• 05/12/2011

    Muita terra para quem?

    Gilberto Vieira dos Santos, conselheiro do Cimi Regional Mato Grosso

    Inácio José Werner, coordenador do Centro Burnier de Fé e Justiça

     

    A utilização de dados estatísticos vem servindo, há alguns anos e cada vez mais, para inúmeros fins. Desde a loja que publica números estratosféricos de vendas, de clientes, ao candidato que, antes e durante as eleições, divulga pesquisas feitas por um instituto de pesquisa qualquer em que o tal candidato sempre aparece bem cotado. Claro, há institutos de pesquisas sérios como o conhecido Ibase, fundado pelo já saudoso sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Contudo, um pipocar de institutos de pesquisas vem servindo, dependendo do gosto e das demandas do freguês, para uns e outros interesses.

     

    Vejamos os recentes dados publicados pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária, que vem sendo utilizado pela Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato). Antes, um parêntese: as duas instituições são presididas pela mesma pessoa. Esta pesquisa, focando estrategicamente as terras indígenas de Mato Grosso, não tem outro objetivo senão buscar elementos para afirmar ou reafirmar, que os povos indígenas “têm terras demais”. Ou, de outra maneira: ‘é muita terra para pouco índio’ (sic).

     

    Os dados da tal pesquisa também têm por objetivo, fato claramente expressado nas palavras de José Riva, deputado que certamente é filiado à federação citada, reafirmar que o governo brasileiro demarca a revelia as terras indígenas ou que estas demarcações colocam em risco seus “agro-negócios”.

     

    Outro fato que demonstra a intenção articulada entre Famato, o presidente da Assembleia Legislativa, José Riva, e o governador Sinval Barbosa, de barrar a demarcação ou retirada de terras indígenas, aconteceu no dia 15 de setembro. Em comitiva, solicitaram ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que as demarcações em Mato Grosso fossem avaliadas a partir de um dossiê a ser elaborado por um grupo de trabalho que todos já sabemos como seria formado ou pelo menos imaginamos. Embora a criação deste grupo tenha sido citada em matéria da Secom/Assembleia Legislativa de Mato Grosso, a Assessoria de Comunicação do Ministério da Justiça divulgou, dias depois, nota em que esclarece que o tal grupo não foi pauta da reunião.

     

    Afirmar que são terras indígenas demais, nada mais é do que a tentativa de maquiar a verdade mais gritante que é o fato de o latifúndio ainda imperar nestas terras.

     

    Senão vejamos: o último Censo Agropecuário de 2006 apresenta 3.638 latifúndios no Estado, todos com área acima de 2.500 hectares, num total de 28.639.419 hectares. Em outras palavras, 61% das terras, propriedades rurais regularizadas de Mato Grosso, está nas mãos de uns poucos. Multipliquemos estes latifúndios por quatro pessoas e teremos 14.552 pessoas vinculadas aos mesmos.

     

    E as terras indígenas? Segundo dados do Censo 2010, a população indígena com domicílio rural é formada por 36.717 pessoas, que a Famato diz que poderiam ter 16.000.000 de hectares de terras. Mesmo sabendo que a população indígena é muito maior, mas para mantermos os dados com os quais trabalha a dita pesquisa, vejamos:

     

     

    Área em hectares

    População

    Área por pessoa

    Latifúndio

    28.639.419

    14.552

    1.968

    Indígenas

    16.000.000

    36.717

    436

     

    Quem afinal tem muita terra? Não poderíamos dizer que ‘é muita terra para pouco branco’? O ‘branco’ latifundiário tem 4,5 vezes mais terra que o ‘índio’.

     

    Tratemos agora das demarcações. Diferentemente do que querem fazer crer os representantes do latifúndio, o processo de demarcação de uma terra indígena é longo e este sim, afronta a Constituição Federal já que o texto de 1988 estipulava o prazo de cinco anos para que todas as demarcações fosse realizadas. Assim, não sendo efetivadas em seu todo, não se pode falar em excessos, mas em letargia. Não fosse isso e as demarcações distorcidas, os territórios de vários povos indígenas de Mato Grosso estariam com suas situações resolvidas. Neste aspecto não podemos esquecer também que Blairo Maggi, quando governador em 2006, solicitou ao então ministro da Justiça que as demarcações fossem suspensas, sob o mesmo “argumento” de que estas impediam o desenvolvimento do Estado. Lembramos ainda que muitas terras já demarcadas, ainda por Rondon no início do século passado, foram cedidas ou vendidas por governantes de Mato Grosso que entregaram títulos ilegítimos a amigos e outros invasores.

     

    A constituição de um grupo de trabalho para o estudo da área reivindicada, até a declaração, homologação e registro no Serviço de Patrimônio da União, na grande maioria dos casos, demanda anos. E boa parte da demora, se deve aos apelos e liminares concedidas aos invasores destes territórios que, embora haja a inegável tradicionalidade dos territórios, insistem em seus supostos direitos.

     

    Escondido, mas não muito, atrás do discurso de ilegitimidade da Funai em demarcar as terras indígenas, está a determinação de que estas não sejam demarcadas, que é o que significa passar este processo para as mãos do Congresso Nacional. Exemplos não nos faltam como o Estatuto dos Povos Indígenas – que já deve debutar em breve – e o Código Florestal. Ou será que os deputados federais e senadores de Mato Grosso, que constantemente repetem o mesmo discurso de sua federação, passarão, numa conversão paulina, a defender os interesses dos povos indígenas se o Congresso passar a ser responsável pelas demarcações? Ou querem estes que as demarcações, que já demoram anos, fiquem penduradas nos cabides da burocracia e das manobras regimentais das tais ‘casas’? Por que ainda não se regulamentou o processo de consultas às comunidades indígenas sobre os grandes empreendimentos, como Belo Monte?

     

    Não se pode deixar de dizer o que tem significado ao longo de décadas, as diferentes ocupações destas terras pelos povos indígenas e pelos auto-denominados ‘produtores’. Basta uma rápida olhada no mapa ambiental de Mato Grosso para verificarmos quem devasta as riquezas e quem as gera. Quem vem, há séculos, preservando as florestas, rios, e a biodiversidade e quem, há décadas, devasta estas até onde não podem. As atividades base do agronegócio, geradoras de pseudo-riquezas apropriadas por poucos, vêm significando devastação, envenenamento de rios, solos e meio ambiente, potencializando as queimadas e contribuindo, sobremaneira, para o aquecimento global, principal causador das mudanças climáticas.

     

    Os povos indígenas, através de seus usos coletivos da terra, vêm assegurando a preservação do cerrado, do pantanal, dos rios e da floresta amazônica que ainda resistem no Estado. Com suas formas tradicionais, suas maneiras de se relacionar com a natureza mantêm os verdadeiros bens naturais para todos.

     

    É para garantir a apropriação e exploração privada dos territórios que os arautos do agronegócio – essencialmente de base latifundista e devastadora – que pesquisas e argumentos como os utilizados pela Famato se prestam.

     

    Há séculos que a mentira contada muitas vezes quer sobrepor a verdade, sempre a favor de uns, em detrimento de muitos.

     

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  • 05/12/2011

    Violência contra o povo indígena de MS não tem precedente na história recente, diz Padre Ton

    Depois de visitar na sexta (2) e sábado (3) as comunidades indígenas de Dourados, em Mato Grosso do Sul, o deputado federal Padre Ton (PT-RO) disse hoje (5) em plenário que a violência cometida contra o povo Guarani Kaiowá é algo sem precedente na história recente do Brasil.

     

    “Diante da demora do Supremo Tribunal Federal em julgar o processo, por meio do qual os índios pedem a retomada de áreas ocupadas tradicionalmente por eles, os fazendeiros agem como se estivessem acima de qualquer estado de direito”, disse Padre Ton, alertando para a necessidade do Estado socorrer urgentemente os povos indígenas da região.

     

    Coordenador da Comissão Externa criada para investigar a situação de violência permanente em que vivem os índios de Mato Grosso do Sul, e responsável pela direção dos trabalhos da Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas, o deputado Padre Ton disse que os índios vivem com medo diante das ameaças recebidas constantemente.

     

    “O temor não é sem razão. Ultimamente os agressores têm cumprido as ameaças, assassinando lideranças, sequestrando crianças e praticando todo tipo de barbaridade”, registrou, lembrando o assassinato em novembro do cacique Nísio Gomes, de 59 anos, após ter sido sequestrado por pistoleiros. Em setembro, 40 pistoleiros atacaram uma comunidade Guarani Kaiowá.   

     

    Segundo deputado, que fez a diligência juntamente com os deputados Domingos Dutra (PT-MA) e Érika Kokay (PT-DF), a comitiva visitou acampamentos indígenas, e teve dificuldade de entrar em um deles, próximo ao rio Brilhante, conhecido como Laranja Nhanderu.

     

    “Fomos impedidos de entrar, mas depois conseguimos e constatamos a realidade lastimável em que vivem os índios. Eles não têm acesso à educação, saúde e tampouco às condições básicas de sobrevivência, como água e alimentação digna”, disse o deputado.

     

    Também foram visitados pelos parlamentares o Acampamento Kurusu Ambá, no município de Coronel Sapucaia, um acampamento às margens da estrada e o acampamento de Guaviry, onde os índios sofreram o último ataque.

     

    Condenados à revelia

     

    Uma outra grave violação dos direitos humanos, ocorre com a condenação à revelia de muitos índios Guarani Kaiowá. “Eles têm sua cultura muito forte, presente, e a grande maioria só se expressa na língua materna, não domina o nosso idioma. Por isso, não conseguem se expressar e entender as acusações. Diante das perguntas do delegado, se limitam a dizer sim ou não, concordando com a autoria de ilícitos que efetivamente não cometeram. E assim são condenados à revelia na Justiça”.  

     

    Audiências

     

    Na tentativa de dar uma resposta aos “brasileiros que já não têm mais a quem apelar”, esta semana, segundo anunciou Padre Ton na tribuna, os integrantes da Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias irão promover audiências em vários ministérios para buscar uma solução definitiva de socorro aos povos indígenas de Mato Grosso do Sul. 

     

    O deputado Padre Ton fez agradecimentos à equipe da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), que prepara documentário sobre o povo Guarani Kaiowá; ao deputado estadual Laerte Tetila; à Polícia Federal e Rodoviária Federal; à Procuradoria Federal de Mato Grosso do Sul; à Funai; ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).  

     

    Mara Paraguassu

    Assessoria de Imprensa

    Deputado Padre Ton (PT-RO)

    (61) 3215-3280 e 9974-9423

     

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  • 05/12/2011

    Belém do Pará se prepara para mobilização contra Belo Monte

    No próximo dia 17 de dezembro de 2011, sábado, ativistas de movimentos sociais sairão às ruas mais uma vez para protestar contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.

     

    A Marcha denominada “Dia X pelo Xingu – Dia de luta contra Belo Monte” pretende percorrer as principais ruas do centro da capital para denunciar o crime socioambiental que está sendo realizado contra os povos da Amazônia.

     

    Nota do Comitê Metropolitano Xingu Vivo

     

    A construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, tem sido apresentada como um projeto que irá trazer energia, emprego e desenvolvimento para a região. A cada dia, essas promessas se revelam um belo monte de mentiras.

    Os 11.000 MW de energia que seriam gerados a partir de 2020, o que tornaria a usina a terceira maior do mundo, seriam produzidos somente durantes uns 3-4 meses ao ano, durante a cheia do rio. Nos outros meses a produção de energia cairia até chegar a menos de 1.000 MW. A média anual seria de 4.500 MW.

    Essa quantidade de energia pode ser conseguida de várias outras maneiras. Estudos da Universidade de São Paulo afirmam que modernizando as atuais hidrelétricas o governo aumentaria em até 7.600 MW, sem que nenhuma nova usina seja construída. Somente em energia eólica (ventos) o país deverá estar produzindo, a partir de 2014, cerca de 5.000 MW. E ainda tem a energia solar e biomassa (com projetos de 13.000 MW até 2020). Ou seja: não é necessário construir Belo Monte para se gerar mais energia.

    No pico da construção seriam ofertados 41 mil empregos. Mas, segundo os estudos do próprio governo, seriam atraídas para a região 96 mil pessoas. Ou seja: Belo Monte vai gerar 55 mil novos desempregados para Altamira e região.

    Não há desenvolvimento sem investimentos na melhoria da qualidade de vida. E a Norte Energia – NESA, empresa que está construindo a usina, desde julho/2011, já demonstrou que atua com o único objetivo de aumentar seus lucros, sem se importar com a população local. No início de novembro demitiu 170 trabalhadores porque eles protestaram contra as péssimas condições de trabalho.

    A Prefeitura de Altamira elaborou um documento, assinado junto com os 11 vereadores do município, no qual pede a suspensão das atividades no canteiro de obras, pois denuncia que a NESA não está cumprindo os programas de infraestrutura que seriam necessários para atender a chegada de milhares de pessoas em busca de emprego. Altamira está um caos, conforme previsto.
    Uma barragem iria desviar o curso do rio, deixando 100 km praticamente secos. E essa parte do Rio Xingu, denominada Volta Grande, é o lar de duas grandes comunidades indígenas. O rio fornece 80% da proteína (peixes) consumida pelos seus habitantes. Sem o rio, não há como os povos indígenas sobreviverem.

    Além disso, espécies como o acari-zebra, um peixe ornamental, que só existe no Xingu, cuja captura está proibida pelo IBAMA, pode ser extinto. Também as áreas de desova de tartarugas e tracajás, estão ameaçadas.

    E sabe quem vai pagar por toda essa destruição? Você! O BNDES deve emprestar cerca de R$ 24 bilhões, com juros baixíssimos e parcelas a perder de vista. É dinheiro público (seu dinheiro), que poderia ser investido na construção de redes de saneamento, escolas, hospitais e casas populares.

     

    17/12
    Dia X pelo Xingu
    Dia de Luta contra Belo Monte
    Praça da República, 09h00
    Belém do Pará
    Comitê Metropolitano Xingu Vivo

     

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  • 01/12/2011

    Informe nº 992: Sem demarcação de terras os indígenas do MS seguirão martirizados, diz CNBB

    Renato Santana

    De Brasília

     

    O ataque de pistoleiros ao acampamento Tekoha Guaiviry do povo Kaiowá Guarani, no dia 18 de novembro entre Amambai e Ponta Porá, região sul do Mato Grosso do Sul, ainda repercute demonstrações de indignação ao episódio e apoio aos indígenas.

     

    A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) convocou entrevista coletiva para divulgar, nessa quarta-feira, nota de repúdio ao ataque e defender a demarcação de terras aos indígenas como única alternativa de encerrar o martírio de décadas daqueles povos.

     

    “Lamentamos muito que ainda existe esse tipo de violência em nosso país. Inclusive um grupo de pessoas enviadas pelo governo federal foi objeto de agressão. Quer dizer, é absolutamente lamentável”, destacou o cardeal Raymundo Damasceno de Assis, arcebispo de Aparecida do Norte (SP) e presidente da CNBB.

     

    Damasceno aponta que a CNBB deseja o respeito aos termos constitucionais e que através do diálogo se estabeleça a demarcação das terras indígenas para que essas populações tenham paz em posse de suas terras de ocupação tradicional.

     

    O cardeal defende que é preciso reconhecer os povos indígenas como originários e que aqui estão antes da formação do país: “Desse modo é fundamental que os direitos dos indígenas sejam representados”.    

     

    O documento divulgado pela CNBB é enfático e mordaz: “Para além de declarações oficiais de solidariedade, o momento e as circunstâncias exigem ações concretas, do contrário, pode-se estar contribuindo para a morte de um povo por omissão ou negligência. O não cumprimento dos parâmetros constitucionais, neste caso, configura-se como genocídio”, diz trecho da nota lançada pela CNBB na última quarta-feira.

     

    Visita da CNBB

     

    A presidência da CNBB decidiu fazer uma visita ao Mato Grosso do Sul e visitar alguns acampamentos, entre eles o Tekoha Guaiviry. Ainda não há uma data definida. “Queremos mostrar nosso apoio, levar a nossa nota. No entanto, gostaríamos de ouvir os indígenas. Nada como mostrar a realidade pondo os olhos e abrindo os ouvidos”, disse dom Leonardo Steiner, secretário-geral da CNBB.

     

    Dom Leonardo afirmou que existe uma dívida histórica com os povos indígenas do Brasil. Os indígenas, conforme dom Leonardo, “não são brasileiros de segunda categoria”. Para o religioso, essa dívida é a demarcação de terras, o direito a preservação da própria identidade e cultura e que “eles tinham toda a liberdade e nós os tornamos brasileiros. Tinham direito sobre tudo e chegamos e impusemos uma Constituição, uma cultura. Os indígenas devem ter seus direitos preservados e como Igreja estamos preocupados e acompanhando”, frisou o secretário-geral.

     

    Com a nota, dom Leonardo explica que a CNBB pretende ajudar os Kaiowá Guarani a reconquistar suas terras e poder desenvolver plenamente a cultura e a vida pondo fim a este trágico período de mortes e violência. A tradução de tal sentimento está na nota:

     

    “É imprescindível tomar com urgência todas as medidas para impedir que essa absurda violência continue a ceifar vidas. Mais grave ainda é permitir que mandantes e executores de crimes contra indígenas sejam, sempre de novo, beneficiados pelo escândalo da impunidade. Compete à Justiça Federal processar e julgar a disputa sobre direitos indígenas, conforme prevê o Artigo 109, inciso XI da Constituição Federal. Fazemos, portanto, um veemente apelo ao Governo insistindo na presença efetiva do Estado brasileiro na região e na imediata demarcação e homologação das terras indígenas”, diz outro trecho.

     

    Três são detidos

     

    Na manhã desta quinta-feira (1º) a Polícia Federal (PF) anunciou a prisão de três indivíduos suspeitos de participação no ataque ao acampamento Tekoha Guaiviry do povo Kaiowá Guarani, no último dia 18, localizado entre os municípios de Amambai e Ponta Porá, região sul do Mato Grosso do Sul.

     

    Os detidos são acusados também do desaparecimento do cacique Nísio Gomes. Conforme relatos de indígenas que estavam no acampamento na hora do ataque, o líder político e espiritual foi alvejado por vários tiros e levado pelos pistoleiros. Depois de presos, os suspeitos foram levados para a custódia da PF em Ponta Porã, onde prestaram depoimento.

     

    A PF não divulgou nomes; tampouco forneceu detalhes da operação ou a nacionalidade dos detidos – suspeita-se da participação de paraguaios nas ações de pistolagem contra os Kaiowá que vivem a poucos minutos da fronteira, caso do acampamento Guaiviry. Apesar das prisões, ainda não se sabe o paradeiro do corpo de Nísio.

     

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  • 01/12/2011

    Semana em Defesa da Terra, Vida e Futuro Guarani-Kaiowá

    São Paulo, 05 a 08 de dezembro de 2011

     

    O Conselho Aty Guasu e organizações de apoio e solidárias aos povos indígenas convidam para a Semana em Defesa da Terra, Vida e Futuro Guarani-Kaiowá, a realizar-se no período de 05 a 08 de dezembro de 2011, na cidade de São Paulo.

     

    Confira a programação de atos, debates, lançamento e homenagens:

     

    – Dia 5 – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, Plenário Juscelino Kubitschek

    Av. Pedro Álvares Cabral, 201 – São Paulo – SP.

    19hs: As lideranças acompanharão o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos oferecido para a advogada de Direitos Humanos Michael Mary Nolan e farão a leitura do Manifesto do Conselho Aty Guasu, elaborado no último 27 de novembro de 2011, no Mato Grosso do Sul.

     

    – Dia 6 – Câmara Municipal de São Paulo, na Sala Tiradentes

    Viaduto Jacareí, 100 – Bela Vista (próximo ao metrô Anhangabaú).

    18hs30min: Entrevista coletiva com lideranças Guarani Kaiowá representantes da Aty Guasu

    19hs30min: Lançamento do Comitê Nacional em Defesa da População Indígena de Mato Grosso do Sul, com a presença de representantes do Comitê, lideranças Guarani Kaiowá e da Dra. Lucia Helena Rangel, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.

     

    – Dia 7 – Centro da Cultura Judaica

    Rua Oscar Freire, 2.500 – (próximo ao metrô Sumaré)

    20hs30min: Exibição do Documentário “À Sombra de um Delírio Verde”, seguido de debate com as lideranças Guarani Kaiowá do MS.

     

    – Dia 8 – Sesc Consolação

    Avenida Paulista, 119 (próximo ao metrô Brigadeiro)

    18hs30min: Homenagem e voz ao Povo Guarani Kaiowá durante o lançamento do Relatório de Direitos Humanos da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

     

    Organização e Solidariedade:

    Conselho Aty Guasu, Cimi SP, Cimi MS, CPT, Pastoral Indigenista de São Paulo, Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, Museu da Cultura e Programa Pindorama de estudantes indígenas da PUC-SP, MAB, Instituto Terra Trabalho e Cidadania,Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas,Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos,Fórum de Participação da V CELAM, Comissão de Articulação dos Povos Indígenas de São Paulo, NEMA-PUC (Núcleo de Estudos de Etnologia indígena, meio ambiente e populações tradicionais).

     

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  • 01/12/2011

    Nota da CNBB sobre o Código Florestal

     

    P – Nº 1125/11

     

    O Conselho Episcopal Pastoral (CONSEP) da Conferência Nacional dos bispos do Brasil – CNBB, reunido nos dias 29 e 30 de novembro de 2011, vem manifestar sua preocupação com a possível aprovação, pelo Congresso Nacional, do projeto de reforma do Código Florestal brasileiro. Já aprovado nas devidas Comissões do Senado Federal, o novo Código Florestal, tão necessário ao Brasil, embora tenha obtido avanços pontuais na Comissão do Meio Ambiente, como um capítulo específico para a agricultura familiar, ainda carece de correções.

     

    O projeto, ao manter ocupações em áreas ilegalmente desmatadas (Artigos 68 e 69) e permitir a recuperação de apenas metade do mínimo necessário para proteger os rios e a biodiversidade (Artigos 61 e 62), condena regiões inteiras do país a conviver com rios agonizantes, nascentes sepultadas e espécies em extinção. Sob o pretexto de defender os interesses dos pequenos agricultores, esta proposta define regras que estenderão a anistia a quase todos os proprietários do país que desmataram ilegalmente.

     

    O projeto fragiliza a proteção das florestas hoje conservadas, permitindo o aumento do desmatamento. Os manguezais estarão abertos à criação de camarão em larga escala, prejudicando os pescadores artesanais e os pequenos extrativistas. Os morros perderão sua proteção, sujeitados a novas ocupações agropecuárias que já se mostraram equivocadas. A floresta amazônica terá sua proteção diminuída, com suas imensas várzeas abertas a qualquer tipo de ocupação, prejudicando quem hoje as utiliza de forma sustentável. Permanecendo assim, privilegiará interesses de grupos específicos contrários ao bem comum.

     

    Diferentemente do que vem sendo divulgado, este projeto não representa equilíbrio entre conservação e produção, mas uma clara opção por um modelo de desenvolvimento que desrespeita limites da ação humana.

     

    A tão necessária proteção e a diferenciação mediante incentivos econômicos, que seriam direcionados a quem efetivamente protegeu as florestas, sobretudo aos agricultores familiares, entraram no texto como promessas vagas, sem indicativo concreto de que serão eficazes.

     

    Insistimos que, no novo Código Florestal, haja equilíbrio entre justiça social, economia e ecologia, como uma forma de garantir e proteger as comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas e de defender os grupos que sabem produzir em interação e respeito com a natureza. O cuidado com a natureza significa o cuidado com o ser humano. É a atenção e o respeito com tudo aquilo que Deus fez e viu que era muito bom (cf. Gn 1,30).

     

    O novo Código Florestal, para ser ético, deve garantir o cuidado com os biomas e a sobrevivência dos diferentes povos, além de preservar o bom uso da água e permitir o futuro saudável à humanidade e ao ecossistema.

     

    Que o Senhor da vida nos ilumine para que as decisões a serem tomadas se voltem ao bem comum.

     

    Brasília-DF, 30 de novembro de 2011

     

    Cardeal Raymundo Damasceno de Assis

    Arcebispo de Aparecida

    Presidente da CNBB

    Dom José Belisário da Silva

    Arcebispo de São Luis

    Vice Presidente da CNBB

     

     

    Dom Leonardo Ulrich Steiner

    Bispo Auxiliar de Brasília

    Secretário Geral da CNBB

     

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  • 01/12/2011

    ”É um desrespeito aos povos indígenas propor uma consulta após as obras estarem decididas”.

    “Considero desrespeito aos povos indígenas propor uma consulta feita após as obras estarem decididas”, disse Felício Pontes Júnior, procurador do Pará, ao comentar a decisão de procuradora do Supremo Tribunal Federal STF, Maria do Carmo, que votou contra o reconhecimento de direitos indígenas no caso Belo Monte. Felício tem acompanhado de perto as decisões sobre a construção de Belo Monte e analisado os impactos que a obra irá gerar nas comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas que vivem nos entornos do rio Xingu. Para ele, a decisão da desembargadora põe em dúvida a eficácia da Constituição Federal e a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho  OIT.

     

    Após ler o acórdão da decisão do STF, onde constam os argumentos da determinação, Felício Pontes Júnior concedeu a entrevista a seguir à IHU On-Line, por e-mail, e esclarece que “o acórdão consagra o fato consumado em direito ambiental, ou seja, diante da demora do próprio Judiciário em julgar o caso, como a obra está adiantada e existe vontade política do governo de fazê-la, o Judiciário lava as mãos e não pode fazer nada. É inacreditável, mas é esse um dos argumentos da decisão”.

     

    De acordo com o procurador, “ao o rebaixar a consulta a uma questão menor, sem importância, o TRF1 na prática atenta contra a sobrevivência dos povos indígenas. O que vai ter reflexos gravíssimos muito em breve sobre as outras 20 hidrelétricas que o governo federal projeta construir na Amazônia até 2020”.

     

    Felício Pontes Júnior é procurador da República junto ao Ministério Público Federal em Belém. Possui atuação nas áreas indígena, ambiental e ribeirinha, e é mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro  PUC-Rio.

     

    Confira a entrevista.

     
    IHU On-Line – Qual foi sua reação ao saber que a desembargadora do Tribunal Regional Federal – TRF1, Maria do Carmo, votou contra a realização da Consulta Prévia dos povos indígenas no caso de Belo Monte? O que a decisão dela significa e demonstra em relação ao direito dos povos originários?

     

    Felício Pontes Júnior – Fiquei muito triste. O que essa decisão representa é que a Constituição brasileira não tem valor. Não vamos nos conformar com isso. Vamos até o Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição, para saber se, afinal, nossa Carta Magna ainda é válida no Brasil ou se foi revogada a parte que protege os índios, os quilombolas, os ribeirinhos e o meio ambiente.

     

    IHU On-Line – Como explicar a decisão da desembargadora, se a Constituição Federal garante a participação dos povos originários em casos como o de Belo Monte?

     

    Felício Pontes Júnior – Acabei de ler o acórdão dessa decisão, que é o documento final que resume os motivos e argumentos da decisão. E o acórdão consagra o fato consumado em direito ambiental, ou seja, diante da demora do próprio Judiciário em julgar o caso, como a obra está adiantada e existe vontade política do governo de fazê-la, o Judiciário lava as mãos e não pode fazer nada. É inacreditável, mas é esse um dos argumentos da decisão. Além da própria Constituição, a decisão do TRF1 viola a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho OIT, da qual o Brasil é signatário e que tem força de mandamento constitucional no território brasileiro. Não tenho como explicar essa decisão. 

    IHU On-Line – A desembargadora declarou que “pouco importa quando os índios serão ouvidos, se antes ou depois da autorização do Congresso”. Qual a importância deles serem ouvidos antes das obras iniciarem?

     

    Felício Pontes Júnior – Considero desrespeito aos povos indígenas propor uma consulta feita após as obras estarem decididas. O sentido da convenção 169 e da proteção constitucional aos povos originários é que exista o consenso entre os povos indígenas e tribais e o governo central dos países onde vivem esses povos, em caso de empreendimentos que afetem diretamente seus territórios. Como sabemos, terra para índio não é a mesma coisa que para os não indígenas. Para eles, significa sobrevivência, não propriedade. Por isso é essencial a proteção oferecida pela Convenção, porque constitui a única maneira de garantir a sobrevivência desses povos. Ao rebaixar a consulta a uma questão menor, sem importância, o TRF1 na prática atenta contra a sobrevivência dos povos indígenas. O que vai ter reflexos gravíssimos muito em breve sobre as outras 20 hidrelétricas que o governo federal projeta construir na Amazônia até 2020.

     

    IHU On-Line – Como as comunidades indígenas receberam a notícia de que desembargadora votou contra a audiência pública?

     

    Felício Pontes Júnior – Com muita revolta. Tanto é assim que marcaram uma mobilização para esta semana e estão se dirigindo a Altamira lideranças indígenas de toda a região. A revolta também se espalhou por povos indígenas de outros rios, como os Kayabi, Munduruku e Kayapó no Teles Pires, na divisa do Pará com o Mato Grosso, que estão exigindo as oitivas, mas o governo se recusava a fazer. Estabeleceu-se uma negociação do governo com eles, mas ainda não temos segurança de que a consulta será realizada ou como será realizada, tamanha é a pressão do setor elétrico por leiloar mais hidrelétricas.

     

    IHU On-Line – O que mudou em relação à construção de Belo Monte de acordo com o projeto inicial?

     

    Felício Pontes Júnior – As mudanças foram provocadas pela intensa mobilização social dos povos da Transamazônica e do Xingu, incluindo índios, ribeirinhos e agricultores que, ao longo de 30 anos, resistem a esse projeto. Mas também possivelmente por um cálculo do setor elétrico de que, se Belo Monte for de fato construída e render menos energia do que se projeta, o que é muito provável, será mais fácil aprovar outras barragens à montante para regularizar o curso do rio. Nessa hipótese, a tragédia ambiental seria incalculável. Mas mesmo que apenas Belo Monte seja construída, o que se diminuiu em alagamento se compensou na seca da Volta Grande do Xingu, cuja água será 80% a 90% desviada para alimentar as turbinas da usina. Essa seca permanente que vai ser criada na região, considerada pelo próprio governo como de Importância Biológica Extremamente Alta, vai matar a vida na Volta Grande, o que inclui as terras indígenas Arara e Juruna e 273 espécies de peixes, alguns só existentes ali na Volta Grande. É importante desmistificar esse argumento de que a redução no alagamento representa tranquilidade para a região, porque as consequências da seca, em contrapartida, serão trágicas.

     

    IHU On-Line – Como e quais comunidades indígenas serão afetadas pela construção de Belo Monte?

     

    Felício Pontes Júnior – A Bacia do Xingu é habitada por 24 etnias que ocupam 30 Terras Indígenas TIs, 12 no Mato Grosso e 18 no Pará. Todas essas populações seriam direta ou indiretamente afetadas à medida que o Xingu e a sua fauna e flora, além do seu entorno, forem alterados pela usina. Na região de influência direta da usina, três Terras Indígenas seriam diretamente impactadas: a TI Paquiçamba, dos índios Juruna, e a área dos Arara da Volta Grande, que se situam no trecho de 100 km do rio que teria sua vazão drasticamente reduzida e a  área indígena Juruna do km 17, que fica às margens da rodovia PA-415, e seria fortemente impactada pelo aumento do tráfego na estrada e pela presença de um canteiro de obras. São considerados indiretamente afetadas, as TIs Trincheira Bacajá, Koatinemo, Arara, Kararaô, Cachoeira Seca, Arawete e Apyterewa, Xipaya e Kuruaya que sofreriam impactos como escassez de pesca, pressão de desmatamento, pressão da migração de não índios, pressão fundiária, epidemias como dengue e malária, entre outros.

    Segundo o governo, há ainda registros de grupos indígenas isolados em três áreas do Xingu: na Terra do Meio, entre os rios Iriri e Xingu e a Transamazônica; entre os rios Iriri e Curuá e daí até a BR-163; e na Bacia do rio Bacajá. Trata-se de grupos que vêm sendo pressionados pelo avanço da ocupação da região e que, provavelmente, não suportarão por muito tempo, caso perdurem as condições e o ritmo atual desse avanço.

     

    IHU On-Line – Quais são os limites de Belo Monte, considerando que a usina funcionará de seis a oito meses?

     

    Felício Pontes Júnior – A usina ficará quase totalmente parada durante a seca no Xingu, que é conhecido como um dos rios do mundo com maior variação de vazão entre os períodos da cheia e da seca. Na seca, o Xingu raramente passa de 1000 m3/s, enquanto na cheia ele alcança até 27 mil m3/s. Com isso o empreendimento deverá passar pelo menos quatro meses por ano com as turbinas paradas. Nossa pergunta até hoje sem resposta é: como um empreendimento que ficará quatro meses parado pode ser lucrativo para a sociedade brasileira?

     

    IHU On-Line – O que tem dificultado a regulamentação e aplicação do Direito de Consulta Prévia, Livre e Informada dos Povos Indígenas no Brasil? Por que no Brasil a sensibilidade às demandas indígenas ainda é baixa?

     

    Felício Pontes Júnior – De um lado, atribuo à falta de interesse do governo federal em respeitar a Constituição e os tratados internacionais e, de outro, a invisibilidade dos povos indígenas. Para a maioria dos brasileiros, os indígenas ainda são considerados exóticos ou desconhecidos. Seus direitos, costumes, tradições não são levados em consideração porque, para isso, é preciso ter um novo olhar. Um olhar isento de preconceitos e tabus. E isso é muito difícil. Continuamos a ver os índios a partir de nossa concepção de mundo, e não da concepção deles.

     

    IHU On-Line – Como avalia a postura da presidente Dilma, que já reiterou diversas vezes que Belo Monte será construída?

     

    Felício Pontes Júnior – É exatamente a consequência de quem não possui o olhar diferenciado para os povos indígenas e, nesse caso, também de quem não procura ler as razões das universidades brasileiras que avisam ser Belo Monte uma usina deficitária.

     

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  • 01/12/2011

    PF prende três suspeitos de ataque a acampamento Kaiowá Guarani

    Na manhã desta quinta-feira (1º) a Polícia Federal (PF) anunciou a prisão de três indivíduos suspeitos de participação no ataque ao acampamento Tekoha Guaiviry do povo Kaiowá Guarani, no último dia 18, localizado entre os municípios de Amambai e Ponta Porá, região sul do Mato Grosso do Sul.

     

    Os detidos são acusados também do desaparecimento do cacique Nísio Gomes. Conforme relatos de indígenas que estavam no acampamento na hora do ataque, o líder político e espiritual foi alvejado por vários tiros e levado pelos pistoleiros. Depois de presos, os suspeitos foram levados para a custódia da PF em Ponta Porã, onde prestaram depoimento.

     

    A PF não divulgou nomes; tampouco forneceu detalhes da operação ou a nacionalidade dos detidos – suspeita-se da participação de paraguaios nas ações de pistolagem contra os Kaiowá que vivem a poucos minutos da fronteira, caso do acampamento Guaiviry. Apesar das prisões, ainda não se sabe o paradeiro do corpo de Nísio.

     

    Caso de repercussão internacional, o ataque que culminou no desaparecimento do cacique jogou mais luz sobre o problema que há décadas afeta as populações originárias no estado do MS. O movimento político Kaiowá Guarani Aty Guasu, nessas duas últimas semanas, organizou mobilizações para não deixar mais um crime impune, além de reivindicar a demarcação das terras e mais segurança.

     

    Desde o final de semana, comitiva do governo federal está no MS acompanhando a questão. A Força Nacional fica até março no acampamento atacado. Na última sexta-feira, um ato público ocorreu na Assembleia Legislativa do MS contra o intermitente massacre de indígenas no estado. Nesta quarta-feira, uma marcha indígena percorreu sete quilômetros – pela rodovia MS 386 entre Amambai e Ponta Porá – até o local do acampamento Tekoha Guaiviry.  

     

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  • 30/11/2011

    Marcha indígena reúne cerca de 500 pessoas no Mato Grosso do Sul

    A Marcha contra o Genocídio e pela Paz, organizada pelo movimento político Kaiowá Guarani Aty Guasu, reuniu nesta quarta-feira cerca de 500 pessoas que caminharam sete quilômetros – pela rodovia MS 386 entre Amambai e Ponta Porá, Mato grosso do Sul – até o local do acampamento Tekoha Guaiviry, onde foi morto, no último dia 18, o líder político e religioso Nísio Gomes.

     

    “Foi muito boa a marcha. Superou as nossas expectativas porque com todo esse sofrimento e o medo de acontecer alguma coisa, realmente mostramos que estamos fortes”, avaliou Otoniel Kaiowá Guarani, membro do Aty Guasu. Todos os povos do estado participaram da marcha, sobretudo indígenas dos 31 acampamentos espalhados pelo MS, tal como o Tekoha Guaiviry.  

     

    O protesto pediu a investigação rigorosa e a prisão dos criminosos que realizaram o crime. No acampamento, integrantes da marcha visitaram o local do triste episódio que culminou no desaparecimento de Nísio. No último fim de semana, a Aty Guasu, em reunião extraordinária, divulgou manifesto pedindo intervenção federal em Mato Grosso do Sul, em função da incapacidade do estado de garantir a segurança dos indígenas.

     

    A marcha contou com o apoio das seguintes entidades do movimento indígena regional e nacional: Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Associaçao Kaguateca Marçal de Souza, Movimento dos Professores Guarani Kaiowá, Aty Guasu Jovem, Aty Guasu das Mulheres e acadêmicos indígenas.

     

    Representantes da Presidência da República e integrantes da Comissão Interministerial montada para atuar na questão indígena no estado também acompanharam a marcha até o acampamento. “Importante esse apoio. Claro que precisamos de demarcação e de segurança, mas realizarmos essas atividades tem sido muito importante para nós”, declara Otoniel.

     

    O indígena explica que os Kaiowá não podem mais andar sozinho e ressalta a continuidade das ameaças e ataques, como a da última segunda-feira quando tiros foram disparados contra o acampamento Pyelito Kue, no município de Iguatemi (MS). “As consequências virão, mas o medo nos leva para a vitória. É a assim que acontece conosco”, ressaltou Otoniel.

     

    No último dia 18, o acampamento Guaiviry foi atacado por pistoleiros que atiraram em Nísio Gomes e o levaram em uma caminhonete, junto com outras três crianças da comunidade, desaparecidas até o momento. Deixaram, ainda, vários feridos por balas de borracha no local. As investigações sobre o crime ainda estão em curso. Segundo as testemunhas, Nísio não foi atigindo apenas por balas de borracha, sangrando muito em função de balas no tórax.

     

    “O Nísio foi embora e isso vai continuar acontecendo, temos certeza. Mas temos consciência de que é assim: um vai e os outros ficam para seguir com a luta”, disse Otoniel. Na sexta-feira (2) o Aty Guasu realiza atividade com a Comissão de Direitos Humanos do Congresso Nacional, que visitará acampamentos e tomará depoimentos dos indígenas.

     

    As mortes Kaiowá

     

    Os Guarani-Kaiowá são hoje o mais numeroso povo indígena do país, com mais de 45 mil pessoas que vivem confinadas em 42 mil hectares de terra. A situação de miséria em boa parte das terras do grupo gera um ambiente de violência. Nos últimos oito anos, segundo recente relatório divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), houve 250 assassinatos entre indígenas do Mato Grosso do Sul, mais do que todas as mortes ocorridas no resto do país (202). O grupo também sofre com altos índices de suicídio entre os jovens, e desnutrição entre as crianças.

     

    Entre as mortes, há várias lideranças que, como Nísio, lutavam pela demarcação de suas terras. Nos últimos anos, em Paranhos, no Tekoha Ypo’i, foram mortos Jenivaldo Vera, Rolindo Vera (2009) e Teodoro Ricarte (setembro de 2011). Em Coronel Sapucaia, no Tekoha Kurusu Amba, morreram desde 2007 Ortiz Lopes, Xurite Lopes, Osvaldo Lopes e Osmair Martins. Em 2006, em Antonio João, na Terra Indígena Nhanderu Marangatu, foi morto Dorvalino Rocha. Em 2003, em Juti, na T.I. Takuara, Marcos Verón. A lista não para até 1983, quando foi assassinado Marçal de Souza.

     

    Segundo a Constituição de 1988, o processo de demarcação das terras indígenas no país deveria ter sido terminado em 1993. Entretanto, as pressões políticas dos fazendeiros retardaram o processo em MS. No final de 2007, a Funai assinou acordo com o Ministério Público Federal para apressar a demarcação e, em função disso, seis grupos de trabalho para identificação e delimitação de terras indígenas foram lançados em julho de 2008. O fato gerou forte reação dos fazendeiros do estado e, desde 2009, uma série de episódios violentos tem acontecido.

     

    Além de lutar pelas novas demarcações, os Guarani-Kaiowá também aguardam o desfecho de processos antigos, hoje barrados por processos judiciais. É o caso de Terras Indígenas como Takuara, Nhanderu Marangatu, Arroio Korá, Guyraroka, Jatay Vary, Potrero Guasu e outras.

     

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  • 30/11/2011

    E a vida os e-levou

    Laila amarra a fita preta em meu braço. Faço o mesmo com relação a ela. E as mais de 200 pessoas presentes na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul fazem o mesmo gesto de compromisso com a vida e a justiça, contra a violência, pela terra e pela paz, em luto pelo covarde assassinato do cacique Nisio Gomes Kaiowá Gurani, do Guaiviry e o roubo e ocultamento de seu corpo. Dentre os presentes estava Egidio Brunetto, que três dias depois teria sua vida tragicamente ceifada. Ao dar-lhe um abraço, ele foi logo perguntando: “Está tudo certo! Segunda-feira estarei lá na região da fronteira”.

     

    Hoje Egidio está retornando à fronteira conquistada, chão em que foi assentado, e onde agora será plantado para se tornar semente e força na luta pela terra e a justiça, para sempre. Eterna fronteira, onde sua imagem e exemplo florescerão, e os frutos da terra alimentarão de pão e esperança todos os lutadores da solidariedade e da Vida, de uma nova sociedade.

     

    Já na outra fronteira, com o Paraguai, a marcha indígena contra o genocídio Guarani-Kaiowá, da qual Egidio queria participar, está acontecendo, agora com a força da memória de todos os lutadores, e em especial de Nisio e Egidio, que a vida levou para outra dimensão de futuro. Fui me despedir de Egidio na sede do MST. As bandeiras da Via Campesina e do MST envolviam o caixão. Já de Nisio, a despedida terá que ser silenciosa, distante, na memória e lembrança bonita de seu sorriso e sua luta, pois seu corpo ainda não foi localizado.

     

     

    O cacique Nisio Gomes e seu filho Valmir, no Acampamento Terra Livre 2006, na Esplanada dos Ministérios, Brasília, DF.

     

    A Marcha continua

     

    Oeste de Santa Catarina. No início da década de 1980 um rapaz inconformado com a opressão no campo, nos estertores da ditadura militar, se juntou aos lutadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Tinham todo o apoio de Dom José, então presidente do Cimi, e depois da CPT. Ali mesmo, em Xanxerê, no porão da Casa Paroquial, funcionava a sede do Cimi Regional Sul. Dos “porões da liberdade” e da corajosa audácia da luta pela terra, reforma agrária, demarcação das terras indígenas, surgiu uma das mais belas e profícuas páginas da luta pela vida e justiça na terra.

     

    Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, estão hoje unidos na luta pela vida, contra o genocídio e o “agrobanditismo”, como diz o geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, ao se referir ao agronegócio, que semeia a opressão, destruição e morte. Enquanto na fronteira com a Argentina, em Dionisio Cerqueira Egidio é “plantado”, como dizem nossos companheiros(as) Xukuru de Ororubá, os Kaiowá Guarani e seus aliados estão marchando entre os municípios de Amambai e Aral Moreira, na fronteira com o Paraguai. Estarão exigindo o fim das violências, dos assassinatos, do genocídio. Pedem paz, exigem apuração e punição aos assassinos que mataram Nisio e tantas outras lideranças. Irão ficar vigilantes até que seja localizado o corpo de Nisio.

     

    Os dois estados em que o agronegócio e seus políticos são mais organizados e combativos contra os direitos indígenas a terra, estarão unidos na mobilização pela vida e pela justiça. As vidas, lutas e exemplos de Nisio e Egidio certamente não serão em vão. Multidões erguerão suas Memórias na luta, bradando contra a guerra secular e a ignomínia da estrutura fundiária nas mãos do latifúndio, do agronegócio, que tem a terra como objeto de negócio e ambição!

     

    Egon Heck

    Povo Guarani Grande Povo

    Cimi 40 anos, Equipe Dourados, 30 de novembro 2011.

     

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