MPF processa Eletronorte por danos da usina de Tucuruí aos índios
Impactos foram reconhecidos pela própria empresa em 2006, mas até agora não concretizou nenhuma das medidas de compensação necessárias
O Ministério Público Federal em Marabá iniciou processo contra a Eletronorte para obrigar a empresa a compensar e mitigar os danos causados aos índios Assuriní com a construção da hidrelétrica de Tucuruí. A Terra Indígena Trocará, dos Assuriní, vem sofrendo desde então inúmeras invasões e outros impactos diretamente relacionado com a usina e com o aumento populacional decorrente do empreendimento.
Segundo relatório de danos confeccionado pela própria Eletronorte com a colaboração da Funai, em atendimento a recomendação do MPF, a saúde, a segurança alimentar e a integridade do povo Assuriní entraram em colapso com a redução de peixes e caça, a multiplicação de Doenças Sexualmente Transmissíveis, casos de alcoolismo, tabagismo, a substituição da língua nativa pelo português, constantes investidas de invasores e degradação ambiental de diversas ordens.
No total, foram listados 51 impactos, mas nenhuma medida de compensação foi tomada pela Eletronorte. Agora, o MPF quer que a Justiça federal de Marabá obrigue a empresa, em caráter urgente, a implementar as medidas mitigadoras e compensatórias já identificadas no prazo de 60 dias, além de condená-la a indenizar a comunidade indígena pelos danos materiais e morais causados.
O MPF pede julgamento urgente porque vê risco de consequências ainda mais trágicas para o povo Assuriní. “A empresa não honrou nenhum dos compromissos assumidos, o que frustrou as expectativas dos indígenas que aguardam o atendimento dos seus pleitos por mais de 20 anos. Não há como tolerar tal situação e, caso alguma medida não seja adotada, a tragédia, há muito anunciada, consumar-se-á definitivamente”.
O relatório de impactos foi entregue ao MPF em 2006. O documento revelou “nítidos e inquestionáveis danos contínuos, de natureza permanente” e comprovava que, “sem nenhuma dúvida, a construção da usina hidrelétrica de Tucuruí foi o empreendimento de maior impacto na vida dos Assuriní após o contato ocorrido em
Para compensar e mitigar os impactos, o estudo prevê 32 ações mitigadoras e compensatórias, que foram aprovadas pela comunidade Assuriní do Trocará. Em sucessivas reuniões, entre 2006 e 2009, acompanhadas pelo MPF e pela Funai, foi elaborado um plano de trabalho, mas até agora a Eletronorte não cumpriu com o que lhe competia e nada foi implementado.
Impedimentos eleitorais
No último mês de julho, o MPF promoveu nova reunião com a Eletronorte em Marabá e advertiu a empresa sobre o reiterado descumprimento dos compromissos assumidos e a demora na efetiva implantação do programa de compensação dos impactos. “Ficou estabelecido que o início do mês de agosto de 2010 seria a data limite para apresentação do programa e do cronograma de execução, para fins de dar-se início às ações, sob pena de ajuizamento das medidas judiciais cabíveis”, diz o procurador Tiago Rabelo, um dos responsáveis pelas negociações que se arrastavam há aproximadamente quatro anos.
A ação judicial narra que “mais uma vez a Eletronorte nada fez e, instada recentemente a manifestar-se sobre a demora, informou problemas burocráticos, aduziu impedimentos de natureza eleitoral e recusou-se a participar de nova reunião agendada para o último dia 12 de agosto”, lamenta o procurador da República.
À Justiça, o MPF pergunta: “de quantos anos mais e quantas eleições por vir precisará a Eletronorte para se valer de pretextos e impor, continuamente, os males causados por suas ações à comunidade indígena Assuriní?”
O processo tramita na Subseção Judiciária Federal de Marabá e ainda não recebeu numeração.
Veja alguns dos impactos mais graves da construção de Tucuruí sobre os Assurini:
– Ações indigenistas inadequadas
– Construção do ramal da Transcametá para a aldeia Trocará
– Construção da linha de transmissão Tucuruí/Cametá no entorno da Terra Indígena, afetando as cabeceiras do rio Trocará
– Construção de linha de transmissão da Celpa atravessando a Terra Indígena
– Instalação de fazendas e de assentamentos de colonos no entorno da Terra Indígena; a invasão constante e progressiva da TI Trocará por terceiros
– Fragmentação da paisagem no entorno da Terra Indígena
– Desmatamento e degradação das cabeceiras e margens dos recursos hídricos que banham a Terra
– Indígena, com conseqüente assoreamento e alteração da qualidade da água
– Uso inadequado de energia elétrica na aldeia Trocará, e outros equipamentos
– Ingresso de recursos pelos programas governamentais assistencialistas
– Perda do conhecimento tradicional da arte da pesca e da ictiofauna
– Uso de novas tecnologias implicando em considerável impacto na pesca
– Aumento do alcoolismo e tabagismo
– Substituição da língua nativa pelo português e o prejuízo cultural decorrente
– Sistema de educação inadequado à cultura Assuriní
– Crescimento da população da cidade de Tucuruí, trazendo doenças como: gripe, tosse, DST, alcoolismo e outras
– Invasão da Terra Indígena pelo gado das fazendas instaladas nos seus limites
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Graciela Chamorro – We imagine that indigenous peoples adore the mountains, the trees, a star. The Guarani do not worship images, and in their religious world there exist no material representations. The representation is immaterial and manifests in the canticles/chants, in myths, prayers, in the narratives. They speak of the creator being, of the consorts, of man and woman at the beginning of creation who are entrusted with a special function. As such, this relationship of the present with the past is quite powerful in Guarani culture.
IHU On-Line – What is the value of the ancestors in the life history of this people?
Graciela Chamorro – Death itself is regarded as natural. This theme is the object of serene speech, and when the person has reached an advanced age, death is the object of desire. The Guarani customarily say that when a person dies, her protector comes seeking him. The lords of the Word, who live in other worlds – which we simply call heaven -, seek out the Word Soul and take it to its destiny.
Graciela Chamorro – Theology, like philosophy and anthropology, are terms derived from the Greco-Roman world. Theology signifies discourse about God, but Guarani theology has to signify something else because they are not part of this tradition. A book of mine was called Guarani Theology (Quito: Abyayala, 2004), because the publisher requested that this be the title.
Graciela Chamorro – The Guarani have no term for the word nature, because that term implies a division between beings. We divide living beings into thinking and non-thinking. In this logic, nature is that which we can use in service to a thinking being. This in a certain way governs our society and tells us we are beings superior to nature, that we are endowed with intelligence and soul to dominate it. In theology, this served as one of the creation narratives, which says to the human being: "Dominate the earth." For the indigenous peoples, this relationship does not exist. They say they are part of nature and understand that she has soul and Word. Every being that exists today has a history. The history of these beings is the accounts they generated, in other words, their myths. These beings have a Word soul that is their foundation, and that Word soul has to develop and become mature. Viveiros de Castro said, in a lecture, that the indigenous peoples give a social status to the beings of nature, that is, they humanize them. As such they perform justification rituals for cutting down a tree that will not be able to mature. All of this occurred in a classical indigenous world. Today they cannot maintain this tradition because the environment they inhabit is not conducive to these rituals. When I ask the Guarani about eucalyptus [monoculture plantations of eucalyptus trees], for example, they say the tree has no history, that it is a new plant, generated by reforestation.