• 29/05/2013

    Essa terra tem dono, Palácio do Planalto! Nota de repúdio contra a suspensão de demarcações na região Sul

    Indígenas Guarani Xeripá do acampamento Mato Preto. Foto: Renato Santana/Cimi. Lideranças Kaingang e Guarani dos estados do Rio do Grande do Sul (RS), Paraná (PR) e Santa Catarina (SC), realizaram três grandes reuniões, com o objetivo de estudar a conjuntura anti-indígena, discutir a situação das retomadas de Terras Tradicionais e articular-se no fortalecimento do movimento. A primeira reunião aconteceu no último dia 14 de maio, na Terra Indígena (TI) Lajeado do Bugre, entre os caciques que estão na luta por retomadas de terra no norte do RS. Outra aconteceu em Chapecó (SC), no último dia 20 de maio, reunindo mais de 100 lideranças Kaingang e Guarani de toda região Sul. E a última aconteceu no dia 23 de maio, na TI Serrinha, onde se encontraram mais de quarenta caciques e outras lideranças.

     

    “É lamentável que em pleno século XXI esteja acontecendo isso com os Povos Indígenas do Brasil”. Essa foi a frase inicial da liderança Kaingang Luis Salvador, referindo-se ao projeto do governo atual. Modelo econômico desenvolvimentista, altamente dependente da exploração e exportação de matérias-primas, produção de commodities e construção de infraestrutura. Essa situação acirra ainda mais a disputa pelo controle dos recursos naturais e de espaços territoriais existentes no país. Nesse contexto entra a exploração dos territórios indígenas, de outras populações tradicionais e do meio ambiente. Processo esse, assumido pelo governo, nos seu s três poderes (Legislativo, Judiciário e Executivo), aliando-se ao agronegócio.

     

    Para o sistema capitalista “somos considerados como incapazes, e somos ‘incapazes’ de produzir o que ‘eles’ querem”. Essa foi a fala de Leonir Franco, ao denunciar o preconceito sofrido pelo povo indígena e a ganância demolidora do capitalismo. “Não queremos terra para ficar rico. Deixar o mato crescer, dar futuro a nossas crianças e viver é o que queremos”, disse Luiz Tiago, também liderança Kaingang.

     

    Nessa batalha desigual, o setor dominante utiliza-se de armas poderosas, de forte poder destrutivo e letal. O cacique Roberto dos Santos denuncia isso ao afirmar que: “Existe uma forte política anti-indígena que quer mexer na Constituição Federal de 1988 e no Decreto 1775, alem de afetar o único órgão federal indigenista”. Para agravar a situação, manobras políticas eleitoreiras de mandatários dos poderes executivos e legislativos (nacional e estadual), inclusive das bancadas evangélica e agropecuária, estão incitando a violência entre indígenas e pequenos agricultores no norte do RS. Sabendo que ambos são vítimas do processo histórico, o qual ao longo de 513 anos vem massacrando, exterminando e excluindo os povos indígenas. Esta postura não contribui ao Estado Democrático e de Direito, mas instiga a segregação, a violência e preconceito. Do lado dos Kaingang e Guarani do RS sempre houve respeito aos direitos dos agricultores das terras indígenas. Porém, como lembra a liderança Luis Tiago, a luta deve ser pela recuperação das terras tradicionais: “os agricultores têm seus direitos, mas não devemos ter medo de recuperar nossas terras”.

     

    Entre as armas utilizadas pelo governo e setores a ele ligados, está a judicialização dos processos de demarcação das terras tradicionalmente ocupadas. Também as constantes situações de violências que as lideranças e comunidades sofrem, são resultantes do prolongamento e não conclusão dos processos demarcatórios. Entre essas aramas estão as tentativas de alteração na legislação brasileira, tais como: as Propostas de Emenda à Constituição (Ex.: PECs 215 e 37/2007); Portaria 303 da AGU; e o anúncio de mudanças no procedimento demarcatório através de Decreto da Presidência.

     

    Diante da complexa conjuntura que ameaça a vida e os direitos dos Povos Indígenas, as lideranças se questionam: “Como enfrentar o governo e essa política que esta aí tirando ‘bem de vagarinho’ nossas terras e direitos?”, tal como disse Roberto dos Santos, cacique Kaingang. A resposta é uníssona: unir as forças, mobilizar todas as comunidades, discutir, resistir e lutar pelos direitos garantidos na Constituição Federal de 1988.

     

    O Cimi, solidário e comprometido com a causa indígena, denuncia que os discursos de integrantes do governo federal, especialmente da ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann, contra as demarcações das terras, têm gerado, nos estados do Sul do Brasil, um clima de tensão e de violência contra comunidades indígenas. O governo ao anunciar que adotará medidas administrativas e políticas para paralisar as demarcações das terras promove, junto à opinião pública, discursos de intolerância e de preconceito contra as pessoas indígenas e quilombolas e contra seus direitos, como se estes fossem privilégios.

     

    No entender do Cimi o governo federal será o grande responsável pelo agravamento das relações entre indígenas e agricultores no Sul do Brasil e pelas consequentes violências advindas desta relação, uma vez que, ao invés de resolver os problemas, o governo os aprofunda com um único objetivo: assegurar para si o apoio da bancada ruralista, que se constitui, no atual contexto, no maior “partido político” do Congresso Nacional.

     

    Chapecó, 28 de maio de 2013.

     

    Conselho Indigenista Missionário – Regional Sul

     

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  • 28/05/2013

    Belo Monte: Justiça determina reintegração de posse com uso de força policial

    Foto: Ruy Sposati/CimiA Justiça Federal de Altamira determinou nesta terça-feira, 28, que seja realizada a reintegração de posse do canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, na região de Altamira (PA). Ocupada desde ontem por 170 indígenas que reinvindicam a suspensão de obras e estudos de hidrelétricas na Amazônia, o principal trecho da barragem está com os trabalhos parados pela segunda vez no mês.


    Um oficial da Justiça Federal esteve no canteiro para entregar o documento da reintegração aos manifestantes. A leitura do documento não causou espanto aos indígenas, que rasgaram o documento na frente do oficial, de representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e de cerca de 40 homens da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Tropa de Choque, Rotam e Polícia Civil. Depois eles dançaram e cantaram.


    O juíz Sérgio Wolney Guedes, da comarca de Altamira, deu um prazo de 24 horas para que os indígenas saiam pacificamente da obra. Os indígenas afirmam que não sairão por ordem judicial, e exigem a presença do ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República.


    Os povos indígenas e comunidades tradicionais afetadas pela UHE Belo Monte nunca foram consultados, conforme a Constituição Federal e a Convenção 169 da OIT, para que pudessem dizer se querem ou não o empreendimento. Nos rios Tapajós e Teles Pires a situação é a mesma. Por essa razão, os povos indígenas decidiram unificar as lutas contra as hidrelétricas na Amazônia como forma de serem ouvidos.


    No canteiro ocupado, o clima é tenso entre indígenas e policiais. Segundo relato dos manifestantes, ameaças verbais e intimidação po parte da Força Nacional são constantes no canteiro. Ainda, um jornalista foi ameaçado de prisão e uma documentarista foi expulsa do canteiro por policiais enquanto entrevistava os indígenas. A energia elétrica na área em que os indígenas estão acampados continua cortada.


    Imprensa: para outras informações e entrevistas, o telefone de contato com a ocupação é (93) 8805-2597. Também, pelo blog da ocupação: http://ocupacaobelomonte.wordpress.com/

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  • 28/05/2013

    Belo Monte: nova ocupação, mesmas demandas, mesmos problemas

    Por Ruy Sposati,

    de Vitória do Xingu (PA)

     

    Foto: Ruy Saposati/CimiO principal canteiro de obras da maior obra em curso no país parou novamente. Depois de oito dias de uma paralisação que reacendeu a luta contra grandes obras que impactam comunidades tradicionais, os indígenas voltaram a suspender por tempo indeterminado os trabalhos da Usina Hidrelétrica Belo Monte, na segunda-feira, 27. Eles reivindicam a suspensão de obras e estudos de barragens em seus territórios, exigindo que a consulta prévia – com poder de veto – seja realizada.

    Um sem-número de guindastes, betoneiras, tratores, escavadeiras, gruas, caminhões e caminhonetes pararam no quilômetro 50 da Rodovia Transamazônica para ver 170 indígenas Munduruku, Xipaya, Arara, Kayapó e Tupinambá passarem e ficarem. "E dessa vez não vamos sair, nem com reintegração de posse", afirmaram as lideranças do movimento em entrevista à emissora afiliada à Rede Globo no Pará. "Alguém vai ter que vir aqui, ou nós vamos começar a plantar roça no canteiro".

     

    Em meio ao que parecia ser o pico mais baixo de um marasmo decorrente de sucessivas derrotas dos povos indígenas da região da Volta Grande do Xingu, surge uma nova articulação: a dos povos dos rios onde o governo pretende implementar grandes complexos hidrelétricos – e, com eles, violentas empreitadas no campo da mineração, desmatamento e caos social. " Nós somos nós e o governo precisa lidar com isso", afirma o movimento na carta número sete da ocupação da usina Belo Monte.

     

    Após a ocupação anterior, entre os dias 2 e 9 de maio, indígenas dos rios Tapajós e Teles Pires permaneceram acampados em Altamira, aguardando uma resposta do governo federal sobre suas demandas. Mas "esperar e chamar não servem para nada", concluem os indígenas no documento. E, então, eles reocuparam o empreendimento.

     

    Antes disso, a concessionária Norte Energia, prevendo distúrbios, havia pedido à Justiça Federal de Altamira que garantisse a manutenção da reintegração de posse deferida liminarmente para a ocupação anterior, e estabelecesse multa para possíveis invasões. O juíz concedeu multa de 5 mil reais por dia "em caso de nova turbação ou esbulho no imóvel denominado Sítio Belo Monte". Isso não pareceu incomodar os indígenas, que reocuparam exatamente o mesmo local de antes.

     

    Ocupação

     

    Foto: Ruy Sposati/CimiEntraram no canteiro por volta das 4 horas da manhã – e ao contrário da outra ocupação, todos os acessos do sítio, dessa vez, ficaram sob o controle dos indígenas. Isso impediu toda a operação do canteiro. Desde o início do dia, a comunidade enfrentou o assédio e a pressão de um contingente de ao menos 50 policiais da Força Nacional (FNSP), Polícia Rodoviária Federal, Tropa de Choque da Polícia Militar, Rotam, Polícia Civil e seguranças privados de ao menos duas empresas diferentes ligadas ao Consórcio Construtor Belo Monte. A polícia tem pressionado os piquetes a permitirem a entrada de mais policiais no empreendimento, mas os ocupantes não permitiram. “Agindo assim, vocês estão declarando guerra contra a Força Nacional”, ouviram os manifestantes.

     

    Sofreram também o corte do fornecimento de água e energia elétrica nas instalações onde estão alojados, elementos que a Força Nacional tem utilizado para tentar desmobilizar e garantir a entrada de mais destacamentos policiais dentro do canteiro, além das tropas que já residem dentro do canteiro de obras. O diálogo abaixo, transcrito pelos indígenas e presenciado pela imprensa, dá a dimensão das pressões sofridas no canteiro:

     

    – Vocês liberam a entrada pra gente, e nós religamos a luz, disseram os policiais aos indígenas

    – Nós queremos que vocês saiam, responderam os indígenas. Nós não estamos armados, não estamos quebrando nada, podem ir.

    – Vocês estão armados, sim, retrucou o policial, apontando para uma lança de madeira.

    – Isso é nossa cultura.

    E essa é a nossa cultura, concluiu o policial, acariciando a pistola na cintura.

     

    Alianças

     

    Os indígenas escreveram uma carta aos trabalhadores do CCBM, "com quem a gente joga bola no canteiro", propondo uma aliança tática entre comunidades tradicionais, atingidos da região de Altamira e os operários do empreendimento (segundo os indígenas, a Força Nacional não tem permitido a distribuição dos panfletos). E dizem temer possibilidades de "infiltração" de falsos trabalhadores, pagos pelo Consórcio para criar situações de crise entre eles. Toda essa "sofisticação" do movimento indígena tem incomodado o governo e as empresas envolvidas na construção da obra, que sucessivamente tem tentado descaracterizar a ação e acusar os indígenas de serem manipulados por ONGs estrangeiras.

     

    Na conta do governo está o silêncio retumbante sobre a pauta dos indígenas: nem um pio sobre consulta prévia, e também “a militarização dos contextos de conflito social relativos à luta por direitos dos indígenas”, conforme apontou nota do Conselho Indigenista Missionário. Também figuram a expulsão e multa de jornalistas e um espetáculo de declarações difamatórias, racistas e caluniosas contra comunidades inteiras.

     

    Reintegração

     

    A Norte Energia novamente reforçou o pedido de reintegração de posse na Justiça do canteiro ocupado. Na primeira decisão, o juíz Sérgio Guedes se mostrou bastante sensível à questão indígena, e agora deu prazo de 24 horas para que a Polícia Federal e a Fundação Nacional do Índio (Funai) entregassem relatórios sobre as ocorrências à Justiça. Alguma decisão deve ocorrer amanhã, terça-feira.

     

    "A barragem dividiu as aldeias e dividiu os parentes", lamenta Juma Xipaya. "Dividiu o homem. Então é preciso um novo pacto, entre os encantados de cada povo, que vai unir todos os parentes", afirma o cacique Babau Tupinambá. Ambas as lideranças fazem parte da dúzia de povos que já declararam solidariedade irrestrita ao movimento por meio de cartas de apoio aos parentes que ocupam a barragem.

     

    É no tom dessa espiritualidade recheada de "Saweh!" – o grito dos Munduruku que tomou de assalto a boca de todos – e pelo canto dos passarinhos de uma obra em silêncio que os indígenas cantarolam o amanhecer do segundo dia da ocupação do canteiro, onde o sonho parece só enrijecer, apesar dos endurecimentos.

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  • 27/05/2013

    “Governo federal, nós voltamos”, diz carta de indígenas que ocupam canteiro da UHE Belo Monte

    Foto: Ruy Sposati/CimiCerca de 170 indígenas voltaram a ocupar, na madrugada desta segunda-feira (27), o principal canteiro de obras da Usina Hidrelétrica Belo Monte, em Vitória do Xingu, no sudoeste do Pará. A reivindicação central é a de que as obras da usina hidrelétrica de Belo Monte e os estudos para a construção das usinas no Rio Tapajós sejam suspensos até que as consultas prévias aos povos indígenas sejam realizadas.

     

    Os indígenas divulgaram carta explicando o movimento – leia abaixo – formado por indígenas Chipaia e Arara, que moram na Volta Grande do Xingu, além de representantes das etnias Kayapó, Munduruku e Tupinambá.

     

    Eles afirmam que estes mega projetos de geração de energia causam graves impactos ambientais e sociais e destroem o modo de vida dos povos e das comunidades tradicionais da região. Se efetivada, a construção de Belo Monte, por exemplo, secará 100 quilômetros do rio na Volta Grande do Xingu. No caso da construção das hidrelétricas planejadas pelo governo para o Rio Tapajós, as milenares aldeias Munduruku, situadas às margens do rio ficariam totalmente inundadas.

     

    Esta é a segunda ocupação realizada nas obras de Belo Monte em menos de um mês. No dia 2 de maio os indígenas ocuparam o mesmo canteiro e permaneceram lá por oito dias. Os indígenas afirmam que saíram pacificamente na última ocupação porque o governo federal garantiu que haveria uma negociação, o que não aconteceu. Portanto, desta vez, eles garantem que resistirão até que o governo federal, efetivamente, converse com eles e atenda às suas reivindicações.

    Os indígenas também criticam a presença da Força Nacional na região com o objetivo de garantir segurança e apoio para a realização dos estudos de impacto ambiental das usinas no Tapajós.

     

    Além dos policiais que já estavam alojados dentro do canteiro de obras com o objetivo de garantir a proteção de Belo Monte, outros contingentes da polícia estão chegando à ocupação iniciada nesta madrugada.

     

    Leia carta na íntegra divulgada pelo movimento de ocupação

     

    Governo federal, nós voltamos

     

    Nós somos indígenas Munduruku, Xipaya, Kayapó, Arara e Tupinambá. Nós vivemos do rio e da floresta e somos contra destruírem os dois. Vocês já nos conhecem, mas agora somos mais.

     

    O seu governo disse que se nós saíssemos do canteiro, nós seríamos ouvidos. Nós saímos pacificamente – e evitamos que vocês passassem muita vergonha nos tirando à força daqui. Mesmo assim, nós não fomos atendidos. O governo não nos recebeu. Nós chamamos pelo ministro Gilberto Carvalho e ele não veio.

     

    Esperar e chamar não servem para nada. Então nós ocupamos mais uma vez o seu canteiro de obras. Não queríamos estar de volta no seu deserto de buracos e concreto. Não temos nenhum prazer em sair das nossas casas nas nossas terras e pendurar redes nos seus prédios. Mas, como não vir? Se não viermos, nós vamos perder nossa terra.

     

    Nós queremos a suspensão dos estudos e da construção das barragens que inundam os nossos territórios, que cortam a floresta no meio, que matam os peixes e espantam os animais, que abrem o rio e a terra para a mineração devoradora. Que trazem mais empresas, mais madeireiros, mais conflitos, mais prostituição, mais drogas, mais doenças, mais violência.

     

    Nós exigimos sermos consultados previamente sobre essas construções, porque é um direito nosso garantido pela Constituição e por tratados internacionais. Isso não foi feito aqui em Belo Monte, não foi feito em Teles Pires e não está sendo feito no Tapajós. Não é possível que todos vocês vão continuar repetindo que nós indígenas fomos consultados. Todo mundo sabe que isso não é verdade.

     

    A partir de agora o governo tem que parar de dizer mentiras em notas e entrevistas. E de nos tratar como crianças, ingênuas, tuteladas, irresponsáveis e manipuladas. Nós somos nós e o governo precisa lidar com isso. E não minta para a imprensa que estamos brigando com os trabalhadores: eles são solidários a nossa causa! Nós escrevemos uma carta para eles ontem!.Aqui no canteiro nós jogamos bola juntos todos os dias. Quando saímos da outra vez, uma trabalhadora a quem demos muitos colares e pulseiras nos disse: “eu vou sentir saudades”.

     

    Nós temos o apoio de muitos parentes nessa luta. Temos o apoio dos indígenas de todo o Xingu. Temos o apoio dos Kayapó. Nós temos o apoio dos Tupinambá. Dos Guajajara. Dos Apinajé, dos Xerente, dos Krahô, Tapuia, Karajá-Xambioá, Krahô-Kanela, Avá-Canoero, Javaé, Kanela do Tocantins e Guarani. E a lista está crescendo. Temos o apoio de toda a sociedade nacional e internacional e isso também incomoda bastante a vocês, que estão sozinhos com seus financiadores de campanha e empresas interessadas em crateras e dinheiro.

     

    Nós ocupamos de novo no seu canteiro – e quantas vezes será preciso fazer isso até que a sua própria lei seja cumprida? Quantos interditos proibitórios, multas e reintegrações de posse vão custar até que nós sejamos ouvidos? Quantas balas de borracha, bombas e sprays de pimenta vocês pretendem gastar até que vocês assumam que estão errados? Ou vocês vão assassinar de novo? Quantos índios mais vocês vão matar além de nosso parente Adenilson Munduruku, da aldeia Teles Pires, simplesmente porque não queremos barragem?

     

    E não mande a Força Nacional para negociar por vocês. Venham vocês mesmos. Queremos que a Dilma venha falar conosco.

     

    Canteiro de obras Belo Monte, Altamira, 27 de maio de 2013

     

     

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  • 27/05/2013

    Associação do Povo Karitiana divulga documentos

    Associação do Povo Indígena Karitiana Akot Pytim Adnipa

    Rua Rui Barbosa, 1407-Arigolândia – 76801-186 – Porto Velho – RO

    Telefone fax: (69) 92465378 ou 9246-5379

    E-mail: [email protected]

     

    DOCUMENTO FINAL DA ASSOCIAÇÃO AKOT PYTIN ADNIPA – APK

     

    Nós povo indígena Karitiana, da aldeia Kyowã, Bom Samaritano, Byjyty osop aky e Juarí, reunidos na “Assembléia Ordinária da Associação Akot Pytin Adnipa”, nos dias 13 a 17 de maio de 2013, com o tema “Políticas Indigenista, ameaçam os Povos Indígenas”, na Aldeia Kyowã, T. I. Karitiana, município de Porto Velho, para discutir e refletir os problemas que nos atingem, expomos nossas angustias, preocupações e violências ainda vivenciadas diariamente por nossas comunidades e territórios tradicionais, no que se refere:

     

    SAÚDE:

     

    – Constatamos mais uma vez que a falta de um atendimento diferenciado tem provocado o agravamento de saúde e em alguns casos a morte de indígenas.

    – Continua a demora do atendimento nos hospitais e os Pacientes que necessitam de tratamento especializado, dentro e fora do Estado não é priorizado seu encaminhamento.

    – A estrutura da Casa de Saúde Indígena, atende em nível regional, sem dar o atendimento devido e especifico para os povos Karitiana, Karipuna, Cassupá e Salamãi. Falta equipe médica, infra-estrutura: como central de ar e ventiladores, medicamentos, equipamentos e formação especifica dos profissionais envolvidos. Também faltam medicamentos básicos nos postos de saúde das aldeias. Exigimos que haja o pólo base, especifico e diferenciado para os povos Karitiana, Karipuna, Cassupá e Salamãi, fazendo a pactuação entre o Ministério da Saúde e Santo Antonio Energia.

    – Retirada da caixa d’água em frente ao pátio principal da aldeia, espaços este que era utilizado para as festas e rituais tradicionais do povo Karitiana.

    – O Distrito Sanitário Especial Indígena de Porto Velho terceirizou os serviços de transporte, alegando que o transporte dos pacientes, não é mais de sua responsabilidade e que qualquer reclamação deve ser feita à empresa contratada.

    – A atual empresa responsável por esse serviço tem estabelecido regras para o transporte de pacientes incompatíveis com as demandas indígenas e com a realidade amazônica, por exemplo, os motoristas não trabalham mais a partir das 22 horas, em situação de emergência. São seis carros e uma van disponíveis para este trabalho e não existe motorista de plantão à noite e fim de semana Nos finais de semana e feriados. Exigimos a imediata rescisão desse contrato com esta empresa e entendemos que o DSEI é sim o responsável pelo transporte de pacientes indígenas.

    – Exigimos a contratação de AISAN, AIS e estruturas de saneamento básico na aldeia Juari, bem como, pessoal de serviço de limpeza para a aldeia Kyowã (Central). É importante que seja considerado a especificidade cultural do povo Karitiana, onde precisamos um homem e uma mulher para o trabalho de AIS nas aldeias.

    – Reivindicamos a formação/contratação imediata de Microscopistas Indígenas para todas as aldeias de nosso povo.

     

    EDUCAÇÃO:

     

    – Exigimos a imediata implementação da Lei 578/10 que criou o cargo de magistério público indígena e quadro administrativo, notadamente no que se refere ao concurso público para esses cargos e participação efetiva de representantes indígenas na comissão de elaboração do referido concurso público, para garantir as especificidades das diferentes realidades indígenas.

    – O transporte da educação escolar indígena atende os professores não indígenas, que atuam nas aldeias. Exigimos que os mesmos direitos sejam estendidos aos professores indígenas.  Que seja disponibilizado o mais rápido possível o transporte escolar dos alunos do 6º ano e ensino médio da aldeia Bom Samaritano para a aldeia Central.

    – O recebimento da alimentação escolar é deficiente nas escolas do nosso povo, principalmente na escola Kyowã, aldeia Central. Queremos a normalização da alimentação escolar, pois é um direito amparado pela lei.

    – Exigimos a continuidade do Magistério Indígena (curso Açaí II), pois nossos professores ficam sem a formação dos professores no curso de magistério indígena e também a regularização de todas as escolas indígenas do povo Karitiana.

    – Implementação do Conselho Escolar das escolas do povo Karitiana e elaboração de seu estatuto, contemplando, na sua coordenação, representantes do nosso povo.

    – Contratação de professores nas áreas especificas a partir do 6º ano, como também de funcionários para a limpeza do espaço escolar e de merendeiras.

    – Regularização do Ensino Médio na Escola 4 de Agosto, considerando suas especificidades. Implantação do Projeto do Sexto ao Nono ano e Ensino Médio em todas as Escolas Indígenas do Povo Karitiana.

    – Que haja participação ativa do povo indígena na política de educação escolar indígena, na gestão das ações e no controle social e garantia de uma educação especifica e diferenciada, segundo os princípios aprovados pelo MEC.

    – Agilidade na construção de escolas indígenas nas aldeias: Bom Samaritano, Juari e Byjty Osop Aky, adaptadas à realidade local, com estrutura física que garanta seu bom funcionamento, garantindo que sejam contratados os indígenas para o trabalho.

     

    Projetos Legislativos no Congresso Nacional:

     

    O Congresso Nacional, através de sua bancada ruralista, tem proposto uma serie de Propostas de Emenda Constitucional (PEC) e Projetos de Lei (PL) que rasgam nossos direitos garantidos na Constituição Federal de 1988; que nos desrespeitam como seres humanos, que ferem nossos territórios sagrados e que afrontam a nossa dignidade humana.

    – PEC/215/2000- transfere para o Congresso Nacional a competência para demarcar Terras Indígenas e as que ainda não tiveram seu processo demarcatório concluído, também devem passar pela aprovação do Congresso Nacional.

    – PEC 237/13 que permite a posse de Terras Indígenas por produtores rurais, através de concessão da União.

    – PL 1610/96 que regulamenta a mineração em Terras Indígenas. Nós povo Karitiana só aceitamos discutir essa regulamentação dentro do PL Estatuto dos Povos Indígenas, conforme proposta pela CNPI.

    – Portaria 303/12 da Advocacia Geral da União- interpreta de forma  abrangente, errônea e arbitraria  as condicionantes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do caso Raposa Serra do Sol, estendendo a aplicação dessas condicionantes a todas as Terras Indígenas, bem como, repudiamos o Decreto 7957/13, que usa a Força Nacional para reprimir, massacrar e forçar  as pesquisas em Terras Indígenas.

     

    FUNAI:

     

    – Que a coordenação Local, faça um trabalho coordenado com a Associação Akot Pytin Adnipa.

    – As hidrelétricas de Jirau e Santo Antonio atinge o povo Karitiana. Repudiamos que toda pactuação para reparação ou compensação de danos causados por essas obras estão sendo feitas diretamente com a FUNAI, sem  a participação dos povos indígenas afetados.

    – Um desrespeito para com os funcionários indígenas, que trabalhavam no posto da FUNAI na aldeia Central como serviços geral e foram levados a cidade para trabalhar como vigilantes nas dependências da FUNAI, na cidade de Porto Velho, trabalhando 24h sem receber uma Formação adequada, sem as condições de seguranças para desenvolver seu trabalho. Exigimos que os mesmos sejam remanejados para assumir seus trabalhos na aldeia.

    – Nessa região há presença de indígenas isolados, reconhecidos pela FUNAI, que podem estar sendo exterminados. Responsabilizamos a FUNAI, a União, o governo federal e estadual e as empresas responsáveis por esses empreendimentos por eventual genocídio desses povos isolados. Imediata interdição e demarcação das terras dos povos indígenas livres, que transitam no Território Karitiana e seu entorno.

    – Conclusão imediata do GT de revisão dos limites da Terra Indígena Karitiana.

    – Encaminhamento ao MPF uma solicitação de reunião com IBAMA, SEDAM, Policia Federal, FUNAI Brasília, para discutir um Plano de Manejo no Povo Karitiana.

    – Diante da morosidade do Estado Brasileiro, a FUNAI liberar recursos para a compra de passagens, afim de que uma comissão possa reunir-se com a Sexta Câmara e o STF e exigir agilidade no processo demarcatório.

    – Exigir que o Governo do Estado de Rondônia cumpra com os acordos que assumiu com o povo Karitiana no ano de 2012.

    – Liberação dos recursos para o inicio dos trabalhos de reaviventação da Terra Indígena Karitiana demarcada.

    – Repudiamos as atitudes dos funcionários da FUNAI por não respeitar nosso representante da Associação Akot Pytin Adnipa.

    – Devido o abandono da FUNAI, exigimos o afastamento do administrador Regional de Ji-Paraná.

     

    Diante de tudo, renovamos nossa indignação e nossos protestos e exigimos respeito aos nossos direitos tão duramente conquistados pela Constituição Federal de 1988 e Convenção 169 da OIT, e hoje ameaçados por aqueles que só sabem explorar as riquezas e os povos do nosso país. Exigimos agilidade nos encaminhamentos propostos pelo Povo Karitiana.

     

    Aldeia Central, 17 de Maio de 2013.

     

    DOCUMENTO DA ASSEMBLEIA DA ASSOCIAÇÃO AKOT PYTIN ADNIPA – APK SOBRE O TERRITORIO TRADICIONAL

     

    Nós povo indígena Karitiana, da aldeia Kyowã, Bom Samaritano, Byjyty osop aky e Juarí,  reunidos na “Assembleia Ordinária da Associação Akot Pytin Adnipa”, nos dias 13 a 17 de maio de 2013, com o tema “Políticas Indigenista, ameaçam os Povos Indígenas”,  na Aldeia Kyowã, T. I. Karitiana, município de Porto Velho, para discutir e refletir os problemas que nos atingem, expomos nossas angustias, preocupações e violências ainda vivenciadas diariamente por nossas comunidades e territórios tradicionais.

     

    O grito dos povos indígenas ecoa mundo afora, mostrando a resistência e força, hoje o estado brasileiro, com formas modernas de opressão e outras que já são conhecidas, como as visões dos que dominam, através da banca ruralista, presente no Congresso Federal, e ainda, através dos meios de comunicação sociais divulgam de que os povos indígenas são seres inferiores, não produzem e atrapalham o chamado “desenvolvimento”.

     

    A mais de 10 anos o povo Karitiana vem reivindicando a Terra Tradicional, que ficou fora dos limites do território demarcado. Vários GTs foram constituídos e até agora nada de concreto acontece, ficando estas terras nas mãos de fazendeiros e políticos, que se unem para fazer campanha difamatória contra o Povo Karitiana, aumentando assim o preconceito e a discriminação que a sociedade tem sobre nós.

     

    Conhecemos muito bem, quem são os nossos inimigos e que fazem de tudo para derrubar os nossos direitos, já garantido na Constituição Federal de 1988. O deputado Moreira Mendes – Presidente da Bancada Ruralista e todo o seu grupo, desrespeitam a constituição Federal e a convenção 169 da OIT, elaborando Projetos de Emendas Constitucionais, que violam o direito dos povos indígenas.  Sem uma presença forte do estado, nosso território se torna presa fácil, nas mãos de grupos econômicos e especuladores, pois as ações das instituições responsáveis por desenvolver a fiscalização e a proteção do nosso território, as tem desenvolvido esporadicamente, quando fazem.

     

    Nos últimos governos, constatamos a falta de vontade política, para que os programas e projetos que beneficiam as comunidades indígenas sejam efetivamente executados. Isto estimula a cobiça de segmentos econômicos e políticos que ambicionam a exploração das nossas terras e os recursos ambientais, hídricos e minerais.  O governo brasileiro busca fortalecer o poder econômico, não considerando a cultura, o modo de ser e conviver com a mãe terra diferenciados da sociedade não indígena.

     

    As ações projetadas no PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), o agronegócio que avança fortemente sobre nosso território, não bastasse estas ações, ainda o Congresso através da bancada ruralista e o próprio governo, violam os nossos direitos, garantidos na Constituição Federal, com os projetos de emenda constitucionais e projetos de leis que legalizam a invasão dos territórios indígenas por grandes corporações, como é o caso do Complexo Hidrelétrico do Madeira, da PEC 215, 038, 237, o PL 1610, Portaria 303/2012 da AGU e outros tantos projetos que decretam a invasão do nosso território e aumenta o preconceito e discriminação.

     

    Com estes Projetos de Emenda constitucionais continua o extermínio das nossas comunidades e dos povos indígenas através do confinamento de povos e comunidades em terras insuficientes; da morosidade do governo na condução dos procedimentos de demarcação das terras, do descaso nas áreas de saúde e educação; da omissão do poder público diante das agressões cotidianas, da invasão de terras por madeireiros, grileiros, fazendeiros, das violências sistemáticas praticadas contra indígenas.

     

    Nós, Povo Karitiana viemos a publico manifestar nosso repudio contra as ações do Governo Brasileiro e da Bancada Ruralista no Congresso Federal, que violam os nossos direitos já conquistados na Constituição Federal. Estamos mais de 10 anos lutando pela demarcação do nosso território tradicional, lugar sagrado para nós e que possibilita a nossa reprodução física e cultural, porque é um lugar, onde vive os espíritos de nossos antepassados, onde temos garantia de caça e pesca para a continuidade das gerações futuras. Exigimos a imediata demarcação do nosso território.

     

    Exigimos a revogação da Portaria 303 de junho de 2012, da AGU e a PEC 215, que é uma verdadeira afronta aos direitos constitucionais. O Congresso Federal e o Governo Brasileiro estão desrespeitando os direitos dos Povos Indígenas e assassinando a Constituição Federal e a Convenção 169 da OIT, decretando o genocídio dos povos indígenas de todo o Brasil. Sem que haja um reparo moral e medidas indenizatórias para nossas comunidades, que vem sofrendo com as políticas anti indígenas do governo.

     

    Aldeia Central, 17 de Maio de 2013.

     

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  • 27/05/2013

    De Luzes e Trevas: sobre a Constituição Federal e os processos de regularização fundiária entre populações indígenas brasileiras

    De maneira flagrantemente parcial, a mídia brasileira tem criminalizado a regularização fundiária de terras habitadas por populações indígenas no país. Para resumir os alarmantes argumentos, a ideia mais comum veiculada é a de que esses processos são artifícios fraudulentos, que transformariam “terras produtivas” e de “gente que trabalha”, em “reservas indígenas”. Para bom entendedor, meia palavra basta, como é de domínio popular.

    O que se anuncia é que terras “produtivas” serão tornadas “improdutivas” e, paralelamente a isso, “gente que trabalha” será como que “substituída” por “gente que não trabalha”, isto é, “índios” – como se os índios não trabalhassem ou produzissem. Esta metamorfose perversa é atribuída, em muitos casos, a um suposto concerto criminoso de forças nacionais e internacionais que atuariam em proveito próprio, tendo pouca ou nenhuma relação com os legítimos ocupantes das terras.

     

    Não é de hoje que este tipo de conjunção suspeita de ideias aparece na opinião pública ou mesmo em documentos e outras manifestações formais relacionados a trâmites legais ou matérias igualmente cruciais à existência das populações indígenas. Estas mesmas ideias vêm se repetindo cronicamente no tempo até os nossos dias, ao longo das muitas ondas desenvolvimentistas de colonização que marcam a história do nosso país desde os tempos da coroa portuguesa.
    E sim. É sempre preciso trazer à luz o fato de que este arcabouço ideológico cauciona, insidiosamente, ações e disposições tanto do Estado brasileiro quanto de agentes privados na direção do extermínio, submissão e esbulho daqueles povos.

     

    Lamentavelmente, estamos muito longe de poder acalentar a esperança de lançar este fatídico ideário, repleto de trágicos fatos que clamam por erradicação, às trevas da memória nacional. Em tempos de rápida repercussão dos discursos através de mídias eletrônicas, há mesmo a impressão de que este ideário estaria se multiplicando em incontáveis desdobramentos e manifestações. De conversas informais em redes sociais a artigos de jornais, é em documentos como Relatórios de Impacto Ambiental de grandes empreendimentos econômicos ou em célebres contestações jurídicas aos processos de regularização fundiária que ele aparece de forma mais perniciosa. Trata-se, no entanto, bem mais de uma imensa cortina de fumaça comunicacional providencialmente interposta entre a população e seus os direitos mais fundamentais, distorcendo e obscurecendo o funcionamento dos principais instrumentos constitucionais de resguardo desses direitos.

    Como agravante central desta coleção de equívocos e distorções, está a gravíssima acusação ética de que os antropólogos estariam supostamente fraudando o estudo antropológico de identificação e delimitação, conforme ele é juridicamente definido e regulamentado. É legítimo que o leitor se pergunte sobre o que é exatamente isso. Não há qualquer registro na imprensa que, afinal, lance verdadeira luz sobre o que é e como se faz, enfim, a regularização de uma Terra Indígena no Brasil. O que é, por que e como acontece, quem realmente faz, tudo isso permanece nas trevas e ignorado pelo grande público ou mesmo por especialistas de outras áreas. Tudo converge em uma situação que tem como resultado o total desconhecimento deste instrumento técnico-jurídico e sua função primordial neste tipo de regularização, representando um terreno fértil para as especulações mais estapafúrdias.

    Respostas adequadas a tais perguntas permanecem ausentes de manchetes rápidas, notícias ou editoriais dedicados a tratar – e quase sempre deslegitimar – o assunto. No entanto, estas respostas estariam bem mais próximas a todos se a Constituição Federal, como expressão e instrumento primordial de democracia e cidadania, não viesse sendo completamente ignorada, senão sistematicamente desfigurada, por meios de comunicação e outras frentes que atingem o grande público. Se alguns o fazem quase involuntariamente, por mero desinteresse ou desinformação, há os que o fazem deliberadamente, interessados que estão em dar continuidade aos crimes efetivos raramente apurados, à exploração e à desigualdade, contra os quais a carta magna se propõe a ser valioso instrumento de representação coletiva.

    Constituição Federal

    A demarcação de toda e qualquer terra indígena, como também todas as suas fases e ações, é devidamente fundamentada e regida pela Constituição Federal, pela Lei nº. 6001 de 1973, o chamado “Estatuto do Índio”, e pelo Decreto 1775 de 1996. Ela é um longo e sério processo que envolve etapas diferenciadas, uma equipe multidisciplinar de profissionais e instâncias diversas. Os antropólogos são aqueles legalmente responsáveis por compilar e analisar os detalhados estudos de um grupo interdisciplinar e que inclui também funcionários de órgãos federais, estaduais e até municipais.

    O grande equívoco

    A gente lê ou ouve com freqüência que os antropólogos são contratados para dizer se uma terra é indígena ou não é, ou mesmo se um grupo de pessoas é ou não indígena. Isto demonstra que, mais uma vez, há muitas “trevas” e completo desconhecimento não apenas sobre a natureza desse estudo como do processo de regularização fundiária como um todo. É importante esclarecer que o trabalho do antropólogo na demarcação de uma terra indígena não é, de forma alguma, pericial ou resultará em um laudo, como normalmente se tem veiculado e mesmo como constam de alguns processos jurídicos. Há uma obscurecedora e talvez proposital confusão nos discursos veiculados pelos meios de comunicação entre os conceitos de laudo e de relatório de identificação e delimitaçã

    Fala-se muito sobre a necessidade jurídico-legal do Estado em definir e fixar sujeitos de direito e a incompatibilidade disto com o atributo dinâmico, fugidio, mas também prioritariamente endógeno da identidade étnica. Entretanto, é importante notar que, mesmo deste ponto de vista, as próprias disposições constitucionais são por si mesmas profundamente antropológicas, no sentido em que estabelecem que ninguém, além do próprio grupo, é capaz de responder a estas questões postas pelo Estado. E ele o faz dentro determinado espaço, indissociável à singularidade de sua existência enquanto grupo, como dita a Constituição Federal, em seu artigo 231, caput e Parágrafo 1º, nos termos de um território cultural, conforme já foi definido pela procuradora Deborah Duprat. A medida diferencial da territorialidade e identidade de um grupo indígena está, portanto, embutida no próprio texto constitucional.


    Mas os processos de regularização fundiária não tratam fundamentalmente disso, ao contrário do que se poderia supor a partir das informações acessíveis ao público. Absolutamente. Quando estes processos acontecem, isto é expressão direta dos direitos daquele povo sobre o espaço que ocupa ou, em muitos casos, do espaço do qual ele foi sistematicamente impedido de ocupar de forma plena, tendo sido na maior parte das vezes pilhado e usurpado. Quando se chega a este estado avançado de reivindicação formal daquilo que de direito já o pertence, o processo de regularização fundiária é formalmente inaugurado através de uma portaria da Fundação Nacional do Índio, publicada no Diário Oficial da União. Neste sentido, e nos termos do Artigo 1° do Decreto 1775 de 1996, o órgão administrativamente responsável pela formalização da iniciativa e orientação da regularização, rigorosamente submetidas aos termos constitucionais, é a FUNAI. O órgão, mais do que responsável pela assistência ao índio é, neste caso, um representante do Estado brasileiro e de suas diretrizes fundamentais, zelando pela adequada aplicação da Constituição, em todas as etapas da regularização.


    Da Portaria publicada, e conforme as disposições constitucionais, constam a natureza do estudo, o nome e a instituição de cada componente do grupo interdisciplinar, o município, a etnia e as Terras Indígenas que serão estudadas em tal ou qual período. Este grupo produzirá diferentes estudos integrados e coordenados por um antropólogo, a partir daquela publicação, denominado de antropólogo-coordenador, conforme também determina a Constituição Federal. É facultativa a presença de outros antropólogos, que serão caracterizados como “colaboradores”, de modo que não há qualquer exigência constitucional neste sentido, embora seja prática complementar da FUNAI em muitos casos.


    Deste estudo resultará, conforme as prerrogativas constitucionais, o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação de uma determinada Terra Indígena. Este é um trabalho extenso e complexo (i.e., circunstanciado), elaborado pelo antropólogo-coordenador a partir dos subsídios produzidos pelo Grupo Técnico em conjunto e com a participação do grupo indígena em questão, conforme as prerrogativas constitucionais. Também são fundamentais os estudos de campo realizados por ele, como aqueles de gabinete, o que inclui uma conscienciosa revisão crítica de fontes históricas e documentais, tanto quanto de informações antropológicas apuradas diretamente ou em trabalhos disponíveis sobre o grupo em questão. Uma vez tecnicamente aprovado, o Relatório terá seu resumo publicado no Diário Oficial da União e também dos estados envolvidos. Conforme as disposições legais no Decreto 1775/96, as partes que por ventura se vejam afetadas poderão apresentar sua contestação ao órgão indigenista. O documento original será também colocado à disposição daqueles que pretenderem contestá-lo.


    Considerando que o ocupante que possua títulos ou qualquer outra forma de comprovação documental de sua ocupação poderá, prontamente, apresentá-los ao órgão federal, lhes são disponibilizados para fazê-lo, desde o início do procedimento demarcatório até noventa dias após a publicação do citado resumo no Diário Oficial da União. Isto, em teoria, comprovará que tais ocupações foram feitas de boa-fé. E, uma vez constatada a boa-fé das ocupações, as determinações constitucionais serão aplicadas, tais quais a indenização por suas benfeitorias e, para os pequenos agricultores, a prioridade no reassentamento em outros locais, se este for seu desejo.

    À Luz da Constituição

    Nada há de criminoso ou secreto neste processo. Ele transcorre no mesmo espaço de circunspecção e cautela requerido por trâmites científicos, ainda mais quando se lida com matérias delicadas, como fraudes com vistas a expropriações territoriais, semi-escravidão, esbulho de recursos e gentes. Em muitos casos, a rigorosa pesquisa documental demonstra o vício de grande parte de títulos definitivos incidentes sobre Terras Indígenas, quando analisados em sua genealogia primária. Mas isto é não mais do que um agravante, porque a orientação primeira de todo trabalho de delimitação é a correta aplicação da Constituição Federal e, como dissemos, dos direitos imprescritíveis dos índios às terras que diferencialmente ocupam, segundo a compreensão do texto constitucional. Ou seja, tratam-se não apenas de “lotes” de terra, mas de espaços complexos, compostos por atributos materiais e imateriais; compreendendo as terras habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições, de acordo com o Parágrafo 1° do Artigo 231 da Constituição Federal.

    Sobretudo, um Relatório Circunstanciado demonstra, através de documentos e estudos científicos, os nexos fundamentais entre um povo indígena e a terra que ocupa, entre suas estratégias tradicionais de subsistência e, mais que isso, de “existência”, e o ambiente que o circunda, entre sua história e a concepção de espaço que adota. Um espaço que é, neste sentido, insubstituível por outro qualquer, ainda que, por ventura, de igual metragem. Tal é a ordem singular entre um povo indígena e seu “território”, conforme a definição constitucional.

    Não há fraude ou invenção nesse processo sério e detalhadamente disciplinado pela Constituição Federal. E tampouco haveria espaço para isso, se consideramos a multiplicidade de profissionais das mais variadas áreas e instituições envolvidos. Trata-se, portanto, de um instrumento valoroso de cidadania, expressão jurídica de direitos e conquistas sociais que tanto tardaram a acontecer no nosso país. Um país que, lembramos, é também de “índios”, conforme sua natureza pluriétnica, devidamente reconhecida pela Constituição cidadã de 1988.

    Vulnerabilidade

    As populações indígenas representam 0,4 % da população do país, segundo os dados apurados pelo IBGE, em 2010. Cerca de 60% da população indígena está localizada dentro dos domínios da Amazônia Legal. Estas populações apresentam uma rica multiplicidade étnico-linguística e cultural, consistindo em cerca de 220 povos, falantes de cerca de 180 línguas diferentes. São línguas, cosmologias e modos de vida, compondo diferencialmente um patrimônio humano milenar de imensa complexidade e riqueza, normalmente desconhecido do público em geral.


    Lamentavelmente, o conjunto formado por esta rica diversidade humana constitui o segmento mais vulnerável da população brasileira. Os grupos indígenas sustentam índices de desigualdade de desfavorável magnitude quando comparados aos segmentos mais desfavorecidos da população. Neste âmbito, são surpreendentes os altos índices nacionais de mortalidade de crianças indígenas, especialmente se consideramos que esta situação se mantém em regiões como a Sudeste e Sul do país, paradoxalmente, aquelas que formalmente apresentam o maior índice de desenvolvimento socioeconômico. É na garantia de um território para seu usufruto exclusivo, livre de práticas contumazes de expropriação e aliciamento, que está uma das chaves mais importantes para uma possível reversão dessa situação.

    Da Perversa Metamorfose

    Não é possível, por força retórica de uma lógica entortada, querer transformar esbulho, turbação e, sobretudo, expropriação pregressa ou atual em uma espécie de tradicionalidade aplicada às avessas em relação ao uso que lhe empresta a Constituição, como o pretendem os seculares métodos de grilagem vigentes nesse país, com ou sem conivência de agentes governamentais. E eis que neste ponto se desvenda a verdadeira metamorfose perversa que assola as “terras produtivas” da “gente que trabalha”, ponto de partida de nossas reflexões: os interesses privados de um pequeno grupo de latifundiários rurais e supostos benefícios econômicos, que não revertem diretamente ao bem-estar da população brasileira, ganham, subrepticiamente, ares de permanência, imprescindibilidade e imemorialidade. E este é tratado como o único caminho possível e indiscutível para a nação.


    A Constituição Federal garantiu aos habitantes originários desta terra, tardiamente chamada Brasil, seus direitos também originários. Isto por razões de ordem histórica e antropológica, mas também em nome do devido resguardo da cidadania de todos os seus habitantes. O reparo de um genocídio continuado e reconhecido, como também a garantia de uma nação plural. Por isso não há o menor cabimento na suposta ideia de que o Estado não deve mais demarcar as terras indígenas, calcada de forma totalmente arbitrária e ditatorial sobre se ter chegado ao “fim” desse processo pura e simplesmente, sem que seus erros (inumeráveis) do passado tenham de ser corrigidos.


    É importante também trazer à luz para o público em geral, que não há necessidade de demarcação formal para que o direito originário dos povos indígenas sobre seu território seja efetivamente respeitado, conforme as disposições do Art. 25 da lei 6.001 de 1973, conhecida como o “Estatuto do Índio”. As atribuições de um Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação são, justamente, reconhecer e delimitar, e não propriamente estabelecer os direitos às suas terras. Estas são, nas palavras da lei, inalienáveis, indisponíveis e imprescritíveis, conforme o Parágrafo 4° do Art. 231 da atual Constituição Federal. Ou seja, não podem ser transferidas para outrem, usufruídas por ninguém além do próprio grupo e nem passíveis de serem extintas, por qualquer decisão, Decreto ou Portaria. Por esta mesma razão, qualquer ocupação ou empreendimento que tenha lugar nestes mesmos espaços é, por determinação constitucional, nulo e extinto, de pleno direito, conforme os parágrafos 4° e 6°, do artigo 231 da nossa atual Constituição. O mesmo se aplica a atos de exploração de recursos de solo, rios e lagos, que têm efeito jurídico nulo e sobre os quais os índios têm direito de usufruto exclusivo.

     

    Portanto, nem “índios” e nem uma “terra” ou um “espaço” indígenas, são inaugurados a partir de um processo formal de regularização. Ao contrário, sua existência antecede a este processo, que dela decorre. Quando, finalmente, uma Portaria no Diário Oficial da União determina a constituição de um Grupo Técnico que produzirá um determinado Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação e que trata de aspectos múltiplos e interdisciplinares da relação entre um povo e o que ele entende como seu espaço, isto acontece porque a demanda de regularização é já, de fato e direito, legítima.


    Neste sentido, os processos de regularização fundiária indígena têm sofrido uma desfiguração muito semelhante àquela que vem reconhecidamente acontecendo aos processos de licenciamento ambiental no país. Assim, ações e decisões de políticas públicas que primam pela cidadania e reconhecimento de direitos sociais duramente conquistados ao longo do tempo, aqueles que vigem sobre a “vida” e sobre as “pessoas”, vão sendo, ao mesmo tempo, soterrados por uma idéia empresarial da nação, que toma o desenvolvimento econômico de forma unilateral e completamente apartada do desenvolvimento humano. Abafando a existência ou a razão daquelas “vozes” de direito, são normalmente evocados ganhos e perdas econômicos, de “produtividade” e outros indicadores que, como sabemos, podem estar em completo desacordo com a realidade da vida das pessoas nas cidades e no campo.

     
    E, no entanto, a prática nos tem mostrado que, mesmo quando reconhecidos os incontestáveis efeitos negativos de determinados empreendimentos, como por exemplo, os hidrelétricos, eles têm sido, sempre, executados. Diante de outras possíveis matrizes energéticas (ou de reaproveitamentos de sistemas preexistentes), e mesmo não cumpridas suas condições jurídicas de estabelecimento e funcionamento, como a consulta pública às populações atingidas, previstas tanto na legislação vigente quanto em pactos internacionais assinados pelo Estado brasileiro, a ênfase recai sobre as vantagens formalmente econômicas de tal ou qual projeto, antes do que sobre seu impacto, muitas vezes devastador, na vida das pessoas.

    Trevas ou Luzes?

    Nada, nem mesmo a ideologia empresarial, pode ser sobreposta à Constituição Federal do país ou justificar sua brutal violação. Seu fim primordial é garantir fundamentalmente o bem-estar de sua população como um todo, o que inclui todos os segmentos diferenciados do país e as gerações vindouras. Mais do que notícias alarmantes e discursos que visam o bem privado, cobramos todos os setores envolvidos, incluindo os meios de comunicação brasileiros, que tornem acessíveis à população, antes de mais nada, as luzes da Constituição Federal do nosso país.


    De que tratam e para quem servem os tais caminhos unilaterais de “progresso” e “desenvolvimento” de uma nação, se eles não são acompanhados, passo a passo, por seu desenvolvimento humano e do respeito à sua Constituição? Neste reduto, o que há são apenas trevas.

    Adriana Romano Athila, antropóloga, Santa Catarina
    Adriana Strappazzon, antropóloga, Santa Catarina
    Ana Beatriz de Miranda Vasconcelos e Almeida, enfermeira, Mato Grosso
    Ana Claudia Cruz da Silva, antropóloga, Rio de Janeiro
    Ana Maria R. Gomes, antropóloga, Minas Gerais
    Ana Maria Ramalho Ortigão Farias, médica, Rio de Janeiro
    Ana Paula Lima Rodgers, antropóloga, Rio de Janeiro
    André Demarchi, antropólogo, Tocantins
    Andreia Fanzeres, jornalista, Mato Grosso
    Angela Sacchi, antropóloga, Distrito Federal
    Antonio Carlos Mendonça Viana, estudante de antropologia, Rio de Janeiro
    Antonio Carlos de Souza Lima, antropólogo, Rio de Janeiro
    Antonio Hilario Aguilera Urquiza, antropólogo, Mato Grosso do Sul
    Bárbara Maisonnave Arisi, antropóloga, Paraná
    Bárbara Villa Verde Revelles Pereira, jornalista, Paraná
    Beatriz Carretta Corrêa da Silva, linguista, Distrito Federal
    Betty Mindlin, antropóloga, São Paulo
    Bruno Emílio Fadel Daschieri, antropólogo, Rio de Janeiro
    Bruno Simionato Castro, engenheiro florestal, Mato Grosso
    Cândido Eugênio Domingues de Souza, Historiador, Bahia
    Carlos Eduardo Rebello de Mendonça, sociólogo, Rio de Janeiro
    Carmen Junqueira, antropóloga, São Paulo
    Carmen Rial, antropóloga, Santa Catarina
    Carolina Souza Pedreira, antropóloga, Distrito Federal
    Cassio Brancaleone, sociólogo, Rio Grande do Sul
    Cecilia Malvezzi, médica, São Paulo.
    Celia Leticia Gouvêa Collet, antropóloga, Acre
    Cinthia Creatini da Rocha, antropóloga, Santa Catarina
    Clarissa Rocha de Melo, antropóloga, Santa Catarina
    Daniel Bitter, antropólogo, Rio de Janeiro
    Daniel Garibotti, produtor de documentários, Espanha
    Daniel de Oliveira Santos, farmacêutico, Mato Grosso
    David Rodgers, antropólogo, Rio de Janeiro
    Denise Cavalcante Gomes, arqueóloga, Rio de Janeiro
    Diego Giuseppe Pelizzari, indigenista, Paraná
    Diego Madi Dias, antropólogo, Rio de Janeiro
    Diogo de Oliveira, antropólogo, Santa Catarina
    Edison Rodrigues de Souza, antropólogo, Bahia
    Edviges Ioris, antropóloga, Santa Catarina
    Eduardo Pires Rosse, antropólogo, França
    Eliana de Barros Monteiro, antropóloga, Pernambuco
    Eliana E. Diehl, Farmacêutica (Saúde Indígena), Santa Catarina
    Emanuel Oliveira Braga, antropólogo, Paraíba
    Emilia Juliana Ferreira, antropóloga, Distrito Federal
    Esther Jean Langdon, antropóloga, Santa Catarina
    Eunice Dias de Paula, pedagoga e linguista, Mato Grosso
    Fabiane Vinente dos Santos, antropóloga, Amazonas
    Fábio Christian de Carvalho, administrador, Mato Grosso
    Fanny Longa Romero, antropóloga, Rio Grande do Sul
    Felipe Agostini Cerqueira, antropólogo, Rio de Janeiro
    Felipe Bruno Martins Fernandes, antropólogo, Santa Catarina
    Fernanda Ratto, psicóloga, Rio de Janeiro
    Flávio Wiik, antropólogo, Paraná
    Flora Monteiro Lucas, antropóloga, Rio de Janeiro
    Georgia da Silva, antropóloga, Distrito Federal
    Gilberto Azanha, antropólogo, Distrito Federal
    Giovana Acácia Tempesta, antropóloga, Distrito Federal
    Hein van der Voort, Linguista, Pará
    Helena Tenderini, antropóloga, Pernambuco
    Hélio Barbin Junior, médico e antropólogo, Santa Catarina
    Heloisa Barbati, estudante de Antropologia, Itália
    Henry Luydy Abraham Fernandes, antropólogo, Bahia.
    Henyo Trindade Barretto Filho, antropólogo, Distrito Federal
    Jacira Bulhões, antropóloga, Mato Grosso.
    Jackson Fernando Rêgo Matos, Engenheiro Florestal, Pará
    Jeremy Paul Jean Loup Deturche, antropólogo, Santa Catarina
    João Batista de Almeida Costa, antropólogo, Minas Gerais
    José Andrade, antropólogo, Pará
    João Daniel Dorneles Ramos, sociólogo, Rio Grande do Sul
    José Ronaldo Mendonça Fassheber, antropólogo, Paraná
    Juracilda Veiga, antropóloga, São Paulo
    Jurema Machado de Andrade Souza, antropóloga, Bahia
    Juliana de Almeida, antropóloga, Amazonas
    Katia Maria Ratto, médica, Rio de Janeiro
    Larissa Menendez, antropóloga, Mato Grosso
    Laura Graziela F. F. Gomes, antropóloga, Rio de Janeiro
    Lea Tomass, antropóloga, Distrito Federal
    Léia de Jesus Silva, linguista, Goiás
    Leonardo Pires Rosse, etnomusicólogo, Minas Gerais
    Leonardo Santos Leitão, sociólogo, Santa Catarina
    Lisiane Koller Lecznieski, antropóloga, Santa Catarina
    Lucia Helena Rangel, antropóloga, São Paulo
    Lucia Hussak van Velthem, antropóloga, Distrito Federal
    Luciana Gonçalves de Carvalho, antropóloga, Pará
    Lucila de Jesus Mello Gonçalves, psicanalista, São Paulo
    Maria Audirene Cordeiro, linguista, Amazonas
    Maria Christina Barra, antropóloga, Minas Gerais
    Mariana Corrêa dos Santos, cientista social, Rio de Janeiro
    Mariana Cristina Galante Nogueira, servidora pública federal, São Paulo
    Maria Dorothea Post Darella, antropóloga, Santa Catarina
    Maria Lúcia Haygert, antropóloga, Santa Catarina
    Maria Rosário Carvalho, antropóloga, Bahia
    Marina Monteiro, antropóloga, Santa Catarina
    Marina Pereira Novo, antropóloga, São Paulo
    Márcia Leila de Castro Pereira, antropóloga, Distrito Federal
    Marcos Alexandre dos Santos Albuquerque, antropólogo, Rio de Janeiro
    Marcos de Almeida Matos, antropólogo, Acre
    Marcus Vinícius Carvalho Garcia, antropólogo, Distrito Federal
    Maria Fernanda Salvadori Pereira, antropóloga, Santa Catarina
    Marlene Lúcia Siebert Sapelli, Educadora, Paraná.
    Marta Caravantes, jornalista, Espanha
    Martinho Tota Filho Rocha de Araújo, antropólogo, Rio de Janeiro
    Matteo Raschietti, filósofo, São Paulo
    Maurício Soares Leite, nutricionista (saúde indígena), Santa Catarina
    Mauro Silveira de Castro, farmacêutico, Rio Grande do Sul
    Miguel Aparicio, antropólogo, Amazonas
    Mirella Alves de Brito, antropóloga, Santa Catarina
    Nádia Heusi Silveira, antropóloga, Santa Catarina
    Odair Giraldin, antropólogo, Tocantins
    Paulo Humberto Porto Borges, Educador, Paraná
    Peter M.I.B. Beysen, antropólogo, Rio de Janeiro.
    Philippe Hanna, antropólogo, Holanda
    Raquel Mombelli, antropóloga, Santa Catarina
    Renan Reis de Souza, antropólogo, Rio de Janeiro
    Ricardo Ventura Santos, antropólogo, Rio de Janeiro
    Rinaldo Sérgio Vieira Arruda, antropólogo, São Paulo
    Robson Rodrigues, arqueólogo, São Paulo
    Rodrigo Marcelino, biólogo, Mato Grosso
    Rodrigo Toniol, antropólogo, Rio Grande do Sul
    Roberto Salviani, antropólogo, Rio de Janeiro
    Robin M. Wright, antropólogo, São Paulo.
    Rosângela Pereira de Tugny, etnomusicóloga, Minas Gerais
    Senilde Alcantara Guanaes, antropóloga, Paraná
    Sergio Baptista da Silva, antropólogo, Rio Grande do Sul
    Silvana Jesus do Nascimento, antropóloga, Mato Grosso do Sul
    Silvana Sobreira de Matos Patriota, antropóloga, Pernambuco
    Sônia Weidner Maluf, antropóloga, Santa Catarina
    Soren Hvalkof, antropólogo, Dinamarca
    Suzana Castanheiro Uliano, antropóloga, Santa Catarina
    Tatiana Dassi, antropóloga, Santa Catarina
    Thiago Mota Cardoso, antropólogo, Santa Catarina
    Tiago Moreira dos Santos, antropólogo, São Paulo
    Waleska Aureliano, antropóloga, Rio de Janeiro
    Wellington de Jesus Bomfim, antropólogo, Sergipe
    Vanessa Alvarenga Caldeira, antropóloga, São Paulo
    Vaneska Taciana Vitti, antropóloga, São Paulo
    Victor Amaral Costa, antropólogo, São Paulo
    Fórum da Amazônia Oriental – FAOR
    Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos/ São Paulo
    Comitê Metropolitano Xingu Vivo

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  • 27/05/2013

    TRF-3 pede a prisão de quatro envolvidos no assassinato de Nísio Gomes Guarani-Kaiowá; os acusados estão foragidos

    Por Renato Santana,

    de Brasília (DF)

     

    O desembargador Andre Nekatschalow, da 5ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), pediu a prisão de quatro réus envolvidos no assassinato do cacique Nísio Gomes Guarani-Kaiowá, ocorrido em novembro de 2011 no tekoha Guaiviry, município de Aral Moreira, Mato Grosso do Sul.

     

    Os réus Cláudio Adelino Gali, Levi Palma, Aparecido Sanches e Idelfino Maganha estão foragidos. Eles fazem parte do grupo de 19 acusados de executar e planejar o crime, conforme investigação apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) à Justiça Federal, que acatou a denúncia.

     

    Por força de Habeas Corpus (HC), os quatro estavam em liberdade provisória, depois de serem presos em julho de 2012. Passaram pouco tempo na cadeia – até o início deste ano, apenas sete dos 19 acusados ainda estavam detidos. As acusações são de homicídio qualificado, formação de quadrilha, corrupção de testemunha, porte ilegal de arma de fogo e ocultação de cadáver.

     

    O desembargador Nekatschalow, no último dia 20, cassou o HC, que concedeu a liberdade provisória aos réus. “Pelo que se verifica dos elementos coligidos aos autos, há suficientes indícios de materialidade e autoria, em relação à imputação delituosa perpetrada, em tese, pelos indiciados”, diz a decisão da 5ª Turma.

     

    Uma cláusula presente na liberdade provisória determina que caso os réus beneficiários dela se ausentem de suas residências teriam que, previamente, pedir autorização judicial informando o calendário de viagem, bem como o destino. Os acusados realizaram pedidos apenas no final do ano passado, não agora, ocasião em que se encontram foragidos.  

     

    Quem é quem

     

    O enredo do assassinato de Nísio Gomes encontra nos quatro réus agora foragidos o protagonismo de toda uma história de violência, suborno e traição. Leia reportagem completa aqui.  

     

    Cláudio Adelino Gali é proprietário das fazendas Sonho Mágico e Arueira, áreas vizinhas ao tekoha Guaiviry, assim como Idelfino Maganha, dono das fazendas Querência, Cachoeirinha e Figueira. Depois dos Guarani-Kaiowá, liderados por Nísio Gomes, terem retomado a terra tradicional, os fazendeiros passaram a discutir como retirar os indígenas do local, conforme denúncia apresnetada pelo MPF.

     

    Nas discussões estavam os advogados Levi Palma e Dieter Michael Seyboth, o fazendeiro Samuel Peloi, além do presidente do Sindicato Rural de Aral Moreira, Osvin Mittanck. A primeira medida foi o suborno, mas os indígenas do Guaiviry não aceitaram. A segunda opção, então, foi a expulsão forçada, prática comum no estado. Para isso, contaram com os serviços da empresa de segurança Gaspem, atuante em outros focos de conflito entre indígenas e fazendeiros no Mato Grosso do Sul.

     

    De acordo com as investigações do MPF, um dia antes do ataque ao Guaiviry, o advogado Levi e Aurelino Arce, dono da Gaspem, se reuniram para acertar os detalhes da ação. Arce arregimentou homens para a ação, todos réus no processo, e Levi cuidou da logística.

     

    Na noite do dia 17 de novembro de 2011, horas antes do ataque, o bando se concentrou na Fazenda Maratana. Nessa ocasião surge a figura de Aparecido Sanches, braço direito do fazendeiro Cláudio Adelino Gali, que ao lado do patrão repassou armas calibre 12 para os pistoleiros da Gaspem sob a supervisão operacional do advogado Levi. Sanches é o motorista da S-10 que retirou o corpo de Nísio Gomes do tekoha Guaiviry para ocultá-lo, depois do indígena receber um tiro na altura da axila.

     

     

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  • 24/05/2013

    ‘O Governador não nos vai fazer calar com trator’

    O Povo Terena esta de pé em defesa de seus direitos perante uma verdadeira guerra jurídica, repressiva e política imposta aos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul, pelo agronegócio, a justiça, o Estado brasileiro e Governo Federal, segundo reiteradas declarações das lideranças indígenas do Estado e os aliados dos povos nativos.

    Depois de realizar uma grande assembleia de quatro dias na primeira semana de maio, na terra indígena Buriti, município do mesmo nome, 80 quilômetros de Campo Grande/MS, os Terena decidiram consertar 100 anos de injustiça histórica infringida pelo latifúndio, os grileiros e o agronegócio. Empurrados também pelos vinte anos de atraso que leva o processo de demarcação de terras indígenas no Estado. A este problema se somam, segundo os indígenas, as respostas do Governo Federal e da bancada ruralista no Congresso, que avançam com a Proposta de Emenda Constitucional – PEC 2015 e com a Portaria 303, iniciativas que tentam impedir a efetivação da Constituição Federal e visa sepultar as reivindicações indígenas.

    Antes da ocupação da sede de uma fazenda em 18 de maio, considerada também parte das terras indígenas tradicionais, durante a Grande Assembleia, os Terena tinham enviado uma mensagem ao governador de MS André Puccinelli: "Doe saber que nossos filhos já não vão poder identificar os barulhos dos bichos, o som da floresta, o canto dos pássaros, o aviso do pica-pau quando há noticia ruim. E sendo que a terra é nossa e que vamos recupera-lha, declaramos ao senhor governador do Estado que não vai conseguir nos comprar nem calar com um trator”. O governador, segundo os indígenas, é contra seus direitos e inimigo da demarcação das terras, e desenvolve políticas assistências nas aldeias com o objetivo de alavancar apoio das lideranças e faze-lhos renunciar com "presentes” à luta pela recuperação de seus territórios tradicionais.

    Durante o encontro foi denunciado também que "o Governo Federal optou por ficar ao lado do agronegócio; e no MS o movimento do agronegócio juntamente com o governador André Puccinelli agem com todos os artifícios contra o processo demarcatório; e o Poder Judiciário atua dando ordem de despejo nas terras tradicionais indígenas, inclusive em aquelas já homologadas”. Enquanto isso, foi dito, que o Governo e a Justiça toleram perfeitamente que "um fazendeiro esteja confessando publicamente um crime, entregando a arma de fogo na delegacia e não sendo preso”.

    "Junção de força”, "brincadeira”, "moeda de troca”

    O deputado estadual Pedro Kemp, que esteve presente também na grande Assembleia Terena, que deu inicio às retomadas legítimas dos indígenas, manifestou: "há uma junção de força levantada para barrar a efetivação dos direitos dos povos indígenas. Querem tirar da FUNAI sua competência para passar ao Congresso as atribuições, e isso seria o fim das demarcações”.

    Em outro momento da assembleia uma liderança Kaiowá-Guarani, diz que o Estado Brasileiro e o Governo Federal já deu uma resposta aos povos indígenas e que essa resposta "é nada”. Já num clima mais tenso e antes do inicio das retomadas e visivelmente contrariado com toda a situação os indígenas declararam: "A Dilma, o PT e o Governo Federal estão brincando com a gente e estão levando à morte nossos direitos”.

    O Procurador da República em Mato Grosso do Sul, Emerson Kalif Siqueira, quem também participou do encontro surpreendeu com uma declaração: "O governo Federal não vai aparelhar um órgão que vai trabalhar para os indígenas”, referendo-se à FUNAI. Sobre os juízes "anti-indígenas” deu uma sugestiva definição dizendo que os mesmos "se não são fazendeiros, são amigos de fazendeiros”, e que no melhor dos casos quando leram a Constituição Federal a fizeram até o artigo 230 onde diz …”transporte coletivos urbanos”. Ou seja, que o seguinte parágrafo que da inicio ao artigo 231 (Capítulo VIII – Dos Índios) "não existe para eles”. Sentenciou igualmente Kalif que "a demarcação das terras indígenas tem 20 anos de atraso e que não satisfeitos com isso o assunto ficou como o trocado dos fazendeiros na hora de financiar suas campanhas eleitorais e como moeda de troca das bancadas”.

    Segue carta na íntegra:

    CAMPO GRANDE/MS, 22 DE MAIO DE 2013

    SOLIDARIEDADE COM O POVO TERENA EM LUTA PELOS SEUS DIREITOS ANCESTRAIS E CONSTITUCIONAIS

    MANIFESTO URGENTE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS DE MATO GROSSO DO SUL E DO BRASIL À OPINIÃO PUBLICA NACIONAL E INTERNACIONAL

    Perante a legítima ação dos indígenas Terena do município de Sidrolândia/MS que iniciaram as retomadas da Fazenda Buriti, Cambará, Santa Helenae a sede da fazenda Querência São José; pertencentes à TERRA INDIGENA BURITI

    -situada a 25 km de Sidrolândia e 85 km de Campo Grande- as organizações de Direitos Humanos, movimentos sociais, entidades e organizações populares que assinam embaixo bem a manifestar quanto segue:

    1. Nossa irrestrita e incondicional solidariedade com o Povo Terena que, depois de vários dias de deliberações na III Assembleia Geral do Povo Terena e Primeira Assembleia Geral dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul, realizada na mesma área de retomada de 08 a 11 de maio de 2013, perante a inação e recuo do Estado e Governo Brasileiro de sua obrigação em fazer cumprir a Constituição Federal no que respeita à demarcação dos territórios indígenas no Estado, decidiu fazer um legítimo ato de defesa de seus direitos consuetudinários e constitucionais, retomando a área que lhes pertence historicamente.

    2. Acompanhamos e vamos seguir acompanhando o desenvolvimento da ação repressiva do Estado de Mato Grosso do Sul, inimigo declarado das reivindicações indígenas, dos fazendeiros e de suas organizações políticas, econômicas e paramilitares, e das forças repressivas do Estado Brasileiro, que estão prestes a enfrentar pela força e violência aos indígenas que fizeram uma retomada pacífica de uma parte dos 17 mil hectares, declarados em 2010 pelo Ministério da Justiça como território tradicionalmente ocupado pelo povo Terena da Terra Indígena Buriti.

    3. Qualquer desenlace da situação que fira ainda mais os direitos humanos da população Terena; das crianças, dos idosos, da juventude, dos homens e das mulheres que participam da ação, será de exclusiva responsabilidade das autoridades federais e estaduais que têm na Constituição Brasileira o amparo e o império da única força capaz de trazer solução e paz para os povos indígenas de Mato Grosso do Sul. E, a única solução, e a única paz que querem os povos indígenas são aquelas que hão de vir do cumprimento da própria Constituição que exige o reconhecimento e a demarcação dos territórios indígenas.

    4. Nossa solidariedade com o jornalista do Cimi, Ruy Sposati que teve seus equipamentos arbitrariamente confiscados pelo delegado da Polícia Federal, Alcídio de Souza Araújo em 18 de maio de 2013 na Terra Indígena Buriti. O fato aconteceu quando uma comitiva de entidades, movimentos e organizações de direitos humanos, acompanhavam a ordem de reintegração de posse da fazenda Buriti. Acompanhamos a nota pública do CIMI denunciando que não houve qualquer justificativa que identificasse alguma legalidade na apreensão. Além da ausência de ordem judicial de busca e apreensão, a atitude do delegado constitui flagrante ilegalidade de acordo com a Lei Nº 4.898 cujo artigo 3º, item J, reza que constitui abuso de autoridade "qualquer atentado aos direitos e garantias legais assegurados ao exercício profissional”. Isso pode ser conferido claramente no vídeo: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/05/19/pf-apreende-equipamentos-de-reporter-no-mato-grosso-do-sul/

    5. Por ultimo chamamos a todos os militantes sociais e políticos populares, às organizações populares, aos estudantes, sindicatos, e defensores de direitos humanos, a ficarem alerta e unidos perante os fatos que as tentativas de reintegração de posse vão trazer ao cenário da digna luta, pela vida e pelo território, batalhada pelos povos indígenas no Mato Grosso do Sul.

    Campo Grande/MS, 22 de maio de 2013

     

    Assinam:

    Comissão Pastoral da Terra (CPT-MS)
    Conselho Indigenista Missionário
    Central Única de Trabalhadores (CUT-MS)
    Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (FETEMS)
    Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST
    ONG Azul
    Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB-MS)
    Movimento de Mulheres Camponesas (MMC-MS)
    Marcha Mundial das Mulheres (MMM)
    Comitê de Defesa Popular de Dourados (Fórum de entidades)
    Conselho Aty Guassu Kaiowá-Guarani
    Comissão Permanente de Assuntos Indígenas da Ordem dos Advogados do Brasil (COPAI-OAB-MS)
    Tribunal Popular da Terra – MS
    Centro de Defesa de Direitos Humanos – Marçal de Souza Tupã’i (CDDH)
    Valdelice Veron – Membro da comissão aty Gwasu.
    Ernesto Veron – Liderança Terra Indígena Pindo Roky-Caarapo-MS
    Nhandesy Julia Cavalheiro Veron – Terra Indigena Takwara-Juti-MS
    Nhandesy Carmen Rios Terra I Indigena Takwara-Juti – MS.
    Nhanderu – Sergio Paulo Takwara – Juti MS
    Coletivo Terra Vermelha
    Comitê Nacional de Defesa dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul (CONDEPI)
    Comissão Pastoral da Terra – Nacional
    CONERQ – Coordenação Estadual das Comunidades Negras Rurais Quilombolas
    Comitê MS Contra os Agrotóxicos
    Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Furnas do Dionísio
    CSP – Conlutas
    Coletivo Levante-Oposição de Esquerda da UNE
    Rede Nacional de Advogados Populares-RENAP – MS
    Centro de Documentação e Apoio aos Movimentos Populares-CEDAMPO
    Conselho Continental da Nação Guarani
    APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
    Rede de Educação Cidadã de MS
    MCLRA – Movimento Camponês em Luta Pela Reforma Agrária
    Diretório Central de Estudante – UFGD
    DACLOBI – Diretório Acadêmico Clovis Bevilaqua – Direito UCDB
    Instituto Mãe terra;
    Grupo Terra-Território (GETT/UFMS);
    Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Três Lagoas/MS – (AGB/TL)

     

     

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  • 24/05/2013

    Índios lutam por saúde no Pará

    Há 10 dias, indígenas das etnias Gavião, Surui, Xikrim, Asurini e Tembé interditam duas rodovias da região sudeste do estado, em protesto contra péssimo serviço de atendimento à saúde dos povos indígenas no Pará. As rodovias ocupadas foram a BR-15, que liga a localidade de São Domingos do Araguaia a São Geraldo do Araguaia, e a BR-222.

    É a segunda manifestação de indígenas em menos de um mês. Os indígenas denunciam a precariedade do atual sistema de saúde no Pará. Especificamente, o oferecido pelo Distrito Sanitário Especial Indígena – Guamá-Tocantins e é coordenado atualmente por Daniela Cavalcante, a quem os índios exigem a exoneração.

    No final do mês de Abril, os índios Tembé, Gavião e Xicrim ocuparam o DSEI e a CASAI em Belém como protesto e reivindicando mudança na atual coordenação. Os índios denunciam que, há um ano após o início da atual gestão, os procedimentos de saúde nas aldeias pioraram com a total e ou parcial paralisação da atenção à saúde indígena, como a interrupção da construção de postos, compra de veículos sucateados e sem condições de uso, falta de medicamentos básicos nos postos, perseguição política e assédio moral a servidores indígenas e não indígenas. Os indígenas denunciam que precisam pagar do próprio bolso as passagens para tratamentos na Capital (Belém), além dos medicamentos e exames.

    Até o momento, o governo federal, por meio do Ministério da Saúde, não tem dado sinal de diálogo com os indígenas manifestantes. Ao contrário, estão liberando recursos e veículos para aldeias que não estão na manifestação, demonstrando um jogo claro de investir na divisão dos povos indígenas no lugar do diálogo.

    O MPF em Belém, na pessoa de Dr. Felício Pontes, vem acompanhando o caso e, mediante a solicitação de lideranças indígenas, abriu investigação sobre o uso e aplicação dos recursos da saúde indígena.

    Conselho Indigenista Missionário, regional Norte II.

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  • 23/05/2013

    Informe nº1067: Basta de destruição dos nossos direitos e da Mãe Terra

    Manifesto da II Assembleia dos Povos Indígenas de Goiás e Tocantins

     

    Ouvimos a voz indignada de uma anciã que perdeu sua netinha, ainda na barriga da mãe, e o gemido de dor de nossas crianças adoecidas nas aldeias. Ouvimos os relatos de ameaças e violências contra nosso povo. Ouvimos os parentes detalhar sobre o avanço do agronegócio e das florestas de eucalipto nas terras indígenas. Ouvimos sobre a lentidão do governo federal em garantir os direitos assegurados pela Constituição Federal, como a terra, acesso à saúde, educação e consulta prévia. Ouvimos a verdade por trás das mentiras que os brancos tentam nos impor. Nessa verdade está nosso horizonte.

     

    Há 513 anos apareceram, em nosso horizonte, as caravelas dos colonizadores. Nos impuseram seu mundo e nos chamaram de selvagens, mas eles é que mataram milhões de indígenas. Porém, percebemos que os brancos seguem tentando nos impor seu Estado, sua cultura e seus interesses econômicos sobre as terras tradicionais que nos restam e nosso modo de viver e olhar sobre o mundo. No parlamento, são cerca de 90 proposições, entre projetos de lei e propostas de emendas à constituição, que tratam diretamente dos povos indígenas. O interesse do branco é grande em destruir nossas terras e retirar nossos direitos.

     

    Destacamos algumas dessas proposições. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 visa transferir do Executivo para o Legislativo a demarcação e homologação de terras indígenas, quilombolas e áreas de proteção ambiental. Sabemos que os ruralistas possuem a maior bancada da Câmara Federal e se essa PEC 215 for aprovada, nunca mais teremos demarcações no país. Outro projeto que nos preocupa é o PL 1610, sobre mineração em terras indígenas. Enquanto o Estatuto do Índio se mantém parado, esse PL vai promover um verdadeiro leilão de nossas terras, demarcadas ou não, para as mineradoras. Já o PL 4740 pretende arrendar as terras indígenas para a criação de gado e monocultivo do agronegócio.

     

    Mas não é apenas o parlamento que pretende praticar o esbulho de nossas terras. O Palácio do Planalto, aliado dos ruralistas, baixou a Portaria 303, que pretende estender condicionantes da Terra Indígena Raposa Serra do Sol para todas as terras tradicionais do país. As condicionantes nem foram votadas pelos ministros do STF e por isso a portaria foi suspensa, mas queremos a revogação dela. Durante este mês de maio, a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffman, suspendeu todos os procedimentos de demarcações da Funai no Paraná depois que o Embrapa questionou um relatório que atestava a ocupação tradicional de uma comunidade Guarani. A ministra disse que a Funai não é imparcial para demarcar e que as demarcações nos estados de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso e Rio Grande do Sul também passariam pelo crivo da Embrapa e ministérios. Nem nos piores momentos do neoliberalismo sofremos tamanho ataque, que vem de fazendeiros e seus pistoleiros, parlamentares ruralistas, governo federal, Judiciário. O mais triste é que acreditamos que Lula e Dilma poderiam melhorar nossas vidas, mas isso não está acontecendo.

     

    Terras e grandes projetos

     

    O agronegócio cerca, invade e envenena as terras indígenas. Querem nossas terras para produzir alimentos podres, à base de agrotóxicos e sementes transgênicas. Não bastasse isso, o governo federal impõe, sem consulta prévia como exige a Constituição Federal e a Convenção 169, usinas hidrelétricas, estradas, hidrovias e o bilionário financiamento estatal ao monocultivo de commodities e criação de gado. A tudo isso estão relacionadas as ações da bancada ruralista, que pretendem mudar as regras para facilitar a retirada de nossas terras com o objetivo de investir os milhões que ganham do governo para os monocultivos. Por outro lado, isso faz parte de um projeto de desenvolvimento nacional do governo federal, que não contempla nossas nações e por isso cremos ser um projeto de desenvolvimento de uma elite colonialista, branca.

     

    Sobre nossas terras e nas áreas limítrofes delas, sobretudo no Tocantins, avançam as florestas de eucalipto, as carvoarias e canaviais, que quando queimam lançam sobre as aldeias fumaça e poluição, gerando doenças respiratórias. A Secretaria de Regularização Fundiária do estado foi entregue ao filho da líder do agronegócio no Brasil, Kátia Abreu. O secretário, Irajá Silvestre filho, firmou convênio com o Ministério de Desenvolvimento Agrário para regularizar as terras da União, ou seja, as terras indígenas, quilombolas, áreas de preservação ambiental do Tocantins. Isso mostra como o agronegócio avança em nossas terras, que não são demarcadas e protegidas, a não se por nós mesmos e já decidimos que vamos morrer defendendo-a. Mas não apenas retirando as nossas terras que tentam nos usurpar. A nossa saúde está completamente quebrada, levando sofrimento e morte para as aldeias.

     

    Saúde e educação

     

    A saúde indígena passa por problemas em sua administração, desde Brasília, na Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, até às regiões, no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), onde os administradores regionais são incompetentes, descompromissados e mentirosos. Isso gerou uma descrença generalizada e ao mesmo tempo a inciativa em pedir a exoneração de Ivanezilda Ferreira Noleto, coordenadora do DSEI, depois que a expulsamos de nossa II Assembleia. Ela registrou ocorrência na Polícia Federal, alegando danos emocionais. Perguntamos: e nossos danos pelas crianças e parentes mortos pela incompetência desses gestores? E nossos danos por não termos saneamento básico e medicamentos, suspensos pela Portaria 3185 do Ministério da Saúde? Quando ficamos doentes, temos de torcer para que nossa doença esteja na lista do governo, pois do contrário morremos sem medicamentos. A saúde indígena está na UTI e assim matam lentamente nossos povos.

     

    Mesmo não tendo os estudos do branco, sabemos como educar nossos filhos com uma educação diferenciada e exigimos que o governo respeite nossos currículos. Sendo assim, na educação, apesar de pequenos avanços, a situação não é muito melhor. O que vemos é que não existe vontade política para garantir uma escola diferenciada e de qualidade como diz a legislação. Não queremos ensinar nossas crianças a manusear a escrita para mentir e prejudicar o outro; queremos ensiná-las a pensar e refletir, olhando para a própria cultura e os direitos da Mãe Terra. Formamos guerreiros. Nossas escolas devem ter o nosso rosto e fincadas em nosso chão, como forma de garantir nosso envolvimento social e político; nossa relação com a Mãe Terra.

     

    Esperança no horizonte

     

    Apesar do clima de indignação, dos graves problemas e desafios enfrentados pelas comunidades, realizamos uma Assembleia de esperança, marcada pelas nossas celebrações e rituais, pela solidariedade e amizade. Saímos fortalecidos e unidos, entre nós e com todos os que lutam por um Brasil plural, mais justo e solidário.

     

    Tivemos a presença de parentes de todo país, caso dos Pataxó Hã-hã-hãe, Bahia, Xavante, Mato Grosso, Xukuru-Kariri, Alagoas, além de aliados dos movimentos sociais, caso da Via Campesina, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Nailton Pataxó Hã-hã-hãe nos trouxe a palavra de que sozinhos não conseguimos nada, portanto precisamos nos unir entre os povos e aliados. Acreditamos e confiamos que a luta é árdua e longa, mas não abandonaremos a batalha. Seguimos até o fim pelo Bem Viver, o Sumak kawsay ameríndio, em nossas terras indígenas.

     

    Palmas, TO, 23 de maio de 2013

     

    Povos indígenas Apinajé, Xerente, Krahô, Tapuia, Karajá-Xambioá, Krahô-Kanela, Avá-Canoero, Javaé, Kanela do Tocantins e Guarani.   

     

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