma produtividade cada vez maior dos trabalhadores.


    42. A produção agropecuária do agronegócio tem endereço certo: o mercado mundial. Produz para quem paga mais, sem a menor preocupação em garantir a segurança alimentar da nação[5]. É prioritariamente uma produção para exportar. Por isso o grande crescimento de áreas destinadas a pastagens e à produção de soja, cana e algodão. [6]


    43. Contudo os números disponíveis mostram que são as pequenas propriedades familiares, com sua produção diversificada, as que mais produzem, tanto quantitativa como qualitativamente. Nas regiões onde há concentração de pequenos agricultores, a desigualdade é menor e por conseguinte os índices de desenvolvimento estão entre os maiores.[7] É a pequena propriedade que coloca os alimentos na mesa dos brasileiros. Os dados são claros. Há também empresas rurais modernas que contribuem para o desenvolvimento econômico e social, no respeito aos valores éticos, ecológicos e da legislação trabalhista.


    44. Não é o agronegócio, principalmente a monocultura, que gera mais empregos no campo. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE 1995/1996 é a pequena propriedade que absorve mais mão-de-obra, 86,6% do total. A média propriedade absorve 10,9% e a grande, só 2,5%. A pequena propriedade, além da força de trabalho familiar, emprega ainda 40,3% da mão-de-obra assalariada. Enquanto que a média propriedade emprega 45,5% e a grande, somente 14,2%.[8]


    45. O agronegócio também se torna responsável por uma crescente onda de grilagem de terras. Este, que é um velho problema fundiário brasileiro, tem sido responsável pela devastação de grandes áreas de floresta, pela violência contra comunidades autóctones e pela invasão de territórios indígenas. O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Grilagem, chegou à conclusão “que a área grilada na Amazônia Legal pode chegar a 100 milhões de hectares”.  Áreas públicas da Amazônia são oferecidas, pela Internet, inclusive para estrangeiros, ao preço de US$ 60,00 o hectare.


    46. Chama a atenção a incongruência da ação do Estado que se, de um lado, se diz preocupado em combater a ocupação ilegal e irregular das terras públicas, do outro, financia empreendimentos nelas implantados e delas recolhe impostos, através da Receita Federal, dando-lhes, assim, uma cobertura de aparente legalidade, sempre protegida pelos sigilos bancário e fiscal. É patente, também, a falta de vontade política de muitos governos estaduais que não realizam as necessárias ações discriminatórias em terras devolutas facilitando assim a grilagem das mesmas e a impunidade dos grileiros.


    47. O agronegócio agride o meio-ambiente. Carrega na sua esteira o mais surpreendente e rápido desmatamento de que se tem conhecimento na história brasileira. Este desmatamento atinge dois biomas em especial, o Cerrado e a Floresta Amazônica. Na região Norte, de 1500 a 1970, somente 2% da cobertura vegetal haviam sido removidos. De 1970 para cá 17% desta cobertura foi destruída para plantações de soja, algodão e milho, como também para pastagens. O Cerrado, ecossistema que cobre quase um quarto do território brasileiro, é o mais ameaçado. Qualificado como a savana mais rica do mundo, o Cerrado é a grande caixa d´água do país de onde nascem vários dos mais importantes rios. Desde 1970, a produção da soja no Cerrado aumentou de 20 mil para 29 milhões de toneladas, ou seja passou de 1,4% para 58 % da produção nacional de soja[9]. Com isto a vegetação é destruída, espécies da fauna entram num processo crescente de extinção, fontes de água são afetadas e contaminadas pelo uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos – inseticidas, herbicidas – e fertilizantes químicos e atinge a lavoura dos pequenos.  E registra-se o aumento de incidência de câncer e de outras doenças nas pessoas que causaram várias mortes.


    48. Outra forma da violência do agronegócio se dá com a destruição da floresta:


    §                     pela ação das madeireiras que, muitas vezes, burlando a legislação ambiental, ou se escondendo atrás de falsos projetos de manejo florestal, destroem nossas matas, exportando nossa madeira, inclusive como contrabando;


    §                     pelo crescimento desordenado da indústria siderúrgica, que transforma a madeira em carvão vegetal para a produção do cobiçado ferro-gusa, muitas vezes com a utilização de trabalho escravo;


    §                     pelo incremento da atividade mineradora, muitas vezes licenciada sem a devida discussão da sociedade, que além de destruir a floresta, contamina as águas dos nossos rios pelo uso de produtos químicos e pelos dejetos neles lançados.


    49. O crescimento da produção agrícola não se dá só pelo aumento da área agricultável, destina-se à irrigação. 70% da água doce utilizada no planeta se destina à irrigação. No Brasil esta é feita sem a devida outorga exigida pela lei de águas. É principalmente atrás das águas que se dá a expansão das fronteiras agrícolas brasileiras. A voracidade com que os grandes produtores, sobretudo de grãos, avançam sobre as fontes de água, coloca em risco rios como o São Francisco, o Araguaia e o Tocantins, a região amazônica, o bioma do Pantanal, as chapadas e gerais do oeste da Bahia, de Balsas e das bacias do Parnaíba e do Uruçui, no Maranhão e Piauí. Hoje, exportar grãos é exportar água. Esta situação fica ainda mais alarmante se acrescentarmos os estragos produzidos pelas pastagens e pelo “reflorestamento” comercial intensivo, sobretudo, do eucalipto e do pinus.


    50. Apesar de o discurso ser outro, o projeto de transposição de águas do rio São Francisco, que o governo Lula assumiu como prioridade e quer realizar a qualquer custo, obedece à mesma lógica da expansão da agricultura irrigada. Além dos interesses de grandes empresas da construção civil e do cimento, escondem-se por trás deste empreendimento os projetos de irrigação para exportação de frutas e de criação de camarão.  É mais um capítulo da conhecida indústria da seca.


    51. Os interesses em torno à água, sua utilização econômica, sua privatização, sua mercantilização, justificam que já se fale em hidronegócio. A água transformada em mercadoria fica subordinada às leis do mercado e do capital e exclui um número significativo de pessoas, em especial os mais pobres.


    52. Diante da crise social e ecológica do mundo contemporâneo é necessário fazer uma leitura crítica do chamado avanço da ciência e da tecnologia. Com efeito, elas são a extensão do corpo e da inteligência humana. Porém, a pretexto de aumentar a produtividade, amenizar e até substituir o esforço humano em algumas atividades, muitas tecnologias modernas tornam-se excludentes e predadoras. No campo não é diferente. Não raro, as pesquisas de novas tecnologias acontecem sob encomenda de empresas privadas, visando prioritariamente o lucro, alçando interesses privados sobre os interesses do conjunto da humanidade e do ambiente. As inovações tecnológicas são inevitáveis e até necessárias, mas não basta mais que sejam sofisticadas ou de ponta, é preciso que respeitem o meio-ambiente e a pessoa humana.


     


    C. Os conflitos


     


    53. O avanço da dominação do agronegócio, predadora, excludente e desmobilizadora, tem feito aumentar a violência contra o meio-ambiente, a natureza, o patrimônio público e as pessoas. Consegue combinar relações de trabalho modernas e as mais atrasadas, como a exploração de mão-de-obra escrava. E é responsável por uma constante onda de migrações que deixa os migrantes cada vez mais vulneráveis à exploração de seu trabalho. Um caso exemplar é o dos bóias-frias da cana-de-açúcar. Eles têm de se esforçar cada vez mais para manter seus empregos e não serem devorados pela mecanização da colheita. Na década de 80 um trabalhador no corte da cana cortava, em média, oito toneladas de cana/dia. Hoje a média que se exige é de 12 toneladas. Se não for atingida, o trabalhador é dispensado.  Esse esforço demasiado tem sido responsável por dezenas de mortes por estresse e exaustão, fenômeno que os trabalhadores denominam de morte por birola. Infelizmente estas mortes acabam sendo computadas como conseqüência de outros problemas de saúde não aparecendo a real causa mortis. Enquanto se exige uma produtividade cada vez maior dos trabalhadores, o agronegócio se empenha a que não sejam alterados os índices de produtividade de suas propriedades. 


    54. No Pará e Mato Grosso a abertura de novas áreas, muitas delas griladas, continua a ser feita com mão-de-obra escrava. Nestes Estados, seguidos por Maranhão e Tocantins, é que se dá o maior número de denúncias desta prática. Mas, o trabalho escravo é também denunciado em Estados onde não se imaginava existisse. Surgem denúncias desta prática na Bahia, em Goiás e até no Rio de Janeiro e em São Paulo


    55. O que chama a atenção é a persistência e até o recrudescimento desta prática. Apesar do trabalho sério do Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho e do Emprego, criado em 1995, e de diversas medidas anunciadas para combater este crime, esta prática está longe de ser eliminada. A Comissão Pastoral da Terra, desde 1997, realiza uma Campanha de Combate ao Trabalho Escravo que tem por objetivo denunciar as situações de trabalho degradante e escravo, apoiar as vítimas e sensibilizar governo e sociedade sobre esta realidade. A CPT contabilizou só em 2005, 262 casos de trabalho escravo, envolvendo 7.447 trabalhadores. O Ministério do Trabalho fiscalizou 149 destas ocorrências e resgatou 4.361 pessoas. De 1995 até 2005 foram resgatados 18.694 trabalhadores.


    56. Depois do assassinato de três auditores fiscais do Ministério do Trabalho e do motorista que os acompanhava, em Unaí, MG, em 2004, cresceu o clamor nacional para que o Congresso aprovasse a Proposta de Emenda Constitucional, em tramitação há mais de dez anos, que prevê o confisco das terras em que se constate a existência deste crime. Já votado e aprovado pelo Senado, o projeto sofreu na Câmara alterações propostas pela bancada ruralista com o objetivo de protelar sua adoção definitiva. O projeto continua engavetado até hoje.


    57. Além disso, os órgãos responsáveis pelo combate de tal crime não têm recebido os recursos suficientes  e os meios proporcionais à gravidade da situação e, sobretudo, o efetivo respaldo por parte das autoridades e da Justiça. A falta de alternativas de sobrevivência nas regiões de aliciamento, a tolerância da Justiça e a ausência de severas sanções reais, tanto penais quanto econômicas e financeiras, mantêm o clima de impunidade gerando uma reincidência assustadora, tanto dos autores destes crimes, quanto das vítimas envolvidas nesta forma extrema de exploração.


    58. Mas a violência contra os trabalhadores é a mais diversa e se mantém constante e até se amplia. Em 2005, a CPT registrou 1881 conflitos no campo envolvendo 1.021.355 pessoas. Chama a atenção a violência que se abate sobre os trabalhadores pelas mãos do próprio poder público. Em 2004 foram despejadas, por ordem judicial, 37.220 famílias, (o número mais elevado dos 20 anos de registro) e em 2005, outras 25.618 famílias.


    59. O Poder Judiciário tem se mostrado, quase sempre, um dos grandes aliados do latifúndio e do agronegócio. Ao mesmo tempo em que é lento para julgar os crimes contra os trabalhadores é extremamente ágil para atender as demandas dos proprietários expedindo liminares de reintegração de posse que, na maioria das vezes, acabam se tornando sentença definitiva sem sequer ouvir a  parte acusada.


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  • 04/04/2006

    Os Kaiowá Guarani e a violência no Mato Grosso do Sul

    A morte de dois policiais no acampamento indígena Porto Cambira do tekoha Passo Piradju, município de Dourados, na noite do dia 1º de abril, trouxe à tona a realidade de violência que envolve o povo Kaiowá Guarani por séculos e com maior intensidade nas últimas décadas.


     


    Criou-se em torno do fato um estado de comoção que certamente estimulará o preconceito, a discriminação e o ódio, alimentado contra esses povos há séculos. E uma das conseqüências mais imediatas será a utilização desse fato contra as lutas desse povo por seus direitos, especialmente a terra. Estranhamente autoridades têm feito coro às afirmativas generalizantes que visam criminalizar os povos indígenas e a luta pelos seus direitos.


     


    Contexto e conseqüências das violências


     


    No relatório do Cimi sobre a violência contra os povos indígenas nos últimos três anos, o Mato Grosso do Sul foi o campeão em praticamente todos os itens. Esse quadro tem sido considerado por cientistas da área política e direitos humanos como uma situação de genocídio.


     


    Nas últimas décadas dezenas de lideranças indígenas foram assassinadas no Mato Grosso do Sul ficando praticamente todos os responsáveis impunes. Isso tem estimulado uma onde de violências sem precedentes configurando uma das situações de maior  brutalidade contra os povos indígenas na história recente do país.


     


    Ao nos colocarmos contra todas as formas de violência, lamentamos as mortes ocorridas esperando que se caminhe para a solução definitiva da raiz e causa principal de todas essas violências que é a negação da terra aos índios, aos quilombolas, aos trabalhadores rurais sem terra.


     


    As preocupações dos índios


     


    “Veja o que tem acontecido com o nosso povo. Foi uma história de violências, massacres, assassinatos, expulsões o tempo todo. E muitas dessas violências foram praticadas com a participação da polícia. Então o que se esperar?” Perguntou uma das lideranças do povo Kaiowá Guarani do Mato Grosso do Sul.


     


    Já os mais de 40 participantes desse povo presentes em Brasília na programação do Abril Indígena e Acampamento Terra Livre, mostraram-se extremamente preocupados com as possíveis conseqüências do fato, inclusive temendo pela vida e integridade de algumas pessoas da comunidade, especialmente lideranças e as pessoas que foram presas.


     


    Historicamente se tem estimulado estados de comoção para justificar as maiores crueldades, matanças, extermínio de comunidades inteiras. Hoje os sobreviventes desses massacres esperam do Estado e da sociedade brasileiras, respeito a seus direitos para que possam viver em paz e com dignidade.


     


    Campo Grande (MS), 4 de abril de 2006.


     


    Cimi – Regional Mato Grosso do Sul


     

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  • 03/04/2006

    Histórico do Acampamento Terra Livre

     


     


     


    Pouco mais de seis meses após a posse do presidente Lula, cerca de 50 lideranças dos povos Kaingang, Guarani e Xokleng bateram às portas em Brasília para cobrar os compromissos firmados na campanha acampando na Esplanada dos Ministérios em frente ao Ministério da Justiça, entre os dias 26 de junho a 3 de julho.


     


     


     


    O objetivo do protesto foi o de conseguir uma audiência com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos,  para tratar da imediata regularização de suas terras. As lideranças também pediram um posicionamento claro do governo acerca dos rumos da política indigenista do País. Além dos povos do Sul, nos últimos dias reforçaram o acampamento mais 15 lideranças indígenas do povo Krahô-Kanela, que ainda hoje reivindicam a demarcação de suas terras.


     


     


     


    Esta ação apareceu como um importante espaço de formação e referencial para a luta indígena. Tanto que, no ano seguinte, no mesmo local, 200 lideranças de 33 povos indígenas de todas as regiões do País repetiram o feito acampando entre os dias 14 e 22 de abril. Esta seria a primeira mobilização nacional no governo Lula. Como bandeira símbolo de suas lutas as lideranças escolheram a solidariedade à luta dos povos de Roraima pela homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol. O nome com o qual foi batizado o acampamento faz referência a Assembléia do Conselho Indígena de Roraima, que, mesmo sem o decreto de homologação, proclamou Raposa Serra do Sol como “Terra Livre”.


     


     


     


    Assim, todos os povos que participaram do acampamento elegeram a liberdade em seus territórios — ou seja, a regularização e desintrusão de suas terras — como prioridade daquela mobilização.


     


     


     


    Para serem ouvidas em suas reivindicações as duzentas lideranças promoveram uma ocupação do plenário do Congresso Nacional que durou nove dias. A ousada ação, resultou na primeira audiência do movimento indígena com o presidente Lula e uma das conquistas mais importantes para o movimento indígena: promulgação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que consiste em um importante marco normativo nas relações entre os Estados nacionais e os povos indígenas. A convenção tem como objetivo o fim do integracionismo dos povos indígenas e sua substituição pelo respeito ao pluralismo étnico-cultural.


     


     


     


    A partir desta mobilização foi rearticulado o Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas, que congrega as principais organizações indígenas e seus apoiadores.


     


     


     


    No ano de 2005, em sua segunda edição, o Acampamento Terra Livre contou com mais de 800 lideranças de 89 povos vindos de várias regiões do País. Ao centro da “aldeia” foi instalada uma tenda grande e colorida, onde foram realizadas seções plenárias para debater os processos de regularização de terras indígenas, os projetos de lei e as propostas de emenda à Constituição que ameaçam os direitos indígenas no Congresso Nacional e a criação do Conselho Nacional de Política Indigenista.


     


     

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  • 03/04/2006

    Movimento indígena anuncia as mobilizações para o Abril Indígena

     


    Foi anunciado hoje na sede da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), em Brasília, o 3º Acampamento Terra Livre, que ocorre nos dias 4 a 6 de abril, na Esplanada dos Ministérios, e deve contar com mais de 500 lideranças de todo Brasil.


     


     


     


    Considerado pelas organizações indígenas e indigenistas como a principal mobilização dentro de seu calendário de lutas, o Acampamento Terra Livre tem como objetivo principal pressionar o Governo Federal para garantir os direitos constitucionais dos povos indígenas, em especial o direito e a proteção de suas terras. “O acampamento mostra nossa força, mostra que a gente está vivo, apesar de todo massacre”, afirma o líder do povo Guarani-Kaiowá, Anastácio Peralta.


     


     


     


    Para o coordenador do Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas, Francisco Avelino, do povo Apurinã, o Acampamento é uma forma de chamar a atenção da sociedade envolvente para a realidade dos povos indígenas. Segundo Avelino, ainda não há um diálogo com o poder público para que as demandas sejam respondidas permanentemente, “sempre nesta época o Governo costuma tomar providências pontuais, o que não nos desmobiliza”.


     


     


     


    Valéria Payé, do povo Tiryó, líder do movimento de mulheres indígenas, enxerga nestas ações uma clara tentativa de cooptação do movimento. “O governo tenta calar nossa boca fazendo ações exatamente no mês de abril”, denuncia Payé referindo-se ao decreto que instituiu a Comissão Nacional de Política Indigenista e a Conferência dos Povos Indígenas da Fundação Nacional do Índio.


     


     


     


    De grande intensidade nas manifestações por todo o País, o mês foi batizado de Abril Indígena. Além do Acampamento Terra Livre, o calendário do mês de abril compõe-se de uma série de atividades e manifestações por todo Brasil: 1 e 2 de abril: Encontro Nacional de Mulheres Indígenas, em Brasília; 15 de abril: comemoração de um ano da homologação da terra  Raposa Serra do Sol, em Roraima; Semana dos Povos Indígenas, mobilização nos estados planejadas durante o Acampamento Terra Livre; 20 a 23 de abril: participação no Fórum Social Brasileiro, em Recife; 21 a 26 de abril:  Assembléia da Coiab, em Roraima.


     

     

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  • 03/04/2006

    Abril Indígena começa com 500 participantes na Esplanada dos Ministérios, em Brasília

     



    A maior mobilização nacional do movimento indígena, o Abril Indígena, começa amanhã, dia 4, na Esplanada dos Ministérios, e reunirá cerca de 500 lideranças de todo o país para estudos, debates e para audiências com o poder público.


     


    A atuação do movimento na recém criada Comissão Nacional de Política Indigenista – fruto das mobilizações de 2005 – e as estratégias para a Conferência Nacional que será realizada pela Funai ainda neste mês de abril são pontos de pauta, ao lado dos temas que se repetem a cada ano, como a morosidade na demarcação das terras e o atendimento à saúde.


     


    Está agendada para quinta-feira, 6, às 10 horas, uma audiência pública no Senado Federal sobre a Situação dos Povos Indígenas no Brasil. 


     


    Na manhã desta terça-feira, primeiro dia de acampamento, a coordenação do encontro apresentará histórico, objetivos, eixos temáticos e expectativas políticas para esta terceira edição do evento.


     

    À partir das 14 horas, os indígenas e indigenistas realizarão uma análise de conjuntura, focada na política indigenista do governo brasileiro e na situação das terras indígenas no Brasil, sobretudo no que se refere ao acesso, proteção e gestão dos territórios.

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  • 30/03/2006

    Informe nº 708: Movimento indígena anuncia as mobilizações para o Abril Indígena

    Foi anunciado hoje na sede da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), em Brasília, o 3º Acampamento Terra Livre, que ocorre nos dias 4 a 6 de abril, na Esplanada dos Ministérios, e deve contar com mais de 500 lideranças de todo Brasil.


     


    Considerado pelas organizações indígenas e indigenistas como a principal mobilização dentro de seu calendário de lutas, o Acampamento Terra Livre tem como objetivo principal pressionar o Governo Federal para garantir os direitos constitucionais dos povos indígenas, em especial o direito e a proteção de suas terras. “O acampamento mostra nossa força, mostra que a gente está vivo, apesar de todo massacre”, afirma o líder do povo Guarani-Kaiowá, Anastácio Peralta.


     


    Para o coordenador do Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas, Francisco Avelino, do povo Apurinã, o Acampamento é uma forma de chamar a atenção da sociedade envolvente para a realidade dos povos indígenas. Segundo Avelino, ainda não há um diálogo com o poder público para que as demandas sejam respondidas permanentemente, “sempre nesta época o Governo costuma tomar providências pontuais, o que não nos desmobiliza”.


     


    Valéria Payé, do povo Tiryó, líder do movimento de mulheres indígenas, enxerga nestas ações uma clara tentativa de cooptação do movimento. “O governo tenta calar nossa boca fazendo ações exatamente no mês de abril”, denuncia Payé referindo-se ao decreto que instituiu a Comissão Nacional de Política Indigenista e a Conferência dos Povos Indígenas da Fundação Nacional do Índio.


     


    De grande intensidade nas manifestações por todo o País, o mês foi batizado de Abril Indígena. Além do Acampamento Terra Livre, o calendário do mês de abril compõe-se de uma série de atividades e manifestações por todo Brasil: 1 e 2 de abril: Encontro Nacional de Mulheres Indígenas, em Brasília; 15 de abril: comemoração de um ano da homologação da terra  Raposa Serra do Sol, em Roraima; Semana dos Povos Indígenas, mobilização nos estados planejadas durante o Acampamento Terra Livre; 20 a 23 de abril: participação no Fórum Social Brasileiro, em Recife; 21 a 26 de abril:  Assembléia da Coiab, em Roraima.


     


    Histórico do Acampamento Terra Livre


     


    Pouco mais de seis meses após a posse do presidente Lula, cerca de 50 lideranças dos povos Kaingang, Guarani e Xokleng bateram às portas em Brasília para cobrar os compromissos firmados na campanha acampando na Esplanada dos Ministérios em frente ao Ministério da Justiça, entre os dias 26 de junho a 3 de julho.


     


    O objetivo do protesto foi o de conseguir uma audiência com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos,  para tratar da imediata regularização de suas terras. As lideranças também pediram um posicionamento claro do governo acerca dos rumos da política indigenista do País. Além dos povos do Sul, nos últimos dias reforçaram o acampamento mais 15 lideranças indígenas do povo Krahô-Kanela, que ainda hoje reivindicam a demarcação de suas terras.


     


    Esta ação apareceu como um importante espaço de formação e referencial para a luta indígena. Tanto que, no ano seguinte, no mesmo local, 200 lideranças de 33 povos indígenas de todas as regiões do País repetiram o feito acampando entre os dias 14 e 22 de abril. Esta seria a primeira mobilização nacional no governo Lula. Como bandeira símbolo de suas lutas as lideranças escolheram a solidariedade à luta dos povos de Roraima pela homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol. O nome com o qual foi batizado o acampamento faz referência a Assembléia do Conselho Indígena de Roraima, que, mesmo sem o decreto de homologação, proclamou Raposa Serra do Sol como “Terra Livre”.


     


    Assim, todos os povos que participaram do acampamento elegeram a liberdade em seus territórios — ou seja, a regularização e desintrusão de suas terras — como prioridade daquela mobilização.


     


    Para serem ouvidas em suas reivindicações as duzentas lideranças promoveram uma ocupação do plenário do Congresso Nacional que durou nove dias. A ousada ação, resultou na primeira audiência do movimento indígena com o presidente Lula e uma das conquistas mais importantes para o movimento indígena: promulgação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que consiste em um importante marco normativo nas relações entre os Estados nacionais e os povos indígenas. A convenção tem como objetivo o fim do integracionismo dos povos indígenas e sua substituição pelo respeito ao pluralismo étnico-cultural.


     


    A partir desta mobilização foi rearticulado o Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas, que congrega as principais organizações indígenas e seus apoiadores.


     


    No ano de 2005, em sua segunda edição, o Acampamento Terra Livre contou com mais de 800 lideranças de 89 povos vindos de várias regiões do País. Ao centro da “aldeia” foi instalada uma tenda grande e colorida, onde foram realizadas seções plenárias para debater os processos de regularização de terras indígenas, os projetos de lei e as propostas de emenda à Constituição que ameaçam os direitos indígenas no Congresso Nacional e a criação do Conselho Nacional de Política Indigenista.


     


    Brasília, 30 de março de 2006.


     


    Cimi – Conselho Indigenista Missionário


     

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