• 21/07/2011

    Mais violência contra os Kaiowá Guarani

    Início da noite de terça-feira, dia 19 de julho, Gaspar Vera, de 45 anos, retornava de uma atividade na cidade de Paranhos (MS), quando próximo da divisa da aldeia Pirajuí foi surpreendido por dois homens encapuzados.  Ao se aproximarem do indígena, os homens tentaram disparar contra ele.  Os tiros acabaram não atingindo Gaspar, que conseguiu fugir do local.  Comunicaram logo o fato a vereadores do município e ao prefeito.  A polícia demorou a chegar ao local. Teriam se queixado pelo fato dos indígenas terem acionado o prefeito e os vereadores.

    Na manhã seguinte, um membro da missão, que está estabelecida nos limites da terra indígena, encontrou, a uns cinco metros de onde aconteceu a emboscada, uma sacola que continha uma faca, uma lima, uma botina, um cinturão e uma calça do Exército. O senhor que encontrou a sacola fez o boletim de ocorrência nesta tarde.
    Os indígenas Kaiowá Guarani do Pirajúí e Ypo’y estão profundamente chocados e assustados com essa onda de violência de que estão sendo vítimas. Na semana passada, Germano, que é técnico de enfermagem, foi espancado por homens encapuzados, nesta mesma região. Eles estão lutando pelo tekohá Potrerito.

    De acordo com os indígenas, essas ações estão relacionadas à luta pela terra. Em outubro de 2009, dois professores Kaiowá Guarani fora seqüestrados – Genivaldo Vera e Rolindo Vera. Dias depois, o corpo de Genivaldo foi encontrado com marcas de tortura. Ainda hoje, dois anos depois do seqüestro, a família aguarda por notícia de Rolindo, ou mesmo que seu corpo seja encontrado.

    Quando, finalmente, há expectativas quanto a conclusão e publicação de relatórios de identificação das terras Kaiowá Guarani, no Mato Grosso do Sul, recrudescem as violências praticadas contra os indígenas do estado.  É momento de resolver a questão da demarcação das terras desse povo, como ponto de partida para reverter o grave problema de violência de que são vítimas.

    Povo Guarani Grande Povo
    Dourados, 20 julho de 2011

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  • 21/07/2011

    Testemunhas do Reino

    5ª Romaria dos Mártires da caminhada

    Por Egon Heck*

    Ribeirão Cascalheira (MT), cruz do Pe. João Bosco. Ali, de cinco em cinco anos, se encontram romeiros do nosso continente. Encruzilhada profética do continente. Memória perigosa dos mártires da caminhada, das testemunhas do Reino.

    Neste ano a quinta Romaria dos mártires tem um motivo há mais para celebrar. Quarenta anos de uma Igreja em conflito com o latifúndio, construindo justiça e semeando esperança, denunciando a opressão, anunciando a alvorada, no caminho da libertação.

    São Félix se tornou um espaço emblemático de uma igreja profética, que tem como seu irmão maior Pedro, poeta e profeta, dessa América Latina, Abya Yala, ainda na paixão.

    Dom Pedro Casaldáliga é presença indispensável nesse grande sonho, celebração, memória e luta. Ontem ele já deixou São Felix e veio para Ribeirão Cascalheira. Milhares de romeiros já chegaram para a celebração de abertura, seguida da caminhada martirial.

    Veja texto de dom Pedro sobre tema desta 5ª Romaria

    Apesar do calor causticante, da secura e da poeira, nada tira o ânimo dos romeiros. É momento de rever muitos companheiros e companheiras de caminhada, unidos na memória dos 40 anos de luta da Prelazia de São Felix do Araguaia, “uma igreja em conflito com o latifúndio e a opressão”.

    Rumo à Romaria dos Mártires

    Saímos do coração do agronegócio, de Dourados, no Mato Grosso do sul, para as beiras do Araguaia. Passamos pelas monótonas paisagens da monocultura, do milho, da soja, da cana, do eucalipto, do capim, do algodão, do sorgo, principalmente, para os confins do latifúndio e as belas praias do Araguaia.

    Saímos da posse do ex-secretário Geral da CNBB, dom Dimas Lara Barbosa, como arcebispo em Campo Grande (MS), para a prelazia do novo secretário Geral, dom Leonardo Steiner, em São Felix do Araguaia.

    Viemos partilhar nossas experiências e lutas com os companheiros (as) do Cimi Regional Mato Grosso. Nesta região em que estão as raízes das transformações, das quais nasceu o Cimi, encontramos com figuras históricas e testemunhos por mais de meio século junto aos povos indígenas, como a irmãzinha Genoveva, com mais de 60 anos vivendo solidariamente com o povo Tapirapé. Ali encontramos pessoas profundamente sábias e solidárias com a caminhada dos povos indígenas nas últimas décadas.

    Veja texto de dom Pedro sobre tema desta 5ª Romaria

    Olhar para os cabelos, os olhares profundos, o corpo cansado, de dezenas de missionários e missionárias, nos faz sentir orgulho dessa bonita história escrita com decisão, audácia, sangue e alegria. Foi aqui que também se iniciou essa bonita página da luta indígena e indigenista do Brasil. O sangue do Pe. Rodolfo e do indígena Simão Bororo (1976), do Pe. João Bosco Burnier (1976), do Vicente Canhas (1986), cujo corpo foi encontrado depois de 40 dias de seu assassinato. Eu estava indo visitá-lo, juntamente com Tomás e Tião, e nos deparamos com esse quadro tétrico. Sentimos de perto a revolta dos Enawene Nawe ao receberem a notícia do assassinato de seu grande amigo Kiwi.

    Apesar de mais da metade dos missionários já estarem com mais de sessenta anos e sentirem o peso dos longos e não fáceis tempos de vivência e testemunho solidário com os povos indígenas,  o que se percebe é uma grande esperança de continuar a presença respeitosa e profética junto aos povos do regional.

    O espaço profético de Pedro

    Para nossa alegria, quem estava sentado entre o grupo de uns 50 missionários lutadores, era o bravo e profético de dom Pedro Casladáliga. Apesar de fisicamente debilitado pela doença e por seus mais de 80 anos de vida, ali estava lúcido e incansável pela causa que há décadas está levando avante com os lutadores da Prelazia de São Felix. O tema de aprofundamento seguiu o lema da Romaria dos Mártires. Ele inseriu suas valiosas contribuições sobre o tema que tratou e viveu com muita paixão, doação e amor.

    Testemunhas do Reino

    Esse será o lema da Romaria dos Mártires da Caminhada que acontecerá em Ribeirão Cascalheira entre 16 e 17 de julho. É para esse momento especial em termos de celebração dos mártires da América latina, que viemos. Beber do testemunho desses milhares de mártires anônimos ou mais presentes na memória do povo lutador.

    “Só temos o direito de celebrar a memória dos mártires se de fato assumirmos as suas causas”, foi uma das frases centrais da reflexão animada pelo Pe. Francisco Junior, e que repercutiu nas celebrações.

    A profecia do Bem viver frente ao modelo capitalista

    Esse será o lema que orientará a reflexão dos missionários e missionárias do Regional Mato Grosso, na preparação para a celebração dos 40 anos do Cimi, que acontecerá em outubro do próximo ano.

    Depois de uma bela reflexão sobre “testemunhos do Reino” com a rica contribuição do Pe Francisco Junior e de dom Pedro Casaldáliga, o Regional MT divulgou um documento de denúncia e anuncio, testemunho e profetismo.  “Como Cimi assumimos o testemunho dos Mártires que continuam tombando no anúncio e na defesa desta proposta do Bem Viver para todos os seres do Planeta e nos comprometemos em denunciar profética e esperançosamente todas as agressões à Mãe Terra que colocam em risco a vida plena de seus filhos e de suas filhas! 

    Leia documento final da Assembleia do Regional MT 

     

    *Missionário do Cimi Regional Mato Grosso do Sul

     

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  • 21/07/2011

    Band veicula mentiras sobre Raposa Serra do Sol

    Nota de Repúdio 

    Decorridos dois anos do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal – STF, que reconheceu a legalidade da homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol, os povos indígenas que ali vivem continuam sob intensa perseguição por parte da classe política e dos rizicultores. Na segunda semana de julho de 2011 os ataques aos povos indígenas ficaram mais evidentes com a divulgação de uma série de reportagens pela TV Band. 

    As reportagens são mentirosas em todos os aspectos que tratam da questão indígena e, mais precisamente, quando aludem aos povos da terra Raposa Serra do Sol. A referida terra indígena é território tradicional dos povos Makuxi, Wapixana, Ingaricó, Taurepang, Patamona e Sapará, que trabalham e produzem para seu sustento e cada vez mais buscam elevar sua qualidade de vida. Lamentavelmente, o poder público – tradicional aliado dos grupos anti-indígenas, tem se mostrado negligente para atender aos pleitos desses povos. 

    As imagens, por exemplo, que mostram indígenas recolhendo lixo não refletem a realidade. Essa situação existe há muito tempo em Roraima como conseqüência da exclusão social. Do lixão de Boa Vista sobrevivem pessoas de vários segmentos excluídos, entre os quais um pequeno grupo de indígenas – que, morando na capital, não tem acesso a educação, saúde, emprego, moradia e outros mínimos benefícios porque o Estado de Roraima tem se mostrado incompetente para formular políticas contra a exclusão social. 

    Repudiamos as autoridades governamentais que tem se prestado a assumir a bandeira dos grupos anti-indígenas que tentam, por todos os meios, rever a regulamentação da terra indígena Raposa Serra do Sol, mobilizando, para isso, as mais altas autoridades do país.  

    Reafirmamos o compromisso de defender o direito de todos os povos da terra Raposa Serra do Sol bem como de todos aqueles que buscam o reconhecimento e a regularização de seus territórios tradicionais, ao mesmo tempo em que estaremos sempre vigilantes contra os meios de comunicação que agem de forma tendenciosa e mentirosa, desprezando os princípios éticos da comunicação e o direito de todo sociedade à informação. 

    Manaus (AM), 17 de julho de 2011. 

    Associação dos Povos Indígenas de Roraima – APIRR

    Associação Indígena Tupinambá da Serra do Padeiro – AITESP

    Conselho Indígena de Roraima – CIR

    Conselho Indigenista Missionário – CIMI NORTE I

    Federação das Organizações Indígenas do Médio Purus – FOCIMP

    Organização das Mulheres Indígenas de Roraima – OMIR

    Organização Dos Indígenas da Cidade – ODIC

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  • 20/07/2011

    37ª Assembleia do Cimi Regional Mato Grosso

    Entre 10 e 15 de julho, os missionários e missionárias do Regional Mato Grosso do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) estiveram reunidos para sua 37ª Assembleia. Por cinco dias, eles refletiram sobre o tema “Testemunhas do Reino”, em preparação à 5ª Romaria dos Mártires da Caminhada, realizada entre 16 e 17 de julho, na cidade matogrossensse de Ribeirão Cascalheira.

    O encontro, que aconteceu em São Félix do Araguaia, contou com a presença e assessoria do padre Francisco de Aquino Júnior. Na pauta de discussão, ainda estiveram presentes os empreendimentos que impactam terras indígenas – pequenas centrais e usinas hidrelétricas -, bem como a problemática dos territórios indígenas no estado, que continuam invadidos ou à espera da demarcação. Caso emblemático é o da Terra Indígena Marãiwatséde, do povo Xavante, que homologada 1998, ainda hoje não foi desintrusada.

    A terra continua ocupada por grandes fazendeiros e produtores rurais, enquanto os Xavante são vítimas constantes de agressões, discriminação e atentados contra sua integridade. Para causar ainda mais conflitos, a Assembleia Legislativa do Mato Grosso aprovou a Lei estadual n° 9.564, que propõe a permuta entre a União, por meio da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre “a área correspondente ao Parque Estadual do Araguaia com a área homologada da Reserva Indígena Marãiwatséde”.

    O governo do estado, incorrendo no mesmo erro inconstitucional, sancionou a lei. A iniciativa errônea do governo matogrossensse deixa claro a que interesses serve – do agronegócio. O povo Xavante, fazendo uso do direito que lhes é garantido no § 4º do artigo 231 da Constituição Federal, não aceitou a permuta e se nega a sair de seu território. A Terra Indígena Marãiwatséde foi identifica e demarcada para usufruto exclusivo do povo Xavante, não sendo, portanto, passível de troca, doação, venda ou transferência.

    O Cimi, no documento final da Assembleia, reafirma seu compromisso para com as causas indígenas. “Apoiamos o povo Xavante que recusou terminantemente esta proposta, e a repudiamos, por ser inconstitucional e imoral”, afirmou.

    Leia documento na íntegra:

    Documento Final da XXXVII Assembleia do Cimi Regional Mato Grosso 

    Reunidos em sua assembleia anual entre os dias 10 a 15 de julho em São Félix do Araguaia, MT, os missionários e as missionárias do Cimi Regional Mato Grosso refletiram sobre o tema “Testemunhas do Reino” em preparação à Romaria dos Mártires, assessorados pelo Pe. Francisco de Aquino Júnior. 

    Inspirados nos mártires que tombaram por causa da justiça e em defesa dos marginalizados, lançamos nossos olhares sobre os principais conflitos que atingem os povos indígenas em nosso Estado. Dentro deste contexto, destacamos situações que continuam martirizando os povos originários:

    – a problemática dos territórios indígenas invadidos ou ainda por demarcar, dentre os quais a situação da terra dos Xavante de Marãiwatsédé é emblemática. Embora tenham retornado ao seu território tradicional em 2004, após nove meses acampados na beira da BR-158, ainda estão impedidos de tomar posse efetiva de sua terra, uma vez que ela continua invadida por grandes fazendeiros e uns poucos pequenos produtores rurais, o que demonstra um flagrante desrespeito aos direitos assegurados na Constituição Federal, que lhes garantem o usufruto exclusivo de seu território. Desde então, os Xavante de Marãiwatsédé vêm sofrendo constantes agressões e, inclusive, atentados físicos. No último mês a ameaça aos Xavante se agravou devido a uma lei aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado de  Mato Grosso e sancionada pelo governador. A lei propõe a permuta do território tradicional indígena pelo Parque Estadual do Araguaia, para onde os Xavante deveriam ser transferidos, caso aceitassem a proposta. Essa tentativa do governo de Mato Grosso visa claramente favorecer o agronegócio, principal beneficiário da invasão dessas terras. Apoiamos o povo Xavante que recusou terminantemente esta proposta, e a repudiamos, por ser inconstitucional e imoral; 

    – constatamos que Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Usinas Hidrelétricas (UHE) estão sendo implantadas em vários rios, como está ocorrendo na bacia do Juruena, onde estão sendo instaladas diversas PCHs, dentre as mais de 50 projetadas. O efeito cumulativo dessas usinas provocará grandes transformações ambientais interferindo drasticamente na vida dos povos que dependem destes rios. Serão atingidos, sobretudo, os Rikbaktsa, Enawenê-Nawê, Nambikwara e Mỹky. A implantação desses projetos, mais uma vez, fere a Constituição, pois não houve nem as oitivas indicadas no Artigo 231, § 3º, nem a consulta livre e informada de acordo com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Por isso, nos indignamos e denunciamos mais esta violação dos direitos indígenas, que são efetivadas a favor de interesses políticos e econômicos, apesar de todos os protestos e manifestações contrárias dos diferentes povos da região noroeste do estado.

    Por outro lado, temos consciência de que os povos indígenas vivenciam uma relação amorosa com a Mãe Terra que se contrapõe à exploração mercantilista dos recursos naturais. Cada povo experiência essa relação em projetos de vida em que os valores da convivência e da partilha concretizam a proposta do Bem Viver. A vida se faz em dimensões não cumulativas, onde a gratuidade é celebrada nos ritos, nas festas, no trabalho, no viver em mutirão. Este modo de vida não agride a natureza, mas, ao contrário, considera o ser humano como parte dela. Esse é um caminho viável não só para os povos indígenas, mas também para nossa sociedade. Precisamos conhecê-lo e assumi-lo como maneira de superarmos os grandes impasses a que chegamos devido à forma devastadora com que estamos destruindo a nossa própria casa.

    Como Cimi assumimos o testemunho dos Mártires que continuam tombando no anúncio e na defesa desta proposta do Bem Viver para todos os seres do Planeta e nos comprometemos em denunciar profética e esperançosamente todas as agressões à Mãe Terra que colocam em risco a vida plena de seus filhos e de suas filhas!

     

    São Félix do Araguaia, 15 de julho de 2011

    35 anos do martírio de Simão Bororo e Pe. Rodolfo Lunkenbein

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  • 20/07/2011

    Povos se unem contra Usina Hidrelétrica Serra Quebrada

    Por Cimi Regional GO/TO

    Por todo o Brasil, povos indígenas se unem aos ribeirinhos, pescadores e pequenos produtores para combater a destruição da mãe terra pelos grandes empreendimentos do Governo Federal – embandeirados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).  

    Na divisa do Tocantins com o Maranhão, as comunidades lutam contra a Usina Hidrelétrica (UHE) Serra Quebrada. O projeto nasceu durante a ditadura militar (1964-1985) e o atual governo, sob os dítames democráticos, o impõe, ao lado do setor privado, sem o menor respeito aos povos que serão afetados. 

    Contra o genocídio da Mãe Terra e de populações inteiras nos altares do progresso capitalista, os povos indígenas Apinajé e Krikati, pescadores, ribeirinhos e trabalhadores rurais se reuniram, entre os dias 4 e 6 deste mês na Aldeia Patizal, Terra Indígena Apinajé, município de Tocantinópolis, estado do Tocantins, para mais uma vez mostrar que são contra a UHE Serra Quebrada. 

    Leia a manifestação pública dos participantes do encontro:  

    DOCUMENTO FINAL DO ENCONTRO DOS POVOS INDIGENAS APINAJÉ E KRIKATI, PESCADORES, RIBEIRINHOS E TRABALHADORES RURAIS – DISCUSSÃO DO PROJETO DE UHE SERRA QUEBRADA 

    Nós indígenas do Povo Apinajé, Krikati, os representantes da Coapima, CNPI, Conselho Indígena Pêpcahyc Krikati, Associação da Aldeia Jerusalém Põo Catihi, Associações União das Aldeias Apinajé-PEMPXA, Associação Krinhinure do povo Apinajé, Associação dos Agricultores Familiares da Ilha de São Domingo Município de Itaguatins, Colônia de Pescadores Z-12 de Itaguatins, Colônia de Pescadores Z-35 de Estreito, Colônia de Pescadores Z-131 de Porto Franco, Colônia de Pescadores Z-129 de Ribamar Fiquene, reunidos na Aldeia Patizal Terra Indígena Apinajé, município de Tocantinópolis, Estado do Tocantins, nos dias 04 a 06 de julho de 2011 viemos a público denunciar e nos posicionar contra a UHE – Serra Quebrada, nos seguintes termos: 

    Desde a década de 70, o projeto da UHE Serra Quebrada, no rioTocantins, na divisa dos Estados do Maranhão e Tocantins, vem sendo uma ameaça às nossas populações indígenas, ribeirinhas, pescadores e pequenos produtores da região. Os estudos preliminares apontam que este projeto se construído inundará aproximadamente 10% da terra indígena Apinajé no estado do Tocantins. O povo Krikati no Município de Montes Altos no estado do Maranhão também poderá ser afetado, assim como também mais de 14.000 ribeirinhos e população urbana que serão deslocados de suas moradias. 

    Esta obra faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Plano Decenal de Expansão de Energia – PDE (2007/2016). Os municípios que poderão ser afetados pela obra são: Governador Edson Lobão, Ribamar Fiquene, Montes Altos, Campestre do Maranhão, Porto Franco e Estreito, estes no Estado do Maranhão. No lado do Tocantins, Itaguatins, Maurilândia, Tocantinópolis e Aguiarnópolis. 

    Entretanto, no nosso entendimento, Povos Indígenas reunidos, além de alagar grande parte de nossas terras provocando o deslocamento forçado de 8 aldeias, vai causar impactos e alterações no nosso modo de vida e no meio ambiente, nos nossos recursos naturais com a destruição de grande quantidade de Babaçu uma das principais fontes de renda. Na parte da Terra projetada para ser alagada está situada a maior diversidade de animais, aves e peixes. Ademais, o empreendimento representa grande ameaça de invasões da Terra Apinajé já demarcada. 

    No entendimento dos ribeirinhos e pescadores presentes, o empreendimento representa o fim das fontes de renda e meio de sobrevivência, com a devastação da natureza, acabando com a vida e nossa história. O empreendimento representa um falso desenvolvimento para nós, pois gera riqueza concentrada para poucos e deixa os prejuízos socioambientais e econômicos para o povo da região. 

    Diante das ameaças contra nosso território, nosso modo de vida, nossos recursos naturais garantidos na Constituição Federal, repudiamos essa política energética do Governo Federal que vem apoiando política e financeiramente as empresas na construção desses empreendimentos com o dinheiro público. Nossos povos Apinajé, Krikati, trabalhadores rurais, ribeirinhos e pescadores que moramos e dependemos do rio Tocantins para nossa sobrevivência, repudiamos a construção dessa obra e reafirmamos nossa decisão de não aceitar nenhum estudo ou pesquisa na tentativa de viabilizar o empreendimento. 

    Exigimos do Governo Federal, da Presidenta Dilma Roussef e do Ministro das Minas e Energia, senhor Edson Lobão, a paralisação imediata de qualquer processo administrativo ou estudos relacionados a esse empreendimento. Manifestamos que levaremos as denúncias aos órgãos responsáveis nacional e internacional, á imprensa e a sociedade civil, se houver qualquer tentativa de implementação da UHE Serra Quebrada, a qualquer custo e com violações de nossos direitos garantidos pela Constituição Federal e pelos organismos internacionais de que o Brasil faz parte. 

    Aldeia Patizal, 06 de julho de 2011.

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  • 20/07/2011

    Seminário sobre Mudanças Climáticas e Justiça Social

    Por Beatriz Catarina Maestri*

    Com o tema: Impactos e Desigualdades no Mundo Urbano, aconteceu nos dias 8 e 9 de julho de 2011, no Colégio Sagrada Família, no bairro Ipiranga, em São Paulo, o Seminário sobre Mudanças Climáticas e Justiça Social. O evento foi promovido pela Rede Jubileu Sul, em conjunto com pastorais e movimentos sociais da Grande São Paulo e contou com a participação de militantes de várias cidades desta região e outras vizinhas. 

    O aquecimento global tem provocado mudanças climáticas que afetam todas as formas de vida, dentre as quais a vida das populações mais pobres. Isto implica em repensar o modelo de sociedade, a matriz energética, os modos de produção e de consumo e o próprio modelo de desenvolvimento que vem sendo marcado pela economia de mercado capitalista que promove o consumo exacerbado, a precarização das condições sociais e a exploração a todo custo dos bens naturais. 

    Assim, os recursos naturais vão se esgotando de maneira acelerada e a poluição da atmosfera faz com que a Terra já não consiga manter o equilíbrio da vida. Como resultado, milhões de seres humanos não têm acesso aos bens necessários à sobrevivência, enquanto uma minoria concentra grande parte da riqueza existente.

    Nas cidades, o quadro não é nada animador. O modelo como foram se expandindo questiona e faz pensar a quem, de fato, estão servindo. Entre os maiores problemas que fazem parte do contexto urbano estão: transporte, impermeabilidade do solo, uso irregular do solo e especulação imobiliária, grande quantidade de carros tornando o trânsito caótico, poluição, produção de lixo doméstico e poucas políticas de reciclagem, indústria e eletrônicos, canalização de córregos, ocupação de áreas de risco, dentre outros.

    Os mais afetados, sabemos, são sempre os mais pobres, o que vai aprofundando as desigualdades sociais, culturais e econômicas. Esses e outros aspectos atuais, referentes ao tema citado, foram debatidos no Seminário que contou com a assessoria de Ivo Poletto, do Fórum Nacional de Mudanças Climáticas e Justiça Social, e teve como obejtivos: 

    a) A partir da observação da realidade, de como as Mudanças Climáticas impactam a população, o meio ambiente e o planeta, analisar quem são os verdadeiros responsáveis.

     b) A partir da compreensão da realidade, dos impactos e das causas, identificar quais iniciativas, soluções e alternativas podemos fazer juntos;

     c) Nos alimentar com a mística e a espiritualidade da Mãe Terra, para criar oportunidades e fazer a resistência a este modelo depredador e suas falsas ou precárias soluções.

    Outro assessor que contribuiu com o aprofundamento na compreensão do fenômeno das Mudanças Climáticas e seus efeitos foi o professor e físico, Paulo Artaxo, que coordena o Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e é membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Segundo ele, Brasil e Indonésia, juntos, são responsáveis por 60% de todas as emissões de gás do efeito estufa. O Brasil é o maior emissor de gás de efeito estufa por desmatamento. Precisamos reduzir essas emissões de gases o mais rápido possível e usar os recursos naturais de nosso planeta de forma inteligente.

    Para outra assessora do Seminário, a ativista ambiental e professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) Marijane Lisboa, é preciso “pensar a política energética para produzir menos, consumir menos e distribuir melhor. As hidrelétricas não são a solução, precisamos reduzir o consumo de energias fósseis e promover a formação de energias renováveis”. E destacou ainda que o Brasil não investe em energia eólica e solar, portanto, devemos pressionar por isso e, neste debate, questionar sempre: energia para quê e para quem?

    Ivo Poletto lembrou que precisamos construir novos instrumentos de enfrentamento e produzir uma mudança cultural, mudança nas nossas relações com as pessoas e com todo o ambiente. Para exemplificar essa busca por novas relações com todo planeta, citou a fala de um indígena, o presidente da Bolívia, Evo Morales: “Se nós, povos indígenas da América Latina sobrevivemos a cinco séculos de decreto de extermínio, deve ser porque somos portadores de valores que talvez venham a salvar a humanidade!”

    Além dos debates, os participantes se debruçaram sobre as mudanças climáticas e seus impactos na região urbana, relacionando-os com o acesso aos recursos de nosso planeta, aos direitos sociais e ambientais tendo em vista uma verdadeira justiça climática. 

    Foram, ainda, acolhidas as boas notícias neste campo, projetos e práticas que fazem a diferença em nossa região, como o trabalho dos catadores de material reciclável, do Projeto Recifran, ligado ao Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), e as atividades da Associação de Integração Campo e Cidade (MICC), no apoio à agricultura familiar, estes na Grande São Paulo; e o Projeto Geração de Renda – Gestão de Resíduos Sólidos, da Cáritas de Botucatu (SP).

    Em grupos, foram relacionadas ações de continuidade desse debate e atividades de mobilização na perspectiva de reivindicar políticas públicas e justiça ambiental.

    O Seminário foi espaço fundamental para formação e maior consciência da responsabilidade e compromisso de cada um com a vida toda do planeta. Os desafios que ficam são muitos, mas, no coletivo, a força também é maior. E fazemos nossos os 12 compromissos assumidos pelo 2º Simpósio Nacional de Mudanças Climáticas e Justiça Social, especialmente o primeiro: “Empenhar nossa força na mobilização social e formação de consciência das populações sobre a urgência de iniciativas que se coloquem na linha da defesa dos direitos das pessoas, integradas à defesa do ambiente e do Planeta Terra”.

    * Catequista Franciscana e missionária do Cimi Regional Sul – Equipe São Paulo

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  • 20/07/2011

    Sob as lonas pretas, mais uma criança Guarani Mbya morre sem ter vivido dentro de sua terra

    Roberto Antonio Liebgott*

    Finda a tarde do dia 13 de julho de 2011, RS-040, Km 60, município de Capivari. Os Guarani Mbya, que vivem às margens daquela rodovia, recebem o corpo sem vida de Amilta, de apenas quatro anos de idade. A pequena Mbya não resistiu a uma pneumonia e faleceu às 11 horas da manhã do dia 12.

    Os pais de Amilta, Rafael e Yolanda, não tendo uma Opy (casa de reza) para realizar os rituais sagrados do povo, levaram o corpo da filha para ser velado em um barraco improvisado, coberto com lona preta. Lá passaram toda a noite. O frio e a chuva foram companhias permanentes. As lonas, em estado precário, deixavam passar o vento e alguns pingos de chuva.

    Não havia no acampamento velas e nem pety (fumo) para o petynguá (cachimbo) que são fundamentais em rituais fúnebres. Na manhã do dia 14, um carro funerário deveria fazer o translado do corpo da menina para a aldeia da Estiva, área do povo Guarani, com apenas sete hectares, que apesar de diminuta possui um cemitério.

    Mas como fazer o enterro se os rituais não foram realizados? A comunidade decidiu que o enterro somente aconteceria no dia seguinte. Através da doação de pessoas solidárias, o fumo e as velas foram levados até o acampamento e a comunidade pôde iniciar os rituais para a pequena Amilta. 

    Vivem no acampamento Capivari, à beira da rodovia, 10 famílias do povo Guarani Mbya. Não dispõem de água potável, energia elétrica, muito menos saneamento básico. Raramente recebem visita de equipes de saúde da Sesai (Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena). Alegam falta de recursos e de combustível para prestar atendimento à comunidade. O acampamento situa-se a menos de 80 Km de Porto Alegre (capital do estado onde está localizada a sede da Sesai). Apesar da facilidade de acesso e geograficamente bem localizada, a comunidade é totalmente esquecido pelos órgãos de assistência.

    Terra reivindicada, mas não demarcada

    O cacique da comunidade, Sr. Augusto, mora em Capivari há mais de 25 anos e afirma que a Funai conhece a história do acampamento e tem conhecimento das reivindicações da comunidade, mas nunca fez nada, além de promessas. Com uma fisionomia abatida, disse não acreditar mais nos juruá (brancos), porque eles apenas lançam as palavras, mas não cumprem com aquilo que prometem.

    A terra reivindicada já foi, por diversas vezes, objeto de estudos de antropólogos que comprovaram a tradicionalidade da ocupação Guarani na região. A Funai, ciente destes estudos, nunca realizou os encaminhamentos devidos, porque do outro lado da cerca está situada uma grande fazenda onde se cria gado e se cultiva arroz. Com essa atitude, os representantes do órgão indigenista continuam a manter na indigência as famílias Guarani.

    No Brasil, há décadas se denuncia a realidade de abandono dos povos indígenas e se reivindica urgência nas demarcações de terra, para assegurar, assim, a saúde, a dignidade, a sobrevivência destas populações. Mas apenas quando a situação se agrava, beirando o caos, é que o Poder Público se volta para as comunidades afetadas, com apenas medidas emergenciais que nunca se estabelecem como verdadeiras políticas duradouras em defesa da vida dos povos indígenas. Não há uma atuação planejada e contínua, capaz de dar solução aos graves problemas enfrentados pelos indígenas que vivem nos mais diversos estados brasileiros.

    Acampamentos indígenas à beira de BRs

    É cada vez mais evidente, no sul do país, a realidade de abandono e de omissão do Poder Público, e a situação das comunidades agrava-se a cada ano. A imagem de famílias indígenas acampadas à beira de rodovias já se tornou comum, e parece não surpreender.  Vale ressaltar que existem no Rio Grande do Sul gerações inteiras de Guarani que não conheceram outra realidade a não ser a vida em acampamentos “provisórios”. Registra-se, por exemplo, a existência de acampamentos que já existem há três décadas, sem que a Funai e os órgãos responsáveis tomem providências para resolver definitivamente o problema: a efetiva demarcação das terras tradicionais reivindicadas por este povo. 

    A situação vivida pelos Guarani no estado do Rio Grande do Sul, assemelha-se à passagem bíblica da luta de Davi contra Golias. De um lado, um povo indígena que tem o direito, assegurado no texto constitucional, de viver em suas terras, cuja tradicionalidade é incontestável e, de outro, os supostos “proprietários” dessas mesmas terras, representantes de um poder econômico privilegiado, o do agronegócio. Neste contexto, a posição do Poder Público tem sido a de proteger os interesses daqueles que são considerados “produtivos” e desejáveis para o desenvolvimento do estado e do país. 

    E a estratégia principal, colocada em curso há décadas, tem sido o descaso para com as reivindicações indígenas, a morosidade nos procedimentos de identificação e de demarcação de terras, a substituição de políticas de atenção à vida por ações emergências e assistencialistas. O que se verifica, nestas circunstâncias, é que o texto constitucional e os direitos nele resguardados ficam reféns de jogos de poder político e de interesses que ecoam nas esferas decisórias do governo federal. 

    O resultado disso é a inaceitável morte de crianças como Amilta, uma entre tantas outras vidas ceifadas prematuramente, uma entre tantas outras vítimas da omissão do Estado, da inoperância da Funai e do desrespeito aos direitos indígenas. 

    As responsabilidades e a omissão em números

    A responsabilidade pelo luto vivido pelas famílias Guarani que choram a morte de Amilta, e pela violência cotidiana imposta a este povo, é do governo federal – na figura de sua representante maior, a presidenta Dilma Rousseff e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que responde pelo ministério ao qual a Fundação Nacional do Índio está subordinada. Não há, por parte do governo, qualquer manifestação de compromisso concreto com os Guarani e nem qualquer tipo de ação que possa solucionar os graves problemas vividos no seu dia a dia. Aliás, o que se verifica é um injustificável descuido para com a causa indígena, e um exemplo concreto e incontestável são os dados da execução do Orçamento Geral da União relativos ao ano de 2011.  Mais uma vez a objetividade dos dados quantitativos – que mostram o contingenciamento dos já escassos recursos destinados aos povos indígenas, não deixam margem a dúvidas: o governo coloca em curso uma política indigenista deficitária, que não parece ser resultado da incompetência de quem realiza a gestão, e sim resultado de uma intencional e deliberada política de privilegiar setores antiindígenas, especialmente aqueles ligados a obras desenvolvimentistas.   

    Orçamento Indigenista – 2011

    R$     785 milhões disponíveis 
    Em todo o primeiro semestre do ano foram liquidados apenas 25% deste total

    Examinando os dados disponíveis no portal do Senado Federal, pode-se verificar que não procede a alegação de falta de recursos para a demarcação das terras indígenas, uma vez que o Congresso Nacional autorizou a utilização de mais de R$     21 milhões, dos quais o governo gastou menos de 28% até o momento. Sem falar em itens diretamente implicados com a proteção e promoção da saúde indígena, nos quais também se verifica uma execução orçamentária incompatível com o previsto. Na ação Proteção Social dos Povos Indígenas, o governo aplicou até o momento apenas 11,4% do montante autorizado; no item Estruturação de Unidades de Saúde foram aplicados irrisórios 0,14% dos recursos disponíveis; no item Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Indígenas, os recursos utilizados não chegam a 1% do previsto (0,82%); no item Promoção, Vigilância, Proteção e Recuperação da Saúde Indígena, somente 9,84% foram liquidados e, pior ainda, no item Saneamento Básico, nenhum centavo foi gasto até o momento. 

    A cruel realidade vivida pelos Guarani, no Rio Grande do Sul, está diretamente relacionada à não demarcação de seus territórios, agravada pelo fato de que sequer dispõem de pequenas porções de terra, como ocorre com povos de outras regiões do Brasil. Os Guarani são submetidos à desumana condição de acampados, tornando-se vítimas de doenças, com alto índice de mortalidade infantil, como também sofrem  ameaças e violências diversas.

    Os acampamentos, as lonas, a falta de água potável, a falta de saneamento básico, a falta de vontade política e de coragem para garantir os direitos destes povos, marcam a atuação do governo brasileiro. Só podemos caracterizar este quadro, como uma prática de genocídio. 

    Amilta morreu sem ter pisado sua terra. As terras do povo Guarani e de outros povos indígenas país afora, estão delimitadas por cercas, espaço de vida para o gado, para plantações de transgênicos, para plantações de cana-açúcar que enriquecem alguns poucos “heróis nacionais”.

    Em seus quatro anos, a pequena Mbya experimentou a escassez de alimentos, o frio das noites debaixo de lonas pretas, pisou a terra fria e úmida da beira da estrada, muitas vezes alagada pelas chuvas. Isso foi o que esteve ao seu alcance, em sua curta vida. Que a morte dessa pequena Kuñai (menina) Guarani não seja apenas mais um número, na estatística da mortalidade infantil indígena. Que em memória dela, e de tantas outras crianças, sejam levados adiante os procedimentos de demarcação que podem assegurar uma terra mãe acolhedora para resguardar a vida deste Grande Povo!

    Porto Alegre (RS), 15 de julho de 2011.

    *Vice-Presidente do Cimi e integrante da Equipe Porto Alegre

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  • 20/07/2011

    9ª Romaria da Terra e das Águas de Rondônia

    Evento, que contou com participação de diversos povos indígenas do estado, foi realizado dia 10 de julho, no distrito de Iata, em Guajará-Mirim

    Foi realizada no último domingo, 10 de julho, a 9ª Romaria da Terra e das Águas de Rondônia. O evento, que teve como tema “A água e o verde, vida do planeta”, aconteceu no distrito de Iata, em Guajará-Mirim.

    As Romarias da Terra e das Águas de Rondônia acontecem desde 1986, sendo que este ano foi organizada pelas dioceses de Guajará-Mirim, Ji-Paraná, Porto Velho e pelo Sínodo de Amazônia da Igreja Luterana no Brasil (IECLB).

    O distrito de Iata foi escolhido para sediar a Romaria porque corre o risco de desaparecer com a construção de uma hidrelétrica na Cachoeira de Ribeirão, município de Guajará-Mirim, apesar de sua importância histórica para o estado de Rondônia.

    O evento contou com a participação de diversos povos indígenas do estado, entre eles os: Oro Waran, Oro Waran Xijein, Arikapu, Oro MOn, Cujubim, Djeoromitxí, Tupari, Kassuá, Aruá, Kithaulu (Nambikwara), Wayoró, Oro Nao, Canoé e Makurap. Todos assinantes do documento final do encontro, onde refletem sobre sua espiritualidade a partir dos elementos da natureza, como terra, água, ar e floresta.

    O documento final reflete de forma clara a relação que os povos indígenas têm com o meio ambiente e seus elementos, onde afirmam estar toda sua história de vida. Para eles, a Terra é mãe; a água vida; o ar vida e saúde e a floresta sua riqueza, economia e futuro, bem como a morada de seus ancestrais e fonte de seus rituais.

    Eles também refletem, contudo, os problemas enfrentados com a ação predatória do homem, como as queimadas, exploração ilegal de madeiras, minérios e outros recursos naturais. Fora toda essa leva de preocupações, os povos indígenas também se declararam contra os empreendimentos – hidrelétricas, estradas, entre outros -, que impactam seus territórios.

    Como forma de driblar todas essas investidas, eles acreditam no fortalecimento de suas culturas e tradições, bem como na transmissão desse conhecimento ás futuras gerações.  

    Leia documento final na íntegra:

    Terra, Água, Floresta, Ar, Vida para os Povos Indígenas!

    Nós representantes dos povos indígenas Oro Waram, Oro Waram Xijeim, Arikapu, Oro Mon, Cujubim, Djeoromitxí, Tupari, Kassupá, Aruá, Kithaulu (Nambikwara), Wayoró, Oro Nao, Canoé e Makurap refletindo sobre nossa Espiritualidade a partir dos elementos naturais e sagrados: a Terra, a Água, o Ar e a Floresta, neles estão toda a nossa história de Vida.

    A Terra é uma mãe para nós. Nós somos os donos da terra. Às vezes os brancos falam que são os donos, mas é mentira. Nós é que somos sempre daqui. Precisamos da terra para viver com os nossos filhos e netos.

    Água é vida, sem água ninguém vive. É como o leite da nossa mãe. É nossa sobrevivência, fonte e garantia de nossa continuidade.

    A floresta é nossa economia, nossa vida, nossa riqueza, nosso futuro e é a morada de nossos ancestrais e fontes de nossos rituais (erva medicinais, a caça, as frutas e outros). Dela temos o ar puro que respiramos.

    O ar é vida e saúde e unidade entre os seres vivos – os vegetais, as pessoas e os animais.

    A terra está ameaçada por invasores, pelos impactos ambientais, poluição e desmatamentos das florestas. As nossas águas vêm sofrendo com as grandes usinas hidrelétricas e PCHs. Somos contra essas Usinas principalmente a do Ribeirão que atinge a nossas terras e a Vida dos povos indígenas sem contato. Quem sofre somos nós e também os peixes: piranha, pacu, surubim e traíra. Essa é a nossa preocupação e a preocupação de nossos pajés. 

    Outras preocupações é o desmatamento, as queimadas, os projetos de plano de manejo, as barragens, os grandes agricultores, fazendeiros, madeireiros, garimpeiros, o projeto de crédito de carbono em nossas terras, o agrotóxico, rodovias, pescadores e outras formas violentas que ameaçam e destrói nossa floresta.

    Por isso, pedimos a todos e a todas que se unam numa só luta em defesa de nossas terras e águas fonte de vida para todos nós.

    Para as nossas futuras gerações vamos repassar nossas culturas, costumes, ervas medicinais, tradições, rituais, mitos e artesanatos e principalmente a língua materna, o resgate de nossas línguas maternas e todos os ensinamentos de nossos antepassados. Não deixar pessoas estranhas empatar as culturas indígenas e pajelança, a falar das comidas tradicionais, das histórias e sim dizermos que temos orgulho de sermos indígenas. Por que nós indígenas somos fortes e lutamos pelos nossos direitos. Que daqui para os outros anos, nossas crianças cresçam com força e dignidade com os outros irmãos. Unir o nosso fortalecimento para juntos continuarmos as nossas tradições e o nosso respeito e de ser o que somos Brasileiros indígenas.

    Não deixar que as religiões (igrejas) tomem de conta de nossas pajelanças. Lutar pelos nossos direitos para que os governantes venham respeitar as futuras gerações e para que não sofram o que a gente vem sofrendo até os dias atuais, pois hoje os brancos vêm impondo dificuldades para os povos indígenas, buscando o passado que eles mesmos queriam exterminar a 500 anos atrás e que não conseguiram, pois estamos aqui resistindo e persistindo e que essa força seja repassada para o futuro.

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  • 20/07/2011

    Romaria dos Mártires em Ribeirão Cascalheira, Mato Grosso

    Testemunhas do Reino

    Por ocasião da Romaria dos Mártires no próximo fim de semana (16 e 17 de julho), em Ribeirão Cascalheira, MT, Dom Pedro Casaldáliga contextualiza o significado dessa caminhada simbólica.

    O tema-lema da nossa Romaria dos Mártires deste ano de 2011 é TESTEMUNHAS DO REINO. O título mais abrangente e mais profundo que se podia escolher para uma romaria martirial. Dar a vida dando testemunho do Deus da Vida, da Paz, do Amor. Todos aqueles e aquelas que vão doando a sua vida, no dia a dia e a dão ‘de um golpe’, na hora final da sua caminhada, são testemunhas do projeto de Deus para a Humanidade, para o Universo; respondem com o que têm de melhor ao sonho de Deus, ao Reino, ao Reino de Deus.

    Com essa duas palavras -«Testemunhas do Reino»- sintetizamos tudo o que se possa dizer de uma vida doada, de uma morte vivida. Na visão cristã mais tradicional essa morte é vivida pela Fe cristã. Os mártires que a Igreja reconhece oficialmente são mártires da Fé, da Moral cristã, do Evangelho, explicitamente: missioneiros tal vez, vítimas da caridade heróica, virgens radicalmente fieis ao divino Esposo. Numa visão cristã renovada, mais profunda, mais consoante com a Palavra e com a Vida, com a Morte e a Ressurreição de Jesus, são mártires todos aqueles e aquelas que dão sua vida na morte pelas causas do Reino, pela justiça, pela paz, pela solidariedade, pela ecologia, pela verdadeira promoção do próximo marginalizado. Jesus no Evangelho os define categoricamente: a prova maior do amor é dar a vida por amor. Nosso padre João Bosco deu a vida como missionário entre indígenas e camponeses e deu a vida para libertar a duas mulheres submetidas à tortura.

    Nestes dias é notícia, pelo menos nos meios de comunicação mais ao serviço do povo, a morte matada, no Sul do Pará, de um casal de militantes no serviço da Natureza, Zé Cláudio e Maria do Espírito Santo. Depois de Chico Mendes e da irmã Dorothy, mais dois ambientalistas são assassinados no Sul do Pará. Tristemente no mesmo dia em que a Câmara dos Deputados aprova o sinistro Novo Código Florestal, que legalizará o desmatamento, anistiando os crimes dos madeireiros. Zé Cláudio e Maria do Espírito Santo são dois novos mártires da floresta.

    Ser cristão, cristã, é dar testemunho; responder com a própria vida aos apelos do Reino e contestar profeticamente à iniqüidade do antireino. Responder diariamente, com fidelidade, ao Amor de Deus no serviço fraterno. É ser coerente, com a palavra feita anúncio e com o anúncio feito prática. É ser testemunha, em primeiro lugar, da suprema testemunha, Jesus de Nazaré, proclamado no Apocalipse como «A Testemunha fiel». Ele veio para fazer a vontade do Pai, testemunhando radicalmente o amor de Deus. Ele veio para que todos tenhamos vida e vida plena. Ele repetiu ante seus perseguidores e todo o povo que suas obras davam testemunho d’ Aquele que o enviou.

    É uma corrente de ‘testemunhança’. Jesus dá testemunho do Pai, os mártires dão testemunho de Jesus, nós damos testemunho dos nossos mártires. Somos testemunhas de testemunhas. E celebramos a Romaria dos Mártires da Caminhada, no Santuário de Ribeirão Cascalheira, para manter viva a memória de todos aqueles e aquelas que tombaram gloriosamente, com o testemunho do próprio sangue. Celebramos a Romaria dos Mártires num dia, num lugar, para re-assumir o compromisso de vivermos como testemunhas do Reino, cada dia, e em todo lugar. Para dar testemunho do testemunho de nossos mártires e renovar, com paixão, com radicalidade, com alegria, o nosso seguimento de Jesus, na procura do Reino, na vivência do Reino, na celebração do Reino, na invencível esperança do Reino.

    Para a minha ordenação sacerdotal, lá pelos anos de 1952, escolhi como lembrança um santinho com aquela pintura de El Greco que apresenta Jesus olhando para o Pai e entregando-se a seu serviço: Os sacrifícios não te agradaram e eu vim para fazer a tua vontade. No santinho recolhi o versículo 8 do capítulo 1 do livro dos Atos dos Apóstolos, «Vocês serão minhas testemunhas até os confins da Terra».

    E de qualquer confim e em toda circunstância seguiremos na caminhada, como testemunhas de testemunhas, como TESTEMUNHAS DO REINO.

    Pedro Casaldáliga,

    Bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, MT

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  • 20/07/2011

    Usina de Belo Monte faz suas primeiras vítimas

    Sem ter para onde ir, famílias dos baixões vivem primeiros desesperos causados pela Usina 

    Ruy Marques Sposati*
    De Altamira (PA) 

    Vão subindo para um dos pontos mais altos da cidade. Trazem no ombro foices, enxadas e facões. E crianças no colo. O sol corta o rio Xingu, ainda gelado.

    Vinte de maio, era o princípio de uma ocupação urbana de famílias sem-teto em Altamira, no Pará. Eu estava lá; chegara algumas horas antes e podia ver se aproximarem, de cima, as pessoas, os cachorros, as conversações. Um pouco de barulho matinal.

    Esta era a segunda ocupação na cidade nos últimos dias. As duas estão na conta da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Trinta mil famílias alagadas – e nem sinal de indenização. Dizem que em Tucuruí, no processo da construção, ocorreram 37 ocupações – o que significa que, aqui, estamos apenas no começo.

    As mulheres iam roçando e dividindo os lotes: 20 por 10 metros. Os homens iam roçando e dividindo os lotes: 20 por 10 metros. As crianças não se divertiam. Fogueiras queimavam cobras e alguma juquira. No cadastro improvisado, 135 famílias. No terreno cabem mais ou menos 200 famílias, guardando o devido espaço para ruas, escola, posto de saúde e centro comunitário.

    Segundo dia de ocupação. Vinham mais famílias às bicas; carregavam consigo garrafas térmicas com o café fraco e borrento e potinhos com bolos e cozidos, e mais crianças. Atrás delas, vinha a polícia. Com as armas. Atrás deles, os cachorros.

    Um delegado muito sóbrio vinha com um título de propriedade em punho. Ali dizia: terreno da Eletronorte. Achava tratar-se do mandado de reintegração de posse. “Mas, seu guarda, onde tá o mandado e reintegração de posse?”. Com esta pergunta fui levado para a delegacia e indiciado por esbulho possessório e acusado de liderar a tropa. As famílias são despejadas sob cassetetes e spray de pimenta. A polícia leva todas as ferramentas. 

    Caças e rojões

    Duas horas depois, cabisbaixo, saía da DP, quando topo com a frota de bicicleta: era a rapaziada da ocupação que havia me seguido até a delegacia. Com a prisão, fiquei carimbado entre os ocupantes como aliado. Sorriem: “Bora conhecer onde a gente mora. Você come caça?”. Era hora do almoço. Havia uma bicicleta para mim.

    Chegamos ao baixão da Aparecida, bairro quente e pobre situado na área que será diretamente alagada pela construção de Belo Monte. Um tecnobrega no carro com alto-falantes no porta-malas; ouviremos isto por todo o almoço.

    Corredores estreitos ladeados por pequenos quartinhos. A primeira porta do barraco está trancada com cadeado. “O rapaz daqui fugiu. Era ele e o irmão aí nesse quarto. O cara aumentou, não tiveram dinheiro pra pagar o aluguel e fugiram. A gente cobriu pro dono não pegar, a gente sabe onde eles estão, leva comida”, contam.

    Subimos uma escada de ripa apodrecida. “O aluguel lá embaixo começou em 70 [reais] e tá em 200. Aqui em cima agora tá 250. Agora eu divido o quarto com ele”, aponta, com gracejo, para o melhor amigo. “Minha mulher sempre falou que era só o que faltava: eu mudar logo pra casa dele”.

    Este é o contexto de 178 famílias – segundo o último levantamento do censo – que ocupam um terreno em desuso há mais de 30 anos na parte alta de Altamira. Estas famílias são parte de um universo de 6.500 famílias de bairros paupérrimos da cidade, conhecidos como baixões, que deverão ser alagados caso a usina seja construída.

    Por caça, entenda-se catitu – ou porcão, ou porco-do-mato. Definitivamente, a melhor carne das redondezas, seguida pela de jabuti. Vão preparando o carvão e fazendo a vaquinha da cerveja. São bastante jovens, mas fanáticos por carimbó. Se auto-intitulam “Verequete”, em referência ao rei do carimbó.

    Quando o local ia se esvaziando, um “verequete” surge disparando rojões como um aviso para que todos voltassem ao terreno.

    Largam os barracos e rumam novamente à ocupação. E adormeceram lá, de um dia para o outro. Uma fileira extensa de redes com muitas cores e muita gente dentro.

    Mais uma vez a polícia

    Terceiro dia. Ressurge a polícia, novamente sem mandado, mas com um elemento surpresa: balas de borracha e bombas de gás. Despejam, desta vez, ao menos 350 ocupantes. Trinta e duas pessoas foram detidas e levadas à delegacia – entre elas, três menores de idade. Recolhem novamente todas as foices e facões. “A gente compra outros”, diz um dos manifestantes.

    Mas a dor das pessoas não sai no jornal. A ação policial foi violenta, mas não apareceu na imprensa local. “Eles chegaram com tudo, apontando arma na nossa cara”, disse um dos despejados. “Aproveitaram a hora do almoço e o fato de não ter nenhum canal de televisão aqui naquela hora”. Enquanto colhíamos estes depoimentos, era possível ouvir o som de mais bombas e tiros na área interna do terreno. Não era permitido à imprensa entrar para acompanhar a ação da PM.

    “Se este terreno é da Eletronorte, por que a empresa não vem aqui dizer onde é que a gente vai ficar?”, questionou I., moradora da Invasão dos Padres, bairro que será atingido por alagamento. “A empresa vai botar o povo debaixo d’água. Se ela tem coragem de mandar expulsar a gente, como não tem coragem de enfrentar o povo, de dizer que a gente vai ficar no fundo? Igual em Tucuruí. Minha casa está até hoje no fundo lá e eu nunca recebi um real”, gritava para a imprensa uma das sem-teto ocupantes. Sua mãe fora detida pela polícia.

    Área em disputa

    Apesar de ter sido identificada como de posse da Eletronorte pela polícia, a posse da área ocupada pelos sem-teto é disputada por empresários da cidade.

    O diretor da rádio e TV Vale do Xingu, grupo ligado ao político Domingos Juvenil (PMDB-PA), Miguel Ceci foi à imprensa local (leia-se, o próprio canal) reivindicar a posse do terreno e pedir que a polícia tomasse providências quanto à desocupação. Ceci ameaçou ostensivamente os sem-teto e agrediu um cinegrafista local com um facão.

    Outro elemento, identificado como Ubiratan e que se dizia “amigo do proprietário”, intimidava os ocupantes e a imprensa, e discursava para os presentes responsabilizando o Bispo da Prelazia do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário, Dom Erwin Krautler, como o causador dos problemas. “Vocês acham que uma pessoa de Deus teria sido ameaçado de morte? O Bispo é a besta-fera”, bradou para um grupo de homens que olhava a ocupação, próximo à sua caminhonete com placa de Macapá (AP).

    No entanto, a versão oficial da posse da área veio com a polícia. O delegado garantiu aos moradores que o documento era legítimo, embora o papel que possuísse em mãos fosse apenas uma cópia gasta pelo tempo, o que não permitia uma análise apurada. Ainda mais se tratando de um documento baseado em coordenadas geográficas latitudinais e longitudinais. Não deu tempo de ligar o GPS.

    * Jornalista do Movimento Xingu Vivo para Sempre

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