• 13/02/2009

    Comunidades afetadas pela cadeia do alumínio protestam

    Durante o Fórum, membros de comunidades impactadas por empreendimentos ligados à produção do alumínio expuseram os quadros de dificuldades que vêm enfrentando e exigiram providências da iniciativa privada e do poder público


    Por Maurício Hashizume


    Alumínio
    Na semana em que a capital Belém recebia o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, centenas de moradores de comunidades da região do Juruti Velho ocuparam a rodovia estadual PA-192 que liga a cidade de Juruti (PA) ao canteiro de obras montado pela multinacional Alcoa para o megaprojeto de extração de bauxita, matéria-prima do alumínio.


    A ação direta buscou chamar atenção para os impactos socioambientais e para a dificuldade de acerto de compensações com a empresa. O projeto de exploração da maior produtora de alumínio do mundo em três platôs (Capiranga, Mauari e Guaraná) e inclui, além dos aparatos nas minas e nas unidades de beneficiamento, a construção de uma ferrovia de mais de 50 km e de um porto próximo à cidade para o escoamento do produto. Segundo a Associação Comunitária da Região do Juruti Velho (Acorjuve), 27 comunidades tradicionais já reconhecidas oficialmente vivem na área.


    Representantes das comunidades citam reflexos problemáticos (confira nota assinada pelo Movimento Juruti em Ação e pela Via Campesina Pará) como: alterações no Lago Grande de Juruti Velho que dificultam a pesca e a navegação; a diminuição das coletas de frutos (castanhas, andirobas, bacabas, etc.) por causa do corte de árvores nativas (que estão sendo enterradas); e risco de acidentes na ferrovia que corta projetos de assentamento.


    Outra reclamação aguda dos moradores diz respeito aos problemas decorrentes da migração induzida pelo empreendimento. Com a chegada de novos moradores, conflitos pela terra e por outros recursos se acirraram na área desprovida de estrutura. Da população por volta de 40 mil habitantes, cerca de cinco mil estão envolvidos nas obras da Alcoa.


    Análise de Raimundo Cruz Neto, do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp), revela que a extensão total da área de influência do projeto soma 656 mil hectares – 173 mil hectares de áreas de influência direta e 483 mil hectares de áreas de influência indireta. Nas áreas de influência direta vivem 15 mil pessoas em 55 comunidades nas beiras de igarapés e lagos. Só em Juruti Velho (ou Vila Muirapinima), que já foi sede do município, são dois mil habitantes, ancestrais dos povos indígenas Mundurucus e Muirapinimas. Também incluído na área de influência direta, o Projeto Agroextrativista (PAE) Juruti Velho, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), engloba nove mil moradores de 40 comunidades.


    A reserva de bauxita de alta qualidade de Juruti possui cerca de 700 milhões de toneladas métricas. A produção inicial calculada pela Aloca chega a 2,6 milhões de toneladas métricas por ano. A conclusão da primeira fase de construção, que deve consumir US$ 1,8 milhão, está prevista para este ano. Por causa da crise, a sede da Alcoa nos EUA anunciou que deve demitir 13,5 mil funcionários (13% de seu quadro em todo o mundo) e extinguir 1,7 mil postos temporários. Contudo, os investimentos previstos para o Brasil (US$ 750 milhões), que contam com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), não foram alterados. Pelo menos por enquanto, a empresa promete manter os seus 6,2 mil empregados em território nacional.


    Protocolada em 2005 pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPE-PA) e pelo Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA), uma ação civil pública pede a anulação das licenças ambientais do projeto concedidas pela Secretaria do Meio Ambiente (Sema) do Pará sob a justificativa de que o processo apresentava lacunas graves.


    Em 2007, sete representantes do MPE e do MPF chegaram a emitir uma recomendação à Sema para que as licenças concedidas à Omnia Minérios, subsidiária da Alcoa, fossem canceladas diante do risco iminente de conflito da região. O documento com 20 pontos críticos clamava para que o governo estadual impedisse a continuidade do projeto de extração de bauxita em Juruti – cassando as licenças prévias e de instalação concedidas em agosto de 2005, com anuência do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Coema) -, antes que impactos e compensações desconsiderados inicialmente fossem devidamente incluídos num novo EIA/Rima. À época, foram veiculadas inclusive denúncias sobre casos de contaminação da água por dejetos que poderiam ter conexão com um surto de hepatite viral em Juruti. A paralela e complexa disputa fundiária, que envolve uma ferrenho embate na Justiça, foi retratada ainda em 2007 por matéria do jornal Valor Econômico.


    O recente protesto dos moradores de Juruti e Juruti Velho foi definido por representantes de organizações locais presentes no Fórum Social Mundial como “retomada”, sob o argumento de que a empresa mineradora é que chegou para explorar riquezas naturais num território já ocupado há séculos por povos tradicionais. A rodovia só foi desobstruída depois de uma reunião que durou horas puxada no último dia 4 de fevereiro por dois secretários estaduais – André Farias (Integração Regional) e Valmir Ortega (Meio Ambiente) -, com representantes do Incra, do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), da prefeitura local, do MPE e do MPF juntamente com o presidente da Alcoa para América Latina e Caribe, Franklin Feder.


    “Pela primeira vez sentaram-se em torno à mesma mesa, juntamente com lideranças das comunidades de Juruti Velho, os representantes dos governos federal, estadual e municipal e a Alcoa. Foi um avanço muito importante, sobretudo por ter sido uma reunião pacífica. E porque todos, Alcoa e representantes dos poderes instituídos, saíram do encontro com suas responsabilidades e prazos estabelecidos para daqui em diante, perante as comunidades”, reconheceu Franklin Feder.


    Como parte do acordo, uma série de reuniões entre as partes para a definição de detalhes foi realizada nesta semana em Santarém (PA). “Devido às complexidades referentes à propriedade fundiária na região”, alega a Alcoa, “as autoridades governamentais devem decidir a quem e de que forma devem ser pagas essas indenizações”. “As grandes tensões sociais pré-existentes, decorrentes das múltiplas e históricas carências sócio-econômicas da região Oeste do Pará, desde o início da implementação do projeto têm levado um grupo de habitantes de Juruti Velho a enxergar na Alcoa a solução imediata dessas carências, exigindo da empresa investimentos e ações que não cabem a uma empresa privada e sim ao poder público”, completa a empresa.


    De acordo com informações das secretarias estaduais envolvidas na negociação, um fórum permanente foi instituído e as reivindicações das comunidades que participaram da manifestação durante o FSM estão sendo atendidas. Faltaria acertar os detalhes de um termo de compromisso assinado pelos envolvidos que possa determinar a forma de pagamento da porcentagem de 1,5% sobre a exploração da lavra do minério, além de estabelecer prazos e metodologia para mensurar perdas e danos pelos anos de atuação da mineradora na região.


    Haverá uma novo esforço de resolução de problemas na área fundiária por parte dos órgãos que têm essa atribuição (Incra e Iterpa) e, segundo a Sema, será feita também uma nova “releitura” dos impactos do projeto sobre a vida dos moradores de Juruti e Juruti Velho. Nesse tocante, devem ser negociados planos de controle ambiental e o pagamento pelo uso da água, além da preservação do Lago Grande de Juruti Velho, fonte de captação da água para a lavagem da bauxita e fundamental para a garantia do sustento das comunidades. Também está em discussão a viabilidade de uma unidade da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-PA) no PAE Juruti Velho.


    Em função dos problemas que novamente afloraram durante o Fórum Social Mundial, a Repórter Brasil encaminhou um conjunto de questões à Alcoa, que se pronunciou por meio de sua assessoria de imprensa. A empresa negou que haja poluição dos mananciais que afetam, por exemplo, o Rio Juruti, o Lago Jará e o Igarapé do Fifi. Conforme a Alcoa, medidas de conservação de solo e proteção dos cursos d´água (como a proteção de nascentes com barreiras físicas e a aplicação de uma manta de fibras naturais e biodegradáveis que serve para proteção do solo contra erosão) estão sendo aplicadas na mina de bauxita. A assessoria adiciona ainda que o processo de tratamento do esgoto sanitário da área do empreendimento é biológico: plantas aquáticas (macrófitas) ajudam a promover a remoção da matéria orgânica e reduzir organismos patogênicos residuais.


    Segundo a assessoria, a companhia obteve autorização para desmatar 1,2 mil hectares na implantação do projeto. No entanto, 800 hectares foram efetivamente desmatados, isto é, 400 hectares de vegetação teriam sido poupados. A multinacional norte-americana sustenta que as mudas de castanheiras encontradas na área da mina de Juruti são resgatadas e reintroduzidas em ecossistema similar e que, para cada castanheira cortada, 20 novas mudas são plantadas.


    A empresa afirma ainda que os moradores de áreas onde ocorreram prospecção, pesquisa e retirada da vegetação, foram indenizados. O valor pago aos proprietários de lotes da área do porto da Alcoa foi de R$ 4,025 por metro quadrado. Além do valor calculado da área, as benfeitorias foram recompensadas com pagamento adicional. No percurso da ferrovia, o cálculo da área foi realizado em hectares. A assessoria confirma que o valor pago foi de R$ 2.400,00 por hectare, o que equivale a R$ 0,24 por metro quadrado. Segundo a Alcoa, os valores pagos estão acima da média de avaliação oficial e do mercado e que as negociações foram “100% amigáveis”.


    Entretanto, Raimundo Cruz, da Cepasp, conta que, das 420 famílias do Assentamento Socó I, apenas as 43 mais diretamente atingidas foram ressarcidas e que, durante a negociação, alguns chegaram a pedir que a empresa pagasse pelo menos R$ 3,00 por metro quadrado.

    Moradores do Assentamento Socó I, adiciona a mineradora, contam ainda com a Matriz de Compensação Coletiva (MCC), que engloba 33 ações nas áreas de infraestrutura, meio ambiente, economia, educação e lazer benefícios oferecidos em compensação à implantação do projeto em Juruti. Além disso, afirma, comunidades locais participam dos Planos de Controle Ambientais (PCAs), que inclui a criação de peixes em tanques-rede e a capacitação para a produção agrícola familiar e a implantação de sistemas agroflorestais (SAFs). Há ainda um programa de valorização e revitalização do patrimônio cultural, com foco no artesanato, e o Programa de Desenvolvimento Comunitário Solidário de Juruti (Pajiroba), que atende cerca de 100 famílias.


    A Alcoa declara ainda que alocou R$ 50 milhões na “Agenda Positiva”, em parceria com a Prefeitura de Juruti, para a melhoria da qualidade de vida da população local por meio do fortalecimento de políticas públicas. Fazem parte da agenda a conclusão de alojamentos para policiais, a reforma da delegacia e até a construção do Fórum e das residências oficiais para o juiz, o promotor e o defensor público. Um trabalho específico de sensibilização e diagnóstico para dar subsídios a um plano de segurança pública, tocado pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), teve início em outubro.


    Também foi articulado o Conselho Juruti Sustentável (Conjus). Junto com um sistema de indicadores de desenvolvimento sobre a região mantido pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGVces) e um fundo financeiro (ainda não implementado), as três ações formam um tripé para buscar melhorias mais a longo prazo. A satisfação das comunidades em torno das ações pode ser comprovada, de acordo com a companhia, em pesquisa do Ibope: quase 90% da população têm uma atitude positiva para com o empreendimento da Alcoa.


    Na avaliação do promotor Raimundo Moraes, do MPE, que acompanha o caso de Juruti, a Alcoa agiu com “afoiteza”, gerando “fricção com a sociedade”. Para ele, como a amplitude dos impactos não é geralmente contemplada em todo o seu alcance desde o licenciamento, grandes projetos como o de Juruti acabam impulsionando mais demandas que as previstas inicialmente. O número de atingidos supera as expectativas e a exigência por políticas públicas também aumenta na mesma proporção. Essa “diferença” dos “projetos que não pagam a conta que geram” acaba “sobrando” para o poder público, que invariavelmente não dispõe de capacidade para enfrentar os problemas.


    A cadeia do alumínio se estende por diversas regiões da Amazônia. Indígenas de Oriximiná (PA) marcaram presença com mobilizações no FSM de Belém. Outro foco de impactos se encontra na área de Barcarena (PA), onde diversas grandes empresas como a Vale (Alubras e Alunorte) mantém usinas que recebem a bauxita. Durante o FSM, a situação crítica das comunidades de Barcarena também foi objeto de debates. As denúncias se repetem: aumento da população e das tensões provocadas pelo inchaço e pela marginalização, impactos socioambientais e respostas insuficientes.


    Professor e liderança comunitária, Walmir Bastos destaca os problemas de contaminação diante da inexistência de um sistema adequado de saneamento básico. Os moradores da comunidade Boa Vista lamentam a poluição do Rio Mucurupi, infectado por dejetos. Eles dizem que viviam do camarão pescado e não podem mais tomar banho. Declaram ainda que são ameaçados constantemente por despejos e pistoleiros; reivindicam ainda os títulos das terras em que vivem há mais de 90 anos,


    Na berlinda, a Companhia de Desenvolvimento de Barcarena (Codebar), criada em 1984 para executar e administrar as obras e serviços necessários para atender a população ligada ao complexo portuário-industrial, ligada ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), está em processo de liquidação.


    Paulo Alberto Freire, liquidante da Codebar, admite que o objetivo histórico do órgão não foi cumprido. A companhia está, na definição dele, “emparedada” entre a ineficácia das políticas públicas e as reivindicações populares. A Codebar tenta leiloar áreas em Barcarena, mas ações do MPF na Justiça contestam a venda e exigem que os direitos das comunidades tradicionais sejam cumpridos. Paulo defende os leilões para o que a cidade seja “consumada”, ou seja, regularizada o mais rápido possível. “Ou aquilo se organiza, ou se consolidará como uma das maiores favelas da Amazônia”.


    Durante o FSM, o Instituto Observatório Social (IOS) lançou estudo sobre a relação das quatro maiores empresas do setor de alumínio no Brasil (incluindo projetos em Barcarena e Juruti) com os respectivos sindicatos de trabalhadores. A pesquisa aborda práticas das empresas em assuntos relacionados aos direitos e princípios fundamentais no trabalho. Para a pesquisadora do IOS e coordenadora do estudo, Maria Lúcia Wilmar, os impactos sociais são fortes (em especial, a enorme expansão da população nas cidades e na pressão na infra-estrutura urbana) na instalação das empresas do alumínio, mas nos últimos anos “a sociedade está muito mais mobilizada e organizada para reivindicar das empresas medidas que atendam à comunidade e os trabalhadores”.


    João Duberley Tavares, do Sindicato dos Químicos de Barcarena, salienta que o balanço retratado pela pesquisa do IOS ainda é muito desigual. “As empresas levam o alumínio para fora, e nós ficamos com os problemas ambientais e de saúde. Os problemas ficam para nós, sindicatos e governos, e as principais vítimas dessa produção são os trabalhadores. E esse é um desafio permanente para os sindicatos, que devem se preocupar com a saúde e a segurança de seus trabalhadores”, analisa.


    Para além das fábricas, Barcarena assistiu a acidentes ambientais de grandes proporções nos últimos anos. O desalento pela contaminação, contudo, viabilizou algumas ações inovadoras. Por conta do rompimento de uma bacia de caulim, o MPE-PA firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a empresa Imerys que prevê que parte dos recursos da multa do vazamento seja utilizada para a capacitação dos representantes de movimentos sociais de Barcarena. Dessa forma, um programa de formação de dois anos está sendo desenvolvido para que os próprios grupos locais consolidem um fórum para dar mais concretude às suas reivindicações.


    “Não é fácil acompanhar os impactos. Sem a sociedade, esse controle é ineficiente. O Estado sozinho não tem qualidade para acompanhar esse processo, que se dá de forma diluída, no cotidiano da localidade”, comenta Raimundo Moraes. A iniciativa, complementa o promotor, faz parte de uma estratégia para tentar tratar os problemas dos impactos socioambientais de forma mais ampla. Em confronto com a lógica do ressarcimento individual marcada pelo pleito por indenizações individuais, Raimundo defende a capacitação das organizações locais para que os moradores não sejam vítimas de cooptação (política e econômica) e lutem para garantir seus direitos. Um montante de R$ 500 mil ajuda a fortalecer o tecido social de Barcarena.


    O ciclo de produção de alumínio que passa por Barcarena está diretamente ligado às minas de bauxita de outros pontos como Oriximiná e Paragominas. Além disso, a energia elétrica que permite toda essa produção de alumínio em Barcarena e em São Luís (MA), onde a Alcoa (Alumar) mantém uma refinaria, vem da Usina Hidrelétrica (UHE) de Tucuruí, barragem no Rio Tocantins, também no Pará. Trata-se de uma rede que passa por várias regiões e materializa produtos de exportação. “Alumínio é energia cristalizada. É um conglomerado mineral e de recursos naturais”, conclui o promotor.

    Assim como a teia que viabiliza a produção econômica, o representante do MPE-PA defende uma aliança entre as comunidades de base das diferentes regiões da Amazônia que sofrem impactos com projetos de mineração para incidir com mais força no controle social e nas negociações.

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  • 13/02/2009

    Pataxó Hã-Hã-Hãe denunciam crimes de fazendeiro no sul da Bahia

    A comunidade Pataxó Hã-Hã-Hãe da aldeia Caramuru, no município de Pau Brasil, no sul da Bahia, protocolou junto ao Ministério Público Federal em Ilhéus, documento denunciando e solicitando providencias quanto ao um intenso processo de crimes ambientais cometidos pelos fazendeiros Jaime do Amor Divino, Gilberto Alves de Brito, em áreas reivindicadas pelos Pataxó na região de Água Vermelha. Também repassaram o texto para a Fundação Nacional do Índio, Comissão Nacional de Política Indigenista, Comissão nacional de Direitos Humanos e ao Conselho Indigenista Missionário.


     


    Após serem reintegrados nas fazendas, das quais recentemente foram retirados de forma violenta pela Policia Federal, as lideranças indígenas emitiram documento denunciando uma serie de irregularidades, tais como queimas de casas, destruição de plantações, sacrifício de animais, roubo de gados. O povo solicita indenizações das casas, animais,  objetos imobiliários e roças de cacau derrubada pelo fazendeiro Jaime do Amor, além da devolução do gado que se encontra em poder deste fazendeiro.


     


    Os índios fotografaram uma serie destes crimes, derrubada de cacauais, uma grande quantidade de restos mortais de animas que correm risco de extinção, rabos de tatu, presas, patas e cabelos de animais (paca, veados, caititu, etc) até mesmos fetos mantidos em álcool, tudo isto na localidade ocupada pelo invasor Gilberto Alves de Brito.


     


    Os índios denunciam a atuação do IBAMA regional que tem feito vistas grossas a uma serie de denuncias feitas pelas comunidades indígenas e solicitam a presença de agentes de outras regionais que possam ser mais eficientes que os da região.


     


    Os Pataxó Hã-Hã-Hãe também denunciam que a reintegração de posse nas fazendas Serrana do Ouro e Serra Verde não se deu na sua totalidade devido aos jagunços do invasor Jaime do Amor, haverem trocado a placa de identificação da fazenda. Eles solicitam da Justiça a desocupação das fazendas na sua totalidade por parte dos pistoleiros de Jaime do Amor.


     


    Solicitam também o imediato julgamento da Ação de Nulidade de Títulos imobiliários que se encontra no STF há mais de 26 anos, e que teve o inicio do julgamento no passado interropido por um pedido de vistas do Ministro Menezes Direito. 


     


    O documento da comunidade é assinado por todas as lideranças, bem como os anciãos da comunidade e é enriquecido por uma boa quantidade de fotos que confirmam as denuncias dos indígenas.


     


     


    Itabuna, 12 de fevereiro de 2009


    Conselho Indigenista Missionário

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  • 13/02/2009

    Nota de falecimento

    Faleceu no dia de ontem (11/02/2009) a liderança Roque Ferreira dos Santos, filho do cacique Samado Santos. Roque tinha 68 anos e era pai de 06 filhos, e atualmente era vice cacique da aldeia do Panelão, localizada no município de Camacan. O mesmo sofreu um acidente de carro no ano passado no mês de julho e até então se encontrava imobilizado em cima de uma cama, na semana passada sua situação se agravou devido às escaras que feriam suas costas, trazido para o hospital de base em Itabuna no começo da semana, Roque não resistiu e veio a falecer na madrugada do dia 11.


     


    Roque era o filho mais velho de Samado e acompanhou o pai em diversas viagens na luta pela terra, ele foi um dos que nunca saiu da área, mesmo com todo o processo de violência contra o seu povo, juntamente com seu pai, ele sempre resistiu no Panelão. O povo Pataxó Hã-Hã-Hãe perde mais uma das suas lideranças histórica.


     


    12 de fevereiro de 2009


    Conselho Indigenista Missionário

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  • 13/02/2009

    Organizações indígenas denunciam perseguições a jornalistas

    Organizações Indígenas da Colômbia denunciaram mais uma vez a ocorrência de atentados contra jornalistas e meios alternativos por parte do governo de Álvaro Uribe. A Coordenação Andina de Organizações Indígenas divulgou nota em que pede o fim da criminalização e das ameaças contra a comunicação alternativa, além de um julgamento internacional do presidente colombiano.

    O documento cita o comunicador da Associação de Cabildos Indígenas do Norte do Cauca (Acin), Gustavo Adolfo Ulcué, que sofreu um atentado contra sua vida no dia 7 de fevereiro, além do diretor do programa jornalístico “Contramão” e correspondente de meios estrangeiros, Hollman Morris, que sofre perseguição do governo.

    De acordo com a Acin esses fatos evidenciam um “contexto de agressão integral aos povos indígenas e de violação ao direito de livre expressão”.

    Em tom de resistência no comunicado, os indígenas afirmam que continuarão na contramão para dar visibilidade à “Colômbia não oficial”, onde vivem os mais de 100 povos indígenas que “apodrecem na selva da indiferença.”

    As informações pertencem à agência de notícias latino-americana Adital.

    De São Paulo, da Radioagência NP, Juliano Domingues.

    10/02/09

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  • 12/02/2009

    Informe nº. 853: Polícia Militar é acusada de agredir jovem Guarani no Rio Grande do Sul

    Informe nº. 853


     



    • Polícia Militar é acusada de agredir jovem Guarani no Rio Grande do Sul
    • Indígenas preparam proposta de Estatuto para os Povos Indígenas

     


     


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    Polícia Militar é acusada de agredir jovem Guarani no Rio Grande do Sul


     


    O Guarani Nelson Duarte, de 15 anos, afirma ter sido espancado por policiais da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, após ser abordado por nenhum motivo aparente, na cidade de Barra do Ribeiro, na noite do dia 9 de fevereiro. A denúncia foi feita à Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul (CDH) e ao Ministério Público Federal, que estão acompanhando o caso.


     


    No momento da agressão, Nelson voltava para sua casa, na aldeia Coxilha da Cruz. Ele afirma que os policiais o pararam, sem nenhum motivo aparente, e começaram a espancá-lo, com chutes pelo corpo. Também teriam amarrado a mão do jovem no volante da viatura. Ao ver a violência, um comerciante foi até o local onde estavam os policiais, que deixaram o indígena e saíram na viatura em rápida velocidade.


     


    No dia seguinte, Nelson, ainda muito assustado, foi atendido num hospital em Porto Alegre, onde os médicos identificaram diversas luxações pelo corpo do rapaz.  A CDH já solicitou audiência com o secretário de segurança do estado para denunciar a ação explícita de preconceito da Brigada, segundo a assessora jurídica Patrícia Couto. Ela informou que a Brigada Militar já abriu sindicância para os fatos.


     


    A liderança Maurício Guarani, que acompanhou Nelson, teme que haja represálias dos policiais da região de Barra do Ribeiro, por conta das denúncias. Em julho de 2008, algumas famílias Guarani também sofreram agressões da Brigada Militar quando foram desalojadas de um acampamento em Eldorado do Sul.


     


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    Indígenas preparam proposta de Estatuto para os Povos Indígenas


     


    De 9 a 13 de fevereiro os integrantes da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) estão reunidos em Alexânia, Goiás, para sistematizar uma proposta para o novo Estatuto dos Povos Indígenas, a partir dos relatórios das 10 oficinas regionais que reuniram cerca de 1000 indígenas em 2008.


     


    Divididos em comissões, os integrantes indígenas e não-indígenas da CNPI redigirão a proposta de texto para os diversos temas regulamentados pelo Estatuto (saúde, educação, assistência social, exploração de recursos hídricos e minerais, terras indígenas…).


     


    Na próxima reunião da CNPI, na segunda quinzena de março, os artigos serão reunidos e, em abril, a proposta do Estatuto será apresentada aos indígenas reunidos no Acampamento Terra Livre, em Brasília.  Após ser aprovada pelo movimento indígena, o texto será encaminhado para o Congresso Nacional.


     


    A tramitação do Estatuto dos Povos Indígenas está parada há 14 anos no Congresso. Algumas determinações do Estatuto em vigor, promulgado em 1976, confrontam-se com direitos já conquistados pelos povos indígenas na Constituição Federal de 1998.


     


    Brasília, 12 de fevereiro de 2009


    Cimi – Conselho Indigenista Missionário

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  • 12/02/2009

    Guarani child dies of malnutrition in Paraná


    On January 19, as a result of grave malnutrition, Jacson Lopes, a child of two years, died.


     


    The community of the Indigenous Area Araguajú is in mourning, because of the death of the little boy. Fifteen days before, the health of Jacson’s got worse. According to the chief of the village, Assunção Benites, they called the state organ for Indigenous Healt (FUNASA) to intervene, but no one from this agency appeared.


     


    Hospitalized


    A doctor from the neighboring village Guarapuava diagnosed Jacson with anemia and malnutrition. He prescribed various medicines, but Jacson´s father did not have the money to buy most them. According to the family and the village chief, the FUNASA personnel disapproved of the doctor’s initiative, as he had no authorization by the entity to attend to the indigenous.


    Jacson was then taken by car to the Municipal secretary of Health of Terra Roxa, where he was hospitalized for three days. When he was released, he returned to the village weaker than when he was interned at the municipal hospital, alleges his father.


     


    Refusing responsibility


    Because of his worsening condition the boy was taken to the hospital in Guaíra and hospitalized for three days. When he returned home, Jacson resisted for four days, always presenting clear symptoms of dehydration (due to dysentery), anemia and responding less and less to stimulus.


    Meanwhile, alerted about the situation, the FUNASA once again refused the responsibility to attend the boy, alleging that the area of Araguajú is not formally recognized as an indigenous area.


    However, already in October 2008, Federal Judge Luiz Carlos Canalli had determined that the FUNASA was responsible for attending the village of Araguajú. Among other provisions a 10-days deadline was given to install potable water in the village. In spite of this, and also after the death of Jacson, the Guarani continue using the polluted water of the Paraná River for drinking and cooking.


     


    Outsourced healthcare


    In Paraná, FUNASA has outsourced the indigenous healthcare to the NGO Reimer. When the Guarani finally appealed directly to the Reimer´s responsible, this manager liberated money to purchase food for Jackson’s family. Unfortunately, this permission arrived too late, because the child died shortly thereafter.


    According to the Guarani community, the NGO had been promising al year long to purchase food for them.


     


    Already on September 26, 2008, in a public hearing organized by the Ministério Publico Federal, chief Assunção had denounced the presence of malnourished children in the village: “We will have to wait for them to die, only then something will be done!”







     


     


    Source: CIMI Sul – Equipe Paraná

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  • 12/02/2009

    Com nova Constituição, Evo anuncia governo boliviano

    A nova Constituição aprovada pelo povo boliviano entrou em vigor no último sábado (7). No domingo (8), foi a vez do presidente Evo Morales anunciar os novos nomes que compõem o governo. Morales ratificou a atual estrutura de seu gabinete e acrescentou dois ministérios: o das Autonomias e o das Culturas. Ela ainda transformou em ministérios, os vice-ministérios da Transparência e Luta contra a Corrupção e da Defesa Legal do Estado.

    O ministro das relações externas David Choquehuanca falou em nome de seus colegas e disse ser um privilégio estar entre os primeiros ministros da primeira Constituição da história da Bolívia aprovada pelo povo. O presidente Morales disse aos nomeados que a nova Constituição requer “primeiro a consciência social do funcionário público, em segundo, o compromisso político-ideológico e, por último, a capacidade de gestão”.

    Dos 411 artigos da nova Carta Magna, apenas 25 são de aplicação imediata, como os relativos aos direitos dos cidadãos. Com exceção do novo regime eleitoral, que deve ser aprovado em 60 dias, ainda são discutidas quais leis serão aprovadas pelo atual Congresso, formado sob a antiga Constituição e que será substituído por uma Assembléia Legislativa Pluricultural, a ser eleita em dezembro deste ano.

    De São Paulo, da Radioagência NP, Vinicius Mansur.

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  • 11/02/2009

    Ação liberta 13 pessoas de fazenda de deputado estadual

    Aliciadas em Codó (MA), elas não podiam deixar fazenda em Coelho Neto (MA) por causa da dívida com o patrão político. Alojamento era precário e não havia água potável. Uma criança estava junto com a mãe, que trabalhava no local


    Por Bianca Pyl

    Durante 36 dias, a casa de 13 pessoas – incluindo duas mulheres, uma delas com seu filho de quatro anos – foi um curral na Fazenda São Domingos, pertencente ao deputado estadual Antônio Bacelar (PDT), membro da Assembléia Legislativa do Maranhão. A propriedade fica no lugarejo de São Domingos, a 8 km do centro de Coelho Neto (MA).

    O grupo submetido à condições análogas à escravidão foi encontrado por fiscais da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Maranhão (SRTE/MA). Para surpresa do auditor fiscal Carlos Henrique, que coordenou a ação, as pessoas literalmente dormiam junto com animais. “Essa foi a pior situação que eu já vi durante todos esses anos de fiscalização”, define o auditor. A fiscalização ocorreu entre 19 e 30 de janeiro.

    Nenhuma adaptação foi feita no curral: as redes para dormir e os pertences das pessoas ficavam espalhados. Sem proteção lateral, os funcionários estavam sujeitos a todo tipo de intempéries. “O vento trazia um cheiro insuportável de fezes dos animais”, relata Carlos. 


    Os funcionários foram aliciados em Codó (MA) por um gato (aliciador de mão-de-obra) para trabalhar no chamado “roço da juquira” (limpeza para formação de pasto). No momento do aliciamento, o gato “adiantou” R$ 100 para as famílias dos trabalhadores. “Os funcionários trabalharam mais de um mês sem receber nada e ainda estavam devendo para o patrão”, conta o auditor. A dívida impedia a saída dos empregados. Mas antes da chegada da fiscalização, sete pessoas preferiram pagar para ter sua liberdade e deixar a fazenda.

    A alimentação era composta de café, arroz, feijão e farinha, preparados dentro do próprio curral, em um fogareiro improvisado. A água vinha de um poço que não tinha tampa e não recebia nenhum tratamento. Para a higiene pessoal, os funcionários contavam apenas com um açude, onde também pescavam para se alimentar, já que normalmente faltava comida. “O gado também utilizava o açude”, adiciona Carlos Henrique. O deputado não assinou a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) dos empregados e nem forneceu equipamentos de proteção individual (EPIs).


    Além dos 13 libertados, ainda havia uma vaqueira, que estava no local há um ano e seis meses. “No caso dela, a carteira de trabalho foi assinada com data retroativa e ela permaneceu no local, pois não morava no alojamento com as outras pessoas”, explica o auditor fiscal. Ao final da fiscalização, o empregador pagou em torno de R$ 1 mil para cada trabalhador e eles receberam as guias para seguro desemprego do trabalhador libertado. Foram lavrados nove autos de infração pelas irregularidades encontradas.

    Outro conflito
    O deputado estadual Antônio Bacelar, que faz parte do mesmo partido do ministro Carlos Lupi (Trabalho e Emprego), também está envolvido no conflito fundiário na Comunidade de Mata Virgem, em Codó (MA). Segundo denúncia da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Maranhão, a Polícia Militar, a pedido do político, entrou nas residências de moradores para realização de busca, causando transtornos, em novembro de 2008. A comunidade de agricultores está estabelecida no local há mais de 30 anos.

    Existem três processos administrativos com a finalidade de desapropriação da área, além de um processo para apurar se o território é ou não quilombola. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) informou que a comunidade convivia pacificamente com o antigo proprietário das terras, Martinho Ximenes Santos, falecido em 2001. A partir de então começaram a surgir os conflitos, inicialmente com seu filho, Luiz Antônio Sousa Barros.

    Há um procedimento administrativo no Incra acerca da desapropriação da área. A Repórter Brasil não conseguiu entrar em contato com o deputado estadual Antonio Bacelar, dono da Fazenda São Domingos.

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  • 11/02/2009

    Área em disputa no sertão é palco de morte de trabalhador rural

    José Campos Braga era um dos 1,8 mil membros das comunidades de “fundo de pasto” de Areia Grande, em Casa Nova (BA). Cobiçado por agentes privados na Justiça, território fica às margens da represa de Sobradinho


    Por Maurício Reimberg


    Sob a mira constante de espingardas, as comunidades tradicionais de “fundo de pasto” de Areia Grande tentam manter uma área de ocupação antiga no sertão da Bahia. Aproximadamente 1,8 mil pessoas vivem em 40 mil hectares no município de Casa Nova (BA), à beira do lago formado pela represa de Sobradinho, no Rio São Francisco. As famílias argumentam que os seus antepassados chegaram ao local em torno de 1860.


    A mais recente vítima desse conflito histórico foi o trabalhador rural José Campos Braga, 56 anos, assassinado em sua casa com dois tiros na nuca. Ele foi encontrado na tarde da última quarta-feira (4) – estava desaparecido desde sexta (30). Nesta terça-feira (10) pela manhã, membros das comunidades da Areia Grande estiveram presentes no enterro. José Campos, conhecido entre os pares como “Zé do Antero”, era pai de 10 filhos.


    Não foi a primeira vez que a disputa pela terra em Areia Grande resultou em violência. Outro momento tenso do conflito agrário se deu em março de 2008, durante o cumprimento de um mandado de imissão de posse. A Polícia Militar, a Polícia Civil e a Polícia da Caatinga, sob supervisão de um oficial de Justiça, tentaram retirar as famílias à força da área em disputa. “Crianças tiveram queimaduras e uma senhora abortou”, relata Emília Teixeira, da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia (AATR-BA), que dá suporte jurídico à comunidade. Segundo ela, houve infiltração de pistoleiros na operação, com o uso de armamentos particulares.


    Na ocasião, diversas casas foram destruídas, inclusive a de José Campos. Após o ocorrido, ele decidiu permanecer no local, vivendo sob uma lona. “Ele disse que só sairia de lá morto, porque nasceu e iria morrer ali. Além de ser uma liderança, encorajava as demais”, lembra Domingos Rocha, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas Agrícolas da Bahia (Sintagro-BA).


    José Campos morava às margens do São Francisco, num local isolado – os vizinhos mais próximos ficavam a 4 km. Segundo os moradores, esses fatores faziam com que a área fosse das mais visadas pelos pistoleiros. A 650 km da capital Salvador, o território de Areia Grande inclui as fazendas de Lages, Baixa do Umbuzeiro, Urucé e Casa Nova. Ao todo, quatro comunidades (Melancia, Jurema, Salina do Brinca e Riacho Grande) convivem na área.


    Revoltada, a população local acusa pistoleiros pela autoria do crime, exige a investigação e punição dos responsáveis e clama pela segurança dos membros da comunidade (confira nota pública). “Na cidade, há uma comoção muito grande. Num primeiro momento tem a indignação, até porque o Estado já sabia o que poderia acontecer. As pessoas não estão entendo que um companheiro foi embora. A revolta nesse momento é importante, mas estamos trabalhando a organização”, pondera Domingos.


    Grilagem
    O conflito agrário na região teve início na década de 1980, com a instalação da Agroindustrial Camaragibe S.A., que produzia etanol a partir da mandioca (assista a um vídeo sobre Areia Grande, que inclusive traz um depoimento de José Carlos Braga). Na época, a empresa adquiriu terras na região mediante a “compra de títulos de posses”. “Eles não usaram as terras. Recorreram a títulos forjados como garantia para fazer empréstimos com o Banco do Brasil”, afirma a advogada Emília Teixeira.


    A Camaragibe, que decretou falência há mais de 20 anos, acumulou dívidas estimadas em R$ 40 milhões com o BB. Além disso, a empresa esteve envolvida no chamado “escândalo da mandioca”, um caso de desvio de dinheiro público da época do Programa Nacional do Álcool (Proalcool). Em 2004, porém, os empresários Alberto Martins Pires Matos e Carlos Nisan Lima e Silva “compraram” a dívida por R$ 639 mil. Eles reivindicam agora a propriedade da terra na Justiça.


    Após os atos de repressão em março do ano passado, foi iniciado um processo de discriminação das terras públicas. A Bahia está pleiteando o território. “Isso resultou em um laudo que chegou a conclusão que os títulos [adquiridos pela Camaragibe] eram falsos. Eram terras públicas devolutas”, diz Emília Teixeira. Em novembro do ano passado, com base no relatório, a Procuradoria Geral do Estado da Bahia ingressou com uma ação discriminatória judicial com o objetivo de arrecadar as terras públicas e regularizá-las.


    Uma decisão parcial de dezembro de 2008 trouxe alento para as comunidades. O juiz Eduardo Ferreira Padilha, da comarca de Casa Nova, acolheu provisoriamente a ação discriminatória judicial e determinou a suspensão de todas as ações que discutiam o domínio e posse da terra. “Os fazendeiros não gostaram disso”, diz Domingos. “Agora, a Justiça precisa decidir se a terra é do fazendeiro ou do trabalhador”.


    Uso coletivo
    Os modelos de produção conhecidos como “fundo de pasto” são caracterizadas pela ocupação e uso de espaço aberto, geralmente composto de terras devolutas, acessível a todos os membros da comunidade. Esse tipo de manejo é comum em Estados como a Bahia, Pernambuco, Ceará e Paraíba.


    Situada no bioma da Caatinga, o Fundo de Pasto de Areia Grande conta com mais de 13 mil cabeças de cabras e ovelhas, produz mel e mantém criação de gado, ovinos e caprinos. No entanto, a comunidade está inserida numa zona de expansão agrícola – as áreas próximas já estão dominadas pela plantação de cana-de-açúcar. “O poder público local sempre massacrou a agricultura familiar”, conta Domingos, do Sintagro.


    Há projetos de implementação de cana irrigada para a produção do álcool na região. “O preço da terra vem aumentando. Isso acirra os conflitos”, observa Emília. “A comunidade tem uma relação harmoniosa com o meio ambiente. Há uma preservação alta do bioma caatinga, num terreno fértil. O que torna (a terra) ainda mais cobiçada para o lucro”.


    Justiça
    O resultado da perícia do corpo de José Campos deve ser divulgado até o final desta semana. Os trabalhadores acionaram o Ministério Público e a Ouvidoria Agrária Nacional para acompanhar o caso. Segundo a advogada Emília Teixeira, “a prioridade é garantir laudo com idoneidade para que possa ser aberto inquérito. Só existem suspeitas. Há testemunhas de fato que relacionam a morte com o conflito agrário. Mas ainda não há provas cabais”.


    Os moradores relatam que, na semana anterior ao crime, pistoleiros eram vistos com freqüência na região, em rondas com carros escuros. Na ocasião, jagunços chegaram a invadir o local, rompendo o arame – num clima de tensão permanente, os moradores já faziam vigília na entrada da área.


    Para Marina Braga, agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o assassinato de José Campos representa uma forma de intimidação. “Até hoje os pistoleiros que agrediram trabalhadores estão impunes. Como a impunidade é grande, eles resolveram agir pela força”, afirma.

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  • 11/02/2009

    Intereclesial das CEBs acontecerá em Porto Velho

    Entre os dias 21 e 25 de julho, a cidade de Porto Velho, em Rondônia, sediará o 12° Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). O encontro que, nesta edição, terá como tema “CEBs: Ecologia e Missão”, reunirá cerca de três mil representantes de todo o Brasil, América Latina e Caribe.

    Segundo o coordenador do evento, padre Luis Ceppi, o encontro tem como objetivo dar continuidade às experiências das CEBs e fortalecer a caminhada delas. Será a primeira edição do encontro a acontecer na região Norte, o que faz com que os participantes vivenciem ainda mais o tema proposto e tenham contato com a realidade vivida pelas populações locais.


    Padre Ceppi explica que o tema deste ano gira em torno de dois eixos: a Ecologia e a Missão. O coordenador comenta que, na Ecologia, há a harmonia do homem e da mulher com a natureza, criação de Deus. Ele explica que essa união manifesta a presença de Deus. No segundo eixo, o padre considera que a ideia é “descobrir que a missão é olhar para o outro”. Para ele, o evento pretende ser um grito de alerta para a atual situação social, na qual a desigualdade é cada vez maior: “os ricos estão ficando cada vez mais ricos e os pobres, mais pobres ainda”. O 12° Intereclesial na Amazônia é a oportunidade de discutir a importância da região para a humanidade e tentar estabelecer entre as igrejas das comunidades que vivem na região um modelo de desenvolvimento que privilegie os pobres e sirva aos interesses de todos e todas. Para padre Ceppi, é de fundamental importância o evento acontecer na Amazônia, pois a região vive uma realidade de devastação e desigualdade social que precisa ser mudada.



    De acordo com o padre, o encontro vai ajudar a fortalecer o “grito de alerta e de basta” ao que está acontecendo na região. “Esperamos que o grito da Amazônia seja ouvido de maneira correta pelo Estado e pela Igreja”, comenta. Para ele, tal conscientização fará com que as pessoas percebam que é possível mudar a realidade atual. “Amazônia será o símbolo de que é possível crescer sem destruir, e de construir civilizações sem escravos do consumo”, afirma.
    Os Encontros Intereclesiais têm como objetivo mostrar a caminhada das CEBs. Cada edição apresenta um tema específico, relacionando o trabalho das Comunidades e a realidade da vida do povo. O primeiro encontro aconteceu em 1975, em Vitória (Espírito Santo), com o tema: “Uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus”.
    As matérias do projeto “Ações pela Vida” são produzidas com o apoio do Fundo Nacional de Solidariedade da CF 2008.

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