• 20/09/2011

    Coletiva de Imprensa denuncia violência contra povo Awá-Guajá

    Situações de violência e o clima de tensão instalado na Terra Indígena Caru – área de 170 mil hectares onde vivem 300 indígenas da etnia Awá-Guajá – estão na pauta da entrevista coletiva que aconteceu ontem (20) na sede do Ministério Público Federal (MPF), em São Luís, Maranhão (MA).

     

    Organizada pela Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, pelo  Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Sociedade Maranhense de Direitos Humanos e Cáritas Brasileira, líderes indígenas presentes na coletiva relataram as truculências das quais estão sendo vítimas.

     

    Recentemente, após ação conjunta do Ibama, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, os Awá-Guajá tiveram sua aldeia invadida e a  base do Cimi no local foi praticamente destruída, com um saldo de documentos e arquivos destruídos. A casa só não foi completamente destruída por conta dos próprios indígenas, que impediram a continuação do atentado.

     

    O ataque foi retaliação por conta da prisão de dois “mateiros” (indivíduos que marcam as árvores para a derrubada) pela operação da Frente de Proteção Etnoambiental Awá-Guajá, recentemente criada pela Fundação Nacional do Índio (Funai). A retaliação dos madeireiros envolveu também violência contra o indígena Kamayru Awá, que até o momento não teve atendimento nem registrou boletim de ocorrência.

     

    Os Awá-Guajá

     

    São alguns dos últimos povos de caçadores-coletores do Brasil, ameaçados de extinção. Cercados por latifúndios, criadores de gado, madeireiros e posseiros, os moradores das florestas da pré-Amazónia oriental, no Maranhão, vêm sendo encurralados nas suas próprias terras. Pistoleiros contratados por fazendeiros e madeireiros “caçam” qualquer índio que se lhes atravesse no caminho.

     

    Em português, a frase Naxatarihi areka’a mama ta do povo Awá-Guajá significa “Não queremos ver a destruição de nossa floresta” e resume os anseios dos indígenas que vivem da caça e da coleta.

     

     

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  • 19/09/2011

    Assembleia Terena discute terra, violência e educação no MS

    Lidia F. Oliveira

    Aconteceu entre os dias 15 e 16 de setembro, na Terra Indígena (TI) Cachoeirinha, município de Miranda, Mato Grosso do Sul (MS), mais uma Assembleia do Povo Terena. Caciques, professores, alunos, pais e mães representantes das aldeias Argola, Babaçu, Lagoinha, Morrinho, Cachoerinha, Mãe terra e também do Acampamento Charqueada, reuniram-se para discutir Terra, Violência e Educação.

    Além da comunidade, estavam presentes lideranças Terena de outras aldeias, como a Ipegue-taunay, representantes dos povos Guarani e Kadiwéu, além do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Rede Cidadã (Recid).

    As discussões tiveram como eixo central as violações aos direitos territoriais diante da falta das demarcações das terras indígenas. A comunidade não aguenta mais a morosidade da justiça e a falta de vontade política do Governo Federal para concluir o processo demarcatório.

    Cachoeirinha, TI já declarada com 36 hectares, dos quais estão na posse dos indígenas apenas 4.400, sendo que destes 1.800 correspondem à aldeia Mãe Terra e a retomada de Charqueada – em processo na judicial, gerando insegurança à comunidade. O restante da área está em posse de fazendeiros, incluindo o ex-governador do Estado, Pedro Pedrossian. ”Estão extraindo até o ultimo recurso possível, deixando a área pobre e nua. Até quando”, indignava-se o professor Elvis Terena.

    A comunidade sofre intimidações por conta de sua luta pela terra e o reconhecimento de seus direitos, como é o caso do atentado terrorista e genocida que aconteceu contra o ônibus de estudantes indígenas no último dia 3 de junho deste ano, posteriormente levando a óbito a indígena Lurdesvoni Pires, mãe de quatro filhos.

    “Tentar nos intimidar não vai nos calar, vamos lutar sempre! A comunidade está abalada com os últimos fatos e exige providências, pois esse fato não pode ficar impune. Porém, contribui ainda mais para o despertar de todo o povo da TI de Cachoeirinha para que continuem lutando por seus direitos constitucionalmente amparados. A nossa voz não foi calada juntamente com a jovem Lurdesvoni, agora sim é que vamos gritar essa situação para não virar rotina”, desabafou liderança indígena da aldeia Argola.

    Há praticamente um ano das eleições municipais, as lideranças aproveitaram para advertir a comunidade de que: “Nesse tempo o número de “amigos” dos índios aumenta consideravelmente. Passamos a ver de forma ilimitada tantos rostos novos que a gente até esquece quem são; ou será que “os amigos” esquecem quem somos?”, lembra Otoniel Ricardo, vereador Guarani.

    Para Lindomar Terena, “é preciso ter cuidado nesse período com a quantidade de políticos que passaram os quatro anos de seu mandato sumidos, só reaparecendo agora na aldeia, às vésperas das eleições municipais para pegar o que a eles importa, o voto”.

    Chega dos povos indígenas serem vistos, lembrados e considerados importantes apenas nesse momento. É preciso que esses políticos cumpram com suas promessas eleitorais, desenvolvam e coloquem em prática políticas e ações que atendam as demandas e necessidades da comunidade indígena.

    Uma de suas responsabilidades, por exemplo, é oferecer condições para que as escolas indígenas da comunidade funcionem bem e possam oferecer aos alunos educação de qualidade.

    Denuncias

    O diretor responsável pela organização das escolas denuncia que “não recebe da prefeitura de Miranda combustível para poder visitar as aldeias onde estão as escolas, tendo suas atividades prejudicadas, recebendo constantes reclamações dos pais, alunos e professores por não conseguir marcar presença efetiva nas áreas”.

    Conforme o diretor, a prefeitura de Miranda não dispõe de veículo para que ele possa realizar o trabalho. O Poder Público alega não ter veículos disponíveis, tendo ele que tirar recursos do próprio bolso para efetuar seu trabalho. Será mesmo que não há veículos disponíveis, ou mostra clara a opção da prefeitura em não atender a comunidade indígena do município de Miranda?

    As lideranças também refletiram sobre a importância da escola para a comunidade, pois, hoje sem o ensino não se é nada”, relatou professor Genésio Terena. Para as populações indígenas é preciso uma escola diferenciada e a educação escolar precisar ser um espaço agregado às principais demandas da comunidade e não apenas um espaço usado pelo Estado para monitorar e controlar as formas de vida e organização dos povos.

    “A magia da escrita se burocratiza quando ela entra na escola, e a escola é quase sempre o espaço do Estado e das instituições que o representam. O lugar físico, social e político que tem a escola na aldeia confundem-se facilmente com o lugar que ocupa o Estado nesse povo” (Melià, 1989).

    Nossa politica não é politicagem!

    “Nós, povo Terena, também sabemos fazer política e hoje a nossa Assembleia exige que a nossa politica, os nossos professores e alunos, as mulheres, homens e crianças dessa comunidade sejam respeitados pelos políticos partidários, que ocupam os cargos públicos do município de Miranda e só estão lá por que nós os colocamos com pelo voto”, apontou um professor da aldeia Mãe Terra.

    A Assembleia foi mais um passo do povo terena na luta por seus direitos, principalmente o direito a terra. Segue manifesto Terena aprovado no encontro:

    ASSEMBLÉIA DO POVO TERENA DE CACHOEIRINHA

    Novas perspectivas e estratégias. Resistir e lutar. Sempre!

    Nós do povo Terena, da terra indígena Cachoeirinha, município de Miranda, Mato Grosso do Sul, reunidos em Assembléia para discutirmos e deliberarmos sobre as questões que envolvem nossos direitos, especialmente nosso direito à demarcação de nossa terra tradicional. Encerradas as discussões, vimos pelo presente documento nos manifestar sobre a nossa realidade atual e, ao final, fazermos as nossas reivindicações.

    Diante da irresponsabilidade e omissão do Estado brasileiro em não solucionar nossos problemas quanto a demarcação de nossa terra o único caminho que nos restou para que possamos melhorar as nossas condições de vida e garantir um futuro para nossas crianças foi nos organizarmos cada vez mais e irmos para a retomada de nossas terras.

    Ao custo de ameaças, atentados, mentiras, calúnias e preconceitos daqueles que são contra nossos direitos, seguimos avançando em nossas lutas. Nossa maior reivindicação é a conclusão definitiva da demarcação de nosso território sagrado e jamais desistiremos até que o último palmo de nossa terra nos seja entregue!

    Mesmo nosso povo tendo acreditado no Governo Federal que se diz aliado dos pobres e defensor de direitos humanos, estamos percebendo que, mais uma vez, estamos sendo enganados. A Presidente Dilma, desde que assumiu seu Governo, sequer se pronunciou publicamente sobre a realidade dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, tida como uma das piores realidades de negação de direitos humanos e fundamentais de todo mundo. O Governador de MS, e sua notória postura anti-indígena, promoveu, e continua promovendo, diversas ações para prejudicar ainda mais a situação de nosso povo, como foi o ingresso do Estado de MS em Ações Judiciais movidas por ricos fazendeiros com a finalidade de impedir a demarcação de nossa terra.

    A Presidente Dilma Roussef está manchando seu passado e contradizendo seus discursos. Uma Presidente que afirmou que direitos humanos “não se negociam” mas que, na prática, já negociou nossas vidas em troca do gado, da cana, do boi e de usinas hidrelétricas. O que para nós tem se revelado uma postura irresponsável. Por fim, uma mulher que teve conhecimento das graves violações de direitos humanos em MS e a necessidade de soluções urgentes mas que, até agora, nada fez e nem sinalizou quaisquer soluções. Muito pelo contrário, vem investindo cada vez mais para gerar o lucro para meia dúzia de ricos fazendeiros e com nosso dinheiro público! Uma vergonha internacional!

    Denunciamos novamente a recente violência cometida contra nosso povo Terena, que teve um ônibus escolar queimado por agressores ainda não-identificados pelas autoridades e que causaram ferimentos graves em estudantes Terena e ao motorista do ônibus, o que provocou, posteriormente, a morte de nossa irmã Terena Ludersvone Pires. A Polícia Federal ainda não concluiu as investigações e nossa comunidade vem acumulando mais angustias e tristezas. Enquanto isso, o Governo Federal não faz nada e o Judiciário continua dando ordens de despejo contra os povos indígenas, mesmo diante de uma realidade tão desigual e injusta.

    Diante disso, o que nos resta senão lutar? Já afirmamos que nosso povo não vai esperar trinta anos ou mais para vermos nossas terras demarcadas. Essa demora vem ferindo, há muitos anos, os direitos mais elementares de nosso povo e que são previstos pela constituição federal desde 1988 e por tratados internacionais que o Brasil é signatário.

    Que Dilma consiga ver que a lógica do desenvolvimento a todo custo está prejudicando uma população indígena de mais de 70 mil pessoas.

    Queremos deixar claro que as medidas propostas por fazendeiros e parlamentares sobre indenizações de terra aos fazendeiros não sejam o pretexto para protelar ainda mais a demarcação de nossa terra Cachoeirinha e muito menos para alterar nossos direitos conquistados na CF/88. Não iremos admitir retrocessos. Nossos direitos constitucionais foram conquistados pelas lutas de nosso povo e jamais devem ser alterados, mesmo que somente para pagar indenizações. Se querem pagar as indenizações, que isto seja feito sem qualquer alteração da constituição federal de 1988! Mas também queremos saber quem irá indenizar nosso povo pelas matas derrubadas, pelas águas poluídas e pelas terras degradadas pelos mesmos fazendeiros que querem ser indenizados?

    Exigimos que os Ministros do Supremo Tribunal Federal julguem imediatamente todos os processos que envolvam a demarcação de nossas terras. Enquanto esses processos não são julgados a demora só corre a favor dos fazendeiros que continuam explorando nossos recursos naturais de forma predatória, nossa população aumentando e nosso povo passando cada vez mais dificuldades  pela falta de nossas terras. Mesmo diante disso, o STF, infelizmente, ainda não se deu conta de sua responsabilidade e além de não julgar nossos processos como manda a lei, ainda determinam o despejo de nosso povo, isso, de forma bem rápida. São rápidos para despejar famílias para a beira da estrada mas são lentos para cumprir com suas obrigações.

    Parece que esperam nosso povo fazer um grande movimento de retomadas para dar uma solução final do processo, como sempre. Pelo jeito, enquanto não nos movimentarmos, nos parece que não farão nada!

    Já estivemos em inúmeros estados do país e fora do país denunciando nossa realidade. Fomos para Brasília, entregamos centenas de documentos, conversamos com Ministros (STF, Governo Federal, etc.), Procuradores, Juízes, Advogados, Deputados, e até com o ex-Presidente Lula e até agora não houve nada para que nossos direitos sejam respeitados e cumpridos. Durante a guerra do Paraguai defendemos a cidade de Miranda enquanto muitos soldados brasileiros estavam em fuga e hoje temos que viver com as migalhas e ainda sermos tachados de invasores de nossa própria terra.

    Novamente vimos manifestar que este ano de 2011 o povo Terena não irá admitir mentiras. Queremos imediatamente uma solução definitiva para a demarcação de nossas terras pois do contrário não nos resta outro caminho senão irmos para a luta!

    Viva o povo Terena, sua unidade e organização! Viva o futuro de nossas crianças!

     Viva os povos indígenas do Brasil! Viva Cachoeirinha!

    Demarcação e Homologação já!

    Terra Indígena Cachoeirinha, sede, Miranda/MS, 16 de setembro de 2011.

     

     

     

     

     

     

     

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  • 19/09/2011

    La Via Campesina: llamamiento a Durban

    09/09/2011
    ¡Los pueblos indígenas y los campesinos tienen soluciones para enfrentarse al cambio climático!
    La Via Campesina hace un llamamiento a los movimientos sociales y a todos los pueblos para una movilización mundial
    El movimiento internacional campesino La Vía Campesina y su miembro el Movimiento de los Sin Tierra de Sudáfrica (Landless Peoples Movement, LPM) se están movilizando para la XVII Conferencia de las Partes (COP17) de la Convención sobre el Cambio Climático de las Naciones Unidas, que tendrá lugar en Durban (Sudáfrica) del 28 de noviembre al 9 de diciembre de 2011. 
    Muchos grupos de campesinos de Mozambique, Tanzania, Zimbabwe y otros países se desplazarán a Durban para reunirse con otros campesinos y movimientos sociales de todo el mundo y exigir justicia climática.
    Campesinas africanas que forman parte de de La Via Campesina participarán en la II Asamblea de Mujeres Rurales del Sur de África, que se celebrará del 30 de noviembre al 2 de diciembre en Durban. Dicha asamblea está organizada de manera conjunta por La Via Campesina Africa 1 y organizaciones como, entre otras, el Fondo de Ayuda a la Comunidad y la Educación (Trust for Community Outreach and Education, TCOE), el Proyecto para las Mujeres Agricultoras (Womens on Farms Project), el Movimiento para el Acceso a la Tierra de Sudáfrica (Land Access Movement South Africa, LAMOSA), el Foro de los Agricultores del Este y el Sur de África (Eastern and Southern Africa Farmers’ Forum, ESAFF), la Unión Nacional de Campesinos de Mozambique (União Nacional de Camponeses) y la Unión Nacional de Agricultores de Namibia (Namibian National Farmers’ Union).
    La Via Campesina también participará en el Día de Acción Global en el 3 de diciembre, junto con miles de activistas de otras organizaciones para exigir justicia climática.
    La Via Campesina y otros grupos relacionados con la agricultura y la alimentación en África invitan a todos los movimientos, aliados y activistas a unirse a un Día especial por la Agroecología y la Soberanía Alimentaria que tendrá lugar el 5 de diciembre en Durban y en otros lugares del mundo y que organiza conjuntamente el ESAFF regional, ESAFF Uganda, ESAFF Zimbabwe, la ROPPA, TCOE, Surplus People Project, etc. 
     Las negociaciones sobre el clima en venta
    En la COP16 celebrada en Cancún (México), la mayoría de los gobiernos del mundo, con la notoria excepción de Bolivia, no se reunieron para atajar seriamente los problemas relacionados con el clima, sino para hacer negocio con las multinacionales que trafican con falsas soluciones para el cambio climático como la Reducción de las Emisiones derivadas de la Deforestación y la Degradación Forestal (REDD) y otros mecanismos relacionados con el mercado del carbono, los agrocombustibles y los organismos genéticamente modificados (OGM). Han convertido las negociaciones sobre el clima en un gigantesco mercado.
    Nuestros gobiernos han condenado conjuntamente (y en un contexto de mercado) a África y al sur de Asia a una incineración virtual, cuyas primeras víctimas son los campesinos de estos dos continentes, dado que las temperaturas crecientes crean un entorno incluso más hostil de lo habitual para los cultivos, el ganado y los seres humanos. La mayoría de los gobiernos ignoraron los Principios de Cochabamba, que establecen un marco de actuación claro para atajar el calentamiento global y proteger a la Madre Tierra.
    En consonancia con lo acordado en Cancún, a los países desarrollados y las empresas contaminantes (que son históricamente responsables de la mayor parte de emisiones de gases de efecto invernadero) se les permiten todo tipo de artimañas para evitar reducir sus emisiones. Por ejemplo, el mercado del carbono y los mecanismos de compensación de las emisiones de carbono permiten a esos países y empresas que continúen contaminando y consumiendo de manera normal mientras pagan pequeñas sumas de dinero para ayudar a las personas pobres de los países en vías de desarrollo a que reduzcan sus emisiones. Pero lo que realmente sucede es que las empresas se benefician por partida doble: continúan contaminando y vendiendo falsas soluciones. Mientras tanto, con la Reducción de las Emisiones derivadas de la Deforestación y la Degradación Forestal (REDD), los más pobres son privados de muchos de sus derechos sobre el uso de bosques y tierras comunales, mientras que emergen usurpadores que se hacen con grandes extensiones de terreno desalojando a los campesinos para traficar con bonos de carbono.
    Sabemos que las fuentes clave de las emisiones que alteran el clima son el sistema alimentario globalizado y corporativo basado en la agricultura industrial destinada a la exportación y los agrocombustibles, los sistemas de transporte basados en vehículos privados en lugar de los transportes públicos y las fábricas contaminantes de las multinacionales. Sin compromisos reales y ejecutables para transformar este sistema, no hay esperanza en la prevención de la incineración virtual de nuestras tierras de cultivo y la capacidad para alimentar al mundo.
    Somos campesinos y campesinas y, actualmente, producimos la gran mayoría de alimentos que se consumen en este planeta. Nosotros, así como nuestra producción, estamos en peligro a causa del aumento de las temperaturas, los cambios que afectan de manera impredecible a los calendarios de siembra y los cada vez más frecuentes huracanes, sequías e inundaciones. Y, además, también ofrecemos las soluciones al cambio climático más importantes, claras y científicamente probadas mediante la producción agroecológica y localizada de alimentos por parte de campesinos y campesinas bajo el paradigma de la Soberanía Alimentaria.
    El sistema alimentario mundial genera actualmente al menos el 44% de todas las emisiones de gases de efecto invernadero debido al transporte a larga distancia de alimentos que podrían haber sido producidos localmente, al uso excesivo del petróleo y de agroquímicos derivados del petróleo, a los monocultivos y a la tala de bosques para hacer sitio a plantaciones industriales, conocidas como «desiertos verdes».
    Podemos reducir de manera drástica o incluso eliminar esas emisiones transformando el sistema alimentario en base a la soberanía alimentaria, o sea produciendo localmente para consumo local, una producción variada basada en las familias campesinas y mediante prácticas sustentables.
     
    La agroecología no está en venta
     Rechazamos cualquier intento de extender el mercado del carbono y los mecanismos para reducir las emisiones derivadas de la deforestación y la degradación de los bosques al carbono del suelo, incluso si estas medidas vienen disfrazadas por el Banco Mundial de apoyo para los pequeños productores agroecológicos o de «agricultura respetuosa con el clima» porque:  
    • ·         En el caso de la reducción de las emisiones derivadas de la deforestación y la degradación de los bosques, el carbono de nuestro suelo se convertirá, en esencia, en propiedad de las empresas contaminantes del norte. Eso vendría a ser lo mismo que la venta y privatización de nuestro carbono. ¡Nuestro carbono no se vende!
    • ·         El mercado voluntario del carbono del suelo sería únicamente otro espacio para la especulación financiera y, mientras las campesinas y los campesinos recibirían las migajas, los especuladores se llevarían los beneficios reales.
    • ·         Este sería solo otro modo de evadir las reducciones reales de emisiones para la industria contaminante y los países desarrollados.
    • ·         Es también otra manera de desviar la atención de las enormes emisiones de carbono producidas por la agricultura industrial y los agronegocios (especialmente en el norte) y hacer que los campesinos del sur carguen con la tarea de reducir las emisiones mientras no se hace nada con respecto a las emisiones de carbono de la agricultura industrial.
    • ·         Si nosotros, en calidad de campesinos firmamos un acuerdo sobre el carbono del suelo, perderemos autonomía y control sobre nuestros sistemas agrícolas. Algún burócrata de la otra punta del mundo (sin saber nada acerca de nuestro suelo, precipitaciones, pendientes, sistemas alimentarios locales, economía familiar, etc.) decidirá qué practicas debemos seguir o no.
    • ·         La agroecología aporta muchos beneficios al medio ambiente y a la vida de los campesinos y de las campesinas. Sin embargo, reduciendo su valor al del carbono embargado, no sólo devaluamos esos beneficios, sino que se pueden llegar a crear incentivos malsanos para alterar las prácticas agroecológicas (y franquear el paso a tecnologías como la modificación genética de organismos) para simplemente potenciar al máximo el carbono en lugar del resto de beneficios de la agroecología.
    • ·         Esto es inseparable de la tendencia neoliberal de convertirlo absolutamente todo (la tierra, el aire, la biodiversidad, la cultura, los genes, el carbono, etc.) en capital con valor en algún tipo de mercado especulativo.
    • ·         Si el actualmente escaso valor del carbono del suelo ascendiese en el mercado especulativo podría generar nuevas oleadas de usurpación de la tierra para obtener bonos de carbono, ya que la consolidación de los terrenos es un requisito previo para obtener beneficios de los bonos de carbono del suelo.
     
    ¿Cómo debe apoyarse la agricultura campesina mediante las políticas públicas?
    ·         Mediante el fomento de programas de formación de campesino a campesino administrados por organizaciones de campesinos.
    ·         Mediante el fomento de la formación sobre la agroecología en las escuelas de las organizaciones campesinas.
    ·         Acabando con todas las subvenciones a la agricultura industrial, ya sean evidentes o encubiertas.
    ·         Mediante la prohibición de la modificación genética de organismos y los químicos agrícolas peligrosos.
    ·         Mediante la concesión de crédito de producción a las campesinas y los campesinos que producen de manera agroecológica.
    ·         Fomentando la compra directa por parte de los gobiernos de alimentos ecológicos a precios justos producidos por campesinos para los hospitales, escuelas, etc.
    ·         Mediante el fomento de los mercados donde los campesinos puedan vender sus productos sin intermediarios a los consumidores.
    ·         Mediante la transformación de los currículos de los estudios de agronomía para dar un mayor énfasis a la agroecología y a la metodología de campesino a campesino.
    ·         Mediante la creación de incentivos para conseguir precios justos para los alimentos ecológicos producidos localmente. Etc.
    Compromisos de La Via Campesina
    A pesar de que exigimos legítima y urgentemente a los gobiernos que tomen medidas serias para atajar el cambio climático, prometemos continuar fomentando la agroecología y la Soberanía Alimentaria desde la base. Prometemos realizar las siguientes acciones prácticas:
     1.     Continuaremos fortaleciendo el movimiento de la agroecología desde la base para adaptarla a los patrones del cambio climático.
     2.     Trabajaremos para «mantener el carbono en el suelo y los árboles» en las áreas bajo nuestro control mediante la promoción de la agrosilvicultura, el plantado de árboles, la agroecología, la conservación de energía y la lucha contra la usurpación de terrenos para dedicarlos a la minería y a plantaciones industriales.
     3.     Comprometeremos y presionaremos a los gobiernos en todos los niveles para que adopten la soberanía alimentaria como solución para el cambio climático.
     4.     Lucharemos contra la inclusión de la agricultura campesina en los mecanismos de financiación de carbono.
     5.     Continuaremos luchando por la reforma agraria y por que la tierra se distribuya a las familias campesinas y contra toda forma de usurpación de tierra.
     6.     Daremos voz a los pequeños propietarios de explotaciones agrícolas y campesinos para que estén presentes con otros sectores de la sociedad civil en la COP17 de Durban y en Río+20 en Brasil y muestren nuestra oposición a las falsas soluciones contra el cambio climático y pidan la adopción de los Principios de Cochabamba. Insistiremos en la Agricultura Sostenible llevada a cabo por Pequeños Productores y la Soberanía Alimentaria como las soluciones más importantes para el cambio climático.
     ¡No a la usurpación de tierras en nombre del clima!
     ¡Nuestro carbón no se vende!
     ¡La agricultura campesina no se vende!
     ¡La producción agroecológica llevada a cabo por campesinas y campesinos enfría el planeta!
     ¡Globalicemos la lucha! ¡Globalicemos la esperanza!
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  • 19/09/2011

    Sobre projetos de extrativismo mineral em Terras Indígenas do Amazonas

    NOTA PÚBLICA

     

    SOBRE PROJETOS DE EXTRATIVISMO MINERAL EM TERRAS INDÍGENAS DO AMAZONAS

     

    A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), considerando o resurgimento e avanço de interesses diversos – de governos, empresas nacionais e internacionais e até de indígenas que agem a título pessoal – em torno da extração de recursos minerais que as terras indígenas abrigam na Amazônia, vem de público manifestar.

    Primeiro – A COIAB declara-se indignada pela forma autoritária e truculenta como a questão é tratada e encaminhada, ignorando radicalmente os direitos fundamentais e coletivos dos povos indígenas, reconhecidos pela Constituição Federal e reafirmados por tratados internacionais, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e a Declaração da ONU sobre esses direitos.

    Segundo – A COIAB repudia nesse sentido o acordo assinado pela Secretaria Estadual dos Povos Indígenas (SEIND), do Estado do Amazonas, na segunda-feira 29 de agosto, com a empresa mineradora canadense Cosigo Resources Ltda, que tem o propósito de realizar um inventário das potencialidades de mineração de terras indígenas no Estado.

    O "Projeto de Extrativismo Mineral no Estado do Amazonas", intermediado pela Secretaria de Estado de Mineração, Geodiversidade e Recursos Hídricos (SEMGRH) pretende abranger as terras indígenas das regiões dos rios Içana e Tiquié, no Alto Rio Negro, e Apaporis, no rio Japurá.

    Terceiro – O Acordo, ao contrário do declarado pela assessoria de imprensa da SEIND, para o Jornal A Crítica, não obedece à legislação brasileira, convenções e tratados internacionais. O Ato ignorou totalmente o fato de a questão da mineração em terras indígenas ainda não ter sido regulamentada pelo Congresso Nacional, dependendo do cumprimento de acordo consensuado entre o Governo Federal e o Movimento Indígena brasileiro no âmbito da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), segundo o qual todos os aspectos que afetam a vida dos povos indígenas, incluindo o da mineração, deverão ser tratados no Novo Estatuto Povos Indígenas, a lei infra-constitucional que deve regulamentar o capítulo da Constituição Federal relacionada aos direitos indígenas.

    Quarto – A mineração não é uma questão de consenso entre povos e comunidades indígenas, e por momentos aparece mais como uma questão de interesse pessoal de indivíduos residentes há algum tempo em cidades. É por tanto muito delicado e preocupante a decisão de órgãos de Governo, mesmo presididos por indígenas, de sair por ai negociando e falando em nome desses povos, muitos dos quais já vivenciaram ou sofrem até hoje as conseqüências desastrosas desta atividade, seja ela empresarial ou garimpeira.

    Nesse sentido, a COIAB reafirma o seu apoio à carta de repúdio divulgada pela Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro (FOIRN) contra o acordo assinado pela SEIND. A FOIRN denuncia o fato de não ter havido diálogo com as lideranças locais e com a organização indígena, conforme é falsamente divulgado.

    Quinto – A afirmação do representante da empresa canadense, Andy Rendle, de que a atividade mineradora não causará impacto ao meio ambiente e de que os projetos irão beneficiar as comunidades é notadamente um discurso de persuasão, pois em lugar nenhum do mundo, grandes empreendimentos deixaram de provocar impactos sócio-ambientais irreversíveis. E quanto aos benefícios, sabe-se bem quais são os mais comuns: divisão nas comunidades, conflitos internos, problemas sociais (prostituição, alcoolismo, drogas etc), descaracterização cultural, entre outros. E quanto aos lucros, evidentemente milionários, nem precisa falar, sobram para os donos do capital envolvidos e outros beneficiários que não as comunidades indígenas.

    Sexto – O compromisso das partes em constituir, junto às comunidades indígenas, organizações e lideranças a "Anuência Prévia e Consentimento Esclarecido" implica na usurpação de uma competência da União, pois a questão indígena é de responsabilidade federal. Por outro lado, o Projeto de Lei relacionado aos assuntos de "interesse relevante da União" ainda não tramitou no Congresso Nacional e o direito dos povos indígenas à consulta livre, previa e informada, estabelecido pela Convenção 169 da OIT (Artigos 6 e 7), ainda não foi regulamentada pelo governo brasileiro.

    Sétimo – Sem ir muito longe, considerando o exemplo da Hidrelétrica de Belo Monte, a promessa de projetos de apoio, inclusive antecedendo o início dos empreendimentos, visa certamente cooptar e dividir lideranças e comunidades, e condicionar a dita "Anuência Prévia e Consentimento Esclarecido", isto é, para que as comunidades aprovem depois sem muita resistência à implantação da pesquisa e a exploração mineral nas suas terras, incorporando-se inclusive ao batalhão de mão de obra, explorada, requerida pelas empresas.

    Diante de todos esses fatos, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB se manifesta SOLIDÁRIA com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN e aos povos indígenas afetados, para que iniciativas como estas não voltem a se repetir, em respeito à autonomia, os direitos constitucionais e originários dos nossos povos.

    Manaus, 15 de setembro de 2011.

     

    MARCOS APURINà                                           SÔNIA GUAJAJARA

    Coordenador Geral da COIAB                           Vice Coordenadora da COIAB

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  • 19/09/2011

    No meio do redemunho, Btyre e os xinguanos

    Arikafu Xipaia, foto de Thomas MillerDesentendimentos na imposição do projeto da usina de Belo Monte

    Por Oswaldo Sevá*

    O riozão verde garrafa vem do planalto matogrossense coletando as águas do Batovi, Curisevo, Sete de Setembro, Culuene e tantos outros até chegar ao Pará e desaguar no rio Amazonas. Passa pela morada dos sobreviventes dos povos Kayabi, Kuikuro, Ikpeng, Kamaiurá, Yawalipiti, Suyá. Todos agrupados no Parque Indígena do Xingu na época dos lendários irmãos Villas Bôas – sertanistas responsáveis pela criação da reserva nos anos 60. "Parque" que é a imagem, a marca registrada do Xingu.

    Rio de índios, há dois mil anos o Xingu foi dos Yudjá, que chamamos hoje de Juruna. No século passado foi conquistado na força da flecha e da borduna pelos Mbengokre, que chamamos de Kayapó. Agora, juntos, eles disputam o rio com madeireiros, garimpeiros e os perigosos barrageiros. Estes últimos ressurgiram em 2009 com força e poder de mudar o curso do rio para sempre, com seus altos paredões que desviam a correnteza para as turbinas engolirem as águas caudalosas do Xingu para a geração da mágica eletricidade, de que todos os brancos e até mesmo os índios gostam. Eletricidade esta que as grandes empresas adoram – fonte de lucros certeiros, ainda mais com contratos bem ajeitados.

    Mas parece que os Juruna não gostam nada da ideia da usina, só alguns. Nem os Kayapó, que chamam Btyre o Xinguzão, querem perder seu fabuloso rio. Dos Metuktire, que vivem perto da divisa do Mato Grosso com o Pará, aos Mekragnoti, que moram rio abaixo, além dos muitos Xikrin, da testa raspada e moradores da região de São Félix, todos se juntam para lutar contra o inimigo comum: Belo Monte.

    Em Altamira, principal cidade da região, começa a esplêndida Volta Grande do Xingu, toda encachoeirada. Ela abriga os ribeirinhos dos pedrais coloridos e lindas praias douradas. É também morada dos exploradores de igarapés, comedores de macacos e catetos. Dos coletores de castanha, os Parakanã, exilados do rio Tocantins há 30 anos pela represa de Tucuruí. Abriga ainda os Araweté, os Asurini, e mais e mais Juruna, Arara, Xipaia. Na cidade, na luta de todos os pobres, continuam os índios, que vão e voltam das aldeias, fazem enfeites, pescam, vão ao hospital, se viram.

    Todos eles enredados no redemunho das conversas de certos velhos "indigenistas" da Funai. Enrolados, ou não, nas cantadas de cooptação dos brancos da Eletrobras, da Eletronorte, das consultorias Cnec, E-Labore, Leme – interessados no sucesso do grande investimento capitalista. Gente besta, espertinha, que há anos assedia os índios e os demais xinguanos para concordar e achar linda a maquete do rio todo barrado. Querendo e podendo fazem, ora, como em Itaipu, Paulo Afonso e alhures. Mas no Xingu, precisam também do apoio do povo. Flexibilizá-lo, pois.

    Lembramos por vezes dos índios, no estrelato das câmeras e holofotes, quando se reúnem coloridos e bravos. Quase nunca lembramos justo, destratamos a memória, sem lhes dar o mérito da humanidade e da precedência nessa terra linda. Os que estavam antes de nós todos, que conseguiram não morrer dos massacres de bala e faca, bactérias e vírus levados por nós – que nos achamos civilizados.

    No dito Estudo de Impacto Ambiental, "componente indígena" virou "objeto", enquanto "a obra", notou o antropólogo e amigo há mais de 20 anos Eduardo Viveiros de Castro, virou "sujeito". A total inversão de conceitos e valores. Só a obra interessa. Suprema. E eles – os índios – interferem. Querem o rio para eles e para todos. São "impactados".

    O Ibama, que cuida só de bicho e de planta, agora tem que consultar a Funai para ver se o "impacto" nos humanos índios será direto ou indireto, de curto, médio ou longo prazo. Mitigado ou compensado. Se a tal oitiva foi feita ou não. Claro que não foi. Ou foi enganosa. E quando os procuradores contestaram, os interessados compraram desembargadores e derrubaram as ações. Quando a Organização dos Estados Americanos disse que os direitos humanos foram violados aqui, os entreguistas conhecidos apareceram patriotas e repudiaram a "intromissão" internacional. Jornalistas obcecados por partidos políticos acusaram a oposição – que neste item inexiste.

    Pergunto-me se a burocracia do Estado e se o serviço caro de grandes empresas e escritórios escutam bichos. Entendem a voz das plantas, talvez? Sabem que Btyre é velho, da era quaternária, e novo a cada inverno bem aguado? Que seu leito e calha têm pedras lindas, cavernas fundas, rochas pontudas, craquentas feito corais, que fazem rebojo na água de cima? Que Btyre tem almas e humores? Sabem nada. Têm apenas que "minimizar", "compensar". Tudo para fazer o que não deviam.

    Nem mesmo os engravatados, que mediram as águas e as quedas do rio tantos meses e anos em tantos locais, escrevem números confiáveis sobre Btyre. Números que só servem para dizer que a coisa, ou seja, a hidrelétrica, depois de pronta funcionará. Mas quem garante ficar pronta? Quem garante produzir o que prometem? Se construída, colocam máquinas extrapossantes, capazes de gerar mais de onze milhões de kilowatts – quase 10% de tudo instalado no país. Incrível, mas os projetistas se esquecem que nos verões xinguanos terão de desligar quase todas as caras máquinas, garantindo apenas um milhão e pouco de kilowatts. Terceira maior do mundo? Só se for na mentira! Decretaram fazer "só essa usina" no Xingu. Mentira também. Há 30 anos estudam e desenham outras quatro, cinco no mesmo riozão. E se fazem uma, fazem todas! Assim é, não há contraexemplo.

    Tanta gente escrevendo, falando, dando pitaco, papagaiando: os da época da ditadura cruel inventaram a coisa, e também os menos velhos, que eram contra, agora bandearam doutro lado. Vai entender!

    Temos que acreditar que só pensam em enquadrar o Xingu e a gente xinguana para o bem geral da nação? E que nação somos, então?

    Sou contra este projeto desde 1987, quando comecei a decifrar o diabo no meio do redemunho. Mesmo que nenhum índio fosse afetado, milhares de outros brasileiros já estão sendo infernizados com a especulação barrageira. Uns 30 mil ou mais serão prejudicados, incluindo colonos antigos, assentados nos travessões da Transamazônica e todos os moradores da cidade de Altamira.

    Que não houvesse milhares de seres humanos atingidos, que não fossem para baixo d’ água e das obras mais de 60 mil hectares de Amazônia pouco desmatada, junto com um dos maiores monumentos fluviais do mundo, mesmo assim, continuaria contrário a Belo Monte. E muitos mais brasileiros terão boas razões para batalhar contra a implantação desse desatino: Serão extorquidos 40 ou 50 bilhões de reais do nosso dinheiro público por uma minoria de poderosas empresas do mundo globalizado. E com isso o capitalismo tupiniquim continua a se reproduzir no que tem de pior, aprofundando sua conhecida e mal afamada desigualdade socioeconômica, uma das dez piores do mundo. Como o diabo no meio do redemunho.

     

    *Oswaldo Sevá é engenheiro, doutor em Geografia e professor da Universidade de Campinas (Unicamp). Estuda projetos de hidrelétricas há 36 anos e o projeto da usina de Belo Monte há 23.

     

    Para ler

    "Hidrelétricas do Xingu, o Estado contra as sociedades indígenas", de Eduardo Viveiros Castro e Lúcia.Andrade, capítulo do livro "As hidrelétricas do Xingu e os povos indígenas" (1988, Comissão Pró – Índio de SP), de L. Santos e L. Andrade (orgs.).

    "Belo monte de mentiras! A história nada exemplar dos projetos hidrelétricos no maravilhoso rio Xingu, inventados pelos mafiosos e herdeiros da ditadura militar", de Oswaldo Sevá. Publicado em outubro de 2009 no site http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=69&Itemid=179

    "Tenotã Mõ. Alertas sobre as conseqüências dos projetos de hidrelétricas no rio Xingu", de Oswaldo Sevá (org). (2005, São Paulo: IRN – International Rivers Network. Arquivo disponível em www.internationalrivers.org/files/Tenotã-Mõ.pdf e no sitio do autor www.fem.unicamp.br/~seva

    "Painel de Especialistas – Análise crítica do Estudo de Impacto Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Belo Monte". Arquivo disponível no site www.xinguvivo.org.br

     

     

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  • 19/09/2011

    As condições de trabalho nos canteiros de obras das hidrelétricas

    Instituto Humanitas Unisinos (IHU)  

    Apesar de terem recebido mais de mil autuações do Ministério Público do Trabalho por causa do descumprimento des leis trabalhistas, as obras da construção das hidrelétricas do Complexo do Rio Madeira não foram interditadas. O descumprimento da legislação trabalhista é recorrente nos canteiros de obras que chegaram a concentrar 20 mil trabalhadores no auge da construção.

    De acordo com José Guilherme Zagallo, advogado e relator da Plataforma Dhesca, os trabalhadores reclamam das precárias condições de trabalho, do tratamento diferenciado entre os funcionários e da infraestrutura dos alojamentos. “Disseram que existe uma espécie de incentivo a um cartão fidelidade para aqueles trabalhadores que não faltam ao trabalho, não adoecem, não folgam. Eles recebem um pagamento adicional. Ficamos preocupados porque ações como essas podem estimular os trabalhadores a omitirem doenças e a trabalharem sem condições para não ter redução de renda”, assinala Zagallo na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone.

    A população que vive no entorno das obras do Complexo do Rio Madeira, Santo Antonio e Jirau, também está sendo afetada pela construção das hidrelétricas. "Dizem que a renda piorou com o início das obras em função da diminuição do pescado e também porque a área agrícola para a qual eles foram remanejados é inferior a que possuíam. Eles foram removidos para um grande conjunto habitacional distante da beira do rio”, conta.

    Na avaliação de Zagallo, o descumprimento da legislação trabalhista ocorre porque os consórcios responsáveis pela construção das obras querem antecipar o funcionamento das hidrelétricas. Ele explica: “Se o consórcio antecipar a conclusão das obras, a energia que é gerada nessa antecipação pertence ao dono do empreendimento e ele pode vendê-la ao mercado livre, ampliando a rentabilidade do seu investimento”.

    José Guilherme Zagallo é conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil– OAB.

    Confira a entrevista:

    IHU On-Line – O que é a Plataforma Dhesca? Que atores sociais participam desta organização e como ela tem acompanhado os trabalhadores das Usinas do Rio Madeira?

    José Guilherme Zagallo – A Plataforma Dhesca é uma iniciativa da sociedade civil, mais especificamente do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, inspirada na experiência das relatorias de direitos humanos da ONU. Os relatores são voluntários, escolhidos para mandatos de dois anos, em um conselho de seleção que tem entidades da sociedade civil, mas também participam pessoas de agências multilaterais com sede no Brasil, como as agências da ONU, do próprio Ministério Público Federal, da comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e do Senado.

    A Plataforma Dhesca realiza missões de monitoramento. O projeto começou em 2001 e hoje está na quinta geração de relatores, a qual termina no final do ano. A partir de denúncias apresentadas pela sociedade civil, realizamos missões de monitoramento sobre eventuais violações: já foram realizadas mais de 100 missões. Especificamente em relação ao tema das hidrelétricas, realizamos, em 2007-2008, uma missão de monitoramento no Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira, quando foi concedida a licença ambiental.

    Atuamos novamente na questão das hidrelétricas em 2010, quando saiu a concessão da licença ambiental de Belo Monte, e, este ano, após a revolta de Jirau.

    IHU On-Line – Em relação ao meio ambiente, quais são as principais denúncias feitas pela sociedade civil?

    José Guilherme Zagallo – Normalmente as missões acontecem após os incidentes ambientais. Mas também realizamos missões preventivas, como ocorreu em 2005, no Maranhão, contra uma iniciativa de construir três grandes usinas siderúrgicas na ilha de São Luis. A Plataforma fez uma missão de monitoramento e constatou que haveria uma lesão muito grande para as pessoas e para o meio ambiente, culminando pela não construção destas usinas.

    Já acompanhamos conflitos ambientais em Pernambuco, em função da plantação de cana-de-açúcar. Acabamos de lançar um relatório sobre a extração de urânio em Caitité, na Bahia, que tem contaminado os lençóis freáticos.

    IHU On-Line – O que caracteriza o trabalho em uma usina hidrelétrica?
    Qual a situação dos trabalhadores das usinas do Rio Madeira, Jirau e Santo Antônio? Em que contexto eles trabalham e quais são as condições de trabalho?

    José Guilherme Zagallo – Normalmente as usinas hidrelétricas são obras de grande porte, sobretudo essas que estão sendo construídas, porque tentam barrar rios que têm um volume de água muito elevado, como é o caso do Xingu, que chega a ter, em época de cheia, mais de 24 mil m³ de água por segundo.

    A obra de Belo Monte, se concretizada, prevê a presença de 20 mil trabalhadores. Jirau e Santo Antônio tinham, respectivamente, 19 mil e 21 mil trabalhadores no pico da obra. Quando a obra é finalizada, há um decréscimo em relação a este número. As condições de trabalho, no caso específico de Jirau e Santo Antônio, são muito ruins. Cada uma das obras já foi autuada mil vezes pelo Ministério Público do Trabalho em função do descumprimento de normas de segurança e saúde do trabalho.

    Ambas as hidrelétricas respondem ações do Ministério Público pelo descumprimento destas normas, sobretudo no que diz respeito ao intervalo de repouso entre as jornadas de trabalho e repouso semanal.

    As pessoas trabalhavam direto, sem obedecer aos limites da legislação de pelo menos 11 horas entre uma jornada e outra. Sete trabalhadores já morreram nessas obras.

    IHU On-Line – Os trabalhadores têm acesso a alojamentos, condições de moradia?

    José Guilherme Zagallo – Sim. No caso da obra de Santo Antônio, muitos trabalhadores residem em Porto Velho, porque a obra é próxima da cidade. No caso de Jirau, eles estão a 100 km de Porto Velho. Então, a maioria dos trabalhadores reside em alojamentos.

    Esses alojamentos, até a greve de 2010, comportavam oito pessoas e não tinham refrigeração, portanto, as condições eram precárias. Após a greve realizada em 2010, foram instalados ar- condicionados; houve alguma melhoria na condição da infraestrutura física.

    Os trabalhadores reclamam de tratamento diferenciado entre os funcionários: aqueles que eram contratados em outros estados, diretamente pela empresa, tinham, por exemplo, a cada noventa dias, uma folga maior, que os possibilitava visitar os familiares. Aqueles que eram contratados por terceirizados, eram considerados como se fossem originários da região e, portanto, não tinham o direito a esta folga prolongada. Esta diferença de tratamento entre os trabalhadores foi um dos motivos da revolta de Jirau.

    IHU On-Line – Quem são esses trabalhadores? Eles têm experiência na área de construção civil? Eles têm consciência das péssimas condições de trabalho?

    José Guilherme Zagallo – Eles têm consciência, mas dada a demanda de mão de obra, as empresas admitem pessoas sem experiência, o que é um fator de risco, porque eles não são suficientemente treinados para o trabalho que desenvolvem.

    IHU On-Line – Existe assistência médica nos canteiros de obras?

    José Guilherme Zagallo – Existe um atendimento emergencial nos acampamentos. O problema maior é que, como existe uma concentração muito grande de pessoas, os acampamentos comportam muitos trabalhadores. Oito trabalhadores por quarto, como acontece nos alojamentos de Jirau e Santo Antônio, facilita a proliferação de viroses.

    IHU On-Line – Existe alguma legislação específica para este tipo de trabalho?

    José Guilherme Zagallo – Existem as normas regulamentárias do Ministério do Trabalho, mas são genéricas. A mesma regra que vale para a construção de um prédio de um cinco andares, vale para a construção de uma hidrelétrica e seus 20 mil trabalhadores.

    IHU On-Line – O senhor tem contato com os trabalhadores das usinas? O que eles dizem? Quais são, em sua avaliação, as maiores dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores de usinas?

    José Guilherme Zagallo – Quando estivemos em Porto Velho, entrevistamos trabalhadores que participam de sindicatos. Eles fizeram relatos que consideramos preocupantes: disseram que existe uma espécie de incentivo a um cartão fidelidade para aqueles trabalhadores que não faltam ao trabalho, não adoecem, não folgam. Eles recebem um pagamento adicional. Ficamos preocupados porque isto pode estimular os trabalhadores a omitirem doenças e a trabalharem sem condições para não ter redução de renda. Essa situação está sendo investigada pelo Ministério Público.

    IHU On-Line – Quais são as principais violações das leis trabalhistas nos canteiros de obras das hidrelétricas?

    José Guilherme Zagallo – A comunidade da região alega problemas nas compensações, nas indenizações das pessoas que foram removidas. Quase todos os ribeirinhos foram afetados. Eles dizem que a renda piorou com o início das obras em função da diminuição do pescado e também porque a área agrícola para a qual foram remanejados é inferior a que possuíam. Eles foram removidos para um grande conjunto habitacional distante da beira do rio. Imagina um pescador que tem que carregar suas tralhas para a beira do rio para exercer o seu ofício; isso influencia na condição de sua vida.

    No processo de construção das hidrelétricas, foi subdimensionado a migração populacional. A população atual de Porto Velho é 22% acima do que havia sido previsto no estudo de impacto ambiental. De um modo geral, os serviços públicos não estão preparados para enfrentar a demanda. Em abril, quando estivemos na região, encontramos aproximadamente 195 crianças fora da escola. Esse número já deve ter aumentado. Provavelmente essas crianças perderam o ano de estudo, o que é inadmissível.

    IHU On-Line – Algumas notícias mencionam que houve trabalho escravo nos canteiros de obras das hidrelétricas. O senhor tem conhecimento de casos como esses?

    José Guilherme Zagallo – Houve uma fiscalização por parte do Ministério do Trabalho, que encontrou um contingente de trabalhadores em condições análogas a de escravo em uma das obras. Houve autuação e foi feito um acordo para o pagamento das verbas rescisórias. O contingente de trabalhadores localizados foi pequeno, mas é preocupante na medida em que o governo considera as obras do Rio Madeira como exemplos de realização de empreendimentos sustentáveis. Entretanto, empreendimento sustentável não pode ter sequer um trabalhador em condição análoga à de escravo.

    IHU On-Line – O que dificulta o cumprimento das leis trabalhistas em obras de usinas hidrelétricas, por exemplo?

    José Guilherme Zagallo – As obras receberam mil autuações e, portanto, deveriam ter sofrido um processo de interdição. Então, ao mesmo tempo em que se identifica o exercício da fiscalização estatal, percebe-se que essa fiscalização está sendo insuficiente, porque a legislação é violada. O Estado brasileiro precisa se preparar para lidar com grandes empreendimentos.

    IHU On-Line – Quais foram os desdobramentos da revolta dos trabalhadores de Jirau?

    José Guilherme Zagallo – Depois da revolta, os trabalhadores conseguiram antecipar uma negociação: conseguiram receber um reajuste salarial acima da inflação e, sobretudo, tiveram uma uniformidade no tratamento em relação às folgas. Houve um compromisso de que haveria um tratamento mais justo, menos invasivo e agressivo por parte da empresa.

    O Estado participou dessas negociações: aconteceram reuniões no gabinete da Casa Civil, com a participação das centrais sindicais. De modo geral, as condições de trabalho tiveram uma melhora. Infelizmente, mesmo depois da revolta, um trabalhador morreu em função de um acidente de trabalho na construção da hidrelétrica do Rio Madeira. Isso mostra que ainda não existem condições ideais para a construção das hidrelétricas.

    IHU On-Line – Como o consórcio formado pela transnacional francesa Suez, pela Camargo Corrêa e pela Eletrosul reagiram diante das manifestações de protesto dos trabalhadores de Jirau, no início do ano?

    José Guilherme Zagallo – Primeiro, eles tentaram desqualificar os protestos, disseram que eram atos de vândalos, de trabalhadores infiltrados, com conotações de pessoas interessadas em realizar furtos nos caixas eletrônicos. Isso tudo está sob investigação. Mas o fato objetivo é que esta foi a segunda revolta dos trabalhadores. Eles já haviam se manifestado em 2010, na hidrelétrica de Santo Antônio, em função do elevado índice de autuações.

    O descumprimento da legislação mostra que, diferentemente do que foi divulgado pelos consórcios, as condições de trabalho nas obras de Jirau e Santo Antônio eram muito precárias. Tem algo de errado em uma obra que é autuada mil vezes.

    No caso específico de Santo Antônio e Jirau, as duas obras foram antecipadas porque, no modelo atual, se o consórcio antecipar a conclusão das obras, a energia que é gerada nessa antecipação pertence ao dono do empreendimento e ele pode vendê-la ao mercado livre, ampliando a rentabilidade do seu investimento. Se a antecipação da obra fosse feita com condições de saúde e segurança para os trabalhadores, não haveria problema nenhum, pois seria fruto da eficiência e da maior produtividade do empreendedor. No entanto, quando a obra é finalizada com antecedência, desconsiderando a saúde do trabalhador, traz a suspeita de que parte dessa antecipação se deu à custa de condições de saúde e segurança inferiores ao mínimo legal.

    IHU On-Line – Quais são as suas preocupações em relação à construção de Belo Monte?

    José Guilherme Zagallo – A grande preocupação dos movimentos nacionais de direitos humanos é que o que aconteceu em Jirau e Santo Antônio se repita, em uma escala ampliada e piorada, em Belo Monte. Se a violação de direitos aconteceu com tanta intensidade em uma cidade que fica a 150 km de Porto Velho, capital de Rondônia, o que acontecerá em Altamira, que fica a 1000 km de Belém? Altamira é uma cidade que tem condições precárias e deve dobrar de tamanho em função das obras. O estudo de impacto ambiental de Belo Monte indica que, dos 100 mil habitantes atuais, Altamira deve duplicar a sua população, receber outros 100 mil habitantes.

    Já se fala em construção de hidrelétricas no Rio Tapajós próximo a Santarém. É realmente muito preocupante essa intenção do governo de ampliar a oferta de energia elétrica, exclusiva ou prioritariamente pela construção de grandes hidrelétricas. O último leilão de energia mostrou que a energia eólica, em nosso país, já é competitiva. Então, o governo tem condições de investir em energias alternativas.

     

     

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  • 15/09/2011

    Informe nº 981: Vídeo revela negociata da Norte Energia para aprovação do projeto de Belo Monte no Pará

    Renato Santana

    de Brasília (DF)

     

    Circula pela internet vídeo captado por câmeras ocultas da TV independente Medialivre que revelam método utilizado pela Norte Energia S.A para angariar apoio ao projeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará (PA).

     

    Antes da emissão da Licença de Instalação (LI) da usina, empresários e políticos locais negociaram favorecimentos e troca de favores com a empresa Norte Energia, em troca do apoio ao projeto da barragem. 

     

    As cenas sugerem que a concessionária negociou e ‘facilitou’ a entrada do projeto em Altamira. O episódio ficou conhecido localmente como "mensalinho", em referência aos processos de corrupção que atingiram o Governo Federal.

     

    As imagens foram captadas entre fevereiro e março de 2008 e não têm sido utilizadas pela imprensa ou em processos contra a construção da usina. O esquema, no entanto, foi denunciado em Altamira pelo vereador Roosevelt Oliveira (PT).

     

    Conforme o parlamentar denunciou, em arquivos retirados do sistema de comunicação Santa Terezinha, foi feita uma negociação envolvendo empresários da cidade, a prefeitura de Altamira, vereadores e empreendedores construtores de Belo Monte.

     

    De acordo com a denúncia, compra de votos e pressões sobre vereadores foram outras táticas usadas pela Norte Energia para a aprovação da licença.

     

    Nomes como os de Marcelo Coimbra, Jader Barbalho, Domingos Juvenil, entre outros, estão citados na gravação – que ainda deixa subentendido que o comando geral das negociações está nas mãos do PSDB.

     

    Confira o vídeo:

     

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  • 15/09/2011

    Pastoral da Criança Indígena se reúne em Mato Grosso

    Cimi Regional Mato Grosso

     

    Estiveram presentes em Cáceres, Mato Grosso (MT), na chácara Santa Rosa, entre os dias 28 e 31 do último mês, 13 povos indígenas do Brasil e da Bolívia, para o encontro da Pastoral da Criança Indígena. Na apresentação, 38 representantes indígenas compartilharam suas expectativas e mostraram a vontade levar todo o aprendizado para as aldeias.

     

    A irmã Ada mostrou as origens da Pastoral da Criança na luta por uma terra sem males. Jesus veio à terra com uma missão: que todas as crianças tenham vida em abundância. Por isso, o cuidar das mães e das famílias. Chegaram dom Vilar e dom Gentil (responsável pela Pastoral da Criança no Regional MT) e todos os indígenas foram cumprimentá-los. Ao final, contaram como foi bom apoiar a Pastoral da Criança Indígena.

     

    Dom Vilar deu as boas vindas aos povos indígenas e se comprometeu a buscar uma vida digna para todos os indígenas. Dom Gentil diz que o trabalho junto a Pastoral da Criança Indígena é o mais especial dentro da sua assessoria e parabenizou a todos pelo trabalho que realizam.

     

    Ele fala que o Reino de Deus está em luta contra o projeto capitalista que quer a cabeça de João Batista e das crianças indígenas. Isso acontece todas as vezes que se invadem as terras indígenas e se roubam as riquezas que Deus colocou nestas terras. "Jesus Cristo veio com uma missão na terra: construir o Reino de Deus", disse Gentil.

     

    A Igreja e a Pastoral da Criança estão a serviço do Reino de Deus aqui na terra para um dia chegarmos todos aos céus! Dom Gentil trouxe de presente uma planta para a Pastoral da Criança (folha santa) que cresce mesmo se arrancada da terra. Tal qual os Chiquitanos: continuam a viver mesmo que expulsos de seu território tradicional.

     

    Dom Gentil ainda reforçou a missão de cada líder da Pastoral da Criança de “levar a força de Deus e a vida plena para cada criança com as quais vocês trabalham. Vocês também são Igreja fazendo este trabalho lindo, vida plena entre os membros de suas comunidades”.

     

    Irmã Lurdes trabalhou em sua fala a palavra pastoral – vinda dos dizeres de Jesus: “Eu sou o Bom Pastor que vai atrás da ovelha perdida”. A ovelha é como qualquer animal de estimação que recebe nome e acaba fazendo parte da família. Por isso, a pastoral vai atrás dos fracos, dos doentes, dos pobres para contribuir em favor das crianças. Todos da Pastoral da Criança receberam a missão de serem pastores. Como os pajés, os bispos, os padres, os líderes das comunidades.

     

    A leitura indígena

     

    Pajé Lourenço Ramos Rupe, do Portal do Encantado, explicou como recebeu o mandato de São João Batista para curar as crianças. Edgar Rikbaktsa consultou o Dono da Roça para saber como fazer o bem para outras comunidades e, como resposta, ouviu que tem que ter partilha de chicha, oração para que nada de ruim aconteça na derrubada, e assim tudo dá certo! Dentro da visão cosmológica, entra a relação com as pessoas que já se foram. A colaboração do pajé torna-se essencial. Também os novos precisam auxiliar com caçada, pescaria, alimentação adequada para um mutirão.

     

    Eurípia falou sobre a soberania alimentar e da preocupação com a qualidade dos alimentos. O caminho das sementes crioulas tem sua origem nas aldeias e passa de mão em mão. A semente pode ser doada para que todos a tenham e plantem para sustentar o nosso país.

     

    Em seguida, o coordenador regional do Conselho Indiginista Missionário (CIMI) no MT, Gilberto dos Santos, falou sobre os agrotóxicos. De acordo com ele, a soja foi mudada geneticamente para suportar mais veneno que as outras plantas e os passarinhos. Os indígenas são alijados das discussões e sofrem as consequências do uso de veneno – assim como toda sociedade envolvente. No entanto, qualquer pessoa pode fazer uma denúncia ao Ministério Público Federal e fazer a sua reclamação porque são os fiscais da lei.

     

    As indígenas Maria Neusa Rodrigues e Bakairi de Santa Ana falaram sobre o alimento nas aldeias. “Nós estamos nos sentindo fracos porque a gente já pegou o costume e os alimentos dos brancos. Não comemos mais como nossos pais e nossos avós. Já não bebemos mais a chicha com nossos antepassados”, disse Maria.

     

    “Nós temos grande preocupação com nossos filhos e gestantes, que não têm atendimento adequado pelos responsáveies pela nossa saúde – Fundação Nacional de Saúde (Funasa), em transição para a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e Fundação Nacional do Índio (Funai). Nossos filhos estão morrendo de desnutrição e por falta de atenção a saúde. Estamos  nos organizando para trabalhar com nosso povos para não aumentar os altos números de mortalidade dentro das nossas comunidades”, explicou Inata Tapi Kaiabi, da aldeia Sobradinho.

     

    Missa solene concluiu o encontro. O regresso foi em grande felicidade, pois todos partilharam os frutos da terra, os conhecimentos, as orações. Todos receberam a benção de dom Vilar.

     

     

     

     

     

     

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  • 12/09/2011

    Indígenas ocupam Dsei de Florianópolis por tempo indeterminado

    Renato Santana*

    de Brasília

     

    Cerca de 100 indígenas ocupam, desde a tarde de hoje (13), o Distrito Sanitário Indígena (Dsei) de Florianópolis (SC). A principal reivindicação é a anulação do edital de chamamento público da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde, para a contratação de serviços para a saúde indígena, pelo vicio de origem, em que apenas uma ONG em todo Brasil cumpria os requisitos exigidos.

     

    Para os indígenas dos povos Kaingang, Guarani e Xokleng, dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a abertura de concurso público deve substituir a criação de convênios com ONGs. 

     

    A mobilização começou com o fechamento da BR-101, em Biguaçu, na Grande Florianópolis. Pelos cinco estados, manifestações ocorreram de forma simultânea. O grupo interditou a rodovia no sentido Sul, no Km 190, em frente à aldeia, por volta de 14h, e o trânsito foi liberado às 15h, segundo informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Houve formação de fila de cinco quilômetros.  

     

    "Ficamos aqui até sermos atendidos. Estamos em quase 300 índios mobilizados e decidimos pela ocupação porque é uma forma de protesto. Teremos de ser ouvidos e atendidos no reivindicado em nossa carta (abaixo)", afirma Copacã Xoklen.

     

    O clima da ocupação é tranquilo. Mais cedo, a liderança Hyral Guarani denunciou as irregularidades do edital montado pela Sesai e reafirmou que os povos indígenas ficam mobilizados até serem atendidos.        

     

    Histórico

     

    Suspeita de fraude na licitação para contratação de serviços à saúde indígena, promovida pela Sesai gerou revolta entre indígenas do Sul e Sudeste do país.

     

    No último dia 9 de setembro, lideranças indígenas de todo sul e sudeste do Brasil se reuniram na aldeia Guarani em M’biguaçu (KM 190 da BR 101 na grande Florianópolis – SC) e após ter dado prazo ao MS, decidiram por organizar a série de protestos que terá inicio amanhã e se estenderá até a revogação do edital.

     

    Além do protesto em M’biguaçu e da ocupação, com mais de 300 indígenas, outros protestos foram realizados em todas as capitais do sul e sudeste.

     

    Os envelopes do Edital de Chamamento Público 001/2011, abertos em 1º de setembro, revelaram apenas uma ONG credenciada para atender a saúde indígena em todo Brasil. As mais de 20 ONGs inscritas, que já vinham prestando atendimento aos indígenas, foram desclassificadas.

     

    Os indígenas, por conta disso, reivindicam também concurso público para por fim a forma de atendimento via ONG – como vem sendo praticado atualmente.

     

    Há fortes indícios de favorecimento da ONG Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), ligada a Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, na qual o secretário da SESAI leciona no ensino a distância. Antes mesmo da abertura dos envelopes a SPDM já sabia que seria a única beneficiada.

     

    O próprio secretário tentava convencer os presidentes dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena (Condisi), na reunião do Fórum dos Conselheiros que antecedeu à abertura dos envelopes, que melhor seria ter uma única ONG atuando e com determinadas características, exatamente aquelas da SPDM. Os conselheiros alegam também que os indígenas não foram consultados sobre os critérios do edital, como prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

     

    Os indígenas solicitaram também ao Ministério Público Federal (MPF) que ajuíze uma Ação Civil Pública para anular o edital.

     

    São milhões de reais repassados pelo Ministério da Saúde à ONG vencedora da licitação para o atendimento à saúde indígena e pouco se reverte em atendimento direto aos povos indígenas.

     

    CARTA A POPULAÇÃO           

     

    Nós, indígenas Guarani, Kaingang e Xokleng, dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, representando nossas comunidades e nossas organizações, queremos manifestar publicamente nossa insatisfação e indignação com relação a política de saúde indígena e denunciar atos ilegais que vem sendo praticado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena – SESAI, órgão do Ministério da Saúde.

     

    Os fatos:           

     

    Em 11 de agosto de 2011 a SESAI lançou um Edital de Chamamento Público 001/2011, para contratação de ONGs para prestar serviços à saúde indígena. Os envelopes com as propostas foram abertos no dia 01 de Setembro. Para surpresa da maioria, apenas uma ONG estava credenciada para atender a saúde indígena em todo Brasil, ou seja, o edital foi elaborado para uma entidade apenas. As mais de 20 ONGs inscritas, que já vinham prestando atendimento aos indígenas foram desclassificadas.           

     

    Há fortes indícios de favorecimento a ONG paulista, Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina – SPDM, ligada a Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Antes mesmo da abertura dos envelopes a SPDM já sabia que seria a única beneficiada. O próprio secretário tentava convencer os Presidentes dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena – CONDISI, na reunião do Fórum que antecedeu a abertura dos envelopes, que melhor seria ter uma única ONG atuando e com determinadas características, exatamente aquelas da SPDM. O Fórum dos Conselheiros alega também que os indígenas não foram consultados sobre os critérios do edital, como prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

     

    Diante dos fatos acima exigimos:

     

    1 – Anulação do edital de chamamento público, pelo vicio de origem, em que apenas uma ONG em todo Brasil cumpria os requisitos exigidos;

     

    2 – Exoneração imediata do secretário da SESAI Antonio Alves;

     

    3 – Manutenção da força de trabalho e a ampliação dos recursos destinados a atenção à saúde indígena;

     

    4 – Autonomia aos Distritos Especiais de Saúde Indígena e implementação do Grupo de Trabalho para rediscutir os distritos;

     

    5 – Abertura imediata de licitação para concurso público, evitando assim a necessidade de convênio com ONGs.            

     

    Por fim, queremos nos manifestar perante a sociedade brasileira, que continuaremos lutando. Para fazer valer nossos direitos, estamos dispostos a desencadear um movimento com manifestações, bloqueios e ocupações que se seguirão até que sejamos escutados e nossas demandas atendidas.

     

    TI M’biguaçu, 13 de setembro de 2011

     

    Comissão Guarani Nhemongueta

    ARPIN – Sul

    ARPIN – Sudeste

    CEPIN

    CEPISP

    Conselho de saúde indígena regional de Guarapuava

     

     

    *Com informações do Cimi Regional Sul / Florianópolis (SC).

     

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  • 12/09/2011

    Carta dos atingidos por desastres climáticos ao povo brasileiro

    Nos dias 10 a 12 de setembro de 2011, nos reunimos em Brasília, Distrito Federal, para discutir as questões relacionadas aos desastres causados por eventos climáticos extremos que sofremos na pele em várias regiões do Brasil nos últimos anos. Foram enchentes, deslizamentos de terra, secas, tornados, chuvas de granizo, trombas d’água, mudança das marés, assoreamento de rios. Muitas pessoas morreram e muitos perderam tudo o que tinham na vida: suas casas, seus familiares e o fruto de seu trabalho. Esses eventos extremos são causados pela má utilização do solo, da água e do ar, emissão de gazes causadores do aquecimento global, desmatamento das florestas, dos mangues e das matas ciliares dos rios e nascentes, uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, queimadas, construção de grandes barragens hidrelétricas e usinas nucleares, falta de manejo adequado do lixo, poluição por resíduos domésticos e industriais, carcinicultura, monocultura em todas as suas espécies, como soja, eucalipto, pinus, cana e pecuária, e por fim por um modelo de desenvolvimento que visa o lucro acima de tudo, sem considerar as conseqüências para as vidas que são colocadas em risco pelas atividades que agridem o meio ambiente.

     

    Sabemos que os verdadeiros causadores dos fatores que levam aos desastres são as grandes indústrias, a produção e o uso de combustíveis fósseis, o agronegócio e as multinacionais todas em sua busca irresponsável por produtividade e lucro, o Governo Brasileiro que não prioriza a sustentabilidade em suas políticas públicas e que além de permitir, incentiva em todas as suas instâncias financeiramente as atividades destruidoras do meio ambiente. E por fim, os países ricos, grandes causadores das emissões de gases e que não aceitam reduzir suas emissões para evitar o agravamento do aquecimento do planeta.

     

    No entanto, quem sofre as conseqüências somos nós. Nas áreas vulneráveis os governos tratam a questão com descaso. As políticas de defesa civil não são implementadas, os sistemas de alerta de desastres não funcionam, os governantes usam de forma demagógica o sofrimento das pessoas, e quando os desastres acontecem, a maior parte dos recursos públicos enviados para as comunidades não chegam aos necessitados. Até mesmo parte das doações enviadas por solidários de todos os cantos do país e do mundo são desviadas por autoridades corruptas e desalmadas.

     

    Agradecemos de todo o coração a solidariedade enviada pelas boas pessoas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo que se sensibilizaram perante o nosso sofrimento enviando donativos que, quando chegaram a nós, ajudaram a amenizar as nossas dores e a aquecer os nossos corações, renovando as nossas esperanças naquele momento angustiante de tão grandes perdas.

     

    Pedimos à sociedade que se una a nós no esforço de buscar alternativas que evitem que milhares de outras famílias venham a sofrer as dores que sentimos e que ainda estamos sentindo, pelas consequências dos desastres que nos atingiram. É preciso seriedade dos 3 níveis de poder no tratamento da questão ambiental. Precisamos também reduzir as emissões de gases que provocam o aquecimento global interferindo no clima e causando os eventos extremos. Precisamos mudar o modelo de desenvolvimento, baseado no consumo desenfreado, e buscar alternativas que objetivem a sustentabilidade e a racionalidade na produção e no consumo de produtos e ainda na geração de energia, buscando uma relação harmônica com a natureza. Precisamos praticar o bem-viver. Precisamos que a sociedade se una a nós na criação de um movimento nacional que dê o passo seguinte nessa luta. Pressione os governos para criar políticas publicas que reduzam a vulnerabilidade das comunidades, aumentem as instancias de participação popular, implementem sistemas de prevenção, salvação e reconstrução.

     

    A luta por justiça social, dignidade e respeito no nosso pais é árdua. Nosso compromisso é lutar pela melhoria das condições de vida dos atingidos e para evitar novos sofrimentos com os eventos extremos causados pelas mudanças climáticas.

     

    Brasília, 12 de setembro de 2011.

     

    Atingidos e atingidas por eventos climáticos extremos dos seguintes Estados:

    Maranhão, Piauí, São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Alagoas, Santa Catarina, Pará, Rio Grande do Sul, Amazonas, Bahia, Sergipe, Ceará, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Mato Grosso.

     

     

    Seminário Nacional de Atingidos por Eventos Climáticos Extremos: Documento às autoridades

     

    Somos representantes de comunidades e localidades atingidas por diferentes eventos extremos de mudanças climáticas: enchentes, deslizamentos de terra, secas, tornados, chuvas de granizo, trombas d´água, mudança das marés, assoriamento de rios. Viemos de todas as regiões e biomas do país, do Rio Grande do Sul até a Amazônia, para participar do Seminário promovido pelo Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social nos dias 10 a 12 de setembro.

     

    Decidimos elaborar o presente documento, que apresentamos às autoridades como ponto de partida para uma interlocução sobre a realidade vivida e os direitos das pessoas e comunidades atingidas por eventos climáticos extremos.

     

    1. A realidade

     

    1.1. Já faz décadas que se discute a problemática da degradação ambiental e suas trágicas conseqüências sobre todos os seres vivos e sobre a própria Terra. Está cada vez mais claro que o modelo de desenvolvimento econômico e político dominante, baseado no incentivo à produção e ao consumo crescente de mercadorias que geram renda e riqueza cada vez mais concentradas, está diretamente relacionado ao aquecimento do planeta por causa do uso de fontes fósseis para produzir a energia de que se alimenta, da continuidade do desmatamento e da degradação dos diversos biomas, e da promoção do um consumismo que pouco tem a ver com as necessidades reais das pessoas.

     

    Esse modelo é promovido também com recursos públicos e muitas vezes apoiando empresas que se estabelecem em áreas de preservação ambiental, promovendo desapropriações, desemprego, deslocamento de comunidades, além, é claro, dos prejuízos ambientais: poluição de águas e do solo por substâncias químicas.

     

    1.2. A troca de experiências nos mostrou que o apoio que mais ajudou a enfrentar os dramas dos atingidos foi a solidariedade praticada entre as próprias pessoas vítimas dos desastres socioambientais. Foi importante igualmente a solidariedade de igrejas e de entidades que se fizeram presentes desde o início do nosso sofrimento. Sentimos que a solidariedade de povos mais distantes, nacionais e internacionais, presente nos primeiros dias dos desastres, mas que diminuiu logos depois, quando também os meios de comunicação deixaram de mostrar imagens e dar notícias, muitas vezes com caráter de espetáculo.

     

    1.3. Não se pode dizer a mesma coisa dos órgãos públicos, que deveriam cuidar da vida e dos direitos dos cidadãos e cidadãs. Em geral, são omissos, contam com pessoas despreparadas e só se fizeram presentes depois de pedidos insistentes, e limitaram-se ao apoio no momento das emergências. Tendem a fazer o mínimo possível e, ainda assim, fazem uso eleitoral e não alcançam a todas as pessoas. Para a reconstrução da infra-estrutura da vida, na cidade e no campo, só atuaram a partir de pressões, e ainda assim, com projetos executados, quase sempre, sem participação das comunidades atingidas e depois de muito tempo transcorrido, com superfaturamento das obras, com baixa qualidade e, ainda o, com pouca transparência.

     

    1.4. Para enfrentar os problemas, as comunidades organizaram-se em Associações, Comissões, Mutirões e Movimentos Sociais, contando com ajuda de entidades que se fazem presentes, como a Cáritas, a CPT e outras. Isso ajudou a encaminhar reivindicações e lutas pelos direitos de todas as pessoas e famílias atingidas. Foi através delas que se conseguiu, junto com a superação da dor, descobrir oportunidades positivas de avanços na busca dos direitos.

     

    1.5. Com ações dos atingidos, da sociedade e do setor público, e em especial com trabalho de voluntários, as necessidades imediatas foram superadas, mas falta recuperar a infraestutura física – casas, áreas de trabalho agrícola e outras fontes de renda – e o equilíbrio psicológico de muitas pessoas.

     

    2. Desafios

     

    O intercâmbio de práticas e a reflexão crítica realizadas neste Seminário nos ajudaram a identificar os seguintes desafios:

     

    2.1. A conquista e promoção de políticas públicas de prevenção de desastres, garantindo o direito à saúde, à educação, à moradia, à segurança alimentar, ao saneamento básico, ao meio ambiente sadio, o acesso à terra de trabalho e de moradia, via reforma agrária e reforma urbana;

     

    2.2.  O respeito ao direito e a capacidade de se indignar, sem repressão;

     

    2.3. A urgência da demarcação e titulação dos territórios dos povos tradicionais: indígenas, das comunidades quilombolas, ribeirinhos, pescadores, camponeses;

     

    2.4. A necessidade de alcançar alternativas de produção e de trabalhos que gerem renda e dignidade, especialmente para os jovens;

     

    2.5. A necessidade de que haja informação e formação junto às comunidades, para que tenham consciência de seus direitos e não sejam iludidas por propostas falsas;

     

    2.6. A participação nas instâncias de decisão em relação ao que é planejado em favor dos atingidos/as, evitando que as decisões venham de fora e de cima para baixo;

     

    2.7. Garantir que as ajudas solidárias cheguem a todos os atingidos/as com rapidez e eficiência;

     

    2.8. Luta por políticas públicas básicas e estratégicas de boa qualidade e com continuidade para os tempos de emergência e para a reconstrução das condições de vida pós-desastres socioambientais;

     

    2.9. Chamar atenção e agir em relação a questões que não são emergenciais, mas são situações extremas permanentes, como é o caso do lixo, do esgoto, e para as emergências sociais, que fragilizam a vida de forma permanente;

     

    2.10. Garantir atendimento psicológico das pessoas atingidas, de modo especial os jovens, os idosos e os deficientes;

     

    2.11. Cuidar que haja visibilidade igual de todos os eventos de desastres socioambientais;

     

    2.12. Apontar claramente as responsabilidades pelas mudanças climáticas, evitando culpabilizar os empobrecidos;

     

    2.13. Mudança no atual modelo cultural, de produção e de consumo;

     

    2.14. Garantir o diálogo permanente e eficiente entre o poder público e as comunidades atingidas e/ou vulneráveis.

     

    3. Propostas

     

    Olhando para o futuro, a partir de nossas necessidades, nossas práticas e direitos, propomos:

     

    3.1. Que seja implementada uma política pública de educação ambiental de caráter permanente em todos os espaços da vida social, e que seja incorporada nos currículos escolares;

     

    3.2. Que o poder público assuma efetivamente suas responsabilidades em relação às áreas de risco de desastres socioambientais, tanto em ações preventivas como em ações de recomposição das condições de vida das vítimas;

     

    3.3. Que seja implementada uma política pública de mapeamento das áreas de risco e áreas de crimes ambientais nas diferentes regiões, e que esse conhecimento se seja incorporado no Plano Diretor dos municípios e nos planejamentos estaduais e federal;

     

    3.4. Produção de estudos e pesquisas nas águas que desembocam no mar para verificar os casos de salinização ou adocinamento;

     

    3.5. Garantir que a legislação ambiental seja cumprida e fiscalizada, e que áreas de preservação permanente não sejam degradadas;

     

    3.6. Garantir o reconhecimento e a regularização do território pesqueiro como espaço fundamental da reprodução social das comunidades pesqueiras;

     

    3.7. Que se amplie para todo o país, e como política pública, a construção de cisternas caseiras, como garantia de água de qualidade;

     

    3.8. Que sejam criadas Comissões de Defesa Civil, com pessoas preparadas, equipadas e com autonomia em relação aos governos nos diversos níveis, e que elas tenham um programa preventivo, e que sejam facilitada a criação dos núcleos de defesa civil;

     

    3.9. Que haja uma política pública prioritária baseada nos princípios da produção agroecológica;

     

    3.10. Que seja implantada uma política de incentivo à construção de edificações adequadas, capazes de resistir aos eventos climáticos extremos;

     

    3.11. evitar edificações em áreas de risco, promovendo, de forma participativa democrática, a reinstalação em outras áreas, quando necessário, sempre respeitando todos os direitos das pessoas e famílias envolvidas;

     

    3.12. Implementar política pública de preservação das matas e dos manguezais existentes e de incentivo e exigência de recomposição da mata ciliar nas beiras de córregos, rios e lagos de responsabilidade pública e privada e replantio de matas nativas em matas nativas, sobretudo nos manguezais;

     

    3.13. Desenvolver política de comunicação capaz de evitar que as pessoas sejam surpreendidas por eventos extremos em áreas de risco e criar centros de referência para acolhimento das vítimas;

     

    3.14. Não permitir e, menos ainda, financiar a implantação de grandes projetos em áreas das comunidades tradicionais e camponesas, bem como grandes empresas que crescem desmedidamente por meio de monocultivos, devastando grandes áreas e contaminando o ambiente da vida;

     

    3.15.   Que seja constituído e mantido, nas três esferas de governo, um Fundo de Emergências, e que sua gestão seja compartilhada com a sociedade civil, especialmente através das entidades e pastorais que atuam em situações de desastre socioambiental;

     

    3.16. Que as casas para as famílias que as perderam em desastre ou quando são removidas de áreas de risco sejam planejadas com participação delas, garantindo seu direito a uma habitação digna sem violência e sem incidência de dívidas futuras;

     

    3.17. Manutenção do atual Código Florestal, garantindo às comunidades camponesas e tradicionais, povos quilombolas e indígenas as condições de continuar em seus territórios, produzindo e respeitando a natureza, com políticas públicas adequadas, incluindo o pagamento por serviços ambientais;

     

    3.18. Que os crimes ambientais por desmantamento, envenenamento, contaminação do meio ambiente, contaminação genética sejam considerados crimes contra a humanidade, e que as áreas envolvidas sejam destinadas à reforma agrária ou urbana, garantindo a recuperação dos efeitos do crime sobre o meio ambiente.

     

    3.19. Garantir acesso à terra através da reforma agrária para todas as famílias sem terra, garantindo todas as condições necessárias para permanecer na terra;

     

    3.20. Que os órgãos de pesquisa do Estado não estejam a serviço das grandes empresas para pesquisa de transgênicos, garantindo total comprometimento da pesquisa com a produção de alimentos saudáveis;

     

    3.21. Redução da produção de energia hidroelétrica, substituindo-a por energia solar, eólica e dos movimentos naturais das águas, produzida de forma descecentralizada, com a participação e em benefício das comunidades, diminuindo a poluição ambiental.

     

    3.22. Desenvolver política pública que agilize o repasse de verbas para a assistência e reconstrução das condições de vida dos atingidos, e ainda, que as comunidades tenham participação na gestão destes recursos.

                                      

    Brasília, DF, 12 de setembro de 2011.

     

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