• 21/10/2010

    GT dos Povos Indígenas no Peru pede que governo cumpra determinações da OIT

    Por Tatiana Félix – Adital

     

    O Grupo de Trabalho dos Povos Indígenas da Coordenadoria Nacional de Direitos Humanos do Peru emitiu um pronunciamento público para protestar sobre o modo como as instituições indígenas peruanas têm sido tratadas, e, sobretudo, com a redução da funcionalidade do Instituto Nacional de Povos Andinos, Amazônicos e Afroperuanos (Indepa).

     

    Durante muito tempo as organizações em defesa dos povos indígenas lutaram para que o Governo criasse um Órgão Público que funcionasse com autonomia para desenvolver políticas em favor da população indígena, em cumprimento ao que prevê o Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Declaração das Nações Unidas sobre Direitos dos Povos Indígenas.

     

    Mas, apesar da demanda ter sido atendida em 2005 com a criação do Indepa, este avanço ocorreu apenas em nível formal, já que a instituição não garantiu os direitos coletivos destes povos.

     

    O objetivo da entidade era o de fortalecer as instituições indígenas e promover a defesa, afirmação e investigação dos direitos dos povos, em respeito à sua cultura e identidade, mas, ao longo do tempo foi possível perceber a perda de força do INDEPA.

     

    Quando foi criado em 2005, o Instituto era um órgão descentralizado da Presidência do Conselho de Ministérios, e tinha autonomia administrativa. Quase dois anos depois, o Estado transformou o INDEPA em uma sub-unidade do MIMDES, fazendo com que ele perdesse sua autonomia e seu caráter transetorial.

     

    Poucos meses depois, em dezembro de 2007, o INDEPA foi reintegrado e sua autonomia funcional resgatada. Mas, pouco tempo depois perdeu toda sua autonomia, passando a ser absorvida pelo Ministério da Cultura no mês passado. A decisão foi aprovada sem que os Povos Indígenas fossem consultados.

     

    O Convênio 169 da OIT e a Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos Povos Indígenas prevê que se deve "promover e garantir o sentido da igualdade social e o respeito dos direitos dos povos". Mas, a fusão do INDEPA com o Ministério da Cultura é considerada pelo Grupo de Trabalho dos Povos Indígenas, como um "atentado para a inconstitucionalidade indígena, já que afeta o objetivo da criação do órgão".

     

    "As competências do Ministério da Cultura se referem à promoção, inclusão e proteção do patrimônio cultural que fornecem os povos indígenas, mas, não se estabelece sua competência para defender os direitos dos povos indígenas, como estabelecia a definição do INDEPA, na lei que o cria", ressaltou o Grupo da Coordenadoria Nacional de Direitos Humanos do Peru. Eles explicam que a nova estrutura elimina o Conselho Diretivo com representação indígena.

     

    Além disso, o INDEPA também perde sua força transetorial, que deveria exercer para vincular todos os setores do Estado, a fim de elaborar políticas públicas inter-setoriais, articular e coordenar a política estatal de implementação de direito.

     

    "Por isso, convocamos o Estado Peruano para que cumpra o estabelecido no artigo 33 do convênio 169 da OIT e desenvolva ações encaminhadas para ressarcir as observações já mencionadas e assim estabeleça uma Instituição Estatal que atenda as demandas indígenas", enfatizam.

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  • 20/10/2010

    Report 933: Indigenist Council president receives alternative Nobel prize

    Bishop Erwin Kräutler, president of the Indigenist Missionary Council (Brazil), is one of four winners of the 2010 Right Livelihood Award, an alternative Nobel Prize. The prize honors the power of grassroots change. According to organizers, Bishop Krautler receives this award "for a life dedicated to working with human and environmental rights of indigenous peoples, and for his tireless effort to save the Amazon from destruction."

    For Bishop Erwin Kräutler, the joy of receiving the prize is very great. "I’m not happy for my sake, but for the cause of the Amazon and indigenous peoples who deserve this recognition!" he declared.

    The other prize recipients were the Israeli organization "Doctors for Human Rights-Israel," which operates in its own country and in Palestine, Nigerian activist Nnimmo Bassey, 52, who "revealed the human and ecological horrors of oil production", and Upadhyay Shrikrishna of Nepal, 65, together with the organization Sappros, "working against the multiple causes of poverty", according to the jury.

    Prophetic


    The press conference with the 2010 laureates will be held at the Press Center of the Ministry of Foreign Relations of Sweden in Stockholm on Dec. 6, at 09:30 (local time in Sweden). The Award Ceremony will be held in the Swedish Parliament on the same day, at 18:00h.

    The President of the National Conference of Bishops of Brazil (CNBB) had sent a letter to the Right Livelihood Award Foundation ratifying the nomination of the bishop of the Prelature of Xingu, in the Amazon state of Pará, for the Alternative Nobel Prize in Human Rights in February this year. According to the CNBB, the nomination is recognition of the "pastoral and prophetic" activity of Dom Erwin "together with the weak and the indigenous peoples".

    Says CNBB president, Bishop Geraldo Lyrio Rocha: “This award is a great honor, precisely for being an Alternative Nobel! For Dom Geraldo, it is the recognition of the great struggle of bishop Krautler in defense of the life of indigenous peoples and human dignity itself of these people. "Dom Helder Câmara also received this award during the period we experienced of the dictatorial regime in Brazil, when he was denied the Nobel Peace Prize. And now, Dom Erwin receives the same prize! We have in our midst a fighter for social justice, for the environment and the lives of indigenous peoples!"

    A life for life

    Don Erwin Kräutler was born in Austria in 1939, became a priest in 1964 and soon after went to Brazil as a missionary. In 1978, he became a Brazilian citizen (while also keeping his Austrian citizenship). He worked among the peoples of the Xingu, including indigenous peoples of different ethnicities. In 1980, Dom Erwin was appointed bishop of the Xingu, the largest diocese in Brazil. Between 1983-1991 and since 2006 he has been president of the Indigenist Missionary Council (CIMI), an entity linked to the National Conference of Bishops of Brazil (CNBB).

    The work of Dom Erwin is guided by the teachings of the theology of liberation. He teaches that a Christian has to side with the weak and oppose their exploiters.

    Indigenous peoples rights

    For five centuries, the indigenous population of Brazil dropped sharply. Today the causes are well known and documented, including direct violence (but rarely investigated) in connection with the appropriation of indigenous land, a land grab for logging, energy, mining, industry, agribusiness and military projects.

    During the presidency of Dom Erwin Kräutler, CIMI has become one of the most important advocates of indigenous rights in Brazil, focusing on land rights, self-organization and health care in indigenous territories. In 1988, intense lobbying by CIMI contributed to the inclusion of the rights of indigenous peoples in the Brazilian Constitution. The Council has also raised awareness within the Church on indigenous peoples and their rights.

     

    Social initiatives

    Since 1992, besides the work with CIMI, Kräutler has continued to work tirelessly in defense of the Xingu. The projects that he initiated include the construction of houses for the poor, functioning of the schools, construction of a facility for mothers, pregnant women and children, founding a "refuge" for recovery after hospital treatment, emergency assistance, legal support and work on farmers’ rights and demarcation of indigenous lands. He also has been fighting child prostitution in the region.

    Fight against Belo Monte

    For 30 years, Kräutler has been very active in the fight against the plans of the huge Belo Monte dam on the Xingu River, today strongly promoted by President Lula, which may be the third largest dam in the world. The dam could destroy 1000 km square of forest, inundating a third of the city of Altamira, Pará and creating a lake of stagnant water infested with mosquitoes in about 500 square kilometers, which would make life in the city itself very difficult. About 30,000 people would be forced to relocate.

    Threats and 24/7 police protection

    The commitment and frankness of Dom Erwin put his life at constant risk. In October 1987, several months before the decision to grant full civil rights for indigenous people in the constituent assembly, he was seriously injured in a car accident that was probably planned to kill him. Since 2006, Kräutler is under 24/7 police protection, partly because he insisted on an investigation following the murder of environmental activist Sister Dorothy Stang in 2005, who since 1982, had worked alongside of Dom Erwin. More recently, he received death threats because of his opposition to the Belo Monte dam and because he took legal action against a criminal group involved in sexual abuse of minors in Altamira.

    Prizes and books

    In 1989, Kräutler received the Grosser Preis für Binding-Natur und Umweltschutz (Principality of Liechtenstein) and in 2009 an honorary doctorate from the University of Salzburg, Austria. In the citation, Kräutler is called "personification of indignation against the social conditions that violate human dignity and the hope that another world is certainly possible".

    Kräutler has written a series of books, most recently Flowers as red as blood: A bishop between Life and Death, published in Portuguese and German in 2009.

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  • 20/10/2010

    Siderúrgica TKCSA é o novo matadouro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro

    Escrito por Marcelo Badaró Mattos    

     

    Na virada dos anos 1920 para 1930, época de crise capitalista e da trágica ascensão dos fascismos, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht escreveu a peça Santa Joana dos Matadouros*. Nela, está implícita a comparação entre o produto das grandes indústrias de carne – as salsichas, por exemplo – e os trabalhadores, que também são moídos por suas engrenagens. Ou explícita, no coro dos trabalhadores às portas fechadas dos frigoríficos, que se comparam à matéria-prima bovina daquelas fábricas ao expressarem toda a contradição entre recusarem aquelas condições indignas e a necessidade do emprego para a sobrevivência:

     

    Somos setenta mil trabalhadores nas Indústrias de Carne Lennox

    E não podemos viver nem mais um dia com este salário de fome

    Que ontem, por cima, voltou a baixar.

    (…)

    Não é de hoje que este trabalho nos repugna

    Que esta fábrica nos suplicia, e jamais

    Não fosse a soma de horrores da fria Chicago

    Nós estaríamos aqui. (…)

    Eles estão pensando o quê? Pensam

    Que somos gado

    Que aceitamos tudo? Nós

    Somos trouxas? Antes de morrer! Nós

    Vamos embora daqui imediatamente

     

    silêncio

     

    Já não são seis horas?

    Porque não abrem os portões, seus exploradores

    Aqui

    Está o seu gado, seus carniceiros, abram!

    (…)

     

    No dia 17 de setembro passado, participei de uma missão de solidariedade e investigação de denúncias que esteve em Santa Cruz, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, nas imediações da recém-inaugurada Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA). De capital majoritariamente alemão, ligada ao grupo transnacional Tyssen Krupp, com participação da Vale do Rio Doce, a CSA foi projetada para operar com dois imensos altos-fornos, além de uma termoelétrica e um terminal marítimo próprios, para se transformar na maior siderúrgica da América Latina, produzindo chapas de aço para exportação. Já foram anunciados planos de expansão das instalações, com o objetivo de dobrar a planta e a produção originalmente prevista.

     

    Nos últimos anos, durante a construção da planta industrial, foram feitas diversas denúncias de agressão ao meio ambiente, desrespeito às normas de licenciamento ambiental e desrespeito à legislação trabalhista, como na contratação de trabalhadores chineses ilegalmente trazidos ao Brasil. Foram registradas também perseguições e ameaças aos pescadores que, tendo perdido as condições de pescar e alimentar suas 8.000 famílias na região da Baía de Sepetiba, foram dos primeiros (logo após o acampamento de trabalhadores rurais sem-terra despejado) a sofrer mais diretamente com a empresa e a se organizarem para denunciá-la. Um desses pescadores, inclusive, está hoje distante dos seus, em um programa de proteção a testemunhas, após vários atos concretos de ameaça à sua vida.

     

    Ainda antes da entrada em operação da companhia, foi noticiado que ela seria responsável pela elevação em 76% da emissão de gás carbônico nos céus do Rio de Janeiro.

     

    O fato novo é que desde meados de junho a siderúrgica entrou em fase experimental de funcionamento (fase de operação pré-assistida), com apenas um alto-forno em funcionamento, e logo surgiram na imprensa as notícias de que a população de Santa Cruz fora surpreendida com uma forte carga de poeira prateada, recheada de resíduos metálicos, que dia após dia tornava mais "pesado" o ar no entorno da empresa. Os executivos da TKCSA afirmaram que se tratava de um problema passageiro que já estaria sendo solucionado, mas, a cada dia, os moradores da região percebem que novas nuvens prateadas cobrem os céus a seu redor.

     

    Fomos a Santa Cruz em um grupo de cerca 40 pessoas, oriundas de movimentos sociais, ONGs, Universidades, Institutos de Pesquisa como a Fiocruz, entre outras entidades, além de uma deputada alemã do Parlamento Europeu, única pessoa da missão a quem a empresa aceitou receber. E o que encontramos por lá?

     

    Eu vi uma UPA, construída a partir de "doação" da empresa (entre aspas mesmo, porque a TKCSA tem ampla isenção de tributos, ou seja, ao invés de pagar cerca de R$150 milhões por ano em impostos para que o Estado decida onde aplicar, a título de "contrapartida" de suas isenções, usa uma pequena parcela do que deveria pagar e ainda escolhe como). Nela, os moradores afirmaram que raramente encontram médicos (como, aliás, também ocorre, ainda segundo eles, no posto de saúde local, distante poucas centenas de metros da UPA). Vi na porta da UPA algumas pessoas com os olhos muito vermelhos e irritados. Uma delas nos disse que procurava atendimento havia dias para esse problema que começara semanas antes, depois da entrada em operação da empresa.

     

    Visitei uma escola municipal nas proximidades. Lá constatei que a companhia – a mesma que destruiu vários hectares de manguezais durante as obras de construção e dragagem da baía para a construção da ponte de 4 quilômetros de extensão, que suporta seu porto privado para os navios cargueiros de grande calado que transportarão o aço ali fabricado – agora distribui folhetos em material de primeira, voltados para "educação ambiental", defendendo, quem diria!, a preservação dos manguezais. Descobri também que a empresa promove cursos de "educação ambiental" para professores das escolas da região, em fins de semana em hotéis fazenda na Região Serrana, quando apresenta suas versões de que traz progresso ao Rio e que controla em limites toleráveis suas emissões de poluentes. Mas também aprendi que os professores questionam o discurso da empresa, interagem com os estudantes de forma a conhecerem melhor o que estão vivendo, produzindo com isso o que é mais difícil de encontrar nessa situação: informações pautadas na experiência real dos homens, mulheres e crianças comuns que sofrem os impactos desse processo, e não nos dados "oficiais" da empresa e dos governos.

     

    Vi, ouvi e aprendi muito mais conversando com os moradores da área. Mães que nos mostraram seus filhos pequenos, tomados de erupções cutâneas, que apareceram a partir de junho, e que se transformam em marcas como de queimaduras após serem coçadas. Donas de casa que nos mostraram o pó prateado – nitidamente resíduo metálico – que varrem todos os dias de suas moradias. Pessoas com problemas nos olhos. E pescadores que, com muita dignidade, relataram suas dificuldades, alguns deles mostrando como passaram a viver a ameaça constante da fome, depois que perderam a possibilidade de trabalhar na região, pela restrição à circulação de suas pequenas embarcações e em função da diminuição do pescado face às obras de construção do porto, que revolveram antigos resíduos de desastres ambientais passados, já há muito depositados no fundo da baía.

     

    Vi de perto, ainda, que não parecem ser apenas rumores as denúncias que vêm sendo publicadas desde 2008, pelo menos, de que muitos acidentes de trabalho ocorreram no canteiro de obras e continuam a ocorrer na planta já em operação, como parecem indicar as ambulâncias que entram e saem dos seus portões. Observei que as estações de controle da emissão de poluentes são operadas pela própria empresa, não pelo órgão estadual responsável. Percebi ali que a ameaça ao pescador que hoje se encontra abrigado pelo programa de proteção a testemunhas não é um caso isolado. Conforme já vem sendo apurado pela Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, são muito fortes os indícios de associação da empresa com a milícia que opera na região.

     

    Mas vi também algumas coisas que mantêm acesa a chama da esperança entre os moradores, trabalhadores e trabalhadoras que vivem naquela área. Ouvi mulheres dizendo com firmeza que iriam atrás de "seus direitos", coletivamente; ouvi pescadores dizendo que agora não estavam mais sozinhos na luta contra a empresa; vi pessoas juntas afirmando que, com a união de todos e todas e a força da sua mobilização, a luta contra os danos sociais, à saúde e ambientais que a empresa vem causando seria vitoriosa. E lembrei de outra passagem da Santa Joana dos Matadouros de Brecht, quando os trabalhadores dos matadouros de Chicago, diante da derrota em seu movimento de resistência, massacrado pela repressão encomendada pelos donos de fábricas, lembram a importância da perseverança na luta, ainda que sem horizonte imediato de conquista:

     

    Se vocês ficarem ombro a ombro

    Eles vão massacrar vocês.

    O nosso conselho é ficar ombro a ombro!

    Se vocês lutarem

    Os tanques vão massacrar vocês.

    O nosso conselho é lutar!

    Essa luta será perdida

    E talvez a próxima também

    Seja perdida.

    Mas vocês aprendem a luta

    E ficam sabendo

    Que, se não for à força, não vai

    Nem vai se a força não for de vocês.

     

    Santa Cruz já foi conhecido como o bairro que abrigava o matadouro municipal do Rio de Janeiro. Aquele matadouro deixou de operar em meados do século passado. Mas os novos "matadouros" industriais continuam a ser instalados ali. A CSA é apenas o maior deles (está prevista a instalação na região de mais terminais de carga, siderúrgicas e estaleiros). Um investimento dos conterrâneos de Brecht em terras brasileiras, pois na Europa este tipo de mega-empreendimento e seus mega-impactos já não são mais permitidos. Mas, em Santa Cruz, como na Chicago imaginária (imaginária?) da peça de Brecht, outros coros de trabalhadores já começam a ser ouvidos. É da força deles que podemos esperar algum limite aos desastres que acompanham uma empresa desse tipo. E o coro será ouvido mais longe e sua força será maior se mais vozes se juntarem às dos trabalhadores e trabalhadoras que vivem em Santa Cruz e na região da Baía de Sepetiba.

     

    Engrossemos esse coro.

     

    *Bertolt Brecht, Santa Joana dos Matadouros, São Paulo, Paz e Terra, 1996.

     

    Marcelo Badaró Mattos é professor titular de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense.

     

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  • 20/10/2010

    Presidente Lula assina Decreto que oficializa criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena

    O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, assinou ontem (19) o Decreto 7.336/ 2010, que oficializa a criação da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai). Com o Decreto, a Secretaria assume as funções que antes eram atribuídas ao Departamento de Saúde Indígena da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e também as ações de saneamento básico nas áreas indígenas.

     

    A Sesai será dividida em três departamentos: Departamento de Gestão da Saúde Indígena, Departamento de Atenção à Saúde Indígena e Distritos Sanitários Especiais Indígenas. Entre as ações descritas no Decreto, à Secretaria compete: coordenar a implementação da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas mediante gestão democrática e participativa; apoiar o serviço de controle social; orientar o desenvolvimento de ações de atenção integral à saúde indígena e de educação em saúde, entre outros.

     

    De acordo com o Decreto, o Ministério da Saúde e a Funasa terão 180 dias para realizar a transição da gestão de saúde indígena e cabe à Funasa assegurar todo o apoio para a transição, certificando-se de que os indígenas não tenham nenhum prejuízo neste período.

     

    Controle social

     

    Para o indígena Valdenir França, do povo Baré do Alto Rio Negro, é uma conquista muito grande a criação da Sesai. “É uma vitória de toda a população indígena, porque agora os recursos irão direto para os Distritos Especiais de Saúde Indígena e não haverá intermediários que possam atravancar o processo e impedir que medidas de saúde sejam tomadas”, declarou.

     

    Segundo Valdenir, haverá um curso de gestão para que os indígenas possam fazer de forma correta o controle social, assim que mudar para a Secretaria, mas para ele, o controle já começa agora. “A Funasa ainda tem que atender aos indígenas por 180 dias, que é o período de transição e nós vamos cobrar que o atendimento seja feito de forma correta”, finalizou.

     

    Já para o vice-presidente do Cimi Roberto Liebgott, a criação da Secretaria atende a uma reivindicação antiga do movimento indígena e indigenista, e também atende o que estabelece a lei Arouca. “A expectativa é que o governo estruture os distritos como unidades gestoras, com equipamentos, profissionais habilitados e capacitados, medicamentos”, afirma. Para Roberto o governo também deve fazer um concurso de forma urgente, para prover os cargos da nova secretaria. Ele também destacou a importância do controle social, como já o havia feito Valdenir. “A grande mudança é no controle social. Com a criação da Sesai, será possível que esse controle seja feito efetivamente e os indígenas devem lutar por isso”, finalizou.

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  • 20/10/2010

    Povos indígenas realizam encontro de espiritualidade indígena

    Entre os dias 5 e 7 de outubro foi realizado em Vilhena (RO) o encontro de espiritualidade indígena com o tema: “Nossa Cultura, fonte de nossa resistência”. O evento reuniu indígenas de diferentes povos como os Mamaindê, Nambikwara, Tawandê, Sabanê, Lacundê, Aikanã, Kwazá, Tupari, Wasusu, Terena e Manairisu.

     

    Veja abaixo o documento final emitido ao final da reunião:

     

    Documento Final do Encontro de Espiritualidade Indígena

     

    Nós, líderes espirituais dos povos Mamaindê, Nambikwara, Tawandê, Sabanê, Lacundê, Aikanã, Kwazá, Tupari, Wasusu, Terena e Manairisu, reunidos entre os dias 5 e 7 de outubro de 2010, no Centro de formação Piraculino, Vilhena – Rondônia, estivemos refletindo sobre “Nossa Cultura, fonte de nossa resistência”.

     

    A terra é vida e é sagrada para nosso povo, é como o ar que respiramos, e a água é como o sangue da mãe terra. Vamos resistir e continuar com nossas danças, histórias, cantos e festas tradicionais de nossas culturas. Reafirmamos o compromisso de repassar para as gerações futuras a nossa língua e nossas tradições, fortalecendo a força espiritual dos pajés e valorizando a medicina tradicional e a escrita da nossa língua, porque a língua materna é nossa arma de luta, é nosso documento.

     

    Manifestamos nossa preocupação quanto:

     

    • As terras sagradas, que ficaram fora da terra demarcada, é lá que habitam os espíritos dos antepassados.

    • As invasões de nossos territórios por: madeireiros, plantadores de soja, linhão, hidrelétricas que causam o desmatamento, pescadores que roubam os nossos peixes e outros.

    • Os mais jovens que já não querem participar das danças, festas e rituais antigos. 

    Todas estas preocupações já foram previstas pelos pajés, que com ajuda dos espíritos, nos falaram desses acontecimentos.

     

    Com isso reafirmamos que nossa cultura é verdade, o que hoje sabemos da nossa cultura, foi repassado pelos mais velhos, que são nossa historia viva. Vamos continuar acreditando na força espiritual dos pajés, teremos a proteção dos espíritos, para resistir com a nossa cultura e nossa espiritualidade.

     

    Vilhena, 7 de Outubro de 2010.

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  • 19/10/2010

    Indígenas Guarani do oeste reivindicam direitos sobre a terra tradicional no Paraná

    Por Cimi Regional Sul/Equipe Paraná

     

    Aconteceu na última quinta-feira (14), na cidade de Guairá (PR), a terceira audiência promovida pelo Ministério Público Federal (MPF) de Umuarama, entre as comunidades indígenas dos municípios de Guaíra e de Terra Roxa e órgãos públicos municipal, estadual e federal. O objetivo do evento foi fazer com que os órgãos governamentais ouvissem as comunidades indígenas, para assim atender às suas reivindicações.

     

    Estiveram presentes ao evento as comunidades Marangatu, Tekohá Porã, Carumbey, Jevy e Y’hovy do município de Guaíra, Araguaju e Nhemboete-Cidade Real, no município de Terra Roxa. O encontro também contou com a presença de representantes da prefeitura de Guairá, Emater, Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Copel, Secretaria de Educação do Paraná, Funasa e FUNAI, além da equipe do Cimi no Paraná, que participou das três audiências.

     

    Entenda o caso

     

    Desde o início do ano, as comunidades indígenas do povo Guarani localizadas no município Guaíra vêm realizando manifestações (fechamento do Porto Internacional e a ponte Airton Senna que liga o Paraná ao Mato Grosso do Sul) para garantir os seus direitos à terra, à saúde, à educação diferenciada e à moradia digna. Durante as manifestações lideranças indígenas denunciaram o descaso dos órgãos públicos em não cumprirem o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2009 sobre políticas públicas, bem como a não demarcação de suas terras.

     

    Os Guarani encontram-se em terras reduzidas ou vivem acampados aguardando que a Fundação Nacional do Índio (Funai) demarque suas terras tradicionais. Além da morosidade em resolver a questão fundiária, os indígenas relataram fatos preocupantes como a falta de moradias, de saneamento básico, de abastecimento de água potável e de escolas na maioria das comunidades.

     

    O grupo ainda afirmou que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) tem mantido presença limitada nas comunidades. As necessidades para atender a saúde são inúmeras, como a ausência de uma equipe de saúde com médicos, dentistas e enfermeiros, carro para transporte de pacientes e o translado dos pajés que são muito requisitados pelos Guarani de uma comunidade a outra. Faz-se urgente que os órgãos públicos atendas as demandas das comunidades.

     

    Outro fato preocupante para os Guarani da região é o desaparecimento de um jovem da comunidade Y’hovy-Rio Azul, na periferia de Guaíra. A comunidade está preocupada e  pede proteção para a Polícia Federal. O MPF disse que já foi instaurado um inquérito policial e as investigações continuam. Porém, nenhuma pista do desaparecimento foi encontrada.

     

    O procurador Dr. Robson Martins, do MPF de Umuarama, diante das reivindicações dos indígenas, convocou uma audiência com a participação dos órgãos públicos para um diálogo e a assunção de termos de compromissos, dando o prazo de 60 dias para que estes cumpram com seus deveres. Segundo o procurador, estas audiências são o caminho para evitar ações judiciais, mas, caso se esgote o prazo e os órgãos não cumpram a decisão, será necessário recorrer à ação judicial.

     

    Reivindicações

     

    Na noite anterior a audiência, a comunidade Y’hovy realizou uma cerimônia religiosa. Os pajés entoaram cânticos fortes e pediram a proteção e  a orientação de Nhanderu (Nosso Deus) para a luta dos Guarani. Ofereceram a Nhanderu os documentos das  reivindicações. Durante a reza tradicional, eles pediram ao Deus Tupã para obterem resultados favoráveis à luta de todos os Guarani.

     

    No início da audiência pública, foi dada a palavra aos representantes indígenas que relataram alguns avanços obtidos em cada aldeia em relação á situação anterior. Algumas comunidades foram beneficiadas e outras não. Denunciaram o fato de que há casos de agricultores que passam agrotóxicos nas proximidades de seus tekohas, causando doenças respiratórias e estomacais. Relataram também que a Copel iniciou a instalação dos postes da rede elétrica em algumas comunidades. Em algumas comunidades a Funasa iniciou a construção de módulos sanitários que, no momento, são somente dois em duas aldeias. Porém, ainda há muito para fazer, como o abastecimento de água potável que precisa ser realizado com urgência.

     

    O grupo reivindica ainda a construção de escolas e casas, além da contratação de professores e agentes de saúde indígenas. Os Guarani denunciaram que a Funai não tem aparecido nas comunidades, a não ser para regularizar documentação emissão de certidões de casamentos e nascimentos, entre outros. Mesmo assim o atendimento é precário, pois muitos indígenas ficaram ainda esperando por seus documentos.

     

    Em relação à questão fundiária, os Guarani relataram sobre o Grupo de Trabalho (GT) responsável pela identificação e delimitação da terra indígena que abrange as comunidades de Araguaju, no município de Terra Roxa, e Marangatu e Tekohá Porá, localizadas em Guaíra. De acordo com os indígenas, as comunidades não estão satisfeitas com o andamento dos trabalhos e exigem uma reunião com a antropóloga responsável pelo estudo e a Funai para obter informações sobre o laudo antropológico.

     

    A liderança Paulina, da Comissão de Terra Guarani do Oeste do Paraná, disse na audiência para a Funai e para o procurador Dr. Robson Martins que existem pedidos para a criação de mais cinco GTs para identificar as terras das comunidades Guarani acampadas nos municípios de Guaíra, Terra Roxa e Santa Helena, mas que  nenhuma providência foi tomada.

     

    Outra questão envolvendo a Fundação Nacional do Índio é a promessa feita, ano passado, à comunidade de Marangatu, que depois de um vendaval teve quase todas as casas destruídas. Em 2009, a Funai assinou um termo de compromisso para reconstruir as casas, porém até o momento nada foi feito. O cacique, junto com a comunidade, decidiu dar um prazo de quatro dias (até dia 20 desse mês) para que as obras sejam iniciadas. De acordo com a comunidade, se o acordo não for cumprido, aconteceram novas manifestações em Guaíra.

     

    Ao final da audiência, Robson Martins deu um prazo de sessenta dias para os órgãos públicos executarem as obras necessárias e atenderem as demais reivindicações dos Guarani. Caso isso não venha a acontecer, o MPF entrará com ações judiciais contra os órgãos citados.

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  • 19/10/2010

    Sociedade brasileira quer limites para o tamanho das propriedades de terras no Brasil

    Dados de plebiscito pelo limite da propriedade foram apresentados hoje

     

    Por Maíra Heinen

     

    Nesta terça-feira (19), o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA) apresentou aos jornalistas, em coletiva de imprensa, o resultado do Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade. A campanha foi realizada entre os dias 1º a 12 de setembro deste ano e contou com a participação de 519.623 pessoas. Participaram da coletiva Gilberto Portes do FNRA, o professor Ariovaldo Umbelino, da Universidade de São Paulo (USP), Willian Clementino, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Dom Pedro Stringhini, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e  Pe. Gabriele Cipriani, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic).

     

    Em toda a coletiva, o tom dos participantes era de satisfação por terem conseguido um número expressivo de pessoas que disseram sim ao limite da propriedade de terras. O plebiscito questionou se concordava que as grandes propriedades de terras no Brasil precisavam de um limite de tamanho e se concordava que o limite na propriedade de terra possibilitaria o aumento da produção de alimentos saudáveis e melhores condições de vida no campo. 95,52% responderam afirmativamente à primeira pergunta e 94,39% responderam afirmativamente à segunda questão.

     

    O secretário de política agrária da Contag, Willian Clementino, afirmou que está feliz com o resultado e que esta não é a primeira nem a última iniciativa na luta pela terra no país. “Foi uma grande oportunidade de dialogar com a sociedade para que ela compreenda a urgência na mudança da estrutura agrária vigente”, declarou. Ele também destacou que o plebiscito também serviu para tornar público que são os pequenos trabalhadores rurais que alimentam a sociedade brasileira.

     

    Igreja participativa

     

    Dom Pedro Stringhini, bispo da CNBB e membro da comissão episcopal de pastorais sociais na entidade, ressaltou que desde a sua fundação, a CNBB sempre pautou a questão fundiária e a luta pela terra, através de várias ações e publicações. “A luta pela terra é uma questão prioritária para comissão de pastorais sociais”, afirmou.

     

    Stringhini ressaltou também a grande diferença entre a agricultura familiar, fruto de reforma agrária, e o agronegócio. “A agricultura familiar produz trabalho, alimento saudável e protege o meio ambiente. Falo isso porque vejo em São Paulo que o ambiente natural está devastado pela monocultura da cana”. De acordo com o bispo, a luta primordial é pela dignidade do trabalhador no campo e na cidade e que as pastorais se juntam aos movimentos sociais neste embate.

     

    Dados alarmantes

     

    Muitos exemplos de violação à função social da terra foram dados pelo professor da área de Geografia da USP, Ariovaldo Umbelino. Ele ressaltou que na própria constituinte o limite da propriedade de terra foi removido para tentar destruir a possibilidade de estabelecer limites. “ A função social da terra não vem sendo cumprida, pois 200 mi hectares de terras são improdutivas no Brasil. Além disso, com a proposta de um novo código florestal, os latifundiários querem uma lei que os favoreça”, destacou.

     

    Umbelino também lembrou as questões trabalhistas dentro do agronegócio. “Os latifundiários não se preocupam com leis. A própria legislação trabalhista não é respeitada. Em terra onde se encontram cultivos de drogas, as terras não são expropriadas”, ressaltou. Ele também deu destaque à questão da empregabilidade. “Pelo agronegócio, 1,4 trabalhadores são empregados por propriedade, já pela agricultura familiar, são 17 trabalhadores".

     

    Informações importantes de concentração de terras foram apresentadas pelo professor. Segundo ele, pelo índice de concentração de terras, que varia de 0 a 1, onde o zero seria a perfeita distribuição de terras e o 1 a mais alta concentração, o Brasil situa-se atualmente no nível 0,854, o que é considerado muito alto. “O estado brasileiro tem os maiores latifúndios da humanidade e nunca teve uma atitude política de controlar seus territórios”.

     

    Outros dados apresentados foram os dos maiores proprietários de terras no país, onde situam-se em 4º e 6º lugar o Banco do Brasil, com 164 mil hectares e o Banco Bradesco, com 131 mil hectares, respectivamente. Pelos números apresentados por Ariovaldo Umbelino também se percebe que os maiores latifúndios se concentram na região norte do país.

     

    Para Umbelino, os próprio cadastro de terras do Incra precisa ser investigado, pois existem muitas divergências com cartórios e muitos erros que impossibilitam a pesquisa correta sobre grandes donos de terras no país.

     

    Importância da iniciativa

     

    A magnitude da campanha foi ressaltada por Gilberto Portes, do FNRA. “ São mais de 54 entidades envolvidas nesse processo que resultou numa grande consulta popular com resultado quase unânime”,destacou.

     

    Segundo Portes, a próxima iniciativa será entrar com uma proposta de emenda constitucional para que o limite da terra tenha destaque na Constituição Federal e também lutar para que o governo estabeleça o 3ª Plano Nacional de Reforma Agrária. “O Plano é diretamente ligado ao modelo de produção que queremos, tem a ver com a economia, com o tipo de emprego e com a preservação do ambiente. É uma obrigação do Estado elaborar este plano de reforma agrária e também vamos insistir para que isto seja feito”, finalizou.

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  • 19/10/2010

    Encontro Macro Regional Leste Nordeste discute os impactos dos grandes projetos junto aos povos indígenas

    Com o tema “Os grandes projetos e seus impactos junto às populações indígenas nos regionais Leste e Nordeste”, o evento reuniu cerca de 27 pessoas, entre lideranças indígenas e representantes do movimento indigenista

    Por Haroldo Heleno

    Os regionais Leste e Nordeste do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) realizaram no período de 14 a 17 de outubro, na cidade de Olinda, em Pernambuco, o Encontro Macro Regional Leste Nordeste, tendo como motivação maior a discussão sobre os impactos dos grandes projetos sobre as comunidades indígenas. O encontro contou com a presença de 27 participantes, entre eles as lideranças indígenas, Neguinho Truká, cacique do povo Truká em Pernambuco, e Cícero Tumbalalá, cacique e do Povo Tumbalalá na Bahia.

    Com o tema “Os grandes projetos e seus impactos junto às populações indígenas nos regionais Leste e Nordeste”, os participantes tiveram a oportunidade de refletir sobre os impactos causados pelas grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e outros empreendimentos, muitos dos quais já em curso e/ou em processo de concretização. Durante o encontro foram destacados a transposição do rio São Francisco e a construção de usinas hidrelétricas que afetam diretamente terras tradicionais e populações indígenas que vivem às margens do Velho Chico.

    A questão da monocultura (cana de açúcar, soja, algodão) também foram levantadas, em especial a questão da monocultura do eucalipto, que atinge principalmente os povos indígenas do Espírito Santo, Sul e extremo sul da Bahia, se expandindo também para o norte de Minas. A questão da exploração e extração de minérios, construções de estradas, portos, ferrovias, pontes e empreendimentos turísticos (hotéis, resorts, pousadas) também foram destacados.

    Nas questões das barragens deu-se destaque à construção das barragens de Pedra Branca e Riacho Seco, que afetarão em muito as comunidades Truká, em Pernambuco, e Tumbalalá, na Bahia. Para Neguinho Truká tais obras representam a morte dos povos indígenas. “Se estas barragens forem construídas, isso significará a morte dos 26 povos indígenas que sobrevivem na Bacia do São Francisco”.  Cacique Cícero tem a mesma opinião e acrescenta ainda que todos têm a perder com tais obras. “Todo mundo que esta em volta do rio perde, mas os povos indígenas perdem mais, pois além dos bens materiais, também perdemos bens imateriais, que não têm preço”.

    “Que desenvolvimento é este que eles falam, que só nos leva para o buraco?”, questiona o cacique do povo Tumbalalá. Ele ainda afirma que não é justo que os indígenas sofram de geração em geração pelos erros cometidos pelos homens brancos. Indignado com o descaso e a omissão do governo, a liderança Truká também desabafa: “O invasor (governo federal), aquele que deveria garantir os nossos direitos, nossa segurança, nossas vidas, são os que tentam a todo o momento nos destruir”.

    De acordo com um levantamento preliminar apresentado por Saulo Feitosa, secretário adjunto do Cimi, cerca de 426 empreendimentos atingem diretamente as áreas indígenas, sendo que 144 se referem a empreendimentos em recursos hídricos. Destes, 81 são pequenas centrais hidrelétricas, 44 usinas e 19 outros empreendimentos.

    Violência

    Relatos impressionantes de trabalho degradante e trabalho escravo levam muitas vezes os trabalhadores a reivindicarem melhores condições de trabalho. Os relatos que não são poucos, falam até de “concretação” de trabalhadores, ou seja, que estes são enterrados vivos com concreto das obras, quando por descuido caem nas mesmas, e a obra não pode parar. A vida se tornou algo banal, diante do que eles chamam de “desenvolvimento”.

    Percebe-se também que muitas das vezes, o governo sonega informações importantes destes empreendimentos, como forma de atrair o apoio da população, que de acordo com suas propagandas sempre serão beneficiadas. No entanto, em todas essas falácias daquelas que serão impactadas direta ou indiretamente pelas obras. O discurso é sempre o mesmo não importando o empreendimento, de cunho economicista e desenvolvimentista. E aí fica a pergunta: desenvolvimento para quê e para quem? Ou ainda a indagação de Cícero Tumbalalá: “Que desenvolvimento é este que eles falam, que só nos leva para o buraco?”.

    Encaminhamentos

    Diante dos enormes desafios apresentados se viu a necessidade de continuar apoiando a luta dos povos indígenas pela recuperação e garantia de seus territórios, como forma de barrar a ganância dos desenvolvimentistas, apresentando o projeto do Bem do Viver dos povos indígenas, que trabalham justamente em outra lógica, a lógica do envolvimento e não do desenvolvimento a qualquer preço.  

    Como encaminhamento do encontro, também ficou definido que o Cimi continuará o processo de formação de índios e missionários, já em curso, como forma de qualificar o enfrentamento a este modelo. Além disso, pretende-se promover encontros e o fortalecimento das alianças com o movimento social, visando unificar a luta contra os grandes projetos.

    Provocar a rearticulação do Movimento Indígena, como forma de garantir uma luta mais unificada dos povos, acabando com o isolamento de alguns embates também é uma proposta, bem como provocar um maior envolvimento do Ministério Público nestas lutas e buscar novos aliados junto ao campo artístico e intelectual, entre outros.

    Para divulgar as lutas e reforçar o movimento, acredita-se ainda que a utilização dos meios de comunicação, inclusive os alternativos e comunitários, é indispensável. Subsidiar a sociedade com informações verdadeiras, omitidas pelo governo, sobre os impactos destas obras e suas conseqüências maléficas para a população, como forma de desmistificar o “encantamento pelo progresso e desenvolvimento” em curso também deverá ser uma tática costumas. 

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  • 18/10/2010

    Decreto Presidencial que possibilita o início da implantação da Secretaria Especial de Saúde Indígena sai esta semana

    A afirmação foi do representante do Ministério da Saúde, Antonio Alves, durante reunião na sede da APIB

    No próximo dia 19 de outubro, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) começa a sair do papel com a assinatura do Decreto Presidencial que modifica as estruturas do Ministério da Saúde e da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), antiga responsável pela saúde indígena, e permite o funcionamento efetivo do novo órgão. Quem garante é o Secretário de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP) do Ministério da Saúde, Antonio Alves, nome indicado para assumir a direção da nova secretaria, que se reuniu com os integrantes da Comissão Nacional Permanente (CNP) da APIB em Brasília.

    O secretário explicou que a aprovação no último dia 3 de agosto do Projeto de Lei de Conversão (PLV) 08/2010, originado da Medida Provisória 483/2010, autorizou a criação (estrutura e cargos) e a transferência da saúde indígena para a SESAI, vinculada diretamente ao Ministério da Saúde, com recursos próprios garantidos no orçamento da União. No entanto, para que a secretária pudesse começar a funcionar ainda faltava reajustar os órgãos de governo e o subsistema de saúde à nova realidade, o que ficará a cargo do Decreto, que está semana obteve parecer favorável das consultorias jurídicas dos Ministérios do Planejamento e da Saúde, já foi enviado a Casa Civil e agora aguarda apenas a assinatura do Presidente da República, em cerimônia prevista para acontecer no Palácio do Planalto, com a presença de lideranças indígenas.

    A maior preocupação exposta pelos representantes da APIB no encontro diz respeito à manutenção do atendimento nas aldeias durante o processo de implantação definitiva da SESAI, uma vez que diariamente chegam reclamações de todas as partes do país sobre falta de profissionais de saúde, medicamentos e equipamentos. Uma conseqüência direta da omissão e do descaso da Funasa nos últimos anos, que se intensificou desde o anúncio de criação da secretária, gerando um verdadeiro caos para aqueles que necessitam de assistência médica.

    Antonio Alves informou que um artigo do Decreto Presidencial estipula um prazo de 180 dias, a partir da publicação, para que seja finalizada a transição da saúde indígena para a SESAI. Ele assegurou que não haverá interrupção no atendimento neste período e que, após a publicação do decreto, será criado um comitê de resposta rápida ligado a cada Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) existente, que ficará responsável pela resolução dos problemas emergenciais de cada região e pela garantia de assistência médica. A Funasa não é mais intermediária junto ao governo e agora as equipes multifuncionais subordinadas aos Dseis irão tratar com a secretaria, que por sua vez se comunicará diretamente com o Ministro da Saúde.

    Os Dseis são as unidades responsáveis pelo conjunto de atividades técnicas de atenção à saúde, que promovem a reordenação da rede de saúde e das práticas sanitárias e organizam as atividades administrativo/gerenciais e estimulam o controle social.

    Além da autorização para a criação da SESAI, o PLV aprovado pelo Congresso Nacional alterou a Lei 8745, que regulamenta o regime jurídico, permitindo, ainda, a contratação de pessoal, sem concurso público, por um período determinado, entre 2 e 4 anos. Desta forma será possível contratar profissionais que já tenham experiência com saúde indígena, bem como oferecer remuneração diferenciada compatível com as realidades locais, o que aumenta a qualidade do trabalho.

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  • 18/10/2010

    Especialistas calculam em Altamira perímetro que pode ser alagado com Belo Monte

    Medição está sendo feita a pedido do MPF, para checar dados dos Estudos e acompanhar deslocamento de população se a usina for mesmo construída

    Professores de engenharia ligados à Universidade Federal do Pará fizeram essa semana, a pedido do Ministério Público Federal, medições em Altamira para determinar quais áreas da cidade ficarão submersas na época da cheia, se as barragens da usina de Belo Monte forem mesmo construídas. Um dos reservatórios da usina será em frente à sede do município, que é banhada pelo rio Xingu.

    O trabalho faz parte de uma das investigações do MPF sobre o projeto e foi necessário pela falta de diálogo dos empreendedores com a população possivelmente afetada e por causa de dúvidas que permanecem sobre os dados apresentados nos Estudos de Impacto Ambiental.

    A população das áreas mais baixas da cidade se queixa ao MPF que nenhuma medida foi tomada, nem informação distribuída, sobre o deslocamento da população atingida ou indenizações, como está expressamente previsto na Licença Prévia concedida pelo Ibama para o empreendimento.

    De acordo com o EIA de Belo Monte, seriam cerca de 16 mil pessoas, mas professores de universidades brasileiras que analisaram criticamente as informações questionam os métodos do levantamento e acreditam em subdimensionamento. O MPF quer se certificar da questão e deve, com base nas informações da UFPA, acompanhar de perto os impactos aos moradores.

    O trabalho dos professores André Montenegro, Andréia Conduru e Júlio Aguiar é um levantamento topográfico planialtimétrico que vai materializar, no núcleo urbano de Altamira, pontos na cota 100 – a 100 metros de altitude em relação ao nível do mar, limite abaixo do qual, segundo o projeto de Belo Monte, poderá haver inundação.

    Hoje, os especialistas foram até o cais de arrimo de Altamira, juntamente com representantes de movimentos sociais e o procurador da República Cláudio Terre do Amaral, para marcar um ponto de cota 100 como referência para a continuidade do trabalho. A partir dele, o MPF pretende fazer um levantamento cadastral e mapear os imóveis inseridos abaixo de 100 metros, passíveis de inundação.

    A referência para o trabalho dos especialistas é um marco geodésico que o IBGE implantou em Altamira no ano passado e foi homologado internacionalmente este ano. Um marco desse tipo define com exatidão a altitude e as coordenadas do ponto onde está instalado, emitindo sinais para aparelhos de GPS e servindo de referência para medição de altitude no terreno próximo.

    O marco está localizado dentro do quartel do 51º Batalhão de Infantaria de Selva, precisamente na cota 186,26 e, a partir dele, os engenheiros da UFPA puderam determinar vários pontos em Altamira que estão na cota 100 ou abaixo e que poderão ser, em caso de construção de Belo Monte, alagados.

    A soleira da Catedral da cidade, por exemplo, está localizada na cota 101,433. Já a Casa do Índio, em frente ao cais de arrimo da cidade, está na cota 99,052, passível de alagamento com a construção da barragem.

    Veja as altitudes de alguns pontos de Altamira medidas

    Soleira da Catedral do Sagrado Coração de Jesus: 101,433m

    Cais de arrimo: 100,77m

    Eletronorte: 100,725m

    Casa do índio: 99,052m

    Ministério Público Federal no Pará
    Assessoria de Comunicação

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