• 30/11/2010

    MPF/MS pede novamente acesso a índios isolados em fazenda há três meses

    Área está em estudo para identificação como de ocupação ancestral pelo grupo. Índios estão sem acesso a alimentos e assistência médica

     

    O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF/MS) quer que a Justiça aprecie o pedido de liminar em ação civil pública, ajuizada em 31 de agosto, para que os proprietários da Fazenda São Luiz, em Paranhos, sul do estado, sejam obrigados a aceitar o ingresso de órgãos estatais de assistência aos indígenas que estão acampados em uma pequena área da fazenda desde 19 de agosto. O MPF pede ainda a estipulação de multa de R$ 100 mil, configuração do crime de desobediência e entrada forçada na fazenda com auxílio da Polícia Federal, caso haja eventual descumprimento de ordem judicial.

     

    Segundo o procurador da República que formulou o pedido de reconsideração, Luís Cláudio Senna Consentino, o objetivo é garantir que o grupo indígena receba amparo e assistência dos órgãos públicos responsáveis, como Fundação Nacional do Índio (Funai) e Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

     

    No início de novembro, a Justiça Federal em Ponta Porã considerou prejudicada a análise da liminar de acesso ao local pleiteada pelo MPF, uma vez que deferiu a reintegração de posse em favor dos proprietários, determinando a desocupação da área em dez dias. Após interposição de recurso, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em 16 de novembro, na véspera da desocupação da área, cassou a reintegração e decidiu pela manutenção dos índios na região até a produção de prova pericial antropológica.

     

    Segundo a decisão do TRF da 3ª Região "existem provas de que a Fazenda São Luiz pode vir a ser demarcada como área tradicionalmente ocupada pelos índios". Análise dos registros cartoriais da fazenda, realizada por engenheiro da Funai, afirmam que as terras estão no Tekohá (terra sagrada) Ypo’i e Triunfo, da qual os índios foram expulsos após o início do processo de formação das fazendas da região.

     

    Ocupação – Desde 19 de agosto de 2010, cerca de cinquenta índios guarani-kaiowá ocupam a área de reserva legal da fazenda São Luiz. Eles estão isolados e sem acesso a alimentos e assistência à saúde. O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul e a Funai ingressaram com ação na Justiça para que os proprietários da terra fossem obrigados a aceitar o ingresso de órgãos estatais de amparo aos indígenas.

     

    Professor desaparecido – A luta dos índios pela terra considerada sagrada tem histórico de violência. Em 28 de outubro de 2009, um grupo de vinte famílias de índios guarani-kaiowá, da aldeia Pirajuí, ocupou a fazenda São Luiz, em Paranhos, para "retomar" seu território de ocupação tradicional Ypo´i. Os indígenas permaneceram na terra até dois de novembro, quando foram cercados por um grupo de proprietários rurais e pistoleiros armados, que investiu contra os índios.

     

    Alguns dias depois, policiais encontraram o corpo do professor indígena Genivaldo Vera em um córrego, nas proximidades da fazenda, com sinais de morte violenta. Outro professor, Rolindo Vera, está desaparecido até hoje.

     

    Referência processual na Justiça Federal de Ponta Porã: 0002670-67.2010.403.6005

     

    Assessoria de Comunicação Social

    Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul

    (67) 3312-7265 / 9297-1903

    (67) 3312-7283 / 9142-3976

    [email protected]

    www.twitter.com/mpf_ms

     

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  • 30/11/2010

    Carta de repúdio ao programa exibido pela TV Record no Domingo Espetacular no dia 07 de novembro de 2010

    Nós, mulheres indígenas reunidas no Encontro Nacional de Mulheres Indígenas para a proteção e Promoção dos seus Direitos na cidade de Cuiabá, entre os dias 17 e 19 de novembro de 2010, vimos manifestar nosso repúdio e indignação contra reportagem produzida pela ONG religiosa ATINI, exibida no dia 07 de novembro de 2010 em rede nacional e internacional. No Programa do Domingo Espetacular, da emissora RECORD,  foram mostradas cenas de simulação de enterro de crianças indígenas em aldeias dos estado de Mato Grosso (Xingu), Mato Grosso do Sul (Kaiowá Guarani) e no sul do Amazonas (Zuruaha), pelos fatos e motivos a seguir aduzidos:

    1.       A malfadada reportagem coloca os povos indígenas como coletividades que agridem, ameaçam e matam suas crianças sem o mínimo de piedade e sem o senso de humanidade.

    2.       Na aludida reportagem aparecem indígenas atores adultos e crianças na maior “selvageria” enterrando crianças.

    3.       A reportagem quer demonstrar que essas ações nocivas aos direitos à vida das crianças indígenas são praticas rotineiras nas comunidades, ou de outra forma, são praticas culturalmente admitidas pelos povos indígenas brasileiros.

    4.       Que os produtores do “filme” desconhecem e por tanto não respeitam a realidade e costumes dos indígenas brasileiros. São “produtores Hollywoodianos”.

    Vale esclarecer em primeiro lugar que a reportagem não preocupou em dizer que no Brasil existem mais de 225 povos ou etnias diferenciadas em seus usos, costumes, línguas, crenças e tradições.  Essa reportagem negou aos brasileiros o direito ao conhecimento de que na década de 1970 a população indígena não chegava a duzentas mil pessoas ao ponto de antropólogos dizerem que no século XX os indígenas iriam acabar.

    Se de fato os indígenas estivessem matando suas crianças, a população indígena estaria diminuindo, mas a realidade é outra, pois a população naquele momento em decréscimo hoje chega ao patamar de 735 mil pessoas, segundo censo de 2000 do IBGE.

    A reportagem que mostra apenas uma versão das informações, não entrevista indígenas nem antropólogos que conhecem a realidade da vida na comunidade, pois senão iriam ver que crianças indígenas não vivem em creches nem na mendicância. Crianças indígenas são tratadas com respeito, dignidade e na mais ampla liberdade.

    A reportagem maldosa e preconceituosa feriu intensamente os direitos indígenas nacional e internacionalmente reconhecidos, pois colocar povos indígenas e suas comunidades como homicidas de crianças é o mesmo que dizer que certas religiões praticam seus rituais matando suas crianças ou que a população brasileira em geral abandona suas crianças em creches, nas drogas e na mendicância se sem com elas se importarem. Mais, seria dizer que pais de classes médias altas jogam dos prédios suas crianças matando-as e que é comum famílias brasileiras em geral jogas seus filhos recém nascidos no lixões das grandes cidades, ou que os lideres religiosos  são todos pedófilos.

    Quais são as verdades dos fatos por trás das notícias caluniosas e difamatórias contras os povos indígenas.

    Não seriam razões escusas de jogar a população brasileira contra os povos indígenas para buscar aprovação pelo Congresso Nacional brasileiro de leis nefastas aos povos indígenas? Ao dizer que os indígenas não têm condições de cuidar de seus filhos automaticamente estará retirando dos indígenas a autonomia em criar seus filhos, facilitando assim a intervenção do Estado para retirar crianças do convívio familiar indígena entregando-as a adoção principalmente por famílias estrangeiras. Na reportagem, o padrão de sociedade ideal é o povo americano, pois demonstrou que a criança retirada da comunidade agora vive nos Estados Unidos da América e até já fala inglês. Sociedade justa, moderna bem-feitora. Seria mesmo a “América” o modelo padrão de sociedade justa apresentado na reportagem? Vale esclarecer que a ONG religiosa ATINI e sua produtora de Hollywood têm sua sede nos Estados Unidos.

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  • 29/11/2010

    III Encontro dos Kujá: Terra Indígena Morro do Osso

    De 25 a 27 de novembro os Kaingang do Morro do Osso, em Porto Alegre, promoveram o terceiro encontro de Kujá, líderes religiosos. Participaram do evento mais de 500 representantes das comunidades Kaingang do Rio Grande do Sul e convidados que apóiam as lutas deste povo pela garantia de seus direitos, de modo especial a demarcação das terras.

     

    O encontro de lideranças religiosas tem se consolidado num espaço de reflexão política, de articulação das lutas das comunidades, de celebração e essencialmente de ritualização da vida. Os Kujá são os portadores de sabedorias milenares dos Kaingang, sabedoria esta que mantém as relações políticas, culturais, religiosas e de parentesco entre si, no âmbito do povo, e com a sociedade não indígena. Os Kujá, através de sua espiritualidade, ajudam as famílias Kaingang, mesmo aquelas que habitam centros urbanos, a manterem os vínculos étnicos com o povo, com sua cosmovisão de mundo, com a cultura, com a língua e as tradições. Eles, mesmo estando em constate relação com a sociedade não indígena, se fortalecem etnicamente e constroem com dinamismo e como protagonistas, uma história de resistência ao modelo assimilacionista das políticas públicas e do aparato jurídico do Estado brasileiro.

     

    Neste terceiro encontro os líderes religiosos, com simplicidade e espontaneidade, falaram da religião e o quanto ela é importante para a consolidação de um projeto de vida para todo o povo e como ela deve ser cultuada e protegida das interferências externas. Também refletiram sobre os saberes tradicionais que sustentam a cultura Kaingang, tais como a língua, as tradições, as festas, os alimentos, os remédios e os rituais.

     

    Nos discursos dirigidos para os órgãos públicos enfatizaram que a terra é essencial para a continuidade do projeto de futuro do povo. Sem a terra os Kaingang perdem o vínculo umbilical com o mundo. Ressaltaram que eles não são como os brancos que se acomodam em apartamentos no meio das cidades. Eles, mesmo nas cidades, necessitam da terra porque ela é mãe e como tal precisa ser protegida. O vice-cacique do Morro do Osso, Sr. Francisco, destacou que a terra "é para ser amada, assim como se ama a mãe, porque eles são gerados e nascem do ventre da terra, nela vivem e nela morrem, e quando a morte chega, eles retornam para o ventre da terra".

     

    Nas falas de despedidas, com emoção e saudade do encontro que findava, as lideranças se comprometeram em manter a articulação e as lutas conjuntas, principalmente pela garantia das terras e pela preservação do meio ambiente. Ressaltaram que os Kaingang, mesmo que estejam morando em áreas distantes, estarão unidos pela cultura, pela religião, pelos costumes e tradições. Que eles não se esquecem dos parentes e, portanto, poderão sempre contar, nos momentos de necessidade, "uns com os outros".

     

    Os Kaingang do Morro do Osso ao desencadearem, na capital do estado do Rio Grande do Sul, as lutas pela demarcação de terra, por condições dignas de trabalho, respeito e assistência diferenciada chamaram a atenção do poder público para a realidade das comunidades indígenas que vivem nas cidades. E estas demandas da atualidade se constituem em grandes desafios para o indigenismo brasileiro. Alguns setores da sociedade têm se preocupado com esta questão, de modo especial o Ministério Público Federal, as universidades (através dos departamentos de antropologia e educação), entidades de apoio como o Cimi, Comin, Cáritas, movimentos de Direitos Humanos, e algumas autoridades municipais.

     

    A presença indígena em escritórios de órgãos federais, especialmente da Funai e da Funasa, cobrando ações e apresentando demandas, obriga-lhes a ampliar o foco de intervenção. Mas, apesar disso, ainda há restrições no tocante a assistência porque não os reconhecem como portadores de direitos diferenciados ou por residirem em áreas que não são reconhecidas "oficialmente como terras indígenas". Apesar das restrições, no Morro do Osso há agente indígena de saúde, professor bilíngüe que administra a escola da comunidade. E, na questão fundiária, há um Grupo de Trabalho em andamento realizando estudos de identificação e delimitação da terra.

     

    O Morro do Osso ajuda a alimentar a reflexão acerca desta demanda indigenista e firma a necessidade de que seja construída uma política destinada à população indígena que habita nas cidades. Áreas terão que ser reservadas e demarcadas para que esta população possa residir e viver dignamente, bem como possa exercitar e cultivar as suas formas próprias de organização política e vivenciar a cultura, os costumes, as crenças e tradições.

     

    Os Kaingang do Morro do Osso trazem à tona a discussão sobre a possibilidade de que terras sejam reconhecidas e demarcadas pelo poder público, mesmo nas grandes cidades. A@Constituição Federal no seu Art. 231 não faz distinção entre uma terra tradicional na cidade ou aquelas tradicionalmente ocupadas distantes dos centros urbanos.

     

    O@Morro do Osso remete também para a reflexão sobre o significado místico da ocupação tradicional e de como os povos indígenas a interpretam e a efetivam ao longo do tempo. Esta ocupação não se restringe à moradia, ao local de plantio, ao local de permanência. A ocupação se faz também através da relação com o sagrado, onde se desencadeia a comunicação com os ancestrais eternizados na história de luta e resistência dos povos e comunidades e acima de tudo porque estão presentes onde existem áreas, terras e territórios tradicionais. A tradicionalidade está para além do nosso tempo, pois se estrutura na ancestralidade, na cosmovisão dos líderes religiosos e porque está e sempre esteve nos locais do culto, do encontro e do contato com o mundo religioso, bem como nos locais onde foram enterrados os mortos, nos locais de visitações antigas, de coleta e de migração, mesmo que estes estejam sobrepostos, ou circundados por cidades, parques, rios e lagos próximos ou nos centros urbanos.

     

    Com a perspectiva de garantir a demarcação de terras no mundo urbano, os Kaingang do Morro do Osso enfrentam batalhas intermináveis junto aos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Mas, através da forte mobilização e articulação entre os Kaingang, habitantes de cidades e aqueles das áreas distantes dos centros urbanos, estão assegurando importantes conquistas. E os encontros dos Kujá, promovidos no Morro do Osso, evidenciam duas das mais importantes de todas as conquistas e que se somam a luta pela terra: o protagonismo e a consolidação de um processo efetivo de autonomia indígena em construção.

     

    Porto Alegre (RS), 29 de novembro de 2010.

     

    Roberto Antonio Liebgott

    Cimi Sul – Equipe Porto Alegre

     

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  • 29/11/2010

    ENCONTRO DE JOVENS INDÍGENAS TERENA É MARCADO PELA CONSCIÊNCIA EM SEUS DIREITOS

    Nos dias 27,28 e 29 de agosto de 2010, aconteceu na terra indígena Buriti, na aldeia buriti o encontro de cerca de 150 jovens terena de cinco aldeias bananal, água branca, tererê, limão verde e buriti.

    O encontro foi o primeiro a realizar-se diretamente numa Aldeia, proposta de trabalho que esta dentro da pastoral exercida pelas Irmãs Missionárias Lauritas da Diocese de Jardim, equipe de Aquidauana-MS, em sua proposta houve espaço para três momentos diferentes:  Primeiro: seria a exposição dos trabalhos feitos grupos de cada aldeia com a temática Historia e Geografia de sua Comunidade. O segundo seria na parte da manhã um olhar sobre a conjuntura Indígena nacional, estadual para este momento o CIMI foi convidado a fazer a motivação a e tarde a proposta de que se fizesse uma roda de conversa com os alguns guerreiros indígenas terenas que são a resistência viva participando das ultimas retomadas do seu Povo e que foram violentamente despejados. Já no terceiro momento o tema era Projeto Pessoal de Vidal: Construindo um caminho de felicidade, orientado por uma Irmã Lauritas.

    Todos tinham sede de falar em todos os momentos, nos trabalhos em grupos onde puderam depositar toda criatividade possível para que se fizessem compreender, a interação de todos os participantes nas dinâmicas de grupo e nas propostas vindas dos palestrantes e organização do encontro foi encantador. Cantos alguns até na língua terena, dinâmicas e muito mais fizeram parte deste dias, havia ali uma equipe de animação pronta para não deixar que o encontro ficasse cansativo.

     O olhar sobre a conjuntura foi marcado pela a consciência que os jovens indígenas possuem sobre seus direitos, em uma das oficinas, se pediu para que os grupos escolhessem uma noticia das varias que ali estavam para ser analisadas por eles mesmos. As analises foram impressionantes diante das varias situações que eles podiam analisar eles escolheram os seguintes temas: violência, juventude, demarcação de terra, grandes projetos, FUNAI e política.

    Com falas fortes e de profundo conhecimento os jovens indígenas defenderam seus direitos garantido na constituição federal presente no artigo 231, enfatizando principalmente a urgente demarcação, conclusão dos processos e revisão de limites das terras, como garantia de existência “presente e futuro” de seu povo.

    Na roda de conversa houve o testemunho dos guerreiros terenas que se encontram com suas vidas ameaçadas e criminalizadas devido ao compromisso de luta pela reconquista das terras para o povo terena.

    O projeto pessoal de vida foi um tema apresentado com toda a riqueza, criatividade, reflexão e participação dos jovens. Tema que vai ser retomado e trabalhado nos diferentes encontros que se tem no processo de acompanhamento aos grupos de jovens.

    Com esse espírito de luta da juventude o encontro encerrou-se no domingo com o compromisso dos participantes de cada vez mais se interarem das lutas dos povos indígenas e especificamente do povo terena para que seus anseios sejam alcançados. E que cada vez mais eles possam se tornar protagonistas da historia e agentes vivos da luta e resistência de seu povo.

    Campo Grande – MS 18 de setembro de 2010

    Lidia Farias de Oliveira

     Flavio Vicente Machado

    Com apoio das Irmãs Lauritas da equipe de Aquidauana

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  • 29/11/2010

    Carta final do III Seminário Nacional de Formação do Cimi

    Dos Andes chega um novo horizonte. Inunda Abya Yala com a inspiração e raiz milenar de um novo modelo de vida e sociedade. Sumak Kawsay – o Bem Viver – não é apenas uma utopia, é a reconstrução da harmonia e reciprocidade entre a Pacha Mama (Mãe Terra), os seres humanos e todas as formas de vida. É um projeto de futuro que exige mudanças radicais, rupturas com o atual modelo neoliberal e neocolonizador.

    Depois de décadas de inspiração de caminhos e lutas políticas no Continente, o Bem Viver chega ao Brasil, para aqui fazer seu porto seguro, transformando-se em horizonte diante da profunda crise de civilização e sociedade.

    Unimo-nos aos irmãos (as) de toda Abya Yala, que a partir de seus povos originários, em recente encontro em Lima, nos lembram: “Os povos indígenas e comunidades são portadores de sabedorias ancestrais que têm conseguido manter o planeta a salvo durante milhares de anos; nossos conhecimentos e práticas ancestrais de reciprocidade e complementaridade com a Mãe Terra constituíram os valores que têm permitido uma vida em harmonia à qual hoje chamamos de Bem Viver-Viver Bem” e conclamam “Chamar à unidade continental e mundial os povos indígenas e movimentos sociais a mobilizar-se em defesa da Mãe Terra, pela construção de estados plurinacionais e implementação do Bem Viver a nível global, como alternativa para superar a Crise climática, alimentar e econômica. Voltar ao equilíbrio com a Mãe Terra para salvar a vida no planeta é nosso caminho”. (Declaração de Lima, 20/11/2010)

    Enquanto em vários lugares de Abya Yala se aprofunda a construção desse novo horizonte do Bem Viver e se avança em lutas concretas de transformação de corações e estruturas sócio-políticas, econômicas e culturais, em Luziânia, o Cimi, juntamente com representantes indígenas e aliados, estiveram reunidos nesta semana para aprofundar o significado do Bem Viver na atual conjuntura do Brasil e do continente. Conforme Pablo Dávalos, professor da Universidade Católica do Equador, um dos assessores do 3º Seminário Nacional de Formação, “Bem Viver que tem sido a inspiração de décadas de luta em vários países do continente, inclusive já tendo sido incorporado em constituições nacionais, chega ao Brasil, trazendo muito esperança para Abya Yala e o mundo.”

    Será certamente um longo caminho a construir, não com empreiteiras, mas com corações e mentes militantes, com lutas e alianças amplas, pois ainda existe muita desinformação, conforme salientou D. Dimas Lara Barbosa, Secretário Geral da CNBB, no início do seminário. Ao lembrar algumas situações graves, como a dos Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul, salientou que “somos uma minoria, mas vamos em frente pois nos sentimos enviados a serviço dos irmãos”.

    O teólogo Paulo Suess lembrou que para o Bem Viver não há receitas prontas, sendo uma busca e construção constantes, que se dão através das lutas sociais, na descolonização do poder e do saber e na desmercantilização da vida. Está na dialética da luta e contemplação, na busca de vida boa para todos e para sempre.

    O Sumak Kawsay é um horizonte em construção, um conceito político que se constitui como alternativo ao atual modelo capitalista neoliberal. 

    Os representantes indígenas denunciaram as invasões e violências que seus povos sofreram e continuam sofrendo com a perda e devastação de seus territórios. O cacique Babau Tupinambá expressou sua indignação com a violência e criminalização que seu povo e ele em particular vêm sofrendo, por defender uma construção de Bem Viver em suas comunidades. “Isso incomoda os senhores do poder, por isso nos agridem e nos prendem”. Mauricio Guarani lembrou que destruíram as condições de Bem Viver de seu povo, na medida em que tomaram seus territórios e deixaram grande parte de seu povo à beira das estradas sob lonas pretas.

    Foram denunciadas as agressões e violências contra os povos indígenas, a invasão dos territórios tradicionais e impactos sobre a natureza causados pelos grandes projetos em andamento, como a transposição do São Francisco, a construção de hidrelétricas no Madeira dentre outras obras do PAC. E o mais preocupante é que esse modelo será acelerado conforme promessas da presidente Dilma. O que há pouco tempo parecia um absurdo, como a privatização do ar, já acontece através do programa de REDD (Redução de Emissões por Desmatamento ou Degradação).

    No final do Seminário todos se sentiram convocados a não apenas participar  na construção do bem viver, a partir da vivência e compromisso com os povos indígenas, mas a levar essa discussão para os movimentos sociais e espaços amplos da sociedade brasileira.

    Conselho Indigenista Missionário
    Luziânia, 25 de novembro de 2010

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  • 29/11/2010

    Indígenas Awá Guajá do Maranhão vêm a Brasília cobrar desintrusão de suas terras

    Eles também exigem o combate ao desmatamento em seus territórios

     

    Nesta terça-feira, 30 de novembro, cerca de 10 indígenas do povo Awá Guajá, do Maranhão, estarão em Brasília para audiência no Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF1). No dia primeiro de dezembro, eles têm reunião na 6ª Câmara do Ministério Público Federal. Os representantes Awá devem pedir ao MPF a cobrança para desintrusão da terra Awá, o combate ao desmatamento e à invasão de suas terras, a proteção aos Awá isolados, assistência à saúde e assistência da Fundação Nacional do Índio (Funai).

     

    No TRF1, os indígenas vão cobrar prioridade para julgamento do processo da terra indígena Awá. Os indígenas esperam que sejam atendidos para que se garanta a resolução de seus problemas. “Esperamos poder confiar no poder público e na Lei”, destaca o grupo.

     

    O evento é uma sequência pós acampamento, realizado em agosto, em que decidiram tomar atitudes mais drásticas, pois a situação na terra indígena Awá é lamentável. De acordo com os missionários na região, há muita madeira ao longo das estradas, os caminhões entram durante a noite, o comércio ilegal da madeira está a todo vapor. “Não há a presença do estado para coibir a invasão da terra que só cresce”, ressaltam. A região também vive o aumento da violência com grupos criminosos na região.

     

    Os indígenas Awá, da aldeia Juriti, estão desarmando os invasores. Só nos último mês, os Awá informaram que foram duas armas tiradas dos invasores. E assim, os indígenas enfrentam, sozinhos, a crise de ausência do Estado.

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  • 29/11/2010

    O protesto indígena na Terra Indígena Canabrava: o que o delegado nunca disse e o que a Globo/Mirante omitiu

    Pastoral Indigenista de Grajaú (MA)

     

    ‘Ele mentiu. Não é nada daquilo que ele disse aos meios de comunicação. Ele foi, na realidade, o principal causador da confusão. Os próprios meios de comunicação, a Globo/Mirante, principalmente, agiram de má fé conosco!’. Assim se expressaram alguns indígenas da Terra Indígena Canabrava ao se referirem ao delegado da Polícia Civil de Barra do Corda, Edmar Gomes Cavalcante, que tentou acabar com o protesto indígena no domingo 7 de novembro. Membros da Pastoral Indigenista de Grajaú visitaram as aldeias da área e colheram, in loco, vários testemunhos. Todos eles coincidem: o delegado agiu de forma irresponsável. Agrediu os manifestantes e fugiu atirando contra homens, mulheres e crianças das aldeias por onde passava, deixando rastro de medo e sangue em gente que nada tinha a ver com a confusão. Várias instituições pensam em denunciá-lo.

     

    Revisitando as aldeias

     

    Havia poucos dias dos tensos e tumultuados acontecimentos que viram como protagonistas indígenas Guajajara e um delegado de polícia. Uma equipe da Pastoral Indigenista de Grajaú visitou algumas das aldeias que participaram do bloqueio da BR-226 e outras que optaram em não fazer parte do movimento reivindicatório. Aparentemente tudo havia voltado à normalidade. No olhar dos indígenas era visível, contudo, um tênue véu de tristeza e decepção. Ainda não conseguiam entender porque um protesto planejado para ser executado de forma pacífica gerou tanta violência e indignação em muitas pessoas. Homens e mulheres Guajajara de algumas aldeias haviam combinado que interromperiam a BR-226 na altura da aldeia Barreirinha para chamar a atenção do Governo do Estado que não vinha respeitando um Termo de Ajustamento de Conduta que havia assinado em junho, garantindo a normalização do transporte escolar para os seus filhos. Os indígenas haviam acertado desde o início que deixariam passar ambulâncias, polícia e facilitariam aqueles casos que exigissem urgência. Tinham consciência que não deviam ‘forçar a barra’, inclusive porque muitas aldeias da mesma terra indígena não haviam aderido ao movimento. Muitos indígenas haviam sido alertados pelos seus caciques de se manterem longe da aldeia Barreirinha, lugar do bloqueio.

     

    Sangue, dor e humilhação

     

    Muitos indígenas são unânimes em confirmar que se o delegado não tivesse agido de forma truculenta e irresponsável, teria havido um desfecho bem diferente. Os Guajajara narram que naquele fim de tarde de domingo, 7 de novembro, momentos iniciais da manifestação, já havia alguns caminhões parados ao lado da BR-226, na altura da barreira. Explicavam calmamente o porquê daquela manifestação, e pediam compreensão. E, apesar do transtorno, encontraram compreensão por parte dos transeuntes barrados. Afinal, nenhum deles vinha sofrendo algum tipo de violência. Inesperadamente, porém, aparece uma moto. O motoqueiro desce, tira rapidamente o seu capacete e visivelmente irritado pergunta: ’Que molecagem é essa?’ Identificou-se como delegado de polícia e indicou que estava armado. Era, de fato, o delegado da Polícia Civil de Barra do Corda, Edmar Gomes Cavalcante, que vinha de Grajaú, após dar plantão naquela delegacia da cidade. Os indígenas iam deixá-lo passar, mas ele insistiu que parassem imediatamente com o movimento e liberassem a rodovia para todos. Os manifestantes indígenas pediram para ele não interferir. Nesse bate-boca ele sacou a arma. Os indígenas não se intimidaram e partiram para cima dele para desarmá-lo. Um deles se aproximou ameaçando-o com uma faca de cozinha, e no enfrentamento lhe cortou parte do dedo da mão esquerda. O delegado, enfurecido, começou a atirar em direção aos indígenas. Acertou logo quatro deles, três que estavam mais próximos, e outro um pouco mais distante. Foi quando um índio correu para buscar uma espingarda, pois ninguém deles tinha arma de fogo. Voltou rapidamente, atirou atingindo o policial. A confusão se agigantou. O policial aproveitou do momento em que os índios socorriam os seus feridos para fugir correndo a pé pela rodovia em direção a Grajaú. O delegado, visivelmente transtornado e enraivecido, segurando o seu revólver na mão direita atirava em direção das casas das aldeias que ficam do lado esquerdo da BR. Alguns indígenas correram ainda ao seu encalço, mas após algumas centenas de metros desistiram. Ele continuava atirando e amedrontando crianças, mulheres e idosos. Foi justamente na aldeia Nova Barreirinha, que fica a menos de um quilômetro da barreira, que o delegado atingiu com um tiro o adolescente Hagair Cabral Sá Santos Guajajara, de 15 anos, ferindo-o no pescoço. O adolescente estava no quintal de sua casa, aproximadamente a 150 metros da estrada. O jovem Guajajara é mudo de nascença e tem graves problemas de coordenação motora, o que exige que a mãe dele, Marilene Cabral Guajajara, o alimente. O policial em sua atitude tresloucada continuava a atirar, até chegar à aldeia Boa Vista que fica a um quilômetro e duzentos metros da aldeia Barreira. Aqui pediu socorro a um caminhoneiro que vinha de Grajaú e dirigia um caminhão de cor branca, sem carroceria. A manobra do caminhoneiro foi tão brusca que destruiu parte da cerca de uma residência indígena. Soube-se, posteriormente, pela Mirante/Globo que o delegado foi bem assistido em Imperatriz, o que não ocorreu com os feridos indígenas. Todos eles, inclusive os seus acompanhantes, ao chegarem ao Hospital Acrísio Figueira em Barra do Corda, foram sumariamente presos. Uns e outros foram muito maltratados pelos policiais locais. Além da dor, a humilhação da cadeia e do deboche racista.

     

    ‘Esta é a verdade dos fatos, não a da Globo!’

     

    Papel decisivo teve, mais uma vez, a rede Globo através da sua filial Mirante. Um verdadeiro show de manipulação e distorção dos acontecimentos que envolve indígenas da Terra Indígena Canabrava, produzindo revolta, indignação e raiva em muitos setores da sociedade. Tudo se concentrou na intransigência indígena e no ‘indefeso delegado’ que para se defender teve que usar a violência. Só faltava dizer contra a sua vontade! De forma criminosa, a Globo lançou mão de imagens de março deste ano em que, de fato, na mesma terra indígena havia sido apreendida uma arma e um saquinho de moedas fruto dos numerosos pedágios indígenas.

     

    Associou isso aos acontecimentos recentes com o intuito de agravar os indígenas e dar mais ‘munição’ a muitos dos seus já incautos e preconceituosos ouvintes. A Glogo/Mirante não podia certamente fazer publicidade da falta de respeito do Governo Estadual para com as comunidades indígenas locais, que foi o que provocou o protesto. Afinal, os dois se confundem. Quem irá repor a verdade dos fatos quando, por dias seguidos, foi vendida uma determinada versão? Quem irá exigir responsabilidade social aos meios de comunicação que criminalizam qualquer movimento indígena? Alguém irá investigar a atuação do delegado despreparado por tentativa múltipla de homicídio? A dona Marilene, mãe do adolescente covardemente ferido pelo delegado, lembra ainda hoje com as lágrimas nos olhos: ’Meu filho escapou por pouco. Quem vai fazer justiça e punir, agora, aquele irresponsável que atentou contra a vida de meu filho aqui, dentro da minha casa? Esta que é a verdade, não a da Globo!’

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  • 29/11/2010

    Guarani no velho mundo

    Por Egon Heck
    Cimi Regional Mato Grosso do Sul

    É hora de inverter a rota. Depois de quinhentos anos é preciso mostrar o balanço, as conseqüências de um processo de colonialismo que, todavia, perdura. É a hora dos invadidos mostrarem os massacres e desgraças causadas, o saldo de mais de 6 milhões de nativos  mortos, num dos maiores genocídios da história da humanidade. Centenas de povos originários foram exterminados na Abya Yala – Américas. Mas é hora de mostrar que estão vivos, são milhões e têm muito a contribuir com a construção de novas sociedades.

    Não estão arrependidos de terem bem recebido os estranhos chegantes. Não amaldiçoam as traições e malfeitos.  Lamentam a covardia da crueldade e violência que receberam em troca. Exigem reparação histórica e rompimento com tudo que significa continuidade do processo de colonialismo presente ainda hoje nas relações dos Estados nacionais, sociedade e os povos indígenas.

    Vão para o diálogo com suas principais armas: suas profundas sabedorias, espiritualidade, valores de vivência harmônica com a natureza e com todos os seres, o viver em paz. Querem dialogar a partir de sua cosmovisão e projetos de Bem Viver.

    O Bem Viver para todos

    O que desarma hoje os poderosos e os invasores de seus territórios não é apenas a capacidade de resistência física e cultural dos povos indígenas, mas são os valores coletivos de que são portadores. O sistema capitalista treme diante da propriedade coletiva ou não propriedade da terra mãe, que não se pode dividir, vender ou comprar.  Os donos das terras e do poder ficam enfurecidos só em pensar que os índios, que são preguiçosos e não produzem,  reivindicam terras. O governador do Mato Grosso do Sul tem se empenhado tenazmente para impedir a identificação e demarcação das terras Kaiowá Guarani, considerando um absurdo dar um palmo de terra produtiva para os índios. Por outro lado, o grande capital agro exportador e os grandes investimentos ligados ao setor socroalcooleiro recebem estímulos e incentivos para instalarem suas usinas e ocuparem as melhores terras, e em grande parte, terras tradicionais Kaiowá Guarani.

    No 3º Seminário Nacional de Formação do Cimi, Mauricio Guarani falou que foram perdendo as condições do Bem Viver Guarani, na medida em que foram ficando sem terra, jogados às beiras das estradas. No documento final do encontro foi assumida a firme determinação dos povos indígenas reunidos em Lima que conclamam “Chamar à unidade continental e mundial dos povos indígenas e movimentos sociais  a mobilizar-se em defesa da Mãe Terra, pela construção de estados plurinacionais e implementação do Bem Viver em nível global, como alternativa para superar a crise climática, alimentar e econômica. Voltar ao equilíbrio com a Mãe Terra para salvar a vida no planeta é nosso caminho” (Declaração de Lima, 20/11/2010)

    A viagem e o frio

    Sair do gostoso clima tropical para enfrentar frio abaixo de zero, conforme as previsões, não é nada animador. Porém a delegação que irá levar a questão Guarani Kaiowá a países da Europa acredita que esse é um momento importante para dar visibilidade a essa realidade e cobrar ações urgentes, tanto de Lula que está deixando a presidência, quanto da presidente Dilma, recém eleita, bem como do judiciário que tem sido extremamente lento em julgar ações que dizem respeito aos direitos indígenas. Os inícios de governos quase sempre têm significado, para os povos indígenas, momentos de muita dificuldade, violências e até retrocessos. Na acomodação e disputa de interesses nos governos, os direitos indígenas têm, geralmente, sido relegados para segundo plano.

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  • 25/11/2010

    Carta ao Cenami pelos seus 50 anos

    Brasília/São Paulo, 22 de noviembre de 2010

     

    Saludos e felicitaciones

    para el Equipo Coordinador y el Personal del Centro Nacional de Ayuda a las Misiones indígenas, Cenami!

     

    Queridas Hermanas e Hermanos,

    Querido Eleazar López, Clodomiro Siller e Juan Manuel!

     

    Gracias por su invitación para la celebración de los 50 años de Cenami. Infelizmente no pudo atender su invitación, porque estoy en el III Seminário Nacional de Formación del Cimi.

     

    Es para nosotros de CIMI y para mí personalmente, una grande alegría poder estar unidos com ustedes, en el espíritu de Abya Yala, en esta fiesta del jubileo de oro. Su celebración de oro, no tiene nada que ver, com aquel oro que los conquistadores españoles robaron y que los nuevos colonizadores continuan robando de los pueblos indígenas. Cenami es una tentativa de devolver parte del oro robado, y de impedir otros nuevos saqueos de riquezas de los territórios indígenas.

     

    En estes 50 años, Ustedes enfrentaran inúmeras luchas em favor de la causa indígena, luchas contra las políticas neo-colonizadoras, expansionistas y neoliberales, luchas también al interior de la Iglesia, que no siempre, comprendió el legado de Su misión pos-colonial que el Concílio Vaticano II nos dejó. Mas no por eso, Cenami dejó de ser y de pertenecer a la Iglesia Católica, y a su sector de profetas y mártires.

     

    Hoy, después de 50 años de lucha y luto, la Iglesia Católica em México, puede enorgullecerse por la existência de Cenami, vigía y abogada de la justicia de las naciones indígenas y de los pobres (cfr. DAp 395, 508,533). Después de 500 años de colonización, Cenami rescató la credibilidad de la Iglesia mexicana frente a las naciones indígenas de Abya Yala. Los pueblos indígenas esperan que con Cenami, no solamente comenzaron otros 50 años, mas sí otros quinientos años de solidaridad eclesial y apoyo a su dignidade en la sociedade mexicana. La Iglesia Católica es um sector importante dentro de la sociedade mexicana, y Cenami es al mismo tempo, un sector importante en esta Iglesia local.

     

    Nosotros del Consejo Indigenista Misionero (Cimi), estamos particularmente agradecidos por la caminada fraterna con Cenami, y por sus inspiraciones lúcidas, sobre todo, a través de la Teología Índia. Em AELAPI estamos no solamente unidos, en nuestros respectivos países, mas también em el Continente, porque la causa indígena no es um “caso nacional”, mas sí una “causa universal”.

     

    Que el buen Dios continue derramando sus bendiciones sobre los pueblos indígenas de México, sobre su Cenami, y que nuestra Señora de Guadalupe, continue sirviendo como fuente de inspiración de uma Iglesia inculturada e combativa en medio de los pueblos indígenas.

     

    Con amistad y gratitud por su servicio a las misiones indígenas los saludan todos los participantes de nuestro Seminário Nacional, nuestra directoria con Don Erwin, Eden e Saulo.

     

    Padre Paulo Suess

    Asesor Teológico de Cimi

     

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  • 25/11/2010

    Informe nº 941: Acabou hoje (25) o III Seminário Nacional de Formação do Cimi

    Encontro motivou os participantes na busca pelo Bem Viver, em oposição ao atual sistema de opressão do capital

    Desde o dia 22 de novembro, missionários do Cimi, indígenas e convidados participam do III Encontro Nacional de Formação do Cimi, cujo tema foi “O sonho, a realidade do bem viver frente ao modelo de desenvolvimento”. Foram cerca de 120 participantes que contaram com a assessoria de professores, pesquisadores, lideranças indígenas, assessores de movimentos sociais, para estudar propostas de Bem Viver, e o que impede que ele exista em nosso atual modelo de economia e sociedade. Místicas, relatos de vida e momentos rituais de oração também marcaram esses quatro dias de encontro.

    O evento teve início com uma mística de abertura e apresentação da pauta. Depois, Dom Dimas Lara Barbosa, secretário geral da CNBB, deu o seu testemunho sobre a situação dos povos indígenas e falou a importância da comunicação na luta contra o preconceito para com estes povos. Em seguida, deu-se início a primeira mesa, com o tema “Elementos para a busca do Bem Viver para todos e sempre”, com o assessor Teológico do Cimi, Pe. Paulo Suess.

    Grande parte da fala de Suess girou em torno do viver bem frente ao sistema capitalista, onde há a comercialização pelo lucro, a colonização, a mercantilização de tudo que é possível. “No capitalismo, sempre se quer mais e melhor. Precisamos aprender a viver com melhor, com menos”, afirmou Suess. Então, o bem viver é essa busca contínua do equilíbrio, pois o sistema em que vivemos não garante que todos tenham bem viver, apenas alguns. Como bom exemplo de equilíbrio, ele apresentou as próprias sociedades indígenas. “E na nossa sociedade? Como equilibrar nossa sociedade de crescimento, concorrência, aceleração e desenvolvimento com a busca por uma terra sem males?” questionou.

    No dia 23, pela manhã, a palestra “O Bem Viver como alternativa ao modelo atual”, contou com a contribuição de Pablo Dávalos, economista e professor da Universidade Católica do Equador. Ele falou sobre a ruptura radical que consiste o Bem Viver, frente a uma sociedade capitalista de processos de acumulação violentos. Ressaltou também a importância de se construir marcos conceituais para criar alternativas ao capitalismo e suas práticas. “O liberalismo não compreende o bem viver. O marxismo também é insuficiente para entender este conceito”, afirmou. Assim, a luta deve ser prática e teórica, criando novos conceitos, referenciais.

    Também durante sua fala, Dávalos fez uma leitura cotidiana, mostrando que os atuais governos chamados progressistas, na América Latina, são ameaças aos povos, porque o processo de acumulação violenta continua e despoja toda a população de sua cultura, seus territórios. E o professor foi enfático. “Tudo isso acontece com o nosso consentimento, pois há uma espécie de disciplina social! A esse novo sistema eu chamo de pós-neoliberalismo”. Dávalos comparou o neoliberalismo com o pós-neoliberalismo, afirmando que no primeiro, há privatização e acumulação monetária. No segundo, há uma sede em tomar os territórios, a soberania das populações e seu meio ambiente.

    Na América Latina, o que acontece atualmente, de acordo com Dávalos, é a criminalização de quem defende sua terra, seu espaço. A situação se repete em vários países, como México, Equador, Bolívia, Guatemala e Brasil. Mas tal processo só é possível devido à segurança jurídica que os investidores capitalistas têm, o que significa criminalização de movimentos sociais.

    Mudanças climáticas e grandes projetos

    Ainda no dia 23, durante a tarde, o engenheiro florestal e membro da Via Campesina, Luiz Zarref, destacou o problema das mudanças climáticas na palestra “Mudanças Climáticas e Justiça Ambiental”. “É fundamental termos a clareza de que é o capitalismo que leva à crise ambiental que vivemos”, disse iniciando a palestra. Para Zarref, passamos atualmente por uma grande crise do modelo de produção hegemônico (capitalismo) que se divide em várias crises pontuais: crise alimentar, energética, política, ambiental, ou seja, uma crise sistêmica. Mas, de acordo com Zarref, a discussão sobre os impactos do ser humano já existe há mais de dois séculos, com o início da Revolução Industrial. Ser humano e natureza vêm sendo explorados pelo capital há séculos, mas o homem se aliena. A natureza não. Ela se revolta e não se submete. “O planeta sempre estará gritando contra o capitalismo!”, ressaltou. E é isso que se observa atualmente com todas as mudanças climáticas existentes.

    Sobre o termo mudanças climáticas, ele lembrou que ainda não é algo muito preciso para a maioria da sociedade. No próprio meio científico ainda gera discussões, visto que é um conceito novo, criado nos últimos 10 anos, de que o planeta está passando por grandes transformações de forma muito rápida. Zarref apresentou alguns exemplos de que estas mudanças já são nítidas: secas na Amazônia, como nunca se viu, aumento da temperatura dos oceanos e mudança de toda a dinâmica do planeta. “Os impactos são muito fortes e o capitalismo vem tentando apresentar propostas para diminuir estes problemas, mas na verdade são falsas soluções”, afirmou Zarref. O capital propõe mudanças na matriz energética, mas não propõe a discussão sobre aonde vão as energias. Sugerem a fabricação de carros ecológicos, mas não discutem o transporte coletivo. Ou seja, o capitalismo tem toda uma engenharia para lidar com a questão ambiental, para tentar sobreviver e o processo de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação  (REDD) é uma destas artimanhas. “O REDD não é dinheiro fácil, eles não querem que o desmatamento acabe, e sim os grandes territórios, como as terras indígenas”, afirmou. E muitas Ong’s já adotaram a idéia e servem de intermediários para comunidades tradicionais receberem o “benefício”. Mas o que seria o REDD? Zarref tentou colocar de uma forma mais simples e clara: seria pagar para não desmatar mais.

    Para Zarref é preciso pensar a autonomia dos povos e a auto-sustentação. “É preciso conhecer experiências de enfrentamento pelo mundo, conhecer os termos utilizados nas discussões da problemática”, destacou.

    Grandes projetos – Tatiane Bezerra, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), e o cacique Neguinho Truká discorreram sobre os impactos dos grandes projetos nas comunidades tradicionais. Tatiane iniciou sua fala questionando: “Desenvolvimento para quê e para quem?”. Esta pergunta norteou sua apresentação sobre as demandas por energia que o capitalismo exige, e para onde vai tanta energia produzida com base em grandes violências. Tatiane apresentou vários dados sobre produção e gasto de energia. “São mais de 1,5 milhões de pessoas atingidas por barragens que não têm mais nenhum direito! O povo Guarani até hoje reivindica suas terras onde está construída a Usina de Itaipu”, relembrou.

    A palestrante também lembrou como é feita a repressão às comunidades que se organizam contra esse avanço do capital, contra as barragens, contra as transposições e apresentou quais são as políticas das empresas: ganhar pelo menor preço na licitação do Megawate e depois negar direitos ambientais e sociais, reprimir o povo organizado.

    Já Neguinho Truká apresentou o cenário não através de dados, mas dos fatos que acontecem nas terras indígenas. “Nas faixas da transposição do Rio São Francisco, as famílias sedentas são removidas; há 3 km do rio, em Cabrobró, a população utiliza água de carros pipa para beber”, afirmou.

    Assim, Neguinho foi mostrando como a transposição do rio São Francisco traz sofrimento para as comunidades. “Muito lugar está desertificado, agora tem prostituição infantil, uso de drogas, somos prejudicados pela falta de água e o governo reserva muito mais para a nossa região”, declarou. “O São Francisco depende de todos nós! Esta é a nossa bandeira de luta!”, finalizou.

    Estado, poder e os governos na América Latina

    No penúltimo dia do encontro, os participantes acompanharam exposições de pesquisadores e acadêmicos sobre Estado e Poder e os Governos de esquerda na América Latina. O antropólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Lino João de Oliveira Neves, durante a mesa “Estado e poder”, fez uma pequena abordagem histórica sobre o que é o Estado Nação, política e poder, fazendo em seguida uma relação do tema com o movimento indígena.

    Num primeiro momento, Neves mostrou que os termos de Estado, Estado Nação, Território, Soberania, são todos forjados no iluminismo e no nascimento de uma modernidade ocidental. Mas, essa modernidade é a afirmação de uma única ordem de saber: o saber europeu. Com as colonizações, esta ordem única de cultura é instituída nas colônias. “É a negação de outras culturas e isso é efetivado de várias formas: com a invisibilização, a subordinação, a exclusão e por fim a eliminação total do outro”. Mas a situação começa a se modificar. De acordo com Neves, até a década de 1970, tudo ocorreu como o colonizador queria. “Mas depois disso o índio diz: ‘Quero ser eu! Não quero ser europeu!’”. Assim começa a resistência consciente e política. Se antes a luta era no corpo a corpo, a partir deste momento começa a ser de afirmação de sua cultura, sua forma de organização, sua língua.

    Lino acredita que negar o ser político que é o indígena é uma forma de o Estado despolitizar e enfraquecer a luta desses povos. “As demandas políticas dos indígenas viram soluções técnicas e o Estado age para camuflar a atuação dos povos nas suas próprias conquistas”, destacou.

    Governos de “esquerda” – “Os governos da América Latina (A.L.) estão acelerando a crise civilizacional”. César Sanson, pesquisador do CEPAT e parceiro do IHU, depois de fazer todo um apanhado sobre as crises energéticas, as crises ambientais, mudanças climáticas, ressaltou que os governos ditos de esquerda são sim grandes aceleradores desse modelo neo-desenvolvimentista. Na segunda palestra do dia 24, ele destacou que governos dos países latinoamericanos têm uma forte referência no modelo desenvolvimentista dos anos 1950.

    De acordo com Sanson, os governos existentes hoje na A.L. são neo-desenvolvimentistas. “O papel do Estado é alavancar o desenvolvimento. Para isso ele aparece em três facetas: o Estado investidor, financiador e o Estado social”. O Estado banca grandes obras para alavancar o desenvolvimento, financiando para a exploração do capital privado; ele financia a fusão de grandes conglomerados para competir com empresas transnacionais e elabora programas sociais compensatórios, por exemplo o bolsa família.

    Esse modelo cria tensões com os movimentos sociais, que foram grandes forças para elegê-los. Sanson destacou que os indígenas são grandes entraves a essa lógica e por isso são tão perseguidos. “Os movimentos sociais em geral não podem se deixar iludir: a inclusão social não pode vir do consumo, mas da resolução de problemas como na saúde, na educação. É preciso perceber que o crescimento não é ilimitado e o movimento não pode se deixar iludir!”, declarou.

    Ainda nesta discussão dos Estados Latino Americanos, o economista Pablo Dávalos destacou que poucas vezes na história houve tantos estados partilhando da mesma concepção. “É a mesma dinâmica de acumulação capitalista!”, afirmou. Mas para compreender como a A. L. chegou a essa situação, Dávalos voltou aos anos 1990, e destacou a forte atuação dos movimentos sociais em toda a América Latina. “Foram esse movimentos que derrotaram o neoliberalismo! E os partidos políticos se valeram desta energia dos movimentos para se elegerem.”, lembrou.

    Para Dávalos, os movimentos sociais foram se calando, se paralisando, após as eleições dos chamados partidos de esquerda, mas é preciso recuperar a agenda dos movimentos sociais! Voltar a ser radicais, voltar às raízes para conseguir uma democracia plurinacional.

    Experiências indígenas de Bem Viver

    Finalizando as mesas do Seminário, nesta quarta-feira, dois indígenas puderam relatar suas experiências de Bem Viver para os participantes. Os povos indígenas têm sua maneira própria de viver que foge da lógica do consumismo, das violências, do desrespeito à natureza, e faz com que sejam exemplos vivos do que se pôde entender nesses três dias de seminário sobre Bem Viver.

    Rosivaldo Ferreira da Silva, mais conhecido como cacique Babau do Povo Tupinambá da Serra do Padeiro, relatou sua vida em comunidade, seu costumes, a forma de economia e de preservação da cultura e da memória dos antepassados de seu povo. Para ele, muito das violências que seu povo sofre é pelo fato de serem alegres, felizes e viverem em harmonia, o que revolta os fazendeiros, os depredadores da natureza, os representantes do capital. “Em nossas terras, não há violência doméstica, respeitamos a natureza, temos sistemas de roças comunitárias, aprimoramos a comercialização de nossos produtos em parceria com a nossa associação! Temos muita fartura, porque ninguém pode ter dignidade passando fome! Fazemos coleta seletiva, produzimos excedente como reserva, caso haja algum imprevisto”, relatou. Babau mostrou como respeitam a terra e os ciclos de vida. “Nosso modelo de vida é estável, a gente ri, é alegre, é feliz, a gente faz muita festa! Temos vida e vida com felicidade!”.

    Já Maurício Guarani, mostrou uma realidade diferente. “Antes do branco chegar a gente tinha o bem viver completo: tínhamos casa, caça, peixes, frutas nativas. Tínhamos o jeito de ser guarani. Mas quando o branco “descobriu” o Brasil, perdemos todo o nosso território!”, lembrou. Maurício relatou que hoje a grande luta do povo Guarani é para conseguir seus direitos. “A lei garante nossas terras, mas isso não garante nada na prática. Nossas famílias vivem na beira das estradas, debaixo de lona. Os fazendeiros não querem nem que os indígenas fiquem perto de suas cercas”. O governo não reconhece o modo de vida guarani, e só o povo sabe como conseguiram sobreviver por mais de 500 anos, com sua língua e costumes próprios. “O problema está colocado: precisamos sobreviver, precisamos de nossas terras e precisamos que reconheçam a nação guarani. E eu estava pensando bem aqui e vi que o Bem Viver Guarani não existe mais, porque não temos terra, não podemos plantar!”, ressaltou. Ou seja, a terra é o principal fator que falta para que o povo Guarani retome o seu jeito de ser, seu Bem Viver.

    Estudos

    Os participantes do Seminário também se reuniram em grupos e apresentaram as conclusões de seus estudos sobre os temas propostos no evento. O encontro terminou na manhã desta quinta-feira, com uma celebração presidida pelo presidente do Cimi, Dom Erwin Kräutler.

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