• 25/10/2010

    Mais uma vida Pataxó Hã-Hã-Hãe é ceifada na luta pela terra

    A disputa pela terra na região de Pau Brasil e a demora no julgamento da Ação de Nulidade de Títulos sob a Terra Indígena Caramuru Catarina Paragusssu teve ontem mais um episódio dramático e, como sempre, levando a vida  de mais uma liderança indígena.

     

    Lideranças indígenas do povo Pataxó Há-Hã-Hãe informaram que neste sábado (23), a liderança indígena José Jesus da Silva, conhecido como Zé da Gata, foi assassinado. O crime aconteceu por volta das 21 horas, na estrada que liga o município de Pau Brasil a Itajú do Colônia. Zé da Gata levou um tiro de rifle por indivíduos que conduziam uma moto, quando chegava à área retomada da fazenda Bela Vista, que é terra tradicional Pataxó Hã-Hã-Hãe. Ainda segundo informações das lideranças, Zé da Gata estava levando mantimentos para o pessoal que se encontrava na área quando foi alvejado.

     

    Os Pataxó Hã-Hã-Hãe, cansados de esperar que o STF retome o julgamento da Ação de Nulidade de Títulos incidentes sobre o seu território tradicional, retomaram no ultimo dia 4 de outubro cerca de 6 fazendas nos municípios de Pau Brasil e Itajú do Colônia, e no dia 10 de outubro, sofreram ataques violentos por parte de pistoleiros contratados pelos fazendeiros invasores das áreas.

     

    Esta situação fez com que um grupo de lideranças fosse até Brasília e uma liderança a Salvador solicitar que providências urgentes fossem adotadas para evitar que situações de violência como esta acontecessem. A impressão para os indígenas é que as solicitações não surtiram efeito pois, acostumados com a impunidade que reina na região, os fazendeiros invasores continuaram seus ataques e ontem conseguiram um dos seus intentos.

     

    Ao longo destes 28 anos de luta pela reconquista de seu território, o povo Pataxó Hã-Hã-Hãe vê agora sua 20ª liderança derramar seu sangue para que o povo recupere seu território.

     

    Histórico de mortes

     

    Em 1983, o indígenas Antônio Júlio da Silva foi assassinado com um tiro na cabeça por pistoleiros que trabalhavam a mando de um fazendeiro da região.


    Em junho de 1986, uma emboscada deixou gravemente feridos os indígenas Antônio Xavier, com 10 tiros; Anivaldo Calixto, com um tiro no peito; Enedito Vítor, com dois tiros e Leonel Muniz, com um tiro.


    Em novembro de 1986, a aldeia São Lucas foi invadida por pistoleiros e soldados da Polícia Militar, fortemente armados. Foram assassinados os indígenas Jacinto Rodrigues e José Pereira. Uma criança recém-nascida também morreu no conflito quando sua mãe fugia pela mata para se esconder dos tiros.

     

    No dia 29 de março de 1988, foi encontrado morto o indígena Djalma Souza Lima, depois de ter sido seqüestrado na aldeia. Seu corpo apresentava vários sinais de tortura: unhas, dentes e couro cabeludo arrancados, castrado e com queimaduras em várias partes.


    No final de 1988, no dia 16 de dezembro, foi brutalmente assassinado o líder Pataxó Hã-Hã-Hãe João Cravim, aos 29 anos de idade, casado e pai de três filhos, numa emboscada na estrada que liga a aldeia à cidade de Pau Brasil – BA.


    Nove anos depois, no dia 20 de abril de 1997, o irmão de João Cravim, Galdino Jesus dos Santos, foi queimado vivo em Brasília por cinco jovens da classe média alta, enquanto dormia numa marquise de ônibus. Galdino fazia parte de um grupo de lideranças que estava em Brasília para cobrar da Justiça providências para a regularização de suas terras. O crime que chocou o país, até hoje clama por justiça. Antes de entrar em coma, Galdino perguntou repetidas vezes:
    “Por que fizeram isso comigo?”

    No dia 2 de janeiro de 2002, Milton Sauba foi assassinado em frente ao seu filho, quando saíam para retirar leite no curral da fazenda que estavam ocupando, todos sabem quem são os culpados, mas nenhuma providência até o momento foi tomada.

    No dia 18 de julho de 2002, o indígena Raimundo Sota foi brutalmente assassinado em uma tocaia ao lado de sua casa. Raimundo já havia denunciado há alguns dias que vinham sendo ameaçados por pistoleiros a mando dos fazendeiros da região. Três dias antes do seu assassinato, houve uma tentativa de homicídio que deixou ferido o índio Carlos Trajano, com cerca de 15 tiros.

    No dia 19 de maio de 2007, o indígena Aurino Pereira dos Santos, de 40 anos, foi assassinado a tiros em uma tocaia na região do Taquari, município de Pau Brasil. O índio Aurino era participante ativo desse processo de luta do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe pela recuperação do seu território, participando ativamente de várias retomadas, inclusive na região onde foi assassinado, onde de dirigia a retomadas mais recentes na região do Taquari e Braço da Dúvida.

    É bom ressaltar que ao longo destes anos, a Funai já realizou vários levantamentos fundiários, tendo pago indenizações pelas benfeitorias de boa-fé à maioria dos proprietários/possuidores. Uma minoria destes – os réus da presente ACO – 312-BA, no entanto, não reconhece a terra como indígena ou discorda do valor proposto pela Funai. E, apesar de serem minoria, as áreas por eles ocupadas correspondem à maior parte da TI Caramuru – Catarina – Paraguaçu. São estas áreas que foram retomadas no dia 4 de outubro deste ano.

    O dia 24 de setembro de 2008 foi uma ótima oportunidade para que a sociedade pudesse pagar a dívida histórica que tem com os Pataxó Hã-Hã-Hãe, que ao longo dois séculos foram tão esbulhados dos seus direitos e mais recentemente como na cronologia de violência apresentada acima, tão violentados. Mas infelizmente, apesar do voto favorável do Ministro Eros Grau no Supremo Tribunal Federal, o pedido de vista do Ministro Menezes Direito frustrou esta oportunidade e a sua demora na retomada do julgamento terminou resultando em mais uma morte.  

    Mesmo com todo este quadro de violência, o povo Pataxó Hã-Hã-Hãe continua acreditando na Justiça e aguarda que todos os criminosos sejam punidos, e que finalmente as suas terras lhes sejam devolvidas, acabando assim com todo o sofrimento vivenciado por esta comunidade. E que finalmente possam viver como filhos de Deus na sua “Terra sem Males”.

    É inadmissível que, em pleno século XXI, situações como estas ainda ocorram. O povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, seus aliados, parceiros e apoiadores, solicitam que medidas urgentes possam ser feitas de verdade, principalmente a devolução de suas terras para que possam viver dignamente seu projeto de vida.

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  • 22/10/2010

    Comunidade denuncia invasão de suas terras para estudos de hidrelétrica do Tapajós

    O Complexo Hidrelétrico do Tapajós do Programa de Aceleração do Crescimento já avança sobre comunidades na região do Médio e Alto Tapajós e Jamanxim.

     

    A comunidade de Pimental, uma das mais antigas daquela região, foi tomada por técnicos da empresa “Rural Tecs” contratada pela Eletronorte.  De repente e sem conversar com ninguém começaram a fincar marcos, fazer medições e entrar em território dos moradores daquela comunidade.

     

    Indagados pelos moradores o que faziam ali e com autorização de quem, os trabalhadores da empresa responderam que estavam seguindo ordens do presidente.  Indignados, todos teriam procurado o presidente da comunidade que surpreso, declarou também nada saber.  A cada momento a indignação ia tomando conta de todos.  Foi então que explicaram que as ordens seriam do Presidente da República que decidira que ali seria construída uma grande hidrelétrica.

     

    A comunidade saiu da indignação para a revolta.  Quebraram marcos e equipamentos da empresa e determinaram a saída dos trabalhadores da comunidade.

     

    Estes registraram Boletins de Ocorrência em Itaituba.  Criou-se na região o clima de criminalização dos comunitários que lutam pelo seu território.  A mídia local e setores pró-hidrelétricas também auxiliam nesse processo.

     

    A denúncia do caso, campanhas de solidariedade e de organização popular se mostram necessárias neste momento.

     

    Segue abraço uma nota de repúdio de movimentos da região:

     

    NOTA DE REPÚDIO

     

    Itaituba, 20 de outubro de 2010

     

    Em solidariedade aos ribeirinhos da comunidade de Pimental

     

    Nós, dos movimentos sociais, pastorais sociais, movimentos populares e todos aqueles que lutam em defesa da vida e dos direitos humanos, expressamos nossa indignação pelo fato ocorrido no ultimo dia 12 de outubro de 2010 na comunidade de Pimental, o desrespeito com que as empresas Eletronorte e Ruraltecs invadem a propriedade das pessoas, entram sem permissão e fazem suas demarcações sem se quer comunicar o povo, porém isso resultou em protesto dos moradores, cansados de serem repudiados pelas empresas, quebraram o marco de concreto instalado pela Eletronorte já algum tempo.

     

    Denunciamos a forma como foram taxados pela imprensa e pelo vereador Luiz Fernando Sadec dos Santos o popular “Peninha” que se diz representante do povo e julga seu povo de vândalos, da mesma forma fez o repórter Queiroz Filho da TV tapajoara que usou da sua ignorância para tratar como vândalos pais de famílias, trabalhadores que ralam dia e noite para o sustento de seus filhos, homens e mulheres que lutam por melhores condições de vida no meio em que vivem, essas famílias foram criminalizadas e desrespeitadas.  Até que ponto isso vai chegar?  Basta de violência, de criminalização.  Onde estão nossos direitos?

     

    O povo precisa saber em que pé está o projeto do Complexo hidrelétrico no tapajós e o que essas empresas querem?  Não admitiremos que o governo federal e as grandes empresas privadas passem por cima de nossos direitos tratando-nos como criminosos e invadindo nossas terras para acabar com a nossa fonte de vida o RIO TAPAJÓS. Lutaremos e vamos continuar resistindo em defesa da vida e dos povos do rio tapajós.

     

    Somos homens e mulheres que lutam em defesa de uma vida digna.

     

    "Água e energia não são mercadorias!

    Água e energia são pra soberania!

    “Águas para vida não para Morte”

     

    – Comissão de justiça e Paz dos Direitos Humanos de Itaituba

    – Movimento Tapajós Vivo

    – CPT- Comissão Pastoral da Terra

    – MAB- Movimento dos Atingidos por Barragens

    – Pastoral da Juventude

    – Comunidade do Pimental

    – STTR de Itaituba

    – MMCC- Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade

    – Frente em Defesa da Amazônia

    – Rede FAOR

    – Comitê Metropolitano do Movimento Xingu Vivo para Sempre – Belém/PA

     

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  • 22/10/2010

    Comunidades impactadas pela monocultura do eucalipto realizam intercâmbio de experiências em Minas Gerais

    Nos dias 19 e 20 de março deste ano, membros de comunidades e movimentos camponeses, indígenas e quilombolas dos estados do Espírito Santo e da Bahia que lutam para conquistar seus territórios invadidos por empresas que exploram a monocultura de eucalipto, realizaram uma visita de solidariedade e de intercâmbio às comunidades de Raiz e Vereda Funda no município de Rio Pardo, norte de Minas Gerais. Essas são duas comunidades que estão na luta pela reconquista do seu território tradicional.

     

    Há mais de 30 anos que a região do norte de Minas Gerais foi tomada por empresas para explorar a monocultura de eucalipto para fins de carvão, fonte energética para a produção de ferro e aço nas dezenas de siderúrgicas localizadas neste estado. A invasão do eucalipto foi devastadora: as empresas conseguiram plantar mais de 1 milhão de hectares de eucalipto, formando uma das maiores áreas contínuas desta monocultura no mundo.

     

    As empresas se interessavam principalmente pelas terras planas, as chamadas ‘chapadas’, que eram terras onde as comunidades tradicionais dessa região, chamadas de geraizeiras, soltavam o gado e coletaram as inúmeras frutas e plantas medicinais do cerrado. Com isso, as comunidades ficaram encurraladas nos vales e seus córregos e nascentes secaram. Além disso, elas foram privadas da sua liberdade de ir e vir no seu próprio território e elas estão até sendo criminalizadas, cada vez que tentam coletar lenha nas chapadas. A grande promessa das empresas era emprego. Mas no município de Rio Pardo de Minas, os mais de 90 mil hectares de eucalipto geram menos empregos do que a produção artesanal de cachaça que com 1.150 empregos ocupa apenas 2.500 hectares. Vale lembrar que os empregos gerados na monocultura do eucalipto são em sua maioria degradantes, trabalhos realizados em más condições, comprometendo a saúde e qualidade de vida dos trabalhadores.

     

    Incentivadas pela articulação e encontros promovidos há cerca de 10 anos pela Rede Alerta contra o Deserto Verde – uma Rede que articula as comunidades que resistem à monocultura do eucalipto e lutam por seus territórios -, diversas comunidades do norte de Minas Gerais começaram a se articular para retomar seu território. Duas das comunidades que estão travando esta luta são Vereda Funda e Raiz.

     

    As 130 famílias de Vereda Funda foram as primeiras na região para retomar seu território. São 5 mil hectares de chapada que eram usadas coletivamente e que foram arrendadas pelo governo do estado de Minas Gerais à empresa Florestaminas. Depois de terminar o contrato e inspirados pela luta dos índios Tupiniquins e Guaranis do Espírito Santo, a comunidade, em 2005, retomou a área de 5 mil hectares com o apoio da Via Campesina.

     

    Depois de muita luta, enfrentamentos e perseguição, a comunidade conseguiu definitivamente ter o controle da área que agora está sendo repassada pelo estado de Minas Gerais para o INCRA – instituição federal para a reforma agrária – para que seja criado um assentamento agro-extrativista. Neste assentamento, cada família terá sua área para plantio, e haverá também áreas coletivas para a atividade agro-extrativista e para soltar o gado. A própria comunidade com apoio do sindicato de trabalhadores rurais de Rio Pardo de Minas e do Centro de Agricultura Alternativa de Minas Gerais fez um plano de reocupação do território e um mapa, com áreas para recuperação ambiental do cerrado e outras para roças. A Embrapa Cerrados vem contribuindo com pesquisas na comunidade neste sentido. A retomada do território provocou um novo ânimo na comunidade, principalmente entre os mais velhos, já que com a retirada do eucalipto da área as nascentes começaram a rebrotar e os animais silvestres voltaram. Além disso, a comunidade reconquistou algo fundamental: a sua liberdade.

     

    A comunidade de Vereda Funda mostrou aos visitantes no seu centro comunitário uma experiência de um sistema agroflorestal e levou as visitas à campo para conhecer uma roça com plantios de milho, feijão, arroz, mandioca e outras culturas numa terra que já foi plantada com eucalipto. Nessa área, querem plantar várias culturas juntas de forma agro-ecológica, em substituição ao plantio químico e monocultural do eucalipto. Também visitamos uma agroindústria de doces, onde trabalha um grupo de mulheres que com esta atividade já estão conseguindo gerar mais renda e trabalho.

     

    A comunidade de Vereda Funda serviu de espelho para o surgimento de outras lutas pela terra, a exemplo da comunidade de Raiz, que também foi visitada. Esta comunidade, com 40 famílias, teve 3.600 hectares do seu território tradicional grilada nos anos 1980 para a exploração do eucalipto, atualmente em mãos da empresa Replasa. A monocultura de eucalipto assoreou os nascentes o que significou que as famílias tiveram que subir a chapada para ter áreas de plantio. No entanto, a empresa ocupou toda a chapada, encurralando as famílias nos vales. No processo de luta, a comunidade descobriu que esses vales onde moravam era considerada pela empresa como sua reserva legal. Dessa forma, as famílias tomaram ainda mais consciência de que, se não tomassem uma atitude, seriam expulsas daquele lugar e, indignadas com essa descoberta, decidiram iniciar a luta para ter seu território de volta.

     

    Com a ajuda dos mais velhos, a comunidade de Raiz começou a delimitar a área da comunidade o que resultou num mapa.  Segundo este mapa, a comunidade perdeu cerca de 3.600 hectares para a empresa Replasa. Em seguida, a comunidade se mobilizou, e fez publicamente a auto-demarcação deste seu território, novamente a exemplo dos índios Tupiniquins e Guaranis do Espírito Santo e da Comunidade de Vereda Funda. Depois disso, pararam as máquinas da empresa que estavam tirando os troncos de árvores nativas do cerrado para poder plantar novamente eucalipto. Em seguida, em dezembro de 2009, com o apoio da Via Campesina, a comunidade retomou finalmente seu território tradicional com a construção de um acampamento onde ela resiste até hoje, mesmo com uma liminar de despejo que ameaça a continuidade da ocupação.

     

    Segundo os participantes, este intercâmbio e visita de solidariedade foi muito importante para o fortalecimento e a animação das lutas, tanto daquelas de Raiz e Vereda Funda, bem como as das comunidades e movimentos no Espírito Santo e na Bahia. E são muitas lutas. Só no município de Rio Pardo, existem pelo menos 18 conflitos envolvendo as empresas de eucalipto!

     

    Para as pessoas das regiões onde o avanço do eucalipto ainda está na fase inicial, como em algumas regiões da Bahia, a experiência das comunidades visitadas serviu de exemplo para buscar evitar o mesmo processo nessas regiões. As comunidades de Minas Gerais deram também uma aula prática sobre a importância da resistência, principalmente Raiz neste momento em que está sendo seriamente ameaçada de ser despejada da área retomada. Chamou atenção também a força das mulheres, que estão presentes e participam ativamente nesta luta. Outro aspecto é a importância do plantio de alimentos no lugar do eucalipto e as diversas experiências mostradas que busquem colocar em prática os princípios da agroecologia.

     

    No final do encontro, após uma avaliação bastante positiva por todos os/as participantes, as pessoas presentes propuseram dar continuidade aos intercâmbios como um instrumento fundamental para animar, socializar e fortalecer a luta nos diversos estados. Além disso, os participantes mostraram um grande interesse para continuar se articulando em diversas frentes como reforçar o conhecimento e intercâmbio sobre o reflorestamento com árvores nativas, a promoção da agro-ecologia, a formação política-ideológica e a realização conjunta de apoio mútuo às lutas concretas contra a expansão da monocultura de eucalipto e pela retomada dos territórios dos quilombolas, indígenas, geraizeiros e camponeses.

     

    Winnie Overbeek, Rede Alerta contra o Deserto Verde e Cepedes/BA, 23 de março de 2010

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  • 22/10/2010

    MPF cobra atenção à saúde e educação na região atingida por Belo Monte

    Procuradores recomendam ao Ibama que não emita nova licença antes de se garantir condições de atendimento e de saneamento, como exige a Licença Prévia

     

    O Ministério Público Federal, após receber informações das prefeituras de Altamira e Vitória do Xingu de que nenhuma obra foi iniciada para dar condições de saneamento e saúde às populações, emitiu recomendação ao presidente do Ibama para que não emita nenhuma nova licença para a hidrelétrica de Belo Monte.

     

    A recomendação lembra que, de acordo com os termos da Licença Prévia nº 342/2010, concedida para o empreendimento, a instalação, mesmo que parcial, só poderá acontecer após se iniciar a construção de escolas, postos de saúde, hospitais e obras de saneamento nos municípios e localidades diretamente afetados.

     

    A infraestrutura de saúde e educação é uma das questões que mais preocupa as comunidades da região, já que o simples anúncio da obra já vem atraindo migrantes e sobrecarregando os serviços na região. Mesmo assim, nenhuma das providências previstas pelo Ibama como ações preparatórias foram concretizadas.

     

    Os procuradores da República Cláudio Terre do Amaral e Bruno Gutschow obtiveram documentos que comprovam que a situação relativa à saúde, educação e saneamento continua exatamente no “marco zero”, parâmetro adotado pelo próprio Ibama como referência para a medição dos impactos do empreendimento.

     

    “Sequer foi assinado convênio entre o empreendedor e o município de Altamira tratando da questão da saúde no município”, lembram os procuradores no documento enviado ao Ibama, para depois acrescentar que não poderá ser emitida nenhuma licença de instalação, total ou parcial, “enquanto as questões relativas à saúde não forem definitivamente resolvidas, de acordo com as previsões da Licença Prévia”.

     

    De acordo com informações da imprensa, os empreendedores solicitaram ao Ibama uma licença parcial de instalação, documento que não existe na legislação ambiental brasileira. “Se uma nova licença for concedida sem o cumprimento das condicionantes, todas as garantias que o Ibama deu na Licença Prévia viram letra morta e se repete um roteiro conhecido em grandes empreendimentos na Amazônia. Para o governo, as facilidades para o empreendedor são mais importantes que os benefícios para a população”, resume o procurador Felício Pontes Jr, que também acompanha o caso.

     

    Condicionantes

     

    O Ministério Público Federal abriu uma investigação para cada uma das obrigações impostas pelo Ibama à Norte Energia como condições para o licenciamento da hidrelétrica de Belo Monte. No total, são 40 procedimentos de investigação para cada  uma das condicionantes.

     

    O acompanhamento individualizado permite aos procuradores responsáveis pelo caso, Cláudio Terre do Amaral e Bruno Gutschow em Altamira, e Felício Pontes Jr em Belém, visão ampla da situação dos impactos do empreendimento.

     

    Apesar das pressões sobre o Ibama para a concessão de licença provisória, a análise do MPF mostra que, na extensa lista de pré-requisitos que deveriam ser atendidos pelos empreendedores ou pelo poder público, pouca coisa foi feita.

     

    De acordo com informações coletadas pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre e levadas até o MPF (veja quadro aqui), até outubro de 2010, nove condicionantes do Ibama não foram realizadas, duas foram realizadas parcialmente e sobre as demais não há informações. 

     

    Sobre as condicionantes da Funai, que prevêem ações como demarcação de Terras Indígenas e retirada de não-índios das áreas demarcadas, entre outros, 14 não foram realizadas, duas foram realizadas parcialmente e uma foi publicada. Sobre as demais não há informações.

     

    Ministério Público Federal no Pará

    Assessoria de Comunicação

    Fones: (91) 3299-0148 / 3299-0177

    E-mail: [email protected]

     

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  • 22/10/2010

    Comunidades indígenas de Tefé (AM) sofrem com a seca

    Antonio Nascimento

    Cimi Norte 1 – Equipe Tefé

     

    A comunidade do Povo Kokama em Porto Praia de baixo, município de Tefé (AM), com aproximadamente 300 indígenas, está isolada por causa de uma das maiores secas de todos os tempos já vista na região. De acordo com Raimundo Nonato da Silva, tuxaua da comunidade, falta água potável para os moradores, os lagos estão secando e os peixes morrendo. “Os que conseguimos pescar para venda, chega ao mercado já estragado, devido o transporte. Para carregar por terra, a distância é de mais de 4km a pé, no sol”, afirma.

     

    Os indígenas também já não podem fazer farinha, devido à falta de água e também pela falta de meio de transporte para o produto. Raimundo explica que comunidade já sofre com doenças. “Por causa da falta de água, a comunidade já sofre com diarréia, gripe e outras doenças causada pela má qualidade da água adquirida, sendo de um córrego atrás da aldeia sem nenhum tratamento”, diz. Segundo o tuxaua, a secretária de Ação Social do município, Norma Pantoja, disse que a prefeitura deve furar um poço artesiano na aldeia, mais até o momento nada foi feito.

     

    A situação de calamidade se estende por outras comunidades do município de Tefé e outras regiões. As comunidades São Jorge e Nova Jerusalém no lago de Tefé; Barreirinha no lago do Caimbé; Nossa Senhora de Fátima no lago do Catuá; Boará e Boarazinho no rio Solimões, sofrem do mesmo problema. Obede da Silva Maricua, diretor do departamento de saúde da organização indígena SEI-Tefé (Saúde, Educação e Terras Indígenas de Tefé), afirmou que os indígenas estão encaminhando um documento para a Funai para buscar apoio e ajudar as famílias isoladas.

     

    O Cimi na Prelazia de Tefé se solidariza com a luta dos povos e apóia as iniciativas que favoreçam a vida destas populações.

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  • 22/10/2010

    Irmão Korta, o irmão Ajishäma

    Para os índios Makiritares, José María Korta Lasarte é o Irmão Ajishäma: a garça que mostra o caminho para a salvação, para a terra prometida. Os Makiritares o batizaram assim quando o irmão jesuíta, há muitos anos, conheceu pela primeira vez as terras do Amazonas venezuelano, no Alto Ventuari. Hoje, com 80 anos, esse jesuíta nascido em Donosti, continua sendo um lutador incansável, que serviu durante toda a sua vida a causa da resistência indígena, impulsionando a revolução cultural de todos os povos da Ameríndia.

     

    A reportagem é do sítio El Pueblo Soberano, 18-10-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

     

    Entre as décadas dos anos 1970 e 1980, o Irmão Korta permaneceu em Alto Ventuari, acompanhando os primeiros projetos de autonomia e autogestão econômica antidesenvolvimentistas para os índios, com a criação da União Makiritare do Alto Ventuari (UMAV), para o desenvolvimento da criação de gado e búfalos, e o Sanemap, organização dedicada à produção de mel dos Sanemas no Alto Parú.

     

    O bem-estar alcançado pelas comunidades indígenas, graças ao apoio incondicional do Ir. Korta e de sua forma de assumir a condição de missionário, incomodou tanto aos latifundiários, autoridades civis e militares, assim como a própria Igreja. O irmão foi expulso do Amazonas.

     

    Mas o respeito que Ajishäma havia transmitido às comunidades indígenas, por sua cultura e sua sabedoria ancestral, assim como pelo compromisso que havia adquirido com o projeto emancipador das comunidades, fez com que ele regressasse por pedido dos índios a suas terras, para criar materiais no idioma materno de cada grupo.

     

    Daqui por diante, apareceram outros espaços, fundamentais para a luta indígena, como o Centro de Educação e Promoção da Autogestão Indígena (Cepai), o Secretariado da Causa Ameríndia Kiwxi, promovido pela Companhia de Jesus – posteriormente fundação autônoma –, a Escola de Voluntários de Yarikajé, ou Ecomunidad, o Ateneo Indígena de las Lenguas e a Universidad Indígena del Tauca, até chegar, depois de muitas discussões, à criação, em 2004, da Universidad Indígena de Venezuela (UIV), única no país e de onde poderão surgir, nessa visão de resistência de Ajishäma, "os verdadeiros mestres, os verdadeiros promotores, os verdadeiros construtores das comunidades dos povos indígenas da República Bolivariana da Venezuela". Para Ajishama, "o máximo que Chávez pode fazer em favor dos indígenas é tornar possível que suas universidades funcionem de maneira autônoma e real, dirigidas pelos próprios índios conscientizados".

     

    Sobre o Ir. Korta, lemos que "não é um padre comum", que é uma pessoa que pratica a frontalidade sempre, aceitando o conflito, que "não tem papas na língua com ninguém para dizer suas verdades". Suas crenças partem de que todos temos um Pai comum. No entanto, o fundamental para ele é que a identidade de cada povo se construa a partir da sua própria fé. Um missionário, diz, jamais deve esmagar a idiossincrasia do povo indígena.

     

    Por isso, "não se fala de Deus, mas de Deuses", e se fala sempre em um plano horizontal, onde se respeitam todas as crenças e onde não há um padre ou um pregador tentando impor sua verdade. Ajishäma nos ensina assim uma lição básica da história: "O respeito pelo direito alheio".

     

    Toda essa consciência e essa forma de ser que acaba com o costume de ver os índios pedindo ajuda, esmolas, sem direitos nem autoestima, provoca ao Ir. Korta sérios inconvenientes com todos os setores oficiais, que o pressionam para que ele saia do país.

     

    Mas o Ir. Korta não se cansa. Agora, mais do que nunca, ele segue na luta, dando testemunho de uma consciência totalmente lúcida, assinalando que, de acordo com o estado das coisas no país, apesar de uma Constituição Bolivariana promulgada em 1999 e a própria LOPCI (2005) [Lei Orgânica dos Povos e Comunidades Indígenas], se os índios "se reapropriassem de seus direitos, seriam massacrados agora mesmo, porque são muito frágeis frente ao mundo crioulo, os criadores de gado e o poder econômico".

     

    Sabemos que isso que Korta assinala é justamente o que está acontecendo neste mesmo momento com a resistência yukpa e no caso do cacique Sabino Romero Izarra, que, por lutar pela recuperação de seu território e de sua cultura, está sendo penalizado e criminalizado, ainda, como parte de toda uma política aplicada de assuntos indígenas governamentais. Diz Korta: "É preciso diferenciar um apoio econômico de uma claudicação no governo, que é o que está acontecendo com os povos indígenas. Dão-lhes grandes cargos políticos e, a partir do partido, colocam-nos liderando políticas do Estado para conseguir a integração dos povos indígenas no modelo ocidental".

     

    Segundo manifestam companheiros sobre o irmão, ele "se mantém abraçado à esperança de promover a incorporação do indígena venezuelano ao processo de desenvolvimento do país, respeitando os valores de sua cultura, por meio do reconhecimento oficial da Universidade Indígena da Venezuela pelo Estado, como do centro de estudos superiores para as etnias nativas".

     

    Ajishäma manifestou que dará sua vida para ver esses povos levantados e que a Universidade fundada "é o coração de um povo", e por isso não descansou desde que se integrou a ela.

     

    Como emblema da UIV, aparece a figura de Kiwxi, o nome indígena do Ir. Vicente Cañas, missionário jesuíta assassinado no Brasil por defender o território dos nativos. Ele é, além disso, padroeiro da Causa Ameríndia, fundada em 1993 pelo Ir. Korta, para reconstruir a identidade dos povos indígenas a partir da sua própria fé e assim resgatar os valores ancestrais que fazem parte do patrimônio cultural da humanidade.

     

    Desde a última segunda-feira, 18 de outubro, o Ir. Korta decidiu ir até as últimas consequências e anunciar uma greve de fome em vista de que, na Venezuela, apesar da legislação promulgada em matéria de direitos para os índios, continuam ocorrendo as piores injustiças com relação aos povos e cidadãos indígenas e, o que é ainda mais lamentável, continuam sendo aplicados esquemas de dominação coloniais e imperialistas.

     

    Exigimos junto ao Ir. Korta que ocorra no país uma verdadeira mudança social, uma mudança que dignifique todos os povos indígenas do continente e a todos os povos do mundo, onde se respeite a diversidade das identidades e das culturas, se garantam e se protejam os direitos e se manifeste a justiça.

     

    Estamos fartos de que os grupos de interesses econômicos e as transnacionais e o poder rejam e decidam destinos que não lhes pertencem em nossa pátria e em nosso continente.

     

    Exigimos que se garantam nossos direitos indígenas!

    Exigimos respeito e dignificação para todos os irmãos indígenas!

    Estamos em luta inabalável!

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  • 22/10/2010

    Ypo’i e a (in)justiça

    Egon Heck

    O dia 20 de outubro já se despedia, quando a juíza Lisa Taubemblatt pronunciou mais uma sentença contra os direitos indígenas. Em Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai – terra onde foram absolvidos os assassinos de Marçal de Souza Tupã’y – tem se notabilizado as constantes decisões contrárias aos povos Kaiowá Guarani da região. Depois de uma audiência em que as quatro lideranças da comunidade de Ypo’i tiveram que assistir calados as acusações e debates sobre sua realidade e direitos, a decisão veio como uma flechada no coração: “Vocês têm dez dias para deixar a fazenda São Luiz”. Trata-se de deixar em o local onde estão enterrados seus pais, avós e inúmeros antepassados que ali viveram até vinte e sete anos atrás.  É uma sentença para abandonarem o espaço donde foram violentamente expulsos há menos de um ano atrás.  É o local onde foram assassinados os professores Genivaldo e Rolindo, sendo que deste último sequer o corpo ainda foi localizado e onde não tiveram permissão de sepultar Genivaldo, conforme entendia ser seu direito e desejo.  É desse espaço tradicional e sagrado que a juíza determinou que saiam. Será que existe injustiça maior?

    Uma das lideranças presentes ao julgamento/audiência ligou dizendo que não consegue mais dormir, pois está temendo pela sorte de sua comunidade.  Está extremamente angustiada pensando o que poderá vir a acontecer. A traumática experiência de violência e morte lhe atormenta. Por isso suplica a todas as pessoas de bom coração que não permitam que eles sofram mais uma vez graves violências.

    Campanha pelos direitos e pela vida

    Diante da grave realidade de isolamento, fome, desassistência, ameaças e o cerco a que a comunidade do Ypo’i está submetida, a Anistia Internacional fez uma campanha solicitando providências imediatas. Nas centenas de cartas enviadas aos ministros da Justiça e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, vem expresso “peço aos Senhores e às autoridades brasileiras que garantam a segurança dos membros da comunidade e assegurem que eles tenham acesso à comida, água, cuidados de saúde e que possam se deslocar livremente…solicito que a Polícia Federal conclua a investigação sobre a morte de Genivaldo Vera e o sobre o paradeiro de Rolindo Vera e que os responsáveis sejam levados à Justiça”. As centenas de cartas também são de dezenas de países, dentre os quais Bélgica, Holanda, Israel, Japão, Croácia, França, Espanha, Itália, Alemanha e EUA.

    Neste momento essa campanha se estende ao clamor urgente para que não se consuma mais uma violência e expulsão da comunidade do Ypo’i de seu sagrado chão, seu tekoha tradicional.

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  • 21/10/2010

    Ypo’i – Violência sem fim

    Nota do Conselho Indigenista Missionário – Cimi – Mato Grosso do Sul

     

    O Conselho Indigenista Missionário, Regional Mato Grosso do Sul, acompanha com extrema preocupação as agressões e violências que vem sofrendo a Comunidade Guarani do Ypo’i no município de Paranhos. A preocupação aumentou neste dia 20 de outubro quando a Juíza Federal Lisa Taubemblatt da 1º Vara Federal de Ponta Porã – MS, decidiu que a comunidade indígena deve deixar o local em que estão (tekoha Ypo’i) na então fazenda São Luiz, no prazo de 10 (dez) dias. Essa é mais uma decisão contrária aos direitos históricos e constitucionais dos povos indígenas e que acarreta um grave desrespeito a direitos humanos fundamentais. Essa decisão poderá designar mais um capítulo sangrento contra uma comunidade que apenas quer viver em paz em seu território tradicional e que já passaram por muito sofrimento desde a primeira tentativa de retomada em 28 de outubro de 2009.

     

    As quatro lideranças da comunidade que participaram da audiência, dentre os quais os pais dos professores indígenas assassinados, esperavam poder contar à Juíza sua realidade, a história de ocupação daquela terra por seu povo. Isso infelizmente não aconteceu. Tiveram que ouvir por mais de quatro horas, falas contra o seu povo sem que pudessem dizer uma palavra. “Isso é um absurdo. Nós viemos aqui para falar, poder dizer nossa verdade e nosso sentimento”, desabafou uma das lideranças impedida de se manifestar.

     

    Depois de serem expulsos de seu território tradicional na região do rio Ypo’i, há 27 anos, conforme afirmou o próprio fazendeiro, Sr. Firmino Escobar, na audiência e depois de terem trabalhado anos para o pai dele nessa mesma terra, a comunidade Guarani Nhandeva sente mais uma vez cair sobre suas cabeças às sentenças dos invasores.

     

    Ao retornarem à seu tekohá no dia 28 de novembro do ano passado, permaneceram no local apenas três dias, quando foram, violenta e covardemente, atacados pelos fazendeiros e seus capangas fortemente armados. Na ocasião vários membros da comunidade foram feridos a bala e torturados. Os dois professores, Genivaldo Vera e Rolindo Vera, foram levados por eles e depois assassinados. O corpo de Rolindo até hoje, quase um ano depois, ainda não foi localizado. Inclusive este foi um dos motivos da família ter retornado ao local, no dia 18 de agosto de 2010. O retorno foi marcado pelo cerco violento que a comunidade vem sofrendo, racionamento de comida, assistência a saúde, trancados com cadeado. Uma centena de pessoas mantidas numa espécie de cativeiro privado.

     

    Solidariedade e apoio urgente

     

    Quando saíram da sessão em que foram comunicados que teriam dez dias para deixar a sua terra, as lideranças foram também comunicados pelo Ministério Público Federal e pela Procuradoria Federal da FUNAI, de que estes iriam recorrer da decisão. Um recurso de agravo seria interposto urgentemente para o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo.

     

    Diante desta realidade, nos unimos ao clamor da comunidade que pede manifestações solidárias de todos os seus amigos, aliados e de todas as pessoas que buscam a justiça e defendem os direitos das minorias originárias desta terra.

     

    Juntos, vamos cobrar do Governo Brasileiro e órgãos competentes ações de justiça e garantia de direito a terra, no sentido de evitar mais uma grave violação e agressão a uma comunidade indígena Guarani, pondo em risco sua sobrevivência física e cultural.

     

    Campo Grande-MS, 21 de outubro de 2010.

     

    Conselho Indigenista Missionário – Regional Mato Grosso do Sul

     

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  • 21/10/2010

    Informe nº 936: Cimi recebe hoje Prêmio João Canuto 2010

    Homenagem será entregue a partir das 18h, no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro

     

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) recebe hoje (21) o Prêmio João Canuto 2010. A entidade será representada por seu vice-presidente, Roberto Antônio Liebgott, que credita a homenagem à atuação dos missionários e missionárias da entidade.

     

    O prêmio, oferecido anualmente pelo grupo de pesquisa Trabalho Escravo, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (Nepp-DH), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e pelo Movimento Humanos Direitos (MHuD), tem por objetivo dar visibilidade a empreendedores sociais e organizações rurais e urbanas que se dedicam à defesa dos direitos humanos.

     

    Este ano, além do Cimi, receberão homenagens o Comitê Popular pela Erradicação do Trabalho Escravo no Norte Fluminense, Alexandre Anderson; MV Bill (estes três pelo Rio de Janeiro e os demais representando as demais regiões do país); Leonardo Sakamoto; Movimento 11 de Dezembro, de Santo Antônio de Jesus, Bahia; Zilda Arns, in memoriam; Dom Xavier Gilles de Maupeou d´Ableiges e o Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (Imip).

     

    Como nas edições anteriores, a premiação deste ano acontecerá durante as atividades do VII Fórum Anual do MHuD, que nesta ocasião debate o tema “Escravidão Contemporânea e Questões Correlatas”. O prêmio será entregue a partir das 18h no auditório Manuel Maurício do CFCH, no Campus da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro.

     

    Homenageado

     

    A homenagem ao Cimi é resultado da atuação da entidade junto aos povos indígenas do país. O Conselho é uma organização vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). 

     

    O Cimi conta atualmente com 114 equipes de trabalho, formadas por leigos e religiosos, que atuam em diversas regiões do país. As atividades juntos às comunidades indígenas tem como princípios o respeito pela alteridade indígena e sua pluralidade étnico-cultural, bem como a opção e compromisso com a causa indígena dentro de uma perspectiva mais ampla de uma sociedade democrática, justa e solidária.

     

    Para o vice-presidente da entidade, a premiação vem em função da luta do Conselho pela garantia de direitos dos povos indígenas. “O prêmio faz um reconhecimento ao trabalho que os missionários e missionárias do Cimi vêm desenvolvendo ao longo de quase 40 anos pela defesa dos direitos dos povos indígenas”.

     

    Liebgott fala ainda sobre a importância da iniciativa: “Essa premiação é de suma importância porque a ação missionária recebe acompanhamento de outros setores da sociedade, não somente aqueles atrelados à causa indígena. O acompanhamento e apoio vem inclusive de artistas e intelectuais, que nos rendem essa homenagem”.

     

    O movimento indígena já recebeu outras homenagens do Prêmio João Canuto por sua atuação junto aos povos indígenas. Em 2006, dom Pedro Casaldáliga, um dos fundadores do Cimi, também foi premiado.

     

    Premiações

     

    Ao longo de sua existência, o Conselho Indigenista Missionário vem recebendo seguidas homenagens por sua atuação. Em 2009, a entidade recebeu o Prêmio Victor Gollancz, da entidade alemã Associação para Povos Ameaçados (GfbV). No ano anterior, o Cimi recebeu o IX Prêmio USP de Direitos Humanos, na categoria institucional. A premiação homenageou pessoas e instituições que, através de suas atividades exemplares, contribuíram para a difusão e divulgação dos direitos humanos no Brasil.

     

    Este ano, além da presente homenagem, Dom Erwin Kräutler, presidente da entidade e bispo da Prelazia do Xingu, foi um dos quatro ganhadores do Prêmio Right Livelihood 2010, o prêmio Nobel Alternativo da Paz. Dom Erwin foi homenageado também com o Prêmio de Direitos Humanos José Carlos Castro, oferecido pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Pará.

     

    MhuD

     

    O Movimento Humanos Direitos atua diretamente por meio de execução de projetos, programas ou planos de ações desenvolvidas em prol da paz e dos direitos humanos. Seu trabalho está voltado para os problemas do trabalho escravo, dos abusos praticados contra crianças e adolescentes e sobre as questões que envolvem meio ambiente e comunidades tradicionais, como as indígenas e quilombolas.

     

    Diversos artistas e intelectuais fazem parte do quadro de associados do Movimento. Entre eles, os atores Chico Diaz, Carla Marins, Camila Pitanga, Wagner Moura, Pepita Rodrigues, Osmar Prado, Letícia Sabatella e Dira Paes.

     

    Prêmio

     

    O nome do Prêmio é uma homenagem ao primeiro presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Rio Maria, no Pará, João Canuto de Oliveira, assassinado em dezembro de 1985. Caso que levou o Brasil à condenação pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, tanto pela demora no julgamento do crime, como pelo fato de o Estado não ter garantido sua segurança, apesar de ter recebido as denúncias do sindicalista pelas ameaças sofridas. 

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  • 21/10/2010

    “Essa história de condicionantes para nós é uma farsa”, diz Movimento Xingu

    Tatiana Félix

     

    Cerca de 200 pessoas, entre militantes do Movimento Xingu Vivo para sempre, ribeirinhos, indígenas, agricultores e o Grupo de Trabalho da Defensoria Pública do Pará, estiveram reunidas na última sexta-feira (15) para fortalecer a luta contra a construção da Usina de Belo Monte, no rio Xingu, localizado na cidade de Altamira, no Pará, e mostrar seus impactos negativos na população local.  O encontro aconteceu no travessão do km 27, na comunidade São Francisco das Chagas.

     

    A pressão feita pelas empresas do Consórcio Norte Energia nas comunidades e o não cumprimento das cerca de 40 condicionantes propostas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no momento da licença prévia para a construção da hidrelétrica, foram o motivo da reunião.

     

    A ocasião serviu ainda para as comunidades se informarem sobre seus direitos, o processo, a obra e as medidas que podem tomar para impedir a atuação abusiva dos funcionários do Consórcio.

     

    Antônia Melo, integrante do Movimento Xingu Vivo, reforçou o que já vem sendo relatado pelas comunidades. “A empresa Norte Energia, que é o Governo, já está nas comunidades, nas famílias, pedindo para as famílias assinarem papéis, que não têm nenhuma confiabilidade, eles pegam documentos, fotografam o terreno, sem ter nenhuma responsabilidade com condicionantes”, disse.

     

    De acordo com as denúncias, os funcionários das empresas estariam ainda negociando a venda individual de lotes e solicitando a assinatura dos moradores para uma espécie de concordância para a realização da obra, se antecipando à emissão da licença de instalação da obra.

     

    “Essa história de condicionantes para nós é uma farsa. O Movimento Xingu Vivo não acredita que eles (empresas) cumpram essas condicionantes, como até agora nada foi cumprido”, enfatizou e completou: “Nós repudiamos essa prática do Governo na construção desses projetos”.

     

    As condicionantes estão relacionadas aos povos indígenas e demais comunidades que serão afetados pela obra, à infraestrutura dos municípios afetados, à qualidade da água, à sobrevivência das espécies da volta grande do Xingu e outros fatores socioambientais.

     

    O Ministério Público Federal (MPF), que já notificou o Ibama, alertou também que uma nova licença para Belo Monte apenas será concedida quando todas as condicionantes pendentes forem efetivadas.

     

    Apesar da pressão sofrida pelas populações locais pelas empresas do consórcio e o desrespeito com os moradores e com o meio ambiente, Antônia disse que a população e os movimentos sociais deverão continuar com os encontros para fortalecer a luta contra Belo Monte e manter todos informados sobre o que está acontecendo na região.  ”Vamos nos fortalecer na resistência da construção dessa barragem no rio Xingu, que é a destruição do rio, da Amazônia e da biodiversidade”, avisou.

     

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