• 23/08/2011

    Indígenas Kaiowá e Guarani do MS emitem manifesto sobre realidade de violência em que vivem

    Por ocasião da Aty Guasu realizada na Terra Indígena Passo Pirajú, em Dourados (MS) os povos Kaiowá e Guarani emitiram um manifesto com objetivo de tornar pública diante das populações regional, nacional e internacional, a dramática situação em que vivem, de total violação de direitos.

    O estado, que abriga a segunda maior população indígena do país, lidera o ranking de violências cometidas contra esses povos originários. Somente em 2010, 34 indígenas foram assassinados em Mato Grosso do Sul, 56% do total de casos registrados, de acordo com dados do Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, produzido anualmente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

    Acampados sob barracos de lona preta na beira de rodovias do estado, encurralados pelos grandes latinfúndios ou vivendo sitiados em pequenas porções de terras, os Kaiowá e Guarani estão sujeitos a toda sorte. Esquecidos pelo poder público não têm acesso à saúde, educação, água potável e saneamento básico. Nem mesmo segurança têm. São vítimas constantes de preconceito, ataques e agressões.

    Na luta pela terra, diversas lideranças foram sequestradas, tortudadas e assassinadas, entre elas os professores Givaldo Vera e Rolindo Vera. A Fundação Nacional do Índio (Funai) nem os orgãos competentes dão prosseguimento ao processo de demarcação de suas terras tradicionais. Enquanto isso, os Guarani e Kaiowá vivem à margem e esquecidos.

    É sobre essa cruel realidade que trata o manifesto. Leia-o na íntegra abaixo:

    MANIFESTO DO POVO KAIOWÁ E GUARANI – ATY GUASU – TERRA INDÍGENA DE PASSO PIRAJÚ.

    Nós, povos Kaiowá e Guarani, reunidos em nossa Aty Guasu, realizada na Terra Indígena Passo Pirajú, município de Dourados, Mato Grosso do Sul, queremos mais uma vez mostrar à população regional, nacional e internacional nosso grande sofrimento e resistência na luta pelos nossos direitos.

    Queremos agradecer a presença de nossos parentes indígenas da Bolívia, Colômbia, Equador e Perú e também nossos parentes indígenas brasileiros, dos povos Baré (AM) Wapixana (RR), Tupinambá (SP) Pataxó (BA) e nossos amigos de MS do povo Terena de Miranda (T.I. Cachoeirinha), Campo Grande (aldeias urbanas), Aquidauana (T.I. Ipegue) e também a liderança Kadiwéu de Bodoquena, que vieram para nossa Aty Guasu, conheceram nossa realidade e prestaram sua solidariedade e apoio às nossas lutas. Agradecemos o apoio dos amigos da causa indígena, de universidades, estudantes, organizações indigenistas, OAB e entidades de direitos humanos que também estiveram presentes em nossa reunião.

    O povo Kaiowá e Guarani recebeu as autoridades do MPF, FUNAI, Polícia Federal, representantes do Governo Federal, deputados e vereadores, que ouviram nossas reivindicações pela demarcação definitiva de nossas terras. Não vamos tolerar qualquer retrocesso em nossos direitos. As autoridades da FUNAI e MPF informaram sobre o andamento das identificações de nossas terras e disseram que os relatórios serão entregues ainda este ano e alguns no início do ano que vem. Desde que o TAC foi assinado pelo MPF e Funai (em 2007), a cada Aty Guasu nos falam que os prazos serão cumpridos e isso nunca aconteceu. Nosso povo já não acredita mais em promessas e não vamos tolerar mais enganações e enrolações que violam nossos direitos. Queremos que os relatórios sejam Publicados no Diário Oficial da União, ainda neste ano de 2011.

    Em conseqüência desse não cumprimento da lei de garantia de nossas terras, vivemos num quadro de permanente violência nas aldeias. Dezenas de nossas lideranças foram assassinadas sem que ninguém fosse punido. Impunidade que vem estimulando novas agressões e mortes contra nosso povo. Denunciamos a recente violência contra nossos irmãos Terena de Miranda que tiveram um ônibus escolar queimado causando ferimentos graves em estudantes Terena e ao motorista.

    Queremos denunciar que durante nossa Aty Guasu, em data de ontem às 22h30, houve novamente dezenas de disparos de armas de fogo, contra centenas de nosso povo, numa clara tentativa de nos intimidar e aterrorizar. Os tiros foram disparados de um conhecido lugar chamado “Rancho Toca do Lobo” contiguo à Terra Indígena Passo Pirajú e que foi instalado pelo fazendeiro sendo destinado à Policiais de Dourados. Já denunciamos este fato uma centena de vezes e sempre continua.

    Perguntamos: diante de mais de uma centena de testemunhas deste atentado, o que as autoridades vão fazer para prender e punir estes agressores assim como o fazendeiro que autorizou a permanência dos mesmos em nossa terra. Ou vão esperar morrer mais um indígena para fazerem alguma coisa. Isso nos faz crer que as autoridades não estão preocupadas com nossos povos e mostra um vergonhoso descaso, nos fazendo desacreditar nas autoridades. Vimos os tiros cortando o céu.

    Nós povos Kaiowá Guarani estamos em movimento de retomada de nossas terras tradicionais e vimos sofrendo flagrantes violências de fazendeiros e pistoleiros locais, como ocorreu na semana passada no tekohá Mbaraka´y e Puelito Kue no município de Iguatemi. Jamais abandonaremos à luta pela demarcação de nossas terras tradicionais. Somos um povo com muita força, espiritualidade e esperança, marcadas pela nossa experiência e sofrimento na busca incessante de nossas terras.

    Destruíram nossas riquezas naturais, nossos rios e matas para dar lugar a soja, o gado e, agora, também a cana. O boi em Mato Grosso do Sul possui muito mais terra que um índio Kaiowá e Guarani. Tratam nosso povo com racismo e preconceito. Não conhecem nossa cultura e nosso jeito de cuidar de nossa terra. Não entendem que a terra para nós é sagrada e não é um bem de consumo, uma mercadoria que produz o lucro. O que estamos passando hoje, principalmente a violência e a falta de alimentos nas aldeias, é causado pela falta de nossas terras e de nossas matas. Queremos nossas terras demarcadas! Mas, além disso, também queremos que o Governo Federal promova projetos voltados para recuperação ambiental e sustentabilidade das áreas demarcadas, com recursos federais voltados para a produção de alimentos, reflorestamento, recuperação do solo, acesso a equipamentos, conhecimento e tecnologia. Vamos retomar nossas terras para que nossas matas voltem a nascer e nossos córregos voltem a correr! Jamais vão conseguir nos calar ou fazer com que deixemos nossa luta pela retomada de nossas terras! É um caminho sem volta! Quanto mais nos agridem mais decididos ficamos pela reconquista definitiva de nossos territórios e menos acreditamos nas autoridades. Vamos avançar, nos organizando cada vez mais! Podem passar várias gerações e nosso povo continuará na luta até a retomada de TODAS as nossas terras tradicionais!

    O governo Lula teve oito anos para cumprir suas promessas e não fez nada! Dilma até agora também não fez nada. O governador André Puccinelli é famoso por estar contra nossos direitos. Nos enganam, mentem e nos fazem esperar, mas não são essas autoridades que passam pelo que estamos passando. Não tem idéia do que estamos sentindo, mesmo nosso povo tendo entregado vários documentos e denúncias.

    Sobre o Judiciário, é uma vergonha para o mundo despejar centenas de famílias às margens da rodovia sob a violência da polícia e dos fazendeiros, à margem de qualquer direito humano fundamental, previsto nas leis internacionais e na constituição federal, para defender os interesses de meia dúzia de ricos fazendeiros e políticos de Mato Grosso do Sul.

    Queremos que o Judiciário e o Conselho Nacional de Justiça garanta uma estrutura especial e diferenciada para atender as demandas da questão indígena, assim como a Polícia Federal.

    Onde estão as providências da Polícia Federal para processar e punir os assassinos de nossos queridos professores Rolindo Vera e Genivaldo Vera mortos (Rolindo continua com seu corpo desaparecido) por pistoleiros que expulsaram as famílias indígenas do tekohá Y´Poí em Paranhos. Não vamos tolerar mais essa demora e vamos nos organizar cada vez mais para retomarmos nossas terras, custe o que custar. E que o sangue de nosso povo semeie as nossas terras sagradas para renascer a esperança de alcançarmos a terra sem males.

    O movimento indígena entende que a solução das terras indígenas devem se dar conforme os princípios constitucionais e que qualquer mecanismo de indenização seja feita após a identificação das terras indígenas.

    Que o Conselho Nacional de Justiça através da Comissão criada para a questão indígena no Mato Grosso do Sul se empenhe para a imediata solução das terras indígenas com a conclusão das identificações e indenização dos ocupantes não-indígenas das áreas em demarcação.

    Por fim, agradecemos toda a compreensão e solidariedade das pessoas de bem que compreendem a necessidade de resolvermos, de uma vez por todas, a situação dramática em que estamos!

    Dourados-MS, Terra Indígena Passo Pirajú, 21 de agosto de 2011.

    Read More
  • 23/08/2011

    Uma Aty Guasu Especial

    Por Egon Heck *

    Passo Piraju, à beira do rio Dourados. Um vento forte, de agosto, com um frio cortante. Um céu de pesadas nuvens, deixou o sol se apresentar por pouco tempo. Uma grande Assembleia Kaiowá Guarani, a céu aberto.

    Centenas de indígenas e algumas dezenas de aliados, realizaram um dos momentos fortes da luta pela terra, contra a violência e pela garantia dos direitos dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul e do Brasil. Num primeiro momento em pé e depois acomodados sobre uns troncos de palmeiras, os participantes repetiram as cenas seculares da resistência indígena. Pareciam os guerreiros da primeira hora, para quem não tinha tempo ou espaço ruim. Era a guerra, a luta pela vida e pelos direitos. As primeiras Assembleias indígenas nacionais foram assim. Acomodados sobre rústicas madeiras, à sombra das mangueiras, realizou-se a primeira Assembleia Indígena, em Diamantino, no Mato Grosso, em 1974.

    Passo Piraju, um lugar emblemático, de retomada, de resistência, de intenso sofrimento, de contínua tensão e ameaça, uma comunidade odiada pela população regional, pois numa invasão e confronto, em 2006, morreram dois policiais. Até hoje alguns indígenas estão em regime de prisão na comunidade. Foi ali, que se realizou, sob a proteção dos Nhanderu, de Tupã e dos espíritos dos guerreiros Guarani Kaiowá, essa Aty Guasu histórica de um povo em caminhada, em retomada de suas terras, esperança e sonhos.

    Veja Manifesto da Aty Guasu de Passo Pirajú

    Tempo forte de celebração, de memória dos lutadores, dos que tombaram defendendo a terra e os direitos de seu povo. Momento de solidariedade, de denúncia, de sentir o coração e o sangue que pulsam forte nas gentes de cor da terra. Enviar forças aos que estão em retomada e sofrendo forte repressão, como Pyelito Kue e Mbaraka’i, os que estão com ordem de despejo, como Laranjeira Nhanderu, os inúmeros acampamentos à beira da estrada.

    Enquanto se realizava o Aty Guasu, e aconteciam os rituais à noite, foram dados disparos de armas de fogo, numa clara intenção de atemorizar os participantes. Esse é o tipo de ação já sofrida constantemente pela comunidade, já denunciada inúmeras vezes, mas que persiste.

    No "Manifesto da Aty Guasu de Passo Piraju", é reafirmada a decisão de continuar a luta pela terra, não aceitar retrocessos, e exigir respostas efetivas dos poderes públicos diante da dramática situação que enfrentam a maioria das trinca comunidades-aldeias Kaiowá Gaurani no Mato Grosso do Sul.

    As lideranças, no manifesto reafirmam a firme decisão de recuperarem suas terras "Vamos retomar nossas terras para que nossas matas voltem a nascer e nossos córregos voltem a correr! Jamais vão conseguir nos calar ou fazer com que deixemos nossa luta pela retomada de nossas terras! É um caminho sem volta! Quanto mais nos agridem mais decididos ficamos pela reconquista definitiva de nossos territórios e menos acreditamos nas autoridades. Vamos avançar, nos organizando cada vez mais! Podem passar várias gerações e nosso povo continuará na luta até a retomada de TODAS as nossas terras tradicionais!".

    Também foi enviado um documento às autoridades informando e exigindo providências sobre a absurda violência que sofrem os Kaiowá Guarani na retomada de Pyekuti Kue e Mbaraka’i "Nós, povos Kaiowá e Guarani, reunidos em nossa Aty Guasu, realizada na Terra Indígena Passo Pirajú, município de Dourados, Mato Grosso do Sul, vimos por este documento informar as autoridades competentes, à Polícia Federal, Ministério Público Federal e Entidades e Organizações de direitos humanos que nossos parentes Kaiowá e Guarani do Tekohá Mbaraka´y e Puelito Kuê, município de Iguatemi, neste exato momento, acabaram de retornar à suas terras tradicionais das quais foram atacados nos dias 14 e 15 de agosto deste ano. Que nossos parentes estão agora dentro de sua terra, sitiados e que poderão sofrer violências pelos pistoleiros e fazendeiros da região a qualquer momento".

    A grande Assembleia Kaiowá Guarani será finalizada com um ato publico e passeata pela principal avenida da cidade de Dourados, nesta manhã. Depois todos retornarão às suas comunidades, aldeias e acampamentos, com a certeza de que a luta por seus direitos e suas terras estará fortalecida pelo crescimento da união e proteção de Ñahderu Vusu.

    Veja Manifesto da Aty Guasu de Passo Pirajú

    * Egon Heck, Campanha Povo Guarani Grande povo. Missionário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em Dourados, MS.

    Read More
  • 23/08/2011

    Via Campesina ocupa Ministério da Fazenda

    A Via Campesina Brasil ocupou, na manhã desta terça-feira (23/08), o Ministério da Fazenda em Brasília, com quatro mil trabalhadores rurais.

    As principais pautas trabalhadas pelo Movimento refere-se à questão das dívidas dos pequenos agricultores, cujo valor chega a R$ 30 bilhões, de acordo com o Ministério da Fazenda, e o contingenciamento do orçamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em que os R$ 530 milhões destinados para promover desapropriações de terras para este ano já foram totalmente executados. O cenário para 2012 é ainda pior: está previsto um corte de R$ 65 milhões, segundo dados do próprio Incra, com o orçamento despencando para R$ 465 milhões.

    O principal propósito da ocupação é que as negociações referentes às pautas sejam retomadas imediatamente.

    Desde segunda-feira (22/08) os movimentos que integram a Via Campesina estão acampados em Brasília com quatro mil trabalhadores e trabalhadoras rurais de 23 estados e do Distrito Federal, em um grande Acampamento por Reforma Agrária nos arredores do Ginásio Nilson Nelson.

    Essa mobilização faz parte da Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária que acontece em todo o Brasil desde o dia 22 de agosto. Além do acampamento, atos políticos e culturais devem acontecer em Brasília e nos Estados onde os movimentos da Via Campesina estão organizados.

    Além dessas duas pautas, a Jornada também exige o assentamento imediato de 60 mil famílias acampadas e luta contra o fechamento das escolas no campo. Nos últimos oito anos foram fechados mais de 24 mil estabelecimentos de ensino, segundo dados do Censo Escolar do INEP/MEC (2002 a 2009), e da Pesquisa de Avaliação da Qualidade dos Assentamentos da Reforma Agrária INCRA (2010).

    A Via Campesina é uma articulação internacional de movimentos sociais camponeses. No Brasil, é integrado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Pescadores e Pescadoras, Quilombolas, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), além do Sindicato dos Trabalhadores da EMBRAPA (Sinpaf), da Federação dos Estudantes de Agronomia e da Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal.

     

    Read More
  • 22/08/2011

    Povo Kapinawá retoma território no sertão de Pernambuco

    Renato Santana*

    de Brasília

     

    Para assegurar o direito de posse de uma área localizada entre os municípios de Buique e Ibimirim, Pernambuco (PE), a 300 km de Recife, o povo Kapinawá retomou no início deste mês terras para pressionar a Fundação Nacional do Índio (Funai) a demarcar o Território Indígena (TI) não contemplado na delimitação anterior. Há dez anos em poder dos índios, a área recuperada fica dentro de uma fazenda, de propriedade não-indígena, que dá acesso às aldeias.

     

    A Funai identificou e delimitou as terras Kapinawá antes da Constituinte de 1988. Desta forma, os processos de demarcação eram tocados de forma equivocada – amiúdes incompletos – dada a então inexistência dos vigentes direitos constitucionais indígenas a terra.  

     

    Nas terras vivem 600 famílias Kapinawá – cerca de 2.500 indígenas – em doze aldeias: Quridalho, Lagoa, Puiu, Maria Preta, Colorau, São João, Cajueiro, Caranaúba, Caldeirão, Baixa da Palmeira, Coqueiro e Batinga. Todas reconhecidas pela Funai desde 1999, além de atendidas pela saúde e educação diferenciadas – mesmo sem a área ser reconhecida oficialmente.  

     

    Em julho deste ano começaram a correr boatos de que o fazendeiro iria vender as terras ou construir uma pousada para os turistas do Parque Nacional do Vale do Catimbau. A insegurança se instalou entre os indígenas que no território conseguiram encontrar condições de vida na plantação de roças, criação de animais.

     

    No início de agosto a Aldeia Malhador foi o local escolhido para uma reunião entre lideranças Kapinawá. Estavam presentes importantes lideranças do povo: cacique Zé Bernardo, a vice-cacique Cremilda e o pajé Robério, os três da aldeia sede Mina Grande. Quatro dias depois, na madrugada do último dia 11 de agosto, retomaram seu território e permanecem firmes e organziados.

     

    A retomada Kapinawá receberá a visita do coordenador da Funai de Maceió na terça-feira (23). Por conta da reestruturação e da consequente redução de custos e funcionários do órgão, o escritório de Recife foi fechado. O fazendeiro ainda não apareceu no local. 

     

    Histórico

     

    No decorrer da década de 1980, a Funai identificou e delimitou as terras Kapinawá em 14 mil hectares. No entanto, deixou de fora determinada quantidade de famílias que não se assumiam indígenas.

     

    A questão tornou-se mais delicada para os indígenas quando em 2001 o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) criou o Parque Nacional do Vale do Catimbau – quem vivia dentro desta unidade de preservação ambiental permanente teria um prazo de cinco anos para recolher indenização e partir.

     

    Dentro dos limites do parque foram incluídas terras Kapinawá, homologadas e registradas, bem como das famílias que não estavam incluídas no processo de identificação da Funai na década de 80.

     

    O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), então responsável pelo parque – hoje em dia sob controle do Instituto Chico Mendes -, tentou por diversas vezes, sobretudo no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, tirar as famílias indígenas de lá, mas apenas as que viviam fora da área demarcada.

     

    Cimi e Associação Nacional de Ação Indigenista (Anai) acompanharam de perto todo este processo. As memórias dão conta das inúmeras reuniões realizadas com o Ibama (PE) e outros órgãos técnicos com a intenção de sensibilizá-los e atentá-los aos direitos reservados para o povo indígena Kapinawá sobre a área.

     

    Nos últimos tempos o assédio do Ibama e Instituo Chico Mendes arrefeceu. Ao passo que relatos revelam que o fazendeiro “abandonou” o território e “deixou” os índios o explorar. Situação que se manteve até julho, quando a ameaça da pousada apresentou indícios de se concretizar e o povo Kapinawá decidiu recuperar as terras em retomada.  

     

    Clima da retomada

     

    O antropólogo e advogado Sandro Lôbo, assessor jurídico do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Pernambuco, esteve na área retomada. “Há um grupo que faz cota para comprar mistura e as mulheres vão pelas casas das aldeias próximas pedir às famílias que contribuam doando galinhas e outros gêneros alimentícios”, diz.

     

    Desse modo, Sandro descreve o clima como de tranquilidade e as lideranças Kapinawá divulgaram carta para explicar os motivos da retomada e quais são as reivindicações do povo. O advogado do Cimi seguirá ao lado dos indígenas oferecendo o suporte necessário.

     

     

    *Com informações do Cimi Regional Nordeste

     

     

     

    Read More
  • 18/08/2011

    Informe nº 977: Um jardim de sonhos e lutas para quase 100 mil margaridas

    Renato Santana
    Cimi, de Brasília (DF)

    Se o capitalismo condena a humanidade ao que de pior ela pode produzir para o conjunto da sociedade, as mulheres são as que mais sofrem com as consequências. Sobretudo as negras, as pobres, as indígenas, as camponesas, as mães solteiras, as lésbicas, as que já abortaram.

    A covardia da organização social patriarcal há séculos as condena ao racismo, além de atos de violência machista que partem dos homens e das relações do capital em suas mais variadas formas – com assassinatos, espancamentos, estupros, violações, liberdade subjugada.

    Mas a resistência surge na mesma medida e nesta terça (16) e quarta-feira (17) cerca de 100 mil mulheres camponesas, trabalhadoras urbanas, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras e feministas estiveram em Brasília (DF) para a Marcha das Margaridas. 

    Enquanto a ponta da marcha, que acontece a cada quatro anos, chegava às portas do Congresso Nacional, na Esplanada dos Ministérios (DF), o final dela ainda estava no Parque da Cidade – que durante 48 horas se tornou a Cidade das Margaridas.  

    As mulheres tomaram de assalto as principais artérias do centro de poder do país por "Desenvolvimento sustentável com justiça, autonomia, igualdade e liberdade”, mote da marcha. Histórias de lutas, regadas a lágrimas e risos, compuseram a grande marcha.

    A organização da marcha foi da Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag).

    Margarida ressurgida 

    A marcha traz a memória de mulheres que morreram na defesa de seus direitos numa luta antissistêmica. Entre elas, Margarida Alves; durante 12 anos ela presidiu o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande, estado da Paraíba.

    Quebrou a lógica de que apenas homens podiam ocupar tal posto – ainda muito presente no movimento sindical brasileiro. Margarida travou intensa luta contra a exploração, pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, contra o analfabetismo e pela reforma agrária. 

    Acabou brutalmente assassinada pelos usineiros da Paraíba em 12 de agosto de 1983. Maria da Soledade presidiu o mesmo sindicato três anos depois, em 1986. Militou ao lado de Margarida e hoje se emociona ao se dizer margarida ao lado de tantas outras.

    “Com essa marcha e nesse tempo todo de luta tivemos grandes conquistas, mas tem muito ainda para melhorar”, diz. Maria enfrentou o machismo e a violência não só como sindicalista e nas batalhas do campo. Repentista, enfrentou o preconceito de recintos que até então só cabiam homens.

    Maria começou no repente com 19 anos e hoje está com 69: “São 50 anos cantando repente, fazendo essa poesia e resistindo como mulher. Acabei me acostumando a enfrentar o sertão, os homens e a luta dos trabalhadores e trabalhadoras do campo”.

    Margaridas indígenas

    Airy Gavião veio de Marabá, uma das principais cidades do Pará (PA). “É uma grande dificuldade para chegar aqui. Dependendo da aldeia, são cinco dias de barco mais a viagem de ônibus”, conta. No entanto, Airy defende que a participação das mulheres indígenas deve ocorrer em todas as lutas das mulheres brasileiras.

    “As indígenas sofrem com as consequências de tudo aquilo que aflige a mulher no campo. Por isso acho importante se inserir, fazer com que ouçam nossa voz, nossa cultura”, afirma.

    Na Cidade das Margaridas, mulheres indígenas de todo o país se manifestaram. Povos indígenas sofrem com grandes empreendimentos, tais como a Usina de Belo Monte, no Pará, e a transposição do rio São Francisco. Tais impactos interferem no modo de viver dos índios.

    Para Alexandra Pataxó, de Porto Seguro, Bahia, a luta pela terra é parte também da luta para a construção de uma vida melhor para as mulheres indígenas: “Então temos de superar as dificuldades e nos inserirmos mais na articulação das mulheres para colocarmos nossas necessidades”.

    Em sua segunda marcha, Jomara Aracy, do povo Dessana, integrante da Articulação das Mulheres Brasileiras, frisa o papel transformador da mulher como essencial para um Brasil livre do capital. Para ela, só assim, num país de outra dimensão política e ideológica, é que as mulheres poderão ser livres de tudo aquilo que as oprime.

    Margaridas contra grandes empreendimentos

    A marcha trouxe também a Brasília a luta das mulheres contra os grandes empreendimentos. Rosa Pessoa é do Movimento de Mulheres de Altamira (PA). Ela e suas companheiras carregavam bandeiras contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. “Não há benefício nenhum com a usina, só coisas ruins para o nosso povo”, diz.

    Em sua análise, Rosa avalia que além dos danos ao meio ambiente, povos indígenas, ribeirinhos e pescadores, Belo Monte atenta diretamente contra as mulheres. “Vemos um aumento grande de exploração sexual de mulheres e a tendência é piorar com o decorrer da construção da usina”, afirma.

    Rosa avalia que não há desenvolvimento, mas retrocesso. Lembra do grande problema habitacional gerado apenas pelo fantasma da usina: a especulação imobiliária gerou o aumento de sem-tetos e de graves abismos sociais. Parte de Altamira será alagada e a outra ficará sob intenso caos social com o aumento populacional – estimado em 120 mil indivíduos.

    “A Norte Energia não dá soluções ou cumpre as condicionantes. Não queremos a usina porque os impactos trarão grandes problemas. Estamos aqui contra Belo Monte”, encerra Rosa erguendo o mais alto que pode a bandeira símbolo do movimento contra a construção da usina.

    O grito contra outro grande empreendimento, a transposição do rio São Francisco, partia de Cristina Nascimento através de um megafone. Ligada ao Fórum de Mulheres de Pernambuco, ela acredita “que a transposição afeta populações originárias que são arrancadas de suas terras como se arranca uma planta do chão pela raiz”.

    Cristina defende que a questão se trata de desrespeitar a ancestralidade de indígenas e quilombolas, um crime irreparável que fortalece questões estruturantes do capital, tais como o racismo, o preconceito, o machismo, a compreensão patriarcal da sociedade.

    “Porque estamos falando de um modelo estruturado. Por isso é central combater a transposição e reivindicar o direito a sustentabilidade”, explica. Na esteira, Cristina defende que está a luta das mulheres em mandar no próprio corpo e nos rumos da vida.

    Ela faz parte do grupo feminista de tetro de rua Loucas de Pedra Lilás. Com sede em Recife, as meninas (jovens, adultas e idosas) atuam no combate ao machismo e na defesa do feminismo com peças criativas ligadas à educação e conscientização dos direitos humanos – e de prazer – da mulher. Já se apresentaram em países da América Latina e do mundo. Na Cidade das Margaridas e durante a marcha, o grupo realizou performances e esquetes teatrais além de carregar uma imensa margarida.

    Margaridas resistentes

    De bandeira em punho e pés firmes na marcha, Maria das Neves ou Maria das Águas, como é mais conhecida, procurava algum repórter para falar sobre sua vida, sobre as companheiras mortas, sobre como é o dia a dia das mulheres pescadoras artesanais do país. Queria gritar para além da marcha.

    Maria das Águas vive em Lagoa do Carro, agreste de Pernambuco. Ao lado dela são mais cinco mil pescadoras artesanais no Nordeste. Juntas ajudam a abastecer em 70% o país de pescado, seja nos rios, lagos, barragens ou em alto mar. Maria aprendeu a pescar aos sete anos – está com 55, apesar de o RG dizer 52.

    “Toda vida morei em Lagoa do Carro. O que aconteceu foi que construíram uma barragem e o lugar em que morávamos ficou alagado, inclusive onde minha mãe plantava. Para nos dar de comer ela aprendeu a pescar na lagoa da própria barragem e me ensinou”, conta.

    O tempo passou, as barragens continuam a ser erguidas nos rincões de um Brasil escondido e Maria das Águas é hoje representante do Movimento Nacional dos Pescadores e Pescadoras – além de ser da Articulação das Mulheres Pescadoras.

    Ela encontra na organização política e ideológica formas de combater os ataques que as mulheres pescadoras sofrem, apesar da morte espreitar as ações de resistência ao latifúndio que privatiza as águas amparado pelos grandes empreendimentos do governo. Na semana anterior a marcha, uma companheira de Maria foi assassinada na Paraíba.

    “Latifundiários nos expulsam dos rios e as grandes empresas jogam nas águas produtos químicos que matam ou contaminam os peixes. A privatização das águas é tamanha que chegam a colocar cercas elétricas dentro dos rios para nós não entrarmos sob risco de morte”, indigna-se.

    Maria das Águas afirma que os grandes empreendimentos são hoje os principais responsáveis pelos aterros nos mangues, causando graves desequilíbrios ambientais, além de grande parcela do esgoto que polui rios e praias.

    “Meu sonho é o mesmo das mulheres de 1857, lá de Chicago, que foram assassinadas. Quero um mundo livre da opressão, com as águas limpas e sem latifúndio. Vim aqui para a marcha a troco dessa luta”, enfatiza.

    Por essas horas a marcha já se acumulava nos jardins do Congresso Nacional. A cor lilás predominava num dia de céu de brigadeiro e margaridas levantadas da terra.  

    Read More
  • 18/08/2011

    Belo Monte: protestos contra usina prometem reunir milhares no Brasil e no exterior

    Atos exigirão paralisação da hidrelétrica por altos custos sociais e ambientais, na semana em que o MPF impetrou a 13ª Ação Civil Pública contra Belo Monte, por danos irreversíveis à natureza e conseqüente deslocamento de comunidades indígenas

    Em uma grande iniciativa autogestionada, cerca de 15 cidades no Brasil promovem, neste sábado, 20, protestos contra a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.

    Iniciativa que se apropriou do método de mobilizações via redes sociais, o Ato Nacional em Defesa dos Povos, da Floresta e dos Rios da Amazônia – contra Belo Monte contou com o empenho de inúmeros movimentos e ativistas locais, mas houve uma tentativa de interconexão para dar um caráter unificado ao protesto.

    Em São Paulo, onde o Movimento Brasil pela Vida nas Florestas já realizou outras três manifestações contra Belo Monte e o novo Código Florestal nos últimos meses, estão sendo esperadas cerca de 4 mil pessoas na Avenida Paulista, entre elas vários grupos indígenas do estado.

    O protesto também contará com a presença do cacique kayapó Megaron Txucarramãe, que, juntamente com o cacique Raoni Metuktire, tem simbolizado uma resistência de mais de 20 anos contra os projetos de hidrelétricas no rio Xingu. Megaron fará um ato solene e uma fala durante a manifestação, em nome de todas as populações ameaçadas do Xingu.

    Na capital do estado ameaçado, Belém, a organização liderada pelo Comitê Metropolitano Xingu Vivo para Sempre confirma a participação de mais de 2 mil pessoas, entre elas vários grupos indígenas da região.

    De acordo com os ativistas, o Ato Nacional contra Belo Monte visa exigir do governo a paralisação de projetos cujos altos custos sociais e ambientais anulam possíveis ganhos, principalmente quando as vantagens beneficiam apenas os grandes setores econômicos ou produtivos, em detrimento das populações da região.

    Nesta quarta, 17, o Ministério Publico Federal no Pará impetrou a 13ª Ação Civil Pública contra Belo Monte, justamente argumentando que a seca de parte do Xingu inevitavelmente causará o deslocamento das populações indígenas locais, o que é vetado pela Constituição.

    Pelo mundo
    Além do Brasil, cerca de 20 cidades em 16 países do mundo – entre eles Iran, Turquia, EUA, Noruega, Austrália, Alemanha, Inglaterra e País de Gales -, promoverão atos e protestos contra Belo Monte no dia 22, segunda, em frente a embaixadas e consulados brasileiros.

    Serviço:
    Ato Nacional em Defesa dos Povos, da Floresta e dos Rios da Amazônia – contra Belo Monte – Em São Paulo: 14h30 em frente ao Masp – Avenida Paulista, 1578 – Cerqueira César

    Para ver outros municípios, locais e horários de protestos, entre no site http://www.facebook.com/l/VAQDuDO7jAQB4MNb6_nMBY9TvIVTqMjh6PoFn5qKptfMDGg/www.xinguvivo.org.br/acao/ informações

    Mais

    Movimento Brasil pela Vida nas Florestas –(ações específicas contra Belo Monte e alterações no Código Florestal Brasileiro) – http://www.facebook.com/l/9AQAp1v3cAQA7zsn7m0T39d9lMcZxQkBavAbo-xzCKXYJ7Q/www.brasilpelasflorestas.com.br


    Marco Antonio Morgado – 11-9114 9833
    Rafael Poço – 11-7519 7002
    Clarissa Beretz – 11 8932-0703

    Movimento Xingu Vivo para Sempre
    Verena Glass 11-9853 9950
    Tica Minami 11-6597 8359
    Marquinho Mota – (91) 3261 4334/81389805 (Belém)

    Frente de Ação Pró-Xingu (família Kalapalo) – http://www.facebook.com/l/sAQAZizPgAQAJGbIuXF9dIftf_txYb0uky9VeltNqI740qg/frentedeacaopro-xingu.blogspot.com/ São Paulo em Defesa das Florestas – (contra as alterações propostas no Código Florestal Brasileiro) – http://www.facebook.com/l/sAQAZizPgAQDC-tmuq_9BESjibby_siyjXmw1OT0tLtMiIA/www.florestafazadiferenca.com.br

    Read More
  • 18/08/2011

    Governo brasileiro precisa garantir a integridade física e cultural dos povos indígenas dentro de seus territórios

    Cobra a Adveniat, organização filantrópica da Igreja Católica alemã em carta enviada à presidente Dilma Rousseff

    A Adveniat, organização filantrópica da Igreja Católica alemã para a América Latina, enviou no fim da semana passada carta à presidente da República, Dilma Rousseff, externando preocupação com a suspeita de um massacre de indígenas que vivem em situação de isolamento na região de fronteira entre Brasil e Peru, no estado do Acre. A suspeita em questão diz respeito a ações promovidas por invasores, possivelmente narcotraficantes e madeireiros, nas terras indígenas.

    No início deste mês, notícias se espalharam pela imprensa alertando sobre a invasão da base de vigilância Xinane da Fundação Nacional do Índio (Funai) na região. Em carta,  a Adveniat fala sobre a facilidade com que agiram esses invasores e se diz assustada com a situação de vulnerabilidade em que se encontram estes povos indígenas em situação voluntária de isolamento, podendo ser dizimados a qualquer momento.

    A organização chama atenção ainda para situação semelhante vivenciada por indígenas isolados que vivem no Maranhão, Rondônia, norte de Mato Grosso e sul do Amazonas. Todos esses conflitos e invasões que afetam diretamente as comunidades indígenas estão intimamente relacionados às escolhas do governo brasileiro, que opta pelo desenvolvimento a qualquer custo em detrimento da vida.

    Clique aqui e acesse a carta na íntegra

    Para a Adveniat, com base em relatos de organizações parceiras da entidade, é possível atestar que a Amazônia brasileira vive hoje um momento de estimulo à exploração economica através de mega empreendimentos, todos ligados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, e da Iniciativa de Integração da Infra-estrutura Regional Sul Americana (IIRSA), iniciativa de 12 países sul-americanos, que tem por objetivo interligar as redes de comunicação, transporte e energia entre esses países por meio da contrução de estradas, portos, ferrovias, entre outros

    Ao final da carta, a organização cobra do governo brasileiro que este tome as medidas necessárias para que a história de invasões, massacres e extermínios das populações indígneas não se repita e que esses povos tenham plenamente assegurada sua integridade física e cultural dentro de seus territórios.

    Clique aqui e acesse a carta na íntegra

     

    Read More
  • 18/08/2011

    Uma grande marcha indígena pela paz

    Mais de seiscentas pessoas de todas as idades e povos saíram do departamento de Beni para percorrer 640 quilômetros. Pediram ao Executivo que a estrada passe por outro lado, e não afete territórios como Chimán, Yuracaré e Mojeño Trinitario.

    A reportagem é de Sebastián Ochoa, publicada no jornal Página/12, 16-08-2011. A tradução é de Anete Amorim Pezzini.

    Organizações indígenas de todo o país, reunidas na Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia (CIDOB) e no Conselho Nacional de Markas e Ayllus do Qullasuyu (CONAMAQ), iniciaram nessa cidade, capital de Beni, a Oitava Marcha Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), por onde o governo pretende passar uma rodovia que – segundo os mobilizados – destruirá seu território. Mais de seiscentas pessoas de todas as idade e povos, saíram a percorrer 640 quilômetros até a cidade de La Paz, onde exigirão do presidente Evo Morales que essa via passe por outro lado, sem afetar as terras dos povos Chimán, Yuracará e Mojeño Trinitario.

    “Marchamos porque é a única maneira de fazê-los escutar-nos. Queremos mostrar que nós, os povos indígenas, estamos unidos, porque sabemos que o que acontecer em Tipnis vai acontecer em todos os territórios indígenas. Se fizermos com que respeitem o Tipnis, todos os territórios serão respeitados”, disse Miriam Yuánore, nascida no Tipnis e vice-presidente da Central dos Povos Étnicos Moneños de Beni (CPEMB).

    Os representantes dos 36 povos indígenas deixaram a cidade pobre de Trinidad pela avenida Pedro Ignacio Muiba, forrada de pau-d’arcos cheios de flores amarelas e rosadas. Esperam avançar entre vinte e trinta quilômetros por dia, para chegar a La Paz na segunda quinzena de setembro. À noite dormirão junto ao rio Mamoré.

    As organizações informaram que se cortariam 550 mil árvores se for construída a estrada de 306 quilômetros que uniria as cidades de Villa Tunari, em Cochabamba, a Santo Ignácio de Moxos, em Beni. Instituições cívicas e empresários de Santo Ignácio de Moxos – a 88 quilômetros de Trinidad – advertiram que não deixarão a marcha passar, porque querem a estrada. Os indígenas, que ressaltaram seu ânimo pacífico, adiantaram que, em tal caso, podem iniciar bloqueio de estradas em todo o país, entre outras medidas de confrontação que preferiram não mencionar.

    “Em 2009, o presidente Morales nos entregou o título de propriedade do TCO (Território Comunitário de Origem). E disse-nos: ‘Vocês têm o dever de defender este território’. Fazemos isso agora. Não é desenvolvimento para nós a estrada, queremos outro tipo de desenvolvimento. A rodovia é para gente rica e empresária. Nossa via para movermo-nos é o rio, assim vamos de comunidade em comunidade”, comentou a vice-presidente da CPEMB.

    Os 16 suyus quéchuas e aimarás da região andina também se somaram à Oitava Marcha Indígena. “CONAMAQ, na marcha, está reivindicando os direitos coletivos da Mãe Terra e os direitos dos povos indígenas. Não há negociação com o governo, não há nada: vamos direto até La Paz”, disse o mallku  das Indústrias Extrativas da CONAMAQ, Rafael Quispe Flores, que chegou à cidade junto com cem irmãos e irmãs, muitos com seus filhos pequenos.

     “Pedimos à população solidária, com esta marcha, que nos doem alimentos, água, medicamentos. Há muitas crianças que já estão doentes, também há senhoras grávidas”, contou Lúcio Ayala, da vila Tacana, secretário de Terra e Território da CIDOB.

    O sol de chumbo da Amazônia, com 35 graus permanentes, foi-se sobre os manifestantes que iam com roupas leves, algumas bolsas e arcos e flechas de dois metros. Os quéchuas e aimarás usavam seus ponchos; apesar do grande calor, sua vestimenta garantia-lhes proteção.

    Nas cidades de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz, houve marchas, em sua maioria preparadas por jovens, em solidariedade aos defensores do território. Na Praça Murillo de La Paz, os manifestantes foram recebidos com bombas de gás pela polícia para que deixassem de mostrar seus cartazes, do tipo “Evo: O Tipnis se olha e não se toca”.

    O Tipnis, que, no mapa, parece um triângulo apontado para o sul, tem 1,2 milhões de hectares e é uma das zonas mais biodiversas da Bolívia. De acordo com o Serviço Nacional de Áreas Protegidas (SERNAP), nessa área protegida há 108 espécies de mamíferos (trinta por cento das espécies do país) e mais 470 espécies de aves, que são 34 por cento do total da Bolívia. Também há 39 espécies de répteis, 53 espécies de anfíbios e 188 espécie de peixes e mamíferos nadadores, como o golfinho, um delfim rosado em perigo de extinção, e outras espécies que habitam o território, segundo dados da Fundação Terra.

    Das 1.236.000 hectares do Tipnis, 1.091.000 do TCO pertencem aos indígenas. Os quase duzentos mil hectares de diferença estão nas mãos de aproximadamente vinte mil famílias de colonizadores, que cultivam principalmente coca.

    A estrada requereria uma inversão de 436,2 milhões de dólares norte-americanos, dos quais 332 milhões proviriam de um crédito do governo do Brasil. Desse modo, cada quilômetro custará em média 1,4 milhão de dólares.

    Read More
  • 18/08/2011

    Silvio Tendler lança documentário sobre agrotóxicos em Brasília

    O Comitê do Distrito Federal da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida lança na próxima segunda-feira (22/8), em Brasília, o novo documentário do cineasta Silvio Tendler, O veneno está na mesa.

    O filme trata dos riscos do emprego de agrotóxicos na agricultura e como este modelo beneficia as grandes transnacionais do veneno em detrimento da saúde da população (veja sinopse abaixo).

    "O mundo está sendo completamente intoxicado por uma indústria absolutamente desnecessária e gananciosa, cujo único objetivo realmente é ganhar dinheiro. Não tem nenhum sentido para a humanidade que justifique isso que está se fazendo com os seres humanos e a própria terra. A partir daí resolvi trabalhar essa questão. É um filme que vai ter desdobramentos, porque eu agora quero trabalhar essas questões", afirma Tendler.

    Depois da exibição gratuita do filme (com duração de 50 minutos), haverá debate com a participação do cineasta.

    Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos

    O Comitê do Distrito Federal da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos foi lançado em abril deste ano, por um conjunto de mais de 30 organizações que envolvem movimentos sociais (do campo e da cidade), sindicatos, pastorais, organizações ambientalistas e ligadas a área da saúde, entre outras.

    Organizada nacionalmente, a Campanha tem como objetivo denunciar e alertar a sociedade para aos prejuízos causados pelo uso de agrotóxicos e aos mesmo tempo construir iniciativas que possam inclusive do ponto de vista jurídico, construir barreiras ao seu uso.

    A Campanha também pretende anunciar para a sociedade as diversas iniciativas já existentes no campo da produção de alimentos saudáveis, proporcionando condições para que a sociedade possa se colocar contra o atual modelo agrícola, que por sua vez não se preocupa com a saúde das pessoas e muito menos com o meio ambiente.

    Sinopse

    O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo: 5,2 litros/ano por habitante. Muitos desses herbicidas, fungicidas e pesticidas que consumimos estão proibidos em quase todo mundo pelo risco que representam à saúde pública. O perigo é tanto para os trabalhadores, que manipulam os venenos, quanto para os cidadãos, que consomem os produtos agrícolas. Só quem lucra são as transnacionais que fabricam os agrotóxicos. A ideia do filme é mostrar à população como estamos nos alimentando mal e perigosamente, por conta de um modelo agrário perverso, baseado no agronegócio.

    Serviço:

    Data: Dia 22/8, às 19h
    Local: Museu da República –  ao lado da Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília
    Entrada franca

    Contatos para a imprensa: (61) 8239 5569/9684 6534

     

    Read More
  • 18/08/2011

    Via Campesina monta Acampamento Nacional com quatro mil em Brasília

    Camponeses e Camponesas reivindicam reforma agrária como política pública prioritária, além da recomposição do orçamento para obtenção de terras e renegociação das dívidas dos pequenos agricultores e agricultoras e assentados e assentadas

    Brasília recebe quatro mil trabalhadores e trabalhadoras rurais de 23 estados e do Distrito Federal dos movimentos da Via Campesina em um grande Acampamento por Reforma Agrária, a partir desta segunda-feira (22/08), nos arredores do Ginásio Nilson Nelson.

    A mobilização integra a Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária que acontece em todo o Brasil a partir do dia 22 de agosto. Além do acampamento, atos políticos e culturais devem acontecer em Brasília e nos Estados onde os movimentos da Via Campesina estão organizados.

    Três temas centrais, todos relacionados com a implementação da Reforma Agrária, serão discutidos com as mobilizações: o primeiro é o assentamento das mais de 60 mil famílias acampadas, algumas há mais de cinco anos, através da desapropriação dos grandes latifúndios improdutivos, muitos em mãos do capital estrangeiro.

    “Acreditamos que a Reforma Agrária seja um dos principais meios de desenvolver nosso país, distribuindo renda e riqueza, pois democratiza a terra, gera empregos diretos, moradia e produção de alimentos, superando a miséria no interior do país e o inchaço dos grandes centros urbanos” disse José Batista de Oliveira, integrante da coordenação nacional do MST.
    A Jornada também exige que o orçamento destinado à obtenção de terras seja recomposto.  Os R$ 530 milhões destinados para o Incra promover a desapropriação de terras já foram totalmente executados. Para 2012, o cenário é de redução: estão previstos apenas R$ 465 milhões, um corte de R$ 65 milhões, segundo dados do Incra. 

    Enquanto isso, a concentração fundiária é comparável aos índices da época da Ditadura Militar. O Índice de Gini, em 1967, era de 0,836 (quanto mais perto de 1,0, mais concentrado é o modelo). Os dados do último Censo Agrário do IBGE (2006) dizem que o índice aumentou para 0,854.  “Especialistas ainda afirmam que o Brasil possui cerca de 4 milhões de famílias de trabalhadores sem terra que são potenciais beneficiárias de políticas de reforma agrária. Os latifúndios, com mais de mil hectares, somam menos de 1% das propriedades e controlam 44,42% das terras”, completa Oliveira.  

    A renegociação das dívidas dos pequenos agricultores e agricultoras também é pauta de reivindicação.  Em todo o Brasil, o valor em dívidas vencidas chega a R$ 30 bilhões, de acordo com o Ministério da Fazenda. A situação é preocupante, pois a agricultura familiar é responsável pelo abastecimento interno de alimentos – responde por 70% do alimento da mesa do brasileiro. “O valor comprova que o Programa Nacional da Agricultura Familiar (PRONAF) é uma política inadequada e insuficiente para atender a realidade da agricultura camponesa, familiar, sobretudo os assentados da Reforma Agrária. Refletem os preços baixos pagos aos pequenos produtores e a falta de políticas públicas de comercialização”, explica Oliveira. 

    A Via Campesina é uma articulação internacional de movimentos sociais camponeses. No Brasil, é integrado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Pescadores e Pescadoras, Quilombolas, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), além do Sindicato dos Trabalhadores da EMBRAPA (Sinpaf), da Federação dos Estudantes de Agronomia e da Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal.  

    Informações para imprensa:

    Luiz Albuquerque: (11) 96903614

    Mayrá Lima: (61) 96846534

     

    Read More
Page 711 of 1235