• 14/09/2009

    Guaranis: do jejuvy à palavra recuperada

    Muito além de mortes banais, os suicídios indígenas em Mato Grosso são também protesto, ritual, performance de uma cultura que sobrevive por um fio muito tênue e belo. Agora, uma campanha nacional quer defender suas terras e matas, seu tempo distinto, sua singularidade possível


     


    Fabiane Borges, Verenilde Santos


     


    Performance ritual:


    O dia amanhece com um índio guarani-kaiowa enforcado. Cadarço de tênis esticado da árvore. Banho tomado, perfumado, de joelhos.


     


    A aldeia Bororo sabe do que se trata: do jejuvy. Isso não é conforto, é ritual de morte. A palavra jejuvy na língua dos Guarani [1] tem uma carga semântica que significa aperto na garganta, voz aniquilada, impossibilidade de dizer, palavra sufocada, alma presa. É através do ritual do jejuvy que os kaiowa praticam o suicídio, por enforcamento ou ingestão de veneno. Apesar de ser reconhecido como prática ritual ancestral, nos últimos anos o jejuvy alastra-se pelas aldeias em escala epidêmica. São cerca de 50 suicídios por ano, envolvendo jovens de 9 a 14 anos de idade.


     


    Segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), o número de suicídios começou a aumentar nos anos 80, dobrou na década de 90 e bateu o recorde na virada do século 21, chegando aos mais de 50 por ano. Não são temas deste artigo as mortes por desnutrição, os homicídios entre os próprios indígenas ou as guerras incessantes entre indígenas e fazendeiros, fatos igualmente chocantes. [2]


     


    Os suicídios (jejuvy) são efetuados basicamente por enforcamento (método antigo) e ingestão de venenos das monoculturas (método novo). Rejeita-se a “poluição” como derramamento de sangue ou cortes físicos, para que não se perca a palavra. Muitos guaranis consideram o suicídio uma doença produzida pela prisão da palavra (alma). É pela boca que a palavra se liberta. Se não há lugar para a palavra, não há vida. Por isso, na hora de morrer, não deve ser utilizado o corte contra si mesmo, pois a palavra se dispersaria. Sufocando-a, ela permaneceria como um aglomerado de energia e poderia voltar a vingar em algum outro momento.


     


    Conforme narrativas dos próprios kaiowa sobre índios que cometeram suicídio, eles unificam elos que vão desde o ato individual inerente à condição humana e solitária de cada um, até o sentido político de coletividade, um “estar entre os outros”, produzindo simbologias-limites: os enforcamentos, os envenenamentos. Atos que condensam e apontam para o resgate, talvez impossível de uma “forma de ser”, como os kaiowa costumam falar. E se para eles a linguagem é uma das mais importantes formas de fazer o ser se manifestar, ao impedi-la, impede-se também os sujeitos de existirem. O suicídio epidêmico seria a resposta coletiva à impossibilidade de expressar a singularidade desse povo.


     


    Se até cerca de 40 anos atrás, os kaiowa e nhandeva moravam em casas grandes denominadas ogajekutu-ogaguasu, reunindo até cem pessoas de uma mesma família, hoje vivem em casas minúsculas, muitas ainda feitas de barro, sem a proteção da floresta, abrigando apenas a família nuclear. A estrutura da família extensa, cuja chefia baseia-se no prestígio e religiosidade, desorganizou-se, visto que os indígenas não conseguiram substituir seu prestígio cultural pelo poder dos brancos. Com a dizimação de suas terras, sem os ritos do plantio, da colheita, das sagas coletivas de caça e pesca, eles não têm razões para continuar com seus ritos, e conforme perdem as práticas com a terra perdem também sua cultura. Mesmo que ainda subsista, de forma curiosa, a língua guarani, que é o maior foco de insistência e resistência dessa coletividade.


     


    Muitos grupos indígenas, inclusive guarani kaiowa, vivem em acampamentos precários dentro das fazendas dos latifundiários, que em nome do expansionismo ou de mais alguma razão macha e injustificável, tomaram a força suas terras – e ainda tomam, com armas desiguais. Isso é um dos motivos mais apontados por indígenas, indigenistas e antropólogos para a causa da epidemia de suicídios entre os guarani kaiowa: a perda da terra, da tekoha, o lugar onde “realizam seu modo de ser”.


     


    Se por um lado os suicídios por enforcamento ou pela ingestão de veneno podem significar o sufocamento, também podem significar o desejo da libertação – e é nesse ponto que o suicídio ritual funciona como performance ética, estética e interventiva. Gestos de enunciação. O trágico funcionando como dispositivo de reversão sígnica sobre a questão indígena. Desde que a “epidemia suicida” começou a se alastrar nas aldeias, ativistas, estudantes, pesquisadores, pessoas ligadas à mídia independente passaram a olhar com mais atenção a essa situação, fazer alianças e se tornar cooperadores na luta pela terra guarani, de forma a amplificar esses sinais, até então emitidos em total invisibilidade. Há alguns grupos indígenas, principalmente professores indígenas ligados à universidade e lideranças locais, que dedicam sua vida a essa causa, sendo que o número de líderes mortos nessa empreitada supera nossa imaginação.


     


    Apesar de muitos dos suicídios serem praticados em locais mais resguardados, existe um grande número de casos que ocorrem em lugares de perambulação, os lugares “públicos” da aldeia, como estradas, roças, áreas onde o corpo suicida pode ser visto sem muita dificuldade. São nuances que ajudam a esclarecer e também interrogar sobre essa forma de morrer. Não compactuar com a dizimação, com o genocídio, com o etnocídio. Não se acovardar diante do destino, ter o ato bravo e último como forma de amplificar os sinais da miserabilidade que foram submetidos. As árvores, os arbustos, as roças, qualquer lugar que tenha sido utilizado para o suicídio torna-se marco da aldeia e fica cravado no imaginário, na linguagem cotidiana e na sua luta contra o confinamento. Os mortos continuam falando especialmente para os corações sensíveis, ainda conectados em crenças de espíritos da natureza e nas emissões dos seus sinais.


     


    Os ritos, as danças, os cantos as lutas sobrevivem por pura insistência. A sensação que tivemos ao estarmos na aldeia Bororó é que essa cultura sobrevive por um fio muito tênue e belo. Como uma voz que se força a falar, mas já não soa como costumava. Mesmo afônica, agônica, gaga, insiste em se manifestar. Ritual de rememoração. Resíduo. Resistência de certos cantos e gestos. As danças de luta dos guarani kaiowa lembram as lutas marciais, lutas de espadas. São feitas de pedaços de paus, facas, pedras assemelhando-se a lutas ninjas.


     


    Dona Tereza Guarani é uma das últimas velhas da aldeia. Conduz os ritos na aldeia Bororó com o rosto enrugado e concentrado, mãos fortes que movimentam o maracá, passos contundentes que provocam o som retumbante no chão de barro. No êxtase, provocado pelos cantos, que sentimos, nos perguntamos como é possível que ainda cantem e dancem e lutem dessa forma. Em nome de qual força? Dona Tereza faz um esforço explícito para que essa cultura kaiowa se mantenha, pois a grande maioria do seu povo não vê motivo para continuar os ritos. Muitos já não sabem mais como eram as danças e as batidas. A velha índia Tereza, a rezadeira, curandeira, a mulher compromissada com os rituais culturais da aldeia, toma para si o encargo de dar suporte de memória e sentido aos ritos dos antepassados. Coloca os filhos e netos e amigos para aprender os cantos e as danças, antes de morrer. Essa é a função para a qual dedica sua vida. Mesmo seu poder de xamã não a impediu de presenciar muitos suicídios em sua própria família.


     


    Apego à vida é um imperativo da dominação, do exercício de poder – e da inclusão. Quando há coisa mais intensa que o apego a vida, há mídia tática, há resistência, há potência de protesto. Porém o que é que os kaiowá amam mais do que a sobrevivência? É isto que grita de maneira abafada ainda pelo espaço público da aldeia, que é favela que é cidade que é campo. Tem alguma coisa que estes indígenas desejam mais do que serem incluídos na pasmaceira da biopolítica globalizada, na miserabilidade imposta pela política neoliberal. É uma forma de vida que não se contenta com a sobrevivência miserável do branco ou do índio. Nesse caso pensamos que não se trata de inclusão indígena na sociedade nacional, mas da mobilização da sociedade para a retomada das terras indígenas para colaborar no processo desse outro índio que o próprio índio não sabe e tem que devir.


     


    As lutas de movimentos agrários no Brasil se intensificaram ao longo desses últimos 30 anos e cada vez ganham maior visibilidade mundial em função da sua extrema importância. A luta indígena é mais uma das lutas agrárias do pais, a mais antiga, a mais usurpada e dizimada. Os processos de homologação e assentamentos estão longe do seu fim e é com muito esforço, tensão e mortes que se efetivam suas realizações.


     


    Nosso desafio em gerar uma rede de colaboração capaz de mudar a percepção social sobre pontos enredados da sociedade é urgente e de grande relevância. Mais do que mudança perceptiva, é necessário a ampliação do próprio espectro relacional dos movimentos sociais, para que ganhem possibilidades de ação diversas. O papel que a mídia tática, Greenpeace e CMI (centro de mídia independente) têm exercido nesses contextos é uma abertura para ajudar a pensar em como grupos autônomos, organizados ou não, podem atuar junto aos movimentos e às lutas sociais (nosso grande espaço público). Ainda são precárias suas atuações, mas sinalizam possibilidades. Para além da denúncia e do apoio, é preciso criar meios que se tornem mais incisivos na efetivação de certos projetos políticos dos movimentos da sociedade civil, como é o caso da campanha pró-guarani foi lançada em setembro de 2007 e que recém começa a aparecer para a sociedade geral [3].


     


    Essa campanha midiática, ativista, feita na sua maioria por lideranças indígenas guaranis e apoiada pelo CIMI, reclama o reconhecimento das 32 terras indígenas do povo guarani, reclama o desaceleramento do mercado agropecuário na região do Mato Grosso do Sul, o reflorestamento das áreas dizimadas, o respeito e reconhecimento de um tempo que não precisa ser igual para todo mundo. Mas também reivindicam o acesso ao que há de relevante na sociedade (inter)nacional, levando em conta as conquistas da ciência e da tecnologia, etc.


     


    Há muito o que pensar na intervenção desses suicídios no imaginário social branco, indígena, mestiço. Mas uma coisa é certa: essas mortes têm evidenciado o impasse que esses indíos vivem, e chegam até nós como sinalizadores dessa condição insuportável, indígna, vergonhosa que os ideais de civilização, de desenvolvimento e de crescimento econômico provocam. É preciso agir antes que toda diferença desapareça.


     


    Outras fontes de pesquisa:


     


    http://www.campanhaguarani.org.br


     


    http://www.midiatatica.info


     


    http://www.rizoma.net


     


    http://hemi.nyu.edu


     


    http://www.midiaindependente.org


     


    [1] Os índios guarani estão divididos em três grupos: guarani-nhendeva, guarani-kaiowá e guarani-mbyá. À época da chegada dos europeus, esses indígenas somavam cerca de quatro milhões de pessoas. Atualmente existem cerca de quarenta mil, espalhadas pelas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. No Mato Grosso, calcula-se que existam cerca de 27.500, pessoas espalhadas em 22 pequena áreas. Sendo que a aldeia bororó, apresentada nesse texto, abriga 12 mil índios guaranis- kaiowas, comprimidos em 3.600 hectares de terra improdutiva e sem mata. Aí existem mais de 90 igrejas entre católicas, evangélicas e espíritas, que disputam os indígenas entre si conforme suas crenças e métodos de conversão.


     


    O território dos índios guarani estendia-se ao Norte, até os rios Apa e dourados e ao Sul até a Serra de Maracaju e os afluentes do rio Jejuí, chegando a uma extensão Leste-Oeste de aproximadamente 100 quilômetros, em ambos os lados da serra de Amambai abrangendo uma extensão de terra de aproximadamente 40 mil km2, dividida pela fronteira Brasil-Paraguai.


     


    [2] Ver mais


     


    [3] http://www.campanhaguarani.org.br


     


    Veja a notícia no site do Le Monde Diplomatique: http://diplo.uol.com.br/2008-02,a2168

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  • 14/09/2009

    Confissões do Latinfúndio

    Confissões do Latinfúndio


                  


          Pedro Casaldáliga


          (Bispo jubilado de Sao Felix do araguaia, MT)


     


     


          Por onde passei,


          plantei


          a cerca farpada,


          plantei a queimada.


     


     


          Por onde passei,


          plantei


          a morte matada.


     


     


          Por onde passei,


          matei


          a tribo calada,


          a roça suada,


          a terra esperada…


     


     


          Por onde passei,


          tendo tudo em lei,


          eu plantei o nada.

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  • 14/09/2009

    Campanha Guarani faz parte de seminário na Universidade Federal da Grande Dourados

    A campanha “Povo Guarani, Grande Povo” teve espaço na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), durante o II Seminário Regional sobre Território, Fronteira e Cultura realizado entre 08 e 11 de setembro. O tema fez parte do mini curso “Identidade e Territorialidade Indígena em Mato Grosso do Sul”, ministrado pelos mestrandos em historia e geografia da UFGD Cássio Knapp e Juliana Mota, respectivamente. Vinte pessoas, entre acadêmicos, professores e profissionais de outras áreas escolheram o tema interessados em conhecer melhor a situação dos Kaiowa-Guarani na faixa de fronteira entre Paraguai e Brasil. Também tinham interesse em saber o que implica a luta pela demarcação de suas terras, tendo como marco referencial o significado de território para os povos indígenas.


     


    Como abertura da atividade, foi feita a “dinâmica do reconhecimento” que consiste na consideração e aceitação do outro como diferente. Como parte da dinâmica foi lido o texto antropológico “ritos corporais entre os Nacirema”, povo indígena norte-americano de costumes extremamente exóticos. Sobre os ritos dos Nacirema, o antropólogo Bronislaw Malinowski (1884-1942) escreveu: “Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como fez, suas dificuldades práticas, nem poderia ter avançado aos estágios mais altos da civilização”.


     


    Os kaiowa-Guarani


    O professor e mestrando indígena Kaiowa-Guarani, Izaque João, que participou também do mini curso falou da importância do maracá, instrumento musical guarani, como ferramenta de resistência mágica e cultural de seu povo, que na atualidade está ameaçado. Em relação às atividades de divulgação da situação dos Kaiowa-Guarani a nível nacional e internacional, manifestou que os indígenas precisam de solidariedade e de aliados. “Chega um momento em que nós já não temos condições para fazer garantir nossos direitos porque nossas aldeias estão superlotadas e recebemos pressões externas de todos lados, de todo tipo, que resultam no esquecimento de nosso maracá, de nossos rituais, e muitos acham que é melhor o suicídio que viver desse jeito”.


     


    Segundo reconheceram os participantes do curso, as reservas indígenas têm se convertido em verdadeiros “campos de concentração” e que a demarcação das terras Kaiowa-Guarani é uma necessidade. Foi assinalado, em contrapartida, que a atual política econômica no Estado é “seguir jogando dinheiro à vontade para o agronegócio, para o território da cana, onde ficam justamente os territórios indígenas”.


     


    A Campanha Guarani vêm sendo uma ferramenta deste povo e seus aliados para defender, por exemplo, a economia da reciprocidade que faz parte de cultura Guarani. Este conceito confere à propriedade um sentido muito diferente do que se entende na sociedade em geral. Especialmente do que se entende por propriedade da terra dentro da chamada “sociedade produtiva”, guiada pelo latifúndio improdutivo e o agronegócio da monocultura que o reduz a uma simples mercadoria e que beneficia a uma minoria de especuladores. “O povo Guarani não se considera dono da terra, nem daquilo que nela vive”. A propriedade Guarani é o território onde se pratica a economia da reciprocidade, generosidade e solidariedade. È o espaço onde se desenvolve com alegria a “ajuda recíproca” que é chamada de “jopoi”.


     


    No curso foram apresentados o documentário “Semente de Sonhos” e o Mapa Guarani. Também foram distribuídos aos participantes outros materiais da Campanha “Povo Guarani, Grande Povo”.

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  • 11/09/2009

    Famílias Guarani Kaiowá vão para a beira da estrada no Mato Grosso do Sul

    Hoje, 11 de setembro, as cerca de 35 famílias Guarani Kaiowá que viviam na aldeia Laranjeira Ñanderu, no município de Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul, começaram a montar suas barracas de lona à beira da BR-163. Estão sem água, sem lenha para fogueira, com pouca comida e ameaçados por veículos que passam em alta velocidade a poucos metros do acampamento.


     


    Os indígenas viviam há quase dois anos em um pedaço de seu território tradicional ainda não demarcado. Apesar de não poderem plantar, por que a terra está em disputa, eles criavam pequenos animais, como galinhas, patos e porcos do mato. Também havia árvores frutíferas e fonte de água na área.  


     


    A partir de agora, as 130 pessoas, incluindo idosos e mais de 60 crianças e adolescentes, viverão em barracos, numa área sem árvores e cheia de buracos. “Se chover forte, é certo que alaga”, prevê desanimado o antropólogo e pesquisador do Museu Nacional, Tonico Benitez, do povo Guarani Kaiowá, que acompanhou o despejo dos parentes. Até amanhã (12/9) – no mínimo – os indígenas devem ficar sem água. As lideranças devem pressionar a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para que ela garanta o fornecimento de água para a comunidade.


     


    “Cumprimos a ordem da justiça, mas se algum carro a atropelar alguma criança? Eu vou cobrar o delegado!”, diz indignada a liderança da comunidade Farid Guarani. O acampamento fica numa região de fluxo intenso de veículos em alta velocidade. Além do incômodo com o barulho intenso, será preciso controle constante para prevenir acidentes. As famílias decidiram ficar em frente ao seu tekohá (terra tradicional), pois não tem outro lugar para ir. “Dizem que semana que vem vão começar a fazer o estudo para demarcação”, declara Farid, mantendo a esperança.


     


    Demarcação das terras


    A ordem para a reintegração de posse da área ocupada pelos indígenas foi dada pela Justiça Federal de Dourados. A Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Ministério Público Federal (MPF-MS) recorreram ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3). No dia 26 de maio, a Desembargadora Federal e Presidente do TRF3, Marli Ferreira, suspendeu a ordem de reintegração e deu 90 dias para a comunidade permanecer na área.


     


    Nesse período, a Fundação Nacional do Índio (Funai) deveria realizar estudos para identificar se a área ocupada é território tradicional Guarani. Porém, os estudos não ocorreram. A principal razão é o clima de perseguição aos antropólogos da Funai que persiste no sul do Mato Grosso do Sul. Eles necessitam de proteção policial para realizarem seu trabalho. Além disso, uma decisão liminar do próprio TRF3º suspendeu os estudos dos Grupos de Trabalho de identificação de terras indígenas. Essa decisão, no entanto, foi derrubada há duas semanas. Atualmente, não há impedimento legal para o início dos estudos antropológicos para identificação de terras Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul.


     


    Missionários do Cimi-MS e representantes de diversos movimentos sociais do Mato Grosso foram hoje ao acampamento, prestar solidariedade aos indígenas. “A saída está tranqüila, mas as pessoas estão muito tristes, indignadas por terem que sair da terra que viviam”, relatou o coordenador do Cimi-MS, Egon Heck.

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  • 11/09/2009

    Carta de repúdio à desocupação da Terra Indígena Laranjeira Ñanderu

    Nós


    Nós, abaixo-assinados, manifestamos o nosso veemente repudio à atitude de despejo que está sendo realizada na Terra  Indígena Laranjeira Ñanderu, no município de Rio Brilhante no estado do Mato Grosso do Sul.


     


    Consideramos que as políticas públicas ineficientes para as comunidades indígenas neste Estado estão levando a essa atitude inadequada e desumana. São muitas famílias que estão vendo seu Tekoha ser ameaçado, porque não há um respeito ao seu direito tradicional.


     


    É profundamente lamentável e desumano que o grupo indígena que esteve há séculos naquela terra, da qual foi violentamente expulso, seja agora mais uma vez jogado para fora. Essa terra é indispensável para os indígenas continuarem a viver conforme lhes garante a Constituição.


     


    Os agentes contrários aos direitos indígenas e responsáveis diretos por mais essa violência terão que dar conta aos cidadãos deste país e do mundo por mais essa agressão às comunidades originárias dessas terras, sendo hoje submetidas a uma das situações de maior violência de que se tem conhecimento.


     


    Enquanto está em curso, embora tardiamente, o processo de identificação dos territórios tradicionais dos Kaiowá Guarani, acontece esse despejo, indicando uma contradição entre o discurso e a ação no sentido de resolver a questão da terra. Mas o que se vê são os sofrimentos sendo propiciados a grupos que estão sendo expulsos.


     


    Estamos solidários à comunidade de Laranjeira Ñanderu e queremos denunciar mais esse absurdo despejo, o qual faz parte da estratégia de concentração de terra e capital nas mãos de uns poucos donos do capital nacional e internacional.


     


    Só haverá, efetivamente, condições de justiça e democracia quando forem reconhecidos os direitos e demarcadas as terras indígenas, nesse caso, em especial no Mato Grosso do Sul.


     


    Diante dessa situação não podemos nos calar, pois ela se torna, a cada dia, uma calamidade publica. Como cidadãos e cidadãs temos a obrigação de defender os povos, que desde a sua colonização foram massacrados. Elegemos representantes para legislar e queremos cobrar deles o compromisso do que ficou garantido na Constituição Federal.


     


    Não haverá tempo para a espera, o poder público deve resolver esse impasse urgentemente, precisamos pagar essa dívida logo e poupar esse povo de sofrimentos vindouros. Por isso exigimos que se devolva aos povos indígenas o que lhes é de direito, não os deixem às margens da vida. Até quando teremos que conviver com injustiças desse porte? Respondam-nos se puderem senhores dirigentes!


     


    O povo lamenta essa situação, e só cabe a vocês, dirigentes dessa nação, a responsabilidade de dar a oportunidade de continuidade dos Kaiowá Guarani. Não há mais tempo…


     


    PARTICIPANTES DO III SEMINÁRIO POVOS INDIGENAS E SUSTENTABILIDADE: Saberes Locais, Educação e Autonomia


     


    Assinam: professores indígenas, professores não indígenas, pesquisadores, gestores educacionais, acadêmicos indígenas e não indígenas.


     


    Campo Grande, MS ,10 de setembro de 2009


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  • 11/09/2009

    Com aprovação do Estatuto Racial, movimento negro comemora vitória parcial

    Após quase dez anos de tramitação, a Câmara aprovou, nesta quarta-feira (09), o Estatuto da Igualdade Racial. No entanto, foi preciso fazer um acordo com a bancada ruralista da Casa. Para destravar a proposta, o deputado Antônio Roberto (PV-MG), relator do projeto, aceitou excluir o artigo sobre a regularização de terras quilombolas. Apesar disso, o movimento negro avaliou como importante o passo dado pela Câmara.

    A coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira (Cenarab), Macota Gonçalves, comentou o significado da aprovação.

    “É o Estado brasileiro reconhecendo as consequências da escravidão, da exploração do povo negro, do não acesso do povo negro à educação, à saúde. É importante aprovar com essas negociações feitas com o setor conservador para que [depois] possamos buscar mudar isso mais para frente.”

    Pelas regras do Estatuto Racial, os partidos serão obrigados a destinar aos negros 10% de suas vagas para candidaturas nas eleições proporcionas. Também, passa a ser obrigatória a inclusão, no currículo do ensino fundamental, de aulas sobre história geral da África e do negro no Brasil.

    Na área da saúde, o estatuto passa a exigir do sistema público, especialização no tratamento de doenças mais características dos negros, como a anemia falciforme.

    Outro ponto é o incentivo fiscal do governo, que poderá ser concedido para empresas com mais de 20 pessoas ao contratarem pelo menos 20% de funcionários negros.

    A bancada ruralista aceitou apoiar a votação do estatuto em caráter terminativo. Ou seja, a proposta poderá seguir diretamente para o Senado, sem ser submetida à aprovação do plenário da Câmara.

    Desirèe Luíse

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  • 10/09/2009

    Informe nº. 880: Famílias Guarani Kaiowá serão despejadas amanhã no Mato Grosso do Sul

    Informe nº. 880


     



    • Famílias Guarani Kaiowá serão despejadas amanhã no Mato Grosso do Sul
    • STJ anula prisão de cacique Pataxó (BA) e transfere liderança Xukuru (PE) presa para terra indígena

     


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    Famílias Guarani Kaiowá serão despejadas amanhã no Mato Grosso do Sul


     


    Até amanhã (11/9), os cerca de 130 Guarani Kaiowá da aldeia Laranjeira Nhanderu, no município de Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul, devem deixar o pedaço da terra tradicional do povo onde vivem há quase dois anos. Eles não têm para onde ir. Os guarani, incluindo 60 crianças e adolescentes, ficarão acampados à beira da BR-163 em frente à terra de onde serão despejados. Nos últimos meses, duas crianças morreram e três jovens se suicidaram nessa aldeia.


     


    O fazendeiro vizinho à terra retomada manteve fechada a porteira que dá acesso à aldeia. Por isso, as crianças precisavam caminhar 4km até a BR-163, onde o ônibus escolar parava, pois era impedido de entrar na área. O fazendeiro também impediu por diversas vezes a entrada da equipe da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que atenderia pessoas doentes. As cestas básicas fornecidas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) precisavam ser entregues por cima da cerca à beira da estrada, pois os funcionários da Funai eram impedidos de ir até a aldeia. Em função dessas e outras privações, duas crianças morreram e três jovens se suicidaram nos últimos meses na aldeia.


     


    Representantes de movimentos sociais e indígenas de outras aldeias farão um ato, amanhã pela manhã, durante a saída das famílias. Eles protestarão contra a demora na demarcação das terras Guarani Kaiowá.


     


    As 36 famílias da comunidade Laranjeira Ñanderu formarão o vigésimo acampamento de indígenas no Mato Grosso do Sul. Esse grupo Guarani Kaiowá retomou suas terras no final de 2007, após passar quase dois anos acampados à beira de uma estrada. Antes disso, eles haviam sido expulsos, por jagunços, de outra área que também é território tradicional do povo.


     


    Processo judicial


    A ordem para a reintegração de posse da área ocupada pelos indígenas foi dada pela Justiça Federal de Dourados. A Funai e o Ministério Público Federal (MPF-MS) recorreram ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3). No dia 26 de maio, a Desembargadora Federal e Presidente do TRF3, Marli Ferreira, suspendeu a ordem de reintegração e deu 90 dias para a comunidade permanecer na área. Nesse período, a Fundação Nacional do Índio (Funai) deveria realizar estudos para identificar se a área ocupada é território tradicional Guarani. Porém, os estudos não ocorreram. Além do clima de perseguição aos antropólogos da Funai que persiste no sul do Mato Grosso do Sul, uma decisão liminar do próprio TRF3º suspendeu os estudos dos Grupos de Trabalho de identificação de terras indígenas.


    (Informações Cimi –MS)


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    STJ anula prisão de cacique Pataxó (BA) e transfere liderança Xukuru (PE) presa para terra indígena


     


    Nos últimos dias, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tomou importantes decisões em processos sobre lideranças indígenas. No dia 8 de setembro, a 5ª turma do STJ decidiu que Rinaldo Vieira, do povo Xukuru, preso desde março de 2008 em Caruaru, será transferido para o posto da Fundação Nacional do Índio (Funai) da terra Xukuru, em Pernambuco. No dia 1º de setembro, a mesma turma anulou  por unanimidade a prisão preventiva do cacique Pataxó, Joel Braz, que estava preso desde 2006, no posto da Funai da terra de seu povo, no sul da Bahia.


     


    Rinaldo Vieira está preso desde março de 2008 no presídio de Caruaru, acusado de envolvimento no assassinato do indígena José Lindomar de Santana. Ele seguirá cumprindo a prisão preventiva e respondendo ao processo. A comunicação do STJ já chegou à Justiça Federal em Caruaru, mas até a tarde de hoje, Rinaldo ainda não havia sido transferido.


     


    Rinaldo Vieira foi denunciado pela testemunha ocular do crime e pode ser levado a júri popular, junto com Edmilson Guimarães – outro Xukuru acusado pelo crime. Este testemunho é questionado, pois o crime ocorreu às 2h de uma madrugada escura (lua nova), coberta pela neblina e em um local sem iluminação pública. Além disso, os verdadeiros atiradores usavam capacete. Rinaldo e Edmilson Guimarães têm residência fixa e bons antecedentes. Mesmo assim, estão em prisão preventiva desde o ano passado.


     


    Pataxó


    O cacique Pataxó, Joel Braz, estava preso desde 2006. A ação penal contra o cacique vinha tramitando na Justiça Comum, na Comarca de Itamaraju (Bahia). No entanto, a 5ª turma do STJ decidiu que o caso deve ser julgado pela Justiça Federal. Com isso, o processo será reiniciado e, portanto, todos os atos decisórios foram anulados, entre eles a prisão preventiva. A defesa de Joel já havia requerido essa transferência de competência em 2006, pois o crime pelo qual Joel é acusado ocorreu num contexto de conflito territorial.


     


    A anulação da prisão deveria ser cumprida imediatamente, porém o cacique Joel Braz continua preso oito dias após o julgamento. O comunicado do STJ não está sendo localizado no Tribunal de Justiça da Bahia e, por isso, a informação oficial ainda não chegou à Comarca de Itamaraju. Os advogados de Joel já requereram ao STJ que a decisão seja comunicada diretamente à comarca de Itamaraju, para que o cacique seja posto em liberdade o quanto antes. Com isso, também diminuirá a angústia e a tensão que pesam sobre a comunidade Pataxó desde a prisão de Joel.


     


    Atuam na defesa de Joel Braz os advogados Valdir Martins, Cláudio Luiz Beirão, Paulo Machado Guimarães, Michael Mary Nolan e Denise da Veiga Alves.


     


    Brasília, 10 de setembro de 2009


    Conselho Indigenista Missionário

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  • 10/09/2009

    Audiência Pública em Ilhéus discute violência no campo

    A 56ª reunião da Comissão Nacional de Combate a violência no Campo com o objetivo de discutir e aprofundar conflitos agrários, reforma agrária e a questão da violência no campo será realizada no próximo dia 18 de setembro de 2009, às 09 horas na Câmara de Vereadores de Ilhéus, a 450 km de Salvador.  O Encontro tem como como motivação as últimas denúncias de torturas contra membros da comunidade indígena Tupinambá de Olivença, cometidas por policiais federais.


    Esta audiência é fruto de recente visita da comitiva especial da comissão nacional de política indigenista a região sul da Bahia, em julho de 2009, quando as lideranças confirmaram as denúncias contra os policiais. Segundo os indígenas, as torturas teriam ocorrido no início do mês de junho quando de uma tentativa de retirada dos índios da fazenda Santa Rosa, no município de Una. Na oportunidade da visita da comitiva, os índios puderam mostrar os sinais das torturas que ainda eram visíveis, apesar do tempo decorrido. Também confirmaram que foram usadas armas conhecidas como “taser” (oficialmente chamada de arma de efeito letal reduzido), e por fim apresentaram os resultados dos laudos realizados no instituto em Brasília, que comprovaram as denúncias.  


    Na opinião do cacique Tupinambá Rosivaldo Ferreira, este caso não é um fato isolado. A violência sofrida por membros da sua comunidade faz parte de intenso processo de criminalização que vem ocorrendo em todo Brasil. Segundo o cacique, todas as lideranças dos Movimentos que estão envolvidas na luta pela conquistas de seus direitos, em especial a luta pela terra, tem sido vitimas de perseguições e preconceitos. Muitas lideranças vem sendo acusadas de crimes, tais como formação de quadrilha, depredação de patrimônio publico, e outros, e o numero de processos judiciais triplicou nos últimos anos. Em muitas situações esta perseguição se dá de forma até oficial como a ocorrida recentemente no Rio Grande do Sul, quando o próprio Ministério Público Estadual orquestrou ações visando atacar e criminalizar atividades desenvolvidas pelo MST. Casos emblemáticos vêm ocorrendo no País, infelizmente muitos deles terminando de forma trágica. São exemplos o confronto entre policias e trabalhadores rurais em Eldorado do Carajá, no Estado do Pará, que resultou em 19 Sem Terras mortos em abril de 1996.  O Brutal assassinato do índio Pataxó Hã-Hã-Hãe, Galdino de Jesus, queimado vivo num ponto de ônibus em Brasília, em abril de 1997, outro fato chocante que demonstra esta perseguição foi o assassinato em fevereiro de 2005 da irmã Dorothy Stang, em Altamira-Pará. 


    A reunião esta sendo convocada pelo Ministério do Desenvolvimento agrário – através da sua Ouvidoria Agrária Nacional, estarão participando, a Ouvidoria Agrária do Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, Representantes da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Secretário Estadual de Direitos Humanos da Bahia, Nelson Pellegrino, membros do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, Vereadores, representantes de fazendeiros e indígenas da região. A Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, criada em 2006, tem a incumbência de garantir os direitos das pessoas envolvidas em conflitos fundiários e zelar pela paz na zona rural.


     

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  • 10/09/2009

    Laranjeira Nhanderu: da sombra ao assombro

    Naquele dia agitado de final do ano de 2007, Farid  e seu grupo Kaiowá Guarani decidiram retornar à um pedaço de seu território tradicional no município de Rio Brilhante. Já estavam acampados há quase dois anos, após serem expulsos, por jagunços, de um pedaço de suas terras na aldeia Lagoa Rica, município de Douradina.


     


    Ficaram felizes quando ainda encontraram algumas árvores na beira do Rio Brilhante. Ali fizeram seus barracos. Mais tarde vieram mais famílias que foram recebidas com a alegre sombra da natureza. Começou a partir de então um longo período de espera. Cabia à Funai fazer a identificação e regularização da terra. O Ministério Público Federal, logo procedeu a um estudo preliminar, encontrando referências históricas e da expulsão dos índios deste local.


     


    Lugar aprazível. Apesar da extrema carestia, do mínimo necessário para a sobrevivência, ali um pouco mais de uma centena de pessoas começavam um longo rosário de sofrimentos e esperança. Apesar de mortes por desassistência, atropelamento e mesmo suicídios diante das ameaças de expulsão, nada abalou a confiança e a certeza do grupo: essa terra é nossa e nela queremos viver e ser enterrados como nossos antepassados.


     


    Os dias foram passando e as ações e decisões judiciais se multiplicando. A cada pequena vitória uma celebração da vida. O espaço que efetivamente ocupam não passa de um hectare. Procuraram não ultrapassar os limites para não dar pretexto a pretensos proprietários.Em frente aos barracos apenas um pequeno pátio e um campinho de futebol. O espaço dos rituais ficou entre as árvores. No portão à beira da estrada um grupo de seguranças, bem armados, impediam a entrada de qualquer pessoa. Os índios tinham que varar através das lavouras uns mil e quinhentos metros até a estrada. Ali existe um acampamento dos sem terra. Com eles fizeram amizade e eram acolhidos nos barracos. Tinha até um ponto de reunião no barraco de dona Gloria. Tinha também algum barraco dos indígenas. Ali receberam dezenas de delegações nacionais e internacionais que vinham conhecer essa dura realidade. Colocavam os visitantes na garupa da bicicleta e os transportavam até o local da moradia. Vários representantes da imprensa também assim chegaram até lá. Dava gosto de ver aquele desfile de bicicletas transitando em meio ao milharal.


     


    Fui visitá-los algumas vezes. Era uma alegria contagiante ver aquelas crianças brincando livremente à sombra das árvores. Ao mesmo tempo era visível a inquebrantável confiança que alimentavam cada dia com os rituais e reuniões. Os vários prazos de despejo foram vencidos com a força dos Nhanderu (líderes religiosos) como seu Olimpio, com quem partilhei muitos passos na Marcha pela Terra e pela Vida, de 110 quilômetros, no inicio de agosto. Tiveram no Ministério Público um apoio fundamental. Fizeram milhares de amigos pelo Brasil e pelo mundo.


     


    Agora os barracos que alimentaram tantas vidas e esperança serão provisoriamente destruídos pela ganância e injustiça. A partir de amanhã eles esperam continuar recebendo mais visitas e solidariedade, à beira da estrada para onde estão sendo tangidos. Da sombra agradável que os acolheram serão obrigados a ir ao assombro do outro lado da cerca, até os poucos metros de uma das estradas mais movimentados do país, a BR 163. Ali animais e pessoas correrão o risco de morrerem atropeladas. Quem será o responsável?


     


    Eles, juntamente com milhares de amigos e aliados do mundo inteiro clamarão por justiça. Com certeza poderão contar sempre com o apoio irrestrito e solidário dos amigos e companheiros do Cimi e muitíssimos outros que acreditam que conquistarão seus direitos e uma nova sociedade será possível e necessária.


     


    Egon Heck


    Cimi-MS

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  • 10/09/2009

    STJ anula prisão preventiva do cacique Joel Braz, do povo Pataxó (Bahia)


    No dia 1º de setembro, a 5a. turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou  por unanimidade a prisão preventiva do cacique Pataxó, Joel Braz, que estava preso desde 2006 no posto da Fundação Nacional do Índio (Funai) na aldeia do povo, no sul da Bahia.


     


    Desde 2002, a ação penal contra o cacique vinha tramitando na Justiça Comum, na Comarca de Itamaraju (Bahia). No entanto, a 5ª turma do STJ decidiu que o caso deve ser julgado pela Justiça Federal. Com isso, o processo será reiniciado e, portanto, todos os atos decisórios foram anulados, entre eles a prisão preventiva. A defesa de Joel já havia requerido essa transferência de competência em 2006, pois o crime pelo qual Joel é acusado ocorreu num contexto de conflito territorial.


     


    A anulação da prisão deveria ser cumprida imediatamente, porém o cacique Joel Braz continua preso oito dias após o julgamento. O comunicado do STJ não está sendo localizado no Tribunal de Justiça da Bahia e, por isso, a informação oficial ainda não chegou à Comarca de Itamaraju. Os advogados de Joel já requereram ao STJ que a decisão seja comunicada diretamente à comarca de Itamaraju, para que o cacique seja posto em liberdade o quanto antes. Com isso, também diminuirá a angústia e a tensão que pesam sobre a comunidade Pataxó desde a prisão de Joel.


     


    Atuam na defesa de Joel Braz os advogados Cláudio Luiz Beirão, Paulo Machado Guimarães, Michael Mary Nolan e Denise da Veiga Alves.


     


    Histórico


    Os Pataxó retomaram, no final dos anos 1990, o Parque do Monte Pascoal, e seguem lutando pela posse das áreas vizinhas e pela demarcação completa de suas terras.

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