• 17/11/2010

    Indígenas Guarani do Ypo’í continuarão na terra até a demarcação

    Em decisão publicada no final da tarde de ontem (16), o vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), André Nabarrete, deferiu a liminar requerida pela Fundação Nacional do Índio (Funai) que pedia a suspensão da reintegração de posse contra os indígenas Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul, na região do rio Ypo’í. Ou seja, a comunidade Ypo’í-Triunfo poderá continuar na área de reserva legal da Fazenda São Luiz, que ocupam atualmente, até que todo o estudo de identificação e delimitação da terra seja concluído pela Funai.

     

    Em outubro, o Juízo da 1ª Vara Federal em Ponta Porá, no MS, havia dado ordem de reintegração de posse pleiteada pelos fazendeiros e aos indígenas, com prazo de 10 dias para que desocupassem a área. O prazo venceu e a desocupação seria realizada hoje, o que justificou o "perigo na demora" e, consequentemente, o rápido julgamento da liminar.

     

    Na decisão, o juiz citou os artigos 231 e 232 da Constituição Federal, onde aponta o direito imprescritível dos indígenas às suas terras, a nulidade e a extinção dos efeitos de atos de ocupação, domínio e posse sobre terras indígenas e o direito dos indígenas de ingressar em juízo em defesa de seus direitos.

     

    Nabarrete também cita texto de José Afonso da Silva, onde afirma que “sua posse extrapola a ordem puramente privada, porque não é e nunca foi uma simples ocupação de terra para explorá-la, mas base de seu habitat, no sentido ecológico de interação do conjunto de elementos naturais e culturais que proporcionam o desenvolvimento equilibrado da vida humana”.

     

    Os Guarani Kaiowá foram privados de suas terras com muita violência e há anos vêm tentando recuperar suas terras tradicionais. Como consta na decisão, a área objeto de litígio neste processo foi incluída nos trabalhos de identificação e demarcação das terras indígenas no Mato Grosso do Sul, de acordo com a Funai.

     

    Histórico de violências

     

    O Povo Guarani Kaiowá foi expulso de seu território tradicional no Mato Grosso do Sul há décadas. Na região do rio Ypo’í, no município de Paranhos, fronteira com o Paraguai, a comunidade Kaiowá foi expulsa pela ação de fazendeiros daquela região há 27 anos. Desde então, lutam incessantemente pela reconquista do espaço usurpado.

     

    Em novembro de 2009, a comunidade Kaiowá do Ypo’í retornou ao seu “tekohá” (terra tradicional, que é sagrada). Três dias depois, foram violenta e covardemente atacados por fazendeiros e seus pistoleiros. Na ocasião, vários indígenas foram feridos a tiros e torturados. Dois professores, Genivaldo Vera e Rolindo Vera, foram levados e assassinados. O corpo de Genivaldo foi encontrado alguns dias depois com muitas marcas e ferimentos. O corpo de Rolindo, no entanto, ainda não foi localizado.

     

    Em agosto de 2010, os Guarani voltaram a este “tekohá”, no intuito de encontrarem o corpo de Rolindo – busca abandonada tanto pela Polícia Federal como pelo governo do estado.

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  • 16/11/2010

    Discussão sobre Terra e Território marca segundo dia do III Encontro Continental do Povo Guarani

    Diferenciação foi exposta pelo pesquisador e religioso jesuíta Bartomeu Meliá, que há mais de 50 anos se debruça em estudar a cultura Guarani

     

    Por Cleymenne Cerqueira

    De Assunção, Paraguai

     

    O segundo dia do III Encontro Continental do Povo Guarani, que acontece na cidade de Assunção, Paraguai, foi marcado pela discussão sobre a diferença dos conceitos de terra e território. O pesquisador e religioso jesuíta Bartomeu Meliá foi o conferencista convida para falar sobre o tema, bem como sobre os caminhos de luta na recuperação e construção para transformação da realidade do povo Guarani.

     

    A exposição de Meliá começou por volta das 11 horas da manhã e provocou diversos questionamentos nos integrantes das delegações Guarani do Brasil, Paraguai, Bolívia e Argentina, nações organizadoras do encontro. Antes da conferência, argentinos e bolivianos fizeram rezas e rituais de boas vindas, saudando aos demais parentes, reunidos desde ontem à noite no Seminário Metropolitano, localizado na capital paraguaia.

     

    Lugar onde podemos ser quem somos

     

    Meliá, que é pesquisador do Centro de Estudos Paraguaios Antonio Guasch e do Instituto de Estudos Humanísticos e Filosóficos, iniciou sua apresentação, expondo de forma resumida a diferença entre os termos terra e território, confundido por muitas pessoas. De acordo com ele terra é algo indispensável, pois sem ela não há território, conceito mais amplo, que é local onde se planta cria animais, constrói casas. Território é o lugar onde se pode ser o que se é: “lugar onde podemos ser quem somos”, afirma.

     

    Esse lugar, a terra, é um elemento necessário para que o Guarani construa sua história e viva suas tradições. Eles têm um conceito muito importante, o conceito de teko, aldeia, que significa “onde nós somos culturas”. Daí a importância do território Guarani, que para existir precisa necessariamente do elemento geográfico – uma mata virgem, com água, córregos e nascentes, aonde possam praticar a pesca, a caça, colocar armadilhas e, sobretudo, plantar.

     

    “Em diversos países temos grandes terras, grandes aldeias, mas nem por isso têm-se um território. Em muitos desses espaços não há sequer um pedaço de madeira, lenha para cozinhar. Como os Guarani vão viver suas tradições, rituais e celebrações sem seus tekohás? Essa é a grande diferença entre terra e território”, afirmou.

      

    Memória – instrumento de luta

     

    Meliá fala ainda sobre a importância da memória e dos relatos para a luta do povo Guarani. “Não existe tekohá e nem história sem memória. Se o povo não tem memória ele não se recorda de quem é e assim fica muito difícil a luta. Nos tribunais, na hora das demarcações é necessário ter argumentos históricos, é necessário mostrar que são Guarani”.

     

    Em praticamente todos os povos, a tradição oral é muito importante. É também por meio dos relatos – dos mais velhos para os mais novos – que se diz a que povo e história pertence. É indispensável para as lutas do dia-a-dia que os saberes e tradições, passados de geração em geração, permaneçam vivos e fortes entre os indígenas.

    “Essa memória é a memória do futuro e também do passado, pois é como a raiz que fica sob a terra e faz a árvore dar frutos, dar flores. O desenvolvimento, a expansão dessa memória é o futuro do povo, é aí que encontram a raiz de sua história e a expansão de seus problemas”.

     

    A memória também é fonte importantíssima para os processos de demarcação das terras indígenas. “Por que se demarca terra? Se demarca terra porque é um hábito tradicional do povo, que vive a ecologia do tekohá, do modo de ser, o lugar onde eles podem ser Guarani”.

     

    Três grandes mudanças

     

    Bartomeu Meliá aponta três grandes mudanças para o povo Guarani. Essas mudanças começaram com a chegada dos “outros” (os não Guarani), que ocuparam o território desse povo a cerca de 50 anos, e vieram com a tendência de substituir os indígenas que ali viviam. “Hoje você está aqui, amanhã não está mais porque essas pessoas querem montar uma cidade. Então, a primeira grande mudança é a substituição de populações e, naturalmente, junto com ela a chegada de novas cidades”.

     

    A segunda grande mudança se dá no campo da economia. Se antes os Guarani viviam basicamente da agricultura e do sistema de reciprocidade (troca de produtos), com a criação de novas cidades e a vinda de diversas companhias, ele passa a ser utilizado como mão de obra barata em muitas delas e a ser assalariado. Além desse aspecto, é importante mencionar ainda que a natureza de onde antes se tirava a pesca, a caça e produtos para a subsistência familiar passa a ser vista como forte fonte de riquezas. “É diferente, por exemplo, o mate e as toras, a madeira de lei”.

     

    Nesse tipo de economia, a pequena agricultura perde lugar para as grandes plantações, a monocultura, o agronegócio. No Brasil, boa parte das matas e territórios, hoje, foi ocupada por lavouras de soja, cana de açúcar, plantações de eucalipto ou simplesmente pastos. “Esse sistema não favorece em nada as populações indígenas, pelo contrário, são verdadeiras fábricas de pobreza para as pessoas que muitas vezes são expulsas de suas terras. Entram também o dinheiro, os bancos”.

     

    A última mudança também se relaciona á economia, mas propriamente dita ao sistema de distribuição. Não há mais reciprocidade, troca e gratuidade. Impera agora, de acordo com Meliá, um sistema de vingança: “você tirou de mim eu vou tirar de você. Te dou um casaco se você me der uma arroba de milho”.

     

    Participação

     

    Após a fala do pesquisador, houve um tempo para perguntas e debates.  Diversos participantes fizeram questionamentos, entre eles Faride Mariano de Lima, cacique Kaiowá da comunidade Laranjeira Ñanderu, que perguntou a Meliá o que um antropólogo poderia fazer para acelerar a demarcação da terra tradicional de seu povo, que vive acampado a beira da BR 63, que liga os municípios de Dourados e Rio Brilhante.

     

    Mesmo não sendo antropólogo, como fez questão de dizer, Meliá disse que o papel desse profissional é importante para o acumulo de documentos, denúncias e argumentos históricos, o que ajuda no processo. “O antropólogo contribui com a fonte documental, mas é importante destacar que a luta é dos Guarani Kaiowá”.

     

    No fim do dia os participantes se reuniram em grupos para discutir temáticas relacionadas à conferência. Os encontros aconteceram entre os participantes de cada delegação e as discussões foram encaminhadas em plenária que aconteceu no início da noite. O dia hoje acabou com festa e celebração, organizada pela delegação argentina.

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  • 16/11/2010

    URGENTE: POVO GUARANI KAIOWÁ DE YPO’Í PRECISA DE SUA AJUDA

    O Povo Guarani Kaiowá, na região do rio Ypo’í, município de Paranhos, no Mato Grosso do Sul, pode ser despejado a qualquer momento, com toda força e aparato policial.

     

    Em agosto deste ano, a comunidade buscou novamente retomar o território, mas desde então, tem sido vítima de ataques e vive cercada por pistoleiros fortemente armados, que impedem o acesso da comunidade a comida e à assistência à saúde por parte dos órgãos públicos competentes – Funai e Funasa. Trata-se de uma centena de pessoas mantidas numa espécie de “cativeiro privado”, ao mesmo tempo em que a Funai está realizando estudos de identificação destas terras, cumprindo sua função constitucional.

     

    Esta situação ficou mais complicada após a decisão judicial (liminar) proferida pela Juíza Federal Lisa Taubenblatt, da 1º Vara Federal de Ponta Porã – MS, no dia 20 de outubro, que determinou a desocupação da área pelo referido povo indígena. Agravando a situação, no último dia 10, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª. Região negou provimento ao recurso (agravo de instrumento) apresentado na tentativa de derrubar a decisão de primeira instância, confirmando, portanto, a decisão de retirada dos indígenas da área. 

     

    A Funai ingressou com pedido de reconsideração junto à Juíza Convocada Eliana Marcelo, relatora do recurso (agravo de instrumento) no TRF da 3ª Região. Este novo recurso está sendo analisado pela Juíza Eliana – que está substituindo o Desembargador Nelton dos Santos – que pode decidir a respeito a qualquer hora.

     

    Nesse momento, somente uma decisão rápida e favorável da Juíza Eliana poderá evitar mais uma retirada forçada das famílias Guarani de seu território.

     

    Diante desse cenário, sua solidariedade é extremamente importante e urgente, no sentido de contribuir na informação e sensibilização da Juíza Eliana Marcelo em relação à história e situação vivida pelos Guarani Kaiowá da Terra Indígena Ypo’í e sobre a importância e significado da sua permanência em seu “tekohá” (terra tradicional, que é sagrada)

     

    Histórico de violências

     

    O Povo Guarani Kaiowá foi expulso de seu território tradicional no Mato Grosso do Sul há décadas. Na região do rio Ypo’í, no município de Paranhos, fronteira com o Paraguai, a comunidade Kaiowá foi expulsa pela ação de fazendeiros daquela região há 27 anos. Desde então, lutam incessantemente pela reconquista do espaço usurpado.

     

    Em novembro de 2009, a comunidade Kaiowá do Ypo’í retornou ao seu “tekohá” (terra tradicional, que é sagrada). Três dias depois, foram violenta e covardemente atacados por fazendeiros e seus pistoleiros. Na ocasião, vários indígenas foram feridos a tiros e torturados. Dois professores, Genivaldo Vera e Rolindo Vera, foram levados e assassinados. O corpo de Genivaldo foi encontrado alguns dias depois com muitas marcas e ferimentos. O corpo de Rolindo, no entanto, ainda não foi localizado.

     

    Em agosto de 2010, os Guarani voltaram a este “tekohá”, no intuito de encontrarem o corpo de Rolindo – busca abandonada tanto pela Polícia Federal como pelo governo do estado.

     

    POR FAVOR, ESCREVA À JUIZA CONVOCADA PEDINDO QUE:

     

    * Garanta a permanência dos indígenas Guarani Kaiowá do Ypo’í na área, a segurança da comunidade, além do acesso à comida, água, cuidados de saúde e que eles possam se deslocar livremente.

    * Garanta o cumprimento pleno das obrigações das autoridades brasileiras sob a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Constituição Brasileira, finalizando a demarcação de todas as terras indígenas.

    ENVIE OS APELOS O QUANTO ANTES PARA:

    Juíza Eliana Borges de Mello Marcelo

    Email: [email protected]

    Tel/Fax: (11) 30121373

     

    Modelo

     

    Excelentíssima Senhora Juíza Dra. Eliane Marcelo,

    Ciente da difícil situação vivida pela comunidade Guarani Kaiowá na região do rio Ypo’í, manifestamos nossa preocupação quanto ao respeito à dignidade daquelas famílias, no sentido de que sua permanência seja garantida no local em que se encontram, com toda a assistência devida pelo Estado brasileiro no que diz respeito ao atendimento à saúde e à integridade física, até a conclusão do procedimento demarcatório de suas terras tradicionais.

    Solicitamos que possa V. Exa. julgar o Agravo de Instrumento 0033719-02.2010.4.03.0000/MS considerando a primazia dos direitos originários que são garantidos aos povos indígenas pela Constituição Brasileira, bem como pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e pela Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

     

    Importante ressaltar que os estudos de identificação das terras Guarani Kaiowá, inclusive da área ora ocupada por esta comunidade, estão em curso pela Funai.

     

    Certos de sua atenção, firmamo-nos,

     

    Respeitosamente,

     

    (Nome, CPF ou RG, endereço)

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  • 16/11/2010

    Ibama emite novo parecer contrário à licença de instalação de Belo Monte

    A equipe do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) encarregada de analisar o pedido de licença ambiental para as instalações inicias da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, fizeram dois pareceres contrários ao início da construção da usina hidrelétrica.  As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

     

    A notícia desagrada os construtores, que pretendiam iniciar as obras ainda neste ano. O Ministério Público Federal (MPF), por outro lado, garantiu que acionará o governo na Justiça caso a licença ambiental seja concedida. Seria a décima ação contra Belo Monte em dez anos.

     

    Conforme consta no documento, obtido pelo jornal, de 5 e 20 de outubro, o consórcio Nesa (Norte Energia S.A.) não cumpriu as precondições impostas pelo Ibama para a instalação do canteiro da usina. Além disso, os empreendedores teriam subestimado o número de migrantes que seriam atraídos para a região de Altamira (PA) para a obra.

     

    "Restam condicionantes e ações antecipatórias (…) cujo não atendimento compromete o início da implantação das instalações iniciais", diz o parecer de 20 de outubro.  "Não é recomendada a emissão de licença para as instalações iniciais."

     

    A usina obteve em abril licença prévia do Ibama, atestando que a obra era viável desde que os empreendedores cumprissem 40 precondições – da instalação de saneamento em Altamira até a proteção de tartarugas que desovam no rio Xingu.

     

    Em setembro, a Nesa pediu ao Ibama uma licença de instalação parcial, para o canteiro de obras. O objetivo era ganhar tempo, já que se as obras dos canteiros fossem iniciadas neste ano, poderiam começar as obras da usina após a estação de chuvas, em dezembro.

     

    Impactos ambientais

     

    A usina hidrelétrica de Belo Monte é a principal obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal.  Será a terceira maior hidrelétrica do mundo e estima-se que vá custa de R$ 19 bilhões a R$ 30 bilhões e gerar em média 4.400 MW.

     

    O MPF, que pretende recorrer caso a licença seja concedida, afirmou ao jornal Folha de São Paulo, por meio do procurador Felício Pontes Júnior, que não existe "licença fracionada" na lei brasileira e que o canteiro é a obra.

     

    Na quarta passada, o MPF enviou ao presidente do Ibama, Abelardo Bayma, recomendação para que não emita licença enquanto não forem cumpridas as condicionantes da licença prévia.

     

    Os técnicos do Ibama, no primeiro parecer, dizem que não é nem possível avaliar se a licença de instalação pode ou não ser fracionada, já que o consórcio não detalhou os potenciais impactos dessa fase do empreendimento.

     

    Das 23 condicionantes cujo atendimento seria necessário para iniciar a instalação, apenas uma havia sido atendida em 5 de outubro. Três estavam "em atendimento" ou "parcialmente atendidas".

     

    O consórcio enviou novos documentos para análise. No segundo parecer, mais oito condicionantes aparecem como "em atendimento" ou "parcialmente atendidas".

     

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  • 16/11/2010

    MST e CPT denunciam desmatamento da Amazônia em documentário

    João Marcio – Página do MST / Imagem: Greenpeace

    Um grupo de documentaristas da produtora Argentina, Cru Films, estará no Pará entre os dias 11 e 15 de novembro para a realização de um documentário que aborda os principais motivos que levam o Estado paraense a ser campeão de desmatamento na Amazônia.

    Segundo estudo divulgado pela organização não governamental Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente na Amazônia), a Amazônia perdeu 210 quilômetros quadrados no mês de agosto. O Pará é responsável por 68% do desmatamento, ou seja, 142 quilômetros quadrados de floresta.

    Para Sanae Hayaschi, pesquisadora do Imazon, esse cenário no Pará é consequência de “uma intensa expansão ilegal de áreas de pastagem para pecuária e de agronegócios, principalmente os ligados à produção de soja”.

    Assim, entre os movimentos solicitados para falar sobre o assunto, está o MST e a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

    “Pelo desmatamento na Amazônia e o conflito social que vive a região, principalmente no estado do Pará, é muito importante registrar a atuação do MST nesse contexto”, afirma a produtora Júlia Bottai, que compõe o grupo de documentaristas.

    O grupo gravará nos acampamentos Dalcídio Jurandir, em Eldorado dos Carajás, e Dina Teixeira, em Canaã dos Carajás, municípios localizados no Sul do Pará.

    Esses acampamentos são emblemáticos na região. Dalcídio Jurandir faz parte das devastadas terras de Dantas para atender a agropecuária, contrastando com a pequena, mas resistente produção dos acampados.

    Já Dina Teixeira se encontra meio a uma disputa judicial entre o dono das terras improdutivas griladas usadas também para a agropecuária, a mineradora Vale, com o objetivo de explorar as jazidas que foram
    encontradas no local. As 384 famílias acampadas sobrevivem em sua grande maioria do que já plantam para subsistência e venda, em dois anos na área.

    O documentário poderá ser assistido no próximo ano pelo canal de televisão Infinito, canal de TV a cabo pertencente à Turner Broadcasting System, para vários países da América Latina.

    No Brasil, o canal Infinito é transmitido pelas operadoras Telefônica TV Digital, Oi TV e Nossa TV.

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  • 16/11/2010

    Nicarágua: 24 mil indígenas padecem de fome por inundações

    Adital

     

    Pelo menos 24 mil moradores de 62 aldeias indígenas no nordeste da Nicarágua, se viram afetados pela falta de alimentos originada por chuvas torrenciais. A população afetada está localizada no município de Waspam, sobre a ribeira do rio Coco, próximo à fronteira com Honduras.

    O município de Waspam, localizado a quase 700 quilômetros da capital nicaraguense, conta com 108 comunidades indígenas e é considerada uma das regiões mais pobres do país e mais vulneráveis aos desastres naturais.

    Devido à gravidade da situação, membros de organizações ecologistas e autoridades municipais da região afetada solicitaram ao governo que decrete o estado de emergência nesta zona do país.

    Quase 80% das colheitas de arroz e milho e 37% dos tubérculos desapareceram pelas inundações, segundo um estudo realizado pela organização ecologista Humboldt.

    Por sua parte, os líderes indígenas das comunidades afetadas solicitaram sementes para plantar, especialmente feijão, e alimentos para 3 mil famílias (pelo menos 18 mil pessoas) durante seis meses. De acordo com um estudo recente, o índice de desnutrição aguda nestas comunidades supera 37%, o que requer uma atenção imediata das autoridades nacionais, a fim de que essa situação não se agrave.

    A notícia é do Servindi

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  • 15/11/2010

    Tem início o III Encontro Continental do povo Guarani

     

    Por Cleymenne Cerqueira e Paul Wolters

    De Asunción, Paraguay 

     

     

    Dança, alegria e rezas ao deus Ñanderu marcaram o início do III Encontro Continental do Povo Guarani, no Seminário Metropolitano, na cidade de Assunção, Paraguai. O encontro tem como tema “Terra, território, autonomia e governabilidade”. Participam do encontro indígenas do Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai. O evento segue até a próxima sexta-feira, 19 de novembro.

     

    Após os rituais de iniciação do evento, foram lidas as memórias do I e II Encontro Continental do Povo Guarani, realizados no Rio Grande do Sul, nos anos de 2006 e 2007, respectivamente.

     

    O encontro é uma iniciativa frente a necessidade de uma maior articulação, reflexão e ação sobre a situação atual em que se encontram os povos Guarani desses quatro países.

     

      

    O objetivo geral do encontro é incidir para que os direitos dos povos indígenas, constituídos nas constituições nacionais e convenções internacionais e ratificados por esses países, sejam de fato cumpridos. A principal bandeira de luta do movimento indigenista é justamente trabalhar para que o direito dos indígenas a terra seja garantido.

     

    “O propósito principal é uma melhor articulação a nível continental”, afirmou Bernardo Bendites Rivarola, ou Karaipoty em Guarani, docente de cultura indígena numa aldeia Guarani perto de Assunção, Paraguai. Ele explica que, como em outros países, o governo paraguaio não respeita as leis nacionais e internacionais, dentre as quais as relativas à demarcação de terras. “Muitas comunidades estão lutando por suas terras tradicionais. No meu caso, vivo em um tipo de assento de um hectare e médio, com quarenta famílias”.

     

    As terras tradicionais do povo Guarani têm suscitado a ganância de grandes empresários e latifundiários. Os primeiros invasores foram os que se apropriaram destas terras e utilizaram os Guarani como mão de obra barata. O território Guarani, hoje, está quase totalmente destruído pelas grandes plantações de soja, cana de açúcar e eucalipto. Esses territórios também estão ameaçados por grandes obras, como centrais hidrelétricas.

     

    Batalha

    Mesmo vivendo em condições totalmente adversas e muitas vezes desumanas, como os Guarani Kaiowá de Mato Grosso do Sul, muitos deles sitiados à beira de rodovias, os Guarani do Cone Sul demonstram ter um grande potencial para se reorganizarem e fortalecem a cada dia suas lutas pela recuperação de suas terras tradicionais e garantia de seus direitos.

     

    Para Turíbio Gomez, da aldeã Itapuã, no Rio Grande do Sul, este tipo de encontro é muito importante. “Estes encontros nos ajudam a fortalecer a luta cada vez mais. Aqui vamos falar sobre como ajudar um ao outro, como dar força. Se lutamos unidos a toda a comunidade Guarani podemos vencer a batalha. Queremos nossas terras de volta, com mata e tudo, com água limpa”, declarou.

     

    Principais temas

    Durante o encontro serão discutidos temas como terra/território: caminhos de luta para a recuperação e construção para transformação da realidade; autodeterminação: direitos dos povos indígenas; territórios indígenas: soberania e livre determinação os povos indígenas; ferramentas jurídicas para a defesa da terra/território; autogestão e governabilidade os povos indígenas Guarani; antecedentes históricos na nação Guarani; autonomia e participação política desde a cosmovisão Guarani na Bolívia; articulação continental da nação Guarani.

     

    Cultura

    Até o momento, já estão em Assunção as delegações do Brasil (Guarani Mbya e Ava Guarani, do sul do país, e Guarani Kaiowá e Ñandeva, do Mato Grosso do Sul) e do Paraguai (Guarani Ñandeva, Ava Guarani, Mbya, Paî, Ache e Guarani Ocidental). Faltam chegar as delegações da Argentina, representada pelos povos Mbya, Ava Guarani e Chane, e da Bolívia, com os Guarani Ocidental.

     

    Amanhã, 16 de novembro, acontecerá a apresentação e abertura oficial do encontro, com a presença do sacerdote jesuíta e famoso indigenista Bartomeu Melia, que fará uma conferência sobre “Terra/Território: caminhos de luta na recuperação e construção para transformação da realidade.

     

    Em todas as noites do evento, as delegações participantes serão responsáveis pela preparação de uma noite cultural, aonde compartilharão com seus parentes suas tradições e expressões culturais. Os indígenas Guarani do Brasil serão responsáveis pela noite cultural do dia 17 de novembro, próxima quarta-feira.

     

    O III Encontro Contineltal do Povo Guarani vai até dia 19, quando será encerrado com um ritual indígena Guarani Ocidental e com a continuação da leitura do manifesto do encontro, que será elaborado por todos os povos presentes com denúncias sobre a situação em que vivem em suas comunidades. Também está previsto para o enc encerramento do evento, um discurso do presidente da República do Paraguai, Fernando Lugo.

     

    O encontro conta com o apoio das seguintes organizações indigenistas: Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Coordenação Nacional da Pastoral Indígena do Paraguai (Conapi), Equipe Nacional de Pastoral Aborígene da Argentina (Endepa), Rede de Entidades Privadas a Serviço dos Povos Indígenas (PAR).

     

    Histórico

     

    O Primeiro Encontro Continental Guarani foi realizado pela ocasião dos 250 anos da morte de Sepé Tiaraju e seus mil e quinhentos soldados. Este grande líder Guarani resistiu à divisão de terras por parte dos espanhóis e portugueses, que se uniram para a disputa contra Sepé e sua resistência Guarani. Morrendo pela luta, ele se tornou um ícone da resistência dos lutadores. No entanto, somente há pouco tempo, o governo brasileiro o reconheceu como herói nacional.

     

    A partir da luta e morte de Sepé Tiaraju surgiu a Campanha Guarani, com a articulação de várias organizações sociais. No primeiro encontram participaram mais de mil representantes Guarani, na cidade de São Gabriel, estado do Rio Grande do Sul.

     

    O segundo encontro, que aconteceu em Porto Alegre, também no Rio Grande do Sul, foi um posicionamento político na história atual. Participara mais de 800 pessoas do Paraguai, Brasil, Uruguai e Bolívia. O tema principal foi “Terra e território Ywy Rupá”, que foi cortada, estabelecendo fronteiras entre os países e estados, assim com a importância da cultura milenar, a educação e a espiritualidade. A partir desse encontro teve início uma grande campanha internacional chamada Povo Guarani: Grande Povo; Vida, terra e futuro.

     

    Para mais informações:

    Angel Vera – 0971 461 212 (Paraguay)

    Lorenza Benítez – 0981 631 200 (Paraguay)

    Oficina Conapi – 021 443 752 (Paraguay) 

    [email protected]

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  • 15/11/2010

    De Cerrito aos senhores do Mundo

    Por Cleymenne Cerqueira e Egon Heck

    De aldeia Cerrito, Eldorado – MS

    O córrego limpo se desdobrou em suaves sons deslizando nas cachoeiras. As árvores acenaram ao sopro do vento.  A grande lona azul balançava, parecendo o céu a dançar sob o olhar atento de centenas de Guarani Kaiowá. Chegou a noite, discreta, porém envolvente. Neste clima de encantamento, alegria e esperança foi anunciada a abertura do grande XVI Encontro de Professores e Lideranças Guarani Kaiowá. O evento aconteceu na aldeia Cerrito, município de Eldorado, no Mato Grosso do Sul, entre os dias 11 e 14 de novembro.

    Após as primeiras rezas saudando ao Ñanderu e também aos presentes, tocou-se o hino nacional brasileiro e em seguida o hino municipal. No coração dos Guarani Kaiowá, um turbilhão de sentimentos, mas também de questionamentos: como cantar um hino que exalta a natureza e as riquezas do país, atualmente, tão destruída pela ganância de poucos? Como exaltar a pátria amada, cada vez mais saqueada pelo grande capital em detrimento dos direitos de seus povos e milhões de excluídos?

    Durante os quatro dias do encontro, os indígenas ali reunidos deram sua contribuição para o aprofundamento e consolidação da democracia. Entendida a democracia a partir da perspectiva social e organizativa do povo Guarani, aonde a base são as famílias extensas e comunidades, e onde se busca a participação direta e a construção de consensos e não a imposição de vontade de minorias.

    Reza, dança e batizado

    “Eu nunca vi professores participando tanto do guachiré (dança) e rezas rituais como nesse encontro”, foi a observação de Veronice, uma das aliadas e assessoras do movimento desde a década de 1980.  Já em sua fala durante a abertura do evento, o ñanderu Getulio manifestava o desejo de fazer também desse encontro uma grande celebração. O desejo era que todas as energias positivas pudessem desembocar numa criança a ser batizada.

    No encontro foram aprovados dois documentos denunciando a gravíssima situação em que se encontram os indígenas da comunidade Ypo’i, localizada no município de Paranhos, fronteira com o Paraguai. A comunidade retomou seu tekohá em agosto deste ano, na tentativa de mais uma vez conseguir a posse de sua terá e também encontrar notícias do professor Rolindo Vera, seqüestrado em outubro do ano passado junto com seu primo Genivaldo Vera.

    Ypo’í está novamente ameaçada. Nova ordem de despejo foi expedida pela Justiça e eles aguardam urgentemente intervenção dos órgãos governamentais para que lhes seja garantia da permanência em sua terra tradicional.  

    Assuncion, a próxima estação

    Com o término do XVI Encontro de Professores e Lideranças Guarani Kaiowá, a maioria dos indígenas que participaram do encontro seguiram para a capital do Paraguai, Assunção, aonde acontece entre os dias 15 e 19 o III Encontro Continental do Povo Guarani.

    As discussões e encaminhamentos do encontro em Cerrito aconteceram de forma muito tranqüila e acelerada, por isso, ainda na noite do dia 18 os trabalhos foram encerrados e muitos dos participantes do evento voltaram ás suas comunidades. Na manhã do dia 15, cerca de quarenta indígenas Guarani Kaiowá saíram da aldeia rumo a Assunção, onde chegaram na noite do mesmo dia.

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  • 15/11/2010

    Educação indígena autônoma, diferenciada e de qualidade

    Por Cleymenne Cerqueira e Egon Heck

    De aldeia Cerrito, Eldorado – MS

    “A escola deve ser formadora de guerreiros… A educação deve reforçar nossa identidade e nos ensinar a lutar pelos nossos direitos… A escola deve estar a serviço da comunidade… a escola indígena deve ter autonomia, ser diferenciada, com ensino de qualidade”.

    Durante o XVI Encontro de Professores e Lideranças Guarani Kaiowá, que aconteceu ente os dias 11 e 14 de novembro, na aldeia Cerrito, município de Eldorado (MS), foi realizada uma avaliação do atual modelo de educação escolar indígena implementado nas comunidades Guarani do estado. Atualmente, a situação está bem longe da ideal e percebe-se uma grande distância entre a escola que o povo precisa e as escolas que de fato têm.

    Embora ao longo da história do povo Guarani já se tenham conseguido importantes avanços no campo da educação escolar indígena, muitos desafios ainda se fazem presentes no dia-a-dia das comunidades. Em pouquíssimas aldeias é oferecido ensino fundamental e médio diferenciados e de qualidade. A gestão da maioria das escolas também não está na mão dos indígenas, e muitos professores também não o são.

    Mesmo com todas as conquistas e políticas educacionais já em curso, nota-se que existe um ranço colonial nas escolas e nas secretárias de educação de grande parte dos municípios sul mato-grossenses. Os marcos legais que garantem educação específica e diferenciada são muitos, no entanto, na prática ainda falta muito para se ter uma educação indígena voltada para a vida, cultura e história Guarani, dentro da dinâmica social de construção de um presente e futuro cada vez melhor para as mais de 40 mil pessoas deste povo que vive no MS.

    O movimento de professores indígenas tem conseguido importantes avanços na luta por uma melhor educação. No entanto, o grupo tem enfrentado inúmeras dificuldades para avançar em novos patamares, principalmente no estado, onde se concentram os maiores índices de discriminação, racismo e violência contra os indígenas. Existe uma paralisação ou até mesmo um retrocesso em vários aspectos da educação escolar nas aldeias. O que, de acordo com os educadores indígenas e também representantes do movimento indigenista, está intimamente ligado à luta pela terra e a postura anti-indígena do atual governo e das elites econômica e política da região.

    Na maioria das escolas não são permitidas discussões sobre a luta pela posse da terra tradicional.  O que de acordo com lideranças presentes no encontro, é algo inadmissível: “é um absurdo esse tipo de atitude, pois esse é justamente um de nossos principais temas de discussão. As ações em prol da comunidade e a procura pela posse do território tradicional é algo transmitido de geração em geração, faz parte da história do nosso povo. Dessas discussões e encaminhamentos dependem o futuro do povo Guarani”.

    Outro problema enfrentado atualmente pelas comunidades tem sido o diálogo entre os professores indígenas e as lideranças tradicionais. Nem sempre isso tem acontecido de forma facilitada e continuada. Ambos exercem diferentes papéis junto ao seu povo e devem trabalhar em conjunto – sabedoria tradicional e conhecimento técnico – para reforçar a luta e traçar estratégias para a resolução dos problemas.

    Uma questão presente desde o início do processo de formação dos professores é a participação das lideranças políticas e tradicionais das comunidades nessas atividades. Só com um trabalho integrado entre essas lideranças e os educadores indígenas se conseguirá, de fato, definir uma estratégia de educação a partir, com e para a comunidade. Também por esta escolha a realização deste encontro em Cerrito, que uniu o XVI Encontro de Professores e Lideranças do Povo Guarani Kaiowá e a grande assembléia das lideranças tradicionais deste povo, a Aty Guassu.

    Nem sempre os professores têm conseguido implementar as políticas definidas pelo próprio movimento que integram. Estes não têm autonomia e instrumentos disponíveis para levar às salas de aula todo o planejado e discutido quando destes encontros. Para tanto é necessário que estes tenham mais autonomia e independência para realizar suas atividades. Como solução para muitos desses problemas, os próprios professores e lideranças apontam a gestão compartilhada dessas escolas, realização de cursos de Guarani e capacitação para os educadores, bem como a construção de um novo projeto pedagógico.

    Outra dificuldade apontada durante o encontro é a representação indígena nos espaços de debate e decisão das instituições acadêmicas, educacionais e organismos governamentais. Isso atropela e desrespeita os processos coletivos, próprios das comunidades indígenas.

    Dialogando com o passado, construindo o futuro

    No trabalho em grupos, debates e exposições uma questão se sobressaiu: hoje a educação escolar indígena tem uma importância fundamental na consolidação de caminhos para o presente e futuro das comunidades Guarani Kaiowá.  Conseqüentemente, a responsabilidade dos mais de 300 professores indígenas é cada vez maior, não apenas na transmissão de conhecimento, mas principalmente no diálogo, aprendizado e transmissão da sabedoria milenar Guarani.

    A transmissão da história, costumes e tradições do povo Guarani acontece, principalmente, na convivência familiar, nos rituais, na vivência espiritual nas oga pysy (casas de reza), nos roçados (prática ainda possível, embora grande parte viva nos confinamentos ou na beira de rodovias do estado), na convivência com os sábios (os mais velhos, os ñanderu e  ñandesi). Portanto, é preciso aproveitar esses espaços para repassar aos mais jovens os sentimentos de luta pela posse da terra, que não é mercadoria, fonte de renda, moeda de troca, mas vida para os Guarani Kaiowá.

    Uma das sugestões apontadas durante o encontro para se reforçar o diálogo e a luta pelos direitos é a construção de oga pysy junto às escolas. Esse seria o espaço em que os alunos teriam a transmissão de sabedoria e rituais pelos ñanderu. Seria uma atividade integrada dentro do currículo e projeto pedagógico das escolas. Porém, tudo isso certamente exigirá muito diálogo e compromisso das comunidades, hoje muito marcadas por interferências religiosas e políticas partidárias que se opõem a essa caminhada e muitas vezes divide as comunidades.

    Atuação missionária

    Desde a década de 1980, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) regional Mato Grosso do Sul, iniciou um trabalho junto aos professores Guarani Kaiowá para definir o que de fato seria uma escola indígena, com formação diferenciada e específica e de qualidade. Esse trabalho, posteriormente, foi ampliado com a construção de diversos mecanismos e espaços, articulando tais atividades com instituições locais, regionais e até mesmo nacionais.

    Desta iniciativa surgiram duas importantes construções: o magistério indígena Ará Verá, que iniciou suas atividades em 1999, e o curso de licenciatura indígena Teko Arandu, implantado na Universidade Federal da Grande Dourados, em 2oo6. Essas foram importantes conquistas dentro do universo de mais de 500 estudantes universitários indígenas no Mato Grosso do Sul, que também devem ter seu conhecimento integrado na conjuntura de luta de seu povo.

    Dentro dos métodos e currículos da universidade também devem estar garantidos a busca do povo Guarani pela garantia de seus direitos fundamentais à vida, à saúde e educação, à terra, à identidade Guarani e á autonomia dentro de seus territórios. Educação, escola e luta pela terra devem ser um conjunto de ações e estratégias que se articulam e fortalecem mutuamente.

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  • 13/11/2010

    Fórum Teles Pires Vivo faz primeira marcha contra UHE Sinop

    O primeiro ato público do recém-criado Fórum Teles Pires Vivo foi uma passeata pelo centro de Sinop (MT), hoje à tarde, dia 12 de novembro, em protesto contra a construção da hidrelétrica Sinop. O Fórum foi fundado por 21 movimentos sociais durante o seminário Amazonas em Debate, que se realizou essa semana na cidade.

     

    O Fórum se posiciona contra a série de hidrelétricas planejadas nos rios Teles Pires e Tapajós, da qual a UHE Sinop faz parte. Isso, por causa dos desastrosos e irreversíveis impactos sócio-ambientais para a região. Seria a morte dos rios Teles Pires e Tapajós.

     

    A caminhada contou com a participação de aproximadamente 350 representantes das entidades e comunidades envolvidas, como pescadores, camponeses e retireiros, além de representantes de dez povos indígenas.

     

    Cancelamento das audiências

    Uma exigência imediata do Fórum, expressada na caminhada de hoje à tarde, é o cancelamento das audiências públicas referente à construção da hidrelétrica Sinop. As audiências foram anunciadas na semana passada e já se realizarão entre os dias 16 e 23. As entidades membros do Fórum consideram que não há tempo suficiente para que a população se informe e prepare para as audiências.

    De fato, também o Ministério Público Federal entrou com ação contra as audiências, pedindo sua anulação.

     

    Preocupação

    Na caminhada pelo centro de Sinop, os aproximadamente 350 participantes passaram primeiro na Justiça Federal da cidade. Lá, o professor Dorival Gonçalves da Universidade Federal de Mato Grosso entregou, em nome das entidades reunidas no Fórum, um documento ao juiz responsável, reforçando o pedido de cancelamento das audiências.

     

    Depois a caminhada continuou à prefeitura, onde participantes tiveram uma conversa com o prefeito e o secretário do meio-ambiente. Estes expressaram que também estariam preocupados e insatisfeitos com o Estudo do Impacto Ambiental da usina. Confirmaram, ainda, que o órgão federal responsável, a Empresa de Pesquisa Elétrica (EPE) negou várias vezes esclarecer as dúvidas da prefeitura.

     

    A passeata seguiu para o Ministério Público do Estado. Inicialmente os funcionários queriam impedir a entrada dos representantes da caminhada, insinuando que as entidades pudessem “fazer uma baderna”. Ao final, o procurador estadual recebeu dois porta-vozes e explicou que ele não era responsável pelo caso da hidrelétrica, mas um procurador de Alta Floresta. Este prometeu estar presente nas audiências públicas e, caso estas sejam canceladas, de receber representantes do Fórum para responder suas perguntas.

     

    Rios mortos

    O ato público encerra o seminário Amazônia em Debate: Compromissos das Universidades Públicas e Movimentos Sociais, que reuniu aproximadamente 500 pessoas do Mato Grosso, Pará e Mato Grosso do Sul, nos dias 10 a 12 de novembro, na paróquia da igreja São Cristovão em Sinop.

     

    Nos três dias de debates e palestras, os professores das universidades estadual e federal de Mato Grosso e representantes dos movimentos sociais apresentaram temas como a história da ocupação da região Amazônica, a lógica do mercado de energia no Brasil e no mundo, os impactos sociais e ambientais da implantação de hidrelétricas em geral e especificamente no caso de Sinop e o complexo Tapajós.

     

    A conclusão foi clara: o complexo de barragens transformará os rios Teles Pires e Tapajós numa série de lagoas de água estagnada, suja e morta, eliminando uma grande parte da biodiversidade, despojando milhares de pessoas, impactando comunidades tradicionais como ribeirinhos, pescadores, pequenos agricultores e povos indígenas. Ao mesmo tempo, a energia gerada atenderá apenas às demandas da região sudeste do Brasil, criando poucos empregos para a região e muito lucro para as empresas de construção e de energia.

     

    Cada entidade e comunidade presente deixou muito claro que está lutando em favor de uma sociedade justa e um modelo econômico verdadeiramente sustentável, com inclusão de todos os cidadãos, com outro modelo energético e respeito ao meio-ambiente. Um progresso que o modelo econômico vigente, o capitalista, não pode realizar. O complexo Tapajós também não atende a estas demandas, já que não está priorizando o homem, nem o meio-ambiente em que vive, mas os benefícios econômicos.

     

    O último dia, sexta-feira, dedicou-se à definição das formas de resistência contra as barragens. Formalizou-se o Fórum Teles Pires Vivo, que reúne as entidades e povos presentes na luta contra as barragens da região. Discutiu-se o posicionamento frente às audiências públicas, consideradas como mero ritual para legitimar o empreendimento, a mobilização das bases na luta, e seus próximos passos, as alianças a serem realizadas a nível regional, nacional e internacional.

    As entidades convidam outros movimentos e pessoas para aliar-se na luta contra as barragens. 

     

    As seguintes entidades e comunidades fazem parte do Fórum Teles Pires Vivo e participaram da passeata

     

    • ADOURADOS
    • ADUEMS
    • ADUFMAT
    • ADUNEMAT
    • CIMI
    • Colônia dos Pescadores – Sinop
    • Comunidades Eclesiais de Base
    • CPT
    • Fórum Mato-grossense de Meio-ambiente (Formad)
    • MAB
    • Movimento de Mulheres Camponesas
    • MPA
    • MST
    • OAB – Sinop
    • OPAN
    • Pastoral da Juventude Rural
    • Povo indígena Apiaká
    • Povo indígena Bakairí
    • Povo indígena Enawene Nawe
    • Povo indígena Irantxe
    • Povo indígena Kaiabí
    • Povo indígena Karajá
    • Povo indígena Munduruku
    • Povo indígena Panará
    • Povo indígena Rikbaktsa
    • Povo indígena Yudja
    • Retireiros do Araguaia
    • Secretaria Regional Pantanal do ANDES SN
    • Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) – Sinop, Lucas do Rio Verde e Barão de Melgaço
    • SINDISEP
    • SINTEP
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