• 17/04/2010

    Nota do Cimi sobre a transferência de lideranças Tupinambá para o Rio Grande do Norte

    O Cacique Rosivaldo Ferreira da Silva (“Babau”) e seu irmão, Givaldo Ferreira da Silva, presos preventivamente por decisão do juiz federal Pedro Holliday, de Ilhéus, foram transferidos ontem, sexta-feira, para a penitenciária federal em Mossoró (RN). As informações dão conta que a Polícia Federal em Salvador, onde ambos se encontravam detidos, temia que uma manifestação se aglutinasse em frente à sua carceragem, com protestos contra a manutenção da prisão de Babau e Givaldo.

     

    Babau foi preso na madrugada do dia 10 de marco, enquanto dormia em sua casa com a família, na aldeia na Serra do Padeiro, no interior da Terra Indígena Tupinambá, numa ação de evidente violação de residência, por agentes da PF não identificados. Chegou à delegacia em Ilhéus muitas horas depois, com hematomas no rosto e dores nos rins que perduraram por vários dias. Givaldo foi preso em frente à garagem onde entregava seu carro para consertos, em Buerarema.

     

    O Presídio Federal de Segurança Máxima de Mossoró abriga 83 presos vindos de outros presídios do país, acusados de tráfico de entorpecentes, formação de quadrilha, homicídios e assaltos, entre outros crimes. Babau e Givaldo não estão condenados, mas respondem a inquéritos suscitados por denúncias de fazendeiros e outros que se opõem à demarcação do território Tupinambá. O próprio Ministério Público Federal contesta a imputação das acusações a eles – e a outras lideranças Tupinambá – pela Polícia Federal, e impetrou três habeas corpus para libertá-los. A Funai, no habeas corpus que impetrou em favor de Babau, insiste no cumprimento do parágrafo único do artigo 56 da Lei n 6.001/73, que permite que os indígenas permaneçam à disposição da justiça no posto de atendimento da Funai mais próximo da terra indígena de origem.

     

    Para o Conselho Indigenista Missionário, a transferência destas duas importantes lideranças indígenas do país para um presídio federal de segurança máxima constitui-se em mais uma ação arbitrária da Polícia Federal e reforça a convicção de que tais prisões têm cunho iminentemente político, sendo uma evidente represália diante da importante vitória judicial conquistada pelo povo Tupinambá, há poucos dias, junto ao Tribunal Regional Federal, 1ª Região, de Brasília, que assegurou a permanência dos mesmos na posse de suas terras tradicionais, antes invadidas por latifundiários e políticos da região. O povo Tupinambá deve ter seus direitos constitucionais respeitados. A efetivação tardia destes direitos pelo Estado brasileiro não pode pretextar ações de criminalização por parte de órgãos deste mesmo Estado contra suas lideranças, sob os aplausos de fazendeiros, empresários e políticos locais, invasores das terras tradicionais deste povo.

     

    Brasília, DF, 17 de abril de 2010.

     

    Conselho Indigenista Missionário – Cimi

     

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  • 16/04/2010

    MPF irá recorrer da suspensão de liminar de Belo Monte

    O Ministério Público Federal vai recorrer contra a suspensão da liminar que impedia o leilão da Usina de Belo Monte, no Pará. A liminar foi cassada hoje pelo presidente do Tribunal Regional Federal 1ª Região, Jirair Aram Meguerian, permitindo que o leilão seja realizado na próxima semana.

     

    O procurador regional Renato Brill de Góes vai entrar com agravo interno no TRF1, pedindo que o processo seja avaliado pela Corte Especial do Tribunal. Segundo ele, causa estranheza ao MPF a rapidez com que a decisão foi tomada. “Foge à rotina do TRF1 decidir sobre um assunto tão complexo como este em cerca de 3 horas”, afirmou, ao ressaltar que a notícia saiu na imprensa antes mesmo de o MPF, que é parte no processo, ser comunicado.

     

    Assessoria de Comunicação

    Procuradoria Regional da República – 1ª Região

    Telefone: (61) 3317-4583 / 9316-4724

    [email protected]

     

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  • 16/04/2010

    Belo Monte: 12 questões sem respostas

    Por Dion Márcio C. Monteiro

     

    Encravado na Amazônia brasileira, o Xingu é um dos mais importantes rios da região. Dele dependem aproximadamente 14 mil indígenas do Mato Grosso e Pará, além de centenas de comunidades compostas por ribeirinhos, pescadores, extrativistas, quilombolas e agricultores familiares. Tiram sua alimentação das águas deste rio, e o utilizam como meio de transporte — não raro, o único. Antes das expedições holandesas, inglesas e portuguesas ao Xingu, ocorridas principalmente no século 17, a população indígena era muito maior, com aldeias que contabilizavam até 3 mil habitantes. Com o passar do tempo, a situação só tem se agravado para as comunidades originárias e tradicionais existentes na região.

     

    Em 1975, sob o comando dos militares que governavam o Brasil desde o golpe de Estado de 1964, a Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A (Eletronorte) iniciou os estudos do Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu, primeiro passo no projeto de construção da Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte. Foi responsável por este levantamento o Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores S.A (CNEC Engenharia), empresa naquele momento integrante do grupo Camargo Correa, um dos maiores interessados em participar do processo de construção de Belo Monte.

     

    O ano de 1989 é um marco no processo de resistência ao então chamado Complexo Hidrelétrico do Xingu (o conjunto então proposto, sete barragens no curso do rio). Realizou-se em Altamira, Pará, o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu. Reuniu aproximadamente três mil pessoas, entre lideranças indígenas como Raoni Metuktire (cacique Kayapó), Marcos Terena e Ailton Krenak; o então diretor da Eletronorte José Antônio Muniz Lopes (que se tornou presidente da Eletronorte no governo FHC e preside agora a Eletrobrás; o cantor inglês Sting; além de centenas de ambientalistas e jornalistas.

     

    A enorme indignação dos indígenas e demais povos da floresta, e sua intensa repercussão internacional, forçaram o governo a recuar, mudar de estratégia e refazer seu projeto. Porém a ponto de levar empresários e políticos influentes a desistir de suas intenções iniciais. Dezesseis anos depois, em agosto de 2005, a Eletrobrás firmou acordo de cooperação com as construtoras Norberto Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Correa para a conclusão dos Estudos de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental da UHE Belo Monte. Em maio de 2009 o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) foram entregues ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão brasileiro responsável pela análise destes documentos e posterior emissão das licenças para a realização do leilão e obras da hidrelétrica.

     

    Em fevereiro de 2010, o governo brasileiro emitiu a chamada Licença Prévia (LP) que autoriza o leilão de Belo Monte. Além das empreiteiras já citadas, teve apoio do grupo francês GDF Suez; de importantes grupos eletro-intensivos e mineradores, como Votorantim, Vale e Alcoa; diversos empresários; governadores, prefeitos e parlamentares. Mas por que os povos do Xingu lutam, há mais de vinte anos, contra a construção desta hidrelétrica — apelidada de “Belo Monstro” pelos moradores e moradores da região? A resposta parece ser clara para quem conhece a floresta e o rio, mas aparentemente “incompreensível” para quem mora a milhares de quilômetros de distância, no centro-sul do Brasil.

     

    O EIA/RIMA de Belo Monte foi elaborado pela Leme Engenharia, afiliada ao Grupo Tractebel Engineering, por sua vez vinculado ao grupo GDF Suez, um dos possíveis participantes do leilão para construção da UHE Belo Monte. Em outubro de 2009, cinco meses após a versão final do documento ter sido entregue ao Ibama, chegou ao mesmo órgão, e ao Ministério Público Federal (MPF), um relatório alternativo, de 230 páginas, intitulado “Análise Crítica do Estudo de Impacto Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte”. Foi elaborado por mais de quarenta pesquisadores. Antropólogos, sociólogos, zoólogos, biólogos, etimólogos, doutores em energia e planejamento de sistemas energéticos, historiadores, cientistas políticos, economistas, engenheiros, hidrólogos, ictiólogos, entre outros, compõem um grupo denominado Painel de Especialistas. Ligados a universidades e centros de pesquisas nacionais e internacionais, eles fizeram uma análise detalhada dos estudos de Belo Monte.

     

    Geração média será muito menor que a anunciada.

    Lago desalojará 20 mil famílias e custo da obra, financiado pelo BNDES, pode chegar a R$ 30 bi

     

    Seu relatório levanta várias interrogações ainda sem respostas, além de diversas outras questões que foram abordadas de forma incorreta ou inconsistente no EIA elaborado pela empresa contratada pela Eletrobrás. Reúne uma grande quantidade de informações instigantes.

     

    1. O primeiro fator a chamar atenção – e um dos menos destacados pelo governo federal – é a destinação da energia a ser gerada UHE Belo Monte. Aproximadamente 80% da eletricidade atenderá as empresas do Centro-Sul do país. Até 20%, caso a negociação realizada entre a União e o governo do Pará se concretize, ficarão para atender empresas eletro-intensivas deste estado, principalmente as Vale e Alcoa. Gerarão vantagens competitivas para estes grupos no cenário internacional, mas não proverão nem 1 quilowatt (KW) para as comunidades amazônicas que até hoje não possuem energia elétrica.

     

    2. Também não é divulgado que a energia prometida (aproximadamente 11 mil megawatt (MW), só será entregue durante quatro meses no ano. Em outros quatro meses a usina funcionará apenas com 30% a 40% de sua capacidade máxima; nos quatro meses restantes, não gerará praticamente nenhuma energia. A média anual ficará em torno de 4,5 mil MW, segundo os dados da própria Eletrobrás – uma média muito baixa quando se faz a relação custo-benefício, podendo inclusive inviabilizar financeiramente o projeto.

     

    3. O estudo entregue pela Eletrobrás ao IBAMA não informa que mais de 20 mil pessoas serão obrigatoriamente deslocadas das áreas onde vivem, deixando para trás suas relações sociais e econômicas, além de elementos materiais de suas memórias. Chama atenção que o EIA utiliza como parâmetro a média brasileira de componentes por grupo familiar, entre três e quatro pessoas. Na região amazônica, porém, a média é outra. A bibliografia disponível indica que o grupo familiar é composto, em média, por 5,5 a 7 pessoas. As conseqüências deste equívoco são graves, pois ao subestimar a população remanejada não é possível pensar corretamente as estruturas e equipamentos sociais necessários para atender quem precisará de moradia, escola, posto de saúde, estradas e outros equipamentos públicos. Problemas semelhantes já se manifestaram nas construções das hidrelétricas de Tucuruí (PA), Balbina (AM) e Samuel (RO).

     

    4. O EIA de Belo Monte afirma que o reservatório, com 516 Km², atingirá diretamente três municípios: Altamira, Vitória do Xingu e Brasil Novo. Porém, especialistas afirmam que Anapu e Senador José Porfírio também serão afetados pelo lago. O estudo oficial diz que 11 municípios sofrerão impactos sócio-econômicos e ambientais da hidrelétrica: Altamira, Senador José Porfírio, Anapu, Vitória do Xingu, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Uruará, Brasil Novo, Gurupá e Medicilândia, perfazendo mais de 300 mil habitantes. Pautado nesta informação, o MPF tem apresentado uma das contestações ao processo de licenciamento. Se o próprio EIA informa que onze municípios sofrerão impactos, sustentam os procuradores do Ministério Público, então não são suficientes as quatro audiências públicas realizadas – em Belém, Altamira, Brasil Novo e Vitória do Xingu. Faltaram a participação, o amplo debate e os esclarecimentos à população afetada, razões de ser das audiências.

     

    5. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), afirmou, em outubro de 2009, que o custo de Belo Monte seria de 16 bilhões de reais. Cinco meses depois, e um mês após a emissão da LP, a EPE reavaliou este custo, estimando-o em aproximadamente R$ 20 bilhões. As empreiteiras, principais interessadas na construção da usina, avaliam que o valor final não será menor que R$ 30 bilhões. Esta indefinição sobre o custo total da obra impossibilita uma segura avaliação em relação ao custo-benefício e à viabilidade econômica. É importante frisar que não estão sendo consideradas a rede de transmissão de energia, subestações, e outras estruturas necessárias ao completo funcionamento do complexo hidrelétrico. Em março de 2010, a EPE também elevou, em mais de 20% (de R$ 68 para R$ 83), o preço-teto da energia vendida nos leilões da Usina de Belo Monte.

     

    6. Os empreendedores estimam que aproximadamente 100 mil pessoas migrarão para a região, principalmente rumo à cidade de Altamira. Alguns especialistas falam que este número, como outros informados pelo governo, também está subestimado. Calculam, amparados no que ocorreu em obras semelhantes, um mínimo de 150 mil pessoas. A Eletrobrás observa no EIA/RIMA que 18 mil empregos diretos serão gerados no pico da obra, no terceiro e o quarto anos de construção. Somados os 23 mil empregos indiretos previstos, seriam 41 mil postos de trabalho. Nas contas do próprio governo, portanto, aproximadamente 60 mil pessoas que migrarão não terão emprego em nenhum momento. A obra deve durar dez anos. No final da construção, a quantidade de empregos estimados é de apenas 700 diretos e 2.700 indiretos. O EIA/RIMA avalia que 32 mil migrantes deverão ficar na região após o termino da obra, a maioria em Altamira.

     

    Índios não foram ouvidos adequadamente. Emissões de gases-estufa podem estar subestimadas. Certas condições do Ibama só serão conferidas anos após conclusão da usina

     

    7. De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) o metano (CH4) é um gás de efeito-estufa que causa um impacto 25 vezes maior no aquecimento global que o gás carbônico, por tonelada emitida. As hidrelétricas são responsáveis pela liberação de metano, pois a vegetação que fica submersa com a formação do lago (no caso de Belo Monte, com mais de 500 Km²), libera, ao se decompor, grandes quantidades do gás. A produção de CH4 também ocorre com o processo de passagem da água pelas turbinas e vertedouros da hidrelétrica, algo ignorado pelo EIA/RIMA. As grandes hidrelétricas agravam em especial esta situação, pois quanto maiores a área alagada e a água movimentada, maior a emissão de metano.

     

    8. O EIA/RIMA afirma que serão afetadas diretamente pela usina de Belo Monte as Terras Indígenas Paquiçamba (do povo Juruna), e Arara da Volta Grande do Xingu (do povo Arara), além da Área Indígena Juruna do Quilômetro 17 (também do povo Juruna). O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) afirma que também será afetada diretamente a Terra Indígena Trincheira Bacajá (dos povos Kayapó e Xicrin). Porém, mesmo reconhecendo este impacto direto, o governo recusa-se a realizar as oitivas indígenas, conforme determinam o Artigo 231 da Constituição e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Este também é um dos principais questionamentos levantados pelo Ministério Público Federal.

     

    9. Com a construção da barragem principal da usina de Belo Monte, uma área de aproximadamente 100 quilômetros, na chamada Volta Grande do Xingu, terá a sua vazão de água reduzida a algo em torno de 30% do fluxo atual. Sobre isso, o parecer técnico nº 114/2009, assinado por seis analistas ambientais do Ibama, e um dos documentos básicos para a emissão da LP, é claro. Diz o parecer: “o estudo sobre o hidrograma de consenso não apresenta informações que concluam acerca da manutenção da biodiversidade, a navegabilidade e as condições de vida das populações do TVR [Trecho de Vazão Reduzida]”.

     

    10. Para que as águas do rio Xingu possam fluir da barragem principal até as 20 turbinas que estão previstas para Belo Monte, serão abertos dois gigantescos canais no meio da floresta, o que movimentará aproximadamente 150 milhões de metros cúbicos de terra, e 60 milhões de metros cúbicos de rocha, equivalentes à movimentação de material realizada na abertura do Canal do Panamá. Os impactos não foram totalmente contabilizados no EIA/RIMA de Belo Monte, além de não ter sido fornecida informação clara sobre o local onde o material retirado será depositado, caso a obra avance.

     

    11. O parecer técnico nº 114/2009 também afirma que “tendo em vista o prazo estipulado pela Presidência [do Ibama], esta equipe não concluiu sua análise a contento. Algumas questões não puderam ser analisadas na profundidade apropriada, dentre elas as questões indígenas e as contribuições das audiências públicas”. Porém, em relação ao que puderam identificar, os analistas ambientais destacam, além das questões referentes ao TVR, o não-dimensionamento a contento dos impactos decorrentes do afluxo populacional para a região. Em consequência, podem ser insuficientes as medidas que tentarão preparar a região para receber tal afluxo, além de estar indefinida a responsabilidade de cada agente público nas ações necessárias. Um terceiro elemento apresentado no parecer 114/2009 é um elevado grau de incerteza em relação ao prognóstico da qualidade da água, em especial no reservatório dos canais da hidrelétrica.

     

    12. A Licença Prévia nº 342/2010, emitida pelo Ibama em 1º de fevereiro de 2010, apresentou 40 condições para a execução da obra. O cumprimento de várias delas, porém, só poderá ser atestado após a conclusão e pleno funcionamento da obra. É o caso da garantia de qualidade da água, navegação e modos de vida da população da Volta Grande do rio Xingu. A licença também posterga a apresentação das estratégias para garantir a infra-estrutura que antecede as obras. Ela só será definida depois da escolha da empresa que gerará a energia. Estas indefinições estão sendo questionadas por diversos movimentos sociais, ONGs e Ministério Público. Entende-se que não é possível adiar o atendimento destas condicionantes. Após realizado o leilão, a pressão política e econômica do consórcio vencedor para o rápido início dos trabalhos será muito mais forte. Haverá enorme risco de que fiquem à margem do debate fatores importantes para a preservação da vida, e do próprio rio Xingu.

     

    Alternativas: recorrer a fontes limpas, debater novo paradigma de produção e consumo, rever relações entre ser humano e natureza

     

    Estes doze pontos, levantados a partir do exame do EIA/RIMA e do relatório do Painel de Especialistas, não esgotam as questões existentes. Uma destas é o perigo iminente de se retomar o projeto original para a construção de hidrelétricas no rio Xingu. Ele previa sete represas, número mais tarde reduzido para cinco. As indefinições existentes sobre Belo Monte torna incerta a viabilidade econômica, o que pode despertar a tentação de “completá-la”. O volume de energia entregue pela usina equivalerá a cerca 39% de sua capacidade máxima de geração – enquanto a recomendação técnica é de pelo menos 55%. Nada impede que o governo, no futuro, proponha “otimizar” o empreendimento construindo novas barragens no Xingu.

     

    É interessante também verificar o envolvimento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para financiar até 80% de Belo Monte, a instituição precisará se capitalizar, principalmente depois que a EPE reavaliou o custo da obra para R$ 20 bilhões. O banco também financiar o projeto em até 30 anos, dos quais cinco de carência e 25 de amortização. Atualmente, a diretoria do BNDES permite apenas o financiamento em 25 anos, dos quais 20 de amortização. As taxas de juros para o empréstimo ao consórcio ganhador serão as menores do mercado. Vale lembrar que uma das principais fontes de recursos do BNDES é o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), um fundo especial destinado ao custeio do seguro-desemprego, abono salarial e financiamento do desenvolvimento econômico dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil.

     

    Belo Monte é um dos maiores investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. Como tal, tem recebido atenção especial. Isto ficou particularmente claro em fevereiro de 2010. A Advocacia-Geral da União (AGU) ameaçou processar membros do MPF que se contrapõem ao licenciamento e construção da usina, alegando que as ações judiciais propostas por eles são “sem fundamento, destinadas exclusivamente a tumultuar a consecução de políticas públicas relevantes para o país”.

     

    Diversas comunidades indígenas já deixaram clara sua oposição à construção de Belo Monte. Uma das mensagens foi expressa em carta enviada em 1º de novembro de 2009, ao presidente Lula, pelos povos indígenas Mebengôkre (Kayapó), Xavante, Yudjá (Juruna), Kawaiwet (Kaiabi), Kisêdjê (Suiá), Kamaiurá, Kuikuro, Ikpeng, Panará, Nafukua, Tapayuna, Yawalapiti, Waurá, Mehinaku e Trumai, habitantes da bacia do Rio Xingu e das regiões circunvizinhas. Reunidos na aldeia Piaraçu (Terra Indígena Capoto/Jarina), afirmaram textualmente: “Caso o governo decida iniciar as obras de construção de Belo Monte, alertamos que haverá uma ação guerreira por parte dos povos indígenas do Xingu. A vida dos operários e indígenas estará em risco e o governo brasileiro será responsabilizado”.

     

    O modelo de desenvolvimento implementado na região amazônica tem sido historicamente pautado nos grandes projetos de exploração vegetal, mineral, e hídrica. Isto pode ser verificado nas hidrelétricas de Tucuruí (PA); Curuá-Una (PA); Balbina (AM); Samuel (RO); nos projetos de exploração de ouro em Serra Pelada, no município de Curionópolis, realizado por uma cooperativa de garimpeiros; na exploração de ferro em Parauapebas, realizado pela Vale; na exploração de bauxita em Juruti, realizado pela Alcoa; exploração de níquel em Ourilândia do Norte, pela Vale; exploração de bauxita em Oriximiná, pela Mineração Rio do Norte/Vale; exploração de Cobre em Canaã dos Carajás (Vale); e exploração de bauxita em Paragominas (mais uma vez, Vale). Todos os projetos citados estão localizados no Pará.

     

    Data do final do século 16 o início da exploração dos recursos naturais da Amazônia. Foi sempre um processo autoritário, que se estendeu na fase “moderna”, a partir do final dos anos 1930. O processo tem demonstrado a insustentabilidade do atual modelo de desenvolvimento e, em especial, a urgência de alternativas. Elas incluem um cardápio de transformações. A energia pode ser gerada a partir de fontes limpas: solar, eólica, resíduos da biomassa não-oriundos de monoculturas. O paradigma de desenvolvimento pode perfeitamente estabelecer harmonia entre a natureza e os seres humanos, garantindo a existência primeira do planeta. A insistência no atual padrão ampliará os desastres climáticos e ambientais, já em estágio avançado.

     

    Dion Márcio C. Monteiro é economista do Instituto Amazônia Solidária e Sustentável (IAMAS), doutorando em Sociologia na Université Paris-Nord (França), e componente do Comitê Metropolitano do Movimento Xingu Vivo para Sempre.

     

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  • 16/04/2010

    TRF1 cassa liminar que suspendia leilão e licença de Belo Monte

    Nesta sexta-feira, 16 de abril, o presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), Jirair Meguerian, analisou recurso da Advocacia Geral da União (AGU) e derrubou liminar da Vara Única de Altamira – PA, que impedia o leilão de Belo Monte marcado para o próximo dia 20 de abril e cassava a licença prévia concedida pelo Ibama para a hidrelétrica.

     

    O juiz federal de Altamira, Antonio Carlos de Almeida Campelo, havia concordado com o Ministério Público Federal em uma das ações civis públicas que tratam das irregularidades no empreendimento. Assim, na última quarta-feira, a liminar havia sido concedida pelo fato de o juiz ter visto perigo de dano irreparável, com a iminência da licitação.

     

    O argumento da AGU, que atuou no processo pedindo a Suspensão da Execução Liminar, é de que “a suspensão do leilão e da licença ambiental ofenderia a ordem administrativa, já que provocaria um tumulto no mercado de distribuição de energia elétrica” (site da AGU).

     

    A luta continua

     

    Ontem, representantes do Movimento Xingu Vivo para Sempre e do Cimi haviam registrado uma renovação de esperança com a liminar concedida. Agora, como colocou Antônia Melo, do Movimento Xingu Vivo para Sempre, resta continuar lutando contra a construção da hidrelétrica. “Vamos continuar nos manifestando para que este projeto seja cancelado. O movimento não pode parar!”, declarou.

     

    Para o Secretário Executivo do Cimi, Eden Magalhães, a decisão do TRF1 significa que a luta precisa continuar. “O Cimi lamenta a decisão do TRF1, que defende um projeto cheio de falhas e inconstitucionalidades. Mas o que temos que fazer é seguir na luta, com os povos indígenas cada vez mais unidos contra este projeto de morte”, afirmou.

     

    A Aneel, que já havia suspendido o leilão do próximo dia 20, voltou atrás e reabriu os prazos para depósito de garantias dos interessados em participar do leilão de hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA). Movimentos e organismos contrários à obra devem realizar manifestações no dia 20 de abril, contra o leilão.

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  • 16/04/2010

    ‘Eles roubaram nossa terra, lançaram veneno em nosso ar, e poluíram nossa água’

    Nesta quinta-feira, dia 15, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) recebeu mais de cem ativistas dos cinco continentes. Em audiência pública lotada, foi lançado o “Dossiê dos impactos e violações da Vale no Mundo”. A ação faz parte do I Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale, que ocorre no Rio de Janeiro desde segunda-feira (12). Sentados nas cadeiras, no chão e do lado externo, os participantes ouviram denúncias contra a empresa, por parte de trabalhadores de diversos países. Canadá, Nova Caledônia, Peru e Moçambique, por exemplo, intercalaram denúncias com as caravanas de estados brasileiros.

    “Eles roubaram nossa terra, lançaram veneno em nosso ar, e poluíram nossa água”, protestou James Wester, do Canadá. O país trouxe uma delegação para o encontro. No Canadá, três unidades da Vale-Inco estão em greve, duas delas há nove meses completados essa semana. “Moçambique é um país que precisa muito de desenvolvimento. A Vale chega prometendo um monte de coisa. A população aceita muito fácil. Eles não cumpriram nada, não pagaram pela terra, e estão hoje presentes em todo o estado moçambicano”, disse Jeremias, trabalhador da Vale Moçambique.

    “Não sei se vocês dimensionam o que está acontecendo aqui. O imperialismo brasileiro está nascendo. As empresas brasileiras se voltam para explorar força de trabalho em outros países”, afirmou a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Virginia Fontes. Para Virgínia, a teoria geopolítica de Ruy Mauro Marini, que nos anos 1970 falava do subimperialismo brasileiro, não cabe mais no contexto atual. Agora, mesmo priorizando produtos primários, o Brasil já participa do controle hegemônico capitalista.

    “O Estado brasileiro tem seu papel, um jeito novo, muito sutil, de manter as privatizações. O grande financiador de fusões e incorporações no Brasil é o BNDES. No último ano, o país foi onde mais se teve fusões no mundo, 25% do total”, disse o deputado federal Chico Alencar (PSOL/RJ). Também esteviveram presente os deputados estaduais Paulo Ramos (PDT/RJ) e Marcelo Freixo (PSOL/RJ), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, que coordenou a mesa.

    Após a audiência, os manifestantes seguiram a pé até a sede da Vale. Os 150 ativistas que vieram ao Rio de Janeiro, sede da empresa, somaram-se a outros militantes e, em fila, marcharam pelo Centro da cidade. Em frente à Vale, um bolo foi cortado e servido a funcionários da empresa, representando, simbolicamente, os nove meses de greve dos canadenses. Discursos inflamados seguiram-se por toda parte. A direção da empresa não se manifestou.

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  • 16/04/2010

    Terra: mercadoria ou vida?

    A Semana dos Povos Indígenas 2010 está em sintonia com Campanha da Fraternidade Ecumênica e tem como tema: “Terra: Mercadoria ou Vida?” motivando-nos a pensar nas formas como a maioria dos homens e mulheres relaciona-se com a terra, tratando-a como fonte de lucro e de recursos a serem explorados exaustivamente. Conseqüência dessa exaustão é a ameaça da vida no planeta. Nos últimos cinqüenta anos a humanidade consumiu mais recursos ambientais do que nos últimos dois mil anos.

     

    A Semana visa, portanto, a reflexão do modelo de desenvolvimento econômico imposto ao Brasil e suas consequências para os mais de 240 povos que lutam pela garantia de seus direitos fundamentais.

     

    Segundo dados do Conselho Missionário Indigenista (Cimi), a população indígena no Brasil está estimada em mais de 800 mil pessoas que vivem em realidades sociais bem distintas, desde povos em situações de isolamento até os que vivem nas periferias das grandes cidades. Das 27 unidades da Federação, 24 têm povos indígenas, num total de 230 povos que convivem com a sociedade nacional, falando 180 línguas maternas. Além destes, há 67 povos indígenas em situação de isolamento e risco de extinção ou ainda não contatados. Destes, segundo o Cimi/RO, 15 estão no Estado de Rondônia. A maioria dos povos ainda vive de suas economias tradicionais. A base de suas relações comerciais é a troca ou a venda de produtos confeccionados nas aldeias, como a farinha, o artesanato e outros. A economia indígena pode ser considerada um exemplo de auto-sustentabilidade e integração com o meio ambiente, na medida em que as populações indígenas sobreviveram e se reproduziram historicamente segundo modelos próprios.

     

    As relações do “bem viver” estabelecidas pela maioria dos povos indígenas fundamentam-se na reciprocidade entre as pessoas, na amizade fraterna, na convivência com outros seres da natureza e num profundo respeito pela terra. É importante ressaltar que as semelhanças e diferenças entre os seres que vivem no planeta Terra ultrapassam o conceito da unidade na diversidade. “Não há unidade na diversidade, mas é semelhança e diferença, porque quando se fala de diversidade só se fala de pessoas”, diz o chanceler das Relações Exteriores da Bolívia David Choquehuanca.

     

     Se considerarmos as grandes contribuições desses povos à nossa sociedade, vamos encontrar entre seus ensinamentos o de saber conviver com a terra, tratando-a com respeito, cuidado e profundo zelo. Por isso, seu modo de viver e sua resistência, questionam o modelo capitalista gerador de desigualdade social, acúmulo, disputas econômicas, a competitividade e a busca desenfreada pelo lucro.

     

     A terra, portanto, precisa ser recolocada na condição de Terra Mãe, de geradora de vida, e não mais ser tratada como um objeto de exploração. Além disso, é necessário recordar que tudo está interligado e que “não foi o homem que teceu a trama da vida; ele é apenas um de seus fios” (Cacique Seatle).

     

    O antropólogo, defensor da causa indígena, Pe. Gunter Kroemer, que faleceu no dia 15 de julho de 2009 após atuar por três décadas em defesa dos povos indígenas da Amazônia, escreveu no Texto-Base do 12º Intereclesial das CEBs, sobre as relações econômicas, sociais e religiosas destes povos. Para os povos indígenas, segundo Pe. Gunter, a cosmologia, mitos e rituais representam um conjunto de princípios ecológicos que resultam em regras sociais e econômicas que, ao final, garantem um equilíbrio entre os recursos do meio e a demanda da sociedade. O meio natural é um meio construído pelo homem, transformado por sua ação e pelos significados simbólicos a ele atribuídos. Regras não determinam apenas relações entre pessoas, mas também com as plantas, animais e com outros componentes do meio social. Controlam o crescimento da população, o tamanho das colheitas, garantindo, assim, o bem viver.. Matar mais animais que os necessários, fazer colheitas muito grandes, coletar e pescar demais afetam o equilíbrio que existe dentro do meio natural, entre a natureza e a sociedade. Nisso, a ação do xamã consiste em controlar as atividades de caça, pesca e coleta, e as colheitas. Através do controle rigoroso das atividades produtivas, eles constroem o bem estar de todos.

     

    Os povos indígenas têm um sistema econômico que não visa o acúmulo de excedente e, por serem igualitários, desconhecem a exploração do trabalho.  Cada família produz para seu próprio sustento e tem exato controle de suas necessidades, controle sobre sua produção e sobre o valor do que produz. Todos têm direitos iguais ao acesso à terra que é um bem comum, e aos conhecimentos que permitem explorar os recursos naturais, produzir o que é necessário para si próprios e para saldar suas necessidades sociais de retribuição. E aquele tanto de produção que não é utilizado diretamente nas necessidades básicas, é consumido em festas e rituais. O excedente é socializado, dividido entre todos; os mecanismos de reciprocidade, de trocas e retribuições, garantem a redistribuição, garantindo a igualdade econômica. O restante do tempo não dedicado ao trabalho é gasto na convivência com a família, no lazer e em atividades sociais. Desta maneira, os indígenas têm mais tempo para serem seres humanos plenos. Os povos indígenas têm um alto nível de integração em todos os níveis: o social, religioso, mitológico, familiar, econômico.

     

    A sua luta revela uma nova racionalidade de esperança no mistério da vida, uma racionalidade articulada com simplicidade, veracidade e solidariedade. Em suas utopias culturais, que se somam aos projetos de vida de outros povos, convidam a humanidade para suspender a marcha ao abismo ecológico, abandonar o delírio desenvolvimentista, sair da prisão das necessidades e da competição do mercado total; enfim, nos fazem novamente sonhar o prazer da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Seus projetos são “leituras do mundo” e “projetos de vida”. A vida é dom, e como tal,herança do passado, e tarefa a ser realizada; é dom gratuito e tarefa responsável. Os povos indígenas nos fazem pensar a essência da vida como dom na contemplação do crepúsculo na beira de um rio, na luta pela terra e no olhar do irmão cuja promessa do “vir a ser” se torna palpável em nosso servir (Cimi).

     

    Nesta Semana, o Cimi/RO tem uma extensa programação junto às escolas e faculdades. Promove ainda de 19 a 22 de abril, no Centro Arquidiocesano de Pastoral, o evento ABRIL INDÍGENA REGIONAL, com a presença de diversos povos de Rondônia e o tema “Resistência e persistência do movimento e organização indígena – a luta continua!”. Na Pauta do encontro o Estatuto (terra, saúde e educação); Conselho Nacional dos Povos Indígenas: organização, mobilização, avaliação, eleição do novo representante da CNPI.

     

    Além das conquistas a serem comemoradas, serão abordados desafios como o PAC, a criminalização de lideranças indígenas; o acordo quanto a negociação dos povos indígenas atingidos pelo grandes projetos; controle social frente aos recursos aplicados às políticas públicas de educação e saúde; políticas agrárias contrárias a fixação dos povos na terra;  corrida dos jovens indígenas para a cidade;  propostas de meios que garantam a comercialização dos produtos produzidos pela terra, etc..

     

    Que esta semana e o tema “Terra: Mercadoria ou Vida?” nos ajudem a compreender e a apoiar as lutas dos Povos Indígenas, de maneira concreta, pela garantia e proteção de suas terras e pela estruturação de uma política indigenista voltada aos direitos, anseios, necessidades das comunidades indígenas.

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  • 16/04/2010

    Índios do povo Tupinambá continuam em terras baianas

    Decisão da Corte Especial do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) manteve indígenas do povo Tupinambá em terras no sul da Bahia. Decisão do TRF1 negou pedido de fazendeiros que reclamavam a propriedade da terra.

     

    Disputas, na região, entre fazendeiros e indígenas culminaram em ações na Justiça, de reintegratórias de posse. Muitas delas tiveram resultados favoráveis aos fazendeiros.

    Em recurso da Fundação Nacional do Índio (Funai), ficou esclarecido que se tratava de área diferenciada de outras em litígio, tendo em vista já ter sido concluído e publicado em 2009 o estudo do órgão de identificação desta área em particular – Terra Indígena Tupinambá de Olivença, de ocupação do grupo tribal Tupinambá, localizada nos municípios de Buerarema, Ilhéus e Uma, Estado da Bahia.

     

    O presidente do TRF1 e relator do processo, Jirair Aram Meguerian, enfatizou a importância do estudo de identificação e delimitação da Funai, o qual  demonstrou que as referidas áreas seriam terras tradicionalmente indígenas. Manteve, assim, a permanência dos índios naquela região, negando, pois, os agravos que buscavam manter as decisões de reintegração de posse dos fazendeiros.

     

    Agravo Regimental no SLAT 2008.01.00.054821-0/BA
    Agravo Regimental na SLAT 2008.01.00.054977-7/BA

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  • 15/04/2010

    Informe nº 909: Licença prévia e leilão de Belo Monte suspensos pela Justiça Federal

    Juiz federal de Altamira concordou com o MPF em uma das ações civis públicas que tratam das irregularidades no empreendimento

     

    A Justiça Federal determinou, ontem, a suspensão da licença prévia da hidrelétrica de Belo Monte e o cancelamento do leilão, marcado para a próxima terça (20/04). O juiz Antonio Carlos de Almeida Campelo concedeu medida liminar (urgente) por ver “perigo de dano irreparável”, com a iminência da licitação.

     

    A decisão é fruto da apreciação de uma das duas ações civis públicas ajuizadas pelo Ministério Público Federal tratando das irregularidades do empreendimento. Trata, especificamente, da falta de regulamentação do artigo 176 da Constituição Federal, que exige edição de lei ordinária para o aproveitamento de potencial hidráulico em terras indígenas.

     

    “Resta provado, de forma inequívoca, que o AHE Belo Monte explorará potencial de energia hidráulica em áreas ocupadas por indígenas que serão diretamente afetadas pela construção e desenvolvimento do projeto”, diz o juiz na decisão.

     

    Além de suspender a licença prévia e cancelar o leilão, o juiz concordou com as outras medidas solicitadas pelo MPF: que o Ibama se abstenha de emitir nova licença, que a Aneel se abstenha de fazer novo edital e que sejam notificados o BNDES e as empresas Norberto Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Vale do Rio Doce, J Malucelli Seguradora, Fator Seguradora e a UBF Seguros.

     

    A notificação, diz o juiz, é “para que tomem ciência de que, enquanto não for julgado o mérito da presente demanda, poderão responder por crime ambiental”. As empresas também ficam sujeitas à mesma multa arbitrada contra a Aneel e o Ibama em caso de descumprimento da decisão: R$ 1 milhão, a ser revertido para os povos indígenas afetados.

     

    O MPF aguarda ainda julgamento de outro processo, também da semana passada, em que questiona irregularidades ambientais na licença concedida à Belo Monte.

     

    Boa notícia

    Uma das representantes do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Antônia Melo, disse que a notícia da liminar foi uma surpresa, mas que reforçou a esperança do povo do Xingu. “Já fazia alguns meses que esperávamos uma resposta do judiciário. Já estávamos até descrentes em relação aos resultados das ações, mas ficamos felizes ao saber que o juiz percebeu que os argumentos do MPF eram verdadeiros”, declarou.

     

    Para Antônia Melo, é um novo ânimo na luta dos povos do Xingu. “Essa liminar deu mais credibilidade ao judiciário e a gente consegue ter mais esperanças! Vamos continuar lutando e nos manifestando para que este projeto seja cancelado”, ressaltou. Segundo ela, haverá ainda uma reunião com o movimento para ver quais as próximas ações. “O movimento não pode parar!”, concluiu.

     

    Para Saulo Feitosa, Secretário Adjunto do Cimi, a liminar revela que o judiciário tem o mesmo entendimento de segmentos da sociedade que se colocam contra a obra. “A decisão fortalece a luta contra o projeto e anima todos os movimentos a persistirem, continuarem lutando”, declarou.

     

    Ação do Cimi

    Além do Ministério Público Federal, o Conselho Indigenista Missionário, por meio de sua assessoria jurídica, também havia entrado com uma ação civil pública no dia 16 de março, contra a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. De acordo com o assessor jurídico do Cimi, Paulo Machado Guimarães, a questão posta nesta ação é única: "o decreto-legislativo que autorizou o aproveitamento dos recursos hídricos do rio Xingu, para a construção do AHE Belo Monte, além do licenciamento concedido pelo Ibama e o administrativo na Aneel relativo ao referido AHE Belo Monte são nulos, de pleno direito".

     

    Tais autorizações do governo implicam no aproveitamento de recursos hídricos em terras indígenas e desconsideraram a necessidade prevista no § 1° do Art. 176 da Constituição de que haja uma lei ordinária prevendo as condições específicas para o aproveitamento de recursos hídricos nestas terras, como também é exigido para a pesquisa e lavra de minérios.

     

    Tal lei ordinária não existe e o Cimi sustenta que o Congresso Nacional não pode autorizar qualquer aproveitamento de recursos hídricos em terras indígenas e, consequentemente, a Aneel não pode dar curso em medidas administrativas tendentes à licitação para a construção de Belo Monte e muito menos o Ibama pode licenciar qualquer obra neste sentido.

     

    No dia 6 de abril o Juiz Federal em Altamira despachou determinando que o Ibama, a Aneel e a União respondessem aos termos da ação, antes de apreciar o pedido de concessão de liminar. O prazo é de 60 dias.

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  • 15/04/2010

    Solidarity with the Tupinambá people – Free Cacique Babau

     

    Tupinambá Cacique (Chief) Babau, Rosivaldo Ferreira da Silva, was arrested in the middle of the night on March 10 of 2010. He was sleeping in his Serra do Padeiro home, as were his wife and three year old son. In an illegal action, the Federal Police destroyed furniture and used extreme force to immobilize the Cacique when they invaded his residence located in the municipality of Buerarema in southern Bahia. He believed he was facing gunmen because the officers were camouflaged, their faces painted black. They did not present identification or an arrest warrant, and used verbal abuse and threats.

     

     

    Slandering campaign

    Babau is an important leader of his people, along with other caciques. Provocation of violence like this arrest, has been stimulated since publication of the identification and delimitation report for the Tupinambá Indigenous Land. This report was completed by a Technical Working Group constituted by the National Foundation for Indigenous Affairs (Funai), in compliance with Article 231 of the Federal Constitution of 1988, the Indian Statute and Decree 1775/96. Since then, the Tupinambá have been the target of an intense campaign of accusations, threats, homicide attempts, as well as suffering profound discrimination on the part of the local political and economic interests, which historically invade and destroy Tupinambá Indigenous Land. Personalities of the municipality have incited small-scale farmers, including through use of local media, to arm themselves and to attack the Tupinambá.

     

    Torture 

    The Federal Police have open inquiries for investigating these reports. As a consequence, an extremely aggressive action by the Federal Police in the village of Serra do Padeiro on October of 2008 left 14 Tupinambá injured by rubber bullets, homes and vehicles of the community destroyed, the indigenous school and its equipment ravaged and even school meals laid waste. Two Tupinambá were arrested on that occasion. In June of 2009, following another action by the Federal Police together with fazenda owners – in an eviction action – signs of torture on the bodies of five Tupinambá were verified by medical examinations conducted at the Medical Legal Institute of the Federal District, in Brasilia. The inquiry, assumed by the same police official who coordinated the action by the FP officers, in the mean time reported that no torture occurred. None of the agents were deactivated during or after the investigations.

     

    No proofs

    The preventive arrest of Babau by court order was at the request of the Federal Police, which investigates reports made primarily by fazenda owners or by their employees. Babau is recognized throughout the country as an important leader. Because of this high profile, he has been generically designated as the “author” of a variety of criminal acts in southern Bahia. In all known investigations, however, there is no indication – much less proof – that Babau has been the author of the supposed threats, homicide attempts, bodily injury, formation of a gang, arson and other accusations.

     

    This being the case, if there was evidence of authorship, according to Brazilian law, the Ministério Público Federal (Office of the Federal Prosecutor) would require the arrest of the accused. The MPF Attorneys are convinced that Babau is not guilty of charges presented by Federal Police of Bahia, and they also refute the representation in the police opinion submitted to the judge in order to obtain the arrest warrent. The MPF has, to date, entered three writs of habeas corpus (HCs) in favor of Babau, calling for his immediate release.

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  • 15/04/2010

    Liminar de reintegração de posse contra comunidade Xakriabá é suspensa

    Em audiência realizada no último dia 9, a Justiça Federal de Montes Claros – MG suspendeu, por oito meses, a liminar de reintegração de posse contra a comunidade Xakriabá da Aldeia Morro Vermelho situada no Município de São João das Missões norte de Minas Gerais.

     

    A decisão faz parte de um acordo firmado após várias intervenções do Ministério Público Federal (MPF) e advogados da comunidade durante a audiência. A juíza Carla Dumont Oliveira Carvalho também determinou que se oficie imediatamente a Presidência da Funai em Brasília para que informe, no prazo de 30 dias, acerca da possibilidade de conclusão do processo de demarcação. Pelo Ministério Público Federal foi solicitado que a Funai, caso não conclua o processo em oito meses, informe o prazo máximo em que o concluirá. Caso esta reivindicação da Justiça Federal não seja atendida, a liminar de reintegração de posse será reapreciada.

     

    Sofrendo pressão

     

    Esta nova audiência foi marcada pelas pressões dos fazendeiros com o objetivo de fazer cumprir a decisão da Justiça Federal que se arrastava por mais de três anos.

     

    Estiveram presentes os advogados da comunidade Xakriabá, André Alves de Souza e Marcos Antônio de Souza, representando a FUNAI, a procuradora Federal, Caroline Marinho Boaventura Santos, representante do Ministério Público Federal, Allan Versiani de Paula, representante dos fazendeiros, Helder Mota juntamente com 40 lideranças da comunidade Xakriabá representadas pelos Caciques Domingos Nunes de Oliveira, Santo Caetano Barbosa, Agenor da Conceição, e ainda o prefeito de São João das Missões, o indígena José Nunes de Oliveira e vereadores.

     

    A comunidade Xakriabá da Aldeia do Morro Vermelho retomou a área em Maio de 2006 e no ano de 2007, o Juiz Federal deu liminar de reintegração de posse favorável aos fazendeiros. Apartir desta decisão, os conflitos se intensificaram juntamente com as ameaças aos Indígenas ocupantes da citada área. A comunidade se mobilizou e continuou resistindo mesmo com parecer desfavorável da Justiça Federal (liminar de reintegração de posse).

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