• 25/05/2010

    “Vocês arrancam a carne do meu povo” (Miq 3.2)

    Nota do III Congresso da CPT sobre a situação do povo Guarani Kaiowa do Mato Grosso do Sul

     

    Os mais de 800 participantes do III Congresso Nacional da CPT ouviram, com o coração apertado, os clamores dos povos indígenas. O povo Potiguara, da Paraíba, luta por preservar seu território e sofre pressão por parte das usinas de cana e de outros empreendimentos. Os índios Borari, do Pará, lutam por ver reconhecido seu território, invadido por madeireiras. Mas o que dói mesmo é ver a situação dos índios Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, conforme nos relataram os indígenas Heliodoro e Dominga. Queremos unir nosso grito ao seu grito de indignação e de protesto.

     

    A realidade das comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul é das mais cruéis e  violentas de nosso pais e merece a mais forte repulsa. Foram espoliadas de suas terras e hoje vivem espremidas em minúsculas aldeias que não lhes possibilita as mais elementares condições de sobrevivência, quando não são empurradas para acampamentos às beiras das estradas, sempre perto de uma terra tradicional, sujeitas às intempéries, à fome, à sede. Por falta de terra muitos são obrigados a trabalhar nas usinas de cana devendo aceitar as condições que lhes são impostas. Um povo auto-suficiente, de uma riqueza cultural impar, é tratado como marginal, como escória da sociedade, mal visto pelo conjunto da sociedade sul-matogrossense. Uma realidade que clama aos céus.

     

    Sua luta pelo reconhecimento dos territórios ancestrais (tekoha) recebe as mais diferentes promessas de apoio de autoridades, mas nunca se concretizam. Sempre esbarram no poder político do estado e da maior parte dos municípios onde vivem que os consideram um entrave para o progresso. E quando há alguma sinalização positiva de uma possível solução, esta esbarra no poder judiciário que trava todo e qualquer encaminhamento. Isto se dá até no âmbito do Supremo Tribunal Federal. O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, deu um triste presente de Natal aos indígenas do Mato Grosso do Sul. No dia 24 de dezembro do ano passado suspendeu os efeitos do decreto presidencial, publicado dois dias antes, que homologou a demarcação da Terra Indígena Arroio-Korá. Suspendeu ainda os efeitos de outros decretos presidenciais de demarcação de outras áreas indígenas.

     

    Também não se sente um forte empenho da FUNAI na solução dos problemas indígenas do estado.

     

    Numa situação destas, mais do que qualquer outra palavra se aplicam as palavras do profeta Miquéias:

     

    Escutem, líderes e autoridades do povo! Vocês que deviam praticar a justiça e, no entanto, odeiam o bem e amam o mal. Vocês tiram a pele do meu povo e arrancam a carne dos seus ossos. Vocês devoram o meu povo: arrancam a pele, quebram os ossos e cortam a carne em pedaços, como se faz com a carne que vai ser cozinhada” (Miq 3,1-3).

               

    Os participantes do III Congresso da CPT exigem que os direitos dos povos indígenas sejam respeitados, que sua cultura seja valorizada, que sua vida seja protegida. É urgente uma solução justa para os todos os povos indígenas do Brasil em especial para o Guarani Kaiowa do Mato Grosso do Sul.

     

    Montes Claros, 21 de maio de 2010

     

    Os participantes do III Congresso Nacional da CPT

     

    Read More
  • 24/05/2010

    Esperanças para lutar

    Nesta segunda-feira, 24 de maio, tem iní­cio a I Assembleia dos Povos Indígenas de Goiás e Tocantins, às 19h. No período da manhã, várias delegações já chegaram para montar acampamento no campus da Universidade Federal do Tocantins, em Palmas. São esperados mais de 350 indígenas dos dois estados.

     

    O espaço é uma oportunidade para reencontrar amigos e parentes, mas também para fazer reivindicações e compartilhar a luta com outros povos que, muitas vezes, vivem situações parecidas.

     

    Juvenal Vieira Krahá, da T. I. Krahá, próximo ao municí­pio de Itacajaí, no Tocantins, fala das dificuldades que seu povo vem passando, mas que tem esperança de melhorar. "O que mais nos atinge é a dificuldade em relação ao atendimento à  saúde e os grandes projetos que vão nos cercando, nos cercando até nos atingir", declara a liderança. Segundo ele, grandes plantações de soja vão chegando cada vez mais perto da terra indí­gena e os produtos utilizados nas plantações acabam poluindo as águas que seu povo usa. "Um exemplo é a Aldeia Nova, que o pessoal que tomava banho no rio perto das plantações de soja, de uma hora para outra começaram a ter alergias. A gente sabe que é por causa desses produtos que os fazendeiros jogam nas plantações", afirma.

     

    A situação descrita por Juvenal é um fator que pode agravar situações ruins já vividas em relação à  doenças na comunidade e a falta de atendimento pela Funasa. "A Funasa é muito lenta. Nós não temos carro disponí­vel para buscar as pessoas doentes e quando temos, é sempre carro que logo está estragando. Outro problema grave é a falta de médico. Nós já pedimos várias e várias vezes um médico para atender às nossas comunidades, mas não temos. Até na cidade de Itacajaí é complicado, pois o médico lá só aparece dia sim, dia não", conta. De acordo com Juvenal, a falta de acompanhamento médico está causando também a morte de crianças recém-nascidas ou mesmo a morte delas ainda no útero da mãe. "Não há exames de pré-natal e as mulheres sofrem muito com isso. Sempre que procuramos ajuda, os órgãos inventam desculpas e nada melhora", desabafa.

     

    Juvenal acredita que a construção de estradas melhores, que levam às aldeias, também melhoraria a situação. "As estradas que temos hoje, nem todo carro consegue passar. Assim fica complicado até se a gente conseguir médico, pois como ele vai fazer para chegar lá?", questiona.

     

    Mas o líder Krahá ainda tem esperanças e acredita que as coisas podem mudar para melhor. "Já fizemos muita reunião aqui e na maioria das vezes, de nada adiantou, mas não podemos baixar a cabeça e parar de lutar. Temos que seguir em frente, porque se a gente não lutar, quem vai fazer, né?". Ele espera que a Assembleia seja um local de trocas de experiências, desabafos e um ponto de partida para conseguir as vitórias que seu povo precisa.

     

    Maíra Heinen

    De Palmas

    Read More
  • 24/05/2010

    Fatos sobre Belo Monte: Resposta a Rogério Cerqueira Leite

    O Dr. Rogério Cerqueira Leite veio à Folha defender o projeto da hidrelétrica de Belo Monte (FSP 19/05/10). Apesar da baixa qualidade do texto, baseado mais em ofensas do que em argumentos – chamou os críticos à usina de “ecopalermas”, “fanfarrões” e “pseudointelectuais”, entre outros -, por ter sido publicado neste jornal, tem grande potencial de desinformar.

     

    Do ponto de vista ambiental, uma falha importante do artigo foi associar a perda de biodiversidade à área de florestas a ser inundada pela usina. Com base na área inundada, enquanto eu estava ignorante, eu também considerei Belo Monte um bom projeto. Os dois maiores impactos ambientais do projeto, no entanto, são: destruição de uma das maiores bacias hidrográficas do mundo e aceleração do desmatamento. Porque destruição da bacia? A alta produção de energia sem um grande lago não existe neste projeto. Belo Monte necessita de pelo menos mais uma represa no Rio Xingu (são planejadas mais 5), para produzir energia o ano todo. O plano continua sendo destruir toda a bacia com grandes barragens, o que será muito difícil de impedir depois que a obra mais cara, Belo Monte, for construída. Belo Monte também atrairia centenas de milhares de pessoas para a região, sendo que ao final das obras restariam apenas 900 empregos (dados do projeto). Não precisa ser sócio-economista para prever um aumento incontrolável no desmatamento. Este aumento poderia ter sido previsto no Estudo de Impacto Ambiental. Existe tecnologia para isto. Mas não foi feito… ou não foi mostrado.

     

    Leite diz que as espécies a serem extintas por Belo Monte já estão condenadas à extinção, pois teriam área muito restrita. O projeto prevê o deslocamento do rio para outro curso, deixando com um filete de água 100 km de corredeiras, em um trecho de extrema beleza do Rio Xingu, conhecido como Volta Grande. A Volta Grande é considerada como "de importância biológica extremamente alta" pelo MMA, com espécies endêmicas. Nos próprios estudos do projeto, 5 das equipes que estudaram diferentes componentes da biodiversidade afirmam que a vazão residual é insuficiente para impedir a destruição dos ecossistemas da Volta Grande. Também são esperados impactos em outras áreas extremamente importantes, como um arquipélago fluvial, cavernas, 30 terras indígenas e 12 unidades de conservação. Belo Monte é uma bomba a ser lançada sobre uma região de alta biodiversidade que não está de forma alguma condenada, se este projeto não for levado adiante. Ele diz que o índio "… pouco ou nada sofrerá". Ninguém melhor do que eles para avaliar o impacto da retirada do rio Xingu de suas aldeias (2 terras indígenas estão nesta situação) e da imigração sem planejamento. Os índios têm se reunido e tomam decisões com base nas experiências que outras tribos estão tendo com outros projetos semelhantes. Falam com muita propriedade.

     

    Ele diz que as hidrelétricas reduzem as emissões de gazes de efeito estufa. Este é um erro grave, afinal o Dr. Rogério Leite é físico. Hidrelétricas produzem metano, pelo menos 25 vezes pior do que CO2 na promoção do efeito estufa. Estudos sobre o aproveitamento hidroelétrico do Xingu, indicam que ele seria tão ruim ou até pior do que termoelétricas capazes de gerar energia equivalente. Isto sem contar com o carbono da aceleração do desmatamento, nossa principal contribuição para o aquecimento global.

     

    É uma verdade inconveniente abafada no Brasil. Há muito para ser dito: Fomos oficialmente chamados a Brasília para debater Belo Monte no Senado e no Ministério Público Federal e comparecemos, mas os defensores do projeto não foram, porque ele é tecnicamente indefensável. O licenciamento ambiental para hidrelétricas na Amazônia caiu por terra. Os analistas do IBAMA, em um ato de heroísmo, disseram não para Belo Monte, mas o IBAMA disse sim.

     

    Ações judiciais são suspensas em poucas horas e congeladas (não são julgadas). Belo Monte é um castelo de cartas do ponto de vista jurídico, que se for derrubado poderá ser um marco na interrupção deste processo (daí a necessidade de desqualificar nossas críticas diante da opinião pública). Precisamos de mais seriedade dos veículos de informação ao tratar de um tema tão sério e complexo. A Amazônia é nossa principal responsabilidade no controle da destruição de todos os ecossistemas do mundo.

     

    Hermes Fonsêca de Medeiros, 37, biólogo, mestre e doutor em Ecologia pela UNICAMP, é professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) e faz parte do Painel de Especialistas para Avaliação Independente dos Estudos de Impacto Ambiental de Belo Monte.

     

    Read More
  • 24/05/2010

    Brasil está exportando os erros de Belo Monte e Jirau para o Peru, diz ambientalista peruano

    Representantes de organizações peruanas participaram de um encontro com autoridades do Itamaraty, na última quinta-feira (20), para questionar a assinatura de um acordo entre Brasil e Peru, voltado para a construção de mega-hidrelétricas na Amazônia peruana.

     

    O tratado, previsto para ser firmado em junho deste ano, abrange a construção de cinco usinas na floresta amazônica do Peru, a um custo de R$ 25 bilhões.  As obras seriam realizadas por empreiteiras brasileiras, na ausência de consultas aos povos indígenas afetados e sem qualquer análise de impactos socioambientais.

     

    Cesar Gamboa, que representa a organização peruana Derechos Ambientales y Recursos Naturales, participou da reunião com a diplomacia brasileira e concedeu uma entrevista exclusiva ao site Amazonia.org.br. Na conversa, ele fala sobre os possíveis danos do acordo internacional energético e comenta sua participação do seminário "Políticas Públicas e obras de infra-estrutura na Amazônia: Cenários e desafios para a governança socioambiental", que aconteceu dos dias 20 a 21 de maio em Brasília.  Confira.

     

    Amazonia.org.br – Por que o senhor é contra o projeto de Brasil e Peru para a construção de hidrelétricas na Amazônia?

     

    Cesar Gamboa – Tal como está o tratado energético, construindo hidrelétricas na Amazônia, seriam promovidos impactos diretos e indiretos aos ecossistemas amazônicos.  Pelo menos no Peru, o tratado deveria passar pela aprovação do Congresso da República, mas as autoridades peruanas, que estão negociando o acordo com o Brasil, assinalam que é desnecessária a aprovação pelo Congresso, violando a Constituição do Peru.  Com isso, possivelmente, assim que esse tratado entre em vigência, sem aprovação do Congresso, qualquer autoridade subnacional ou regional poderia declarar a inconstitucionalidade do tratado, gerando um clima de insegurança jurídica.

     

    Amazonia.org.br – Que ações a organização que o senhor representa vem tomando na tentativa de impedir esse acordo energético?

     

    Gamboa – Com relação ao tratado, estamos buscando diálogo com representantes do Ministério das Minas e Energia e do Itamaraty, para que possam escutar nossas preocupações com relação ao tipo de acordo e a possibilidade de construir hidrelétricas na Amazônia peruana.  Mas eles não estão compreendendo a realidade dos possíveis impactos ambientais e sociais.

     

    Desde a primeira versão do projeto, de março, houve algumas mudanças, mas consideramos isso uma maquiagem.  Não foi uma mudança para assegurar que se evite qualquer possível impacto ao meio ambiente e às populações.

     

    Amazonia.org.br – Quais serão os principais impactos negativos do acordo energético?

     

    Gamboa – O caso mais emblemático diz respeito à empresa brasileira Eletrobras, que tem a concessão temporária da usina de Inambari, no Peru.  Essa hidrelétrica afetaria todo o ecossistema do rio Inambari e provocaria o desalojamento involuntário das populações locais, que seriam afetadas pelo represamento e o alagamento de suas terras.  E o governo brasileiro e suas autoridades também não compreendem o impacto desse possível acordo.

     

    Organizações peruanas e brasileiras estão trocando informações sobre os erros que vêm sendo produzidos no Brasil por meio de Belo Monte [usina no rio Xingu (PA)], Jirau [usina no rio Madeira (RO)], e outros projetos hidrelétricos que funcionam há anos.  E vemos que estão exportando esse modelo ao Peru. O importante é trocar informação e fazê-la chegar aos governos peruano e brasileiro.

     

    Amazonia.org.br – Quais serão os próximos passos da luta contra o acordo?

     

    Gamboa – Queremos saber que tipo de acordo será feito no dia 15 de junho, em Manaus, e dar ciência à opinião pública sobre esse texto e os seus possíveis impactos à Amazônia peruana, por meio de pronunciamentos, cartas, e também diálogo com os governos peruano e brasileiro.

     

    A organização indígena Care [Central Ashaninka do Rio Ene], que vai ser afetada por uma hidrelétrica, cuja concessão temporária foi dada a uma empresa brasileira, vai fazer manifestações e pronunciamentos, que serão entregues aos funcionários da chancelaria brasileira.  Na primeira semana de junho, também faremos pronunciamentos sobre os riscos desse possível acordo, que não inclui garantias ambientais e sociais.

     

    No Peru, estamos solicitando aos governos subnacionais que peçam na Justiça uma declaração de inconstitucionalidade do acordo.  E é possível que isso aconteça.  Pelo menos, alguns governos regionais têm expressado isso.

     

    Amazonia.org.br – Qual a importância deste evento que reúne organizações peruanas e brasileiras para debater grandes empreendimentos na Amazônia?

     

    Gamboa – O encontro é importante porque nos permite discutir em nível científico, jurídico e legal as implicâncias da governabilidade de projetos extrativistas e, agora, de infraestrutura na Amazônia, como um todo, não só do Brasil, do Peru, ou da Colômbia.

     

    Discutimos essas ações na Amazônia, não só como espaço ecossistêmico de biodiversidade, mas também lugar onde vivem pessoas e povos, como os indígenas.  Além disso, o encontro nos permite pensar estratégias para corrigir políticas públicas e práticas privadas e as ameaças que a Amazônia sofre, com a intervenção do homem e o projeto econômico, como vem acontecendo.

     

    Amazonia.org.br – Você acredita que o governo peruano, assim como o brasileiro, não tem levado em conta os impactos ambientais de suas políticas voltadas à Amazônia?

     

    Gamboa – O governo peruano prioriza dados de crescimento econômico, mas não está contabilizando os custos futuros que esse tipo de intervenção trará.  É uma visão muito parcial da realidade.  Estamos buscando que os empreendedores se sensibilizem e integrem esses custos sociais e ambientais na análise macroeconômica, em operações concretas, como projetos de infraestrutura.

     

    Os governos chamados de progressistas, como são o Brasil e o Peru, priorizam a política econômica, mas não consideram aspectos essenciais, como são o meio ambiente e uma agenda sobre mudanças climáticas, e há na sua retórica política essa incoerência para as futuras gerações.

     

    Read More
  • 24/05/2010

    Indígenas lutam por moradia em São Paulo

    A Comunidade indígena Pankararu, da zona leste de São Paulo, espera há 8 anos pela aprovação e implementação de Projeto de Moradia

     

    Vanessa Ramos e Beatriz Maestri*

    de São Paulo (SP)

     

    “Este dia de encontro é para que possamos, de fato, mostrar que estamos unidos, que a nossa luta não é fácil, mas que temos importantes aliados, como entidades de apoio e representantes de órgãos públicos. Estamos há oito anos na luta por moradia e sabemos que só com a nossa união iremos conquistar os nossos direitos”. Com estas palavras, a indígena Pankararu Elena Gomes da Silva, presidente da Associação Comunidade Indígena Pankararu da Zona Leste, deu início ao encontro ocorrido em 2 de maio, em São Paulo.

     

    Elena conta que seu povo é originário da região do Brejo dos Padres, em Pernambuco, tendo migrado para São Paulo, no final da década de 1950, por conta da seca e de conflitos com posseiros invasores de suas terras, na tentativa de melhores condições de vida e sobrevivência. Atualmente, o povo Pankararu conta com mais de 1.500 pessoas, vivendo em São Paulo, em diversos bairros da capital paulista como Real Parque, Parque Santa Madalena, Jardim Elba, Capão Redondo, Butantã, Valo Velho, Cidade Dutra, Grajaú, Paraisópolis e outros, e municípios da grande São Paulo como Mauá, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Taboão da Serra, Osasco e Francisco Morato.

     

    Como moradora da cidade de São Paulo há muitos anos, Elena se alegra com o Encontro, que reúne seus parentes que vivem em diversos bairros da capital paulista e reforça a união e a luta de seu povo, ao mesmo tempo em que lhes dá a possibilidade de manifestarem suas danças, toantes e rezas.

     

    Apoios

     

    O povo Pankararu que vive na zona leste de São Paulo vem se organizando há vários anos, na busca de políticas públicas que atendam importantes demandas, dentre as quais a moradia digna para as mais de 60 famílias desta região.

     

    Com o objetivo de afirmar sua identidade cultural, dar maior visibilidade à realidade vivida por este povo e reafirmar sua luta por moradia, se reuniram no encontro, no bairro Sapopemba, zona leste, aproximadamente 160 pessoas. Além da presença, em sua maioria, de indígenas Pankararu, o encontro contou com a participação de lideranças de outros povos, entidades indigenistas de apoio e representantes do poder público.

     

    “Estamos aqui porque acreditamos nesta caminhada de luta e eu acredito que com o apoio de mais aliados e de nossos parentes, iremos conseguir realizar o nosso sonho pela moradia aqui na zona leste”, enfatiza Manoel Pedro da Silva, liderança Pankararu.

     

    Edgar Moura Amaral, assessor do deputado estadual Simão Pedro (PT), presente ao Encontro, afirmou: “Estou aqui reforçando o nosso compromisso e também do deputado federal Paulo Teixeira (PT) que está na luta, conjuntamente, para avançar na questão que vocês reivindicam. Viemos contribuir e ouvir suas necessidades, pois sabemos que a urgente demanda da comunidade é a construção de moradias”.

     

    Neste sentido, a coordenadora Maria Aparecida de Laia, da Coordenadoria dos Assuntos da População Negra (CONE), disse: “Coloco nossa coordenadoria à disposição, na reivindicação pela luta por moradia, para agendar reuniões com o secretário e caminhar naquilo que a comunidade achar importante”.

     

    Maria das Dores, presidente da Associação SOS Pankararu, no Real Parque, zona sul de São Paulo, falou aos seus parentes: “Ser Pankararu não é só ter o nome, é ter uma história e é isso que nos legitima. Não podemos esquecer de nossos parentes que estão na grande metrópole de São Paulo e em outras regiões. (…) Ser povo indígena é ser coletivo”.

     

    Para Benedito Prezia, coordenador da Pastoral Indigenista e do Programa Pindorama da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a realização do Encontro foi uma grande vitória porque mostra que o povo está disposto a se organizar. Prezia reforçou o seu apoio, mas pontuou: “Não podemos ter um único objetivo, ter as casas, porque nesta luta existem etapas difíceis e caso não ocorram como esperado, não podem desanimar a comunidade”. Para ele, a luta maior é pelos direitos da comunidade Pankararu em São Paulo como um todo.

     

    Morosidade

     

    As famílias Pankararu que lutam por moradia na zona leste e que vivem em precárias condições habitacionais, muitas em área de risco, reivindicam um projeto específico de habitação para indígenas que vivem no meio urbano. Elas foram cadastradas pela Secretaria de Municipal de Habitação já em 2002, época em que iniciou a organização deste grupo da zona leste, em vista de demandas próprias.

     

    Nessa ocasião, o movimento conseguiu o apoio do secretário municipal da Habitação e da Companhia de Habitação de São Paulo (COHAB-SP), que destinou um técnico para um estudo preliminar de área própria a ser destinada ao grupo indígena. O estudo realizado e aprovado pela comunidade foi finalizado, porém, com as mudanças na administração municipal, e não teve continuidade.

     

    Esse movimento conta com apoio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) da Grande São Paulo e da Pastoral Indigenista de São Paulo, sempre ressaltando que, aos órgãos públicos, cabe o reconhecimento dos indígenas que vivem em área urbana, considerando a dívida histórica que toda a sociedade brasileira tem para com os povos indígenas. Contudo, é grande a morosidade dos órgãos públicos e a dificuldade em aprovar projetos relativos a esses povos.

     

    Em 2009, a Secretaria Municipal repassou o projeto de moradia para o governo do Estado de São Paulo. Assim, Antônio J.S. Lajarin, assessor da presidência da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU-SP), atendeu lideranças Pankararu da zona leste e entidades em reivindicações específicas sobre moradia. Segundo Lajarin, o órgão está estruturado apenas para atender aos indígenas de aldeias. "No momento, não temos um programa para esse atendimento específico. A legislação não prevê esse orçamento para indígenas urbanos", afirmou. “O avanço seria iniciar um debate com essa nova situação dentro da CDHU”, completou Lajarin.

     

    Para as lideranças Pankararu da zona leste, o fato de viveram na cidade não anula a sua identidade enquanto povo indígena, nem os impede de acessar aos direitos que a Constituição Federal lhes garante. 

     

    E agora?

     

    O projeto de moradia para os Pankararu da zona leste depende agora de uma melhor comunicação e articulação entre COHAB e CDHU para a continuidade das ações, pois foi apresentado pelas lideranças em várias reuniões na CDHU e ainda não houve um posicionamento concreto da COHAB, para o qual foi encaminhado o primeiro projeto, há oito anos. 

     

    Lajarin, também convidado para o Encontro, informou em carta que a COHAB ainda não havia se manifestado com relação ao assunto em questão, bem como não foram concluídos estudos específicos para o caso dos Pankararu, solicitados à Rosângela Kurra, ex-secretária de Habitação do Estado do Paraná e que hoje presta serviços na CDHU.

     

     “Diante desta demora em atender nossa reivindicação, pedimos que agilizem esse estudo e que seja urgentemente agendada uma reunião com a comunidade a fim de que possamos implementar o tão sonhado projeto de moradia para nosso povo”, protestam as lideranças Pankararu  em Documento Final do Encontro. Na carta, a comunidade da zona leste solicita uma audiência com a COHAB para que se manifeste quanto ao seu compromisso com o projeto citado. Ainda não obteve resposta, mas espera que, até o final de 2010, os órgãos, COHAB e CDHU possam resolver suas reivindicações na zona leste de São Paulo.    

     

    * do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) na Grande São Paulo

     

    Read More
  • 21/05/2010

    Carta Final: III Congresso Nacional da CPT

    No clamor dos povos da terra, a memória e a resistência em defesa da vida

     

    Neste momento em que a humanidade toda toma consciência do grito da mãe terra, nossa casa comum, a Comissão Pastoral da Terra reuniu-se em seu III Congresso Nacional, em Montes Claros, MG, de 17 a 21 de Maio de 2010, com o tema: “Biomas, Territórios e Diversidade Camponesa”. Trabalhadores e trabalhadoras, a maioria deste Congresso (376), de diversas categorias – indígenas, quilombolas, ribeirinhos, posseiros, assentados, acampados entre outros – tornaram palpável a diversidade camponesa deste Brasil e sua resistência diante do processo de destruição em curso. Ao todo 760 pessoas – 440 homens e 320 mulheres – fizeram ecoar no semiárido mineiro os clamores do povo da terra. 272 agentes da CPT – entre eles quatro bispos e 51 entre padres, religiosos e religiosas e seminaristas – e 112 convidados de movimentos populares e pastorais, parceiros, puderam sentir a vida que pulsa, nas comunidades camponesas, cheia de esperança, em meio a dificuldades e frustrações.

     

    A Arquidiocese de Montes Claros, que neste ano completa seu centenário, e o Colégio São José, dos Irmãos Maristas, nos acolheram de braços abertos. O calor humano de Montes Claros contrasta com a frieza de intermináveis plantações de eucalipto e de pastagens que substituíram a rica biodiversidade do Cerrado pela monotonia do monocultivo predador na paisagem que circunda a cidade.

     

    “Vamos lutar porque esse é o nosso lugar” (cacique Odair Borari, de Santarém – PA)

     

    Tivemos a alegria de ouvir e conhecer muitas experiências de resistência e de luta de camponeses e camponesas de todo Brasil. Na defesa de seus territórios e de suas culturas, mostraram que é possível e necessário conviver com os diversos biomas sem destruí-los e alimentar uma relação de respeito e de fraternidade com a mãe terra e com todos os seres vivos.

     

    Estas experiências nos fazem ver, também, a criatividade com que os camponeses e camponesas sabem responder aos desafios gerados pela crise ecológica e por um modelo de desenvolvimento que destrói os biomas de nosso País, de forma cada vez mais violenta e acelerada, concentrando terras e riquezas para poucos e matando muitas formas de vida.

     

    “Matam até o querer” (Sabrina, 19 anos, de Montes Claros – MG)

     

    Estas experiências, cheias de vida e de esperança, se misturam com o clamor diante do poder estarrecedor dos grandes projetos que, em nome de um equivocado crescimento, assassinam lideranças, expulsam povos tradicionais de seus territórios e degradam o meio ambiente com suas hidrelétricas, mineradoras, ferrovias, transposição de águas, irrigação intensiva, monocultivos, desmatamentos. São projetos impostos com arrogância, de cima para baixo, ludibriando a legislação agrária e ambiental. Revestem-se de um legalismo hipócrita com controle e direcionamento de audiências públicas.

     

    “As leis nós temos que respeitar, mas as leis têm que respeitar nós” (Joaninha, 58 anos, MG)

     

    Ouvimos a denúncia veemente de um Estado que, com uma mão dá a sua ajuda para mitigar a fome e a miséria imediatas, ou até para libertar modernos escravos, e que com a outra estimula, promove e financia este modelo perverso de crescimento que prejudica a sustentabilidade da sociedade e da própria vida.

     

    São inúmeros os casos em que o poder judiciário se torna o braço jurídico que executa e legaliza a espoliação, despejando todo ano milhares de famílias e garantindo a impunidade de assassinos, de grileiros e de empresas que não respeitam as leis.

     

    Ficamos indignados com a soltura, nestes mesmos dias em que realizamos nosso Congresso, de quem mandou matar Irmã Dorothy.

     

    Veementes, também, foram as denúncias contra um legislativo inoperante e submetido aos interesses da bancada ruralista que quer mudar o código florestal para favorecer a expansão dos monocultivos, e que engaveta a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que propõe o confisco de áreas com trabalho escravo, e a PEC que reconhece o Cerrado e a Caatinga como patrimônio nacional.

     

    Também, com indignação, foram denunciadas as tentativas de criminalização dos movimentos do campo pelo judiciário, pelo Congresso e pelos grandes meios de comunicação. Enquanto isso o agronegócio que depreda e polui a natureza, expropria comunidades tradicionais e submete trabalhadores à escravidão, é apresentado como alavancador do progresso.

     

    “Resistir para existir” (Zacarias, do Fundo de Pasto da Areia Grande, BA)

     

    Ficamos entusiasmados em ouvir o testemunho corajoso da valentia de muitos companheiros e companheiras que continuam apostando na luta e na mudança. Alguns deles, ameaçados de morte, não temem continuar lutando por justiça e vida plena.

     

    Maravilhou-nos o número de jovens presentes e a qualidade de sua participação. Eles e elas nos testemunham, com clareza, que as novas gerações acreditam que é possível vencer o individualismo mercantilista e consumista.

     

    “Vocês precisam nos ajudar” (Augusto Justiniano de Souza, sindicalista, 55 anos, GO)

     

    Nosso coração ficou apertado ao ouvir o grito de solidão, desamparo e abandono a que estão submetidos camponeses e camponesas em nosso País.  Eles cobraram o apoio dos sindicatos, dos partidos e dos movimentos sociais que, outrora, os representavam e acompanhavam. Eles cobraram, também, o apoio firme da CNBB e sua palavra profética diante da gravidade da situação do campo.

     

    Esta realidade e o clamor das camponesas e camponeses e dos povos tradicionais são um chamado para o discipulado e a missão da CPT, no seguimento de Jesus de Nazaré, na fidelidade aos Deus dos pobres e aos pobres da terra.

     

    Pela força desta missão, a CPT assume:

     

    – a luta pela terra e pelos territórios, combatendo o latifúndio e o agronegócio e incorporando, na luta pela Reforma Agrária, as exigências atuais de convivência com os diversos biomas e as diversas culturas dos povos que ali vivem e resistem, buscando formar comunidades sustentáveis. Como sinal concreto, compromete-se com a realização do Plebiscito Popular para se colocar um limite à propriedade da terra a ser realizado em setembro, junto com o Grito dos Excluídos, durante a semana da Pátria.

     

    – o enfrentamento ao modelo predador do ambiente e escravizador da vida de pessoas e comunidades. Modelo assentado em monocultivos para exportação, amparado por mega-projetos impostos a toque de caixa. Emblemáticas desta resistência são as lutas contra a transposição do Rio São Francisco, contra as hidrelétricas a exemplo da de Belo Monte e de outras, propostas para a Amazônia, e o combate incansável da CPT contra o trabalho escravo.

     

    – a formação para uma espiritualidade, centrada no seguimento radical de Jesus que nos dê força para não servir a dois senhores e que testemunhe os valores do Reino.

     

    – a necessidade de contribuir com a articulação e o fortalecimento das organizações populares, do campo e da cidade, para que sejam protagonistas da construção de um novo projeto político para o Brasil que queremos, em união com os outros países da América Latina e Caribe avançando em direção a uma globalização justa e fraterna.

     

    Ao concluir este III Congresso Nacional, a CPT renova seu compromisso profético-pastoral junto aos pobres da terra até que “o reinado sobre o mundo pertença ao nosso Senhor e ao seu Cristo e ele reinará para sempre e chegue o tempo em que serão destruídos os que destroem a terra” (Apoc. 11,15.18).

     

    Montes Claros, 21 de maio de 2010.

     

    Os participantes do III Congresso Nacional da CPT

     

    _____________

    Cristiane Passos

    Assessoria de Comunicação

    Comissão Pastoral da Terra

    Secretaria Nacional – Goiânia, Goiás.

    Fone: 62 4008-6406/6412/6400

     

    Read More
  • 21/05/2010

    Anistia Internacional: Declaração Pública

    Nos dias 20 e 21 de maio, em São José da Costa Rica, a Corte Interamericana de Direitos Humanos realizará uma audiência pública sobre o caso “Guerrilha do Araguaia” (Caso No. 11.552, Júlia Gomes Lund e outros v. Brasil). Nesta ocasião, a Corte ouvirá os representantes das vítimas, as testemunhas e os peritos, assim como os representantes do Estado brasileiro, no que diz respeito às detenções arbitrárias, às torturas e aos desaparecimentos forçados de várias dezenas de pessoas praticados pelas Forças Armadas do Brasil naquela região do país durante a década de 1970.

    No cerne da questão está a Lei de Anistia introduzida pelo governo militar brasileiro em 1979, a qual tem impedido qualquer investigação sobre o destino de ex-integrantes da chamada "Guerrilha do Araguaia", composta por membros do Partido Comunista do Brasil.

    Contrariamente à decisão dos tribunais supremos da Argentina, do Chile, do Peru e do Uruguai, onde as leis de anistia foram descartadas por estarem em contravenção às obrigações contraídas pelos Estados em virtude do direito internacional, uma recente decisão do Supremo Tribunal Federal do Brasil indicou que a Lei de Anistia de 1979 era constitucional, e insistiu, mais uma vez, em sua aplicabilidade.

    As leis de anistia que pretendem isentar de responsabilidade penal aqueles indivíduos que cometeram ou permitiram que se cometessem crimes de direito internacional – como genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra, tortura, desaparecimentos forçados e execuções extrajudiciais, arbitrárias ou sumárias – são incompatíveis com as obrigações dos Estados e devem ser declaradas inválidas. Isso foi confirmado pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos, pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, pelo Tribunal Especial para Serra Leoa, pela Secretaria-Geral da ONU e por diversos órgãos criados em virtude dos tratados internacionais de direitos humanos. O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, do qual o Brasil é um Estado-parte, afirma no seu preâmbulo que os Estados estão "decididos a pôr fim à impunidade dos autores desses crimes e a contribuir assim para a prevenção de tais crimes".

    A Corte Interamericana de Direitos Humanos, por sua vez, tem reiterado em diversas oportunidades que leis de anistia – ou de autoanistia, como nesse caso – não são compatíveis com as obrigações dos Estados segundo o direito internacional. Com efeito, a Corte já sustentou, por exemplo, nos casos de "Barrios Altos", de "Almonacid Arellano" e do "Massacre dos Erres Dos", entre outros, que são inadmissíveis as disposições de anistia, as disposições sobre prescrição e o estabelecimento de exclusores de responsabilidade que pretendam impedir a investigação e a punição dos responsáveis por violações graves dos direitos humanos, como tortura, execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias e desaparecimentos forçados, todas elas proibidas por violarem direitos inderrogáveis reconhecidos pelo direito internacional dos direitos humanos.

    Espera-se que, nesta ocasião, a Corte Interamericana chegue à mesma conclusão e que, ao estabelecer a nulidade da Lei de Anistia de 1979, obrigue o Estado brasileiro a adotar medidas que contribuam com a revelação da verdade sobre os crimes cometidos contra membros da Guerrilha do Araguaia e certificar-se de que todos os supostos responsáveis por tais atos compareçam perante tribunais de justiça regulares para que sua responsabilidade penal individual seja determinada. Da mesma forma, a Corte deveria determinar amplas medidas de reparação, em conformidade com os "Princípios e diretrizes básicas sobre o direito das vítimas de violações manifestas das normas internacionais de direitos humanos e de violações graves do direito humanitário internacional de interporem recursos e de obterem reparações".

    Em resumo, a Anistia Internacional considera que, em conformidade com a jurisprudência da Corte nessa matéria, a qual não deveria variar, a decisão proferida no caso em apreço deva consagrar que o Brasil não possa argumentar haver qualquer lei ou disposição em seu direito interno que o exima da ordem da Corte para investigar e punir os responsáveis pelos crimes cometidos contra a Guerrilha do Araguaia. Tal decisão deveria ainda garantir que o Brasil não possa voltar a aplicar a Lei de Anistia de 1979, nem argumentar sua prescrição, ou a não-retroatividade da lei penal, nem o princípio ne bis in idem, tampouco qualquer excludente de responsabilidade similar, para eximir-se de seu dever de investigar e de punir os responsáveis.

    Read More
  • 21/05/2010

    Carta do rio das Mortes, por José Maria Paratse

    Não sabemos quem deu o nome a esse rio. O mesmo leito que jorra já previa, prenunciava que o rio passaria por essa transformação, por essa agressão humana. O rio é manso, não tem como se defender. O rio que dá vida há milhares de anos a peixes, sucuri, pacas, capivara e no qual o próprio homem saciava sua sede, agora está prestes a morrer, sem o direito de se defender.

    Conhecemos nossos irmãos Xavantes, guerreiros prontos para defender o tão amado rio, antes que morra. Não há como substituir o valioso leito, em troca da construção de barragens de Água Limpa e Toricoeje. Já tivemos muitas experiências de muitas ofertas enganosas, indenizações pelas perdas irreparáveis. Nunca tivemos o ressarcimento para que possamos viver com dignidade humana. É comum ouvirmos discursos que falam da questão da dignidade humana. Sabemos até mesmo que a dignidade humana é a base da Declaração Universal dos Direitos Humanos – feita pela ONU em 1948. Também o Rio das Mortes tem sua dignidade e o direito de seu leito transcorrer livremente nos cerrados mato-grossenses.

    A Constituição Federal de 1988 no Capítulo VI, Do Meio Ambiente, artigo 225 diz “Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial qualidade de vida, e cabe à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

    Nós Xavantes sempre vivemos ecologicamente, pois lidamos bem com a natureza, a mãe natureza que nos oferece tantas iguarias para vivemos dignamente. Agora com a chegada da sociedade envolvente, com projetos de empreendimentos, construções, gera a destruição de milhares de anos que a natureza lapidou e conservou com afeto e transforma num canteiro de obras. Cumprindo a lei da nossa Constituição é nosso dever defendê-lo e preservá-lo no presente e para as futuras gerações do nosso querido Brasil. Com essa construção terá o desequilíbrio das comunidades e principalmente para nós Xavante haverá falta de diálogo, falta de respeito a nós Xavante e, certamente, vai provocar a prostituição, alcoolismo e todo o tipo de conturbação que poderá desequilibrar nossa cultura, a nossa organização, o Povo Xavante. Se reagirmos contra o empreendimento hidroelétrico queremos a garantia da liberdade de formação de opinião e de estarmos livres de ameaças de qualquer tipo.

    A declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas em seu artigo 29 diz: “Os povos indígenas tem direito à conservação e proteção do meio ambiente”. Somos verdadeiros ambientalistas. Exercemos o nosso papel ecologicamente correto. Vamos defendê-lo de corpo e espírito humano como guardiões guerreiros Xavantes do santuário de água cristalina do Rio das Mortes.

    A voz calada do rio manso que há milhares de anos percorre o leito agora sofre a imposição, em nome do progresso. E nós Xavante, a nossa voz em defesa do rio sempre caminhará. A voz da terra, a voz do vento, dos campos, florestas e rios, como a luta não se apagará. Seus sistemas, que se dizem proteção ambiental, sem ser ecologistas, são sistemas erroneamente enganosos. Tais ambientalistas jamais serão compreendidos pela modernidade.

    O conceituado INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE E DE RECURSOS NATURAIS RENOVAVEIS, O IBAMA, é o primeiro que dá licença para implementação da obra a ser construída. Em vez de defender o meio ambiente, a natureza, o rio, toma sua decisão, extrapolando e desrespeitando a linda natureza e leis feitas pelo homem. E a própria FUNAI auxiliando a construção, deve nos informar a nós indígenas Xavante, independentemente de estar localizado dentro ou mesmo fora de terras indígenas, para que tenhamos nossa decisão e a indenização de inclusão de nossos direitos originários.

    Como determina o Capítulo VIII, Dos índios, Artigo 231 § 3º, “o aproveitamento dos recursos hídricos, incluindo os potenciais energéticos, só podem ser feitos com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, assegurada a participação nos resultados da lavra, na forma da lei”. No Brasil colônia os nossos antepassados nunca tiveram participação dos resultados de divisa. Nunca tivemos no centro da discussão. Nas decisões sempre ficamos à margem, fora de interesse. Só tivemos exploração, aproveitando-se de nós, enriquecendo-se à nossa custa.

    Na década de 70, foi construída, pavimentada, asfaltada a BR 070, que passa em duas terras indígenas: Terra Indígena Meruri (bororo) e Terra Indígena de Sangradouro, essa dos nossos irmãos Xavante. Não teve acordo, contrato, convênio e indenização ou simplesmente pedágio. Até o momento, essas comunidades não foram contempladas ou beneficiadas. É assim o atropelamento, a irresponsabilidade dos empreendedores e governantes, tanto do Governo Federal, Estadual e Municipal e fica por isso mesmo sem o mínimo interesse de nos incluir nos projetos.

    No caso de Belo Monte, foram apresentadas algumas ações judiciais relativas ao descumprimento do dever da consulta do Congresso Nacional. São umas ações contraditórias ao nosso interesse e tememos que haja mais uma vez a falta de respeito em nos ouvir. Somos contrários ao empreendimento hidrelétrico do Rio das Mortes. Aí havemos de saber a valorização da natureza, da flora e fauna exuberante das margens do valoroso rio manso e interpretaremos as leis do nosso país que trata do respeito à natureza, lei que se torna obsoleta, ultrapassada e desrespeitada pelo poder público do nosso país.

    Mas continuaremos ativos defensores da natureza. O Rio das Mortes nos dá vida, a preciosa água que mata a sede rejuvenesce o guerreiro Xavante.

    Read More
  • 21/05/2010

    Report 914: Indigenous occupy schooll to press for better education

    Indigenous peoples of the village of Sagarana occupied last night (19) the  São Judas Tadeu and Salomão Justiniano de Melgar school buildings, which are elementary and high school, respectively. The schools are in the district of Surpresa, circa 350 km from the city of Guajará-Mirim, Rondônia (RO). The group is calling for improvements in education, such as the contracting of new teachers, and offering school transport.


    For approximately three months, the 40 indigenous students, who are of the peoples Mon Oro, Oro Waram Xijein, Cao Oro Waje , Oro Nao’, Canoé, Makurap, Djeoromitxi and Aruá have not been attending school because there is no transportation. The high school classes are offered at night and school is 7 km from the Sagarana community.


    In mid-April, students and parents from the village sent documents to the municipal Secretariat of Education requesting transport. To date no response has been sent to the community. Faced with the worsening situation, they resolved to demand that urgent solutions be taken by local government.


    Problems with access to education in the region of Guajará-Mirim are numerous. There is no high school established in the villages. when there is an elementary school in the communities, they are found to be barely functioning. In addition to school transport, the schools also lack teachers for mathematics, chemistry, physics and sociology.


    A commission of the state Secretariat of Education is going to Surpresa in order to converse with the indigenous peoples and negotiate their vacating of the buildings. The commission is formed by the Municipal Secretary of Education, Sandra Mara Marangoni, by Professor Michael Oreyai and state legislator Miguel Sena.


    The indigenous leaders as well as the population of the District of Surpresa, who suffer directly from the lack of schools and teachers, say that disoccupation of the building will occur only with the arrival of school transport and the certainty of the hiring of teachers that are needed.

    Read More
  • 21/05/2010

    Carta da X Assembleia do povo Xukuru do Ororubá

    Nós, Xukuru do Ororubá, reunidos na aldeia Cajueiro para nossa X Assembleia, que teve como tema “PREPARANDO O TERRITÓRIO PARA ACOLHER AS NOVAS GERAÇÕES”, no período de 17 a 20 de maio de 2010, com a presença de representantes das aldeias: Pé de Serra de Canabrava, Pé de Serra dos Nogueira/Pão de Açúcar, Oiti, Caldeirão, Capim de Planta, Canabrava, Brejinho, Afetos, Caípe, Caetano, Couro Dantas, Lagoa, Cimbres, Sucupira, Guarda, Jatobá, Pedra Água, Curral Velho, São José, Gitó, Mascarenhas, Santana, Passagem e Cajueiro, além de companheiros e aliados do nosso povo:

     

    1. Louvamos nosso pai Tupã e nossa mãe Tamain. Nossa Terra é a nossa mãe! A Serra do Ororubá é o nosso solo sagrado, morada dos Encantos, reinado de Urubá, onde seus Filhos e Filhas vivem sob a sua proteção;

     

    2. Anunciamos que o Território Xukuru já está quase todo em nossas mãos. Agora ele está livre daqueles que nos escravizaram, que destruíram nossas matas, águas e pedras. Nossa terra agora nos envolve com seu manto de proteção e liberdade. Somos um povo livre “porque tudo que acontecer a terra, acontecerá aos filhos da terra” TERRA LIVRE, POVO LIVRE..

     

    3. Informamos que estamos preparando nossa mãe terra para receber as novas gerações, para isso, estamos limpando o nosso território de todos os vícios e costumes que tanto maltrataram a Natureza Sagrada e que trouxeram dor e sofrimento para nosso povo;

     

    4. Na nossa terra, tudo que se planta dar para comer, beber, amar, e para o lazer.  Por isso, nossa juventude com entusiasmo e vontade, protegida pela Mãe Natureza tem procurado, junto com nossas lideranças formas de viver com harmonia e alegria no território.

     

    5. Mas, mesmo com toda essa força, mobilização e vontade de viver em paz em nosso território, nossas lideranças continuam sendo criminalizadas. Nossos parentes Rinaldo Feitoza e Edmilson Guimarães continuam presos injustamente e nosso Cacique e lideranças sendo perseguidos.

     

    Por fim, saímos mais uma vez fortalecidos da nossa assembleia para continuar lutando junto às lideranças, firmes contra as forças que historicamente se opuseram e se opõem ao nosso projeto de vida. Anunciamos nossa solidariedade ao povo Tupinambá, que no momento está com seu cacique preso injustamente. Saímos renovados espiritual e politicamente para caminhar na construção de um mundo melhor para todos e todas.

     

     Aldeia Cajueiro, 17 a 20 de maio de 2010

    Read More
Page 815 of 1236