• 15/05/2007

    Experiências na área da educação mostram relevância da abordagem étnica

    Texto e fotos de Priscila D. de Carvalho, especial para as Agências Repórter Brasil e Carta Maior*


    Não é fácil encontrar linhas comuns entre as políticas públicas de educação para indígenas nas cidades. Por ser responsabilidade dos estados, e não da União, a educação é gerenciada por governos de linhas políticas diferentes. O traço geral das políticas que existem é que elas têm foco em grupos que vivem aldeados nas cidades. Ou seja, uma criança indígena que freqüenta uma escola de maioria não indígena raramente vê tratados temas ligados à sua realidade étnica em sua escola. E não são poucas as crianças que vivem assim: em Porto Alegre, há 13 mil pessoas autodeclaradas indígenas, e menos de 200 famílias vivem em comunidades visíveis – em aldeias urbanas ou em terras demarcadas.


    Pesquisadores destacam a importância da abordagem do tema étnico pela escola pública, freqüentada pelas crianças indígenas cujos pais migraram para as cidades. E sobre como todas as crianças das cidades poderiam ganhar se as escolas trouxessem, para a sala de aula, a realidade de seus alunos indígenas. “Para grupos que moram na zona rural de Manaus, ou que se organizam para fazer um bairro indígena e vivem ali, meio como em uma aldeia, têm sentido lutar por uma escola indígena, com professor indígena”, afirma Rosa Helena Dias da Silva, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Mas há também os índios que estão em grupos pequenos ou isolados e, para estes, acredito que o desafio é tratar da realidade desta criança dentro da escola que ela freqüenta. Com isso, a escola pública também ganha, porque consegue tratar o tema da diversidade cultural dentro da própria escola. Mas é complicado, porque, ainda que o tema da inclusão pareça estar na moda, os professores ainda não estão formados para promover mesmo um diálogo entre a diferença, onde a criança não tenha vergonha de dizer de onde vem, onde ela que seja valorizada”.


    Há um traço que une, no entanto, as políticas em Porto Alegre e as que começam a ser construídas em Manaus: a proposta é de atendimento diferenciado às comunidades pelo fato de serem indígenas. Não se questiona, a princípio, se os grupos têm terras demarcadas ou se são migrantes. Em Porto Alegre, os Kaingang que vivem no Morro do Osso têm escola e professor indígena, apesar de ainda disputarem judicialmente o direito de viver ali.


    Em Manaus, o atendimento ainda não começou, mas 12 professores indígenas foram contratados pela Secretaria Municipal de Educação. Com a medida, a cidade abre espaço, nas políticas de educação, para as comunidades indígenas que não são originárias dali e não têm terras demarcadas. No entanto, as aulas em algumas comunidades não começaram ainda porque não há escolas construídas. A Semed informa que duas escolas sairão ainda em 2007 e que o primeiro trabalho dos professores será refazer um censo para identificar o tamanho da demanda – no primeiro estudo feito, foram identificadas 1,5 mil crianças indígenas freqüentando escolas da cidade. Nas comunidades que já são atendidas por escolas rurais, mas que não trabalham com a especificidade indígena, professores indígenas e rurais deverão trabalhar juntos por algum tempo.


    Migrantes e população dispersa
    Em São Paulo, no entanto, a orientação da Secretaria de Educação é de que as populações sem terra não podem receber o mesmo tipo de políticas públicas daquelas que têm terra demarcada. “A leitura que se faz da legislação federal é que terra e língua determinam povo”, explica a responsável para política educacional para indígenas no estado, Deusdith Velloso, coordenadora do Núcleo de Educação Indígena (NEI). “Os Pankararu são desaldeados, mesmo estando no conjunto habitacional, porque não têm organização de aldeia, não têm cacique, terra, língua”. Deusdith afirma que seria possível, no entanto, uma escola pública com projeto pedagógico voltado para os alunos indígenas, desde que solicitada por uma “reivindicação organizada”. E como, apesar de ter um representante no Conselho de Educação da cidade, propostas desse tipo ainda não foram apresentadas, a Secretaria de Educação não planeja criar políticas específicas para os povos.


    Maria das Dores do Prado, a Dora , da coordenação da ONG SOS Pankararu, explica que a reivindicação de seu povo – que perdeu o idioma original durante os séculos de contato com os não índios – é um centro cultural onde as crianças possam ficar após a escola, quando os pais saem para trabalhar. “Se o governo quisesse, negociaria um espaço dentro do Real Parque para um centro cultural Pankararu. Sem isso, as crianças perdem porque, ao invés de saírem para a escola e depois voltarem, terem pintura, artesanato, religião, elas não têm nada para fazer”, questiona.


    Experiência Terena
    Em Campo Grande, a escola no loteamento Marçal de Souza foi criada em 1999 para atender a comunidade da região. Ampliado em 2003 e pintado de azul, o prédio tem gravado nas paredes símbolos Terenas para o masculino e o feminino, e quadros com imagens dos povos. As sete salas da escola atendem, oficialmente, a 40% de alunos indígenas. “A escola não pode ser puramente indígena porque os que se identificam como Terena são 40% dos alunos, mas é referência porque é a única que atende diretamente a uma aldeia urbana na cidade”, contextualiza a diretora da escola, Lucimar Trindade. Apesar de trabalhar com o dado oficial, a diretora avalia que, pelas características físicas dos alunos, a porcentagem real de Terena deve ser mais alta. “Não sei se se sentiriam desvalorizados, ou se é porque não têm registro na Funai”, pondera.


    Como política específica, a escola oferece aulas do idioma Terena, de artesanato com sementes e de danças. As atividades duram quatro horas por semana, fora do horário regular dos estudantes, e contam com professores da comunidade contratados pelo município. Segundo a diretora, os temas indígenas são trabalhados com todos os alunos principalmente em abril, no Dia do Índio, quando a escola realiza uma feira. “Em 2006, trabalhamos sobre as nove etnias do estado e a contribuição delas para a sociedade – caça, flecha, artesanato, tipo de língua, maquetes do tipo de moradia”, conta.


    Já a aldeia Água Bonita vive uma situação completamente diferente. Lideranças contam 196 crianças de 0 a 12 anos que vivem na localidade, ainda sem escola específica.


    Escolas diferenciadas
    As três terras Guarani na cidade de São Paulo têm escolas – estaduais e municipais – e professores indígenas, e seis deles participam do curso na USP. Poty Poran é professora na escola dos Guarani do Jaraguá e é aluna do curso de formação superior para professores para 1a. a 4a. séries, realizado pela Secretaria Estadual de Educação em parceria com a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).


    Poty conta que, depois de muita insistência das lideranças “mostrando que tinha indígenas na cidade”, o Estado fez uma pesquisa sobre aquela demanda. “Chegaram à conclusão de que a aldeia do Jaraguá era um modelo, porque a maioria das pessoas tinha até a sétima série”. Mas a comunidade não considerou isso motivo de orgulho. “A gente não se considerava modelo porque uma geração inteira já não falava Guarani. Minha geração nasceu falando português. A gente começou a reivindicar escola como caminho para resgatar a língua e a cultura”, avalia a neta de seu Joaquim, chefe do primeiro grupo familiar Guarani que chegou ao Jaraguá.


    A primeira turma da escola estadual do Jaraguá, com 24 alunos, começou em 2001. Aos 18 anos, com ensino médio concluído, Poty passou a dar aulas. “Nem passava pela minha cabeça ser professora. Logo percebi que só o conhecimento de estudante não me capacitava para dar aulas”. Ela conta que fez o cursinho pré-vestibular oferecido pelos alunos da Escola Politécnica da USP, prestou vestibular para a USP e para a PUC (Pontifícia Universidade Católica).


    Passou na PUC e, com ajuda do Projeto Pindorama, estuda pedagogia. O Pindorama é uma iniciativa da Universidade, da Pastoral Indigenista de São Paulo, da Associação Indígena SOS Pankararu e de lideranças indígenas da cidade que, desde 2002, já ofereceu bolsas de estudos a 74 alunos que conseguiram passar pelo vestibular da Universidade. No mesmo ano de 2002, Poty começou o curso de magistério indígena para o povo Guarani, promovido pela Secretaria Estadual de Educação.


    A formação de professores em cursos modulares, divididos por povos e quando eles já atuam nas escolas, ocorre em outros lugares do país. Em Manaus, a proposta também é de que a formação dos professores e a construção dos projetos pedagógicos ocorram “no exercício”. “Isto funciona se for feito na perspectiva de construir a escola com o indígena e não para ele. Vai ser uma construção. Tempo e diálogo dirão se funciona”, avalia Leonízia Santiago, do Núcleo de Educação Escolar Indígena de Manaus, que em fevereiro deste ano aprovou verba para a contratação de 12 professores indígenas, indicados pelas comunidades.


    Idioma guarani
    Hoje, a escola das três aldeias de São Paulo – assim como no Rio Grande do Sul – alfabetizam as crianças em Guarani, idioma que as crianças ouvem em casa e que, por decisão da comunidade e com o incentivo da escola, voltou a ser valorizado. A educação bilíngüe – no idioma indígena e em português – é uma das conquistas dos povos indígenas desde a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de 1996.


    Sobretudo quando aprendem a falar em casa um idioma que não é o português, as crianças indígenas que vão para escolas regulares têm dificuldade de alfabetização, pois têm que aprender códigos de um idioma que não conhecem. Esta situação sempre contribuiu para aumentar o preconceito em relação a elas, o que dificultava ainda mais a aprendizagem e a convivência na escola.


    A situação é semelhante quando as escolas são em aldeias, mas os professores não são indígenas. É o que acontecia com os Guarani na aldeia Tenonde Porã, em Parelheiros, São Paulo. Construída pela prefeitura, a escola foi assumida pelo Estado em 1997. Sem a exigência de currículo específico, passou a ter professores que não eram Guarani. “Só a última aula era de língua e cultura Guarani”, conta Jera Guarani, hoje professora da escola. “Por isso, teve movimento forte das lideranças para professor indígena. Elas acharam que era muito tempo para as crianças ficarem falando numa língua que não era delas. Mesmo que elas precisem aprender o português, precisava trabalhar a cultura do branco na nossa forma”, afirma, usando um argumento constante entre os Guarani – em São Paulo ou em Porto Alegre. “A gente não quer formar produtores, nem gente para trabalhar e juntar dinheiro. Queremos educação para as crianças conhecerem a própria cultura e para conhecerem a sociedade envolvente, saber de seus direitos e deveres e poderem defender”, define Jera.


    “Ao exigir professores indígenas, as comunidades impedem que o professor branco destacado pela prefeitura vá alfabetizar. Tem toda uma relação de poder dentro disso. É uma forma de garantir salários, de ter gente dentro dos quadros de funcionários do município. E é uma forma de valorizar a cultura deles também. Aos poucos, no jogo de forças, vão mostrando que sua língua tem valor”, avalia Iara Bonin, doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 


     








    * O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA não assume responsabilidade pelos conceitos, opiniões e outros aspectos de seu conteúdo


     


     
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  • 15/05/2007

    Índios reproduzem formas de organização no meio urbano


    Texto e fotos de Priscila D. de Carvalho, especial para as Agências Carta Maior e Repórter Brasil*


    A cozinha da família é embaixo da árvore. Ali, a avó termina de dar almoço às crianças. O barraco de lona preta fica a poucos metros, e as outras casas da família estão a três quarteirões, no bairro Jardinópolis, região industrial de Campo Grande conhecida como Indubrasil. Os avós mudaram para perto dos filhos. Os homens da família estão empregados na indústria de couro: o filho trabalha no corte, o cunhado nas máquinas, o genro separa o couro da carne. Na casa da filha, o genro descansa na rede do trabalho “no faqueiro”, no turno que vai das 5 da tarde às 5 da manhã, folgas aos domingos. O frigorífico que fica a dois quilômetros dali, dá pra ir de bicicleta e o horário da noite é melhor, porque ganha ele ganha adicional noturno.


    “Falta trabalho lá em Lagoinha. Só tem no corte de cana. E tem que ficar de 60 a 90 dias fora, sem ver família, filhos. Não tem roça porque não tem terra pra roça. E a que tem está muito cansada”, justifica o Sr. Paixão, do povo Terena, o avô. Os primeiros filhos chegaram há dez anos. E ficam até quando? “Até quando a prefeitura mexer com nós, nós vamos ajeitando aí, vamos ver se compramos algum terreno aí”, planeja o Sr. Paixão. “O que precisa mais é condução. Doença não espera ônibus. Se adoece à meia-noite, fica sem condução”. Ele conta que a filha grávida de sete meses tinha chegado à meia-noite na véspera, depois de sair para fazer ultra-som às 4 tarde: falta de ônibus.


    A avó, Dona Ermínia, e os netos, se preparam para uma visita à aldeia. No final de semana seguinte haverá casamento. “Vamos quando tem festa. Quando temos sobra de dinheiro que dá pra pagar condução”, explica o avô. Eles pretendem alugar uma van para a viagem de 250 km, mas talvez não dê certo, porque o motorista não quer que carregar crianças no colo dos adultos. Não quer ser parado pela fiscalização.


    A sobrevivência na cidade passa pela construção de estratégias coletivas, em geral familiares. Com isso, os grupos urbanos mantêm um dos traços centrais dos povos indígenas, que são as relações de parentesco.


    Muitas famílias de indígenas nas cidades vivem próximas, em grupos pequenos de famílias nucleares, mas também mantêm contato com os parentes de longe. Na extrema Zona Leste de São Paulo, a Pankararu Helena tem dois irmãos e dois primos que vivem em bairros próximos ao seu, o Jardim Rodolfo Pirani. “Meu pai trabalhava na antiga Light e trazia as pessoas de Pernambuco pra cá, para trabalhar aqui. Veio tentar a vida, depois a minha mãe veio. Ficaram 20 anos e voltaram”, conta.


    O contato com as aldeias é comum. A cada ano, em fevereiro, um grupo Pankararu vai a sua terra em Pernambuco, para a festa do Umbu. Para este mesmo grupo, que vive em uma favela em São Paulo, estar junto significa também atuar em conjunto no local onde moram. O cacique Seu Bino, presidente da Associação SOS Pankararu, é também referência dentro da rede de lideranças de outros grupos dentro da favela. Ali, é ele quem deve ser procurado para tratar dos assuntos referentes a seus parentes.


    Reprodução do modelo produtivo


    No Rio Grande do Sul, os povos Guarani e Kaingang simplesmente não se questionam sobre o intercâmbio entre as aldeias: a mobilidade das famílias faz parte da forma de vida destes povos. Não é, portanto, nenhuma novidade, e nem deixou de existir nos últimos 50 anos.


    Durante seu mestrado em Ecologia, a bióloga Ana Elisa Freitas estudou a ocupação dos espaço pelos Kaingang, em Porto Alegre. Ela percebeu que o uso da cidade respeita a mesma lógica utilizada nas terras indígenas. “O modelo produtivo é o mesmo”, afirma.


    No interior ou na cidade, o espaço Kaingang está dividido em três ambientes, sempre articulados: o da moradia, o da coleta e manejo de recursos naturais, e o da comercialização e troca.


    O espaço da troca são as feiras, no centro da cidade, endereço também dos órgãos públicos, freqüentados para a exigência do cumprimento de direitos – entre eles o direito de expor e vender o artesanato, mas também aqueles relacionados à moradia, educação diferenciada ou saúde.


    O território da coleta de materiais para o artesanato abrange toda a bacia do Rio Guaíba, o principal da cidade. E cada família maneja de 8 a 12 espaços de mata, usados de forma rotativa, para dar tempo para que plantas cresçam e possam voltar a ser coletadas. Os lugares que os Kaingang escolhem para morar também não estão fora desta lógica. Eles ocupam as partes altas do território, onde estão nascentes de cursos d´água que formam o Guaíba. O terreno que escolheram para ser comprado pela prefeitura, para a construção da aldeia na Lomba do Pinheiro, fica em região alta da cidade, exatamente como a aldeia que fica na entrada do Morro do Osso – área disputada entre os Kaingang e a prefeitura da capital gaúcha.


    Movimentação migratória
    “Eles não se pensam como índios urbanos. Moram fora dela, em suas aldeias, e vão à cidade negociar com os brancos mercadorias e direitos”, conclui a pesquisadora.”Somos nós que fazemos este recorte entre cidade e aldeia com rigor. Ir para a cidade não é sair do território. Estes povos sempre migraram muito”, questiona o historiador Antonio Brand, referindo-se especialmente aos Terena e aos Guarani.


    As relações com as aldeias permanecem também porque quem mora na cidade acumula conhecimentos úteis para todo o povo. “Quem vem se tratar em São Paulo às vezes não sabe ler, a gente ajuda a pegar um ônibus, chegar no hospital”, relata Cícera Vieira do Nascimento, Pankararu que vive no Real Parque.


    Quem migra para a cidade também se abriga na casa dos parentes, até achar trabalho e até conseguir moradia. Estas estratégias de chegar na cidade, aliás, não são exclusivas dos povos indígenas. São comuns para toda a população brasileira que vive nas periferias das capitais


     * O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA não assume responsabilidade pelos conceitos, opiniões e outros aspectos de seu conteúdo


     

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  • 15/05/2007

    “Eu posso ser o que você é sem deixar de ser o que eu sou”

    Texto e fotos de Priscila D. de Carvalho, especial para as Agências Repórter Brasil e Carta Maior*


    Final da tarde de uma sexta-feira. Quando chego para a entrevista, Enio de Oliveira Metelo, cacique da aldeia Marçal de Souza, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, está reunido com dois outros membros do Conselho de Caciques da primeira aldeia urbana da cidade. Descubro logo que o Conselho é a instância interna de organização dos Terena que vivem na aldeia. Seus 13 membros são responsáveis pelas 205 famílias, 1050 pessoas, 135 casas (eram 112, na placa de inauguração) do conjunto habitacional inaugurado no ano 2000.


    Enio é de Cachoeirinha, a 198 km de Campo Grande. Recebeu a indicação dos anciãos para se tornar cacique. A posição é vitalícia. Uma vez escolhido, não pode haver recusa. “Cacique é delegado, padre, resolve tudo. Às vezes, casal chega chorando. Cacique conversa, resolve”, explica.


    O Conselho de Caciques é responsável por organizar algumas atividades para a comunidade. Houve confraternização no final do ano passado no pátio da escola pública construída junto ao loteamento. O amigo secreto foi sugestão da esposa de Enio para que as pessoas se encontrassem, já que a comunidade cresceu e “nem todo mundo se conhece”. Na hora de descobrir quem eram os donos dos presentes, a confusão por causa dos nomes repetidos foi solucionada pelo infalível método do parentesco, marca mais característica das comunidades indígenas, seja na cidade ou no campo. È o Mario “filho de fulana” ou o “marido de ciclana”?, perguntavam as dezenas de participantes, animados.


    Deitado na rede, ao lado do aparelho de telefone, dos óculos, da carteira e de uma cópia da proposta do Estatuto dos Povos Indígenas, Enio conta sobre sua vida e seu trabalho como cacique.


    Como nasceu a aldeia urbana Marçal de Souza?
    A Funai tinha este terreno. A Prefeitura [de Campo Grande] havia doado terreno para a Funai para a construção de casa do índio. Ficou ocioso. Juntou um grupo de lideranças e ocupamos, em 1995. Não houve invasão, era nosso. Em 1999, a prefeitura deu kits de material de construção e nós construímos as casas.


    Por que o senhor veio morar em Campo Grande?
    Cheguei em 1978. Viemos atrás de melhores condições de vida, de trabalho. A terra nas aldeias já não estava produzindo mais nada. Nas aldeias, agora tem oitava série, mas antes não tinha. Então, como ia por filhos na faculdade? Meu primeiro filho está no quartel agora. Lá no interior, o trabalho era no corte de cana, ou nas fazendas. Nas fazendas estava muito parado.


    Aqui a oferta é maior, mas falta qualificar mão-de-obra. Tem muitos que trabalham na changa, em trabalhos não especializados como pedreiro, jardineiro, vigilante. A maioria das mulheres são empregadas domésticas ou vendem na feira. Mesmo para quem termina o ensino médico, ter trabalho é difícil. Nós indígenas nunca conseguimos trabalhos nos grandes supermercados, no shopping.


    E o senhor sente falta da aldeia?
    Para mim, estou dentro da aldeia. São os mesmos modos, os mesmos costumes, a mesma língua, a mesma alimentação. Não muda muito. Muda casa de alvenaria. Muda organização, higiene, outro modo de viver. Mas o que a gente é está no sangue. A maioria das pessoas que vivem aqui são parentes. Os pequenos são gentis, tomam a bênção. Não é porque está na cidade que vai agir diferente. Eu posso ser o que você é sem deixar de ser o que eu sou.


    O senhor acha que vive melhor aqui?
    Sem duvida, vivo melhor. Porque lá vivia da roça e não produzia mais nada, com um calorão desse, seco, a terra cansada. A gente não tem costume de usar agrotóxico. Não usa, tem que pular para outra atividade.


    Quando chega aqui, o mais difícil é se instalar. Não tem casa, não tem banheiro, vai morar com outros. Eu e meu filho, moleque, dormimos no chão por muito tempo.


    E o senhor não teve vontade de voltar?
    O ser humano tem que ser persistente, correr atrás do que é bom pra ele.


    E vocês mantêm contato com a aldeia?
    Todo sábado vai um ônibus para Nioaque. Você já ouviu historia dos Terena? São nômades. Fica lá uns 2, 3 dias depois volta com as coisas para vender no mercado. O ônibus sai às 12h30, vai daqui para o mercado, passa pelo Jardim Noroeste, por Cachoeirinha, vai costurando. Volta segunda-feira, chega às 8 da noite. Eu vou ver meus parentes. Moram todos lá.


    E tem mais gente chegando?
    Mais ou menos em 2003, a gente teve que proibir que os ônibus trouxessem mais famílias. Chegou muita gente, e foi assim que nasceu a presença dos Terena no Jardim Noroeste. Ultimamente chega menos gente, porque fomos limitando. As casas chegam a ter 14, 16 pessoas em 32m² de área.


    Por que aqui tem o Conselho dos Caciques e tem também uma Associação de Moradores?
    O Conselho tem modo diferente de trabalhar, nos modos tradicionais. O objetivo é andar na comunidade, manter a língua, os costumes, as danças. Zelar por isso e não deixar acabar. A Associação é uma entidade de branco, para buscar melhoria, como asfalto e rede de esgotos, que não tem ainda. Mas o presidente da associação não pode assinar, é o cacique que assina. Eu falo pro Adierson [outra liderança de Campo Grande]. Eles querem trabalhar só com as associações, que podem arrecadar dinheiro, fazer projetos. Tinha é que organizar conselhos tribais, para trabalhar com índio mesmo.


    Tivemos cinco conquistas este ano: um representante da Marçal de Souza foi para a Copa do Mundo, entrar com a bandeira. Tem uma enfermeira fazendo atendimento pela Funasa. Não tem desnutrição. Tem uma pessoa daqui em Porto Príncipe, no Haiti, no Exército. Ah, e tem mais uma. Este ano conseguimos um laudo pericial para Funai, para benefícios, INSS. Não tem briga, aqui é bom de viver. Tem a comunidade unida.


    * O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA não assume responsabilidade pelos conceitos, opiniões e outros aspectos de seu conteúdo


     


     


     

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  • 15/05/2007

    Note of Survival International – BRAZIL: Indian anger at Pope’s comments


    Brazilian Indians have reacted with anger to Pope Benedict XVI’s claim during his recent trip to Brazil that their ancestors had been ‘silently longing’ to become Christians when Brazil was colonised 500 years ago.

    Jecinaldo Sateré Mawé of the Amazonian Sateré Mawé tribe called the Pope’s remarks ‘arrogant and disrespectful’.

    Pope Benedict XVI also claimed, according to the BBC, that the Christianisation of the region ‘had not involved an alienation of the pre-Colombian cultures’.

    Today, the indigenous population of Brazil is less than 7% of what it was in 1500. Of a thousand distinct tribes, only about 220 remain.

    The Catholic Church’s Indian advocacy group in Brazil, CIMI, has called the Pope’s statement, ‘wrong and indefensible’. Before the Pope made his comments, Indian leaders had written to him about the threats they continue to face, and expressed their gratitude for the support of missionaries and the church in Brazil in fighting for their rights.

    Survival’s director Stephen Corry said today, ‘It is tragic that unlike previous popes who have visited Brazil, His Holiness did not meet with Indian leaders, and made no public reference to the genocide visited upon the indigenous peoples of Brazil over the past 500 years.’


     


    For further information contact Miriam Ross on (+44) (0)20 7687 8734

    or email [email protected]

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  • 15/05/2007

    Viver na cidade grande não é abrir mão de ser indígena

     


     


    Texto e fotos de Priscila D. de Carvalho, especial para as Agências Repórter Brasil e Carta Maior*


     


    O ônibus que leva os moradores do bairro Brasileirinho até o terminal que permite acesso a diferentes pontos de Manaus, capital do estado do Amazonas, só passa de hora em hora. E pode demorar mais por causa da castigada estrada de terra que sacode sem dó a carcaça e as entranhas do coletivo. São cerca de dez minutos a pé do ramal 8 do Brasileirinho, onde vivem 16 famílias do povo Kokama, até o ponto de ônibus. Faço o trajeto acompanhada de uma liderança Kokama, Sebastião, e de sua esposa. Quando chegamos à parada, o dono do bar em frente, solícito, avisa que o ônibus acabou de passar. O próximo demora?, pergunto. Demora. Sentamos. A esposa de Sebastião, calada até então, senta e abre seu caderno para estudar o idioma Kokama, que ela não aprendeu quando criança.

    Um carro se aproxima e oferece carona. Aceitamos.

    – Para onde estão indo?, pergunta o homem sentado no banco do passageiro.
    – Para o centro.
    – De onde são?
    – Do interior. E ela á é de Brasília.
    – Brasília? E veio fazer o que aqui?
    – Sou jornalista. Vim fazer uma matéria sobre índios que vivem em Manaus. Visitei um grupo de Kokama que mora aqui no Brasileirinho – respondi.
    – Mas aqui não tem índio, não. Quando eles chegam aqui já não são mais índios.

    Mas Manaus tem índios, e eles se mobilizam por direitos básicos como moradia, transporte e educação, assim como em outros centros urbanos brasileiros. Na capital do Amazonas, eles são mais de 7 mil. As dúvidas sobre a presença indígena em grandes cidades, aliás, sofreram um duro golpe do mais recente censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2000. Nele, 734 mil pessoas se autodeclararam indígenas. E 383.298 destas vivem em cidades. A população urbana ultrapassou a rural e representa 52,21% do total de indígenas no Brasil. O IBGE mostrou também que, dos 20 municípios com maior numero de habitantes indígenas, 10 são capitais.


    Os indígenas não migraram do campo para a cidade sozinhos. Sua movimentação acompanha o processo de urbanização vivido por toda a população brasileira, intensificado desde a década de 1950. Manaus é o exemplo mais contundente: a instalação da Zona Franca fez a população da cidade aumentar de 300 mil pessoas, em 1970, para 800 mil, em 1985. Em 2000, Manaus já tinha 1,4 milhões de habitantes, concentrando quase a metade dos 3 milhões de habitantes de todo o estado do Amazonas. E, dos 18.783 indígenas que vivem nas cidades do estado, 7.894 estão na capital, de acordo com o IBGE.


     


    A história das migrações já faz parte das vidas Kokama, Apurinã, Baniwa, e de tantos outros que partiram em busca de educação formal, saúde ou renda em Manaus. É parte da vida dos Terena, no Mato Grosso do Sul, ou dos Kaingang, no Rio Grande do Sul, que migram para cidades a poucas horas de suas aldeias de origem, em busca de renda ou de distância das terras exíguas para uma população crescente. E também das vidas dos povos Pankararu, Fulni-ô, Pankararé, Potiguara, Atikum, e de tantos outros que saíram do Nordeste para tentar a vida em favelas e bairros periféricos de São Paulo.

    Histórias de chegadas


    As migrações não são apenas escolhas individuais. Elas fazem parte da própria dinâmica do contato entre as sociedades. É o que pondera o historiador Antonio Brand, da Universidade Católica Dom Bosco, de Campo Grande: “No Mato Grosso do Sul, as migrações são conseqüências das políticas públicas integracionistas que falharam, da criação de reservas pequenas e com uma visão de integração, da falta de demarcações de terras. Ao mesmo tempo em que o governo federal não demarca terras, as administrações locais fazem aldeias urbanas”, questiona. Aos poucos, a administração pública passa a ter que atender os grupos na cidade.

    Brand toca em uma questão que sempre fica implícita quando se fala em índios na cidade: se vieram para os centros urbanos, por que estas pessoas precisam de políticas públicas específicas? Afinal, são populações que saíram de suas terras de origem.

    A antropóloga Lucia Rangel, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), rejeita a idéia de que as populações indígenas são necessariamente vinculadas ao mundo rural. “Não importa onde eles vivem. São indígenas de qualquer maneira, falando ou não a língua, tendo ou não religião, porque os laços de parentesco é que de fato conferem a eles vínculos de pertencimento. Eles sabem contar as histórias de seus grupos, têm vínculos. Mas o Estado trabalha com estereótipos, e muitos deles, infelizmente, são fabricados pela antropologia. Quando só o que os indígenas têm são os laços de parentesco, ninguém quer reconhecê-los. Porque direitos indígenas são justamente direitos que o Estado gostaria que não existissem”, questiona Rangel.

    “É necessário compreender primeiro que esta demanda [por políticas públicas] é originária de um erro grande de estratégia de atenção aos povos indígenas. No período da ditadura, militares e especialistas diziam que no ano 2000 estaríamos desaparecidos ou integrados. Mas o movimento cresce e centra forças na demarcação. Ganhamos auto-estima, podemos afirmar nossa identidade. A população deixa o medo de lado”, afirma Jecinaldo Cabral, Sateré Mawé da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). A liderança, no entanto, não acha que a migração deva ser a solução para os problemas das políticas públicas nas aldeias: “A Coiab apóia esta luta [dos indígenas em centros urbanos], mas não queremos que todo mundo venha para as cidades. Queremos terras indígenas onde possamos viver nossas culturas, tendo saúde, educação, proteção territorial. A cidade é triste: tem morte, bebedeira, prostituição”, pondera.

    Apesar dos riscos da cidade, a decisão de migrar também é parte da busca por formas de atender às necessidades que os indígenas passam a ter depois do contato com não índios. Óleo, roupa, luz: tudo exige dinheiro. Para entrar no mundo dos não índios e trabalhar para ter dinheiro, há que estudar. Mas estudar também custa. Requer roupas e livros, requer sair da aldeia. Até os anos 90, quando começaram a ser instaladas escolas indígenas nas aldeias, o estudo formal estava vinculado à saída – mesmo que temporária – da terra e do convívio comunitário.

    È o que conta o senhor Daniel Arcanho, do povo Kokama. “Eu estudei na escola da missão em Feijoal. Tingia saco de açúcar com jenipapo para fazer farda, porque sem farda não estudava. E eu queria estudar, aprender coisa. Padre dizia que ia apanhar quem falasse na língua. Exército mandava matar pajé na aldeia. Nós viemos porque achamos bom ir para Manaus”.

    “Nessa época, a gente já convivia um bocado com branco e a gente não sabia as coisas”, comenta Isaura Pereira, esposa de Arcanho. Enquanto os filhos trabalham na cidade, eles ajudam a cuidar dos 12 netos. Levam as crianças para a escola, tiram peixe de vez em quando de um igarapé lamacento que passa no fundo do terreno onde moram. Plantam mandioca na área que tentam regularizar junto à Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). E ainda ajudam no sustento das casas com suas aposentadorias. Mesmo assim, Daniel e Isaura não reclamam de estar em Manaus, e já não fazem planos de voltar para as terras tradicionais de seus povos. Ali, na cidade, os netos podem “saber as coisas”.


     






    * O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA não assume responsabilidade pelos conceitos, opiniões e outros aspectos de seu conteúdo


     



     

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  • 15/05/2007

    Sexta sessão do Fórum Permanente sobre questões indígenas da ONU

    Terras, territórios e recursos naturais são o foco da sexta sessão anual do Fórum Permanente sobre questões indígenas da ONU, que começou 14 de maio e vai até 25.


    O evento reúne mil indígenas de todo o mundo.


     


    Também são assuntos no Fórum a situações dos índios nas cidades e a migração, os povos indígenas na Ásia, um levantamento de dados sobre a situação de indígenas e a desagregação das comunidades indígenas.


     


    Na abertura da sessão, Victoria Tauli-Corpuz dos Filipinos, Presidente do Fórum, falou que garantir os direitos indígenas sobre terras e recursos naturais era um pré-requisito à sobrevivência dos povos indígenas e das suas culturas. A Declaração da ONU sobre os direitos dos povos indígenas pode ser a base para negociar a proteção internacional daqueles direitos, que são afetados agora, ainda mais, pelo fenômeno da mudança global do clima. Além disso, todos os efeitos da exploração de óleo, do uso da madeira e da expansão das plantações da cana-de-açúcar e da produção da palma-óleo causam deslocamentos das populações indígenas. “É crucial encontrar soluções para os efeitos negativos da industrialização, confiando no conhecimento tradicional dos povos indígenas”, disse Tauli-Corpuz.


     


    A Declaração, o resultado do trabalho de duas décadas adotado pelo Conselho dos Direitos Humanas em junho 2006, foi parada na Assembléia Geral devido às questões que seriam resolvidas esperançosamente antes do fim da sessão atual da Assembléia em setembro de 2006. A única questão em que não houve acordo foi a que tratava do direito dos povos indígenas às suas terras.


     


    O Fórum, estabelecido pelo Conselho Econômico e Social do ONU em julho 2000, avisa, levanta a consciência e expande a informação sobre questões indígenas. Os 16 especialistas do Fórum são independentes, mas são apontados pelo Conselho – oito por Governos e oito por organizações indígenas. 


     


    Esforços para destacar questões indígenas no nível internacional e entre governos começaram em 1923, quando Deskaheh, líder dos Cayuga (Canadá), foi a Genebra para falar à Liga das Nações e defender o direito do seu povo viver em sua terra com suas próprias leis e fé. O líder do Maori Ratana fez a mesma viagem a Genebra em 1924 para seu povo. Apesar de não terem sido ouvidos na Liga das nações, suas visões inspiraram as gerações que seguiram.

     

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  • 15/05/2007

    SIXTH SESSION OF THE PERMANENT FORUM ON INDIGENOUS ISSUES HAS BEGUN

    Lands, territories and natural resources had been chosen as the focus of the sixth annual session of the United Nations Permanent Forum on Indigenous Issues, so as to address fundamental violations of indigenous peoples’ rights under laws put into effect by colonizers, the Chairperson of the Forum, Victoria Tauli-Corpuz of the Philippines, told correspondents this afternoon at a Headquarters press conference to mark the opening of the two-week session.


     


    Joining Ms. Tauli-Corpuz were Ida Nicolaisen of Denmark, a Forum member with a background of work in central Borneo and South-East Asia, and Hassan Id Balkassm of Morocco, a Forum member with expertise in North African indigenous issues.


     


    The Forum, established by the Economic and Social Council in July 2000, provides advice, raises awareness and disseminates information on indigenous issues.  The Forum’s 16 independent experts function in their personal capacity and are appointed by the Council, eight upon nomination by Governments and eight by indigenous organizations in their regions.


     


    Ensuring indigenous rights over lands and natural resources was a prerequisite to the very survival of indigenous peoples and their cultures, Ms. Tauli-Corpuz stressed.  The United Nations Declaration on the Rights of Indigenous Peoples set out the basis for negotiating international protection of those rights, which were now being dramatically impacted by the phenomenon of global climate change.  In addition, the effects of oil exploration, timber use and expansion of plantations for sugar and palm-oil production were all causing displacements of indigenous populations.  It was crucial to find solutions to negative effects of industrialization by relying on the traditional knowledge of indigenous peoples, she said.


     


    The Declaration, the result of over two decades of work and adopted by the Human Rights Council in 2006, was still stalled in the General Assembly due to issues that would hopefully be resolved before the end of the present Assembly session in September, she added.


     


    Elaborating on that, Mr. Balkassm said the Declaration was a statement of political will for developing international standards to ensure the rights of indigenous peoples.  The outstanding issues concerned a definition of indigenous peoples and principles concerning self-determination, land rights, the right to consent, customary law and indigenous institutions.


     


    He said the primary hold-up was the difficulty of some countries, particularly in North Africa, to honour obligations the Declaration would place on them.  The adoption of the Declaration was critical as an expression of political will to protect the rights of the indigenous.  Without that concrete affirmation of their rights, the indigenous and their cultures could not survive.


     


    Ms. Nicolaisen emphasized the importance of addressing questions relating to lands, territories and natural resources as a prerequisite for indigenous survival.  She said a record number of 2,500 people were taking part in the current session, mainly for two reasons.  The first was to work out the issues still stalling the adoption of the Declaration in the Assembly, and the second was to work out questions related to ownership of land as a core issue of survival.


     


    The present session, she stressed, was a key time for indigenous groups and Governments to come together on how Governments could honour their responsibilities in safeguarding indigenous rights.  Among the discussions expected to take place was the one on the millions of urban indigenous worldwide who were moving to cities either voluntarily or because violations of their rights no longer enabled them to survive in their indigenous environments.


     


    In response to a question, Ms. Nicolaisen said specific issues to be taken up during the session were the need to promote measures for economic development and to provide access to human services such as health care and education.


     


    Asked about reports that some indigenous groups seemed bent on evicting non-indigenous people from their territories in an effort to secure “cultural purity”, she said the reality of those situations was the reverse of the perception.  In the case of groups such as Canada’s First Nations Peoples in British Columbia, it was a matter of the peoples’ lands being encroached upon, with the indigenous groups merely taking steps to safeguard their right against eviction from their own land in a situation were economic stakes were very high.  That was the situation with Botswana’s Bushmen and the question of palm oil.  The Food and Agricultural Organization (FAO) had been asked to address issues related to the social dimensions of biofuel exploration and their impact on traditional agricultural lands.


     


    She added that the session would push for concrete proposals on addressing climate change as it affected indigenous peoples.  Studies on specific groups would be called for, with some groups pushing for a world summit next year on how to increase the decision-making role of the indigenous in resolving problems whose solutions depended on them.  Starting points for such measures were already in place.  Funds had been set up, but they had not helped.  International banks had also developed policies to prevent funding of corporations that violated indigenous rights, but the problem was that policies were not being implemented.  The Forum could be given a monitoring role in policy implementation.


     


    Asked about the situation regarding the Assembly’s adoption of the Declaration, Ms. Tauli-Corpuz said the African Group had wanted a working group to be established on amendments to be added to the current version of the Declaration that the Human Rights Council had adopted.  Indigenous groups had rejected that proposal, since they did not want another 20 years to pass before action was taken.  There was every reason to believe that the version already approved by the Human Rights Council would be adopted without any need for amendments.  The only issue on which there could be no compromise was that of the rights of indigenous peoples relating to their lands.


     


    The amendments, added Mr. Balkassm, had been forwarded to the Assembly President, who was committed to solving the outstanding issues during the current session.

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  • 15/05/2007

    Mobilização e agito em Amambaí, Mato Grosso do Sul

    Exigimos respeito aos Kaiowá Guarani” (lideranças, Amambaí,12/05/07).


     


    Um fim de semana quente para espantar o frio dessa região da fronteira com o Paraguai. Na terra indígena Amambaí, a Escola Mbo’eroy Guarani Kaiowá é palco de especial atenção.


     


    Homenagem às Mães – Sy Ara


     


    A homenagem ao dia das mães – Sy Ara, é singela e simples como sua gente. Mães Kaiowá Guarani com crianças no colo e outras pequenas acompanhando, chegam carregando suas preocupações, esperanças e alegria pela homenagem neste dia. Poucas falas lembraram as mães guerreiras na luta pela vida. Um poema “Che Symi” – minha mãe, feito pelo professor Eliseu Ribeiro, lembra a beleza e dureza de ser mãe, de fazer a vida florescer, dos muitos choros de alegria, das muitas preocupações, do viver com os filhos que ama. Uma bonita saudação pelo seu dia que está chegando.


     


    Depois do rápido ato no ginásio de esportes, é o momento de partilhar um suco e um pedaço de bolo feitos especialmente para essa ocasião.


     


    A preocupação – Funai


     


    Recentemente houve uma série de mudanças na estrutura administrativa da Funai junto aos Kaiowá Guarani. Durante os últimos anos funcionou uma administração regional em Amambaí e um núcleo em Dourados. Com a extinção sumária de todos os núcleos, passou a se cogitar a transferência da administração regional para Dourados. Isso foi até noticiado pela imprensa há poucos dias. Foi o suficiente para ouriçar a população Guarani, especialmente a dessa região da fronteira, que se sente prejudicada e desrespeitada com a medida.


     


    Sem entrar no mérito das mudanças, o que deixou as lideranças revoltadas foi o procedimento da Funai, sem nenhum diálogo ou discussão com as comunidades Guarani, simplesmente tomou a decisão sem sequer estarem cientes os motivos da mesma. E isso tudo se dá num momento em que a promessa do novo presidente, Márcio Meira, é de manter o mais franco, permanente e profundo diálogo com os povos indígenas e dar-lhes condições de participar nas decisões a serem tomadas com relação a eles. Os fatos vão na contramão do discurso. Além disso, é um desrespeito à própria Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. Por isso estão aqui reunidas as lideranças do povo Kaiowá Guarani, especialmente desta região da fronteira.


     


    Em carta ao presidente da Funai as lideranças expressam sua decepção e revolta:


     


    Nós capitães, líderes religiosos e professores Guarani Kaiowá reunidos para discutir os problemas na escola Mbo’eroy… Em nenhum momento nós aceitamos a decisão tomada pelo presidente da Funai, Marcio Augusto Freitas de Meira… Portanto entendemos que a decisão tomada pelo senhor presidente foi um dano moral, traição e falta de consideração com nosso povo. Sem mais esperamos o retorno e que respeitem nossa decisão”. (Amambaí 12/05/2007).


     


    Coincidentemente, os professores e outras lideranças que para cá vieram dar continuidade ao estudo sobre a questão da sustentabilidade dentro das terras indígenas, participaram, na parte da manhã, da discussão com as lideranças, uma vez que o assunto diz respeito a toda a comunidade. Porém a professora Teodora deixou bem claro que não podem se deixar pautar pela Funai, até porque a atuação da mesma é muito limitada e pouco eficaz.


     


    O que se espera é que se possa dar um salto qualitativo na efetiva participação na construção da política que os Kaiowá Guarani querem para seu povo e como executá-la e fiscalizá-la.


     


    Sustentabilidade e dependência nas terras indígenas


     


    Uma das grandes preocupações no momento é a vulneralibildade desse povo em função da perda quase total de autonomia de produção de alimentos para sua população. O principal sintoma disso é a dependência generalizada de cestas básicas.


     


    Preocupado com essa realidade a estratégia de um grupo, especialmente de professores, juntamente com algumas lideranças e com apoio da equipe do Cimi Dourados, iniciou uma série de estudos e debates a esse respeito.


     


    12 de maio de 2007.


     


    Egon Heck


     


     

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  • 11/05/2007

    Newsletter 765: Court decides that Guarani families have to leave the reoccupied area in the state of Mato Grosso do Sul

    On May 5, a federal court of Mato Grosso do Sul issued a writ of entry in favor of the owners of the Madama Farm, located in the traditional territory of the Guarani, in the Amambaí region. The area was occupied by about 60 Kaiowá Guarani on May 6.


     


    It was a decision to be applied immediately, since the court had already granted a decision in favor of the farmers in a lawsuit requesting an injunction after the same area was reoccupied in January of this year. This decision prevented the indigenous people from returning to the area.


     


    The Federal Police went to the reoccupied area today in the morning (May 10) and they are already authorized to evict the indigenous people. According to indigenous leaders, on the 8th at night ruffians working for farmers fired their guns in the air in the region.


     


    Flávio Reis, an attorney of the Federal Prosecutor’s Office in the state of Mato Grosso do Sul, said that he has no plans to appeal against the judicial decision for the time being. He said that he was only informed about the judicial decision and still needs to study it carefully.


     


    The Coordination of Social Movements of Mato Grosso do Sul, which has always supported the struggle of indigenous people in that state, is mobilizing itself to prevent this new act of violence against the Kurussu Ambá community.


     


    Murder


    In January, after the same area was reoccupied by the Guarani, gunmen hired by farmers evicted them from the farm without any legal authority. During the eviction action, a Guarani religious leader, Xurete Lopes, was shot to death near her tent. Her murderers remain unpunished until now.


    During the same action, four indigenous people were arrested under charges of theft in a situation prepared by the farmers. They have been kept in prison since then.



    Vice-president of the Senate is against a bill authorizing mining activities in indigenous lands
    Senator Tião Viana (Workers’ Party – state of Acre), the vice-president of the Senate, declared that he is against a law-proposal prepared by the Federal Government to regulate mining activities in indigenous lands. This happened during a meeting held on May 2 with the vice president of Cimi, Saulo Feitosa, which was convened to discuss research data indicating that petroleum has been found in Acre.

    During the meeting, Feitosa said that any measures to regulate the exploitation of mineral resources in indigenous lands must be discussed as part of the debate on the Statute of Indigenous Peoples. He challenged the law-proposal of the Federal Government to regulate mining activities in indigenous lands. Senator Tião Viana said that he agreed with him.


    At the meeting, Feitosa expressed Cimi’s concerns with any petroleum exploitation in indigenous lands in the state of Acre. Legally, this activity cannot be carried out because there is no specific regulation to be applied to the exploitation of mineral resources in indigenous lands. Furthermore, petroleum prospection can have high environmental and social impacts – as a result of the presence of non-indigenous people in indigenous lands and of the physical framework that needs to be set up for this activity. The impacts can begin to be felt even before the petroleum is actually exploited. Senator Tião Viana said that his proposal for petroleum prospection in the state of Acre does not involve indigenous lands or conservation units, as the law provides for.


     


    Even if the exploitation of oil and natural gas is not directly carried out in indigenous lands, it will be necessary to study the direct and indirect impacts of these activities for the population before any authorization is granted.


     


     


    CIMI, Missionary Council on Indigenous Issues


    Brazil, 10th of May 2007

    www.cimi.org.br

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  • 11/05/2007

    V Celam – Aparecida vai tocar em pontos nevrálgicos da pastoral indígena


    “Aparecida vai tocar em muitos pontos nevrálgicos da pastoral indigenista.” É o que afirma o assessor teológico do Cimi, Paulo Suess, que acompanhará o bispo presidente da entidade, dom Erwin Kräutler, que participa da V Conferência Geral do Episcopado da América-Latina e do Caribe (Celam).


     


    Os assessores não participam do encontro, mas colaboram com os bispos com suas análises da conjuntura eclesial e dos discursos – sobretudo daquele que será proferido pelo Papa na abertura da Conferência. Outros bispos da América Latina com forte trabalho indigenista, entre eles o bispo Dom Felipe Arizmendi Esquivel, de San Cristóbal de las Casas, México, também estarão presentes em Aparecida.


     


    Algumas referências à questão indígena, importantes para definições da pastoral indigenista, apareceram em discursos recentes do Papa, como no pronunciamento aos núncios latino-americanos, em fevereiro de 2007. Sobre as citações, Suess comenta que a afirmação de que as culturas indígenas esperavam a Igreja Católica e sua mensagem da fé é historicamente sem provas documentais e teologicamente é uma regressão aos tempos pré-conciliares. “A cultura do conquistador e o cristianismo embutido nela destruíram muitos referenciais de identidade dos povos indígenas e não contribuíram para a construção de uma ‘verdadeira identidade’ sobre uma supostamente ‘falsa identidade’ anterior”, escreveu o teóogo. Segundo Suess, o crédito, que a Igreja Católica hoje encontra entre os pobres, deve ser atribuído à pastoral libertadora pós-conciliar, que rompeu com a missão colonizadora de muitos séculos. “Ao falar [o Papa] da ‘assistência aos pobres’ e não da ‘opção pelos pobres’, percebe-se o ensaio de uma mudança semântica mais profunda, porém não respaldada no episcopado latino-americano”, avalia Suess.


     


    Suas reflexões sobre o tema estão condensadas no texto “Aparecida no contexto da pastoral indígena”, que trata também das expectativas em relação aos caminhos que serão escolhidos pela Igreja durante a Conferência.


     


    A expectativa é para que Aparecida possa dar  “continuidade às decisões tomadas nas Conferências de Medellín (“opção pelos pobres”), Puebla (“comunhão e participação”) e Santo Domingo (“inculturação”). Entre as questões-chave para a causa indígena em Aparecida se impõem novamente a assunção da realidade como ponto de partida de qualquer reflexão teológica e ação pastoral, segundo o princípio do Santo Irineu: “Assumir para redimir” (cf. Puebla 400). Desta assunção da realidade emerge a opção pelos pobres e pelos povos indígenas, incentivando seu protagonismo na construção do Reino. Que vive na proximidade com os povos indígenas constata a urgência de uma ampliação, descentralização e reestruturação dos ministérios para que na prática pastoral possam responder à diversidade sociocultural, dispersão geográfica e necessidade espiritual dos povos indígenas. A assunção da realidade terá também uma incidência sobre a formação dos agentes pastorais. Será uma formação para a luta e na luta pelas causas do Reino. Nessa formação inculturada, as “matérias” da teologia índia, do diálogo ecumênico e inter-religioso devem ter um destaque privilegiado. “


     


    Programação paralela


     


    Debates na Tenda dos Mártires


    O Fórum de Participação do V Celam, que reúne pastorais e teólogos que pretendem acompanhar os debates mas que, oficialmente, não participam da Conferência dos bispos, vai montar em Aparecida a Tenda dos Mártires. Nela, serão realizados debates, reflexões e orações, além da exposição de vídeos e publicações dos grupos.


     


    O Cimi vai participar da programação da tenda entre os dias 21 e 23 de maio.


     


    A Tenda será decorada com imagens dos Mártires da Igreja Católica e estará localizada próxima à Basílica de Aparecida.


     


     


    Romaria dia 19


    Uma romaria, em que os fieis seguirão à pé desde a cidade de Roseira, às margens da Via Dutra, até a cidade de Aparecida, será realizada a partir da meia-noite do dia 19 de maio. O grupo chegará de celebração dia 20, ás 8 da manhã. A terceira parada da caminhada, que lembrará a Conferência de Puebla, terá a participação de quatro indígenas e da Pastoral Indigenista.


     


    Contato para entrevistas


    Priscila D. Carvalho- Ass Imprensa Cimi – 61 9979 6912


     


     

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