• 06/02/2009

    Igreja celebra amanhã centenário de nascimento de dom Helder Câmara

    A Igreja Católica no Brasil celebra amanhã, dia 7, o centenário de nascimento de dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, falecido em agosto de 1999.


    Diversos eventos marcam a data, comemorada também no exterior. No Brasil, as comemorações são organizadas pelo Regional Nordeste 2 da CNBB (Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Pernambuco), pela Universidade Católica de Pernambuco, pela arquidiocese de Olinda e Recife, Instituto Dom Helder Câmara, Governo do Estado e prefeitura do Recife.


    O presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha, presidirá amanhã uma missa solene em Recife, às 16h, em frente à Igreja das Fronteiras. Após a missa, não Pátio das Fronteiras, será inaugurada uma escultura de dom Helder. Ainda no dia 7, às 6h, 12h e 18h, as igrejas de Olinda e Recife tocarão os hinos, em homenagem a dom Helder, conhecido também como “Profeta da Paz”.


    Ainda em homenagem ao centenário de dom Helder, os Correios lançarão amanhã, em Fortaleza (CE), cidade de nascimento do bispo, e em Recife, um selo comemorativo, com a imagem do arcebispo soltando uma pomba branca, símbolo da paz. Em Recife, o lançamento será às 15h, no terraço lateral da Igreja das Fronteiras, sede do Instituto Dom Helder Câmara. Já em Fortaleza, às 19h, na paróquia de Santo Afonso, Parquelândia. De acordo com os Correios, a tiragem é de 1.020.000 unidades.


    Por sua atuação e reconhecimento internacional, dom Helder também receberá homenagens organizadas pela Adveniat, na Alemanha; pela Associação Dom Helder – Memória e Atualidade, na França e pelo clero local do Canadá.


     


    Histórico


    Natural de Fortaleza, dom Helder Câmara nasceu em 7 de fevereiro de 1909. Foi ordenado bispo, aos 43 anos de idade, no dia 20 de abril de 1952, pelas mãos de dom Jaime Cardeal de Barros Câmara, dom Rosalvo Costa Rego e dom Jorge Marcos de Oliveira, e nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro no dia 3 de março de 1952.


    Dom Helder foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1952. Foi secretário-geral da instituição de 1952 a 1964. Depois, exerceu diversas outras responsabilidades na Conferência.


    Em  12 de março de 1964 foi designado para ser arcebispo de Olinda e Recife (PE).  Dom Helder ficou conhecido no mundo por suas pregações em favor de uma Igreja simples voltada para os pobres e a não-violência. Denunciou a prática de tortura no Brasil no período da ditadura, opondo-se de forma contundente contra o regime militar.


    O arcebispo foi membro de 33 instituições internacionais. Recebeu 14 prêmios de paz, sendo o único brasileiro indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz.


    Dom Helder Câmara faleceu no dia 27 de agosto de 1999, em sua casa, nos fundos da Igreja das Fronteiras, na Boa Vista, Recife, às 22h20, vítima de insuficiência respiratória aguda, decorrente de pneumonia.


     


    Serviços:


    Assessoria de Imprensa do Regional Nordeste 2 – Valdemir França


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    Telefones: (81) 3421-6075 / 9992-9659.


     

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  • 06/02/2009

    Povo Paresi. O passado e o presente de quem vive isolado, em uma terra

    Um grupo étnico, com sua cultura e organização social própria. Assim,
    a professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal
    do Mato Grosso (UFMT), Maria Fátima Roberto Machado, define o povo
    Paresi, em entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas
    Unisinos – IHU. No entanto, ele representa muito mais, não somente
    para o estado do Mato Grosso, pela sua origem e história, mas, também,
    para toda a sociedade, sinalizando a necessidade de mais respeito
    entre os povos indígenas.

    De acordo com a professora, foi com a ajuda dos Parecis, que Marechal
    Rondon construiu as linhas telegráficas e estratégicas, que seguiam do
    Mato Grosso até o Amazonas, há mais de um século. É por isso, que
    Maria Fátima afirma que essa experiência dos Paresi com as linhas
    telegráficas é uma das páginas mais extraordinárias da história do
    Brasil e que permanece mergulhada no esquecimento. “Nossa dívida com
    eles é imensa. Eles nos ensinam muito sobre nós mesmos, são a prova
    cabal das piores intenções dos imoti, os não-índios, ou seja, nós, da
    falta de maturidade intelectual e moral da nossa sociedade, que se
    pretende “civilizada”.

    Maria de Fátima Roberto Machado possui graduação pela Universidade
    Estadual de Campinas, mestrado em Antropologia Social pela
    Universidade Estadual de Campinas, doutorado em Antropologia Social
    pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutorado pela
    Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é professora
    adjunta da Universidade Federal de Mato Grosso.

    Confira a entrevista:

    IHU On-Line – O que caracteriza o povo Paresi? Quais seus principais
    valores?

    Maria Fátima Machado – Os Paresi constituem o que denominamos em
    antropologia de grupo étnico, com sua cultura e organização social
    própria. Eles são habitantes imemoriais de uma imensa região no
    divisor das águas do Amazonas e do Paraguai, nas cabeceiras dos seus
    mais longínquos tributários, na extensa chapada que, desde o início do
    século XVIII, os colonos e exploradores identificaram com o seu nome:
    a Chapada dos Parecis. Eles se autodenominam Haliti (“nós”, “nosso
    povo”), têm uma língua própria (classificada como Aruak) e sua
    organização social tradicional baseia-se na constituição de grupos
    endogâmicos auto-suficientes em termos políticos e econômicos,
    distribuídos pelo território orientados pelo seu mito de origem,
    quando o herói ancestral Wazáre liderou o seu povo e lhes destinou a
    moradia nas cabeceiras do imenso chapadão. Assim, surgiram os grupos
    haliti, dentre eles os Waimare, os Kaxiniti e os Kozarini, com seus
    territórios próprios, dentro do território maior, governados por suas
    lideranças locais, organizados de acordo com a orientação mitológica,
    através de laços de solidariedade entre irmãos.

    IHU On-Line – Qual a importância das antigas estações telegráficas em
    Mato Grosso para os índios Paresi?

    Maria Fátima Machado – Quando o Marechal Rondon deu início à
    construção das Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso ao
    Amazonas, em 1907, encontrou os Paresi vivendo de acordo com sua
    cultura tradicional e, através de propostas de amizade e proteção,
    contou com o apoio desses índios na instalação das estações,
    geralmente nos terrenos das suas próprias aldeias. O trajeto das
    linhas, de sul a noroeste, em direção à atual Rondônia, cortou o
    território tradicional de dois grupos haliti: dos Waimare e Kaxiniti,
    que se tornaram a mão-de-obra das estações. Esse era o propósito de
    Rondon, que abriu uma escola para eles, primeiramente na antiga
    estação de Ponte de Pedra e, depois, em Utiariti. Vários se tornaram
    telegrafistas, estudando no Rio de Janeiro e na antiga estação de
    Vilhena (quando a Comissão Rondon já havia sido extinta e os
    funcionários não-índios já haviam abandonado os trabalhos), além de
    serem responsáveis pelos trabalhos de conservação das linhas, como
    guarda-fios.

    IHU On-Line – Qual a principal herança deixada pelo Marechal Rondon
    aos índios Paresi?

    Maria Fátima Machado – Essa experiência dos Paresi com as linhas
    telegráficas é uma das páginas mais extraordinárias da história do
    Brasil e que permanece mergulhada no esquecimento, trazendo muitas
    tristezas e desgraças para eles, principalmente no que se refere à sua
    relação com a terra, com o seu território mítico, alvo do saque e da
    depredação que significaram as políticas de expansão das fronteiras
    econômicas do país, principalmente, desde a década de 1950. Nossa
    dívida com eles é imensa. Eles nos ensinam muito sobre nós mesmos, são
    a prova cabal das piores intenções dos imoti, os não-índios, ou seja,
    nós, da falta de maturidade intelectual e moral da nossa sociedade,
    que se pretende “civilizada”. Um povo que reagiu de uma maneira tão
    pacífica ao contato conosco, que colaborou com os planos mais caros do
    Marechal Rondon (inspirando a sua postura humanitária em defesa dos
    índios, com a qual ele se tornou conhecido mundialmente), que
    possibilitou uma obra grandiosa de proteção das fronteiras externas do
    nosso país, merecendo os maiores reconhecimentos, as maiores
    homenagens de nossa parte, viu-se na condição de indigência,
    humilhado, implorando das “autoridades” uma migalha de terra, como é o
    caso do grupo Kaxiniti que sobreviveu na antiga estação Parecis.

    IHU On-Line – Como a Estação Parecis tem reagido ao assassinato da
    índia Valmireide Zoromará? Qual a sua opinião sobre o ocorrido?

    Maria Fátima Machado – É importante esclarecer que o grupo ao qual ela
    pertencia é de origem Kaxiniti, havendo hoje poucos sobreviventes. A
    maioria da população Paresi existente, cerca de 1.200 índios, é
    Kozarini e isso não é por acaso. Quando o Marechal Rondon chegou as
    suas terras, os Waimare e Kaxiniti já conheciam a triste realidade das
    epidemias (gripe, varíola, febre amarela), que assolaram as aldeias
    desde o final do século XIX, levadas pelos seringueiros de origem
    nordestina, que fugiam das secas e exploravam a borracha nas matas dos
    rios Arinos e do Sangue. Há depoimentos chocantes, de filhos e netos
    dos índios que trabalharam nas linhas, lembrando de 30, 40 mortes por
    dia, o que significa que eram aldeias inteiras, pois elas nunca foram
    muito grandes, tendo no máximo 50, 60 habitantes, devido às condições
    de subsistência no Chapadão.

    Um recuo às origens

    Como são tradicionalmente grupos endogâmicos, os Kaxiniti e Waimare,
    que hoje também reivindicam uma terra na antiga Estação de Ponte de
    Pedra, ficaram fora dos casamentos preferenciais dos Kozarini. O grupo
    do avô de Valmireide, João Zoromará, viu os seus descendentes se
    casarem com imoti, principalmente os trabalhadores pobres das fazendas
    de soja da região, inclusive peões dos invasores do terreno da própria
    estação Parecis, onde eles sempre habitaram e de onde nunca saíram,
    pois ali era uma parcela mínima do antigo território mítico dos
    Kaxiniti. Quando a FUNAI demarcou a terra atual dos Paresi (Terra
    Indígena Paresi e Terra Indígena Utiariti), a terra da Estação Parecis
    ficou fora, mas os Kaxiniti lá permaneceram, porque era ali o seu
    lugar.

    Em 1973, João Zoromará, convidado para ir a Brasília para uma
    solenidade de homenagem ao Marechal Rondon, pediu pessoalmente ao
    ex-presidente Emílio Garrastazu Médici a legalização dos 3.600
    hectares da antiga Estação, que era o terreno demarcado por Rondon,
    cujos marcos foram todos arrancados pelos invasores, recebendo dele um
    compromisso verbal, que jamais se concretizou. Hoje, embora os grupos
    Paresi vivam situações muito diferenciadas, decorrentes das diferenças
    históricas de contato, eles ainda preservam um sentimento coletivo de
    pertencimento a um mesmo povo, o que se comprova com os atos de
    solidariedade dos Kozárini das aldeias mais distantes.

    Assassinato

    Em 1993, o acirramento dos conflitos na Estação resultou no apoio de
    centenas de Haliti, que para lá se deslocaram e fizeram 14 reféns,
    mantendo-os reclusos nas ruínas da Estação, inclusive o invasor
    Sebastião de Assis, cujo empregado confessou ter assassinado
    Valmireide. Não tenho informações sobre a repercussão do assassinato
    entre seus parentes, pois já não os vejo há uns dois anos, mas podemos
    concluir que o assassinato de Valmireide é mais um desfecho triste de
    uma longa história decorrente de equívocos, omissões do poder público
    e do desprezo pelos índios e por seus direitos constitucionais.

    IHU On-Line – Como podemos entender tamanha violência contra os
    índios? Qual a raiz desses atos?

    Maria Fátima Machado – Em Mato Grosso, a ignorância alimenta o
    preconceito, que alimenta a omissão, que alimenta o saque, que
    alimenta o lucro econômico e político, cada vez mais concentrado nas
    mãos de poucos. É um inacreditável círculo vicioso, sem fim. Ajudaria
    muito se os índios pudessem romper com o bloqueio, se pudessem falar,
    se eles tivessem espaços de manifestação, de representação. A
    Superintendência de Assuntos Indígenas, criada pelo ex-governador
    Dante de Oliveira para ser um ambiente de (difícil) interlocução,
    representa, hoje, explicitamente os interesses empresariais,
    instalados no governo do Estado, aos quais os índios só podem dizer
    “amém”. É um retrocesso, uma usurpação inaceitável.

    IHU On-Line – Quais os maiores impasses que envolvem a demarcação de
    terras indígenas no Brasil hoje? Em que medida o caso de Raposa Serra
    do Sol poder servir de exemplo nesse sentido?

    Maria Fátima Machado – Todos nós sabemos o quanto a demarcação
    contínua de Raposa Serra do Sol é paradigmática, tanto para os que
    torcem contra quanto para os que torcem a favor. Mas nós temos uma
    Constituição e o esperável é que ninguém, mas ninguém mesmo, se
    esqueça disso.

    IHU On-Line – Como a senhora avalia o desempenho da FUNAI e do governo
    federal em relação aos povos indígenas?

    Maria Fátima Machado – Seria muito fácil jogar pedras na FUNAI, afinal
    ela merece todos os hematomas. Um dos esportes preferidos dos inimigos
    dos índios em Mato Grosso é bater na FUNAI, embora isso seja, no
    mínimo, uma ingratidão, e a história está aí para provar isso. Há
    indigenistas e indigenistas, como há políticos e políticos,
    missionários e missionários, antropólogos e antropólogos e, por que
    não dizer, índios e índios. Hoje, podemos até encontrar um ou outro
    índio participando de festas de fazendeiros, fingindo representar o
    seu povo, entoando alegre uma cantilena encomendada, criticando a
    revisão das terras (dos outros), para a alegria dos convivas. Às
    vezes, o preço dessa encenação pode ficar bem caro.

    Falta preparo

    Ajudaria um pouco se os indigenistas da FUNAI fossem mais bem
    preparados em assuntos que são absolutamente básicos na sua profissão.
    Por exemplo, é comum ver técnicos com preconceito em relação aos
    índios que não se enquadram nos estereótipos de índios, nos clichês
    que eles insistem em manter em suas mentes, apesar do confronto
    cotidiano com a realidade. Os Paresi da Estação Parecis são vítimas
    desse equívoco e acontece a despeito da antropologia já ter discutido,
    à exaustão, que “o índio” não é uma unidade cultural, como pensam
    ainda hoje os equivocados e apaixonados pelo tema da “aculturação
    indígena”, já superados há mais de meio século.

    Ruptura cultural

    Ser índio é uma identidade legal, acionada para a obtenção do
    reconhecimento dos seus direitos específicos, diferenciados, diante do
    Estado. Se os Paresi da Estação já não falam mais a língua do seu
    povo, é porque sofreram constrangimentos que os levaram a perder esse
    traço da sua cultura, o que não significa que deixem de se reconhecer,
    e serem reconhecidos, como Haliti, o que ficou demonstrado nos atos de
    solidariedade dos Kozarini, em 1993. No lugar de criticar a FUNAI,
    prefiro lembrar que tramita no Congresso Nacional, a passos de
    tartaruga, o novo Estatuto das Sociedades Indígenas, que deve avançar
    no respeito aos índios e seus direitos, em favor do qual nós devemos
    lutar.

    IHU On-Line – Em suas pesquisas, o que mais lhe marcou como
    pesquisadora e como pessoa no contato com os índios? Gostaria de
    dividir conosco alguma história?

    Maria Fátima Machado – Penso já ter respondido a essa pergunta,
    tentando expressar minha posição em relação aos Paresi e todo o seu
    sofrimento, do pouco que testemunhei ao longo das minhas pesquisas,
    desde 1985, quando eu os conheci. Mas tenho esperança, esperança que
    eles encontrem, assim como todos os índios, os melhores caminhos para
    se defender e crescer como povos, que é o que eles merecem,
    partilhando os benefícios de uma sociedade brasileira cada vez mais
    democrática, verdadeiramente democrática, falando por eles mesmos.
    Eles me ajudaram a amadurecer como pessoa, mesmo nos momentos em que
    brigavam comigo, nos momentos em que divergimos, os quais não foram
    poucos. Eles formam uma sociedade rica, complexa, cuja visão de mundo
    tem muito a nos ensinar.

    IHU On-Line – Como podemos entender os casos de suicídio entre os
    índios de Mato Grosso, que têm aumentado, principalmente entre os
    jovens? A falta de terra pode ser uma explicação?

    Maria Fátima Machado – Talvez você se refira especificamente aos
    índios Guarani de Mato Grosso do Sul, embora não sejam os únicos nessa
    situação extrema. Eu só posso dizer que ninguém se mata por prazer,
    não é mesmo? Isso já deveria ser suficiente para que a população
    não-indígena de Mato Grosso do Sul se envergonhasse do mal que causa
    aos índios Guarani, encurralados em parcelas ínfimas de seu antigo
    território, tão sagrado quanto o território mítico dos Haliti.

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  • 06/02/2009

    Assassinato de Ye’kuana aconteceu no “último trabalho”

    Luis Vicente não atendeu aos apelos das lideranças de Waikás e acabou morto a tiros por se recusar a guiar um grupo de garimpeiros para o coração da Terra Yanomami. O relato é baseado em depoimentos dos lideres Ye’kuana: Reinaldo Wadeyuna, Martin, Albertino Gimenes, Henrique Aleuta Gimenes e Xavier Francisco Ximenes.


     


    Luiz Vicente Carton trabalhava para os garimpeiros desde 1990. Guiava homens e máquinas, favorecendo a entrada de garimpeiros na terra Yanomami. Seus filhos Ronaldo e Ronildo trabalhavam com ele. Moravam numa maloca nas proximidades do porto da “Boca do Arame”, que fica fora dos limites da terra Yanomami, no final da vicinal 6, no interior do Assentamento Paredão, próximo da “Ilha do Maracá” (RR). Ajudaram na construção da estrada vicinal que facilitou o acesso dos garimpeiros até o porto.


     


    Mas Luiz queria parar de trabalhar com os garimpeiros e voltar a morar na comunidade de Waikás, dentro da terra Yanomami. Tinha recentemente ido para lá, conversado com as lideranças locais e iniciado a construção de uma casa para morar com sua família.


     


    Porém Ronaldo, seu filho mais velho, o chamou de volta para fazerem um “trabalho” para um novo “empresário do garimpo”. O tuxaua de Waikás, Eduardo Carlos da Silva, disse para Luiz não voltar para a Boca do Arame. Luiz não atendeu ao aviso do tuxaua e aceitou fazer um “último trabalho”. Os lideres Ye’kuana disseram a ele para não levar mais garimpeiros para perto das áreas ocupadas pelos Ye’kuana.


     


    Luiz voltou para a Boca do Arame, encontrou um grupo de cinco garimpeiros liderados por um tal de “Daniel”, equipados com motores grandes, mas com pouco combustível. Ele foi para Boa Vista encontrar com seu filho Ronaldo e comprar mais combustível.


     


    Enquanto isso os garimpeiros transportaram seus equipamentos para perto do “Posto Uraricoera”, dentro da terra Yanomami, pois pretendiam entrar para além da grande cachoeira do Tucano, em direção da comunidade de Waikás. Luiz retornou com o combustível para a Boca do Arame e foi ao encontro dos garimpeiros. Chegando lá comunicou a eles que deveriam trabalhar ali mesmo, pois não poderiam avançar para além do posto.


     


     


    Depoimento de Ronildo Carton, filho de Luiz: baleado, conseguiu escapar:


     


    Os garimpeiros pediram para meu pai deixá-los no garimpo do Uraricoera, negociando em dinheiro. Ele concordou em levá-los até o local. Levaram dez dias para chegar até na região Uraricoera. Chegando no Uraricoera ele disse para eles: “Daqui vai ser mais três mil reais, em dinheiro”. Assim começou a discussão entre eles. Meu pai se negou a fazer o transporte. Ele disse para eles: “Agora aqui vocês vão trabalhar, porque daqui não posso levar vocês”. O desejo dos garimpeiros era chegar a Mucuim, um local onde já garimparam antigamente, que fica acima da comunidade Waikás.


     


    Continuou a discussão. “Acelerado”, um dos garimpeiros, disse para ele: “se eu tivesse sozinho eu já teria matado você agora mesmo”. No final da tarde queríamos visitar a comunidade Uraricoera e o posto da FUNAI, mas “Acelerado” segurou a corda da canoa, dizendo para não irmos. Não teve acordo entre eles. Na manhã seguinte decidiram voltar, dormiram uma noite. Chegaram ao Porto do Arame. Os garimpeiros ficaram no porto principal e nós fomos para um acampamento perto da nossa maloca que fica a 30 minutos de motor do Porto do Arame. Nessa hora meu pai, Luiz Vicente, pediu 50 litros de gasolina para voltar. “Acelerado” negou.


     


    Na manhã seguinte eu e meu pai estávamos conversando, perguntando se está bem de saúde. Era 06:00 horas da manhã. Nessa hora ouvimos o barulho do motor. Levantamos da rede e vimos três garimpeiros chegando. Chegaram dizendo: “Bom dia”! Em seguida eles obrigaram eu e meu pai a sentar no chão. Meu pai não queria. Pediu para eles ficarem calmos, mas não adiantou. Deram o tiro na testa dele. Em seguida, atiraram em mim também. Fui acertado com um tiro da mesma espingarda, só que no ombro. Os tiros foram disparados por “Acelerado” a mando de Daniel.


     


    Depois do tiroteio, o corpo do meu pai foi colocado na nossa canoa e lá me colocaram também. Fingi que estava morto.Os garimpeiros disseram: “vamos jogar os corpos dentro da água com pé de pomba amarrado neles”.  Fomos colocados dentro de uma canoa. Quando eu estava dentro da canoa os garimpeiros estavam passando por cima. Eu estava embrulhado em minha rede, por isso os garimpeiros não perceberam minha respiração. Seguiram ao rumo Cachoeira do Tucano, pelo rio Uraricoera.


     


    Chegando perto da Cachoeira do Tucano, como o rio é de difícil acesso, os garimpeiros não conhecem, tinham dificuldade de passar. Decidiram ir no barco menor, que era deles, deixando a gente na nossa canoa grande. Levantei e vi que eles estavam indo. Fiquei mais ou menos 3 minutos em pé. Vi um galão com beiju dentro. Me joguei dentro da água, atravessei três ilhas grandes, nadando. Como já sabia que ia morrer não tive medo. Quando estava na última ilha ouvi o barulho dos dois motores. Vi que estava sendo perseguido. De novo cai dentro da água. Me escondi na mata após sair do rio. Mas não cheguei a ver eles, só ouvi o barulho do motor. Quando eu estava no meio do caminho, numa montanha, consegui ver que os garimpeiros estavam voltando.


     


    Fui até a minha casa para pegar a minha lanterna. Passei pelo local onde atiraram em mim e no meu pai e vi que eles tinham lavado o nosso sangue do chão. Peguei a canoa que estava guardada, consegui colocar dentro da água. Desci o rio e enfrentei mais três cachoeiras. Cheguei na boca do rio Arame, subi um pouco, lá escondi a canoa. Depois segui o caminho que chega ao porto principal. Naquela hora ouvi a conversa dos três garimpeiros. Peguei o caminho dos Yanomami, que acompanha a estrada. Um caminho que os garimpeiros não conhecem.


     


    Cheguei à primeira fazenda, procurei ajuda de um conhecido. Ele disse que podia me levar de cavalo, mas não ia adiantar porque o meu ombro estava machucado e doía muito.  Sai daquela fazenda seguindo a estrada e cheguei na segunda fazenda. O morador ficou assustado, viu que eu estava sofrendo. Ele queria me socorrer, mas não tinha gasolina. Então fui na terceira fazenda, o dono me socorreu. Ele tinha moto e combustível. Ele me levou até na Vila do Paredão, de lá ele chamou a ambulância de Alto Alegre que me levou até Boa Vista.


     


     


     


    Mauricio Tomé Rocha


    Coordenador da Terra e Ambiente da Hutukara Associação Yanomami

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  • 06/02/2009

    Pistoleiros ateiam fogo em assentamento e matam trabalhador no Pará

    No dia 1º de fevereiro, por volta das seis horas da manhã, um grupo de sete pistoleiros invadiu o Assentamento Alcobaça, no município de Breu Branco, Pará, e, fortemente armado, disparou contra os trabalhadores assentados, principalmente contra Manoel Francisco Silva Souza, o “Chico Dente de Ouro”. Manoel foi atingido na cabeça e apesar da tentativa de seus companheiros em querer salvá-lo, carregando-o em uma rede, acabou não resistindo e faleceu. Os pistoleiros após constatarem que Manoel Francisco estava morto obrigaram uma criança a abrir a boca dele e tirar a sua prótese dentária com dente de ouro, alegando que seria para levar e mostrar aos seus patrões a confirmação de que realmente o “Chico Dente de Ouro” estava morto. Além disso, os capangas jogaram gasolina em pelo menos dez casas e atearam fogo queimando tudo, inclusive documentos pessoais de seus residentes. As cinquenta e oito famílias foram forçadas pelos pistoleiros a abandonarem o local com a ameaça de nunca mais retornarem. Todas estas famílias estão na cidade de Breu Branco sem ter onde ficar, algumas somente com a roupa do corpo, que foi o que sobrou do fogo.


     


    Apesar de o trabalhador assassinado ter todos os documentos (CPF, Título de Eleitor e a Polícia ter, através de seu sistema, identificado o número de seu RG) ele foi sepultado com outro nome (nome de Cícero) e como indigente sob a alegação de que não possuía documentos. Os possíveis mandantes deste ato violento são os fazendeiros Vandeir e Gildásio, ambos residentes no município de Breu Branco.


     


    Outras lideranças continuam sendo ameaçadas de morte, entre elas o senhor Domingos, pois segundo testemunhas, um pistoleiro já foi contratado por R$ 12.000,00 (doze mil) reais para matá-lo.


     


    Histórico


    No ano de 1998 o INCRA criou o Projeto de Assentamento Alcobaça e como a área não comportava todas as famílias, foi feita complementação do mesmo com partes das duas áreas onde hoje estão os dois fazendeiros. Estas duas áreas na época pertenciam a outros proprietários, que por não concordarem com a desapropriação feita, as venderam, mesmo após as famílias terem sido assentadas pelo INCRA. Os últimos compradores foram Gildásio e Vandeir que começaram a ameaçar os assentados.


     


    Depois de várias ameaças feitas pelos pistoleiros, as 58 famílias assentadas abandonaram seus lotes. Entretanto, a partir do dia 20 de janeiro, elas começaram a se articular para retornar à área. Marcaram, inclusive, uma reunião com o INCRA para o dia 30 de janeiro, na Câmara Municipal de Breu Branco. O INCRA não compareceu e nem apresentou qualquer justificativa. As famílias decidiram então retornar para os lotes por conta própria. Ao retornaram os pistoleiros entraram em ação, matando Chico Dente de Ouro e expulsando as 58 famílias.


     


    Espera-se que os culpados paguem pelos crimes cometidos e que o INCRA, que já desmarcou uma reunião que seria realizada hoje, 6 de fevereiro, com os assentados do Alcobaça, cumpra o seu papel sob pena de estar sendo o grande incentivador deste tipo de violência, ou no mínimo, cúmplice desta prática.


     


     


    Equipe CPT Tucuruí – Pará.


     


    Maiores informações:


    CPT Tucuruí – (94) 3787-2588

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  • 06/02/2009

    Pistoleiros ateiam fogo em assentamento e matam trabalhador no Pará

    No dia 1º de fevereiro, por volta das seis horas da manhã, um grupo de sete pistoleiros invadiu o Assentamento Alcobaça, no município de Breu Branco, Pará, e, fortemente armado, disparou contra os trabalhadores assentados, principalmente contra Manoel Francisco Silva Souza, o “Chico Dente de Ouro”. Manoel foi atingido na cabeça e apesar da tentativa de seus companheiros em querer salvá-lo, carregando-o em uma rede, acabou não resistindo e faleceu. Os pistoleiros após constatarem que Manoel Francisco estava morto obrigaram uma criança a abrir a boca dele e tirar a sua prótese dentária com dente de ouro, alegando que seria para levar e mostrar aos seus patrões a confirmação de que realmente o “Chico Dente de Ouro” estava morto. Além disso, os capangas jogaram gasolina em pelo menos dez casas e atearam fogo queimando tudo, inclusive documentos pessoais de seus residentes. As cinquenta e oito famílias foram forçadas pelos pistoleiros a abandonarem o local com a ameaça de nunca mais retornarem. Todas estas famílias estão na cidade de Breu Branco sem ter onde ficar, algumas somente com a roupa do corpo, que foi o que sobrou do fogo.


     


    Apesar de o trabalhador assassinado ter todos os documentos (CPF, Título de Eleitor e a Polícia ter, através de seu sistema, identificado o número de seu RG) ele foi sepultado com outro nome (nome de Cícero) e como indigente sob a alegação de que não possuía documentos. Os possíveis mandantes deste ato violento são os fazendeiros Vandeir e Gildásio, ambos residentes no município de Breu Branco.


     


    Outras lideranças continuam sendo ameaçadas de morte, entre elas o senhor Domingos, pois segundo testemunhas, um pistoleiro já foi contratado por R$ 12.000,00 (doze mil) reais para matá-lo.


     


    Histórico


    No ano de 1998 o INCRA criou o Projeto de Assentamento Alcobaça e como a área não comportava todas as famílias, foi feita complementação do mesmo com partes das duas áreas onde hoje estão os dois fazendeiros. Estas duas áreas na época pertenciam a outros proprietários, que por não concordarem com a desapropriação feita, as venderam, mesmo após as famílias terem sido assentadas pelo INCRA. Os últimos compradores foram Gildásio e Vandeir que começaram a ameaçar os assentados.


     


    Depois de várias ameaças feitas pelos pistoleiros, as 58 famílias assentadas abandonaram seus lotes. Entretanto, a partir do dia 20 de janeiro, elas começaram a se articular para retornar à área. Marcaram, inclusive, uma reunião com o INCRA para o dia 30 de janeiro, na Câmara Municipal de Breu Branco. O INCRA não compareceu e nem apresentou qualquer justificativa. As famílias decidiram então retornar para os lotes por conta própria. Ao retornaram os pistoleiros entraram em ação, matando Chico Dente de Ouro e expulsando as 58 famílias.


     


    Espera-se que os culpados paguem pelos crimes cometidos e que o INCRA, que já desmarcou uma reunião que seria realizada hoje, 6 de fevereiro, com os assentados do Alcobaça, cumpra o seu papel sob pena de estar sendo o grande incentivador deste tipo de violência, ou no mínimo, cúmplice desta prática.


     


     


    Equipe CPT Tucuruí – Pará.


     


    Maiores informações:


    CPT Tucuruí – (94) 3787-2588

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  • 06/02/2009

    Cimi debate projetos governamentais que ameaçam indígenas

    Obras do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, do Governo Federal, podem acelerar o desaparecimento de povos indígenas isolados da Amazônia. Em meados de 2008, o antropólogo Gunter Kroemer, do Conselho Indigenista Missionário – Cimi-, alertava para a ameaça sobre povos isolados da região afetada pelas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no estado de Rondônia.
    No Sul do Amazonas, de acordo com o antropólogo, há povos igualmente ameaçados, tanto por projetos governamentais como empresariais. No Pará, os indígenas do Xingu há mais de vinte anos lutam para impedir a construção da hidrelétrica de Belo Monte (antes chamada de Kararaô), e denunciam que um grande número de aldeias corre o risco de desaparecer com a inundação do lago da hidrelétrica.
    Estes e outros assuntos estão na pauta XXIX Assembléia Regional do Cimi Norte I (AM/RR), que se realizará de 0-9 a 13 de fevereiro no Centro de Formação Xare, localizado no Km 22 da rodovia BR-174 (Ramal dos Padres, entrando pelo Colégio Agrícola Rainha dos Apóstolos). A assembléia tem como tema “Grandes Projetos na Amazônia e Política Indigenista”.
    “A reflexão sobre esses temas ajudará os missionários a melhor qualificar sua ação junto aos povos, comunidades e organizações indígenas com os quais trabalhamos”, explica Edina Pitarelli, membro da coordenação regional da entidade. “Precisamos conhecer os impactos que tais projetos podem causar, quantos, quais e onde os indígenas estão mais vulneráveis. Conhecendo bem a realidade poderemos  apoiar de forma mais eficaz a luta dos povos indígenas na defesa e garantia dos seus direitos”, diz a coordenadora do Cimi Norte I. 
    Além do debate em torno das conjunturas regional, nacional e eclesial, os missionários do Cimi Norte | discutirão também as formas de apoio aos indígenas da terra Raposa Serra do Sol, em Roraima. Ali, vários segmentos da população se mobilizam enquanto não está concluído o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal – STF, de ação impetrada por políticos locais contra a demarcação da terra. O STF iniciou o julgamento em dezembro último e ainda não marcou data para encerramento. “Essa é uma questão muito delicada para os indígenas de Roraima e de todo o Brasil. Vamos discutir a melhor maneira de apoiar os povos daquela região que aguardam com muita expectativa a conclusão do julgamento pelo STF”, anuncia a coordenadora do Cimi.

     

    Contatos:
    Centro de Formação Xare – (92) 9151-8752
    Edina Pitarelli, Haroldo Pinto, Hidenori Mochiizawa – Coordenadores
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  • 05/02/2009

    Informe n. 852: III Encontro Continental Guarani destaca falta de terra para os indígenas do sul do Brasil


    A falta de terra para os Guarani que vivem nos estados do sul do Brasil é a principal questão debatida no III Encontro Continental Guarani, que acontece entre 5 e 7 de fevereiro, em São Gabriel, Rio Grande do Sul. Cerca de 150 guarani participam do evento, que relembra o massacre do líder Guarani Sepé Tiaraju, ocorrido há 252 anos.


     


    Lideranças indígenas do Rio Grande do Sul, de Santa Cataria e do Paraná estão presentes ao encontro. Os Guarani da região irão debater os principais problemas que os afetam, com destaque para a questão territorial. “Várias famílias estão morando na beira da estrada por falta de terra, com risco das pessoas serem atropeladas”, alerta a liderança Maurício Guarani, da terra Estiva, em Viamão, Rio Grande do Sul.


     


    A partir do Encontro, os indígenas pretendem pressionar a Fundação Nacional do Índio (Funai) para que novos Grupos de Trabalho (GTs) de identificação de terra sejam criados. Nos últimos meses, os povos conquistaram a criação de um GT para identificar três terras no Rio Grande do Sul. Amanhã (6), à tarde, representantes da Funai, Ministério Público Federal e Fundação Nacional de Saúde (Funasa) ouvirão as demandas indígenas.


     


    Os participantes do Encontro também pretendem organizar, ainda em 2009, uma reunião com os Guarani da Argentina e Paraguai para intensificar a articulação continental do povo, iniciada em 2006 no I Encontro Continental Guarani.


     


    Memória de Sepé


    No dia 7 de fevereiro, os pajés celebrarão a memória de Sepé Tiaraju. Ele liderou os Guarani na resistência dos Sete Povos das Missões contra o tratado de limites, celebrado entre Espanha e Portugal, que expulsaria os indígenas para o outro lado do rio Uruguai. Ele foi morto em 1756 no local conhecido hoje como Sanga da Bica, localizado dentro da cidade de São Gabriel. Três dias depois, mais de 1,5 mil Guarani foram dizimados pelos exércitos invasores, no local conhecido hoje como Coxilha do Caiboaté.


     


    “Esse é um momento importante para refletir sobre nossa história, nossa luta, nosso povo” explica Maurício. Segundo a liderança, desde o primeiro Encontro Continental, em 2006, já houve importantes avanços como a criação da Comissão de Terras Guarani e o aumento do diálogo com Funai sobre as terras do povo.


     


    Brasília, 5 de fevereiro de 2009


    Cimi – Conselho Indigenista Missionário

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  • 05/02/2009

    Adão Pretto: trovador do futuro

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), irmanado com as demais entidades da Via Campesina e com militantes sociais de todo o país, lamenta profundamente a perda, na manhã de hoje, 5 de fevereiro, do companheiro Adão Pretto, deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul e um dos fundadores do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).


    Nascido na cidade de Coronel Bicaco (RS), em 1945, criado em Miraguaí (RS), Adão Pretto participou das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Comissão Pastoral da Terra (CPT), foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miraguaí e fundador da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no estado. Em 1991 foi eleito deputado federal pela primeira vez e, atualmente, exercia seu quinto mandato consecutivo. Adão Pretto deixou esposa e nove filhos – e uma infinidade de companheiras e companheiros, de amigas e amigos.


    Em 2008 presidiu a Comissão de Legislação Participativa (CLP), da Câmara dos Deputados, onde abriu espaço para a participação, naquela Casa, dos movimentos sociais do campo, povos indígenas, quilombolas, mulheres e muitos outros setores, recebendo denúncias sobre a criminalização dos movimentos e lideranças, debatendo seus problemas, escutando suas demandas e encaminhando suas propostas para uma sociedade verdadeiramente plural, justa e democrática.


    Adão Pretto foi um exemplo de integridade e coerência. Quando ele falava, só se podia escutar e concordar, pois expressava sempre a verdade concreta vivida pelo povo do campo. E ele falava com os olhos brilhando, com a serena certeza de que era apenas porta-voz de algo muito maior: a dura história, a vida cotidiana, os sofrimentos e esperanças de todo um povo. Adão era trabalhador, honesto, combativo e construtor do futuro como os camponeses. Alimentava as bases populares com suas idéias e projetos e estas o alimentavam com seu reconhecimento e seu terno afeto.


    E Adão era poeta, fazia e declamava trovas, nas grandes assembléias e marchas camponesas, que demoliam o latifúndio, explicavam pedagogicamente as injustiças e anunciavam um mundo melhor, feito a partir das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras, um mundo justo, um mundo pleno, um mundo sem amos.


    Adão Pretto sonhava alto, com os pés sempre na terra. Fecundava a terra com sonhos de justiça e alimentava os sonhos com os frutos da terra libertada, que ajudava conquistar.


    Adão Pretto se foi e agora ficou para sempre, a nos dar força nas lutas atuais e nas que virão; a nos ensinar com poesia e exemplo; a nos inspirar com coragem e ousadia; a nos mostrar o caminho rumo a um país melhor, que ele construia a cada dia, de maneira calma e generosa, cuia de chimarrão nas mãos e olhos postos no futuro.


    Adão Pretto hoje já faz trovas no céu.


    Conselho Indigenista Missionário – Cimi


    Brasília, 5 de fevereiro de 2009. 

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  • 05/02/2009

    Manifesto sobre a saúde indígena

    Os representantes dos Povos Indígenas de Roraima – Makuxi, Yanomami, Wapichana, Taurepang, Ingarikó, Yekuana e Wai-Wai, juntamente com seus aliados presentes ao Fórum Social Mundial realizado em Belém do Pará na Amazônia Brasileira, vêm manifestar sua preocupação quanto à grave situação da assistência à saúde das comunidades indígenas em nosso estado e em todo o país.


    A falta de investimentos adequados na estrutura física e de equipamentos para os postos de saúde, transportes e comunicação, a insuficiência dos medicamentos básicos e materiais médicos, e os atrasos constantes no repasse dos recursos para os convênios e para as atividades dos distritos, demonstram a enorme incapacidade da FUNASA na gestão da saúde indígena, afetando seriamente a organização dos serviços e provocando o aumento de doenças e mortes em nossa população.


    O agravamento desta situação nos últimos anos levou a uma insatisfação generalizada entre as lideranças e comunidades indígenas, que se reflete em todos os distritos sanitários indígenas do país, exigindo mudanças profundas que eliminem a má vontade, burocracia, autoritarismo, e as ingerências políticas que entravam a luta dos povos indígenas e de seus aliados na construção de uma saúde digna e participativa para as suas comunidades.


    A mobilização indígena a partir das manifestações do movimento do Abril Indígena de 2008, do Fórum de Presidentes de Conselhos Distritais de Saúde e da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), levou o governo federal a anunciar a criação de uma Secretaria Especial de Saúde Indígena, que será o órgão responsável pela realização das reformas no subsistema e pela autonomia administrativa dos Distritos Sanitários Indígenas em todo o país.


                A continuidade dos convênios firmados com a FUNASA para a execução de ações complementares de atenção à saúde indígena no formato atual é inviável, provocando graves distorções nos seus objetivos iniciais e gerando um grande ônus político e institucional para todas as organizações envolvidas. 


                A transição para este novo modelo de gestão da Saúde Indígena no país deve acontecer com a maior urgência possível, com o envolvimento efetivo dos representantes legítimos dos povos indígenas e de seus verdadeiros aliados, visando o enfrentamento imediato dos graves problemas que estão afligindo nossas comunidades. Com este objetivo apresentamos as seguintes propostas:



    1. O Ministério da Saúde deve transformar imediatamente os Distritos Sanitários Especiais Indígenas em unidades gestoras, com autonomia política, administrativa e financeira, e repasse dos recursos diretamente pelo governo federal, mediante a apresentação de planos de trabalho aprovados nos Conselhos Distritais de Saúde.
    2. Propomos a realização de uma reunião prévia ao Seminário Regional de Gestão Participativa proposto pelo Ministério da Saúde, reunindo os Distritos Sanitários Yanomami e do Leste de Roraima, devido à grande extensão geográfica e populacional e à complexidade da nossa realidade, a ser realizada na segunda quinzena de fevereiro na cidade de Boa Vista. 
    3. Os recursos destinados à saúde indígena devem estar previstos nos tetos orçamentários de cada Distrito Sanitário Especial Indígena, de acordo com o Plano Distrital de Saúde e conforme as respectivas realidades, estabelecidos em um processo transparente e com a participação efetiva de todas as instâncias de controle social envolvidas.
    4. A mudança do atual modelo de gestão pelo governo federal deve levar em conta a situação dos convênios durante o período de transição, assegurando a regularidade no repasse dos recursos financeiros, evitando os entraves burocráticos e a desinformação dos órgãos de controle que ameaçam a continuidade das ações e provocam a paralisação das atividades de saúde nas aldeias.
    5. A política de parcerias para o desenvolvimento de ações na saúde indígena em caráter complementar como previsto na Lei Arouca deve contemplar preferencialmente as organizações indígenas ou outras organizações governamentais e não governamentais que tenham experiência comprovada no trabalho com os povos indígenas, mediante a aprovação dos Conselhos Distritais de Saúde.
    6. Os coordenadores ou chefes dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas devem ser aprovados pelos respectivos Conselhos Distritais de Saúde, e devem atuar sempre em consonância com as deliberações das instâncias de controle social.
    7. Os Agentes Indígenas de Saúde devem ser reconhecidos como a base principal do modelo assistencial nos distritos, tendo asseguradas sua capacitação técnica e regularização profissional como determina a legislação brasileira, priorizando ainda a formação de recursos humanos indígenas nas áreas técnicas e no ensino superior.
    8. A próxima Conferência Nacional de Saúde Indígena prevista para o ano de 2010 deve ser realizada em Brasília, que é o centro das decisões políticas do país, sendo antecedida por etapas locais e distritais onde sejam garantidas a ampla participação e a livre manifestação das comunidades indígenas e de suas organizações.

                A Constituição Federal Brasileira, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas da Organização das Nações Unidas (ONU) reconhecem o direito dos povos indígenas participarem ativamente na implementação de todas as políticas que lhes digam respeito.


     


                A garantia dos direitos indígenas à preservação de suas terras e recursos naturais é fundamental para a sua saúde, pois é delas que provém seu alimento, remédio, bem estar e a alegria de viver, e a demarcação dos territórios tradicionais indígenas é condição indispensável para a reprodução física e cultural de suas comunidades.   


     


     


    Belém do Pará, 26 de janeiro de 2009.


     


    Assinam:


     


    Conselho Indígena de Roraima – CIR


    Hutukara Associação Yanomami – HAY


    Conselho do Povo Indígena Ingarikó – COPING


    Associação dos Povos Indígenas de Roraima – APIRR


    Associação dos Povos Indígenas da Terra São Marcos – APITSM


    Organização das Mulheres Indígenas de Roraima – OMIR


    Organização dos Professores Indígenas de Roraima – OPIRR


    Associação Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami – SECOYA


    Diocese de Roraima


     

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  • 05/02/2009

    Delegação indígena em viagem de volta do Fórum Social Mundial

    A delegação indígena que partiu de barco de Manaus no dia 20/01, saiu de Belém (PA) no dia 01/02, ao término do FSM e está passando por Santarém, devendo chegar a Manaus no sábado dia 07/02/09. As lideranças indígenas, junto com a expectativa de poderem chegar em breve às suas aldeias, levam na bagagem a experiência de luta dos outros povos indígenas do Brasil, da América Latina e do mundo e dos setores populares expressadas no FSM. Vão com a esperança de que sua mensagem sobre a necessidade de cuidado com a Terra Mãe e o Grito “Salve a Amazônia” seja escutado, antes que as conseqüências da devastação e da exploração capitalista sejam irreversíveis.


     


    Para muitas lideranças foi a primeira vez que participaram do FSM. Destacam a importância de sua participação nesse espaço e se comprometem em repassar a experiência vivida nas suas aldeias.


     


    Durante a viagem as lideranças tem tido a oportunidade de se manifestar sobre como avaliam o FSM e sua participação.


     


    “Estamos quase no final de uma longa batalha, cansativa, mas muito importante. Focalizamos as questões mais amplas, não só as especificas de cada povo. Não queremos daqui a alguns anos ter que reflorestar a Amazônia. Queremos manter as nossas matas”, destaca Francisco Kokama.


     


    Para o líder Ye`kuana Esteban José, da Venezuela, “os povos indígenas do Brasil foram protagonistas no FSM. Estamos lutando pela autodeterminação e pela autonomia. Os líderes falaram forte para o ministro da Justiça. Vou relatar essa experiência na Universidade Indígena da Venezuela. Apesar da longa viagem gostei muito, sinto-me um de vocês”.


     


    Questões importantes para os povos indígenas da região como a confirmação, sem condicionantes, da demarcação da terra Raposa Serra do Sol pelo STF e a grave crise de saúde no Vale do Javari, onde 80% dos índios estão com hepatite, ganharam espaço no FSM.


     


    Foi destacada ainda a relevância da campanha “Povos Indígenas na Amazônia: presente e futuro da humanidade”, lançada no FSM”, para que a experiência indígena milenar possa ser conhecida e inspirar a mudança do atual modelo de desenvolvimento.


     


    Santarém (PA), 04 de fevereiro de 2009.


     


    Coordenação da Organizações Indígenas da Amazônia brasileira – COIAB


    Conselho Indigenista Missionário – CIMI


     


    Adeus Belém, vamos à luta!


     


    As pinturas desbotadas


    Nos corpos cansados,


    Adornos guardados


    São o retrato fiel


    Após os dias passados


     No Fórum em Belém,


    Rumando às aldeias


    Felizes e dispostos


    De ir mais além


    Na construção do novo mundo!


     


    Na bagagem roupa suja


    E belas lembranças


    Do encontro com o mundo,


    Em cada rosto estampado


    A satisfação de ter sido


    Protagonista num


    Evento mundial.


     


    Agora é a vez da aldeia,


    Da luta mais firme


    E decidida no dia a dia


    Na defesa da vida,


    Da Amazônia, dos


    Direitos de cada povo,


    Do sonho de um mundo plural


    Com os  indígenas


    Irmanados a todos os excluídos


    E condenados da terra.


     


    Seguimos rio acima,


    Deixando e levando saudade,


    Nas águas nem sempre mansas,


    Dos rios e dos olhos,


    Engravidados de futuro,


    E esperança


     


    Santarém (PA), 4 de fevereiro de 2009.


     


    Egon


     

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