• 25/10/2010

    Assentados impactados por Estreito denunciam problemas em nova localidade

    O procurador da República Álvaro Manzano participou nesta quinta-feira de uma reunião com os trabalhadores rurais do antigo projeto de assentamento Formosa, em Darcinópolis, atualmente reassentados em lotes adquiridos pelo Consórcio Estreito Energia em parte da fazenda Marju, no município de São Bento do Tocantins. Após três anos impedidos de plantar e produzir no local onde foram assentados pelo Incra reivindicando o reassentamento coletivo em outra localidade, os impactados ainda não solucionaram todos os seus problemas. O local foi escolhido pelos clientes do Incra que terão suas glebas submersas pelo lago da UHE de Estreito. Na sexta-feira, outra reunião em Babaçulândia também tratará de pendências não atendidas de outros impactados.

     

    A reunião foi motivada por diversas falhas no acordo firmado entre o Ceste e os assentados na estruturação do novo assentamento. Segundo os impactados, as questões se referem à falta de cascalhamento das estradas e transporte para crianças em idade escolar, além da documentação para transferência que teria ficado a encargo do Ceste. Também houve reclamações quanto à localização das casas, sobre o que os impactados afirmam não ter opinado. “Algumas das casas foram construídas em locais que serão inundados na época das chuvas”, afirma Cláudio Vieira, liderança dos impactados do PA Formosa. O consórcio também não construiu equipamentos públicos comuns previstos no acordo, como igreja, centro comunitário e escola.

     

    As cercas construídas também são motivos de reclamações, pois nos locais afastados da estrada as estacas foram fincadas a até 25 metros uma da outra, o que fragiliza a segurança e não impede o trânsito dos animais. A água obtida em poços é salobra, e tem causado doenças de pele, e somente os que têm os lotes próximos ao córrego obtêm água de qualidade. Mas a principal preocupação é quanto às casas, que foram construídas em um mesmo padrão independente do tamanho da família, e com menos de 30 dias prontas já apresentam falhas estruturais. O chão já apresenta rachaduras e as escapas de rede se soltam da parede sob pouco peso.

     

    Os impactados também reclamam do atraso na liberação do dinheiro referente à indenização pelas benfeitorias de cada lote, e do não fornecimento do vale alimentação, que varia de R$ 90 a 250 de acordo com cada família, que deveria ser pago imediatamente após a ocupação do novo assentamento e se prolongar por dois anos. O benefício servirá para atender necessidades imediatas dos assentados enquanto reestruturam suas atividades produtivas. A falta deste recurso coloca algumas famílias em situação de insegurança alimentar. Os dois hectares de terra preparada para plantio ainda não foram entregues.

     

    A forma de distribuição das famílias também não agradou, pois 11 dos núcleos familiares ficaram longe dos demais, o que enfraquece o grupo e dificulta a manutenção dos vínculos sociais em uma comunidade que reivindicou seus direitos em total união. Para resolver o impasse e evitar o trânsito pela sede da fazenda, que já foi motivo de reclamação do fazendeiro, uma nova estrada deveria ser construída.

     

    Terra boa

     

    O PA Formosa foi o único projeto de assentamento do Incra que não optou pela carta de crédito como compensação pelo impacto sofrido com a formação do lago. Uma vez recebido dinheiro da carta, o impactado automaticamente isenta o consórcio de futuras responsabilidades, e também perde o direito de ser cliente da reforma agrária e pleitear outro lote em local diferente. Os impactados se mostram satisfeitos com a nova localidade e tamanho dos lotes, de 40 hectares em média. “A terra é boa e também a localização. Só temos a reclamar agora é do não cumprimento pelo Ceste dos compromissos assumidos, e por isso pedimos mais uma vez a intervenção do Ministério Público”, finalizou Cláudio. A intenção dos impactados é dar o nome à nova localidade de Assentamento Trindade, em homenagem à integrante da Comissão Pastoral da Terra, recentemente falecida.

     

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  • 25/10/2010

    Fim da prisão preventiva de Joel Braz

    Por Luciano Porto

     

    O índio Joel Braz, liderança do povo Pataxó do extremo Sul da Bahia, passará a responder em liberdade os processos que correm contra ele na Justiça Federal de Eunápolis (BA). Vítima de um dos mais cruéis processos de criminalização de lideranças indígenas, Joel vinha sendo custodiado no posto avançado da Funai da Aldeia de Barra Velha, por força de prisão preventiva decretada pelo Juiz Federal Marcio Flavio Mafra Leal, a pedido do Ministério Publico Federal.

     

    O assessor jurídico do Cimi, Luciano Porto, havia formulado o pedido de revogação da preventiva, em face do exaurimento da finalidade da medida cautelar, uma vez que Joel tem se apresentando, regularmente, em juízo, bem como sido intimado de todos os atos processuais, razões mais que suficientes para se afastar o absurdo argumento de que ele estava foragido.

     

    Joel poderá agora deixar o seu confinamento, o seu isolamento e, de certo modo, o abandono ao qual vinha sendo submetido.

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  • 25/10/2010

    Lula assina decreto que garante regras para cadastramento de atingidos por barragens

    Solenidade entre o presidente e o Movimento dos Atingidos por Barragens acontece na próxima terça-feira

     

    Amanhã, dia 26 de outubro, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) será recebido pelo presidente Lula e por ministros de Estado, em Brasília. Na audiência, o presidente vai assinar um decreto que estabelece critérios de cadastro socioeconômico dos atingidos por barragens, em todo o Brasil. O cadastro é um instrumento de identificação e qualificação da população atingida no território de abrangência da implantação de barragens.

     

    Esta é uma reivindicação antiga do MAB, já que no Brasil não há uma legislação que assegure os direitos dessa população, nem há um órgão público encarregado de realizar as indenizações e reassentamentos dos atingidos. Até agora, a definição de quem é considerado atingido e a forma de indenização são das empresas construtoras de barragem. Tal situação exclui a maioria das pessoas afetadas pelas obras, pois considera apenas o conceito patrimonialista de atingido.

     

    Desde 2009 o presidente Lula tem se manifestado publicamente, dizendo que quer pagar a dívida histórica do Estado com os atingidos por barragens. Em fevereiro deste ano, durante o primeiro encontro do presidente com o Movimento, Lula afirmou a necessidade de estabelecer normas para o reconhecimento das famílias como atingidas por barragens.

     

    Segundo Joceli Andrioli, da coordenação nacional do MAB, o decreto presidencial é uma conquista dos atingidos e avalia que é um reconhecimento do governo frente à dívida do Estado. “O gesto de instituir uma forma de reconhecimento dos atingidos e de cadastrá-los é um avanço e o MAB reconhece este esforço do governo. No entanto, sabemos que, da mesma forma como aconteceram em outras oportunidades, é a nossa luta que vai garantir a implementação e o avanço desta política”, declarou Andrioli.

     

    O MAB espera sair da reunião com o compromisso do governo de avançar na política de tratamento às populações atingidas e nos encaminhamentos concretos para a pauta de reivindicações. Além disso, espera que de agora em diante, os atingidos por barragens e a sociedade em geral tenham mais participação nas definições da política energética nacional.

     

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  • 25/10/2010

    IFBA realiza aula inaugural do curso de Licenciatura Intercultural Indígena em Porto Seguro

    Por Haroldo Heleno

     

    Foi realizada no dia 18 de outubro, no auditório do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), no campus de Porto Seguro, a aula inaugural do curso de Licenciatura Intercultural Indígena (Linter). O referido curso conta com a participação de 80 alunos indígenas, distribuídos entre Pataxó, Tupinambá e Pataxó Hã-Hã-Hãe.

     

    A aula inaugural teve como palestrante a professora Dr.ª Maria do Rosário Carvalho, que proferiu a palestra “Registro de um percurso entre os povos indígenas". Maria do Rosário é Doutora em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo e também atual presidente da Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí/BA).

     

    O evento foi organizado pela coordenação do curso de Licenciatura Intercultural Indígena e pelos professores Carla Camuso, Cláudia Cunha Torres, Francisco Vanderlei Ferreira Costa, Edson Kayapó e João Veridiano, além da estagiária Pataxó Estevita Queiroz.

     

    Segundo o professor Francisco Vanderlei, que esteve visitando as comunidades indígenas antes da aula inaugural, as vagas foram destinadas a docentes indígenas em exercício, egressos do magistério indígena, gestores e técnicos de escolas indígenas, além de índios que concluíram o Ensino Médio.

     

    De acordo com Vanderlei, o curso de Licenciatura Intercultural Indígena será realizado com recursos do Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Indígenas (Prolind) e é estruturado levando em consideração especificidades pedagógicas e culturais das comunidades. O curso tem duração de quatro anos e sua estrutura é organizada em módulos, com aulas concentradas em períodos pré-definidos e atividades realizadas em tempo integral.

     

    O objetivo da iniciativa é atender à demanda histórica da expressiva população indígena da região em relação à educação diferenciada e de qualidade.

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  • 25/10/2010

    Mais uma vida Pataxó Hã-Hã-Hãe é ceifada na luta pela terra

    A disputa pela terra na região de Pau Brasil e a demora no julgamento da Ação de Nulidade de Títulos sob a Terra Indígena Caramuru Catarina Paragusssu teve ontem mais um episódio dramático e, como sempre, levando a vida  de mais uma liderança indígena.

     

    Lideranças indígenas do povo Pataxó Há-Hã-Hãe informaram que neste sábado (23), a liderança indígena José Jesus da Silva, conhecido como Zé da Gata, foi assassinado. O crime aconteceu por volta das 21 horas, na estrada que liga o município de Pau Brasil a Itajú do Colônia. Zé da Gata levou um tiro de rifle por indivíduos que conduziam uma moto, quando chegava à área retomada da fazenda Bela Vista, que é terra tradicional Pataxó Hã-Hã-Hãe. Ainda segundo informações das lideranças, Zé da Gata estava levando mantimentos para o pessoal que se encontrava na área quando foi alvejado.

     

    Os Pataxó Hã-Hã-Hãe, cansados de esperar que o STF retome o julgamento da Ação de Nulidade de Títulos incidentes sobre o seu território tradicional, retomaram no ultimo dia 4 de outubro cerca de 6 fazendas nos municípios de Pau Brasil e Itajú do Colônia, e no dia 10 de outubro, sofreram ataques violentos por parte de pistoleiros contratados pelos fazendeiros invasores das áreas.

     

    Esta situação fez com que um grupo de lideranças fosse até Brasília e uma liderança a Salvador solicitar que providências urgentes fossem adotadas para evitar que situações de violência como esta acontecessem. A impressão para os indígenas é que as solicitações não surtiram efeito pois, acostumados com a impunidade que reina na região, os fazendeiros invasores continuaram seus ataques e ontem conseguiram um dos seus intentos.

     

    Ao longo destes 28 anos de luta pela reconquista de seu território, o povo Pataxó Hã-Hã-Hãe vê agora sua 20ª liderança derramar seu sangue para que o povo recupere seu território.

     

    Histórico de mortes

     

    Em 1983, o indígenas Antônio Júlio da Silva foi assassinado com um tiro na cabeça por pistoleiros que trabalhavam a mando de um fazendeiro da região.


    Em junho de 1986, uma emboscada deixou gravemente feridos os indígenas Antônio Xavier, com 10 tiros; Anivaldo Calixto, com um tiro no peito; Enedito Vítor, com dois tiros e Leonel Muniz, com um tiro.


    Em novembro de 1986, a aldeia São Lucas foi invadida por pistoleiros e soldados da Polícia Militar, fortemente armados. Foram assassinados os indígenas Jacinto Rodrigues e José Pereira. Uma criança recém-nascida também morreu no conflito quando sua mãe fugia pela mata para se esconder dos tiros.

     

    No dia 29 de março de 1988, foi encontrado morto o indígena Djalma Souza Lima, depois de ter sido seqüestrado na aldeia. Seu corpo apresentava vários sinais de tortura: unhas, dentes e couro cabeludo arrancados, castrado e com queimaduras em várias partes.


    No final de 1988, no dia 16 de dezembro, foi brutalmente assassinado o líder Pataxó Hã-Hã-Hãe João Cravim, aos 29 anos de idade, casado e pai de três filhos, numa emboscada na estrada que liga a aldeia à cidade de Pau Brasil – BA.


    Nove anos depois, no dia 20 de abril de 1997, o irmão de João Cravim, Galdino Jesus dos Santos, foi queimado vivo em Brasília por cinco jovens da classe média alta, enquanto dormia numa marquise de ônibus. Galdino fazia parte de um grupo de lideranças que estava em Brasília para cobrar da Justiça providências para a regularização de suas terras. O crime que chocou o país, até hoje clama por justiça. Antes de entrar em coma, Galdino perguntou repetidas vezes:
    “Por que fizeram isso comigo?”

    No dia 2 de janeiro de 2002, Milton Sauba foi assassinado em frente ao seu filho, quando saíam para retirar leite no curral da fazenda que estavam ocupando, todos sabem quem são os culpados, mas nenhuma providência até o momento foi tomada.

    No dia 18 de julho de 2002, o indígena Raimundo Sota foi brutalmente assassinado em uma tocaia ao lado de sua casa. Raimundo já havia denunciado há alguns dias que vinham sendo ameaçados por pistoleiros a mando dos fazendeiros da região. Três dias antes do seu assassinato, houve uma tentativa de homicídio que deixou ferido o índio Carlos Trajano, com cerca de 15 tiros.

    No dia 19 de maio de 2007, o indígena Aurino Pereira dos Santos, de 40 anos, foi assassinado a tiros em uma tocaia na região do Taquari, município de Pau Brasil. O índio Aurino era participante ativo desse processo de luta do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe pela recuperação do seu território, participando ativamente de várias retomadas, inclusive na região onde foi assassinado, onde de dirigia a retomadas mais recentes na região do Taquari e Braço da Dúvida.

    É bom ressaltar que ao longo destes anos, a Funai já realizou vários levantamentos fundiários, tendo pago indenizações pelas benfeitorias de boa-fé à maioria dos proprietários/possuidores. Uma minoria destes – os réus da presente ACO – 312-BA, no entanto, não reconhece a terra como indígena ou discorda do valor proposto pela Funai. E, apesar de serem minoria, as áreas por eles ocupadas correspondem à maior parte da TI Caramuru – Catarina – Paraguaçu. São estas áreas que foram retomadas no dia 4 de outubro deste ano.

    O dia 24 de setembro de 2008 foi uma ótima oportunidade para que a sociedade pudesse pagar a dívida histórica que tem com os Pataxó Hã-Hã-Hãe, que ao longo dois séculos foram tão esbulhados dos seus direitos e mais recentemente como na cronologia de violência apresentada acima, tão violentados. Mas infelizmente, apesar do voto favorável do Ministro Eros Grau no Supremo Tribunal Federal, o pedido de vista do Ministro Menezes Direito frustrou esta oportunidade e a sua demora na retomada do julgamento terminou resultando em mais uma morte.  

    Mesmo com todo este quadro de violência, o povo Pataxó Hã-Hã-Hãe continua acreditando na Justiça e aguarda que todos os criminosos sejam punidos, e que finalmente as suas terras lhes sejam devolvidas, acabando assim com todo o sofrimento vivenciado por esta comunidade. E que finalmente possam viver como filhos de Deus na sua “Terra sem Males”.

    É inadmissível que, em pleno século XXI, situações como estas ainda ocorram. O povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, seus aliados, parceiros e apoiadores, solicitam que medidas urgentes possam ser feitas de verdade, principalmente a devolução de suas terras para que possam viver dignamente seu projeto de vida.

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  • 22/10/2010

    Comunidade denuncia invasão de suas terras para estudos de hidrelétrica do Tapajós

    O Complexo Hidrelétrico do Tapajós do Programa de Aceleração do Crescimento já avança sobre comunidades na região do Médio e Alto Tapajós e Jamanxim.

     

    A comunidade de Pimental, uma das mais antigas daquela região, foi tomada por técnicos da empresa “Rural Tecs” contratada pela Eletronorte.  De repente e sem conversar com ninguém começaram a fincar marcos, fazer medições e entrar em território dos moradores daquela comunidade.

     

    Indagados pelos moradores o que faziam ali e com autorização de quem, os trabalhadores da empresa responderam que estavam seguindo ordens do presidente.  Indignados, todos teriam procurado o presidente da comunidade que surpreso, declarou também nada saber.  A cada momento a indignação ia tomando conta de todos.  Foi então que explicaram que as ordens seriam do Presidente da República que decidira que ali seria construída uma grande hidrelétrica.

     

    A comunidade saiu da indignação para a revolta.  Quebraram marcos e equipamentos da empresa e determinaram a saída dos trabalhadores da comunidade.

     

    Estes registraram Boletins de Ocorrência em Itaituba.  Criou-se na região o clima de criminalização dos comunitários que lutam pelo seu território.  A mídia local e setores pró-hidrelétricas também auxiliam nesse processo.

     

    A denúncia do caso, campanhas de solidariedade e de organização popular se mostram necessárias neste momento.

     

    Segue abraço uma nota de repúdio de movimentos da região:

     

    NOTA DE REPÚDIO

     

    Itaituba, 20 de outubro de 2010

     

    Em solidariedade aos ribeirinhos da comunidade de Pimental

     

    Nós, dos movimentos sociais, pastorais sociais, movimentos populares e todos aqueles que lutam em defesa da vida e dos direitos humanos, expressamos nossa indignação pelo fato ocorrido no ultimo dia 12 de outubro de 2010 na comunidade de Pimental, o desrespeito com que as empresas Eletronorte e Ruraltecs invadem a propriedade das pessoas, entram sem permissão e fazem suas demarcações sem se quer comunicar o povo, porém isso resultou em protesto dos moradores, cansados de serem repudiados pelas empresas, quebraram o marco de concreto instalado pela Eletronorte já algum tempo.

     

    Denunciamos a forma como foram taxados pela imprensa e pelo vereador Luiz Fernando Sadec dos Santos o popular “Peninha” que se diz representante do povo e julga seu povo de vândalos, da mesma forma fez o repórter Queiroz Filho da TV tapajoara que usou da sua ignorância para tratar como vândalos pais de famílias, trabalhadores que ralam dia e noite para o sustento de seus filhos, homens e mulheres que lutam por melhores condições de vida no meio em que vivem, essas famílias foram criminalizadas e desrespeitadas.  Até que ponto isso vai chegar?  Basta de violência, de criminalização.  Onde estão nossos direitos?

     

    O povo precisa saber em que pé está o projeto do Complexo hidrelétrico no tapajós e o que essas empresas querem?  Não admitiremos que o governo federal e as grandes empresas privadas passem por cima de nossos direitos tratando-nos como criminosos e invadindo nossas terras para acabar com a nossa fonte de vida o RIO TAPAJÓS. Lutaremos e vamos continuar resistindo em defesa da vida e dos povos do rio tapajós.

     

    Somos homens e mulheres que lutam em defesa de uma vida digna.

     

    "Água e energia não são mercadorias!

    Água e energia são pra soberania!

    “Águas para vida não para Morte”

     

    – Comissão de justiça e Paz dos Direitos Humanos de Itaituba

    – Movimento Tapajós Vivo

    – CPT- Comissão Pastoral da Terra

    – MAB- Movimento dos Atingidos por Barragens

    – Pastoral da Juventude

    – Comunidade do Pimental

    – STTR de Itaituba

    – MMCC- Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade

    – Frente em Defesa da Amazônia

    – Rede FAOR

    – Comitê Metropolitano do Movimento Xingu Vivo para Sempre – Belém/PA

     

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  • 22/10/2010

    Comunidades impactadas pela monocultura do eucalipto realizam intercâmbio de experiências em Minas Gerais

    Nos dias 19 e 20 de março deste ano, membros de comunidades e movimentos camponeses, indígenas e quilombolas dos estados do Espírito Santo e da Bahia que lutam para conquistar seus territórios invadidos por empresas que exploram a monocultura de eucalipto, realizaram uma visita de solidariedade e de intercâmbio às comunidades de Raiz e Vereda Funda no município de Rio Pardo, norte de Minas Gerais. Essas são duas comunidades que estão na luta pela reconquista do seu território tradicional.

     

    Há mais de 30 anos que a região do norte de Minas Gerais foi tomada por empresas para explorar a monocultura de eucalipto para fins de carvão, fonte energética para a produção de ferro e aço nas dezenas de siderúrgicas localizadas neste estado. A invasão do eucalipto foi devastadora: as empresas conseguiram plantar mais de 1 milhão de hectares de eucalipto, formando uma das maiores áreas contínuas desta monocultura no mundo.

     

    As empresas se interessavam principalmente pelas terras planas, as chamadas ‘chapadas’, que eram terras onde as comunidades tradicionais dessa região, chamadas de geraizeiras, soltavam o gado e coletaram as inúmeras frutas e plantas medicinais do cerrado. Com isso, as comunidades ficaram encurraladas nos vales e seus córregos e nascentes secaram. Além disso, elas foram privadas da sua liberdade de ir e vir no seu próprio território e elas estão até sendo criminalizadas, cada vez que tentam coletar lenha nas chapadas. A grande promessa das empresas era emprego. Mas no município de Rio Pardo de Minas, os mais de 90 mil hectares de eucalipto geram menos empregos do que a produção artesanal de cachaça que com 1.150 empregos ocupa apenas 2.500 hectares. Vale lembrar que os empregos gerados na monocultura do eucalipto são em sua maioria degradantes, trabalhos realizados em más condições, comprometendo a saúde e qualidade de vida dos trabalhadores.

     

    Incentivadas pela articulação e encontros promovidos há cerca de 10 anos pela Rede Alerta contra o Deserto Verde – uma Rede que articula as comunidades que resistem à monocultura do eucalipto e lutam por seus territórios -, diversas comunidades do norte de Minas Gerais começaram a se articular para retomar seu território. Duas das comunidades que estão travando esta luta são Vereda Funda e Raiz.

     

    As 130 famílias de Vereda Funda foram as primeiras na região para retomar seu território. São 5 mil hectares de chapada que eram usadas coletivamente e que foram arrendadas pelo governo do estado de Minas Gerais à empresa Florestaminas. Depois de terminar o contrato e inspirados pela luta dos índios Tupiniquins e Guaranis do Espírito Santo, a comunidade, em 2005, retomou a área de 5 mil hectares com o apoio da Via Campesina.

     

    Depois de muita luta, enfrentamentos e perseguição, a comunidade conseguiu definitivamente ter o controle da área que agora está sendo repassada pelo estado de Minas Gerais para o INCRA – instituição federal para a reforma agrária – para que seja criado um assentamento agro-extrativista. Neste assentamento, cada família terá sua área para plantio, e haverá também áreas coletivas para a atividade agro-extrativista e para soltar o gado. A própria comunidade com apoio do sindicato de trabalhadores rurais de Rio Pardo de Minas e do Centro de Agricultura Alternativa de Minas Gerais fez um plano de reocupação do território e um mapa, com áreas para recuperação ambiental do cerrado e outras para roças. A Embrapa Cerrados vem contribuindo com pesquisas na comunidade neste sentido. A retomada do território provocou um novo ânimo na comunidade, principalmente entre os mais velhos, já que com a retirada do eucalipto da área as nascentes começaram a rebrotar e os animais silvestres voltaram. Além disso, a comunidade reconquistou algo fundamental: a sua liberdade.

     

    A comunidade de Vereda Funda mostrou aos visitantes no seu centro comunitário uma experiência de um sistema agroflorestal e levou as visitas à campo para conhecer uma roça com plantios de milho, feijão, arroz, mandioca e outras culturas numa terra que já foi plantada com eucalipto. Nessa área, querem plantar várias culturas juntas de forma agro-ecológica, em substituição ao plantio químico e monocultural do eucalipto. Também visitamos uma agroindústria de doces, onde trabalha um grupo de mulheres que com esta atividade já estão conseguindo gerar mais renda e trabalho.

     

    A comunidade de Vereda Funda serviu de espelho para o surgimento de outras lutas pela terra, a exemplo da comunidade de Raiz, que também foi visitada. Esta comunidade, com 40 famílias, teve 3.600 hectares do seu território tradicional grilada nos anos 1980 para a exploração do eucalipto, atualmente em mãos da empresa Replasa. A monocultura de eucalipto assoreou os nascentes o que significou que as famílias tiveram que subir a chapada para ter áreas de plantio. No entanto, a empresa ocupou toda a chapada, encurralando as famílias nos vales. No processo de luta, a comunidade descobriu que esses vales onde moravam era considerada pela empresa como sua reserva legal. Dessa forma, as famílias tomaram ainda mais consciência de que, se não tomassem uma atitude, seriam expulsas daquele lugar e, indignadas com essa descoberta, decidiram iniciar a luta para ter seu território de volta.

     

    Com a ajuda dos mais velhos, a comunidade de Raiz começou a delimitar a área da comunidade o que resultou num mapa.  Segundo este mapa, a comunidade perdeu cerca de 3.600 hectares para a empresa Replasa. Em seguida, a comunidade se mobilizou, e fez publicamente a auto-demarcação deste seu território, novamente a exemplo dos índios Tupiniquins e Guaranis do Espírito Santo e da Comunidade de Vereda Funda. Depois disso, pararam as máquinas da empresa que estavam tirando os troncos de árvores nativas do cerrado para poder plantar novamente eucalipto. Em seguida, em dezembro de 2009, com o apoio da Via Campesina, a comunidade retomou finalmente seu território tradicional com a construção de um acampamento onde ela resiste até hoje, mesmo com uma liminar de despejo que ameaça a continuidade da ocupação.

     

    Segundo os participantes, este intercâmbio e visita de solidariedade foi muito importante para o fortalecimento e a animação das lutas, tanto daquelas de Raiz e Vereda Funda, bem como as das comunidades e movimentos no Espírito Santo e na Bahia. E são muitas lutas. Só no município de Rio Pardo, existem pelo menos 18 conflitos envolvendo as empresas de eucalipto!

     

    Para as pessoas das regiões onde o avanço do eucalipto ainda está na fase inicial, como em algumas regiões da Bahia, a experiência das comunidades visitadas serviu de exemplo para buscar evitar o mesmo processo nessas regiões. As comunidades de Minas Gerais deram também uma aula prática sobre a importância da resistência, principalmente Raiz neste momento em que está sendo seriamente ameaçada de ser despejada da área retomada. Chamou atenção também a força das mulheres, que estão presentes e participam ativamente nesta luta. Outro aspecto é a importância do plantio de alimentos no lugar do eucalipto e as diversas experiências mostradas que busquem colocar em prática os princípios da agroecologia.

     

    No final do encontro, após uma avaliação bastante positiva por todos os/as participantes, as pessoas presentes propuseram dar continuidade aos intercâmbios como um instrumento fundamental para animar, socializar e fortalecer a luta nos diversos estados. Além disso, os participantes mostraram um grande interesse para continuar se articulando em diversas frentes como reforçar o conhecimento e intercâmbio sobre o reflorestamento com árvores nativas, a promoção da agro-ecologia, a formação política-ideológica e a realização conjunta de apoio mútuo às lutas concretas contra a expansão da monocultura de eucalipto e pela retomada dos territórios dos quilombolas, indígenas, geraizeiros e camponeses.

     

    Winnie Overbeek, Rede Alerta contra o Deserto Verde e Cepedes/BA, 23 de março de 2010

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  • 22/10/2010

    MPF cobra atenção à saúde e educação na região atingida por Belo Monte

    Procuradores recomendam ao Ibama que não emita nova licença antes de se garantir condições de atendimento e de saneamento, como exige a Licença Prévia

     

    O Ministério Público Federal, após receber informações das prefeituras de Altamira e Vitória do Xingu de que nenhuma obra foi iniciada para dar condições de saneamento e saúde às populações, emitiu recomendação ao presidente do Ibama para que não emita nenhuma nova licença para a hidrelétrica de Belo Monte.

     

    A recomendação lembra que, de acordo com os termos da Licença Prévia nº 342/2010, concedida para o empreendimento, a instalação, mesmo que parcial, só poderá acontecer após se iniciar a construção de escolas, postos de saúde, hospitais e obras de saneamento nos municípios e localidades diretamente afetados.

     

    A infraestrutura de saúde e educação é uma das questões que mais preocupa as comunidades da região, já que o simples anúncio da obra já vem atraindo migrantes e sobrecarregando os serviços na região. Mesmo assim, nenhuma das providências previstas pelo Ibama como ações preparatórias foram concretizadas.

     

    Os procuradores da República Cláudio Terre do Amaral e Bruno Gutschow obtiveram documentos que comprovam que a situação relativa à saúde, educação e saneamento continua exatamente no “marco zero”, parâmetro adotado pelo próprio Ibama como referência para a medição dos impactos do empreendimento.

     

    “Sequer foi assinado convênio entre o empreendedor e o município de Altamira tratando da questão da saúde no município”, lembram os procuradores no documento enviado ao Ibama, para depois acrescentar que não poderá ser emitida nenhuma licença de instalação, total ou parcial, “enquanto as questões relativas à saúde não forem definitivamente resolvidas, de acordo com as previsões da Licença Prévia”.

     

    De acordo com informações da imprensa, os empreendedores solicitaram ao Ibama uma licença parcial de instalação, documento que não existe na legislação ambiental brasileira. “Se uma nova licença for concedida sem o cumprimento das condicionantes, todas as garantias que o Ibama deu na Licença Prévia viram letra morta e se repete um roteiro conhecido em grandes empreendimentos na Amazônia. Para o governo, as facilidades para o empreendedor são mais importantes que os benefícios para a população”, resume o procurador Felício Pontes Jr, que também acompanha o caso.

     

    Condicionantes

     

    O Ministério Público Federal abriu uma investigação para cada uma das obrigações impostas pelo Ibama à Norte Energia como condições para o licenciamento da hidrelétrica de Belo Monte. No total, são 40 procedimentos de investigação para cada  uma das condicionantes.

     

    O acompanhamento individualizado permite aos procuradores responsáveis pelo caso, Cláudio Terre do Amaral e Bruno Gutschow em Altamira, e Felício Pontes Jr em Belém, visão ampla da situação dos impactos do empreendimento.

     

    Apesar das pressões sobre o Ibama para a concessão de licença provisória, a análise do MPF mostra que, na extensa lista de pré-requisitos que deveriam ser atendidos pelos empreendedores ou pelo poder público, pouca coisa foi feita.

     

    De acordo com informações coletadas pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre e levadas até o MPF (veja quadro aqui), até outubro de 2010, nove condicionantes do Ibama não foram realizadas, duas foram realizadas parcialmente e sobre as demais não há informações. 

     

    Sobre as condicionantes da Funai, que prevêem ações como demarcação de Terras Indígenas e retirada de não-índios das áreas demarcadas, entre outros, 14 não foram realizadas, duas foram realizadas parcialmente e uma foi publicada. Sobre as demais não há informações.

     

    Ministério Público Federal no Pará

    Assessoria de Comunicação

    Fones: (91) 3299-0148 / 3299-0177

    E-mail: [email protected]

     

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  • 22/10/2010

    Comunidades indígenas de Tefé (AM) sofrem com a seca

    Antonio Nascimento

    Cimi Norte 1 – Equipe Tefé

     

    A comunidade do Povo Kokama em Porto Praia de baixo, município de Tefé (AM), com aproximadamente 300 indígenas, está isolada por causa de uma das maiores secas de todos os tempos já vista na região. De acordo com Raimundo Nonato da Silva, tuxaua da comunidade, falta água potável para os moradores, os lagos estão secando e os peixes morrendo. “Os que conseguimos pescar para venda, chega ao mercado já estragado, devido o transporte. Para carregar por terra, a distância é de mais de 4km a pé, no sol”, afirma.

     

    Os indígenas também já não podem fazer farinha, devido à falta de água e também pela falta de meio de transporte para o produto. Raimundo explica que comunidade já sofre com doenças. “Por causa da falta de água, a comunidade já sofre com diarréia, gripe e outras doenças causada pela má qualidade da água adquirida, sendo de um córrego atrás da aldeia sem nenhum tratamento”, diz. Segundo o tuxaua, a secretária de Ação Social do município, Norma Pantoja, disse que a prefeitura deve furar um poço artesiano na aldeia, mais até o momento nada foi feito.

     

    A situação de calamidade se estende por outras comunidades do município de Tefé e outras regiões. As comunidades São Jorge e Nova Jerusalém no lago de Tefé; Barreirinha no lago do Caimbé; Nossa Senhora de Fátima no lago do Catuá; Boará e Boarazinho no rio Solimões, sofrem do mesmo problema. Obede da Silva Maricua, diretor do departamento de saúde da organização indígena SEI-Tefé (Saúde, Educação e Terras Indígenas de Tefé), afirmou que os indígenas estão encaminhando um documento para a Funai para buscar apoio e ajudar as famílias isoladas.

     

    O Cimi na Prelazia de Tefé se solidariza com a luta dos povos e apóia as iniciativas que favoreçam a vida destas populações.

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  • 22/10/2010

    Irmão Korta, o irmão Ajishäma

    Para os índios Makiritares, José María Korta Lasarte é o Irmão Ajishäma: a garça que mostra o caminho para a salvação, para a terra prometida. Os Makiritares o batizaram assim quando o irmão jesuíta, há muitos anos, conheceu pela primeira vez as terras do Amazonas venezuelano, no Alto Ventuari. Hoje, com 80 anos, esse jesuíta nascido em Donosti, continua sendo um lutador incansável, que serviu durante toda a sua vida a causa da resistência indígena, impulsionando a revolução cultural de todos os povos da Ameríndia.

     

    A reportagem é do sítio El Pueblo Soberano, 18-10-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

     

    Entre as décadas dos anos 1970 e 1980, o Irmão Korta permaneceu em Alto Ventuari, acompanhando os primeiros projetos de autonomia e autogestão econômica antidesenvolvimentistas para os índios, com a criação da União Makiritare do Alto Ventuari (UMAV), para o desenvolvimento da criação de gado e búfalos, e o Sanemap, organização dedicada à produção de mel dos Sanemas no Alto Parú.

     

    O bem-estar alcançado pelas comunidades indígenas, graças ao apoio incondicional do Ir. Korta e de sua forma de assumir a condição de missionário, incomodou tanto aos latifundiários, autoridades civis e militares, assim como a própria Igreja. O irmão foi expulso do Amazonas.

     

    Mas o respeito que Ajishäma havia transmitido às comunidades indígenas, por sua cultura e sua sabedoria ancestral, assim como pelo compromisso que havia adquirido com o projeto emancipador das comunidades, fez com que ele regressasse por pedido dos índios a suas terras, para criar materiais no idioma materno de cada grupo.

     

    Daqui por diante, apareceram outros espaços, fundamentais para a luta indígena, como o Centro de Educação e Promoção da Autogestão Indígena (Cepai), o Secretariado da Causa Ameríndia Kiwxi, promovido pela Companhia de Jesus – posteriormente fundação autônoma –, a Escola de Voluntários de Yarikajé, ou Ecomunidad, o Ateneo Indígena de las Lenguas e a Universidad Indígena del Tauca, até chegar, depois de muitas discussões, à criação, em 2004, da Universidad Indígena de Venezuela (UIV), única no país e de onde poderão surgir, nessa visão de resistência de Ajishäma, "os verdadeiros mestres, os verdadeiros promotores, os verdadeiros construtores das comunidades dos povos indígenas da República Bolivariana da Venezuela". Para Ajishama, "o máximo que Chávez pode fazer em favor dos indígenas é tornar possível que suas universidades funcionem de maneira autônoma e real, dirigidas pelos próprios índios conscientizados".

     

    Sobre o Ir. Korta, lemos que "não é um padre comum", que é uma pessoa que pratica a frontalidade sempre, aceitando o conflito, que "não tem papas na língua com ninguém para dizer suas verdades". Suas crenças partem de que todos temos um Pai comum. No entanto, o fundamental para ele é que a identidade de cada povo se construa a partir da sua própria fé. Um missionário, diz, jamais deve esmagar a idiossincrasia do povo indígena.

     

    Por isso, "não se fala de Deus, mas de Deuses", e se fala sempre em um plano horizontal, onde se respeitam todas as crenças e onde não há um padre ou um pregador tentando impor sua verdade. Ajishäma nos ensina assim uma lição básica da história: "O respeito pelo direito alheio".

     

    Toda essa consciência e essa forma de ser que acaba com o costume de ver os índios pedindo ajuda, esmolas, sem direitos nem autoestima, provoca ao Ir. Korta sérios inconvenientes com todos os setores oficiais, que o pressionam para que ele saia do país.

     

    Mas o Ir. Korta não se cansa. Agora, mais do que nunca, ele segue na luta, dando testemunho de uma consciência totalmente lúcida, assinalando que, de acordo com o estado das coisas no país, apesar de uma Constituição Bolivariana promulgada em 1999 e a própria LOPCI (2005) [Lei Orgânica dos Povos e Comunidades Indígenas], se os índios "se reapropriassem de seus direitos, seriam massacrados agora mesmo, porque são muito frágeis frente ao mundo crioulo, os criadores de gado e o poder econômico".

     

    Sabemos que isso que Korta assinala é justamente o que está acontecendo neste mesmo momento com a resistência yukpa e no caso do cacique Sabino Romero Izarra, que, por lutar pela recuperação de seu território e de sua cultura, está sendo penalizado e criminalizado, ainda, como parte de toda uma política aplicada de assuntos indígenas governamentais. Diz Korta: "É preciso diferenciar um apoio econômico de uma claudicação no governo, que é o que está acontecendo com os povos indígenas. Dão-lhes grandes cargos políticos e, a partir do partido, colocam-nos liderando políticas do Estado para conseguir a integração dos povos indígenas no modelo ocidental".

     

    Segundo manifestam companheiros sobre o irmão, ele "se mantém abraçado à esperança de promover a incorporação do indígena venezuelano ao processo de desenvolvimento do país, respeitando os valores de sua cultura, por meio do reconhecimento oficial da Universidade Indígena da Venezuela pelo Estado, como do centro de estudos superiores para as etnias nativas".

     

    Ajishäma manifestou que dará sua vida para ver esses povos levantados e que a Universidade fundada "é o coração de um povo", e por isso não descansou desde que se integrou a ela.

     

    Como emblema da UIV, aparece a figura de Kiwxi, o nome indígena do Ir. Vicente Cañas, missionário jesuíta assassinado no Brasil por defender o território dos nativos. Ele é, além disso, padroeiro da Causa Ameríndia, fundada em 1993 pelo Ir. Korta, para reconstruir a identidade dos povos indígenas a partir da sua própria fé e assim resgatar os valores ancestrais que fazem parte do patrimônio cultural da humanidade.

     

    Desde a última segunda-feira, 18 de outubro, o Ir. Korta decidiu ir até as últimas consequências e anunciar uma greve de fome em vista de que, na Venezuela, apesar da legislação promulgada em matéria de direitos para os índios, continuam ocorrendo as piores injustiças com relação aos povos e cidadãos indígenas e, o que é ainda mais lamentável, continuam sendo aplicados esquemas de dominação coloniais e imperialistas.

     

    Exigimos junto ao Ir. Korta que ocorra no país uma verdadeira mudança social, uma mudança que dignifique todos os povos indígenas do continente e a todos os povos do mundo, onde se respeite a diversidade das identidades e das culturas, se garantam e se protejam os direitos e se manifeste a justiça.

     

    Estamos fartos de que os grupos de interesses econômicos e as transnacionais e o poder rejam e decidam destinos que não lhes pertencem em nossa pátria e em nosso continente.

     

    Exigimos que se garantam nossos direitos indígenas!

    Exigimos respeito e dignificação para todos os irmãos indígenas!

    Estamos em luta inabalável!

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