• 11/12/2009

    STJ manda demarcar reserva em 24 meses

    A 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou recursos da Funai e da União contra decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) e fixou prazo de 24 meses para a demarcação de terras indígenas no litoral norte de Santa Catarina. A relatora, ministra Denise Arruda, afirmou que os autos do processo deixam clara a excessiva demora na demarcação das terras em um período que se estende por mais de 10 anos.

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  • 10/12/2009

    Informe n.893: Indígenas feridos em despejo estão à beira de estrada no MS

    • Indígenas feridos em despejo de fazenda estão à beira de estrada no Mato Grosso do Sul
    • CNPI recomendará ao Congresso aprovação de lei que regulamente obras em terras indígenas

     

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    Indígenas feridos em despejo de fazenda estão à beira de estrada no Mato Grosso do Sul

     

    Cerca de 20 pessoas do povo Guarani Kaiowá das aldeias de Sassoró e Porto Lindo foram feridas no dia 8 de dezembro por seguranças particulares de fazendeiros da região do município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul. Os indígenas foram despejados de parte da sua terra tradicional, para onde eles haviam retornado uma semana antes. Os agressores quebraram o braço de uma anciã de 73 anos

     

    Os indígenas foram socorridos por um médico do posto da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que os encontrou à beira da rodovia conhecida como 7 Placas. Eles apresentavam hematomas e cortes pelo corpo. Alguns ferimentos foram feitos com armas que disparam balas de borracha. Uma bala foi encontrada dentro da roupa de um ferido.  Segundo relato dos indígenas os agressores usaram cordas e paus, além da arma no ataque.

     

    Cinco indígenas – entre eles a idosa – tiveram ferimentos mais graves e foram internados no hospital da cidade de Tacuru. Os demais continuam na beira da estrada. “Não temos comida, nem lona. Hoje os fazendeiros passaram aqui com os seguranças e disseram que não vamos ter nossa terra.” afirmou Solano Lopes, uma das lideranças do grupo que reivindica o tekohá (terra tradicional) Pueblito Kue.

     

    Hoje, os indígenas aguardavam a presença da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Polícia Federal na área. O Ministério Público Federal no Mato Grosso solicitou que o confronto seja investigado.

     

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    CNPI recomendará ao Congresso aprovação de lei que regulamente obras em terras indígenas

     

    A Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) recomendará que o Congresso Nacional aprove lei complementar que regulamente os atos que podem ser considerados de relevante interesse da União. Esta regulamentação traria mais segurança para os povos indígenas diante de projetos que podem impactar suas terras.

     

    Segundo o artigo 231 da Constituição Federal, uma lei complementar deveria indicar que obras poderiam ocorrer nas terras indígenas. Apenas depois dessa lei aprovada, as obras – que fossem de relevante interesse da União – poderiam ser propostas e, depois, submetidas à aprovação do Congresso. Além dessa lei, a Constituição também assegura que os recursos hídricos só podem ser aproveitados com autorização do Congresso Nacional – depois de audiência com as comunidades afetadas.

     

    A recomendação ocorreu durante o debate na CNPI sobre a usina hidrelétrica de Belo Monte, prevista para ser construída no rio Xingu (Pará). A obra – se executada – pode impactar diversas terras indígenas. Os indígenas presentes questionaram o fato do Congresso ter autorizado a construção da obra, sem realizar a audiência prévia com os indígenas – determinada pela Constituição.

     

    O representante do povo Kayapó na CNPI, Akyaboro, também questionou o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, por não ter enviado um representante para a audiência sobre a hidrelétrica de Belo Monte promovida pela Procuradoria Geral da República, no dia 2 de dezembro. “Não vamos parar de lutar. Não queremos Belo Monte”, afirmou Akyaboro.

     

    A Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) esteve reunida entre 7 e 10 de dezembro, em Brasília. Ela responsável pelo acompanhamento das políticas públicas voltadas para os povos indígenas. O organismo é composto por representantes de indígenas de todo o país e por órgãos do governo.

     

    Brasília, 10 de dezembro de 2009

    Conselho Indigenista Missionário

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  • 10/12/2009

    Embaixador dos Paises-Baixos visita aldeia kaiowá guarani no dia internacional dos direitos humanos

    O Embaixador dos Países-Baixos (Holanda), Sr. Kees Pieter Rade, visitou hoje pela manhã a aldeia Kaiowá Guarani de Te’ Yikue no município de Caarapó – MS, por ocasião do dia Mundial dos Direitos Humanos. A visita fez parte de um encontro regional da Campanha Povo Guarani – Grande Povo, que contou com a participação de várias lideranças indígenas.

     

    Lançamento

    Também foi lançado o site internacional da campanha. O site traz noticias e conteúdo sobre o Povo Guarani, sua sociedade, cultura e sobre seus desafios conjunturais. Se dirige às comunidades Guarani no Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia. (para acessar o site clique aqui)

     

    Preocupação

    A visita do Embaixador marca o apoio e a preocupação dos Países Baixos com a triste realidade em que vivem os povos Kaiowá Guarani. Estes enfrentam os mais altos índices de vulnerabilidade social do país. Destacam-se à violência, os homicídios, a mortalidade infantil, a desnutrição, o confinamento. A resistência ao reconhecimento dos seus direitos constitucionais e a negação ao reconhecimento e proteção de seus territórios tradicionais são a causa de tamanha violação dos direitos humanos.

     

    Violações

    As lideranças indígenas relataram ao embaixador os diversos casos de violência e assassinato na região, ouvindo inclusive, o testemunho da família de Genivaldo e Rolindo Vera, professores indígenas, morto e desaparecido respectivamente, após violento ataque de seguranças particulares na região de Paranhos. Os familiares pediram ao embaixador, para que seu País intervenha junto ao Governo Brasileiro, para que este continue as buscas por Rolindo Verá e que os agressores sejam julgados e condenados. Relataram ainda a realidade e os impactos da monocultura e pecuária desenfreada, sobre o meio ambiente, a sociedade indígena e suas terras tradicionais, dando ênfase aos graves casos de violação dos direitos humanos.

     

    Instrumento de luta

    Com danças e cantos tradicionais o embaixador pode conhecer um pouco da cultura kaiowá Guarani e participar do lançamento do novo site da campanha. O site é considerado uma grande conquista e forte instrumento de luta do povo guarani. Organizações indígenas e indigenistas do Brasil, Paraguay, Bolívia e Argentina participam da construção e administração do site, que publicará conteúdo em português, espanhol e guarani, levando ao mundo a realidade das comunidades guarani sujeita a todo tipo de violência e muitas vezes à meios de comunicação tendenciosos.

     

    O site é uma conquista construída e fortalecida sob a memória daquelas lideranças guarani, que nesta terra ameríndia deram suas vidas, pela vida de seu Povo. E que sonham a esperança de terem sua sobrevivência física e cultural garantida em seus territórios seculares.

     

    Encontro continental

    O encontro micro regional da Campanha Povo Guarani – Grande Povo marca mais um passo no processo de articulação, fortalecimento e união continental do povo guarani. No próximo mês, na cidade de Asuncion haverá a reunião continental da campanha, para continuar a preparação do III Encontro Continental do Povo Guarani previsto para novembro de 2010, também em Asunción.

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  • 10/12/2009

    the Indigenous Peoples and the Belo Monte hydroelectric project.


    The Commission on Indigenous Affairs of the Brazilian Association of Anthropology (ABA) publicly states its profound concern as to the precipitous manner with which discussions and official guidance is being conducted regarding the projected Belo Monte hydroelectric plant, including contravening technical studies and established legal proceedings.


     


    A commission of scholars and specialists in different disciplines, after conducting highly detailed field studies, reached the conclusion that the impacts on the indigenous peoples of the region would not be limited by any means to the so called “directly affected area”, but could serially impact environmental resources and the conditions for life and well being of other indigenous lands situated outside of that strict boundary. In the indigenous Lands Paquiçamba, Arara da Volta Grande/Maia, Juruna Km17, Apyterewa, Araweté, Koatinemo, Kararaô, Arara, Cachoeira Seca and Trincheira Bacajá live diverse collectivities whose modes of life and cultures could receive negative impacts, not mentioned are the indigenous peoples in the cities and the isolated indigenous peoples. Even more serious is that, even at present, not a single one of these impacts are adequately dimensioned (see document compiled by Panel of Specialists, with the support of the Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP) of Altamira, the Instituto Sócio Ambiental (ISA), International Rivers, the WWF, FASE and Rede de Justiça Ambiental: English Link to International Rivers page on Belo Monte with Executive Summary of Report by Specialists: http://www.internationalrivers.org/en/latin-america/amazon-basin/xingu-river/independent-review-highlights-true-costs-belo-monte-dam


    Full report in Portuguese- http://www.internationalrivers.org/files/Belo%20Monte%20pareceres%20IBAMA_online%20(3).pdf).


     


    The technical studies conducted by specialists of FUNAI itself resulted in an opinion (technical opinion no. 21 – Analysis of the Indigenous Component of the Environmental Impact Studies, of 30 September of 2009) that bind the viability of the project to the compliance with, among others, three basic conditions: a) that a minimum flow be defined (“ecological hydrograph”) that guarantees the survival of the fish, chelonian life and the navigability of vessels of the indigenous peoples who live there; 2) that studies be presented on the anticipated impact on the Rio Bacajá, on the banks of which live the Xikrin people, who possibly would suffer grave alterations (in need of better analysis); 3) that there be established effective guarantees by which continuing impacts of anthropogenic pressure on the indigenous  lands would be controlled. According to the Environmental Impact Study, at least 96,000 persons would be attracted to the region, which would aggravate the pressure on natural resources of the Terras Indigenas (TI – Indigenous Land) – which is already critical in the region due to the other projects envisioned, such as the paving of the Transamazonian highway BR-163 and construction of the electrical transmission lines from Tucuruí to Jurupari. The population increase introduced by the enterprise would also affect the indigenous communities because it would incentivize a constant augmentation of illegal fishing and hunting, of logging exploitation and mining, of invasions of Indigenous Lands and transmission of diseases.


     


    FUNAI (National Foundation for Indigenous Affairs), supposedly based on these arguments, by means of a summary document of 13 lines, dated 14/10/2009 and sent to the president of IBAMA, strangely signed off on a matter of such importance by its substitute president, issued an opinion favorable to viability of the project. Without the necessary integration of organs and public policies, where the responsibility of FUNAI to assume an active function to coordinate, to inspect and set norms, and not just of sending technical information, the execution of the project runs the risk of not mitigating the damaging effects of the enterprise and not fulfilling the conditions of safeguarding of indigenous interests. That positioning, of relinquishing its prerogative as official indigenous agency, in reality became secondary, and quasi innocuous to the constant defeasances in the Technical Opinion (in annex) as for insufficiency of the studies on the impacts of the works on the indigenous lands, as well as those on the isolated indigenous peoples and also on the residents of Altamira. More serious yet is that, contrary to the cited Opinion, which aggregates several annexes with indigenous demands for clarifications and alterations in the project, recommending explicitly the hearing of the indigenous communities, the document 302/FUNAI considers already fulfilled those dispositives necessary as regards such hearings.


     


    Here, we should highlight two points essential to this question. First, it is fundamental to observe that conduct and decisions relative to the UHE of Belo Monte are non-compliant in legal terms set forth in Convention 169, amply observed at the international level and already incorporated by Brazilian legislation – that the affected populations be adequately informed regarding the enterprise and all its consequences, demanding that they be consulted in advance and according to proceedings legitimate and of assured probity.


     


    One statement by cacique Raoni, on 14/10/2009, evidences that the indispensable dialogue and interlocution on the subject remains entirely insufficient, because this leader demands the presence of the authorities to inform and to discuss the project. In case to the contrary, he warns, the Kayapó are going to proceed to close ferry services crossing the Xingu river, with the interruption of transit on MT-322 (old BR-80), between the municipalities of Matupé and São José do Xingu (MT). On 26/10 a demonstration in repudiation of the positioning by the FUNAI was announced by the Kayapó leaders, calling for the convening of a large assembly at the headwaters of the Xingu river.


     


    The understandable resistance of the indigenous peoples, who are even now ignored as part of the planning and decision making process, could result in large scale conflicts, as the lives of the indigenous peoples themselves and governmental employees could be at risk, as well as the patrimony and the security of third parties could also be severely impacted. New defamatory campaigns against the rights of the indigenous peoples could feed deplorable circumstances resulting from haste, omission and non-compliance with applicable legal norms.


     


    Second, the conceptualization of “area of impact” cannot be restricted to its technical component, ignoring the socio-cultural variables. The definition of an area of “direct impact”, made exclusively by engineers and specialists mobilized by institutions interested in the enterprise, are not able, in any manner, to substitute for an evaluation absent, of a sociological and anthropological nature, of the consequences that the project would cause for the populations that live in the region, and not only in a strip as so restricted. Demanded are detailed investigations regarding the environmental and sociocultural conditions, present and future, which would affect the wellbeing and the destiny of the populations established in the region.


     


    It is fitting to alert public opinion and the highest authorities in the Brazilian government to the precipitousness with which approval of the project has been conducted, within an equivocal strategy and without attention to the legal dispositives. To proceed in this way would be to configure a social situation explosive and difficult to control, the enterprise may cause ecological and cultural consequences both malign and irreversible.


     


    Rio de Janeiro, 31 October of 2009


     


    João Pacheco de Oliveira


    Coordinator of the Commission for Indigenous Affairs/CAI/ABA

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  • 10/12/2009

    Newsletter 892 – Communities of the Xingu demand more debates on the Belo Monte hydroelectric plant

    On December 1st  and 2nd , more than 100 indigenous and riverine peoples of the Xingu river region in Pará participated in hearings and meetings in Brasilia addressing the project of the hydroelectric of Belo Monte, forseen for construction on that river. The Xingu communities – once again – call for the Federal Government to hold public hearings in Pará about the project.

     

    The communities of the Xingu evaluate the four hearings held in October as being insufficient for clarifying information about the impacts on the population affected, which could be caused by the hydroelectric of Belo Monte. As of yet, no response was given in these meetings to the questions posed by diverse specialists, like the specialists of the Expert Panel (see the Executive Summary of Expert Panel Reports in English). In addition to this, the Federal Public Ministry in Pará (MPF-PA) points to irregularities in the hearings, such as restrictions placed on the participation of the MPF-PA and the public in general.

     

    Due to the insufficiency of debate on the project, the MPF-PA introduced an action calling for the suspension of the licensing process for the project until new hearings are conducted. The Federal Court granted a stay in favor of the action by the MPF-PA, paralyzing the licensing, but the Federal Regional Tribunal (TRF1) suspended the decision.

     

    On December 1, the procurator Rodrigo Timóteo Costa e Silva, of Altamira criticized the absence of representatives of Eletrobras and of the National Foundation of Indigenous Affairs (FUNAI) from the hearing promoted by the Attorney General: “The government refuses to conduct more hearings, it refuses to hold hearings with the indigenous peoples, as mandated by the Federal Constitution, and ultimately frustrates the expectation of the persons who confront the Transamazônica for this debate here. The revolt by society is justified by the lack of public debate on this case of the Belo Monte”.

     

    On December 2, during the hearing in the Human Rights Commission of the Senate, the indigenous representatives Luis Xipaia and Tuíra Kaiapó reaffirmed that the peoples of the region do not accept the construction of the hydroelectric plant. “The Xingu is in my heart. I am going to defend the Xingu”, stated Tuíra. They question the opinion of the FUNAI that favors the work, because the people affected have not been heard, as established in Convention 169 of the UN ILO.

     

    Several senators present in the hearing also requesitioned more debates on the issue and criticized the absence of Eletrobras in the event sponsored by the Human Rights Commission. Senator José Nery of the Psol-PA will requisition the holding of new hearings regarding the work in the HRC and the convocation of the presidents of Eletrobras and of the IBAMA to provide clarifications to the Senate regarding the project.

     

    Pressure and questions on licensing

    The Environmental Impact Study (EIS) of the hydroelectric of Belo Monte is criticized by several specialists. Francisco Hernandez, researcher for the Interunit Program in Energy of the University of São Paulo stated that the EIS does not assure the navigation conditions on the Xingu river and the water and food security of the population in the region. The Study also underestimates the population that would be affected.

     

    In spite of all of the questions from the local community and from the specialists as to the technical, economic and social viability of the enterprise, the Federal Government continues to announce the auction for construction of the work – this being done prior to environmental licensing. The Minister of Mines and Energy, Edson Lobão, announced in November, the date that the IBAMA would release the licensing of the work. Yesterday, the director of licensing at IBAMA, Sebastião Custódio Pires, and the general coordinator of Infrastructure of Electric Energy for the agency, Leozildo Tabajara da Silva Benjamin, left their offices – without publicly confirming that they had been experiencing pressures.

     

     

    Brasilia, December 3 of 2009

    Indigenist Missionary Council

     

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    Executive Summary of Expert Panel Reports in English:  http://www.internationalrivers.org/files/EXEC%20SUMMARY%20ENGLISH_0.pdf

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  • 10/12/2009

    Newsletter 891 – Fazendeiros threaten Guarani community that retook traditional land in Mato Grosso do Sul

    A group of  farm owners and their private security forces threatened with gun fire and dogs the circa 250 Guarani Kaiowá who yesterday, Nov 25,  retook part of their traditional territory (Kurussu Ambá), near the municipality of Coronel Sapucaia, in Mato Grosso do Sul. The episodes of violence occurred yesterday and this morning.

     

    According to the report by leaders of the community, late at night, the approximately 10 cars appeared in the encampment and commenced shooting into the air with the intent to scare the indigenous people. Community members, terrified, hid in the forest, and on Thursday were still looking for those who were lost in the confusion. Indigenous statements also confirm that there was a Border Patrol vehicle  (Departamento de Operações de Fronteiras (DOF).

     

    The Guarani urgently request the presence, in the area, of the National Foundation for Indigenous Affairs (Funai) and the presence of the Ministério Público federal (MPF). The Federal Police also did not verify the the situation in the area. Besides for protection of the indigenous peoples, the presence of the Federal Police is necessary in order to make possible the presence of FUNAI service workers in the area, as they also have been threatened without police protection.

     

    In two years: deaths and injuries

    The area occupied is 5km from the Fazenda Madama, where, during a dispossession in January of 2007, private security guards murdered the shaman Julite Lopes, 70 years old. Even today, those responsible for the crime remain have not been apprehended.

     

    The community of Kurussu Ambá has been living for four years at the side of the highway MS289 that connects Amambaí to Coronel Sapucaia, where children are unable to even gain access to potable water. In this period, in addition to the murder of Julite, Ortiz Lopes, another leader was also murdered in July of 2007. And, according to indigenous reports, in May 2009 Osvaldo Lopes was assassinated. No investigation into these murders has been concluded. Another five indigenous members of the community have bodily scars from bullet wounds, having been shot during an attack by private security forces against the group.

     

    Since 2007, three children of the community have died from malnutrition because the community has no conditions for planting in the space in which they find themselves and do not receive sufficient food from the State. Health care is also precarious. The Guarani Kaiowá also denounce the joined forces of the farmers and police, which instigate situations in an attempt to criminalize the people. “We also deserve respect and consideration from the national and regional authorities”, state the leaders of the community.

     

    Brasilia, 26 November of 2009

    Indigenist Missionary Council

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  • 10/12/2009

    ORE ROIMÉ NDEREHE’YM (We miss you)

    Police, prison, court, judge, penal code, latinorum. These institutions rarely punish crimes committed against indigenous peoples. Because of this, the Guarani have no confidence in the justice of the whites. Known as the ‘theologians of the forest’, they believe only in prayer – porahei, from which they draw their strength and organization. Before an altar in a house in Pirajú, Mato Grosso do Sul, they produce the penetration sound of mimby  a wind instrument, they dance jeroky and intone sacred canticles, repeating thousands of times, without stopping, as in a litany recital: – Ore roimé nderehe’y! Ore roimé nderehe’ym…


     


    In English this means: “We miss you”. The prayer is in a language the appeals court judges ignore, but that the Nhanderu (Our Father) understands very well, because Guarani is the language of faith, for praying, singing, praise. In prayer they converse with Nhanderu and with the spirit of the Guarani teachers – Rolindo Verá and Genivaldo Verá – murdered by gunmen in Paranhos (MS), on the frontier with Paraguay.


     


    The absence of the two teachers was felt in the first National Conference on Indigenous Education, convened between Nov 16-20 in Luziânia, on the periphery of Brasilia, when they were honored with a moment of silence by more than 700 participants who discussed the organization of a responsible educational system, today, for more than 2700 indigenous schools throughout Brazil. In one of them, with more than 480 students, the children feel the absence of their teachers and they also pray: Ore roimé nderehe’ym.


     


    The last lesson


     


    Why are indigenous people armed only with chalk and eraser murdered? The question was posed to Guarani professor Avá Guyrapá Mirim, attending the Conference. He was friend of Genivaldo and Rolindo and their colleague in the Adriano Pires Municipal School. He said that on October 29 they were with the group that tried to retake the indigenous land Tekohá Ypo’í, where their grandparents are buried and that today is called the Fazenda São Luís, occupied by the landowner Firmino Escobar. This was the last class they taught.


     


    With this class, they taught a lesson written with their own blood: the indigenous people need to struggle for their rights. Circa 3,000 Guarani today live surrounded in the village of Pirajú – a small area of 2,118 hectares. Because of this, for the past two years, they have been seeking, in the Justice system, the possession of ancestral territory of which they were robbed. But process does not move because the titleholders threaten the technical groups from the National Foundation for Indigenous Affairs (FUNAI), charged with completing the identification studies for demarcation, and also by pressuring the governor of the state, André Puccinelli (PMDB – Party of the Brazil Democratic Movement,vixe, vixe!)


     


    The entry of the Guarani into the indigenous area occupied by the fazenda sought only to accelerate the anthropological study, which represents the only way to prevent the conflicts, because it determines which are and are not indigenous areas. However, gunmen expulsed the indigenous peoples: “They arrived shooting rubber bullets. They knocked the people to ground, beat and kicked them yelling: Here the land is not for bugres, this land is owned”.


     


    Prevented in this way from honoring their dead who are buried there, the Guarani dispersed into the forest. Nearly all returned to the village of Pirajú, with injuries and hematomas on their bodies; minus the two teachers who were disappeared. On November 7, the cadaver of one of them, Genivaldo, was found in the Ypo’í creek, wound around the branch of a tree, with two perforations in his body. The other, as of today, still has not been located.


     


    The indigenous people delivered a document to the Ministério Público Federal (MPF), reported yesterday, November 21, in the virtual community ‘indigenous literature’, by Guarani Chamirin Kuati Verá, denouncing “the armed violence of the  farmers” and indicated to the prosecutor Thiago dos Santos de Luz the names of the criminals: Joanelse Pinheiro, Toninho and Blanco. While they await the response, they chant and pray Ore roimé nderehe’ym.


     


    The farewell


     


    What follows was told by Avá Guyrapá Mirim, in conversation during the breaks at the National Conference on Indigenous Education in Luziânia. He asked that his Portuguese name not be published to avoid reprisals. He provided more information.


     


    Genivaldo, 21 years old, married, father of one child, taught communications sciences. His cousin, Rolindo, 28, with four children, was a forth grade teacher. Both were concluding the Ará Verá Guarani-Kaiowá Masters Course. Their respective wives were both in advanced stages of pregnancy. One day, they visited the graves of their grandparents, within the farm, and began to dream of recovering the land to live there with their families. One of Rolindos daughters, 10 years old, accompanied the father on the visit to the grave and on the retaking of the land.


     


    In a message written on a page in the notebook, in Portuguese, his second language, Rolindo described himself: “I am a Guarani indian, a person of many questions, I like to hear the elders, the counselors, the stories of the lives of the elder people brought from the time that the fazendeiros arrived in the place which they inhabited. To be happy today, all of these thoughts, which is our reality need to be registered or written on paper so that the children are able to at least hear, to remember or fully master it”. The quote was part of a banner denouncing his death.


     


     His Guarani Kaiowá teaching colleagues wrote a message of farewell, read in the Conference in which they said: “The two disappeared. They will not live in the lands that they wanted to live in, they will no longer produce gardens to feed their children, they will no longer educate their children, they will no longer dance quaxiré (Guarani ritual feast), they will not create new prayers, they will not be Tamõi (grandparents/elders). They will not see the law fulfilled. Because much, much more is delayed by the bullet that took their lives”.


     


    The Silence


     


    What is still surprising is the shocking silence, nearly complete, in the national media, about the murder of the Guarani teachers as much as regarding the National Conference on Indigenous Education, which drafts directives for indigenous schools, in an event in Brasilia, opened by the Minister of Education Fernando Haddad, with the presence of hundreds of indigenous peoples, speaking scores of different languages. If this is not news, I do not know what journalism is.


     


    The Conference approved creation of what are referred to as “ethno-educational territories”, which reorganizes bilingual and intercultural school education in new bases, respecting the territoriality of the indigenous peoples. As to Guarani territory, below is transcription of the words of Avá Guyrapá Mirim, from our conversation:


     


    “We are going to continue to struggle for the land that is already in our spirit, we believe in the force of prayer, in the dance, in the chant. Our greatest hope now is Nhanderu, who is going to orient us and give force for recuperating the land. The two died, but the dream of the Guarani never disappears”.


     


    The Brazil of generosity and solidarity needs to manifest its indignation, demanding the punishment of the criminals and supporting the struggle of the Guarani for recuperation of their lands. The voices of Brazil in solidarity need to suffocate the truculence of the other Brazil: the Brazil of cowardice, the indifferent Brazil, the cynical Brazil, the Brazil of omission, the Brazil that continues to treat the indigenous population in a colonialistic way.


     


    According to information from Avá Guyrapá Mirim, eight days after the murder of Rolindo, his wife, pregnant, gave birth to a son. One week later, Genivaldo’s wife brought a child into the light. The two orphans, still unnamed, bring a message of hope, that the Guarani people will not be swept from the face of the earth.

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  • 09/12/2009

    Indígenas são feridos por seguranças de fazendeiros

    Cerca de 20 pessoas do povo Guarani Kaiowá das aldeias de Sassoró e Porto Lindo foram feridas ontem, 8 de dezembro, em um confronto com seguranças particulares de fazendeiros da região do município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul. Cinco indígenas tiveram ferimentos mais graves e foram internados no hospital da cidade de Tacuru. Uma senhora de 73 anos está com o braço quebrado e deve ser transferida para Dourados.

     

    Os indígenas foram socorridos por um médico do posto da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que os encontrou à beira de uma estrada. Eles  apresentavam hematomas e cortes pelo corpo. Alguns ferimentos foram feitos com armas que disparam balas de borracha. Uma bala foi encontrada dentro da roupa de um ferido.

     

    As pessoas feridas faziam parte de um grupo de 40 indígenas que havia retomado há uma semana um pedaço de sua terra tradicional – Pueblito Kue – próxima à cidade de Iguatemi. Ontem, eles foram despejados por seguranças particulares de fazendeiros.

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  • 08/12/2009

    Jacir de Souza Makuxi recebe prêmio Chico Mendes

    Uma das maiores lideranças indígenas de Roraima, Jacir José de Souza, receberá hoje, 8 de dezembro o Prêmio Chico Mendes de Meio Ambiente de 2009. O prêmio vem reconhecer a luta de mais de 30 anos pela conquista da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, que teve sua legalidade reconhecida este ano pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


    O prêmio é um reconhecimento às iniciativas consideradas exemplares na superação e substituição de modelos predatórios e danosos ao meio ambiente por outros racionais e sustentáveis, que minimizem impactos sobre a Amazônia Legal.


    Jacir José de Souza ficou em 1º lugar na categoria Liderança Individual. A menção honrosa foi para Anderson Candiotto, de Mato Grosso. A história de vida de Jacir se funde com o início da luta pela garantia das terras indígenas em Roraima e a criação do Conselho Indígena de Roraima (CIR).


    Hoje com 62 anos, ele começou a participar da Assembleia Geral dos Tuxauas quando tinha 20 anos. Ainda jovem, em 26 de abril de 1977 foi escolhido tuxaua da Comunidade de Maturuca, o centro de resistência indígena em favor da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.


    Como liderança máxima de sua comunidade, convenceu os demais tuxauas da região das Serras a criarem conselheiros indígenas para ajudar os chefes de comunidades, que enfretavam dificuldades para liderar seu povo e para vencerem a luta contra o avanço dos garimpos, que destruía o meio ambiente e a vida dos índios, por meio do alcoolismo, prostituição, violência e doenças.


    As comunidades das demais regiões gostaram da idéia e também criaram seus conselheiros em todo o Estado. Esse foi o embrião para o surgimento do Conselho Indígena de Roraima (CIR), a maior entidade indígena brasileira, que goza de respeito internacional.


    Em 1988, o CIR foi fundado com o nome de Cinter (Conselho Indígena do Território do Estado de Roraima), que foi mudado para CIR com a criação do Estado, dez anos depois.


    No período de criação da entidade, Jacir foi o vice-coordenador. Como membro da organização, ajudou a criar a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), em 1989, com sede em Manaus (AM).


    Em 1991, ao cumprir sua missão na Coiab, foi eleito coordenador-geral do CIR, onde ficou à frente por quatro anos. Nesse período, recebeu um prêmio internacional pela resistência indígena. Sob sua coordenação, o CIR também recebeu um prêmio pela luta em favor dos direitos humanos e o 3º lugar no prêmio Chico Mendes.


    No cargo de tuxaua de Maturuca, permaneceu de 1977 até o ano de 2007, quando pediu afastamento. Atualmente, Jacir faz parte do CIR como coordenador regional das Serra, um dos principais braços de lutas em favor da defesa da terra.


    DEMAIS RESULTADOS – Na categoria Organização da Sociedade Civil o 1° lugar ficou com a Oficina Escola de Lutheria da Amazônia, e a menção honrosa com o Instituto Floresta Tropical, do Pará.


    Na categoria Negócios Sustentáveis o 1° lugar coube à Cooperativa Mista da Flora Tapajós, do Pará, e a menção honrosa à Associação Terra Viva de Agricultura Alternativa e Educação Ambiental, de Mato Grosso.


    A Associação de Moradores e Produtores da Reserva Extrativista Chico Mendes de Assis Brasil levou o 1º lugar na categoria Educação Ambiental, enquanto a menção honrosa foi para a Nativa FM, Associação Rádio Comunitária de Altamira, no Pará.


    Na categoria Saúde e Meio Ambiente houve apenas um ganhador: a Secretaria da Mulher Extrativista do Pará. Na categoria Município o 1° lugar foi para Marcelândia, em Mato Grosso, e a menção honrosa para Rio Branco, no Acre.

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  • 07/12/2009

    Grandes projetos de energia só dão lucro para alguns

    Elaine Tavares – Jornalista

     

    A água desceu do céu na cabeça daqueles que se recusam a vê-la encharcando campos produtivos. Dois dias de chuva forte e dois dias de intensos debates, justamente para discutir os destinos das águas e da energia neste país. Foi o Seminário Sobre Grandes Projetos de Energia, promovido pelo Movimento dos Atingidos por Barragens, na cidade de Cerro Negro, em Santa Catarina, lugar onde há mais de 20 anos se luta contra a construção de mais uma hidrelétrica no rio que corta o município. Mais de 400 pessoas participaram, dormindo em acampamentos mal arranjados e enfrentando os temporais. Isso é pouco, diziam, perto do que pode significar em destruição, a sanha construtora de barragens neste país. Daí o fato de ninguém se importar com as intempéries. Discutir o modelo de desenvolvimento lhes parecia mais importante do que clamar contra a chuva e as dificuldades passageiras.

     

    O que são as barragens

     

    Barragens são barreiras artificiais, feitas em cursos de rio para reter grandes quantidades de água. O propósito disso é redirecionar os mananciais, como em casos de enchentes, usar essa água para abastecer algum lugar, ou gerar energia. O uso desse tipo de modificação na natureza não é coisa nova, desde que o homem começou a manipular a natureza elas foram erguidas, principalmente onde havia escassez de água, para que durante as chuvas, o precioso líquido pudesse ser armazenado. Os árabes foram grande manipuladores das águas e as barragens mais antigas foram criadas na região do Oriente Médio e no Egito. Também na Índia antiga já se tem notícias deste tipo de ação para evitar alagamentos dos campos férteis nos períodos de cheia. Em Abya Yala (América Latina) igualmente os maias e os incas usavam esse recurso para armazenar água. Mas, é no período da Revolução Industrial – quando começa a se instalar o sistema capitalista – que este tipo de manipulação da natureza acontece para gerar energia em grande escala, e desde aí o processo avança para a construção de grandes hidrelétricas.

     

    No Brasil

     

    A febre das grandes barragens no Brasil começou nos anos 70, não por acaso, na década do milagre, em pleno regime militar, quando o desenvolvimentismo era a orientação nacional. A idéia era construir usinas hidrelétricas para, com a força das águas, gerar eletricidade para abastecer o parque industrial nacional que começava a se desenvolver. A primeira destas grandes barragens foi paradigmática, desalojando de uma só vez mais de 70 mil pessoas. Era a Barragem de Sobradinho, na Bahia, construída no curso do Rio São Francisco.

     

    Em 1975, a novela da rede Globo, Fogo sobre Terra, escrita por Janete Clair, uma das mais importantes escritoras deste tipo de folhetim, debateu o tema das barragens apontando a construção como a arrancada para o progresso, afinal, nunca se deve esquecer, a empresa dos Marinho nasceu no período militar com o propósito de criar mais-valia ideológica em nível nacional. O enredo mostrava a disputa entre o atraso (quem defendia a cidade) e o progresso (a construção da barragem). Na trama, uma mulher insiste em ficar na terra e a cena em que o lago cresce e alaga tudo é de arrepiar. Apesar da carga dramática do momento, a índia Nara (vivida por Neusa Amaral), a mulher que morre em silencioso protesto é apontada como “a louca”, a que se negou a entrar no tempo do progresso. Já o mocinho, Pedro, que também iria ficar e morrer, é convencido a sair porque sua mulher espera um filho. É a vitória da “racionalidade” e do progresso.

     

    Difícil foi para os brasileiros que sorviam o folhetim com paixão, desvincular a decisão do mocinho de suas próprias vidas. Se ele, que era o mais radical contra a barragem havia capitulado, porque não o resto do Brasil? E foi assim que, com o empurrão ideológico da Globo, a barragem de Sobradinho, em 1977, dois anos depois do fim da novela, criou um lago artificial de 4.214Km2, com capacidade para 37,5 bilhões de metros cúbicos, enterrando quatro cidades: Casa Nova, Sento Sé, Remanso e Pilão Arcado, além de outras dezenas de vilarejos. Sobradinho tem 11 hidrelétricas gerando 13 mil megawatts. Sá e Guarabira cantaram essa destruição na clássica “Sobradinho”, onde dizem: “o sertão vai virar mar, dá no coração, o medo que algum dia o mar também vire sertão…”

     

    Itaipu

     

    No ano seguinte ao alagamento de Sobradinho começa a construção da Usina de Itaipu, no Rio Paraná, e é anunciada a construção das usinas de Machadinho e Ita, no rio Uruguai. Tudo apontava para um vertiginoso crescimento econômico no Brasil e as empresas estrangeiras de construção faziam fila para abocanhar o filé. Itaipu foi o mega projeto dos militares, levantada em parceria com Paraguai, e que tem a maior capacidade de geração de energia do mundo. Instalada bem na fronteira com o Paraguai ela fornece 90% da energia usada por aquele país e 19% da que é consumida no Brasil. Mas, como o Paraguai usa bem menos do que é o seu direito no acordo, o Brasil compra o que sobra e o fazia por um preço bem abaixo do mercado, pelo menos até agora, quando o presidente Fernando Lugo decidiu virar o jogo e o governo Lula teve de re-negociar, passando a pagar o preço justo.

     

    Itaipu, tal qual Sobradinho, levou mais de uma década para ficar pronta. Cerca de 40 mil pessoas trabalharam ali, e para sua construção foram usados doze milhões de metros cúbicos de concreto (o que equivale a fazer 250 estádios do Maracanã) e outro tanto de ferro com o qual poderiam construir 380 torres como a famosa torre Eiffel, de Paris. Mas, o “crime perfeito”, como chamou o cantador popular mineiro Luiz Café, foi a destruição das Sete Quedas. Quando as eclusas da barragem foram fechadas, uma área de 1.500 quilômetros de terras produtivas e florestas foi inundada, levando de roldão as quedas que eram uma das mais belas formações naturais do planeta. “Vejo as águas correndo, os bichos morrendo, seus gritos de angustia e de dor. Vejo um lago sem leito, um crime perfeito, sem fé, sentimento ou amor”, lamentou Luis Café, numa canção que embalou o protesto das vidas da juventude sertaneja, no norte de Minas, naquele início dos anos 80. Hoje, a usina segue produzindo energia, e produzindo demais, como ficou comprovado no último apagão, provocado por excesso de geração.

     

    As gentes

     

    Mas, enquanto o Brasil ia “pra frente” nos anos do “milagre”, matando gente crítica nos porões, industrializando o país e modernizando a geração de energia, as gentes que viviam nas regiões atingidas pelas barragens passaram a viver seus dias de terror e abandono. Mais de um milhão de seres humanos perderam suas casas, terras e até as suas memórias. Grande parte das pessoas, como é comum no Brasil, não tinham posse das terras ou viviam de aluguel e, por isso, não tiveram qualquer apoio do governo. Apenas quem tem a escritura que prova a posse da terra ou da casa é quem recebe um imóvel quando desalojado para outros lugares. A solução, na maioria dos casos foi a migração para cidades próximas ou distantes, mas sempre na condição de um desterrado, sem qualquer possibilidade de melhora de vida. É aí que nasce o Movimento dos Atingidos por Barragens, para organizar essa gente toda. Segundo dados do MAB, mais de 70% das famílias atingidas seguem abandonadas pelo poder público. É bom lembrar que o governo não tem um órgão oficial para cuidar dos problemas dos desalojados, quem resolve isso é a própria empresa responsável pela construção das barragens. Agora, alguém aí acredita que uma empresa multinacional, dirigida desde o estrangeiro, possa se importar com a vida das gentes daqui? A resposta é um sonoro não!

     

    Cada lugar onde foi fincada uma grande barragem, hoje são mais de 600 no Brasil (duas mil se consideramos as barragens menores), deixou um rastro de destruição, seja ambiental ou humana. Daí a luta, que começou primeiro pela garantia das indenizações justas e pelo reassentamento. Mas, depois, com a compreensão do que significam as barragens e o conseqüente não barateamento da energia, o movimento passou a lutar contra o modelo energético como um todo. Essa articulação começou em 1989, no Primeiro Encontro Nacional de Trabalhadores Atingidos por Barragens, no qual foi feito um levantamento global das lutas e experiências dos atingidos em todo o país. Dois anos depois, em 1991, eles fazem o I Congresso dos Atingidos de todo o Brasil, quando se decide que o MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens – deve ser um movimento nacional, popular e autônomo, e que deve organizar e articular as ações contra as barragens a partir das realidades locais. Desde então, a cada três anos, o MAB realiza congresso e redefine suas metas.

     

    No ano de 1997, foi realizado o 1º Encontro Internacional dos Povos Atingidos por Barragens, com a participação de mais de 20 países, porque afinal, essa lógica desenvolvimentista – típica do sistema capitalista periférico – e de construções de grandes usinas existe em toda a América Latina, além da Ásia, África e Europa. Desde então, o movimento vem realizando debates e lutas em todo o país, buscando construir um projeto popular de modelo energético, que fuja desta proposta predadora.

     

    O Brasil é uma das nações do mundo que mais tem construído barragens, e tem alta dependência da hidroeletricidade, uma vez que 80% da energia elétrica vem destas represas. O que move esta loucura de construção de barragens é, obviamente, o interesse econômico de grandes empresas, muitas delas visceralmente ligadas a governos por “doações” milionárias as suas campanhas. Segundo membros do MAB, vários destes novos empreendimentos que hoje estão sendo erguidos no Brasil já mostraram problemas de legalidade, como é o caso da usina de Barra Grande, no Rio Pelotas, cujos estudos de impacto foram fraudulentos, uma vez que não informaram a inundação de florestas primárias. Também a hidrelétrica Estreito, no rio Tocantins chegou ao absurdo de divulgar que a inundação "ajudaria" os botos da região ameaçados, pois teriam sua mobilidade restringida e o manejo facilitado.

     

    Apesar de todos os protestos, documentos comprobatórios das irregularidades e mobilizações, o governo brasileiro segue comprometido com essa via de desenvolvimento, ignorando olimpicamente as alternativas propostas por pesquisadores, estudiosos e população. Faz ouvidos moucos para problemas como a perda de terras produtivas, expulsões e deslocamentos de milhares de pessoas, destruições de espécies animais e vegetais, alteração dos regimes hídricos, rebaixamento dos lençóis freáticos, alterações geográficas, mutações dos ecossistemas, entre outros. Surdo aos clamores das gentes, o governo ainda faz estudos para a construção de novas barragens até 2030, afinal, ainda há muitos abutres estrangeiros querendo meter a mão nos grandes rios brasileiros e, neste setor, o que importa são os ganhos de produção e não a vida das pessoas ou a natureza.

     

    Ao construírem uma barragem ou hidrelétrica para abastecimento de água, as multinacionais dominam o lago e recebem a concessão por 30 anos, com renovação para mais 30, isso sem contar o que ganham com a geração e distribuição de energia. Esta, no Brasil, é bastante nova, deve ter uns cem anos apenas. Segundo o MAB, até 1970 quando houve uma crise energética, o Brasil tinha 7.000 megawatts de energia instalada, hoje são mais de 90.000 megawatts. Isso significa que esta expansão foi coisa pensada. Com medo de ficarem sem energia, os países do capitalismo central transferiram para o chamado terceiro mundo as indústrias eletro-intensivas, que consumiam muita luz, como a do alumínio, por exemplo, que, para produzir uma tonelada do produto, gasta o que usa uma família durante nove anos. E, não bastasse isso, comeram o dinheiro público, apresentando-se para a construção das usinas, cuja verba vem dos empréstimos tomados do Banco Mundial. Plano perfeito: o governo se endivida, o povo paga a conta e os empresários enchem as burras.

     

    Outra forma de lucrarem com o Brasil são os contratos firmados para a compra de energia. Uma empresa estadunidense, a Alcoa, paga apenas 12 dólares, em contrato que vale por 20 anos, quando o custo da produção é de 20 dólares. Ou seja, na prática o governo está subsidiando a vida destes empresários em mais de 5 bilhões de dólares, enquanto o povo paga a taxa de luz mais alta do mundo, conforme denuncia o MAB. Além da Alcoa, também se beneficiam nesta festa de dinheiro público a General Eletric (EUA), a Tractebel (França/Bélgica) e a Votorantin (Brasil). Então, o que fica claro é que sempre que se ouve o discurso de que a construção de barragens vai trazer o progresso, é bom que as pessoas tenham bem claro para quem. Certamente não tem sido para o povo brasileiro, uma vez que o nosso país é campeão mundial em desigualdade social.

     

    Talvez por isso que estas empresas invistam tanto nas promessas de vida melhor quando visitam as famílias que serão atingidas. Elas criam ONGs que ajudam os empobrecidos, financiam rádios para repassar suas mentiras, constroem igrejas, fóruns, carros de polícia, instalam armazéns com coisas nunca vistas, visitam cada família e a enchem de falsas promessas. Tudo isso para dividir o movimento de resistência.

     

     O seminário em Santa Catarina

     

    Agora mesmo existe uma proposta de construir uma hidrelétrica na Amazônia, é a Belo Monte, para onde deve escorrer mais uma quantidade fantástica de dinheiro público, possivelmente captado em bancos internacionais, gerando novas dívidas para o povo pagar. E quem seriam os beneficiados com a energia gerada lá, a custa da destruição da floresta, dos bichos e de mais gente desterrada? O povo? Não! Conforme dados divulgados pelo MAB são a Companhia Vale do Rio Doce, que agora é do Citicorp, dos EUA, o B. H. Billington, da Inglaterra, grande produtora de alumínio, e a Votorantim.

     

    Fora essa gigante de Belo Monte ainda existem outros tantos projetos de médio porte em vários outros rios do Brasil. Tudo em nome do “desenvolvimento e progresso”, o que, na prática, significa desenvolvimento e progresso apenas para os grandes capitalistas. Por conta de todos esses elementos, os participantes do seminário de Cerro Negro chegaram à seguinte conclusão: a promessa de desenvolvimento para as gentes não se cumpre. Até porque, durante o encontro, faltou energia três vezes, e eles estavam cercados por barragens. “Vê, não garante o serviço”, afirma Marinho, dirigente do Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis. Outro dado importante levantado pelos participantes é quanto ao retorno que estas barragens dão aos municípios. Segundo dados do próprio município de Cerro Negro, eles ganham de royalties por conta da barragem apenas um milhão de reais, enquanto que a agricultura familiar rende aos cofres públicos mais de 10 milhões. Onde está a vantagem, então? A Usina de Paiquerê, no Rio Canoas, destruiu 180 mil pés de araucária, árvore nobre, mãe do pinhão, e em extinção. Como isso pode ser possível?

     

    Outro ponto que deve ser levado para novas discussões diz respeito ao “S” do BNDS (Banco Nacional de Desenvolvimento Social). Este banco, que financia as transnacionais com o dinheiro do trabalhador, através do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), jamais se preocupou com o social, mas tem isso incorporado ao nome. Então, o povo vai atrás do “S”.

     

    Outra mentira das empresas é de que as barragens geram emprego e renda. Hum…pra quem? A Alcoa tem 22 trabalhadores, com apenas seis atuando na usina. Toda a renda da empresa vai para o exterior. Já a Tractebel enviou no último ano quase dois bilhões para fora do país. O lucro é de quem? Na verdade, o modelo de desenvolvimento proposto para os países periféricos é o de geração de riqueza para os países centrais, exatamente como na época da conquista. É da natureza do sistema capitalista este tipo de modelo. Para que o centro siga rico, é necessário que a periferia se mantenha subdesenvolvida, com algumas ilhas de desenvolvimento aos moldes do sistema, apenas para manter azeitada a máquina. É o desenvolvimento do subdesenvolvimento, como já mostrou Günder Frank.

     

    A pergunta que fica é: mas então esse povo é conta a geração de energia? Não, não é. Mas existem outras formas de gerá-la e eles tem as propostas, os pesquisadores, os técnicos. Tudo está aí. Só que não interessa ao centro que a periferia se independentize, coisa que a elite lacaia de cada país se ocupa em garantir. Que o diga Bautista Vidal, cientista brasileiro que vive gritando seus projetos sobre a biomassa, energia limpa e inesgotável gerada pelo sol, rios e matas, sem ser levado em conta pelos governantes.

     

    E outra. Esse povo é contra o desenvolvimento? Sim, se for o desenvolvimento capitalista predador que suga tudo para os países centrais. A proposta que saiu do seminário é a da luta por outro jeito de organizar a vida que envolva não só a energia, mas tudo. Coisa difícil, é certo. Mas não impossível. Experiências de desenvolvimento endógeno, aliadas a políticas de estado voltadas para a maioria da população, com participação direta e respeito pelo saber popular, podem ocasionar aquilo que Samir Amin chama de “desconexão”, que seria a construção efetiva de outro modelo de sustentação da vida fora do sistema capitalista. Nunca é demais lembrar que este sistema que hoje é hegemônico no mundo não existiu desde sempre. Ele tem pouco mais de 300 anos e já mostra o quanto seu poder de destruição é alto. Quem consegue ter uma visão totalizante do mundo vê que mudar o modelo de organização da vida já deixou de ser uma proposta que se expressa só no campo da política. O que está em jogo é a vida humana mesma. As mudanças climáticas, a camada de ozônio, o degelo e o aumento dos oceanos, frutos da predação capitalista, apontam para uma só direção, parafraseando Simón Rodríguez, o grande mestre de Bolívar: “Ou inventamos, ou estamos perdidos”.

     

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