• 20/12/2007

    Contra-proposta de Dom Cappio e dos movimentos sociais

    Face à proposta feita pelo Governo Federal, através do Chefe de Gabinete da Presidência da República, Sr. Gilberto Carvalho, para suspensão do jejum de Dom Luiz Cappio;


     


    Tendo em vista a solução real para o déficit hídrico e o desafio do desenvolvimento socioambiental sustentável do Semi-árido e da Bacia do Rio São Francisco;


     


    Baseados na proposta feita pela Caravana em Defesa do Rio São Francisco e do Semi-Árido – Contra a Transposição (27/07/2007);


     


    Para alimentar o diálogo e o entendimento;


     


    Dom Luiz Cappio e os Movimentos Sociais que o acompanham e assessoram – MPA, MAB, MST, APOINME, CPT, CIMI, CPP, PJMP e FEAB – apresentam a seguinte contraproposta:


     


    1-            Manter a suspensão das obras iniciadas da transposição, com a retirada imediata das tropas do Exército;


     


    2-            Adução de 9m3/s para as áreas de maior déficit hídrico dos Estados de Pernambuco e da Paraíba, redimensionando o projeto atual de 28m3/s, através de termo de ajustamento entre o empreendedor e o Ministério Público Federal com interveniência dos Estados da Bacia, do Estado da Paraíba e do Comitê de Bacia Hidrográfica do São Francisco;


     


    3-            Implementação das obras previstas no Atlas Nordeste de Abastecimento Urbano de
    Água, da Agência Nacional de Águas, além das já referidas acima no item 2;


     


    4-            Apoio da União à introdução, ampliação e difusão de tecnologias apropriadas de captação, armazenamento e manejo de água para o abastecimento hídrico humano e produção agropecuária das comunidades camponesas do Semi-Árido, sob controle da ASA – Articulação do Semi-Árido Brasileiro e dos movimentos sociais;


     


    5-            Elaboração e implementação de um programa de revitalização da Bacia Hidrográfica do São Francisco, que comporte ações amplas e diversificadas, a curto, médio e longo prazo, e contemple a preservação dos Cerrados e das Caatingas, tornados Biomas Nacionais, tendo como suporte orçamentário o Fundo de Revitalização do Rio São Francisco, conforme a PEC a ser aprovada imediatamente no Congresso Nacional;


     


    6-            Elaboração e implementação de Programas de Revitalização das Bacias Hidrográficas dos Rios Jaquaribe no Ceará, Piranhas-Açu na Paraíba e Rio Grande do Norte e Parnaíba no Piauí e Maranhão, e rios temporários do Semi-árido;


     


    7-             Apoio técnico-político ao Comitê de Bacia Hidrográfica do São Francisco para elaboração do Pacto de Gestão das Águas do São Francisco com inclusão imediata do atendimento às demandas para abastecimento humano do estado da Paraíba e do Pernambuco e consideração dos pleitos dos estados do Ceará e Rio Grande do Norte para abastecimento humano e dessedentação de animais;


     


    8-            Coordenação pela União da elaboração e implementação de um Plano de Desenvolvimento Socioambiental Sustentável para todo o Semi-Árido Brasileiro, conforme o paradigma da Convivência com o Semi-árido.


     


     


    Sobradinho, 18 de dezembro de 2007.

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  • 20/12/2007

    Nota sobre a decisão do STF e o estado de saúde de Dom Luiz

    Hoje (19), pouco depois de tomar conhecimento do resultado do julgamento pelo STF de ações contra a transposição de águas do Rio São Francisco, Dom Luiz Cappio externou que não estava bem e sentia “um desalento muito grande”. Em seguida, por volta das 14 hs, deixou a reunião em que esta nota era preparada e, ao se dirigir para seu quarto na Capela de São Francisco teve um desmaio.


     


    De fato, ele alimentava esperanças de que a Justiça prevalecesse finalmente. Classificou o Supremo Tribunal Federal como “o último refúgio da cidadania”, lamentando que também este tenha se curvado à pressão dos fortes. Comentou que se repetia o mesmo acontecido no ano passado: uma decisão tão importante como essa, sobre o maior, mais caro, polêmico e conflitivo projeto do Brasil atual, foi tomada no último dia do ano de exercício do Judiciário, com ausência de membros e num comportamento que não considerou o mérito das inúmeras questões sociais, econômicas e ambientais levantadas, antes fez vista grossa ao oceano de ilegalidades cometidas, apegado a formalidades vazias. Tudo apenas para justificar uma obra falaciosa da qual, se for concretizada, o País futuramente irá se arrepender.


     


    D. Luiz voltou à consciência, mas era mais lenta que o esperado a recuperação do seu quadro geral. Diante disso e do risco de possíveis seqüelas, seu médio Dr. Frei Klaus Finkam, em consonância com seus familiares e representantes dos movimentos sociais, decidiu removê-lo para o hospital. E às 18,40 hs, após ter recebido aplicação de soro por via indovenosa, ele foi levado em ambulância para o Hospital Memorial, em Petrolina-PE. As últimas notícias são de que ele passa bem, sem riscos maiores de vida.


     


    Não é verdade que ele tenha encerrado seu jejum. Sobre isso ele mesmo vai dizer, quando tiver recuperado suficientes forças.


     


    Enquanto isso, por seu lado, o Governo Federal, sobre o respaldo que lhe deu o STF, comunicou que estão fechadas as negociações que mal haviam se iniciado.


     


     


    Sobradinho-BA / Petrolina-PE, 19 de dezembro de 2007

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  • 20/12/2007

    Os algozes e a História

    Além do slogan que virou mantra: “São Francisco vivo: terra, água, rio e povo”, duas frases ecoam nas bocas e mentes de todos quantos chegam ou permanecem em Sobradinho: “um dia a mais é um dia a menos” e “tudo pode acontecer em Sobradinho”. De fato Sobradinho é uma caixa de surpresas, mas nada será como antes depois de Sobradinho.


     


    Isso vale para o governo Lula, para os movimentos sociais, para a Igreja Católica, para os artistas, para os intelectuais, para o PT, enfim…Mas o que acontece de tão marcante em Sobradinho, além do fato de ali jejuar e talvez ali perecer o bispo franciscano D. Luiz Flávio Cappio? Os intelectuais pouco recorrem à metáfora. Milton Santos era intelectual e abusando do seu brilhantismo, muitas vezes, recorria à metáfora. Nas suas últimas obras, apontava a importância para a história dos “homens lentos”. Quem era o homem lento do qual tratava Milton Santos? Ele está em toda parte e cada vez mais aumenta em número.


     


    Aliás, como dizia João Guimarães Rosa pela boca de Riobaldo-Tatarana: o sertão está em toda parte. E o sertanejo também. Em Sobradinho, ele não só é presença como ousa mostrar a cara e dizer que não quer se equiparar, forçosamente, aos homens galopantes, representantes do capital que a tudo destrói e a tudo consome. Ele defende uma outra lógica. O que se afirma em Sobradinho é isso. Homens dizendo que querem as coisas de outro modo, de outro jeito, com outra cara. Eles dizem que há uma outra forma de fazer as coisas, de lidar com terra, de usar a água, de conviver com o semi-árido… Em suma: que um outro mundo é possível.


     


    O bispo Dom Luiz Flávio Cappio, através de seu sacrifício e gesto extremado, está expressando isso. Não é por outra razão que acorrem a Sobradinho tantos homens e mulheres que, se não são lentos na definição miltoniana, defendem a premissa da lentidão como resistência, como desobediência, como civismo.


     


    Estive em Sobradinho. Foram oito dias (6 a 14 de dezembro) intensos e ricos em experiências. Guardada a distância no tempo e as circunstâncias históricas, Sobradinho faz lembrar Canudos. A Belo Monte de Conselheiro. Em Sobradinho como em Canudos encontra-se devoção, fé, mística, esperança. Como Canudos, Sobradinho é fruto da incompreensão, do silêncio, da mentira, das intrigas dos poderosos, das promessas não cumpridas.  Não faz muito tempo, uma “liderança” do PT disse-me que a Transposição será a Brasília de Lula. Quem conhece minimante o projeto sabe que será sua Transamazônica. Sobradinho nos coloca uma equação: a Nova Canudos X a Nova Transamazônica.


     


    Através da Transposição, Lula quer marcar seu nome na história. Qualquer que seja o desfecho de Sobradinho, Dom Luiz Cappio já adentrou as páginas da nossa história (e da Igreja). Quem lembra de Prudente de Morais, do Conselheiro Luiz Viana, do Barão de Jeremoabo e tantas outras tristes figuras que estiveram no centro ou tramaram o massacre de Canudos? Quem esquece Antônio Conselheiro? Ao andar da carruagem, quem se lembrará, no futuro, de Geddel, Jaques Wagner, Lula da Silva? Eles serão apenas os algozes do Frei imolado em Sobradinho. Quem viver verá.


     


     Ely Souza Estrela – Professora da Universidade do Estado da Bahia – Campus V


     

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  • 20/12/2007

    Nota da CNBB



    Dom Cappio é internado em hospital de Petrolina


    quarta: 19 de dezembro de 2007


     


    O bispo de Barra (BA), dom frei Luiz Flávio Cappio, está sendo levado, nesse instante, de ambulância para ser internado na Clínica Memorial, em Petrolina (PE) a 50 Km de Sobradinho (BA), onde, há 23 dias, ele faz jejum contra a transposição do Rio São Francisco.


     


    Segundo Tomas Bauer, da CPT da Bahia, dom Cappio está semi-consciente e só depois que voltar à consciência comunicará se o jejum será suspenso. À tarde, por volta das 16h (horário de Brasília), dom Cappio teve um desmaio. No início da noite, o médico que o acompanha, frei Klaus Frankim determinou sua internação. Dom Cappio está acompanhado de sua família.


     


    Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB


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  • 19/12/2007

    Mortes violentas de indígenas no município de Guajará-Mirim/RO ficam impunes.

     


    O ano de 2007 foi marcado pela violência contra os povos indígenas de Rondônia e de modo especial no município de Guajará Mirim. No final de março, houve um assassinato duplamente qualificado de Maria Helena, uma idosa do povo Guaratega (Kampé) na cidade de Guajará-Mirim, que foi asfixiada depois de estuprada. Em menos de 8 meses faleceram dois indígenas, em luta por sua terra, em fazendas no ramal Lago das Garças no município de Guajará-Mirim: Gilson Acácio Lobato, do povo Puruborá, 26 anos, assassinado em janeiro de 2007 por Hermess José da Silva na fazenda do Sr. Cabral com um tiro de espingarda e João Pereira da Silva, 38 anos, do povo Miguelém atingido mortalmente por uma árvore durante uma derrubada ilegal na Fazenda Água Boa.


                O Gilson e o João participavam das assembléias de seu povo com a perspectiva de se mudar para a sua terra quando for demarcada. A realização de assembléias anuais durante sete anos seguidos com documentos encaminhados para Fundação Nacional do Índio (Funai) e Ministério Público Federal não foram suficientes para que o órgão indigenista oficial concretizasse as demarcações solicitadas. Os indígenas “sem terra” e desempregados na cidade se tornam uma mão-de-obra barata para as fazendas da região, que além de pagar pouco não oferecem nenhuma proteção trabalhista.


    No caso da idosa Guaratega, a polícia soltou o único suspeito por falta de provas. De fato, os “peritos” que fizeram o inquérito não colheram nem o sêmen nem as digitais. No caso do Gilson do povo Puruborá, as únicas testemunhas encontradas para depor eram parentes ou amigos do assassino que falaram de legítima defesa. A denúncia do promotor contra o assassino foi uma queixa-crime por “porte ilegal de arma” e por ser réu primário e com mais de 60 anos foi absolvido, apenas perdeu a chumbeira mortífera! A família não recorre da sentença por temer represálias.


    No caso do João do povo Miguelém, alem de prestar um serviço sem nenhum contrato de trabalho como é rotina nas fazendas, o dono da fazenda não ofereceu nenhuma indenização. A irrisória ajuda que deu o gerente da fazenda foi o translado do corpo do necrotério até a casa. A família pensa em procurar o Ministério Público para pedir justiça. O fazendeiro foi atuado pelo IBAMA, mas prosseguiu a derrubada ilegal.


    O descaso da justiça com essas três mortes deixa os povos indígenas e seus aliados muito indignados.


     

    Cimi-Guajará-Mirim, 18 de dezembro de 2007

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  • 18/12/2007

    Tribunal determina que liderança Xukuru seja posta em liberdade

    Hoje, 18/12/2007, a 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, em Recife (PE), por unanimidade, concedeu habeas corpus ao indígena Xukuru Rinaldo Feitoza Vieira, nos termos do voto do relator, desembargador federal Lazaro Guimarães.


     


    Rinaldo foi preso em outubro por decisão da juíza federal substituta da 24ª. Vara da Justiça Federal – Subseção Judiciária de Caruaru (PE), Dra. Ivana Mafra Marinho, atendendo a requerimento da autoridade policial federal e parecer do Ministério Público Federal (MPF), como autor dos disparos que vitimaram outro Xukuru, José Lindomar de Santana, em agosto de 2007.


     


    O motivo alegado para a decretação da prisão foi o fato de Rinaldo ter sido reconhecido por José Orlando Gomes de Santana Xukuru que conseguiu escapar com vida do atentado que vitimou o seu irmão. Em depoimento anterior a outro delegado da Polícia Federal, José Orlando disse não poder reconhecer os que atiraram contra si e seu irmão.


     


    Em outubro, José Orlando muda a sua versão e acusa Rinaldo e outro indígena, conhecido como Edmilson, como os responsáveis pelo homicídio de Lindomar.


     


    No voto do desembargador foram refutadas as declarações de José Orlando, por serem insuficientes para que Rinaldo fosse indiciado como assassino de Lindomar.


     


    A liderança Xukuru Rinaldo vai aguardar em liberdade a conclusão do inquérito policial.


     


    Além de Rinaldo, encontra-se preso o vereador de Pesqueira, José Agnaldo Gomes de Souza. Da mesma forma não há provas concretas da participação de Agnaldo no assassinato do índio Lindomar.


     

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  • 17/12/2007

    Médico acompanha possíveis alterações físicas do frei Luiz Cappio

    Hoje (17) o Dom Frei Luiz Flávio Cappio completa 21 dias sem se alimentar e passa a ser acompanhado diariamente por um médico. Ele tem apresentado alterações físicas e demonstra fragilidade orgânica, mas mantém a determinação de permanecer em jejum. Como gesto de solidariedade hoje são intensificadas as manifestações e acontece a vigília nacional.


     


    No dia 27 de novembro o frei Luiz passou a ingerir apenas água, passados pouco mais de uma semana ele começou a beber a média de 3,4 litros por dia de soro caseiro – uma porção de sal e duas de açúcar para cada medida de água. Desde então ele tem sido acompanhado por uma enfermeira. A preocupação a partir de agora é o quadro físico, desde o início ele perdeu oito quilos.


     


    Dom Luiz apresenta um quadro de hipotensão, em determinados momentos ele tem fortes quedas na pressão. Além disso, as bactérias que deveriam agir no processo digestivo, não encontram ambiente favorável ao trabalho no estômago e passam para outras partes do corpo, podendo causar algum tipo de mal estar.


     


    Todavia, ele afirma se sentir “mentalmente e espiritualmente forte”. Para atenuar algumas reações, o frei tem feito escalda pés diários, assim como outros procedimentos para equilibrar pressão e funcionamento do organismo.


     


    A presença do médico de confiança é entendida pelos familiares, amigos e outras pessoas que acompanham, como fundamental para desenhar a evolução do processo. Dom Luiz concorda com a recomendação e a partir de hoje o frei Klaus Finkam, especialista em terapia com jejum, fará a supervisão diária, emitindo inclusive boletins médicos. Na semana passada ele chegou a visitar o bispo e constatou um quadro equilibrado.


     


    Todavia frei Luiz mantém a rotina de orações individuais e coletivas, o atendimento às pessoas, grupo e caravanas que costumam visitar e participar dos momentos de celebração. Durante as missas diárias, ele apenas dá a benção inicial e final, o momento é presidido por outros padres.


     


    Dom Luiz mantém o jejum até que a transposição de águas do rio São Francisco esteja paralisada definitivamente e as tropas do exército tenham sido retiradas das obras na área da tomada de água dos eixos norte e leste do projeto.


     


    Vigília e jejum nacional


    O apoio à luta ganhou grandes proporções e adesões em todo o Brasil e em outros países. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), as organizações sociais e movimentos populares que formam a Via Campesina e outras entidades da sociedade civil fazem hoje o dia nacional de mobilização e jejuns solidários.


     


    Em Brasília (DF) o ato acontece com representantes da Bacia do São Francisco, eles devem se manter em vigília, inclusive com a participação de artistas. Em Porto Alegre (RS) estão previstos ato público na Praça da Matriz e celebração na Capela da Assembléia Legislativa. Em Belo Horizonte (MG), as atividades acontecem amanhã (18).


     


    Na Bahia, as atividades iniciariam no final de semana. No Município de Bom Jesus da Lapa, a vigília aconteceu sábado e domingo. Em Salvador, começou no sábado e já conseguiu reunir mais de três mil pessoas. A atividade não tem data para terminar e acontecem celebrações três vezes por dia, intercaladas com apresentações culturais.


     


    O movimento de jejum solidário teve início no dia 30 de novembro, a partir do sócio-educador Marcos Arruda (Políticas Alternativas para o Cone Sul). Aos poucos ganhou adesão em diversos lugares do Rio de Janeiro e da Bahia, em outros estados como Paraná, Goiás, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Ceará, Paraíba, Pernambuco, além de outros países – Alemanha e Áustria.


     


    Até hoje, mais de 200 pessoas aderiram ao movimento. Comumente elas costumam permanecer de um a dois dias ingerindo apenas água. Durante a terça e quarta-feira (18 e 19), na Capela São Francisco, em Sobradinho (BA), onde o frei Luiz permanece, a vigília e jejum solidários envolverão religiosos e outras pessoas ligadas à igreja, representantes de organizações sociais e movimentos populares que apóiam a luta contra o projeto de transposição. A programação envolve momentos de oração e de debate sobre o gesto.


     


    Contatos:


    Em Sobradinho


    Ruben Siqueira – Comissão Pastoral da Terra: (71) 92086548


    Alzení Thomaz – Conselho Pastoral dos Pescadores (75) 9136102


    Maria Oberhofer – IRPAA: (74) 91156977


     


    Comunicação


    Marcy Pincaço – CIMI: (61) 21061650 / 99797050


    Clarice Maia – Articulação São Francisco Vivo: (71) 92369841


    Cristiane Passos – CPT: (62) 81112890

    Todos os arquivos referente ao jejum podem ser encontrados no site: www.umavidapelavida.com.br

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  • 16/12/2007

    Pela vida de Dom Luiz Cappio!

    Certamente hoje, nos palácios de Brasília, as grandes perguntas e opiniões entre os assessores do governo e da cúpula petista no poder são: quem deu legitimidade para um bispo questionar o governo e quais interesses ele defende? Só pode ser louco aquele que ousa colocar em dúvida as intenções do presidente operário, porque ele, o presidente operário, também fez greve de fome, também combateu as elites. Que ousadia é esta?


     


    O presidente petista, que acredita ser o seu governo um baluarte da democracia, afirma que o bispo é antidemocrático e que deve ser louco por jejuar em prol de um rio e de um povo ribeirinho e sertanejo. Afinal, o que é um rio e alguns ribeirinhos frente ao grandioso projeto da transposição e das obras de infra-estrutura apresentadas como o “milagre” que há de nos redimir da pobreza e nos impulsionar para cima nos indicadores de desenvolvimento?


     


    Dentre as lições diárias de descaso e omissão que temos acompanhado no governo Lula, talvez a flexibilização do sentido de democracia seja agora a mais evidente. Democracia, palavra que se escuta ecoando em muitas vozes neste país torna alguns “muito mais iguais” que outros. Os banqueiros, iguais em lucratividade; os empresários do grande capital, iguais em rendimentos e privilégios; as pessoas comuns, iguais em desassistência, em insegurança e na miséria crescente que nos assemelha, cada vez mais, aos restos indesejáveis que só servem como empecilhos, penduricalhos, seres humanos considerados descartáveis e desnecessários.


     


    Na alardeada democracia em que vivemos, o gesto abnegado de Dom Cappio poderia falar ao povo brasileiro de muitas maneiras. Por isso é preciso calar-lhe a voz!  A primeira resposta dada pelo presidente Lula ao jejum e oração de Dom Cappio foi a de chamar os donos das redes de televisão e dizer que não deveriam divulgar esta manifestação. Ou seja, o bispo não teria audiência nos telejornais. Do governo não receberia nada além da reprovação e, se as coisas piorassem, o Exército brasileiro estaria de prontidão, como de fato já está. Esse bispo, engajado em movimentos em favor da vida, capaz de um grande sacrifício feito por amor, é descrito nas palavras do ministro da Integração Nacional, como “o inimigo número um da democracia”.


     


    De fato Dom Luiz Cappio, com seu jejum e oração, desmascarou o modelo de democracia que o atual governo cultua e promove. A tal democracia tem por fundamento assegurar a “ordem” para que os setores da macroeconomia se sobreponham aos interesses e direitos dos mais pobres, no caso a população ribeirinha, que para viver depende do Rio São Francisco.  Dom Luiz pede tão somente ao governo mais diálogo, reflexão e debate sobre quais projetos são viáveis e importantes para a população e, no que tange a revitalização do rio São Francisco, a garantia de uma melhor distribuição e utilização das suas águas.


     


    Para o presidente da República a luta silenciosa do bispo compromete a “boa imagem” do seu governo e a biografia do ex-operário e militante. Mais do que isso, a atitude comprometida e capaz de entregar a própria vida põe em evidência as contradições e os verdadeiros interesses que impulsionam o projeto de transposição. O gesto de Dom Cappio é recebido com desprezo pelo presidente que reafirma a sua opção de governar para os grandes investidores e para manter as estruturas dominantes na política e na economia. E, aos pobres e excluídos, oferece ações e serviços sociais de cunho assistencialista, medidas que nada mais são do que paliativos frente a uma realidade cada vez mais desigual e injusta. No contexto desta opção, o presidente operário repele o ato de fé e coragem do bispo Dom Cappio, recusando-se ao diálogo. Ao mesmo tempo determina que forças militares se instalem nas estradas e nos canteiros das obras da transposição. Com isso, pretende evitar as ações dos movimentos sociais, dos quilombolas e dos povos indígenas contrários ao projeto. 


     


    Dom Cappio está sendo imolado no altar do capitalismo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e esta será a grande marca impressa sobre as águas do rio São Francisco. As águas do “Velho Chico” também evidenciarão que para este governo a vida vale pouco, ou quase nada, quando estão em jogo os ideais de “desenvolvimento”, de governabilidade, de credibilidade diante de capitalistas da agroindústria, da exploração do aço e dos criadores de camarão. Ou seja, daqueles que, de muitas maneiras, realmente contam nas políticas oficiais.


     


    A corajosa atitude de Dom Cappio representa, na atual conjuntura, as lutas também silenciadas pela mídia dos milhares de brasileiros que sonham um mundo de justiça e igualdade. Representa aqueles que sofrem a violência cotidiana da fome, da miséria, da falta de garantias sociais, do desemprego, efeitos de um modelo de governo que optou pelo poder do mercado. A coragem de Dom Cappio representa as pessoas agredidas violentamente, encarceradas injustamente, assassinadas por levantarem a voz para denunciar ou reivindicar direitos assegurados nas muitas leis dessa dita democracia. Seu gesto fala das centenas de vidas que se perdem nos abismos da indiferença. É preciso indagar sobre essa tal democracia, essa alardeada liberdade de expressão, tão cara a intelectuais, a artistas, a políticos. Quem está realmente livre para expressar suas opiniões? Quais dessas livres formas de pensar têm a possibilidade de se fazer ouvir?


     


    Dom Cappio, na sua infinita coragem de entrega da própria vida por amor ao próximo, por justiça e solidariedade, enfrenta a opressão do Estado e a ditadura da mídia. O bispo do povo do São Francisco está sendo imolado diante da intransigência do governo, da ganância dos exploradores e do silêncio dos grandes meios de comunicação e da maioria dos brasileiros. Mas o gesto de Dom Cappio tem servido também para unir os movimentos sociais, as igrejas, os intelectuais, os artistas, enfim, as pessoas de boa vontade, no Brasil, na América Latina, no mundo todo, demonstrando que a luta contra o projeto de morte da transposição não é apenas de um indivíduo, é do povo, é de todos nós.


     


    Porto Alegre (RS), 15 de dezembro de 2007.


     


    Roberto Antonio Liebgott


    Vice-Presidente do Cimi


     

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  • 14/12/2007

    Frei Luiz recebe bispos e carta da nunciatura apostólica

    Sobradinho – Há quase vinte dias sem se alimentar, o bispo Luiz Flávio Cappio hoje (14) foi despertado com uma alvorada organizada pelos movimentos populares e outras pessoas que mantém acampamento ao redor da Capela São Francisco, Sobradinho (BA). Dom Luiz um pouco mais combalido se mantém alerta e preocupado com os rumos legais sobre o projeto de transposição.


     


    Ao raiar do dia o frei foi recebido por pessoas ligadas ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Cáritas, Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e moradores locais. Eles cantaram músicas, recitaram poesias e ouviram explanações do Dom Luiz sobre JoãoBatista, “o maior dos profetas e o primeiro apóstolo”.


     


    Ainda pela manhã o bispo recebeu as visitas dos bispos de Propriá (SE). Dom Mário Rizzi, e de Irecê (BA), Dom Itamar Viana. Recebeu também uma carta do Núncio Apostólico, segundo o frei, solidária e preocupada com o prolongado jejum. Ele disse que está animado com o apoio da igreja.


     


    Para a tarde está prevista a visita do senador José Neri (PSOL-PA) e a noite haverá a missa, celebrada todos os dias as 19h, desde 27 de novembro, quando o frei iniciou o jejum.


     


    Contatos:


    Em Sobradinho


    Ruben Siqueira – Comissão Pastoral da Terra: (71) 92086548


    Alzení Thomaz – Conselho Pastoral dos Pescadores (75) 9136102


    Maria Oberhofer – IRPAA: (74) 91156977



     

    Comunicação

    Clarice Maia – Articulação São Francisco Vivo: (71) 92369841


    Cristiane Passos – CPT: (62) 81112890


    Marcy Picanço – CIMI: (61) 21061650/ 99797050


    Todos os arquivos referente ao jejum podem ser encontrados no site: www.umavidapelavida.com.br

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  • 14/12/2007

    Presidente Lula e Dom Cappio, na Roda Viva da História


    Dom Luiz Flávio Cappio iniciou, há 17 dias, uma greve de fome pelo rio São Francisco, contra a transposição desse imenso rio, em favor das comunidades que vivem no seu curso, ribeirinhos, pescadores, quilombolas, indígenas, em favor daqueles que sofrem com a sede no nordeste, em favor da natureza do semi-árido.


     


    Dom Cappio exige um debate nacional sobre um projeto que só privilegia o hidronegócio, o agronegócio e as grandes empreiteiras e propõe como alternativa à transposição um projeto também do governo Lula, gestado na (ANA) Agência Nacional de Águas, um projeto que respeita e valoriza o meio ambiente e que levaria água a quem tem sede, não negócio.


     


    O presidente Lula não realizou o debate prometido, cuja promessa encerrou a primeira greve de fome, e endureceu com Dom Cappio, afirmando que as obras com o Exército vão continuar, irreversíveis. Ou seja, para Lula, a morte de Dom Cappio é uma alternativa possível e aceitável.


     


    No entanto, ao redor do gesto radical do bispo, está se formando uma corrente de solidariedade, de apoios, de alianças, de identificação ética, política, social, ideológica, cujos contornos são facilmente identificáveis: trata-se dos movimentos sociais, políticos, pelos direitos humanos, pastorais sociais, personalidades da Igreja Católica, da política, da cultura, que constituíram, desde os anos 80, Lula como liderança de massa em nosso país. Este universo social, político e cultural, de pessoas e movimentos sociais tiveram, ao longo de mais de duas décadas, uma relação com Lula que foi como a da vela com a sua chama: uma nutrindo-se da outra.


     


    A luta e a perspectiva de vida ou de morte de Dom Cappio coloca esta antiga história numa encruzilhada: se Dom Cappio sobreviver, haverá continuidade, mesmo que mais conflitiva, devido ao lugar institucional há cinco anos ocupado por Lula; se Dom Cappio vier a falecer, será o final dessa história.


     


    Não será Dom Cappio apenas que morrerá, mas morrerá a referência política de Lula e do Partido dos Trabalhadores na história dos movimentos sociais do Brasil.


     


    Vivemos, tempos atrás, o final da ditadura, sua desconstituição simbólica a partir dos movimentos sociais e sindicais, onde despontou o próprio sindicalista Lula como protagonista central; vivemos o final da Nova República como alternativa civil, com a contestação popular; vivemos a derrocada do aventureiro Collor e seu grupo com os movimentos sociais na rua, vestidos de preto; vivemos o fim do ciclo neoliberal tucano de Fernando Henrique Cardoso, com o repúdio nas urnas. Todos terminaram percebendo “um desprezo singular nos olhos do homem simples”, como o protagonista central da peça Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda.


     


    O percurso histórico de Lula lembra o percurso do próprio rio São Francisco: muitas fontes limpas no nascedouro, depois um trajeto acidentado, muitos entulhos, assoreamento e alianças contraditórias pelo caminho; a sedução do grande capital no seu curso final; o definhamento, como rio e como história política, sem chegar ao oceano da memória afetiva do povo brasileiro. A história da liderança popular de Lula será a história de um fracasso.


     


    A morte física de Dom Cappio sinalizará para a morte política de Lula.


      


    Paulo Maldos


    Assessor político do Cimi


     

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