• 04/04/2007

    Informe n. 760

     


    ABRIL INDÍGENA JÁ COMEÇOU. CONFIRA A PROGRAMAÇÃO EM TODO O PAÍS


     


    A primeira atividade do Abril Indígena acontece desde ontem, quarta-feira, no Amazonas. A I Assembléia dos Indígenas da Cidade de Manaus tem a participação de 21 povos que migraram para a capital amazonense. Também fazem parte da programação o II Encontro Internacional Sepé Tiaraju, que vai reunir movimentos sociais e representantes Guarani do Brasil, Paraguai e Argentina, em Porto Alegre. No nordeste, um encontro sobre o Toré e a luta dos povos indígenas acontece em Pernambuco e a Celebração pelos 10 anos da morte de Galdino Pataxó Hã Hã Hãe, será realizada na aldeia Caramuru, sul da Bahia.


     


    Haverá também atividades com estudantes em Cuiabá, um acampamento regional em Imperatriz, Maranhão, uma Romaria, assembléia indígenas e Audiências em Minas, Espírito Santo e Bahia, além de mobilizações em Ji Paraná, Ronônia e Campo Grande, MS.


     


    Diversas atividades terminam com a vinda de ônibus para o acampamento Terra Livre, em Brasília, que tem a política indigenista como pauta principal e pretende reunir mais de 800 pessoas de 16 a 19 de abril.


     


    Os debates de ontem em Manaus trouxeram as reivindicações por educação e saúde diferenciadas. A reunião, que termina nesta quinta-feira, 4, acontece na a Universidade Estadual do Amazonas (UEA) e é promovida pela União dos Povos Indígenas de Manaus (Upims) e pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).



    Veja aqui a programação:


     


    Pará – 12 a 20 de abril – Entre os dias 5 e 9, acontece a mobilização para o acampamento Terra Livre em Brasília em Altamira, Pará. De 12 e 19, acontece a Semana dos Povos Indígenas em Santarém, com atividades nas escolas e Universidades organizadas pelo Cimi e pelo Conselho Indígena do Tapajós e Apurinã. Entre 16 e 20, será realizado o Acampamento Estadual da Via Campesina no Pará: Contra o Imperialismo e pela Soberania Popular na Amazônia, em Belém.


     


    Pernambuco – 10 a 13 de abril – Mobilização Terra Toré, na terra do povo Pankará, vai reunir 100 pessoas, de 30 povos de PE, PB, AL, BA, RN, PI e SE, em debates sobre terras e direitos indígenas do nordeste, sobre práticas rituais como o Toré e a luta pela terra. O encontro será também preparação para o acampamento Terra Livre, em Brasília.


     


    Porto Alegre, RS – 11 a 13 de abril – II Encontro Internacional Sepé Tiaraju, que vai reunir os Guarani que vivem no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e do Paraguai, e os movimentos do campo, catadores, quilombolas e pastoral da juventude, entro outros, no Parque da Harmonia, Porto Alegre.


     


    Ji Paraná, RO – 11 a 13 de abril – Manifestações a atividades indígenas. Na noite do dia 13, parte o ônibus para Brasília.


     


    Imperatriz, MA – 12 a 14 de abril – Acampamento Indígena Regional na Praça Brasil, em Imperatriz, organizado pela Coordenação das Articulações dos Povos Indígenas no Maranhão (COAPIMA), Cimi e MST. Na pauta, discussão sobre os objetivos do Abril Indígena e definição de estratégias do movimento em relação aos Grandes Projetos de infra-estrutura previstos para o Sul do Maranhão. No dia 14, haverá uma marcha pelas principais ruas de Imperatriz, com a participação da delegação indígena do Pará que vai ao Acampamento em Brasília.


     


    Minas Gerais – 12 a 19 – Assembléia dos Povos Indígenas em Minas Gerais, convocada pelo Conselho dos Povos Indígenas do estado, vai acontecer na Aldeia Brejo do Mata Fome, povo Xakriabá, norte de Minas. No dia 15, acontece a Romaria dos Mártires Xakriabá, pelo aniversário de 20 anos da morte de Rosalino Xakriabá. A Romaria, realizada nas aldeias Xakriabá, municipio de São João das Missões, reunirá os povos de Minas, representantes dos povos do sul da Bahia e norte do Espírito Santo, além de várias entidades de apoio e movimentos sociais do estado. Em 19 de abril, haverá audiências nas Assembléias Legislativas dos estados da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, com participação de representantes dos povos e organizações indigenas


    Campo Grande,MS – 13 de abril –  Cerca de 500 indígenas de todo o estado e os movimentos sociais, especialmente do movimento dos Sem Terra e Quilombolas, realizarão passeata pelas ruas centrais de Campo Grande e Ato Público. À tarde, haverá debates e entrega de propostas às autoridades estaduais. À noite, as lideranças participam de debate na Assembléia Popular e, depois, dois ônibus com indígenas partirão para Brasília.


     


    Cuiabá, MT – 16 a 20 – Atividades com estudantes das escolas da cidade sobre temas como Economia Rikbaktsa antes e depois da chegada dos seringueiros e dos jesuítas; sobre os estudantes e os trabalhadores indígenas na capital de Mato Grosso, sobre Índios em contexto urbano, e a Questão Fundiária dos Chiquitano. No dia 20, acontecerá a Celebração pelos 20 anos do Martírio do Ir. Vicente Cañas, SJ, na Igreja São Judas Tadeu (Av. Coronel Escolástico), às 19 horas, e Bênção para o início do Monumento do artista Jonas Correia em homenagem ao Ir. Vicente Cañas, SJ, assassinado há 20 anos no Mato Grosso, com depoimentos dos que o conheceram.


     


    Brasília, DF – 16 a 19 –  Acampamento Terra Livre vai reunir 800 indígenas de todo o país discutindo propostas do movimento para a política indigenista. Saúde, educação e projetos de desenvolvimento estão na pauta. No dia 19 de Abril, será realizada Audiência Pública na Câmara dos Deputados


     


    Bahia – 18 a 20 de abril – Programações locais políticas e culturais, no Monte Pascoal dos Pataxó; na Aldeia Caieiras Velhas, dos Tupinikim, e nos Tupinambá da Serra do Padeiro, em Ilhéus. No dia 21, celebração pelos 10 anos da morte de Galdino Pataxó Hã-Hã-Hãe, na aldeia Caramuru, sul da Bahia.


     


    Brasília, 4 de abril de 2007


    Cimi – Conselho Indigenista Missionário


    www.cimi.org.br


     


     

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  • 04/04/2007

    A mobilização contra Belo Monte continua


     


    A ameaça da implantação da Hidrelétrica de Belo Monte continua a mobilizar os movimentos sociais na região do rio Xingu no Pará. A hidrelétrica de Belo Monte faz parte de um conjunto de outras barragens, previstas para o rio Xingu, que se forem de fato executadas, trarão sérios impactos as terras de milhares de povos da região desde os indígenas até os ribeirinhos e os próprios moradores da principal cidade da região, que é Altamira (Pará).


     


    O discurso governamental é alarmista, alega que, se Belo Monte não for construída, o país corre sério risco de sofrer novos “apagões”. Na visão estreita do governos Federal e estadual, o crescimento econômico está acima dos interesses dos povos amazônicos. Eles retomam um discurso e uma prática típicos de regimes autoritários e investem na imagem de um governo preocupado em mitigar os efeitos negativos que se abaterão sobre a população da região.


     


    O modelo energético é fundado sobre grandes barragens, mesmo a sociedade brasileira já tendo discutido, desde a década de 90, modelos alternativos de geração de energia que causassem menos impactos sociais e ambientais. O governo, efetivamente, pouca atenção e investimento deu a essas propostas.


     


    O modelo energético brasileiro é também injusto, pois de um lado garante energia a preços baixos e subsidiados pelo Estado para grandes consumidores como as indústrias eletrointensivas, que são as principais interessadas, junto com as empreiteiras, na construção de grandes barragens. No outro extremo, estão as populações que vivem próximas às hidrelétricas que invariavelmente dispõem de um serviço de péssima qualidade oferecido pelas distribuidoras de energia. E, no meio disso tudo, fica a sociedade brasileira pagando altas taxas pelo consumo de energia elétrica nas suas casas.


     


    Para evitar essa perspectiva sombria é que as populações da Amazônia estão se mobilizando, como aconteceu no último dia 14 de março em Altamira, no Seminário sobre Belo Monte.


                                     


    Estiveram presentes 12 lideranças Kaiapó Xikrin da região do rio Bakajá e também representantes do povo Arara, da aldeia Cachoeira do Maia (TERRÃ-WANGÃ). A participação deles no encontro foi fundamental. O seminário começou com a formação de uma mesa a qual os índios fizeram questão de participar. As comunidades Kaiapó afirmaram nunca aparecer em qualquer estudo realizado pela Eletronorte.


     


    Na apresentação, o cacique Bekatenti Xicrin, da aldeia Morotiidjan, declarou que a comunidade Kaiapó é contra essa barragem e que estão preocupados com o futuro do rio Bakajá, porque é dele que eles dependem para comer, beber e se deslocar para cidade. O Bakajá, segundo estudos paralelos, tende a secar de tal maneira que nenhum tipo de navegação será possível.


     


    Bekatenti disse ainda que o objetivo da presença deles era de mostrar para todos que eles existem e que estão prontos para lutar pela sua sobrevivência. Em seguida, perguntou por que não tinha ninguém da Eletronorte para falar com eles.


     


    As atenções estavam voltadas para qualquer pronunciamento dos índios, porque estavam todos pintados e armados com suas bordunas e tomaram toda primeira fila do auditório.


     


    O seminário encerrou-se com um abraço no rio Xingu e com a dança dos índios em frente ao Centro Cultural da Eletronorte na beira do Cais da Cidade. Eles queriam mesmo dançar dentro das instalações da empresa e mostrar toda sua resistência a este projeto


     


    A participação indígena foi muito positiva, porque dessa vez os índios não serviram apenas de “papel de parede”, mas participaram como os principais atores da discussão.


     


     

    Luiz Cláudio (CIMI – NORTE II)  e Nilda Ferreira da Silva Ribeiro

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  • 04/04/2007

    Sobre a Terra Marãiwatsédé

    Sobre a Terra Marãiwatsédé


     


    Marãiwatsédé ainda hoje é terá nossa do povo xavante desde que fomos tirados da sede antiga fazenda Saiuá-Missú e fomos encaminhados a ir longe, mais ou menos umas duas léguas, onde não tinha água suficiente no tempo da seca e no tempo da chuva era só lama. O primeiro invasor, Ariosto da Riva, chegou no ano de 1960. Agora, naquele tempo não se sabe como ele chegou para invadir e abrir terra que já era ocupada pelos Xavante. Será que o governo do estado naquele ano 60 não pensou nos índios morando naquela região? Os dois estados de Mato Grosso eram unidos, eram um só. Nós fomos coitados pensando hoje assim. Porque Ariosto da Riva, mesmo com presença de Xavante era dono da terra com 800.000 (oitocentos mil) hectares. Imagina, quem é que deu tanta terra assim? E índios que moravam naquela terra foram jogados onde? Fazer assim com pessoa digna é uma loucura. Depois chegaram outros como o Sr. Orlando Ometto, Dr. Hermínio Ometto. Então vieram diversos tipos de doenças, que os Xavante não conheciam. E morreram muitos. Então isso era que uma grande desculpa e golpes de manobra pelos invasores para que os Xavante fossem tirados para a Missão de São Marcos no ano 1966. A denominação da fazenda Suiá-Missú foi dada erradamente pelos invasores daquela terra fazenda. Aquela terra sempre era ocupada pelos Xavante A’uwé upitab, que quer dizer “povo autêntico” desde 1900 (Mil e novecentos) que os primeiros invasores nem conheciam a denominação da gente.


     


    Então em 15 de agosto de 1966 fomos transportados da Força Aérea Brasileira (FAB) para Missão de São Marcos. A terra não está ainda totalmente liberada pelos posseiros. A demarcação não envolveu totalmente os lugares históricos dos Xavante, grande parte da terra que os Xavante conheciam muito bem ficou de fora onde os nossos antepassados foram enterrados. O que fazer para conseguirmos aquela terra ocupada registrada homologada, que é ainda ocupada pelos posseiros? Isso é uma pergunta que me faço. O posto da Mata é a antiga fazenda Suiá-Missú, que ainda os posseiros ocupam. Queremos nossa liberdade para nos movimentar, caçar, pescar, catar frutas do mato e outras abundâncias que a mata nos oferece.


     


    Quando deixamos Marãiwatsédé em 1966 ainda tinha muita mata e quando voltamos a Marãiwatsédé não achamos quase nada, só vimos destruição, desmatamento brutal. Hoje, o município do nosso Marãiwatsédé é Alto da Boa Vista, criado para dizer que por lá nunca moraram os Xavante. Seria melhor posseiros responsáveis da destruição tomarem providências para recuperar aquela mata. Gostaria muito de compartilhar, contribuir com esclarecimentos sobre a nossa saída de Marãiwatsédé  no ano 1966. Alguns dizem que foram os padres salesianos que nos tiraram da nossa aldeia São Marcos, isso é uma fala jogada sem fundamento. Foram os primeiros invasores que nos tiraram da nossa terra de origem. Os invasores pressionaram o diretor da Missão São Marcos, o Sr. Pe. Mário Otorino Panziera. Então por pressão recebida por parte dos invasores o diretor da Missão nos escolheu para morarmos com outros Xavante que já moravam lá. Não temos ódio contra quem nos fez mal é melhor que paguem e reconheçam o que fizeram com a gente. Cito mais uma vez os primeiros invasores.


     


    Padre Aquilino T. Tsi´rui´a


    Fevereiro de 2007

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  • 04/04/2007

    Lugar da Missão em Aparecida

    Paulo Suess


    I. Contextualização da V Conferência


     


    Missão e missionariedade, como pano de fundo, vão ganhar destaque na V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe. O fato do encolhimento do catolicismo no Brasil e, por tabela, na América Latina, a perda de 1% dos adeptos a cada ano, enquanto os mórmons no Brasil, por exemplo, cresceram nos últimos seis anos 460%, levaram as instâncias responsáveis a escolherem o Brasil como país e Aparecida como lugar para a realização desse evento.[1] Alguns setores esperam com o imaginário de Nossa Senhora Aparecida e com a missão como marketing mais agressivo reverter a tendência do retrocesso estatístico. Nesta perspectiva, a Missão seria apenas um tema estratégico em torno de preocupações estatísticas. Mas, a preocupação maior, que corresponde à natureza missionária da Igreja, deve girar em torno de uma possível perda da qualidade ou funcionalidade de nossa presença missionária no meio do povo. Qualidade e funcionalidade implicam olhares diferentes, porém, têm também pontos de convergência.


     


    Na economia, o conceito do crescimento se tornou uma palavra chave. É importante ressaltar que não podemos simplesmente transpor esse conceito para o campo religioso. Mas, nos pontos extremos da escala crescimento-decrescimento, o fator quantitativo se transforma num dado qualitativo. Igrejas vazias seriam também um indicador qualitativo. Mostraria que nem os pobres estão mais conosco, contrariando até a previsão de Jesus: “Pobres sempre tereis convosco” (Jo 12,8). Também o contentamento com a existência eclesial como “pequeno rebanho” pode revelar um aspecto elitista em contraste com a universalidade da missão (cf. Lc 12,32). Tudo isso são apenas tendências e possibilidades. A realidade da Igreja latino-americana é muito mais complexa, o que dificulta a construção de um consenso pastoral. Afinal, o êxodo eclesial aponta para um excesso ou para a falta de radicalidade evangélica (cf. Jo 6,67)? Em dois aspectos, no campo econômico e no campo ético, as comunidades evangélicas que acolhem os migrantes católicos não facilitam a vida dos seus neófitos. Exigem o págamento do dízimo em dia e não permitem bebídas alcoólicas.


     


    Numa auto-avaliação, ainda bastante genérica, podemos afirmar que o encolhimento numérico dos fiéis é uma conseqüência da perda eclesial de “atratividade”. O que significa “atratividade eclesial”? Ela pode significar falta de coerência evangélica e relevância sociopolítica para o mundo dos pobres-outros. As perdas estatísticas podem apontar para o espírito da época, que tem dificuldades de assumir compromissos a longo prazo, mas também para perdas de profundidade, radicalidade e credibilidade da nossa presença. Afinal, fizemos muitas promessas ao povo que não cumprimos.


     


    II. Lembrete das decisões já tomadas


     


    Os delegados de Aparecida não se devem deixar guiar por estratégias mercadológicas nem precisam inventar novos paradigmas. Depois da missão colonial até o Vaticano II, depois do diálogo do Vaticano II, da libertação, da opção pelos pobres e da assunção como pressuposto da redenção, em Medellín (1968) e Puebla (1979), Santo Domingo (1992) procurou aprofundar o paradigma da inculturação. Bons textos e análises, inclusive das respectivas Conferências Episcopais, não faltam. Aparecida precisa apenas operacionalizar algumas das decisões tomadas desde o Vaticano II. As grandes contribuições, que a fila do povo e os próprios bispos-delegados elencaram desde Medellín, precisam ser realmente assumidas, recontextualizadas e transformadas em ações concretas para a construção de uma sociedade justa e solidária.


     


    Essas contribuições, que são do conhecimento do povo e dos seus pastores, podem ser nucleadas como imperativos que emergem do Evangelho:


     


    – a assunção da realidade, compreendida como sinal de Deus no tempo, deve tornar-se novamente ponto de partida de qualquer reflexão teológica e ação pastoral, segundo o princípio do Santo Irineu: Assumir para redimir (cf. Puebla 400);


    – a opção pelos pobres, que pode ser aprofundada em duas direções: a) como opção pela pessoa de Jesus Cristo, que se identifica com os pobres (Mt 25) e b) como opção pelos pobres e com os pobres, respeitando sua subjetividade e seu protagonismo na construção do Reino;


    – o reconhecimento teológico-pastoral da Igreja local, que exige mudanças estruturais; a Igreja local precisa romper com qualquer tipo de tutela colonial e praticar a sua idade adulta;


    – a ampliação, decentralização e reestruturação dos ministérios para que na prática pastoral possam responder à diversidade sociocultural, dispersão geográfica e necessidade espiritual do povo de Deus;


    – a participação qualitativa e diferenciada dos leigos, sobretudo das mulheres, na Igreja;


    – a co-responsabilidade significativa do Povo de Deus na escolha dos seus pastores, sem os formalismos democráticos da sociedade civil, porém com regras de participação estabelecidas;


    – a formação dos agentes pastorais (diáconos, futuros padres, leigos) a serviço e na proximidade do povo simples e pobre;


    – continuidade e aprofundamento do diálogo ecumênico e inter-religioso.


     


    Tudo isso já foi decidido e textualmente assumido. A novidade de Aparecida pode emergir da assunção e operacionalização estrutural dessas decisões tomadas nas Conferências anteriores. O povo de Deus está cansado de sempre novas conferências, análises e interpretações sem encaminhamentos concretos. Muitas propostas ficaram paradas no meio do caminho. Puebla nos lembra: “Se não ajudamos a concretizar a libertação que Cristo conquistou na cruz, mutilamos a libertação de modo irreparável, e a mutilamos igualmente se esquecemos o eixo da evangelização libertadora, que é a que transforma o homem em sujeito de seu próprio desenvolvimento individual e comunitário” (Puebla 485).


     


    Os delegados da V Conferência precisam ter clareza sobre os passos concretos que devem, podem e querem dar. A voz do povo está documentada, a interpretação da realidade está ao alcance de todos, a alteridade dos povos indígenas e dos afro-americanos está ameaçada, o grito dos pobres está no ar. Precisamos de um novo Pentecostes!


     


    III. Fio teológico-pastoral condutor


     


    Para facilitar o processo decisório em Aparecida, procuramos, a seguir, lembrar o fio teológico-pastoral condutor em continuidade com as reflexões missiológicas do Vaticano II, de Medellín, Puebla e Santo Domingo.


     


    1. A missão da Igreja tem a sua origem na “missão de Deus” (missio Dei). Essa missão de Deus Trindade significa a abertura da relação intratrinitária que se concretiza, historicamente, na Criação, na Encarnação e na Redenção (cf. AG 2ss). Através do envio de Jesus Cristo ao mundo, a “missão de Deus” adquiriu densidade, visibilidade e vulnerabilidade históricas. Jesus de Nazaré nos revela o rosto paterno e materno de Deus, um Deus misericordioso e justo. Ele caminha não só na frente e no meio de seu povo, mas se identifica com o setor mais vulnerável desse povo, até a sua Parusia (cf. Mt 25,31ss). A abertura da relação intratrinitária de Deus para a humanidade fragilizada constitui uma nova lógica nas relações entre Deus e a humanidade e entre as pessoas humanas. É a lógica de Deus-Amor, a lógica do dom (da graça, da gratuidade) e da doação (lava-pés e cruz como condensação do serviço).


     


    2. O Vaticano II deixou marcas teológico-pastorais novas para a ação missionária da Igreja. Essa missionariedade não é mais algo exterior, uma entre muitas atividades. O Concílio definiu a missionariedade como parte integrante da identidade eclesial. A Igreja conciliar se considera por sua natureza missionária (cf. AG 2) e se definiu como povo de Deus, sacramento universal da salvação e como mistério. O povo de Deus em seu conjunto, por sua natureza e vocação, é missionário. É chamado “para manifestar e comunicar a caridade de Deus a todas as pessoas e povos” (AG 10).


     


    3. Nos processos da assunção do Vaticano II na América Latina e no Caribe produziu-se um deslocamento do “ter missões” ao “ser missionário”; o deslocamento de uma Igreja que tem missões territoriais, pelas quais se fazem coletas e orações para que possam trazer a humanidade não-cristã à Igreja Católica, para uma Igreja na qual a missionariedade representa uma orientação fundamental de todas as suas atividades. A partir dessa missionariedade fazemos a leitura “do ser católico” como um “estar universalmente próximo” aos pobres-outros e como “responsabilidade para com o mundo” (AG 36b).


     


    4. A Igreja Povo de Deus vive essa responsabilidade em meio a conflitos estruturalmente produzidos pelo antiprojeto do Reino, o capitalismo. Esses conflitos têm o rosto humano concreto das vítimas (Puebla 31-41). Não basta condenar abusos do capitalismo neoliberal ou querer humanizá-lo. Ele representa o antiprojeto. O antiprojeto é o reino do pão não partilhado, do poder que não se configura como serviço, do privilégio que favorece a acumulação e do prestígio que organiza eventos de ostentação em vez de articular processos de transformação. O antiprojeto é a realização de tudo aquilo que está na perícope da tentação de Jesus no deserto (Lc 4,1ss). Essas tentações acompanham a Igreja em toda a sua história. Diante do mundo espetacular e conflituoso, esse povo peregrino, “avançando pela estreita via da cruz” (AG 1c), está ao lado das vítimas, dos pobres e dos outros.


     


    5. A Igreja que é essencialmente missionária aprendeu os dois movimentos estruturantes de sua missionariedade com Jesus de Nazaré. São eles: CONVOCAR e ENVIAR. Convocar significa chamar da dispersão desarticulada, de uma massa indefinida, de um sistema, de um aparato institucional, para constituir comunidades de irmãs e irmãos, e enviar essas comunidades ao mundo, anunciando a justiça do Reino. Aqui está também o sentido da vida comunitária dos religiosos e das religiosas, e também das Comunidades Eclesiais de Base e de todas as comunidades missionárias: congregar em função do envio e envio em função de formar, nas comunidades, agentes do Reino.


     


    6. Entre convocação e envio, configuram-se novos contornos formais da missionariedade da Igreja: proximidade na universalidade, ruptura em continuidade e unidade na diversidade.


     


    a) A proximidade universal dá continuidade ao aggiornamento, pensado por João XXIII e pelos padres conciliares, como princípio estruturante de uma leitura teológica inserida no tempo e no espaço. Proximidade aponta para a realidade dos pobres e para alternativas ao mundo globalizado, tão indiferente em face do diferente. Nessa realidade, os pobres representam a universalidade temporal e geográfica (“pobres sempre tereis”) e a contextualidade (inculturação, inserção) que desafiam a Igreja. Os pobres-outros não são contexto do Evangelho, mas são seu texto universal. “Proximidade na universalidade” pode ser compreendida como alternativa à colonização cultural e à exclusão social. “Proximidade na universalidade” visa uma nova compreensão da unidade, unidade como articulação de múltiplos projetos de vida com horizontes diferentes, mas não concorrentes.


    b) Ruptura em continuidade é a proposta que emerge de um profundo discernimento da realidade. Ela aponta para a ruptura com o sistema “lucro logo existo”. Geralmente não conseguimos chegar além de rupturas simbólicas. Viver em continuidade com o mundo onde há trigo e joio, sem ser do mundo, representa uma conversão cotidiana. A gratuidade representa a ruptura simbólica sempre possível e nunca completa.


    c) Unidade na diversidade representa a unidade no Espírito Santo com sua dimensão histórica e escatológica. É a articulação sempre precária dos diferentes num objetivo comum que tem muitos nomes: Reino de Deus, outro mundo possível (Fórum Social Mundial), Terra sem Males (guarani). Unidade na diversidade aponta também para a dimensão ecumênica e macroecumênica (inter-religiosa) da natureza missionária da Igreja.


     


    IV. Continuidade de compromissos e opções


     


    Da natureza missionária que se configura como responsabilidade para com o mundo, emergem os compromissos e opções concretas de uma Igreja Povo de Deus, que em sua coerência evangélica e fidelidade ao Reino se torna boa notícia:


     


    1. Converter-se ao Reino


    Converter-se ao Reino é tarefa de cada dia. Nessa tarefa a Igreja “se evangeliza a si mesma” (EM 15) através da denúncia e da ruptura com o sistema que cria vítimas e do anúncio da Boa-Nova de um outro mundo que está se gestando no meio de nós (cf. EN 15). Medellín, mas também Puebla e Santo Domingo descrevem essa ruptura em termos teológicos como “conversão”, “criação nova”, “opção pelos pobres” e “libertação”. Aparecida pode fazer a leitura da conversão em chave de “gratuidade”. A gratuidade reduz a nossa vulnerabilidade a um mínimo.


     


    2. Caminhar com as vítimas e resgatar a sua memória


    A vida de todos os cristãos, nas mais diversas configurações sociais e culturais (jovens, idosos, empobrecidos, migrantes, classe média), está vinculada à causa dos pobres e dos outros, que são vítimas do anti-reino hegemônico. Em seus discursos axiais da Sinagoga de Nazaré (Lc 4), das Bem-aventuranças (Mt 5) e do Último Juízo (Mt 25), Jesus é muito claro. Os protagonistas e o núcleo central de seu projeto, que é o Reino, são as vítimas (os pobres, cativos, cegos, famintos, oprimidos, peregrinos estranhos, maltrapilhos, enfermos). Caminhar com as vítimas de ontem e hoje significa recordar, escutar e respaldar as suas vozes, numa proximidade inserida e inculturada, e numa solidariedade até as últimas conseqüências.


     


    Para pobres, excluídos e, culturalmente, outros, a memória do passado é um instrumento decisivo para a construção de sua identidade, a cicatrização de suas feridas e a mobilização de sua resistência. Ao insistir na brasa escondida do passado, toda a atividade missionária se torna catalisadora de esperança. Quem está em paz com seu passado está preparado para essa missão sem fronteiras. A mensagem fundamental da missão é a esperança.


     


    3. Os pobres, a epifania de Deus


    As vítimas não são apenas os protagonistas ou os destinatários do projeto de Deus; são lugar da epifania de Deus, por excelência. No cristianismo, a questão social está estreitamente vinculada à questão da ortodoxia, e pecado significa indiferença diante da exploração dos pobres e do desprezo que sofrem. Neles, a Igreja reconhece “a imagem de seu Fundador pobre e sofredor” (LG 8c).


    A Igreja só tem uma doutrina suficientemente verdadeira na proximidade aos pobres. Existe uma vinculação entre verdade e pobreza. No cristianismo, essa pobreza do próprio Deus tem muitos nomes: encarnação e presépio, cruz e sepúlcro vazio, pão eucarístico. Num belo texto, o então Cardeal Ratzinger escreveu: “A pobreza é a verdadeira aparição divina da verdade”.[2] A partir da teologia latino-americana, faríamos um acréscimo: a pobreza vivida pelos pobres e diferentes, pelos que sofrem e pelos migrantes. Sobretudo os migrantes de hoje representam Jesus Cristo em seu despojamento radical. Eles são portadores do Evangelho do caminho. Uma Igreja a caminho é uma Igreja simples, transparente e pascal.


     


    4. Práticas significativas de participação


    Reconhecer o outro-pobre em sua dignidade e alteridade significa inclusão e participação. Puebla dedicou uma das cinco partes de suas Conclusões à “comunhão e participação” (Puebla 563-891). Impulsionar práticas significativas de participação do povo de Deus é uma expressão coerente da natureza missionária da Igreja. Essa participação e partilha fraterna dos serviços e poderes vai dinamizar a opção pelos pobres através de uma opção com os pobres, que são porta para a Vida.


     


    5. Viver a gratuidade como atitude pascal


    Seguir Jesus no Espírito Santo significa viver a gratuidade como atitude pascal. O Evangelho da Graça se faz presente em todas as formas de doação da vida como abertura ao Reino: no diálogo inter-religioso, na presença silenciosa, no testemunho, na contemplação e na ação, na solidariedade, na misericórdia e na justiça, enfim, na proclamação da palavra da vida (cf. EN 22). A gratuidade é a condição da não-violência, da paz e da esperança de que um outro mundo – sem a lógica de custo-benefício – é possível e antecipada nas celebrações dos sacramentos como ritos de iniciação e transformação.


     


    V. Quo vadis Aparecida?


     


    A lenda conta que num tempo de grandes perseguições dos primeiros cristãos, São Pedro, com medo do martírio iminente, fugiu da capital do Império. Na Via Áppia, já a alguns quilômetros de Roma, enxergou de longe o Cristo indo ao seu encontro, carregando a cruz. E Pedro perguntou ao mestre: “Aonde vais, Senhor (quo vadis, domine)?” E Jesus respondeu: “Vou carregar mais uma vez a cruz, em teu lugar, por que tu abandonaste o meu povo”.


     


    Aonde irás, Aparecida? Vais assumir mais algumas promessas para depois não cumpri-las? Resistirás à lógica do mundo com suas estruturas de exclusão e consumo privilegiado? Haverá, em Aparecida, conversão ao Reino? Conversão ao Reino significa novamente sentir o sopro do Espírito e assumir seus dons como tarefas. E esses dons apontam (a) para a assunção dos pobres na gratuidade como resistência à exclusão e à lógica de custo-benefício e (b) para a assunção dos outros na diversidade articulada como “unidade do Espírito Santo” em construção.


     


    Diante dos desejos de acumulação e exclusão, o Espírito Santo aponta para a partilha, a gratuidade e a assunção da diversidade. Os dons de Deus se multiplicam na medida em que são gastos. Caminhar é a forma mais radical da partilha. No desapego do caminho e na riqueza da diversidade dos encontros está a possibilidade de um mundo novo. Os delegados de Aparecida, com coragem, sabedoria e despojamento pessoal podem abrir novos caminhos para as Igrejas latino-americana e do Caribe.


     


    Segundo Sto. Agostinho, o Espírito Santo é Deus no gesto do dom.[3] Na tradição da Igreja, o mesmo Espírito é chamado “pai dos pobres” (Seqüência de Pentecostes) e, na Redemptoris Missio, “o protagonista de toda a missão eclesial” (RM 21b). A partir de uma dificuldade da Igreja Católica – Como lidar com o pentecostalismo? –, emerge como guia de uma solução o Espírito Santo, que aponta para a missionariedade, a gratuidade e os pobres-outros. Nele coincidem a missão ad gentes com a missão ad pauperes.


     


    A gratuidade é a maneira de Deus agir. Nele tudo é graça, generosidade e misericórdia. Os pobres-outros são os escolhidos para sustentar e transformar o mundo. Quem os envia é o Espírito Santo. Nesse mesmo Espírito Santo, Maria Aparecida profetiza essa transformação: Deus “dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias” (Lc 1,51ss).


     


    A gratuidade impulsiona à simplicidade. No mundo competitivo e excludente, onde tudo vale somente pelo seu preço de mercado, a essência do cristianismo está vinculada à derrota do reino da necessidade pela cruz de Cristo e à recuperação de um espaço alternativo de não-mercado e gratuidade. A partir da cruz, o cristianismo dispensa a necessidade de outros sacrifícios redentores e rejeita todo poder que exige sacrifícios e cria vítimas. O “sacrifício” pós-pascoal é “memória”, “ação de graças” (Eucaristia) e “solidariedade com os sacrificados” até os confins do mundo e na “unidade do Espírito Santo”.


     


    Aonde vais, Aparecida? O povo de Deus espera sinais de justiça, gestos de coragem e decisões de inclusão (participação) eclesial, não para fugir do Império, mas para transformá-lo.


     


    (o texto será publicado em: Vida Pastoral, n. maio/junho 2007)


     








    [1] Cf. O Estado de S. Paulo, 10.12.2006, A32.



    [2] J. RATZINGER, Der Dialog der Religionen und das jüdisch-christliche Verhältnis, in: IDEM, Die Vielfalt der Religionen und der Eine Bund. 3.ª ed., Bad Tölz: Urfeld, 2003, 93-121, aqui 116.



    [3] AGOSTINHO, A Trindade, livro XV, n. 29.

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  • 04/04/2007

    Síntese e chave de leitura do seminário sobre missões populares(1)

    No segundo e terceiro dia do Seminário, as exposições das experiências e as colocações dos assessores e coordenadores foram retomadas num trabalho de grupos, que entregaram relatórios, por escrito, e “uma frase considerada chave”, em plenário. A partir dessas contribuições, o padre Paulo Suess foi convidado para fazer a síntese que segue.


     


    I. MEMÓRIA


    Retomar as opções



     


    Depois da missão colônia, o Vaticano II (1962-1965), Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992) cunharam, assumiram e aprofundaram os paradigmas do diálogo, da libertação, da opção pelos pobres, da assunção da realidade como pressuposto da redenção e da inculturação. Hoje, essas grandes opções missiológicas tomadas desde o Vaticano II precisam ser novamente lembradas, assumidas, recontextualizadas e transformadas em ações concretas para a construção do Reino de Deus que encontra seus reflexos numa sociedade justa e solidária. Elas são lembretes e imperativos do magistério universal e latino-americano da Igreja e do Evangelho e podem ser nucleadas da seguinte maneira:


     


    a) Continuidade e aprofundamento do diálogo (iniciado pelo Vaticano II) com o mundo, as culturas, as religiões, os cristianismos e as etnias;


    b) Assunção da realidade; a metodologia do ver-julgar-agir, que depois de Medellín se tornou metodologia latino-americana, corresponde melhor ao pensamento indutivo do povo e à pedagogia de Deus, que é uma pedagogia de encarnação. Os mistérios de Deus nunca são previamente compreendidos. A realidade é o substrato concreto da história de salvação e dos sinais de Deus no tempo. Vale, nesse contexto, o princípio do Santo Irineu: Assumir para redimir (cf. Puebla 400);


    c) A opção pelos pobres pode ser aprofundada em duas direções inseparáveis:


    – como opção pela pessoa de Jesus Cristo, que se identifica com os pobres (Mt 25) e


    – como opção pelos pobres e com os pobres, respeitando sua subjetividade e seu protagonismo na construção do Reino.


    d) O reconhecimento teológico-pastoral da Igreja local; esse reconhecimento exige mudanças estruturais. A Igreja local precisa romper com qualquer tipo de tutela colonial; precisa praticar a sua idade adulta. A Igreja local não é filial de uma matriz que se compreende como Igreja universal. O universal não pode prescindir do local. A Igreja universal acontece na articulação da Igreja local.


    e) A ampliação, descentralização e reestruturação dos ministérios são necessárias para que, na prática pastoral, possam melhor responder à diversidade sócio-cultural, dispersão geográfica e necessidade espiritual do povo de Deus.


    f) A participação qualitativa e diferenciada dos leigos na Igreja – Puebla falou de “comunhão e participação” , deve-se desdobrar


    – na co-responsabilidade significativa do Povo de Deus na escolha dos seus pastores, na discussão das prioridades e na condução dos processos pastorais, sem os formalismos democráticos da sociedade civil, porém com regras de participação estabelecidas;


    – na formação dos agentes pastorais (diáconos, futuros padres, leigos) a serviço e na proximidade do povo simples e pobre.


     


    Tudo isso já foi decidido e textualmente assumido. A novidade de Aparecida pode emergir da assunção estrutural dessas decisões tomadas nas Conferências anteriores. O povo de Deus está cansado de sempre novas conferências, análises e interpretações sem encaminhamentos concretos. Muitas propostas ficaram paradas no meio do caminho. Puebla nos lembra: “Se não ajudamos a concretizar a libertação que Cristo conquistou na cruz, mutilamos a libertação de modo irreparável, e a mutilamos igualmente se esquecemos o eixo da evangelização libertadora, que é a que transforma o homem em sujeito de seu próprio desenvolvimento individual e comunitário” (Puebla 485).


     


    Num mundo em que para muitos tudo já passou (pós-histórico, pós-metafísico, pós-moderno, pós-utópico), não paramos de sonhar, de lutar, de agir, de interferir e de derrubar tudo que divide, exclui e privilegia. A redução do horizonte utópico cria não só uma miopia estrutural para os desafios históricos reais, reduz também a memória do passado. Faz perder a esperança, compromete a fé e enfraquece a caridade. Quem vê longe também enxerga claro nas decisões de cada dia.


     


    Os delegados da V Conferência precisam ter clareza sobre os passos concretos que devem, podem e querem dar. A voz do povo está documentada, a interpretação da realidade está ao alcance de todos, a alteridade dos povos indígenas e dos afro-americanos está ameaçada, o grito dos pobres está no ar. Para tornar-se mais participativa, corajosa, plural, contextual e gratuita, a Igreja latino-americana e caribenha precisa-se preparar para um novo Pentecostes.


     


    II. PRÁTICA MISSIONÁRIA


    Pressupostos e impulsos


     


    As contribuições dos grupos sublinham dimensões estruturais e aspectos materiais (de conteúdos). Os aspectos e considerações “materiais” se referem em sua quase totalidade ao modelo de Igreja que temos e queremos. Portanto, são considerações eclesiológicas. Existe uma interdependência entre os diferentes modelos de Igreja e missão, e da expressão e organização desses modelos nas estruturas e organização concretas.


     


    a) Conteúdos


    Os conteúdos trabalhados nas missões populares e nas Igrejas locais são indicadores importantes para as decisões de Aparecida. Os conteúdos eclesiológicos e missiológicos coincidem. A comunidade missionária vive no interior da Igreja Povo de Deus, comunidade constituída por pequenas comunidades (CEBs no sentido amplo) que vivem sua missão na luta pela vida a partir de sua fé.


    Essa missão não é uma entre muitas atividades da Igreja. Ela é essencial e decorre de sua “natureza missionária“, que tem sua origem no envio do Filho e na missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai (cf. AG 2).


    Falar da Igreja significa falar de missão. A estrutura dessa Igreja-Missão é trinitária. Ela é “Povo de Deus”, “Corpo do Senhor” e “Templo do Espírito Santo” (Lúmen gentium 17). A Trindade é estrutura e conteúdo.


    A meta da Igreja é o Reino de Deus (cf. LG 9). Por ser essencialmente missionária, ela não vive para si. Ela vive a serviço do Reino. Esse Reino é central para todas as suas atividades e reflexões.


    A universalidade do Reino é a razão da missão “sem fronteiras”. No mundo globalizado os conflitos têm uma dimensão que ultrapassa a região e o país. Os beneficiados pelas desigualdades – os latifúndios da terra, do capital, dos meios de comunicação – estão mundialmente articulados no interior de estruturas injustas. Por isso somos enviados até os confins do mundo como sinais de justiça e testemunhas de esperança.


    No Espírito Santo, a Igreja é enviada para articular universalmente os povos numa grande “rede” (cf. Jo 21,11) de solidariedade. Do envio nascem comunidades pascais que tentam contextualizar a utopia do primeiro dia da nova criação. Das comunidades nasce o envio. A missão, com seus dois movimentos, a diástole do envio à periferia do mundo e a sístole da convocação, a partir dessa periferia, para a libertação do centro, é o coração da Igreja. Sob a senha do Reino, propõe um mundo sem periferia e sem centro.


    Essa proposta de um mundo fraterno de iguais, sem periferia e sem centro, nos coloca numa cadeia de grandes conflitos em torno da redistribuição dos bens acumulados e do reconhecimento dos outros e das outras em sua alteridade. Procuramos viver nesses conflitos a mística do seguimento de Jesus. A mística dos cristãos é mística missionária militante; mística do Reino. Nessa mística temos a certeza de que o único absoluto e definitivo é Deus. Assim ganhamos forças de resistência contra os “poderes da morte” (SD 13).


    A mística missionária militante está enraizada na realidade de um mundo em construção, sem vítimas. O Crucificado rompeu com os sacrifícios humanos e desautoriza qualquer pessoa ou sistema que cria vítimas. Nessa contemplação, enquanto resistência contra a morte, aparece o horizonte do sentido. O sentido é gerado nas estações da luta, do sofrimento e do grito. Mas o sentido é também construído na festa e no silêncio. A mística como energia de um sentido estruturante tem dois braços. É mística da terra, da realidade material, da luta e das marchas e é mística do transcendente que se fez e se faz carne a cada dia; é luta simbólica presente no silêncio da noite estrelada, na poesia, nas canções, nas bandeiras e nas palavras de ordem e nas marchas.


    Na mística missionária militante anunciamos a ruptura com tradições obsoletas e com tudo que impede o fluxo da vida. Os místicos trazem o sonho de um mundo para todos ao chão da vida cotidiana. Apontam para a dimensão profética da vida daqueles que lutam inteiramente por uma vida inteira. Lutam pelo shalom (paz), que é um dom cotidiano e escatológico como o Reino de Deus. Eles nos ensinam a viver no hoje, concomitantemente, o passado e o futuro. São visionários cativos-cativados da esperança (cf. Zc 9,12).


    A missão faz sentido quando dedicamos nossa vida ao projeto de Jesus de Nazaré, à causa dos desfavorecidos e à luta por transformações ao lado dos pobres. A partir da nossa opção de fé, “luta”, “causa” e “projeto” fazem parte do projeto maior do Reino. O anúncio desse Reino é uma questão urgente, de vida e morte. A missão não pode esperar para amanhã porque a vida não pode esperar. “A caridade de Cristo nos compele” (2Cor 5,14) a destruir as estruturas da morte, interromper a lógica dos sistemas e questionar a lentidão das burocracias. O anúncio do Reino é historicamente relevante para além da história. Todas as realizações de projetos históricos ficam sempre aquém do Reino, embora que neles se possa revelar o Reino que, em sua plenitude, só se manifestará no fim dos tempos, quando Deus será tudo em todos. A missão da Igreja é histórica e escatológica.


     


    b) Organização e estruturas


    Depois de nuclear as contribuições em torno do modelo de Igreja pós-vaticana, cabe-nos uma síntese das contribuições sobre as estruturas eclesiais em torno de três eixos: formação, ministérios e metodologia.


     


    A formação


    exige uma discussão prévia sobre o modelo de Igreja que se pretende construir e que no item “conteúdos” procurou-se delinear;


    – deve ser integral (pluridisciplinar), específica (as pastorais e serviços paroquiais, em vista dos diferentes destinatários: jovens, índios, ribeirinhos) e universal (“além fronteiras” geográficas, culturais);


    – deve acontecer na missão para a missão: na prática missionária os conteúdos são assimilados, contextualizados e questionados.


     


    Os ministérios


    envolvem decisões concretas, muitas vezes já discutidas, mas nunca realmente assumidas.


    – O que deve prevalecer na reestruturação dos ministérios é o antigo lema pastoral: salus animarum suprema lex (a salvação das almas é  a lei suprema); em muitos lugares, no interior do país e do continente, os fieis só têm uma ou duas vezes por ano acesso à Eucaristia; a baixa freqüência das missas dominicais na grande cidade é uma conseqüência do jejum eucarístico no interior; para a maioria do povo não aconteceu uma socialização da Eucaristia em sua primeira infância;


    – A decentralização da Igreja está ligada a sua capacidade de inculturar-se em diferentes contextos. As comunidades pluriculturais exigem ministérios culturalmente diferenciados.


    – A reestruturação dos ministérios deve ser balizada pelos princípios da doutrina social da


                subsidiariedade (reconhecimento das diferentes instâncias eclesiais na relação entre Igreja local e Igreja regional e universal),


                complementaridade (dos carismas e dons, na relação entre leigos e clero),


                solidariedade (com os fieis),


                gratuidade (como alternativa ao mundo regido pelo princípio custo/benefício).


     


    A metodologia


    está presente na vida cotidiana, nas pequenas vitórias e na esperança que dão sentido aos acontecimentos de cada dia. Podemos dar passos em falso, mas não concordamos, em nenhum momento, com o absurdo de um mundo para poucos; podemos ser tristes com nossas derrotas, mas nunca desesperados. O nosso silencio e o nosso anúncio sempre dizem: a vida faz sentido, apesar das contingências, das mortes e do desespero que as estruturas possam causar.


    A nossa presença e prática missionárias apontam para três atitudes como sinais do Reino:


    – viver a cada dia e em cada lugar o horizonte “além-fronteiras” institucional, cultural e geográfico da missão;


    – viver os conflitos das causas do Reino numa militância profética na qual os meios correspondem aos fins: Meios materiais e institucionais requerem uma atenção permanente para que não sejam um contra-testemunho em face da simplicidade da vida da nossa gente;


    – assumir os conflitos como oportunidades de transformações;


    – viver o pano de fundo da nossa mística pascal em relações de presença, partilha e gratuidade.


     


    III. À GUISA DE CONCLUSÃO


    A missão continua


     


    O “2o Seminário sobre Santas Missões Populares” mostrou que essas missões são uma obra de Deus e um instrumento privilegiado de evangelização. A dificuldade que se revelou está na continuidade. Como manter o fervor, como continuar a missão depois das “Santas Missões”, quando os missionários foram embora e a vida do dia a dia continua? Talvez num 3o Seminário, que certamente virá, pode-se trabalhar essa dimensão da continuidade e aprofundar algumas questões específicas.


     


    Toda terra conquistada é símbolo do planeta Terra a ser conquistado para uma nova humanidade. Essa humanidade precisa emancipar-se do mundo-mercado, da alienação e do fetichismo que faz dos objetos (máquinas, mercadorias) sujeitos e dos sujeitos (operários, povos indígenas) objetos; emancipar também daquela formação/educação que tem duas tarefas: fornecer os conhecimentos que permitem adestrar as pessoas para a máquina produtiva, e produzir valores e normas que legitimam os interesses hegemônicos. Não podemos simplesmente assumir o que a cultura dominante nos oferece. As formas sedimentadas do comportamento coletivo, que o sistema pedagógico nos faz aprender e repetir, servem simplesmente para continuar um jogo com cartas marcadas. Na ação militante, materializa-se uma nova consciência, a partir da experiência do não-lugar dos pobres e dos outros em nossa sociedade.


     


    A mística faz parte da responsabilidade missionária, quer dizer, da habilidade para responder aos grandes desafios que atravessam o mundo de hoje. Somos herdeiros que nasceram no grito, e somos livres, portanto, responsáveis. Fazendo algo ou fazendo nada, no silêncio e no grito, sempre somos responsáveis. Somos também responsáveis pelo grito dos outros, pelos muros, pelo muro que separa a verdadeira humanidade das condições mínimas da dignidade humana; somos responsáveis pela indevida apropriação dos latifúndios e pela corrupção dos administradores. Sempre somos responsáveis, ou como profetas ou como cães mudos (cf. Is 56,10). Somos condenados a escolhas, opções, decisões.


     


    De perguntas respondidas no Seminário sobre Santas Missões Populares nasceram outras. São sinais da nossa subjetividade em construção e da busca de sentido. Afirmamos que a vida tem sentido e, ao mesmo tempo, tantas vezes perguntamos: Onde está o sentido nessa morte e naquela violência? Só o sujeito faz perguntas, questiona a si e ao mundo. A caminhada é um aprendizado para conviver em paz com cada vez mais perguntas e com uma indignação e uma paz profundas. No caminho se perde a ânsia de soluções imediatas e a ânsia de encontrar respostas para tudo.


     


    Deus não responde a todas as perguntas que temos. Ele nos diz apenas um “verás” e nos faz um convite: Sai da tua terra e vai! Abandone teus trilhos! Procure desterritorializar teu projeto de vida! Perguntando caminhamos. Ao sair do “nosso” lugar, mudamos o olhar para o mundo, reforçamos a vontade de lutar e de andar de cabeça erguida, e ganhamos novas perspectivas e novos companheiros e companheiras, sempre tecendo naquela rede lançada ao mar que é semelhante ao Reino (Mt 13,47). Nas lutas, estamos enredados com as testemunhas, com os mártires, que deram a vida pela causa do irmão e da irmã menor para que a chama da vida não se apague. Caminhemos perguntando e guardando os mistérios da vida e de Deus em nosso coração, como Nossa Senhora, que em Aparecida lembramos.


     


    (1) Contribuição ao 2o Seminário sobre Santas Missões Populares “Memória, Projeto, Seguimento – A Igreja missionária da América Latina e do Caribe rumo à Conferência de Aparecida”, organizado pelo Conselho Missionário Nacional (COMINA), Belo Horizonte, 12 a 15 de março de 2007.


     

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  • 04/04/2007

    A verdade, Pilatos, é…

    Em fraterna comunhão total


    com Jon Sobrino,


    teólogo do Deus dos pobres,


    companheiro fiel de Jesus de Nazaré,


    testemunha dos nossos mártires.


     


    Que é a verdade? Quem tem a verdade? Qual é a política verdadeira? Qual é a verdadeira religião? Essas perguntas, com tom diverso e às vezes provocando desconcerto e indignação, são perguntas universais e de cada dia e não as podemos ignorar, nem na política, nem na religião. A globalização, se por um lado nos amarra ao lucro desalmado, por outro lado nos proporciona espaços novos de diálogo e convivência, na verdade compartilhada.


     


    Nossa Agenda Latinoamericana Mundial, nestes anos de 2007 e 2008, pergunta pela verdadeira democracia e denuncia a falsa política. Em 2007, “Exigimos e fazemos outra democracia”; e, em 2008, “A política morreu, viva a política”.


     


    Aqui, em Nossa América, no meio de ambigüidades, crispações e desencantos, esta-se dando uma virada para a esquerda. Mas, em congressos e publicações, estão-se fazendo as perguntas inevitáveis: O que é a esquerda, o que é a democracia, qual é a verdadeira política, qual é a verdadeira religião, qual é a verdadeira igreja?


     


    Não tem dúvida que caminhamos, apesar das dramáticas estatísticas que o PNUD e outras instituições de opinião nos dão. São 834 milhões de pessoas as que passam fome no mundo e cada ano são 4 milhões mais. Um 40% da população mundial vive na pobreza extrema. Na América Latina são uns 205 milhões de pessoas na pobreza. Na África Sub-saariana são 47 milhões. O economista Luís de Sebastián recorda que “África é pecado de Europa”, a maior dívida atual da Humanidade. O mundo gasta anualmente um trilhão de dólares em armas, quantidade 15 vezes superior à quantidade destinada à ajuda internacional… A desigualdade em nossa aldeia global é uma verdadeira blasfêmia contra a fraternidade universal. Um exemplo: a renda anual das pessoas mais ricas (em média) dos EE UU é de 118.000 dólares; e a renda anual das pessoas mais pobres (em média) de Serra Leoa é de 28 dólares.


     


    Caminha o diálogo ecumênico e inter-religioso, mas ainda nas margens, minoritário ainda. O fenômeno grave e mundial da migração está exigindo respostas e decisões que afetam aos diferentes povos e culturas e religiões. De quem é a verdade? De quem não é?


     


    A Igreja, a Igreja católica, celebra, em Aparecida, (Brasil), neste mês de maio, a V Conferência do Episcopado Latinoamericano e Caribenho. E já se têm levantado vozes, sinceras e dignas de toda participação, cobrando “o que não pode faltar em Aparecida”: a opção pelos pobres, o ecumenismo e o macroecumenismo, a vinculação de fé e política, o cuidado da natureza, a contestação profética ao capitalismo neoliberal, o direito dos povos indígenas e afroamericanos, o protagonismo do laicato, o reconhecimento efetivo da participação da mulher em todas as instancias eclesiais, a corresponsabilidade e a subsidiariedade de toda a Igreja, o estímulo às CEBs, a memória comprometedora dos nossos mártires, a inculturação sincera do Evangelho na teologia, na liturgia, na pastoral, no direito canônico. Em fim, a continuidade, atualizada, da nossa “irrenunciável tradição latinoamericana” que arranca, sobretudo, de Medellín.


     


    O tema do V CELAM é: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que n’Ele os nossos povos tenham vida. Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (As discípulas e missionárias, não entrando no enunciado, esperamos que entrem nas decisões da Conferência…). O discipulado e a missão são a vivência concreta e apaixonada do seguimento de Jesus, “na procura do Reino”. O teólogo A. Brighenti assinala que o déficit eclesiológico do Documento de Participação se expressa, sobretudo, no eclipse do Reino de Deus, citado apenas duas vezes em todo o documento. Por que será que se tem tanto medo ao Reino de Deus, que foi a obsessão, a vida, a morte e a ressurreição de Jesus?


     


    Nessa Conferência do CELAM não está tudo tranqüilo. Com um gesto mais do que suspeito, agora, nas vésperas da Conferência, estourou o processo do nosso querido Jon Sobrino. Muito sintomático, porque um cardeal da Cúria romana já tinha declarado que antes de Aparecida estaria liquidada a Teologia da Libertação. Esse ilustre purpurado terá de reconhecer, imagino, que depois de Aparecida continuará vivo e ativo o Deus dos pobres, e continuará subversivo o Evangelho da libertação; e que infelizmente a fome, a guerra, a injustiça, a marginalização, a corrupção, a cobiça, continuarão a exigir da nossa Igreja o compromisso real ao serviço dos pobres de Deus.


     


    Eu escrevi a Jon Sobrino, recordando-lhe que somos milhões os que o acompanhamos e é, sobretudo, Jesus de Nazaré quem o acompanha. Recordava a Jon aquela décima que escrevi a raiz do martírio de seus companheiros da UCA: “Ya sois la verdad en cruz / y la ciencia en profecía / y es total la compañía, / compañeros de Jesús”. Por tua santa culpa, dizia-lhe a Jon, muitos estamos ouvindo, transpassada de atualidade, a pergunta decisiva de Jesus: “E vocês, quem dizem que Eu sou?” Por que é ao verdadeiro Jesus a quem queremos seguir.


     


    Com desdém prepotente Pilatos pergunta a Jesus o que é a verdade, mas não espera a resposta e o entrega à morte e se lava as mãos. Maxence van der Meersch responde a Pilatos e nos responde a todos: “A verdade, Pilatos, é estar do lado dos pobres”. A religião e a política têm de acolher essa resposta até as últimas conseqüências. Toda a vida de Jesus, aliás, é essa mesma resposta. A opção pelos pobres define toda política e toda religião. Antes era “fora da Igreja não há salvação”; depois, “fora do mundo não há salvação”. Jon Sobrino nos recorda, mais uma vez, que “fora dos pobres não há salvação”. João XXIII advogava por “uma Igreja dos pobres, para que fosse a Igreja de todos”. O certo é que os pobres definem, com sua vida proibida e com sua morte “antes de tempo”, a verdade ou a mentira de uma Sociedade, de uma Igreja. Diz nosso Jon Sobrino: “Quem não saiba explicitamente de Deus, já o terá encontrado se amou ao pobre”; e isso diz repetidamente o Evangelho na palavra e na vida de Jesus, em seu presépio e em seu calvário, nas bem-aventuranças, nas parábolas, no julgamento final…


     


    Irmãos, irmãs, gente querida e tão próxima no mesmo desvelo e na mesma esperança, sigamos. Tentando “fazer a verdade no amor”, como pede o Novo Testamento, em comunhão fraterna e na práxis libertadora. “Com os Pobres da Terra”. Sendo “vidas pelo Reino da Vida”, como apregoávamos na Romaria dos Mártires da Caminhada.


     


    Seja esta pequena circular um grande abraço de compromisso, de gratidão, de esperança invencível, Reino adentro.


     


    Pedro Casaldáliga


    Circular 2007


    24 de março, Páscoa de São Romero.


     

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  • 03/04/2007

    CIMI INFO-BRIEF 759

    Aufgrund des Elends und des Landmangels der Guarani-Kaiowá in Brasilien hat die Bundesstaatsanwaltschaft ein dreitägiges Treffen mit indigenen Vertretern, Anthropologen und Vertretern der öffentlichen Hand des Bundes organisiert. Im Mittelpunkt der Debatten am 28.3. stand die „humanitäre Krise“ in Mato Grosso do Sul und die Diskussion von Richtlinien zur Überwindung der Krise.


     


    Bei der Audienz gab es drei Vorschläge: die Gründung von einer Einsatzgruppe für die Demarkierung von Territorien in Mato Grosso do Sul, für die Identifikation der traditionellen Gebiet Guarani – langfristig die einzige Lösung für das Problem der Ernährung in der Region, wo ein Großteil der Bevölkerung derzeit auf Warenkörbe angewiesen ist. „Nur Land kann den Hunger besiegen“, betonte der Guarani Ambrósio Vilalba. Die Einsatzgruppe soll die traditionellen Gebiete im Bundesstaat erfassen und einen Zeitplan für die Identifizierung ausarbeiten. Eine Möglichkeit, um Verzögerungen beim Abzug der Invasoren aus den Gebieten zu verhindern wäre der legale Rückkauf von Titeln,  damit sie nicht an Dritte übertragen werden können sowie die Entschädigung der Besitzer und die Rückgabe des Landes an die Indios, wie Professor Antônio Brand von der Katholischen Universität Don Bosco ausführte. Dieser Vorschlag ist nicht gleichbedeutend mit dem Kauf von Territorien für die Indios.


     


    Als zweit Maßnahme wurde von Justizminister Tarso Genro und dem Rat zur Verteidigung der Menschenrechte ein sofortiger Besuch vor Ort gefordert, um die rechtliche Lage der Völker in Mato Grosso do Sul zu erkunden, vor allem hinsichtlich der Haftbedingungen. In Mato Grosso do Sul sind mindestens 123 Indios, davon 48 in Amambaí eingesperrt. „Aufgrund des Missverhältnisses der inhaftierten Bevölkerung, könnte eine absichtliche Verfolgung vorliegen“, sagte der Staatsanwalt der Republik, Eugênio Aragão.


     


    Ein anderes Thema war die Versorgung der Guarani mit Warenkörben, vor allem in der Gegend von Dourados, wo es eine höhere Kindersterblichkeit gibt. Nachdem die Regierung des Bundesstaates im Januar die Verteilung einstellte, hat der Minister für Soziale Entwicklung für Februar Warenkörbe zur Verfügung gestellt. Ungeklärt bleibt die kontinuierliche Verteilung von Warenkörben.


     


    Am Nachmittag des 29.3. stand die Regulierung der Gebiete der Guarani bis zu ihrer Anerkennung im Mittelpunkt der Beratungen.


     


    Am 30.3. wird die Situation der Guarani in den Grenzregionen von Brasilien, Paraguay und Argentinien zur Sprache kommen. Auch hier herrschen Armut und ein Mangel an Land. Als Themen für die Diskussionen wurden „Öffentliche Politiken und Bürgerrechte“ sowie „Analyse und Vorschläge für regionale Integration der öffentlichen Politiken und Rechte“ gewählt.


     


    Neun inhaftierte Indios werden freigelassen


     


    Seit April sind neun Guarani-Kaiowá von Passo Piraju in Mato Grosso do Sul eingesperrt. Das Oberste Gericht hat jetzt ihre Freilassung angeordnet. Die 5. Kammer hat einstimmig beschlossen, dass die Bundesjustiz für den Fall der Ermordung von zwei Zivilpolizisten durch Indios zuständig ist. Mit dieser Entscheidung wurde das Dekret der Justiz des Bundesstaates für die Untersuchungshaft aufgehoben. Der Prozess wird nun an die Bundesjustiz in Dourados, MS übergeben.


     


    Anwälte des CIMI verteidigen die neun Indios. Paulo Machado Guimarães hat beim Habeas Corpus für die Zuständigkeit plädiert, dass es sich um einen Landkonflikt handelte und es einen ethnischen Kontext gebe. Diese Position vertrat auch die stellvertretende Generalanwältin der Republik, Maria Eliane Menezes de Farias. Sie sehe darum keinen Grund für die Untersuchungshaft.


     


    Ministerin Drª Laurita Vaz folgte der Argumentation der Verteidigung. Die Indios verteidigten ihr Land. „Es gibt Hinweise, dass der Streit zwischen Indios und Landbesetzer in Verbindung zum Landkonflikt stand“. Vaz betonte, dass sich die Polizisten nicht ausgewiesen hätten und aufgrund ihres Handelns für Fazendeiros gehalten wurden. „Es gibt in der Region ständig Konflikte zwischen Indios und Fazendeiros“, sagte die Ministerin.


     


    „Die Kompetenz liegt bei der Bundesjustiz. Nachdem die Justiz des Bundesstaates nicht zuständig ist, habe ich das Dekret der Verhaftung aufzuheben, ohne dabei einer möglichen Entscheidung des Bundesrichters hinsichtlich der Inhaftierung der Indios vorzugreifen“, urteilte Ministerin Laurita Vaz im Verfahren des Habeas Corpus 65.898/MS am 27.3.2007 in Brasília.


     


    Brasília, 29. März 2007


     


    Cimi – Indianermissionsrat


     

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  • 02/04/2007

    Após 6 dias, Guarani de Passo Piraju são libertados


    Uma decisão da juíza Federal de plantão em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, no domingo, 1 de abril, permitiu que os nove Guarani que estavam presos em prisão preventiva há exatamente um ano, fossem soltos nesta segunda-feira, 2. Eles foram colocados em liberdade no início da tarde desta segunda-feira.


     


    A juíza estadual responsável pelo processo em Dourados, Dileta Terezinha, que deveria ter encaminhado a liberação dos índios assim que recebeu o comunicado do STJ, não fez isso e remeteu o processo diretamente à Justiça Federal. Como os índios não foram soltos pela Justiça Estadual, a ministra Laurita Vaz, do Superior Tribunal de Justiça determinou à  Justiça Estadual, na sexta-feira, dia 30, que se cumprisse o Habeas Corpus para que os indígenas fossem colocados em liberdade. O alvará de soltura só foi apreciado no domingo, 1 de abril, pela Juíza Federal de plantão em Ponta Porá.


     


    Com isso, os nove índios – entre eles uma mulher – passaram seis dias a mais encarcerados, mesmo havendo a decisão do STJ para que fossem soltos.


     

    Os Guarani são acusados pela morte de dois policiais civis em abril de 2006. Na semana passada, decisão do Superior Tribunal de Justiça considerou que o processo judicial é da competência da Justiça Federal, porque está ligado a situação de conflito por terras. Com esta decisão, o decreto de prisão preventiva, da Justiça Estadual, foi anulado.

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  • 30/03/2007

    A impronúncia do fazendeiro “Delsão” e a construção da impunidade

    Os Movimentos Sociais e Entidades de Direitos Humanos abaixo mencionadas vêm a público, manifestar seu protesto e indignação, referente à decisão do Juiz da Comarca de Rondon do Pará que IMPRONUNCIOU o fazendeiro Décio José Barroso Nunes, o Delsão, acusado de ser mandante do assassinato do sindicalista JOSÉ DUTRA DA COSTA, o Dezinho. Crime ocorrido no dia 21 de novembro de 2000, no município de Rondon do Pará.


     


    A decisão do Magistrado, acompanhando um pedido do Ministério Público de Rondon, coloca o caso no curso de centenas de outros assassinatos ocorridos na região, cujo fim a sociedade já conhece: a IMPUNIDADE! É também, mais um lamentável exemplo, do descaso da polícia, do Ministério Público e do Poder Judiciário paraense em punir aqueles que detêm o poder econômico e comandam o crime organizado no campo. De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra, nos últimos 30 (trinta) anos, foram mais de 700 (setecentos) assassinatos no campo no Estado do Pará, destes, apenas 4 (quatro) fazendeiros, mandantes de crimes, foram condenados pela justiça, no entanto, nenhum deles cumpre pena atrás das grades. Uma Justiça Inoperante!


     


    O processo que apura o assassinato do sindicalista Dezinho, como tantos outros, é um exemplo claro de como se constrói a impunidade. São 6 (seis) anos e 4 (quatro) meses de tramitação, 5(cinco) promotores e igual número de juízes passaram pelo caso, mais de 2 (dois) anos totalmente parado aguardando apenas transcrições de 5 (cinco) fitas K7, aditamento da denúncia quase 6 (seis) anos após o crime, nenhum esforço da polícia para prender os intermediários foragidos, houve o assassinato de uma testemunha e o crime não foi apurado, enfim, o único condenado foi o pistoleiro, preso pelo próprio Dezinho antes de morrer.


     


    Assim, os que comandam os crimes não têm com o que se preocuparem, é só comemorar e financiar outras mortes!


     


    Tanto a atual promotora quanto o Juiz, alegaram que não há provas suficientes nos autos para a pronúncia do fazendeiro acusado, para isso, buscaram desqualificar o depoimento das principais testemunhas. Argumentos contestados, com apresentação de provas, pelos advogados que atuam na assistência da acusação. No mesmo dia do crime, um telefonema anônimo feito para a Delegada que apurava o crime, apontou o intermediário Ygoismar e indicou Delsão como sendo um dos envolvidos no episódio; um funcionário de Delsão prestou depoimento à polícia e afirmou que Dezinho, antes de morrer, lhe confessou que Delsão o ameaçou de morte; Dezinho denunciou o fazendeiro por trabalho escravo em suas fazendas e pelo assassinato de um funcionário seu conhecido por “Piauí”; a testemunha Francisco Martins relatou que um irmão seu de nome Pedro trabalhava como pistoleiro para Delsão e que o fazendeiro o contratou para assassinar Dezinho, no entanto, o pistoleiro foi morto 15 dias antes da morte de Dezinho, etc. Tudo isso está no processo, no entanto, para a promotora e o juiz nada disso é prova e nem sequer indício de prova.


     


    A promotora Lucinery Helena, em suas alegações finais e nas declarações que tem dado à imprensa, tem ido mais longe, afirma que o acusado “continua, ao longo desses anos, investindo no crescimento do município”; A promotora chegou até a fazer uma espécie de defesa de Delsão, afirmando que “as fazendas de Delsão são todas produtivas, ele investe na região e emprega mais de cinco mil pessoas” (Jornal Opinião, edição dos dias 5.12.2006/6.12.2006, página 4).


     


    Pura inverdade! Só quem pode dizer se uma propriedade é produtiva ou não é o INCRA, e não temos conhecimento de uma única propriedade do acusado com laudo atestando que ela seja produtiva. Pelo contrário, INCRA e ITERPA procederam levantamento nas propriedades do fazendeiro e atestaram que, dos 130.000 (cento e trinta mil) hectares de terra que ele ocupa em Rondon do Pará, mais de 100.000 (cem mil) é fruto de apropriação ilegal de terra pública ou grilagem, onde ele usa para extrair madeira e criar gado. O problema é que até agora nem o INCRA nem o ITERPA tiveram interesse político para retomar essas terras e destiná-las para a Reforma Agrária. Daria para assentar cerca de 2.000 (duas mil) famílias sem qualquer custo com desapropriação ou pagamento de benfeitorias.


     


    Quanto aos mais de 5.000 (cinco mil) empregos, só a promotora tem esse dado, pois, o próprio Delsão, em depoimento dado em juízo afirmou que emprega cerca de 800 (oitocentos) pessoas em suas serrarias. Na Justiça do Trabalho de Marabá, nos últimos anos, foram instaurados mais de 500 (quinhentos) processos trabalhistas contra este fazendeiro e suas empresas. É quase um processo por trabalhador empregado. Sem contar o grande número de trabalhadores que não procuram a justiça por medo de ameaças. Responde ainda, inúmeros outros processos que tramitam na Justiça Federal por crimes ambientais e previdenciários. 


     


    Depoimentos colhidos após a morte de Dezinho apontam Delsão como envolvido no assassinato de 5 (cinco) funcionários de suas serrarias. Três dos inquéritos que apuravam esses crimes simplesmente desapareceram da Comarca de Rondon do Pará. É dessa forma que ele contribui para o desenvolvimento de Rondon como afirma a promotora! A sociedade quer saber é o que está fazendo o Ministério Público de Rondon para apurar esse rosário de crimes!


     


    A forma como a promotora vem atuando neste processo, deixa sérias dúvidas quanto à sua imparcialidade, de modo que a continuidade de sua atuação neste processo preocupa o conjunto das entidades que representam os trabalhadores e que defende os direitos humanos, e, além disso, não dá qualquer segurança de que no final chegará a se fazer justiça, uma vez que parece estar ausente na promotora a isenção de ânimo necessária para fazer um trabalho que tem por finalidade o esclarecimento da verdade.


     


    Frente à situação exposta queremos deixar claro:


     


    1. Nossos advogados que atuam na assistência de acusação vão recorrer da decisão do Juiz de Rondon, junto ao Tribunal de Justiça do Estado;


     


    2. Solicitamos aos nossos advogados que ingressem com ação de suspeição da promotora Lucinery Rezende para que ela deixe de atuar no caso;


     


    3. Se o braço da justiça não alcançar o acusados de serem os mandantes do crime de Dezinho, a organização dos trabalhadores os alcançará através da ocupação de suas fazendas. Se não houver punição pela Lei haverá punição econômica pela ocupação;


     


    4. Não daremos um passo atrás na luta pela condenação de todos os envolvidos no assassinato do companheiro Dezinho.


     


    Marabá, 29 de março de 2007.


     


    Federação dos Trabalhadores na Agricultora do Estado do Pará – FETAGRI


    Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará


    Comissão Pastoral da Terra – Diocese de Marabá


    Pastorais Sociais da Diocese de Marabá


    Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos – SDDH


    Conselho Indigenista Missionário – CIMI


    Movimento Sem Terra – MST


    Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA


    Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB


    Centro de Pesquisa e Assessoria Sindical – CEPASP


    FASE – Programa Amazônia


    Escola Família Agrícola – EFA


    Cooperativa de Prestação de Serviços – COOPSERVIÇOS


     

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  • 29/03/2007

    Informe n.º 759: MPF busca soluções para pobreza e falta de terras para os Guarani


     


    – MPF busca soluções para pobreza e falta de terras para os Guarani


    – Nove indígenas presos há um ano no MS serão soltos


     


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    MPF busca soluções para pobreza e falta de terras para os Guarani


     


    A situação de miséria e falta de terra em que vive grande parte dos Guarani-Kaiowá no Brasil motivou o Ministério Público Federal (MPF) a realizar, esta semana, três dias de encontros com lideranças indígenas, antropólogos, indigenistas e representantes do poder público federal. Os debates desta quarta-feira, dia 28, foram focados no Mato Grosso do Sul, com apresentações sobre a situação que foi chamada de “crise humanitária” e discussões sobre diretrizes para a superação da crise.


     


    Na audiência, houve três propostas principais: a da criação de uma força tarefa sobre demarcação de terras no Mato Grosso do Sul, para identificação dos Tekohá (territórios tradicionais) Guarani – única solução a longo prazo para o problema de alimentação na região, onde grande parte da população depende, atualmente, de cestas básicas. “Quem combate a fome é terra, sentenciou o Guarani Ambrósio Vilalba. A força-tarefa proposta teria a função de elaborar a listagem dos Tekohá reivindicados e de criar cronograma para a identificação de terras no estado. Uma das possibilidades para diminuir a demora para a desintrusão de terras é que o estado do Mato Grosso do Sul resgate os títulos de terras que, legalmente, tempo não poderiam ter sido transferidas para terceiros, indenizando os donos e devolvendo terra aos índios, como apontou o professor Antônio Brand, da Universidade Católica Dom Bosco. Esta proposta, ele ressaltou, é diferente de compra de terras para os índios.


     


    A segunda proposta foi a de solicitar ao ministro da Justiça, Tarso Genro, e o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), que realizem visita urgente para tomar conhecimento das questões judiciais relativas aos povos no Mato Grosso do Sul, especialmente em relação às prisões e à população carcerária deste estado. Há pelo menos 123 indígenas presos no Mato Grosso do Sul, e cerca de 48 deles estão na cidade de Amambaí. “Pela desproporção da população carcerária, pode haver intuito de perseguição”, afirmou o procurador da República, Eugênio Aragão.


     


    Outro tema foi o da necessidade de encaminhamento de uma solução definitiva para o abastecimento de cestas básicas aos Guarani, especialmente na região de Dourados, onde têm ocorrido mais mortes de crianças. Após a decisão do governo estadual de suspender a entrega de cestas, em janeiro, o Ministério do Desenvolvimento Social disponibilizou cestas que seriam distribuídas no mês seguinte. As cestas voltaram a ser distribuídas, mas o problema da continuidade da política ainda não foi resolvido.


     


    Na tarde desta quarta-feira, os debates serão focados nos problemas fundiários para a regularização das terras Guarani e nos entraves e soluções para o reconhecimento delas.


     


    Na sexta-feira, a Audiência será sobre os Guarani que moram nas regiões de fronteira do Brasil, Paraguai e Argentina, e que enfrentam problemas semelhantes de pobreza e falta de terras. As discussões serão sobre “Políticas públicas e cidadania” e “Análise da proposta de integração regional de políticas públicas e direitos”.


     


     


    NOVE INDÍGENAS PRESOS HÁ UM ANO NO MS SERÃO SOLTOS 


     


    Os nove Guarani-Kaiowá de Passo Piraju detidos no Mato Grosso do Sul desde abril de 2006 devem agora ser soltos, após decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A 5a. Turma do Tribunal acompanhou o voto da ministra Laurita Vaz e, por unanimidade,  decidiu que é da Justiça Federal a competência para julgar o caso do assassinato de dois policiais civis pelos indígenas. Até agora, o caso tramitava na Justiça Estadual. Com a decisão, o decreto de prisão preventiva, da Justiça Estadual, é anulado. O processo será encaminhado à Justiça Federal em Dourados, MS.  O julgamento de Habeas Corpus ocorreu na tarde desta terça-feira, 27 de março, em Brasília. Até a manhã desta sexta-feira, os Guarani ainda não haviam sido libertados.


     


    No julgamento, o advogado Paulo Machado Guimarães, da assessoria jurídica do Cimi, realizou a sustentação oral do Hábeas Corpus. Os advogados da entidade atuam na defesa dos nove indígenas.


     


    Guimarães defendeu a competência da Justiça Federal nos casos em que há disputa pela posse de terra e naqueles em que o processo está relacionado à condição étnica do grupo. A posição foi sustentada em um parecer da subprocuradora geral da República, Maria Eliane Menezes de Farias, que conclui pela competência Federal e pela falta de fundamentos da prisão preventiva.


     


    Em seu voto, a ministra Dra. Laurita Vaz acatou os argumentos apresentados pela defesa. O primeiro deles, de que os crimes de homicídio em questão tiveram como motivação declarada a defesa da terra pelos indígenas. “A ação conflituosa praticada por grupo traduz aparente esforço para a proteção da terra. O cenário indica estreita ligação com disputa pela posse de terra entre índios e os proprietários”, afirmou Vaz. Ela salientou que os policiais não estavam identificados e que, pela maneira como agiram, foram confundidos com fazendeiros. “Há, na região, permanente conflito entre indígenas e fazendeiros”, disse a ministra.


     


    “A competência é da Justiça Federal. Reconhecendo absoluta incompetência do juizo estadual, tenho por anulado o decreto prisional, sem prejuízo de possível decisão do Juiz Federal sobre a prisão dos índios”, proferiu a ministra Laurita Vaz, ao votar no julgamento do Hábeas Corpus no processo 65.898/MS , que ocorreu na tarde desta terça-feira, 27 de março, em Brasília.


     


     


    Brasília, 29 de março de 2007


     


     


     

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