• 04/02/2012

    Uma leitura da conjuntura político indigenista: é hora de pôr o pé na estrada

    Cleber C. Buzatto

    Secretário Executivo do Cimi

     

    O discurso ideológico fundado numa determinada, limitada e insustentável visão de desenvolvimento econômico, vem sendo usado como elemento teórico absoluto para justificar a agressão aos direitos dos povos indígenas, histórica e arduamente conquistados no Brasil. A conformação de forças políticas em torno desse discurso hegemônico se faz sentir de tal maneira nos diferentes poderes do Estado brasileiro, que nos permite considerar que estamos diante do momento conjuntural mais complexo e perigoso dos últimos 40 anos no que tange, especialmente, à efetivação e até mesmo à manutenção do direito dos povos indígenas às suas terras tradicionais.

     

    Com muita unidade, organização e enfrentamento ao governo ditatorial, a partir da década de 1970, os povos indígenas conseguiram estabelecer uma importante mudança de paradigmas na relação com o Estado brasileiro. Gradativamente foram superando a perspectiva da hegemonização cultural e do integracionismo político e fortalecendo, entre outros aspectos, a perspectiva da afirmação identitária, da conquista de direitos e do reconhecimento da necessidade do espaço territorial para a sobrevivência física e cultural enquanto povos. Esse processo traduziu-se e auto-00alimentou-se com a conquista dos artigos 231 e 232 da Constituição Federal de 1988. Embora num ritmo bem mais lento do esperado, na década de 1990 e na primeira década do século 21, os povos indígenas conseguiram efetivar a demarcação de uma parcela de suas terras tradicionais, especialmente na região amazônica.

     

    Nestas últimas quatro décadas, portanto, mesmo considerando todas as deficiências e problemas enfrentados, podemos afirmar que os povos indígenas conseguiram “ganhar terreno” na intensa e permanente batalha travada com os setores da sociedade nacional que possuem interesses políticos e econômicos antagônicos aos seus direitos, especialmente aqueles representados pelo agronegócio.

     

     Infelizmente, nossa avaliação é a de que estamos diante de um momento em que esse processo corre sério risco de ser revertido no Brasil.

     

    Na contramão do que a população brasileira pensa e defende[1], percebe-se nitidamente a existência de um pacto silencioso entre os poderes do Estado brasileiro em torno dos interesses do capital e de seus privilegiados beneficiários com o objetivo de desconstruir as bases do direito fundiário dos povos indígenas no Brasil.

     

    Nesta análise pretendemos apresentar elementos, não exaustivos, mas inequívocos de ações perpetradas em cada um dos três poderes da República Federativa do Brasil, na tentativa de demonstrar a gravidade do momento conjuntural vivido e na expectativa de que isso contribua para chamar a atenção e provocar a reflexão, o debate e a mobilização que se faz necessária entre indígenas, indigenistas e aliados desta causa.

     

    No que tange às ações de responsabilidade mais direta do Poder Executivo brasileiro, chamamos a atenção para duas questões centrais que envolvem os povos indígenas e suas terras. Uma se aplica às terras indígenas ainda não reconhecidas, não demarcadas, que lhes foram usurpadas e que se encontram na posse de não índios. A outra se aplica mais fortemente, não exclusivamente, às terras indígenas que já estão demarcadas, regularizadas e que se encontram na posse dos povos indígenas.

     

    Em relação à primeira, é nítida a estratégia governamental que aponta para uma marcante retração do ritmo na condução de procedimentos administrativos que visam demarcar as terras indígenas tradicionais ainda não reconhecidas pelo Estado brasileiro. Em 2010, Lula homologou duas terras e Dilma, em 2011, homologou apenas três terras indígenas. No mesmo período, o Ministério da Justiça declarou como tradicionais somente 13 terras indígenas, enquanto apenas 11 terras foram identificadas e delimitadas por meio de portarias da presidência da Funai.  Esse é, sem sombra de dúvida, o pior desempenho das últimas décadas em termos de demarcação de terras indígenas no Brasil.

     

    Nos últimos anos, os Grupos Técnicos criados pela Funai com a finalidade de proceder estudos de identificação e delimitação de terras indígenas não estão tendo as condições políticas e financeiras necessárias e adequadas para a realização dos estudos e produção dos relatórios circunstanciados advindos dos mesmos. Ao mesmo tempo, o quadro de pessoal disponível na Funai para proceder as análises e emitir os pareceres necessários em relação aos referidos relatórios é extremamente deficiente. Esses fatos produzem uma grande contenção das demandas indígenas. Nem mesmo em situações de extrema gravidade e conflituosidade, a exemplo do que ocorre com os Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, o órgão indigenista consegue demonstrar o mínimo de organização e agilidade nas respostas que dependem de suas responsabilidades legais.

     

     Ainda mais graves são os indícios recentes de que, em alguns casos nos quais os profissionais membros dos Grupos Técnicos finalizam os estudos e apresentam os relatórios de identificação e delimitação, agentes da própria Funai estariam atuando com o objetivo de convencer lideranças indígenas a aceitar a redução da área a ser demarcada em relação à defendida como tradicional pelos respectivos Grupos Técnicos.

     

    Além disso, embora nenhuma consulta ou mesmo comunicação oficial tenha sido feita até o momento aos povos indígenas, circulam informações na mídia segundo as quais o governo federal teria cedido às pressões de invasores das terras indígenas e estaria prestes a anunciar uma importante mudança no procedimento administrativo usado no processo de reconhecimento da tradicionalidade e demarcação das  terras, com a perspectivas de ampliação dos poderes dos setores anti-indígenas no bojo do mesmo. Caso essas informações se confirmarem, o quadro já bastante complicado, certamente ficará ainda mais grave, com novas e mais profundas dificuldades, no aspecto administrativo, para a demarcação das terras indígenas no Brasil. 

     

    Em termos gerais esse movimento de retração de ações de demarcação e do conseqüente aprofundamento da retenção das demandas fundiárias indígenas não é recente e vem sendo implementada administrativamente pelos diferentes governos. Lula, por exemplo, ao homologar apenas 80 processos de demarcação de terras indígenas ao longo dos oito anos que esteve à frente da Presidência da República, perdeu para todos os seus antecessores do período da “redemocratização”.

     

    No entanto, com base no que observamos em 2011, o governo Dilma tende a intensificar ainda mais essa retração. Uma sinalização importante, nesse sentido, é a informação, tornada pública, de que a presidente vem trazendo para si, inclusive e surpreendentemente, o aval para a formação de Grupos Técnicos da Funai. A retração do governo federal tende a potencializar ainda mais a perspectiva de conflitos fundiários entre indígenas e fazendeiros nas diferentes regiões do país.

     

    Por outro lado e ao mesmo tempo, as iniciativas do governo federal apontam para a aceleração da perspectiva de invasão, exploração e mercantilização das terras demarcadas, que estão na posse e sendo preservadas pelos povos indígenas.

     

    Apesar de 82% da população brasileira discordar abertamente da tese segundo a qual o crescimento econômico do país é mais importante, mesmo que para isso os indígenas tenham que sair de suas terras[2], o governo federal, a exemplo do que ocorre no caso da UHE Belo Monte, vem implementando, “a ferro e a fogo”, cerca de 450 empreendimentos que afetam terras indígenas. São hidrelétricas, linhas de transmissão, hidrovias, rodovias, ferrovias, usina nuclear, transposição que prejudicam a vida de milhares de indígenas em todas as regiões do país. Obras que objetivam, em última instância, possibilitar a exploração mineral e facilitar o escoamento de produtos primários que são exportados para outros países. O Programa de Aceleração do Crescimento é o instrumento usado neste sentido.

     

    Em 2011, as iniciativas governamentais foram especialmente perversas e autoritárias no sentido de facilitar e acelerar a construção de obras em terras indígenas. A Portaria Interministerial 419/2011, publicada no Diário Oficial da União em 28 de outubro[3], que regulamenta a atuação dos órgãos e entidades da administração pública envolvidos no licenciamento ambiental, provocou revolta e indignação junto aos povos indígenas. Cerca de 75 organizações indígenas e indigenistas denunciaram o fato da referida portaria restringir e desconstruir direitos territoriais indígenas e quilombolas no Brasil[4]. O governo não acatou o pedido de revogação da portaria e a mesma continua em vigor.

     

    A financeirização, o ataque à autonomia e a reterritorialização do capital nas terras indígenas demarcadas também avança país afora junto com iniciativas em torno dos Pagamentos por Serviços Ambientais. Mesmo sem nenhuma base legal vigente no país, vêm a público, a cada momento, notícias sobre o assédio de indivíduos, empresas e Organizações Não Governamentais mercantilistas junto a povos indígenas para que estes formalizem contratos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD). Além de setores privados, o próprio governo tem investido na consumação dessa política perversa aos povos indígenas.

     

    Ao mesmo tempo, o governo federal tem feito “vistas grossas” às constantes e intensas denúncias de exploração, especialmente madeireira, em terras indígenas no país. Nem mesmo situações mais graves, onde povos indígenas em situação de isolamento correm sério e iminente risco de extinção advindos dessa exploração, têm sido suficientes para sensibilizar as autoridades públicas federais a tomar as iniciativas necessárias para combater essa prática. O caso do povo Awá-Guajá, no Maranhão, simboliza essa cruel realidade.

     

    Nessa perspectiva da exploração das terras indígenas demarcadas, podemos situar também o PL 1610/96, que prevê a liberação da mineração em terras indígenas.

     

    Vale ressaltar ainda que a presidente Dilma tem se negado peremptoriamente a ouvir e dialogar com lideranças de comunidades e de organizações indígenas. Até mesmo a Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) está com as atividades suspensas pelo fato da presidente não concordar em comparecer numa de suas seções, condição colocada pela bancada indígena para retomar as atividades devido ao esvaziamento desse espaço de interlocução por parte do governo.

     

    Neste contexto, é sintomático o fato de o governo dispor de aproximadamente 30 bilhões de reais para a execução de uma única obra, no caso a UHE Belo Monte, mesmo com todas as manifestações contrárias por parte dos povos indígenas, enquanto tenha usado, vergonhosa e descaradamente, míseros 29 milhões de reais na ação “Demarcação e Regularização de Terras Indígenas” em todo o território nacional ao longo dos anos 2010 e 2011[5].

     

    No que tange ao Poder Judiciário, a tensão em torno do reconhecimento e efetivação dos direitos tradicionais indígenas tende a permanecer latente. A morosidade deste Poder em reconhecer o direito dos povos indígenas contribui sobremaneira para a perpetuação das invasões das terras indígenas no país. Por outro lado, com raríssimas exceções, a agilidade, especialmente de instâncias locais do Judiciário, em conceder liminares de reintegração de posse contra os povos indígenas colabora para o aumento de indígenas vivendo em situação degradante nos acampamentos de beiras de estrada no país. O caso da ação judicial em curso desde 1982, no Supremo Tribunal Federal (STF), em que é pedida a nulidade dos títulos de propriedade que incidem sobre a terra tradicional do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe e que foram concedidos ilegalmente pelo estado da Bahia e o caso da comunidade Laranjeira Nhanderú, do povo Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, que enfrenta a terceira ordem judicial de despejo de sua terra tradicional nos últimos anos são exemplos típicos e recorrentes dessa realidade presente no Poder Judiciário de nosso país.

     

    Nesse sentido, é importante considerar o fato de que procedimentos administrativos de demarcação de terras indígenas, invariavelmente, estejam sendo objeto de questionamento na via judicial. Essa estratégia de questionar e de qualificar o questionamento judicial dos procedimentos administrativos de demarcação de terras indígenas está bem delineada na perspectiva de atuação da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e dos sindicatos a ela filiados.

     

    Essa é uma situação que os povos indígenas também devem estar preparados  para enfrentar. Além de lutar no campo político para que o governo federal tome iniciativas para demarcar as suas terras, nos casos em que isso for sendo efetivado, terão de enfrentar as iniciativas dos invasores e de suas organizações que buscam o Poder Judiciário na tentativa de derrubar os procedimentos administrativos ou ao menos protelar ainda mais a devolução das terras aos povos indígenas. 

     

    No que tange às ações judiciais que questionam a legalidade dos processos que culminam na construção de empreendimentos em terras indígenas, o Judiciário tem se mostrado perfeitamente alinhado com o Poder Executivo. Nesses casos, está muito evidente a estratégia implementada que é a de agir pela omissão. As ações judiciais que questionam a legalidade das obras permanecem paralisadas em alguma de suas instâncias sem decisão. Com isso, as obras têm sido executadas sem exceção. Consequentemente, o fato é consumado sem que sejam pronunciadas sentenças sobre o mérito das respectivas ações judiciais. Inúmeros casos saltam aos olhos nesse sentido. Citamos, a título de exemplificação, apenas os casos da UHE Estreito, no Rio Tocantins, da Transposição do Rio São Francisco, na região nordeste do país e da UHE Belo Monte. Esta última está sendo construída, “a todo o vapor”, no Rio Xingu, estado do Pará, sem que o Poder Judiciário se pronuncie em definitivo a respeito de ao menos 13 Ações Civis Públicas impetradas pelo Ministério Público Federal (MPF), Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e outras organizações da sociedade civil brasileira, que apontam várias ilegalidades no processo de construção da usina.

     

    Os ataques ao direito territorial dos povos indígenas fazem-se sentir com ainda mais força, nesse momento, no âmbito do Poder Legislativo brasileiro. É nessa esfera que consideramos haver mais sérios e iminentes riscos de retaliação e perda de direitos constitucionais que foram preconizados aos povos indígenas pelo Constituinte originário.

     

    Os latifundiários, históricos e encarniçados inimigos dos povos indígenas, dos quilombolas e do meio ambiente, têm feito uso de seu poderio econômico para fortalecerem sua presença e influência política nas diferentes esferas de poder, especialmente junto às Câmaras Legislativas e ao Congresso Nacional. Nesses espaços, não pensam nos interesses da população brasileira em seu conjunto, limitando-se à defesa e à ampliação dos próprios privilégios, historicamente concedidos a esse setor pelo Estado brasileiro. Para tanto, fazem uso de táticas extremamente agressivas contra setores da sociedade portadores de direitos que se contrapõem à sua avidez sem limites por novos territórios. A chamada bancada ruralista representa junto ao Congresso Nacional, esse setor privilegiado e extremamente minoritário da sociedade brasileira.

     

    Em 2011, a bancada ruralista teve como foco central de seus ataques o direito ambiental brasileiro. Nesse sentido, usaram como instrumento a mudança da lei 4771/65, conhecida como Código Florestal. Não pouparam esforços, nem recursos financeiros nesse sentido. Mesmo contra a vontade de imensa maioria do povo brasileiro, conseguiram retaliar a legislação ambiental do país segundo seus próprios interesses. 

     

    A bancada ruralista está empenhada em implementar a estratégia da CNA no Congresso e pretende impedir toda e qualquer demarcação de terra indígena e quilombola no Brasil. Passada a aprovação do novo Código Florestal, todas as atenções, força e virulência do latifúndio passou a ser concentrada no ataque aos direitos territoriais e aos próprios povos indígenas e quilombolas. Para efetivar esse objetivo, foram definidos instrumentos tanto no Senado Federal, quanto na Câmara dos Deputados. Esses instrumentos são a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 38/99, de autoria do senador Mozarildo Cavalcanti, de Roraima, no Senado, e a PEC 215/00 de autoria do deputado Almir Sá, na Câmara dos Deputados.

     

    A PEC 38/99, caso aprovada na forma do relatório e voto em separado do Senador Romero Jucá[6], alterará os artigos 52 e 231 da Constituição Federal e determinará que as demarcações de terras indígenas deverão ser aprovadas pelo Senado Federal.

     

    A PEC 215/00 é especialmente danosa aos direitos dos povos indígenas às suas terras tradicionais. Ela está pronta para ser votada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados. O deputado Osmar Seraglio, PMDB/PR, em seu relatório e voto, apensou a ela outras 11 PECs que também tramitam na CCJC. Dessa maneira, na forma do relatório e voto em questão[7] a aprovação da matéria alterará os artigos 49, 225 e 231 da CF e, em última instância, determinará que: a) toda e qualquer a demarcação de terra indígena ainda não concluída deverá ser submetida à aprovação do Congresso Nacional; b) as áreas predominantemente ocupadas por pequenas propriedades rurais que sejam exploradas em regime de economia familiar não serão demarcadas como terras tradicionalmente ocupadas por povo indígena; c) a audiências das Assembléias Legislativas será obrigatória em casos de demarcação de terras indígenas em seus respectivos estados; d) será exigida a aprovação de lei para a demarcação de terras indígenas; expedição de títulos das terras pertencentes a quilombolas e definição de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder Público; e) será autorizada a permuta de terras indígenas em processo de demarcação litigiosa, ad referendum do Congresso Nacional.

     

    A composição amplamente anti-indígena do Congresso Nacional nos permite afirmar que a aprovação em definitivo de qualquer uma das duas PECs em questão poderá significar, de fato, a paralisação absoluta do processo de demarcação de terras indígenas no Brasil. Se é extremamente difícil a sensibilização do Poder Executivo Federal para que este reconheça e demarque as terras tradicionais, será ainda possível um determinado povo ou comunidade indígena convencer a maioria dos deputados federais e dos senadores da república a aprovar a demarcação de suas terras?

     

    Essa situação é extremamente grave uma vez que das 1046 terras indígenas, apenas 363 estão regularizadas. 335 terras encontram-se em alguma fase do procedimento de demarcação e outras 348 são reivindicadas por povos indígenas no Brasil, mas até o momento o órgão indigenista não tomou nenhuma providência a fim de dar início à demarcação das mesmas.

     

    No enfrentamento necessário e urgente que se avizinha, os povos indígenas poderão continuar contando com o apoio da grande maioria da sociedade brasileira e de organizações aliadas.

     

    No entanto, em mais este momento especialmente delicado, a exemplo do que historicamente vem ocorrendo, será a união, a organização e a forte mobilização dos povos indígenas de todas as regiões do país que criará as condições para que sejam superadas as perspectivas de retrocesso em relação aos seus direitos. A chave da vitória está no pôr o pé na estrada, simbólica e literalmente. A chave da vitória são os povos na posse das suas terras. A chave da vitória são as lideranças indígenas nos corredores, salões e gabinetes do Congresso Nacional, dos tribunais, dos ministérios e do Palácio do Planalto. A chave da vitória está na mão, no  coração,  na cabeça e nos pés de cada um dos 240 povos indígenas do Brasil. O tempo de usar essa chave é agora.

     

    Brasília, DF, 30 de janeiro de 2012.

     



    [1] 54% da população brasileira considera que as terras indígenas são insuficientes para que os povos indígenas vivam de forma adequadas e apenas 31% consideram que as terras demarcadas são suficientes para tanto. Conforme pesquisa disponível em  http://www.fpa.org.br/sites/default/files/Cap13.pdf.

    Read More
  • 02/02/2012

    Informe nº 1000: Povo Tupinambá sofre com ações de despejo e violência da PF na Bahia

     

    CARTA ABERTA CONTRA A VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL DO ESTADO BRASILEIRO CONTRA O POVO TUPINAMBÁ

    Tomamos conhecimento que no início da manhã de hoje, 01 de fevereiro de 2012, a Polícia Federal, em Una, invadiu a Comunidade Indígena Tupinambá do Acuípe de Baixo (área de retomada), localizada a 30 km de Ilhéus para cumprir mandado de reintegração de posse. Lembramos que a terra Tupinambá de Olivença foi reconhecida como território tradicional pela FUNAI, abrangendo os municípios de Ilhéus, Buerarema e Una, em um total de 47.376 hectares, por relatório publicado no Diário Oficial da União, no dia 20 de abril de 2009.

    Desde então, o Povo Tupinambá vem sofrendo iminentes ataques a um dos seus direitos fundamentais enquanto coletividades. Nessa ação, a Polícia Federal agindo, como de costume, com brutalidade e violência desmedida e desnecessária, retiraram das suas casas CRIANÇAS DE COLO, IDOSOS, MULHERES, ADOLESCENTES, mesmo com a chuva que caía no momento da ação. Como se isso não bastasse, numa tentativa clara de intimidação, racismo institucional e abuso de autoridade, dois indígenas foram colocados por mais de 02h de joelhos e mãos a nunca, isto porque estes tocaram o Maraká (ídolo sagrado dos indígenas) e iniciaram a cantar músicas do ritual sagrado do "Porancim" Tupinambá.

    Casas foram derrubadas, e pesa ainda sobre a comunidade a AMEAÇA de que a Polícia Federal derrube as outras residências. Os pertences dos índios foram colocados a beira da BA 001. Os policiais falaram ainda, com base em um documento, que essa mesma ação acontecerá em todas as áreas de retomada do Litoral Sul, a exemplo das Aldeias Tupinambá de Taba Jayry, Tupã, Itapoã e Syryíba. Alguns indígenas arrancados de suas casas estão alojadas na escola, e outros, encontram-se sem saber para onde ir.

    Apesar da violência da ação, do desrespeito da Polícia Federal para com os indígenas dessa comunidade e de tantas outras, nenhuma das instituições com atribuições constitucionais (FUNAI, MPF, AGU) foram devidamente comunicadas sobre a ação que seria realizada para resguarda a integridade física, mora e também os seus direitos humanos covardemente violados.

    O Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia – MUPOIBA repudia essa ação da Polícia Federal, e entende que essa prática racista que essa instituição vem adotando contra as populações indígenas deste Estado da Bahia precisa ser imediatamente cessada. No nosso entendimento o Governo Brasileiro é o principal responsável, uma vez, que permite o MASSACRE e GENOCÍDIO dos povos indígenas, com a não Demarcação dos Territórios Tradicionais.

    Acreditando no Estado Brasileiro democrático, multiétnico e multicultural, Esperamos uma ação enérgica dos poderes constituídos e competentes, para finalização do processo de demarcação da Terra Indígena de Olivença.

    Exigimos a imediata paralisação da violência contra os índios.

    Requeremos a imediata recondução da comunidade Tupinambá do Acuipe de Baixo para área desocupada.

    Exigimos do Estado Brasileiro o pagamento dos prejuízos sofridos e retratação forma pela agressão moral sofrida pela comunidade através de uma de suas instituições.

    A sociedade brasileira precisa saber o que vem ocorrendo com as populações indígenas do Brasil, a exemplo do ocorrido na comunidade Tupinambá do Acuipe de Baixo, persiste, em função da inércia do Estado Brasileiro, que até hoje não fez cumprir a determinação expressa na Constituição Federal de 1988, no art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, que estabeleceu o prazo de cinco anos para a demarcação das terras indígenas. Prazo esse encerrado em 1993.

    Salvador, Bahia, 1º de Fevereiro de 2011

    Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba)

     

     

    Read More
  • 02/02/2012

    Liminar é revogada e indígenas Xakriabá permanecem em território no norte de Minas Gerais

    Cimi Regional Leste – Equipe Xakriabá

    Após seis anos de espera, o juiz Federal da 1ª Vara da Subseção Judiciária de Montes Claros João Miguel Coelho dos Anjos julgou procedente na última segunda-feira (23) a ação ajuizada pela comunidade Xakriabá da Aldeia Morro Vermelho, na qual os Indígenas lutavam para se manter na posse de três áreas retomadas.

    A área em litígio se localiza no município de São João das Missões, no norte de Minas Gerais, e está em disputa desde 2006, época em que as famílias Xakriabá, cansadas de esperar por uma solução da Fundação Nacional do Índio (Funai), fizeram as retomadas. No ano de 2007 a Justiça Federal de Montes Claros julgou a ação de manutenção de posse impetrada pelos Indígenas e se posicionou contrária ao pedido, dando sentença em favor dos fazendeiros com a reintegração de posse.

    No decorrer deste período, a comunidade resistiu a todo tipo de violência, convivendo diariamente com as constantes ameaças. No mesmo período, continuaram lutando para ter de volta mais uma parte do seu território, recorrendo da decisão da liminar de reitengração de posse junto aos órgãos competentes. A luta pela manutenção da posse das áreas retomadas envolveu parceiros e aliados da luta Indígena e comunidades tradicionais no norte de Minas Gerais. Várias mobilizações aconteceram juntamente com a realização de audiências junto à comissão de direitos humanos e Ministério Público Federal.

    Em 2011, o cacique Santo Caetano Barbosa foi alvo de uma emboscada, mas conseguiu escapar. O caso tomou repercussão, denúncias foram apresentadas aos órgãos competentes – até o momento os autores não foram identificados e o cacique está inserido no Programa de Proteção de Defensores de Direitos Humanos, coordenado pelo Instituto de Direitos Humanos do Estado de Minas Gerais.

    Assassinatos e impunidade

    Outra situação tem colocado os Indígenas Xakriabá em extrema vulnerabilidade e se refere a ações de julgamento de não Índios envolvidos em assassinatos de membros da comunidade Xakriabá. Em 2009 foi julgado um dos acusados pelo assassinato de Avelino Nunes de Macedo – ocorrido na localidade de Virgínio, município de Manga, em 2007. O crime teve grande repercussão nacional pelo ato de crueldade. O acusado, no entanto, foi absolvido

    Em 2008, outro membro da comunidade Xakriabá foi brutalmente assassinado no município de São João das Missões. A morte ocorreu dentro do processo de disputa das eleições do município, onde os indígenas disputavam a continuidade à frente da administração da cidade. O acusado pelo assassinato, mais uma vez, foi absolvido em julgamento ocorrido em 2010.

    A situação foi ainda mais grave no ano passado. Por se tratar de um crime que foi considerado o primeiro caso de genocídio no estado de Minas Gerais, dois acusados de participar do assassinato do cacique Rosalino Gomes de oliveira e outras lideranças no ano de 1987, que estavam foragidos, foram a julgamento e absolvidos.

    Os indígenas têm cobrado uma ação mais efetiva da Funai no acompanhamento nesta grave situação, exigindo maior proteção e segurança às comunidades e lideranças. Contudo, as reivindicações não têm sido atendidas, fato que tem contribuído para o aumento da violência contra o povo Xakriabá na região.

    Violência dirigida

    Esta onda de violência tem ocorrido justamente no momento em que o povo Xakriabá está em processo de reivindicação pela demarcação de mais uma parte do território de ocupação tradicional. O conflito tem tomado grandes proporções e o povo Xakriabá tem sido alvo de discriminação, perseguição, ameaças e violência. As áreas reivindicadas somam um total aproximado de 25.000 hectares e se estende até as margens do Rio São Francisco, local sagrado e importante para a sobrevivência física e cultural do povo, mas que enfrenta forte resistência de fazendeiros.

    Em todas estas áreas já foram realizados os estudos antropológicos por determinação de portaria criada pela Funai no ano de 2007. Estes estudos foram concluídos e apontam a necessidade de demarcação, reconhecendo a ocupação tradicional pelos Indígenas conforme determina a CF. Conforme diz o cacique Santo Caetano: “Nunca tivemos dúvidas quanto a legitimidade do nosso direito. O reconhecimento do nosso direito de permanecer nas áreas que retomamos trará mais tranquilidade e paz para a comunidade, que estava sempre angustiada e com medo de ter de deixar nossas terras”.

    O cacique segue: “Sabemos que a caminhada é longa. Com o parecer da Justiça Federal reconhecendo estas áreas como pertencentes ao nosso povo recorreremos à Funai para que possa nos dá maior proteção já que diante da decisão, o entendimento que temos é que mesmo que a área ainda não seja demarcada ela passa a ser patrimônio da União, e por isso deve ser protegida juntamente com o povo indígena que nela vive”.

    A revogação da liminar de reintegração é um reconhecimento a legitimidade do direito do povo Xakriabá ao intenso processo de luta pela regularização do seu território.  O povo Xakriabá aguarda a publicação oficial do Relatório de Identificação das áreas que estão sendo reivindicadas, visto que já foram concluídos os relatórios antropológicos e levantamento fundiário.

    A ação foi acompanhada pelos advogados André Alves de Souza e Marcos Antônio de Souza, da equipe de Assessoria Jurídica do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), e por Valdir Farias Mesquita, ex-assessor jurídico do Conselho Indigenista Missionário Regional Leste (Cimi/LESTE).

    Trechos da sentença Judicial:

    A presença da comunidade Indígena Xakriabá na região do município de São João das Missões é notória e independente de prova, mormente, porque já houve a demarcação de duas terras Indígenas

    Da conclusão:

    Conclui-se, portanto, que não é de hoje que os Índios ocupam a região. Invasores são aqueles que chegaram posteriormente, dentre eles os requeridos. Tradicionalmente, no entanto, no que se pode verificar, os Xakriabá são habitantes nativos das terras discutidas nesta demanda, o que lhes confere a ocupação estável e permanente sobre elas”.

    Da sentença:

    “Ante o exposto, julgo procedente o pedido, com resolução de mérito, para garantir a manutenção da requerente na posse da fazenda São Bento, Fazenda Catito e fazenda Boqueirão, em face dos requeridos cominado com uma pena pecuniária de R$ 1.000,00 (mil reais) ao dia por ato de turbação ou esbulho que vier a ser praticado”.

     

     

     

    Read More
  • 01/02/2012

    Sem Justiça e demarcação de terras, indígenas Guarani Kaiowá resistem no MS

    Egon Heck

    Missionário do Cimi

    Janeiro termina para os Kaiowá Guarani do Mato Grosso do Sul de maneira dramática e esperançosa. Talvez seja uma pequena amostra do que poderá acontecer com o avanço do processo de regularização das terras, num clima de tensão, violência e desespero. Com o agravante de nenhum sinal de avanço para a efetiva solução das violências. Tomados por uma descrença nos poderes instituídos, resta-lhes clamar “Só Deus! Só Nhanderu, só Tupã”. Por essa razão nos tekohá retomados, os rituais, rezas, e fortalecimento cultural e religioso são elementos mais valorizados.

    Em carta datada de 31 de janeiro, uma liderança da comunidade de Laranjeira Nhanderu, representante no conselho da Aty Guasu, expressou desta forma sua extrema preocupação com a eminência do despejo:

    “Destacamos que um dos fatores determinantes de nossa miséria, sofrimento, morte física e cultural contínua, sobretudo o nosso extermínio como povo indígena, é o resultado da ordem de expulsão forçada ou despejo de nosso território tradicional, praticado historicamente pelos fazendeiros e recentemente a ordem de despejo perversa da comunidade Guarani-Kaiowá foi assumida pela primeira instância da Justiça Federal do Mato Grosso do Sul… destacamos que a ordem de despejo da Justiça Federal em Dourados para despejar através de forças policiais a comunidade (crianças, idosos) Guarani-Kaiowá de Ñanderu Laranjeira faz parte da frente do processo sistemático de etnocídio/genocídio histórico e violências adversas contra povos indígenas brasileiros, alimentando o extermínio total do povo Guarani-Kaiowá do Cone Sul de Mato Grosso do Sul”.

    E segue:

    “Destacamos que nos Guarani e Kaiowá temos ligação com o território próprio, pertencemos à determinada terra, assim, a terra ocupada por nosso antepassado recente é vista por nós como uma fundamentação de vida boa, vida em paz, sobretudo é a fonte primária de saúde, bem estar da comunidade e familiares indígenas. Dessa forma, o nosso território antigo é vital para nossa sobrevivência e desenvolvimento de atividades culturais que permitem a vida boa como um forte sentimento religioso de pertencimento à terra antiga, fundamentada em termos cosmológicos, sob a compreensão de que nos Guarani-Kaiowá fomos destinados, em nossa origem como humanidade, a viver e a cuidar deste território antigo específico”.

    Ouvi o clamor

    Bispos visitam acampamentos Kaiowá Guarani. As comunidades de Kurussu Ambá e Guaiviry ficaram muito felizes com as visitas de Dom Leonardo, secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Ettore, bispo da diocese de Naviraí, e Dom Moreira, bispo de Três Lagoas e que acompanha as pastorais Sociais e o Cimi no regional Oeste 1 da CNBB. Também estiveram na comitiva o vigário geral da diocese de Dourados, padre Altair, o coordenador do Cimi-MS, dentre outros.

    Momento de muita alegria e esperança para esses acampamentos indígenas, submetidos a extrema violência, com a morte de suas lideranças, por ocasião das retomadas. O sangue derramado por Julite e Ortiz Lopes e Nisio Gomes clamam por justiça. Pelo Brasil e mundo afora se exige providências do Estado e da Justiça brasileira. Além das visitas às comunidades, a delegação teve encontros com o Procurador do Ministério Público Federal (MPF) e Juiz Federal da região. Ouviram, viram e sentiram a situação dos Kaiowá Guarani.

    Dom Leonardo assim se expressou por ocasião da coletiva à imprensa no final da viagem em Campo Grande: ”A situação é de desamparo e violência. Pelo constatado, a origem de todos os problemas está na falta de andamento dos processos de demarcações de terras tradicionais e na ausência de políticas publicas” – fonte: Midiamax em matéria do último dia 31. 

    Sensibilizados pela realidade que viram e ouviram das lideranças das comunidades visitadas, ficou o compromisso de se empenharem na luta pelos direitos desse povo, em especial pelo reconhecimento e garantia de seus territórios. Uma das principais preocupações sentidas é com relação à demora do Estado brasileiro, através da Funai, de cumprir sua obrigação constitucional de demarcar as terras.

    Também visitaram a comunidade de Laranjeira Nhanderu, que teve que se deslocar até a beira da estrada para falar com o secretário da CNBB, pois existe ordem expressa do juiz para ninguém se deslocar até a aldeia.

    A pergunta que diariamente fazem as lidernças Kaiowá Guarani é porque não são cumpridos os prazos para a regularização de suas terras. Lembram, por exemplo, o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e as obrigações que assumiu a Funai, com o juiz e o Ministério Público, de publicar todos os relatórios de identificação até o início deste ano. Nenhum relatório foi publicado. Um deles foi entregue no dia 10 de outubro do ano passado. O compromisso era de dentro de um mês analisar e publicar o relatório. Já se passaram quase quatro meses e nada de publicação.

    Ao tomar conhecimento da ordem de despejo, a liderança Apinajé Antonio Veríssimo escreveu dizendo: “Essas injustiças que estão sendo cometidas diariamente contra o povo Guarani, nos incomoda profundamente. Diante dessas perversidades, que resultam em sofrimentos e genocídio do povo Guarani, não podemos assistir toda essa barbárie de braços cruzados, sem fazer nada. Precisamos nos articular, denunciar e reclamar. Uma violência cometida contra um Guarani, é uma violência contra todos nós, por que todos somos humanos”.

     

     

     

    Read More
  • 01/02/2012

    Comunidade Tupinambá é retirada à força de território tradicional na Bahia

    Francisco Vanderlei Ferreira da Costa

    Pesquisador e professor da IFBA

    Esta semana as aulas do Tempo Escola Comunidade da Licenciatura Intercultural Indígena do Instituto Federal da Bahia (IFBA) estão acontecendo em Olivença, região no Sul da Bahia, próxima a Ilhéus. Durante as aulas, foi noticiado, pelos alunos, que havia a possibilidade de reintegração de posse de uma área, Acuípe de Baixo, que está em mãos Tupinambá. Essa área está dentro da região já definida por estudos como sendo pertencente aos Tupinambá. Como a demarcação ainda não se efetivou, esse grupo indígena fica sujeito a ações agressivas, vindas de sujeitos representantes do Estado brasileiro. São atitudes desrespeitosas, que visam criminalizar o movimento social indígena.

    Na manhã desta quarta-feira (1º), a comunidade Tupinambá de Acuípe de Baixo, por volta de seis horas e trinta minutos, foi novamente tratada como se fosse composta por criminosos. Muitos policiais federais com armas em punho chegaram para realizar a tal nomeada reintegração. Obviamente os indígenas são colocados de frente para as paredes para procedimento de revista, começando, assim, um ritual indigno para um grupo que viu sua terra ser invadida, sem nunca dispor da justiça para pedir reintegração.

    Como tenho dois alunos Tupinambá que residem na localidade dessa retomada, os quais não foram para as aulas da Licenciatura, eu estava no momento da chegada da PF em Acuípe. Vi velhos, crianças, mulheres e homens adultos serem destratados. O único interesse da Justiça naquele momento era entregar novamente a Terra Indígena Tradicional a sujeitos não indígenas, mostrando a incapacidade do Estado em reconhecer o direito das comunidades.

    Os policiais chegaram portando armas e gritando, isso durante uma chuva, colocaram todos em uma área, quando fui visto, as únicas palavras indiretamente direcionadas a mim foram “esse é índio”, como se em uma comunidade indígena somente índios pudessem estar lá. Quando me identifiquei, indicaram-me um carro para deslocamento para Olivença.

    Até esse momento a violência estava no ato do grito, na chegada sem avisar, nas armas em punho, entretanto, um Tupinambá sentiu-se no direito de cantar, acompanhado de seu maraká. Ele foi imediatamente retirado do carro, arrancaram seu maraká e ele sob um discurso de acusação de estar atrapalhando o serviço da Polícia Federal foi colocado joelhado na chuva. Cena dantesca para com um ancião, ele cometeu ‘o delito de ser Tupinambá’.

    Os dois alunos da licenciatura não participaram das aulas do IFBA, não possuíam condições psicológicas para isso, também, como o Estado brasileiro espera formar professores indígenas, se as comunidades continuam sem a Terra, esse direito precisa ser respeitado.

     

     

     

     

     

    Read More
  • 31/01/2012

    Secretário-geral da CNBB percorre comunidades Guarani Kaiowá

    Depois de percorrer cerca de mil quilômetros e visitar comunidades Guarani Kaiowa na região sul do Mato Grosso do Sul, o secretário- geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Dom Leonardo Ulrich Steiner se pronuncia aos jornalistas nesta terça-feira, às 15 horas, na Cúria Diocesana de Campo Grande – Rua Amando de Oliveira, 448, bairro Amambai, Campo Grande (MS).

    ”A situação é de desamparo e violência. Pelo constatado, a origem de todos os problemas esta na falta de andamento dos processos de demarcações de terras tradicionais e na ausência de políticas publicas”, declarou Dom Leonardo em visita ao tekoha Kurusu Amba, no município de Coronel Sapucaia. O religioso verificou que os Kaiowá de Kurusu Amba sofrem ainda com o veneno jogado nas plantações de soja, que contamina a agua e o solo, bem como a falta de alimentos para a comunidade e escola para as crianças.

    Tal realidade foi observada por Dom Leonardo em outras duas áreas de retomadas: tekoha Laranjeira Nhanderu, município de Rio Brilhante, e tekoha Guaiviry, município de Aral Moreira. Em Laranjeira, os Guarani Kaiowá estão sob ordem de despejo, a ser nos próximos dez dias. Dom Leonardo ouviu dos indígenas que a comunidade decidiu pela permanência, pois cansou de ver indígenas morrerem nos acampamentos a margem da rodovia – local para onde devem voltar caso sejam despejados.

    "A Igreja precisa olhar para nossos irmãos indígenas. Vamos nos movimentar nesse sentido, porque não e possível aceitarmos tal situação. Os indígenas precisam de suas terras para viver o próprio modo de vida e praticar sua cultura", frisou Dom Leonardo. Disse ainda ser admirável que depois de tantas décadas de violência e perseguição, os Kaiowá preservem a língua e seus modos. "Em verdade, isso e o que os mantem. Então e importante nunca abandonar as danças, as praticas religiosas tradicionais".

    No tekoha Guaiviry, local onde vivia o cacique Nisio Gomes, desaparecido depois de ataque de pistoleiros em 18 de novembro do ano passado, o secretario geral da CNBB visitou o lugar em que Nisio caiu baleado, percorreu o acampamento, visitou o rio e mostrou-se emocionado com a receptividade alegra das crianças, mesmo em meio a tantas dificuldades e violência. Os indígenas pediram a Dom Leonardo que os ajude a recuperar o tekoha.

    "Foram visitas muito bonitas, profundas. Estou convencido de que não podemos mais permitir que a conjuntura do Mato Grosso do Sul para os indígenas se mantenha. A Igreja quer contribuir. Inclusive uma das notas mais fortes que a CNBB soltou nos últimos tempos foi sobre os episódios de violência contra os indígenas", destacou Dom Leonardo em visita ao Ministério Público Federal para se inteirar de mais dados e informações.

    O religioso recebeu também, em Campo Grande, uma comissão de lideranças Terena, povo que mantém luta semelhante aos Guarani Kaiowa e que tem na demarcação de terras o principal entrave para a posse do território tradicional. No ano passado, um ônibus escolar Terena foi atacado com coquetéis molotov. Uma mulher morreu e diversas crianças ficaram gravemente feridas.

    Serviço:

    Entrevista coletiva de Dom Lucionao Ulrich Steiner, secretario geral da CNBB

    Pauta visita as comunidades Guarani Kaiowa da região sul do MS

    Local Cúria Diocesana de Campo Grande – Rua Amando de Oliveira, 448, bairro Amambai, Campo Grande

    Horário 15 horas

    Mais informações Flavio Vicente Machado / coordenador do Cimi-MS (67) 9981.9534; Renato Santana / jornalista-Cimi (61) 9979-6912

    Read More
  • 30/01/2012

    Mais uma vez indígenas do Alto Envira denunciam o descaso na área de saúde

    Carta-denúncia dos Ashaninka e Madihá do Alto Rio Envira

     

    Terra indígena Ashaninka Isolados do Rio Envira

    Sr. Antonio Alves.

    Secretário Nacional da Saúde Indígena.

     

    Nós Ashaninka e Madihá, do Alto Rio Envira, viemos publicamente denunciar com o descaso da saúde que vem acontecendo em nossa região.

     

    – Há muitas de nossas crianças vem sendo vítimas de epidemias de ataque de diarréia, vômito, febre e outros tipos de enfermidade.

     

    – Em nossas comunidades não existe saneamento básico. Só há um monte de material de construção estragado.

     

    – Há dois anos a equipe de saúde não sobe para fazer qualquer trabalho na área de saúde.

     

    – Quando conseguimos chegar com os pacientes até a cidade de Feijó, ficamos a mercê da sorte, não recebemos tratamento adequado, ficamos na beira do barranco, não recebemos combustível de volta e nem alimentação.

     

    – Choramos as mortes de nossas crianças que morrem a míngua. A última que morreu foi próximo do Natal, quando a gente vinha descendo a remo em busca de socorro até a cidade de Feijó. Tivemos que enterrar na beira do barranco nos seringais dos brancos.

     

    Senhor secretário por ocasião de sua visita ao pólo, entregamos em mão o nosso documento falando de nossos sofrimentos e buscamos alternativas.

     

    Feijó, 24 de janeiro de 2012.

     

    Read More
  • 30/01/2012

    Ensecadeira se estende de ponta a ponta em canal do rio Xingu, inundando trechos florestados de ilha e terra firme

    Por Xingu Vivo

     

    Nas margens do Arroz Cru, região onde se concentrava o maior número de ribeirinhos, pescadores, seringueiros e agricultores da Volta Grande, no Rio Xingu, casas habitadas e abandonadas se misturam ao cenário de ficção científica da construção da primeira barragem de Belo Monte. Em algumas das casas vazias, é possível ver vacas e bois abandonados e cachorros sem o que comer. Nas residências ribeirinhas, onde domingo era dia de reunião nas casas mais espaçosas, silêncio.

     

    A primeira das três primeiras ensecadeiras que servirão para a construção da barragem da Usina Hidrelétrica Belo Monte já fechou o rio Xingu. Situada no chamado canal  do Arroz Cru, o canteiro de obras foi alvo de protestos no mês de janeiro.

     

    No entorno da Ilha do Pimental, localizada na margem oposta do canal, diversas placas boiando na água advertem às embarcações que já não é mais permitido transitar por lá. E de fato, não há saída: de ponta a ponta, o canal, da margem do Arroz Cru até a ilha, já foi barrada pela primeira ensecadeira da usina.

     

    O barramento já alterou o nível do rio no canal. Acima da ensecadeira, a água está cerca de três metros mais alta do que à jusante, dizem os pescadores. “Tá vendo aquele coqueiro? A água nunca chegou nessa altura”, comentou um pescador. “O rio já está bem cheio e ainda é janeiro. E aqui perto do aterro [ensecadeira] tá muito alto. Será que é por isso que lá em Altamira tá cheio daquele jeito?”, questionam entre si. De fato, a “enchente”, como é chamado o período das cheias e do inverno na cidade, está adiantada. “É porque é ano bissexto”, explicam.

     

    “E a água represada tá correndo pra lá, pras ilhas, pra terra”, diz o pescador. De fato, a barragem provisória já está inundando trechos florestados de ilha e terra firme. “E como eles vão fazer depois? Tirar a água do rio pra derrubar a mata?”, indagam os pescadores.

     

    De acordo com os pescadores, se o trecho do rio em questão ficar permanentemente cheio, é o início do fim da vida na Volta Grande do Xingu. “As praias daqui já estão debaixo d’água e nós nunca mais vamos ver. Os peixes não vão comer esse lodo cheio de barro que está sedimentando no fundo do rio. A gente disse pra Norte Energia que os peixes vão morrer e que não vamos poder pescar, e que depois só ia sobrar o Tucunaré, porque ele é um peixe predador. Aí o engenheiro me disse que isso era uma coisa boa, e perguntou se a gente não achava isso bom”, conta um pescador.

     

    A supressão da vegetação da Ilha do Pimental também avança. De acordo com moradores da região, o desmatamento já tem cerca de oito quilômetros de comprimento.

     

    Read More
  • 30/01/2012

    Mato Grosso do Sul: A Ordem é Despejo e Progresso

     

    Em primeiro lugar, queremos contar a todos os juízes e sociedades que estamos coletivamente em estado de medo, desespero e dor profunda. Já sobrevivemos em situação mísera e perversa há várias décadas… Hoje no dia 26/01/2012, nós compreendemos claramente que nós não temos mais chances de sobreviver culturalmente e nem fisicamente neste país Brasil, visto que em qualquer momento seremos despejados de nossa área antiga reocupada por nós, portanto estamos com muita tristeza e perplexa, ao receber esta notícia da oficial da Justiça e da Polícia Federal e Funai. Já estávamos com a alegria praticando o nosso ritual sagrado dia-a-dia aqui em minúscula terra antiga reocupada Ñanderu Laranjeira em que retornamos nos últimos dois anos” (Carta da Comunidade Laranjeira Nhanderu aos Juízes do Brasil).

     

    O portão fechado aos índios e seus aliados, abre-se como por encanto aos homens da lei e da ordem. O Oficial de Justiça, escoltado pela Polícia Federal e Funai, é portador de mais um decreto de medo e de condenação. A nova ordem de reintegração de posse é mais uma punhalada na pequena comunidade Kaiowá Guarani do Mato Grosso do Sul.

     

    Quem acompanhou a saga de violência sofrida por essa comunidade nativa dessa região em sua dura e sofrida luta pela sobrevivência, certamente terá que se perguntar que país é esse que (mal)trata seus primeiros habitantes com tamanha covardia e crueldade. É a lei do mais forte se impondo, em nome do rei e da lei, da ordem e do progresso.

     

    Quando no ano passado o agronegócio e sua lógica de produção a qualquer custo, com muito agrotóxico e agressão à mãe terra, deflagraram a campanha “Produção Sim, Demarcação Não”, estavam apenas explicitando a lógica perversa da negação das terras indígenas. E não tem sido outra a atitude do Governo Federal quando tem destinado bilhões para acelerar o agronegócio e a agroindústria, especialmente na produção da soja e do etanol. Isso através do bem aventurado PAC – Programa de Aceleração do Crescimento.

     

    Enquanto isso a propalada e dezenas de vezes adiada regularização das terras indígenas andavam a passos de tartaruga, sob constantes atropelos judiciais e o Senado Federal procura mudar a Constituição, chamando para si a responsabilidade de decidir sobre a definição e demarcação das terras indígenas.

     

    Memória do massacre, sofrimento e esperança

     

    A comunidade Kaiowá Guarani de Laranjeira Nhanderu, desde dia 11 de setembro de 2009, vem vivendo uma longa “via crucis”. Despejada para a beira da estrada, BR-163, ali conviveram com toda espécie de sofrimento, passando por momentos com seus barracos inundados, sob a implacável agonia do sol, do frio e da chuva. Tiveram pelo menos três de seus membros mortos por atropelamento. Seus idosos e crianças convivendo com o medo diário do ronco dos carros.

     

    Passaram heroicamente por todo esse massacre diário, sem jamais perder a esperança de um dia terem seus direitos respeitados e sua terra garantida. Essa situação chegou ao conhecimento nacional e internacional através das inúmeras visitas de delegações de solidariedade, desde os trabalhadores rurais sem terra até a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. De representantes da Presidência da República a representantes de instituições internacionais de Direitos Humanos e defesa das populações indígenas.

     

    Foi um ano e meio de travessia do deserto do sofrimento, que fez dessa comunidade um lugar especial de celebração da esperança, de afirmação da cultura, de luta com dignidade pela vida presente e futura.

     

    Diante da morosidade de solução da questão da terra e fartos de promessas não cumpridas, retornaram à sua terra em maio do ano passado, com a certeza de que Nhanderu e os espíritos de seus guerreiros ancestrais lhes garantiriam sua terra tradicional. É o que vemos no veemente depoimento Dona Adelaide.

     

    “Queremos sobreviver culturalmente e fisicamente aqui, queremos proteção e apoios vitais da justiça do Brasil para garantir a nossa nova geração Guarani-Kaiowá neste país sem vítimas de violências perversas” (idem carta).

     

    Egon Heck

    Povo Guarani Grande Povo – Janeiro de 2012

     

    Read More
  • 27/01/2012

    Nota Pública CPT: Trabalho Escravo, um crime que persiste

    Neste dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, 28 de janeiro, ao serem lembrados os oito anos da chacina de Unaí, MG, quando foram assassinados quatro servidores federais que atuavam na fiscalização das condições de trabalho no campo, a Coordenação Nacional da CPT, juntamente com a Coordenação Nacional da Campanha da CPT contra o Trabalho Escravo, vem a público para expressar sua indignação diante da escandalosa demora do processo judicial decorrente deste bárbaro crime.

     

    Com credibilidade já fortemente questionada junto à sociedade brasileira, o Poder Judiciário mantém-se refém de procedimentos que o fazem andar a passos de tartaruga, não oferecendo as respostas ansiosamente esperadas pela sociedade.

     

    O mesmo acontece com o Legislativo. Logo após o crime de Unaí, o Senado se apressou e aprovou em dois turnos a PEC 438/2001, que estabelece o confisco das propriedades nas quais foi constatada a existência do trabalho escravo e sua destinação para a Reforma Agrária. A Câmara Federal também a aprovou, em primeiro turno, no dia 10/08/2004, devendo ir para votação em segundo turno. A partir de então não foi mais posta em votação, apesar dos constantes apelos de movimentos e entidades da sociedade civil e do requerimento de vários deputados de diferentes partidos. Quando a Câmara Federal vai acordar do torpor em que se encontra e votar esta medida, viabilizando, assim, um instrumento altamente dissuasivo contra uma chaga que aflige ainda milhares de trabalhadores? Ou prefere capitular diante das exigências do agronegócio e de sua articulada bancada? Propriedade ou dignidade? Lucro ou vida? Eis o dilema. Vai o econômico mais uma vez se sobrepor aos mais elementares direitos, como é o direito a um trabalho digno e seguro?

     

    Nestes dias, o Ministro do Trabalho, ao lançar o Manual de Combate ao Trabalho em Condições Análogas às de Escravo, afirmou que o Brasil está perto de vencer esta batalha. Realmente passos importantes já foram dados, mas muito sobra por fazer e a resistência é considerável.

     

    Instituída pela Portaria 540/2004 do Ministério do Trabalho e Emprego e reforçada pela Portaria Interministerial 02/2011 – o cadastro dos empregadores que usam do trabalho escravo, conhecido como Lista Suja, está sendo questionado desde sua criação pela Confederação Nacional da Agricultura, CNA, por meio de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade. Caso vença tal ação, cairia por terra um instrumento eficiente na responsabilização dos atores econômicos e financeiros envolvidos ao longo das cadeias produtivas da escravidão moderna. Em fins de novembro passado, o relator do processo no Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres Brito, liberou o processo para julgamento. O STF pode vir a julgar esta ação a qualquer momento.

     

    Está na hora de se pôr um fim a esta exploração vergonhosa. Já dizia Tiago, em sua carta: “Vejam, o salário dos trabalhadores que fizeram a colheita nos campos de vocês, retido por vocês, esse salário clama, e os protestos dos cortadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos Exércitos” (Ti 5,4).

     

    Também clama pelo fim desta chaga que envergonha nossa nação o sangue derramado pelos servidores do MTE em Unaí. Este sangue exige dos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo que assumam de vez a defesa incondicional dos direitos da pessoa, quebrando as amarras que os subjugam ainda ao bel prazer do poder econômico. Está na hora da cidadania reinar em nosso País. 

     

    Goiânia, 27 de janeiro de 2012.

     

    Coordenação Nacional da CPT

    Coordenação Nacional da Campanha da CPT contra o Trabalho Escravo

     

    Maiores Informações:

    Cristiane Passos (Assessoria de Comunicação da CPT Nacional) – (62) 4008-6406 / 8111-2890

    Antônio Canuto (Assessoria de Comunicação da CPT Nacional) – (62) 4008-6412

    www.cptnacional.org.br

    @cptnacional

     

    Read More
Page 680 of 1235