• 29/11/2013

    Nota das Dioceses de Chapecó e Lages sobre a questão indígena no oeste de Santa Catarina

    As Dioceses de Chapecó e Lages, diante de informações, divulgadas em jornais sobre a compra de uma área de terra em Bandeirantes, no extremo oeste de Santa Catarina, vêm a público manifestar sua preocupação com a possibilidade de acirramento do conflito na região.

     

    Este encaminhamento vai apenas adiar o processo de demarcação da terra tradicional dos Guarani.  Não atende nem aos indígenas, nem aos agricultores. Os primeiros aguardam com muita ansiedade a conclusão do processo para tomar posse da terra, os segundos já não conseguem mais financiamentos para custear suas lavouras e vivem a insegurança de não poder planejar suas vidas.

     

    Manifestamo-nos pela conclusão imediata das demarcações das terras indígenas, a indenização das benfeitorias, o reassentamento dos agricultores, bem como pedimos que o Governo do Estado regulamente o artigo 148A da Constituição Estadual que prevê a indenização das terras.

     

    A história tem demonstrado que os conflitos cessam somente com a conclusão dos processos.


    Chapecó, SC, 27 de novembro de 2013.

     

    Dom Manoel João Francisco

    Dom Ireneu Andreassa

    Bispo de Chapecó

    Bispo de Lages

     

  • 29/11/2013

    “Estão nascendo novos Marçals”

    Ruy Sposati, de Antônio João (MS)


    Essa história aconteceu trinta anos atrás – mas poderia ter acontecido hoje.

    Era uma emboscada na porta de sua casa, no dia 25 de novembro de 1983. Um índio foi assassinado por pistoleiros com cinco tiros, um na boca.

    Seu nome de registro: Marçal de Souza. O nome Guarani Ñandeva: Tupã’i. Pequeno deus.

    Você pode conhecer o rosto franzino e desdentado deste homem no youtube, em seu discurso ao Papa em 1980, ou no documentário Terra de Índios, de Zelito Viana, de 1977.


    Marçal era um indígena do Mato Grosso do Sul. Nasceu em 1920 para ser expulso e confinado na reserva Te’ýikue, em Caarapó, em função dos trabalhos de colheita de erva-mate. As empresas de mate chamavam "reservas indígenas" de “acampamentos de trabalho”.

    Mas o Pequeno deus, órfão, toma um rumo atípico. Ao 8 anos, vai parar em Dourados, num orfanato da Missão Caiuá. Aos 12, muda-se para Campo Grande com um casal de missionários evangélicos. Lá, conhece um oficial do Exército que o leva para Recife, onde trabalha em troca de comida, roupa e estudo. Volta à Dourados e dá aulas para crianças órfãs como ele. Também se torna intérprete de Guarani.

    Veja as fotos da caminhada indígena em memória aos 30 anos da morte de Marçal

    Em 1959, forma-se atendente de enfermagem, profissão que exerceria até a morte, através de curso na Organização Mundial de Saúde (OMS). A partir dos anos 70, com a ebulição do movimento político indígena nacional, passa a despontar como liderança dos povos Guarani, denunciando a expropriação das terras indígenas, a exploração ilegal de madeira, a escravização de índios e o tráfico de meninas indigenas.

    Perseguido, é expulso de Dourados em 1978 pela Funai e volta a morar na reserva Te’ýikue, onde havia morado dos 3 aos 8 anos. Ainda em 78, Marçal é mais uma vez transferido pela Funai, e passa a viver na aldeia de Mbarakaju, em Antonio João, fronteira do estado com o Paraguai.

    Em 1980, é escolhido representante dos povos indígenas do Brasil para discursar ao papa João Paulo II durante sua primeira visita ao Brasil, em Manaus. Marçal fez uma fala histórica, que repercurtiria em todo o mundo: "Nossas terras são invadidas, nossas terras são tomadas, os nossos territórios são invadidos. Dizem que o Brasil foi descoberto. O Brasil não foi descoberto não, o Brasil foi invadido e tomado dos indígenas do Brasil. Essa é a verdadeira história".

    No mesmo ano, Marçal se engaja junto de 30 famílias na luta pela demarcação da terra indígena de Pirakuá, no município de Bela Vista, vizinho a Antônio João. Pirakuá é lembrada como a primeira de um sem-número de retomadas que os Guarani Ñandeva e Guarani Kaiowá realizariam a partir de então.

    A demarcação da terra é contestada pelo fazendeiro Astúrio Monteiro de Lima e seu filho Líbero Monteiro. Naqueles dias, Marçal, com 63 anos, sabia que ia morrer. Teria dito, pouco antes de sua morte: "sou uma pessoa marcada para morrer, mas por uma causa justa a gente morre".

    Após diversas ameaças e agressões, em 1983, Tupã’i é assassinado a tiros no rancho de sua casa, na aldeia Campestre, em uma emboscada noturna.

    O  fazendeiro Líbero Monteiro de Souza, apontado como mandante do crime, executado por Romulo Gamarra, foi inocentado no julgamento realizado dez anos depois pela Justiça Federal de Ponta Porã. Líbero faleceu no início dos anos 2000. No dia 2 de setembro de 2002, o Juiz Federal José Denílson Branco, da 2ª Subseção Judiciária da 1ª Vara Criminal de Dourados extinguiu o processo 2001.60.02.001890-6, o chamado Caso Marçal. Ninguém foi punido.

    "Não queremos emancipação, nem integração. Queremos o nosso direito de viver. Jamais o branco compreenderá o Índio. Queremos ser um povo livre como antigamente. O índio está cercado, amordaçado por uma democracia que não funciona. Por isso nós vamos a campo", disse Marçal certa vez.

    A terra indígena Pirakuá foi homologada. O movimento indígena Guarani e Kaiowá se consolidou, surgindo o Aty Guasu, a grande assembleia Guarani e Kaiowá. Dezenas de retomadas de terras foram reailzadas. Depois de Marçal, mais de duas centenas de indígenas morreram na luta por terem de volta uma parte de seus territórios originários.

    Homenagem

    No último dia 25, os Guarani e Kaiowá realizaram uma caminhada da Aldeia Ñanderu Marangatu até a Aldeia Campestre, onde foi assassinado Tupã’i, e onde estão enterrados seus ossos.

    O ato simbólico fez parte do encontro realizado entre os dias 22 e 25 de novembro, marcando os 30 anos da morte da liderança indígena. Com o tema “Sem Tekoha não há Teko. Sem Tekoha não há escola indígena”, o evento reuniu cerca de 300 indígenas, entre professores, educadores, rezadores e lideranças, na Aldeia Takuapery, no município de Coronel Sapucaia, também na fronteira com o Paraguai. Um manifesto foi redigido e entregue ao Ministério Público Federal, em Ponta Porã.

    "Marçal era conhecido como o homem dos lábios de mel. Suas palavras eram sempre de sabedoria.  Elas buscavam a Justiça. E a resposta dos fazendeiros a isso foi dar um tiro na boca dele", relembrou o missionário Roberto Liebgott, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) durante a cerimônia.

    "Nós vivemos em um país em que os poderes públicos tem laços não com a Justiça, com a dignidade nem com a cidadania. Eles tem laços com o dinheiro, com o lucro, com a propriedade privada", afirmou Roberto. "A estrutura da nossa sociedade é perversa. E vocês são areia nessa engrenagem. Pouco a pouco, com a paciência, com a sabedoria, vocês compartilham novos ensinamentos para que tenhamos uma sociedade mais justa".

    E a batalha de Marçal, cravada na luta pela vida dos povos indígenas, ecoa até hoje entre os Guarani. Concluindo o encontro, o cacique Jorge, da aldeia Pirakuá – cuja homologação, em 1992, foi fruto da coragem do Pequeno deus -, emocionou a todos, falando em Guarani e depois em português:

    "Deram um tiro na boca do Marçal pra calar… Mas felizmente o Marçal já vinha fazendo lavoura. Já vinha plantando semente. E a semente, [são] essas pessoas aqui, esses alunos, sábios, construindo novas lideranças. [Estão] nascendo novos Marçals. Os novos, ele já plantou. Fez uma lavoura e plantou semente e nasceu novas lideranças pra continuar lutando.

    Ouça o discurso do cacique Jorge sobre Marçal

    Os não-índio falaram: ‘mata o Marçal e nós vamo ter resultado, nós vamo ganhar‘. Se matá resorvesse… Não adianta. Hoje, bala não adianta mais. Matando [lideranças indígenas] não vai resorvê. Não adianta retirá o índio das terras dele; vai voltar de novo. Não adianta: a polícia faz barreira la na estrada, mas o índio passa lá no mato. Vai rezando, vai quebrando.

    Por que que hoje tá vindo vulcão?, tá vindo aquele terremoto, tá vindo água?, [por que] tá vindo aquelas pedras que tá acabando meio mundo pra lá? Quem tem poder? Quem que vai segurar isso aí? Eu tenho certeza que o juiz vai pegar a gravata dele, o terno dele, e não vai segurar, se não for o ñanderu [pajé Guarani e Kaiowá] pra segurar.

    Os não-índio estão vivendo – pode ponhá na cabeça e gravar – porque existe o índio ainda.

    [Alguém vai dizer assim]: ‘vamos matar tudo os índios‘. Aí [nesse dia] não vai ser índio nem não-índio, não vai viver mais [ninguém] aqui na terra. Porque o índio ainda conversa com Ñanderu Asu lá em cima. Aí eu torno a dizer que matar não resolve".

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  • 29/11/2013

    APIB reitera demandas indígenas em reunião com representantes da Secretaria Geral da Presidência da República

    Lideranças da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB estiveram na quinta-feira, 28 de novembro, reunidos com o Secretário Nacional de Articulação Social da Presidência da República, Paulo Maldos e o assessor da Secretaria, Thiago Garcia, para dar continuidade à discussão sobre temas de interesse ou que afetam os povos indígenas, pautados em uma reunião anterior, no último dia 21.

    A reunião desenvolveu-se em torno dos seguintes temas: criação do Conselho Nacional de Política Indigenista – CNPI, por meio de Decreto; Regulamentação dos mecanismos de consulta da Convenção 169 da OIT; Projetos de Sustentabilidade para povos indígenas; Portaria 303 e estratégias de diálogo com o STF; Proposta de Portaria para os procedimentos de demarcação de terras indígenas; e, retomada de demarcações de terras indígenas.

    Com relação à criação do Conselho, o entendimento é que o Decreto seja baseado no Projeto de Lei elaborado no âmbito da Comissão Nacional de Política Indigenista – CNPI. Segundo os representantes da Secretaria Geral, o texto já estaria sendo apreciado pela Casa Civil, responsável pela análise jurídica do instrumento antes de ser assinado pela presidente Dilma, mas que não há previsão de quando poderia acontecer, embora a expectativa é que fosse na próxima reunião da Comissão, marcada para o período de 09 a 12 de dezembro próximo.

    Sobre os projetos de sustentabilidade para os povos indígenas, foi ressaltada a importância do tema, a partir do entendimento de que não resolve apenas demarcar as terras indígenas se o Estado não tem uma política específica que garanta as condições de sustentabilidade para esses povos e seus territórios. Em razão disso, foi solicitado à Secretaria Geral articular uma reunião da APIB com os Ministros do Desenvolvimento Agrário (MDA) e Desenvolvimento Social (MDS), visando a realização de um seminário para aprofundar o debate sobre a questão nos primeiros meses de 2014.

    Com relação ao tema da Portaria 303 a expectativa trabalhada pela Secretaria Geral da Presidência é que o acórdão da votação dos embargos declaratórios do caso 3388 da Raposa Serra do Sol, seja o suficientemente claro, para poder “definitivamente enterrar a Portaria 303”, pois apesar dos esforços desta parte do Governo a Advocacia Geral da União (AGU) tem se negado a revogá-la, desconsiderando a decisão da Suprema Corte, segundo a qual as condicionantes não são vinculantes, ou seja, não servem de padrão para as demais terras indígenas do Brasil, mas apenas para a Raposa Serra do Sol. A APIB aproveitou para defender a urgência no julgamento dos processos que estão parados no Supremo Tribunal Federal. Para isso se comprometeu em organizar e encaminhar a lista de terras indígenas que estão judicializadas, visando serem colocadas em pauta pelo Tribunal. Só em Mato Grosso do Sul são mais de 11 Terras Indígenas que estão paradas a espera da votação e no sul do país pelo menos 4.

    A respeito do tema da demarcação das terras indígenas, lembrou-se que na reunião do dia 21 o Ministro da Secretaria Geral, Gilberto Carvalho, teria se comprometido a levar para a próxima reunião da CNPI respostas concretas às demandas apresentadas pelo movimento indígena, que exige destravar a paralisação de portarias de identificação, portarias declaratórias e homologação de terras indígenas. No mesmo teor o ministro teria se manifestado sobre o Decreto do Conselho Nacional de Política Indigenista e a revogação da Portaria 303. Por isso a Secretaria Nacional de Articulação Social estaria trabalhando para preencher esses compromissos.

    Sobre a minuta da Portaria que propõe mudanças nos procedimentos de demarcação das terras indígenas, os representantes da APIB informaram que em breve estarão se manifestando publicamente sobre a medida, que inicialmente o ministro da Justiça José Cardoso prometeu publicar com acordo ou sem acordo, atendendo a bancada ruralista. Depois decidiu consultar por e-mail pelo menos 10 indígenas e finalmente foi convencido de levar a discussão para a CNPI.

    No início da reunião, a líder e membro da coordenação executiva da APIB, Sonia Guajajara reiterou que não haveria problema em avançar nas discussões, desde que ficasse claro de que isso não implica em renunciar às reivindicações defendidas nas distintas mobilizações protagonizadas pelo movimento indígena contra a Portaria 303, a PEC 215 e outras medidas, desde o ano passado e nos meses de abril e outubro do corrente. Tais reivindicações foram apresentadas à presidente Dilma no mês de julho. As manifestações conseguiram barrar iniciativas legislativas antiindígenas que tramitavam no Congresso Nacional. Já no Executivo lamentavelmente não foi possível reverter os ataques aos direitos indígenas.

    Sonia esclareceu também que o coletivo reunido com os representantes da Secretaria Geral não poderia se comprometer a fechar encaminhamentos, uma vez que há uma mesa de diálogo instituída a pedido da presidente Dilma, e que acontece no momento no âmbito da CNPI, que seria o Fórum adequado para tomar decisões sobre os temas em questão.

    A reunião foi encerrada com informes relacionados, entre outros eventos, como a Conferência Mundial dos Povos Indígenas prevista para 2014 e algumas medidas a serem anunciadas pelo governo nos próximos dias favorecendo as comunidades quilombolas.

    Brasília – DF, 28 de novembro de 2013.

    ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL – APIB

     

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  • 28/11/2013

    Portaria 303/2012 da AGU: é hora de revogar!

    Em reunião na Secretaria Nacional de Articulação Social, da Secretaria Geral da Presidência da República, na manhã desta quinta-feira, 28, a coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), exigiu a revogação imediata da Portaria 303/2012. Os representantes da APIB reafirmaram posição dos povos indígenas de que somente voltarão a participar de processo de regulamentação da Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) após a oficialização da revogação da referida portaria.

    Os povos indígenas romperam as conversações com o governo em torno da Convenção 169 em julho de 2012, quando o Executivo editou a Portaria 303/2012, por meio da Advocacia Geral da União.

    Cabe consignar que o Supremo Tribunal Federal decidiu, em outubro de 2013, ao julgar os embargos de declaração do “Caso Raposa Serra do Sol”, que as Condicionantes não são vinculantes e não servem de referência para as demais terras indígenas do Brasil. No entanto, o Advogado Geral da União, Luís Inácio Lucena Adams, insiste na vigência da Portaria 303/2012, o que, na prática, estabeleceria o caráter vinculante das mesmas já que os advogados da União seriam obrigados a adotá-las como regra geral.

    A Portaria 303/2012 teria conseqüências dramáticas para a vida dos povos indígenas. De acordo com pesquisa feita pelo advogado e assessor jurídico do Cimi, Luis Henrique Eloy, no Mato Grosso do Sul, estado onde os povos indígenas lutam para reconquistar suas terras a fim de superarem a situação de confinamento e extrema vulnerabilidade social, existem mais de 800 processos judiciais de cunho possessório que questionam procedimentos administrativos de reconhecimento e demarcação de terras indígenas.

    A edição da Portaria 303/2012 fragilizou a defesa do direito dos povos às suas terras tradicionais e sua implementação inviabilizará a atuação dos advogados da União em muitos desses processos, uma vez que eles serão obrigados a observar as ditas condicionantes indiscriminadamente. A desassistência jurídica decorrente poderá provocar decisões judiciais contrárias aos direitos dos povos relativamente às suas terras e, consequentemente, aos interesses da própria União neste e em outros estados brasileiros. Neste sentido, vale ressaltar que as terras indígenas são registradas em nome da União e ficam sob o usufruto dos povos.

    É incompreensível e inaceitável que a presidenta Dilma continue dando aval a esta iniciativa da Advocacia Geral da União que atenta contra os interesses dos povos indígenas e do próprio Estado brasileiro. Portaria 303/2012: é hora de revogar!

     

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  • 28/11/2013

    A realidade por trás do “conflito entre pequenos” na Terra Indígena Rio dos Índios

    Em um Brasil de riquíssima diversidade cultural e de povos, uma das ações mais características dos setores dominantes historicamente privilegiados é a de oprimir quem resiste ao atual modelo hegemônico de desenvolvimento, extremamente excludente.

    No Mato Grosso do Sul, estado mais violento em relação aos povos indígenas, por exemplo, ruralistas se juntam a políticos e demais setores anti indígenas de todo país e ameaçam, a partir do dia 30 de novembro, aumentar radicalmente a ofensiva contra os povos indígenas. Chegando a anunciar publicamente a realização de um leilão para arrecadar recursos financeiros com o objetivo de atingir este fim.

    Enquanto os ruralistas e as elites locais praticam, sem restrições, em todo o país sua nefasta política anti indígena, a grande mídia, como já era de se esperar, exibe em horário nobre e sempre em tons de preocupação exatamente o oposto. Como em um filme de bang-bang, o que se vê são indígenas violentos, travando guerrilhas desleais, tomando propriedades, acabando com lavouras e as mais variadas produções, bloqueando rodovias e espalhando um clima de terror nas cidades e vilarejos rurais.

    No Rio Grande do Sul, em especial, este malabarismo tático por parte da mídia é revestido com um trunfo capaz de gerar grande comoção na população acabando por mascarar da melhor forma os interesses das elites. Esse trunfo consiste no falso conflito anunciado entre indígenas e os pequenos agricultores, sempre pela ótica dos danos causados a este segundo grupo. No entanto, além de distorcer os fatos e não mostrar o “lado” dos indígenas, a mídia – intencionalmente – não contextualiza os acontecimentos, não possibilitando ao espectador/leitor/ouvinte compreender as reais causas dos conflitos.

     

    Legislando em causa própria

    No pequeno município de Vicente Dutra, no interior do Rio Grande do Sul, tem sido exatamente esta a postura da mídia desde o último dia 21 de novembro, quando, impulsionados por um conflito incitado pelo segurança de um empreendimento privado, os indígenas decidiram partir para a auto demarcação de seu território ancestral. Membros do povo Kaingang – que há mais de dez anos esperam pacificamente a finalização do processo de uma área já demarcada – foram publicizados como seres violentos que, cansados de esperar a demarcação de uma terra a qual proclamam e que desapropriará inúmeras famílias de pequenos agricultores, partiram para cima dos mesmos, ocasionando um conflito covarde e desleal.

    O que a mídia mascara é que o conflito instaurado em Vicente Dutra, na verdade, passa muito longe de ser uma briga “entre pequenos”. Trata-se de uma luta dos Kaingang contra a expropriação indevida de parte de seu território feita pelo ex-prefeito da cidade, Osmar José da Silva, que conta com o apoio de parceiros políticos.

    Para além dos relatórios produzidos pela Fundação Nacional do Índio (Funai) que decretaram a aldeia de Rio dos Índios como demarcada ao povo Kaingang ainda em 2002, indícios da ocupação deste povo pela região são evidentes e inegáveis. Em artigos e produções como os registrados pela antropóloga Lígia T.L. Simoniam fica claro, inclusive, uma efetiva e forte presença dos Kaingang nesta região até meados das décadas de 1950 e 1960.

    No ano de 1981, o então prefeito Osmar José da Silva sancionou e promulgou através da Lei Municipal 284/81 a doação de uma área pública de 240.329 m², que é na verdade parte da área pertencente aos indígenas, para a instalação do empreendimento denominado “Águas do Prado”. Ainda no mesmo ano, o prefeito através de outra lei municipal (310/81), alegando falhas no levantamento anterior, ampliou a mesma área doada para 253.922 m². Esta terra corresponde a quase 200 hectares dos 715 hectares que foram demarcados aos indígenas pela Funai.

    O detalhe é que este empreendimento turístico, que desde então explora de maneira privada as termas e águas minerais da cidade, pertencia naquele momento ao próprio prefeito. Desta forma, o ex-prefeito de Vicente Dutra, na época em pleno exercício, utilizou-se da máquina pública para benefício próprio, e até hoje ele e sua família colhem os frutos desta expropriação sofrida pelos indígenas Kaingang. Estes documentos foram registrados pelo então secretário administrativo Clemente Laber e se encontram nos arquivos do gabinete da prefeitura municipal, que misteriosamente pegou fogo duas vezes durante a gestão de Osmar José da Silva, quando muitos documentos desapareceram entre as chamas.

     

    Ocultar e manipular para manter renda e poder

    O início dos conflitos, amplamente noticiados como o avanço dos indígenas sobre os agricultores, começou na verdade por conta de provocações do vigilante do empreendimento de Águas do Prado. Estas provocações de cunho racista e preconceituosas vêm ocorrendo há muitos anos e as investidas deste mesmo guarda sobre os indígenas já são há muito conhecidas, inclusive por moradores da cidade.

    No dia posterior ao início dos conflitos uma multidão de cerca de 500 pessoas, dentre as quais uma pequena minoria composta por agricultores, dirigiu-se até a entrada da aldeia ameaçando atacar os Kaingang e expulsá-los do município. Nas fotografias registradas defensivamente pelos indígenas são facilmente reconhecidos como dirigentes do ato: o ex-prefeito e dono do empreendimento, Osmar José da Silva, seus filhos, e vereadores do campo político de Osmar que, juntamente com o atual prefeito, insuflaram contra os Kaingang uma pequena parcela de agricultores da região, comerciantes da cidade e região, parte da comunidade de Vicente Dutra e outras pessoas de municípios vizinhos.

    É fato conhecido também que estes mesmos membros da política local, que têm no empreendimento Águas do Prado uma importante fonte de renda, têm levado informações distorcidas quanto à veracidade do processo demarcatório e das consequências da demarcação até os agricultores. Enquanto os indígenas defendem publicamente a demarcação da Terra Indígena Rio dos Índios mediante indenização plena (reassentamento e benfeitorias) dos agricultores, os políticos advertem os trabalhadores rurais de que estes sairão sem nenhum tipo de compensação. Outra ilusão vendida por estes mesmos sujeitos é a de que o processo demarcatório pode ser revertido com a pressão dos colonos, o que é impossível devido ao estágio avançado do processo demarcatório.

     

    Falso conflito favorece o agronegócio

    Os interesses políticos e econômicos das elites locais, com o apoio inescrupuloso da mídia hegemônica, acabam por criar o factóide de um “conflito entre pequenos”, que muito os interessa. Enquanto ganham tempo adiando a indenização dos colonos, suas ações de expropriação estão seguras e suas terras, garantidas indevidamente, intocadas. Enquanto isso, o governo federal covardemente e convenientemente acaba por aproveitar este falso conflito para justificar sua já bem conhecida política de congelamento inconstitucional de demarcações e, assim, garantir seus acordos com os setores dominantes da sociedade. Desta forma, as elites locais encontram coro nas práticas de um governo que decidiu abraçar-se ao agronegócio, passando por cima do direito constitucional dos povos e dos cidadãos.

    As táticas para o não cumprimento de suas atribuições pelos órgãos federais são inúmeras. Por exemplo, em reunião realizada em Porto Alegre no dia 02 de outubro de 2013, o superintendente do Incra, Roberto Ramos, afirmou que os agricultores das áreas indígenas em processo de demarcação não foram reassentados em terras destinadas à reforma agrária por que não estavam cadastrados. No entanto, em áreas como a de Rio dos Índios o levantamento fundiário já foi realizado.

    Ainda em 2009, o Ministério Público Federal de Passo Fundo, tratando de uma conversão do procedimento administrativo cível em inquérito civil (PRM/PF 2009), buscando fazer avançar o procedimento demarcatório da Terra Indígena Rio dos Índios, oficiou ao Incra que este prestasse “informações acerca do parecer da sua Procuradoria Federal quanto à possibilidade de indenização da terra aos agricultores ocupantes da Terra Indígena Rio dos Índios, no município de Vicente Dutra/RS”. No entanto, não foram tomadas as providências neste sentido. Ou por omissão do Incra ou por falta de vontade da Funai e das demais instâncias responsáveis. 

    Enquanto morrem indígenas em atentados em todo o país e muitos outros poderão ocorrer devido às ameaças anunciadas e às promessas de que os ruralistas irão “resolver” por eles mesmos a questão dos conflitos agrários no Mato Grosso do Sul, esta grande rede federal-local vai ganhando tempo, protegendo micro e macro interesses e renovando a esperança de conseguir finalmente alterar a Constituição Federal para poder, de uma vez por todas, retirar os indígenas do caminho do “progresso e do desenvolvimento”.

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Grupo de Apoio aos Povos Indígenas (Gapin) reiteram sua irrestrita e incondicional solidariedade e apoio ao povo Kaingang de Rio dos Índios e continuarão atentos para denunciar estas e outras práticas que as elites locais e o governo federal têm praticado contra o direito irrevogável e imemorial dos povos indígenas.

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  • 28/11/2013

    Terena: Ônibus escolar indígena é incendiado em Miranda

    Ruy Sposati, de Campo Grande (MS)

    Um ônibus que realizava transporte de alunos Terena foi incendiado, na madrugada desta quinta-feira, 28, em Miranda (MS), região do Pantanal. O ônibus levava diariamente cerca de 30 estudantes do ensino fundamental e médio de toda a terra indígena Cachoeirinha. O veículo estava vazio. Ninnguém ficou ferido. Indígenas temem que o ataque esteja relacionado às ameaças de fazendeiros da região.

    O veículo estava estacionado na frente da casa do motorista, que presta depoimento à Polícia Civil na manhã de quinta. Segundo informações colhidas por lideranças de Cachoeirinha, o responsável pelo veículo acredita que o ônibus tenha sido intencionalmente incendiado com gasolina durante a madrugada.

    "Ele [responsável pelo transporte] ligou pra mim e falou: ‘eu não tenho problema com ninguém, não tenho concorrente. Por que alguém faria isso?’. E tem essas ameaças dos fazendeiros do dia 30. Então estamos muito preocupados com essa situação", explica o cacique da Cachoeirinha, Adilson Terena.

    No início do mês, o vice-presidente da Acrissul, Jonatan Pereira Barbosa, anunciou publicamente durante uma audiência com senadores que "se no dia 30 de novembro nada for feito para dar segurança e paz à região, haverá derramamento de sangue”. Durante uma invasão de 150 fazendeiros à sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), uma participante do protesto gritou a indígenas: "o dia 30 está chegando (…), e rogo uma praga a vocês: morram. Morram todos!"

    "Dois anos atrás incendiaram um ônibus nosso com os alunos dentro", relembra o cacique. Em 4 de junho de 2011, um ônibus que transportava cerca de 30 estudantes Terena, a maioria entre 15 e 17 anos, foi atacado com pedras e coquetéis molotov. Seis pessoas, incluindo o motorista, sofreram queimaduras. Quatro foram internadas em estado grave. a estudante Lurdesvoni Pires, de 28 anos, faleceu, vítima de ferimentos causados pelas queimaduras. Na época, lideranças Terena creditaram o ataque a fazendeiros da região, no contexto da disputa pela demarcação das terras indígenas.

    "Agora, os alunos estão com medo de ir para a escola. Diante do que já aconteceu, e diante dessas ameaças do dia 30, estamos muito preocupados. Esperamos que dessa vez isso tudo seja realmente investigado", conclui.




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  • 27/11/2013

    CNBB divulga nota sobre Povos Indígenas e Agricultores

    A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou, durante entrevista coletiva de imprensa, na tarde desta quarta-feira, 27 de novembro, uma nota oficial sobre Povos Indígenas e Agricultores. No texto, os bispos se unem "à angústia dos povos indígenas e agricultores diante da inércia do governo federal e dos respectivos governos estaduais em solucionar verdadeira e definitivamente os crescentes conflitos fundiários".

     

    De acordo com a CNBB, "o momento é crítico e exige urgente e efetiva ação por parte do governo brasileiro em defesa da vida, da justiça e da paz entre indígenas e agricultores no país".

     

    A seguir, a íntegra da nota:

     

    Brasília, 27 de novembro de 2013

     

    P – C – 0743/13

     

    Nota da CNBB sobre Povos Indígenas e Agricultores

     

    Bem aventurados os mansos porque possuirão a terra (Mt 5, 5)

     

    O Conselho Episcopal Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil- CNBB, reunido em Brasília, se une à angústia dos povos indígenas e agricultores diante da inércia do governo federal e dos respectivos governos estaduais em solucionar verdadeira e definitivamente os crescentes conflitos fundiários que envolvem estes nossos irmãos.

     

    Entendemos que a solução para esta situação passa necessariamente pelo reconhecimento do direito histórico e constitucional dos povos indígenas sobre suas terras tradicionais, bem como, pelo reconhecimento dos títulos de terra denominados de boa fé.

     

    Os entes federados, responsáveis pela emissão de títulos de propriedade sobre terras da União, devem assumir a responsabilidade pelo erro político-administrativo que cometeram e indenizar os agricultores que adquiriram de boa fé e pagaram pela terra onde vivem com suas famílias e formaram comunidades. Além disso, o Estado deve indenizar os agricultores pelas benfeitorias construídas sobre as terras e, aquelas famílias que desejarem ser reassentadas, precisam ter esse direito devidamente respeitado, como estabelece o decreto 1775/96, preferencialmente na mesma região.

     

    Não é aceitável a posição assumida pelo governo federal e pelos distintos governos estaduais neste processo. Impedir e protelar a solução desses problemas potencializa a insegurança, as angústias e os riscos de conflitos entre indígenas e agricultores, ambos vítimas de um modelo equivocado de ocupação do território brasileiro.

     

    A Igreja e seus ministros têm compromisso de evangelização e de pastoral com indígenas e agricultores. Neste compromisso, se colocam a serviço da vida plena. (DGAE 106).

     

    O momento é crítico e exige urgente e efetiva ação por parte do governo brasileiro em defesa da vida, da justiça e da paz entre indígenas e agricultores no país.

     

    Que Nossa Senhora, a mãe de todos os povos, olhe por seus filhos nesse momento de dor e preocupações.

     

    Cardeal Raymundo Damasceno Assis

    Arcebispo de Aparecida (SP)

    Presidente da CNBB

     

    Dom José Belisário da Silva

    Arcebispo de São Luís (MA)

     

    Dom Leonardo Ulrich Steiner

    Bispo Auxiliar de Brasília (DF)

    Secretário Geral da CNBB

     

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  • 27/11/2013

    Gecivaldo Xukuru Kariri: plantado na terra, ele continua a inspirar seu povo

    Patrícia Bonilha,

    De Brasília

     

    De um jeito bonito e emocionante, o povo Xukuru Kariri despediu-se de seu líder Gecivaldo Xukuru-Kariri no último dia 22. Seguindo as tradições da comunidade, após uma longa caminhada por caminhos estreitos na terra onde vivem, seu corpo foi plantado na mata de sua própria aldeia, a Fazenda Canto, ao som do toré e com a realização dos rituais espirituais do Ouricuri.

     

    Ao lado de Maninha, outra guerreira histórica dos Xukuru Kariri, Gecivaldo atuou na organização do seu povo e, dentre várias ações, na articulação da Comissão de Articulação Indígena Leste e Oeste, em 1990, que posteriormente deu origem à Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme). Assim como Maninha, Gecinaldo também foi vítima do descaso e da negligência médica.

     

    Desse modo, apesar do vazio que fica, até mesmo a sua precoce morte torna-se estímulo/alimento para os Xukuru Kariri continuarem na luta pelos seus direitos e pela terra que tradicionalmente lhes pertence. Até que a dignidade seja garantida a todos.

     

     

    Leia abaixo artigo do jornalista Jorge Vieira:

     

    Gecivaldo Xukuru: um guerreiro de volta à Mãe Terra

     

    Mais um guerreiro de volta à Mãe Terra. Ao amanhecer, estava estampado na página do facebook uma foto com a informação do falecimento da liderança Xukuru Kariri, Gecivaldo Ferreira.  Segundo informações preliminares, encontrava-se em tratamento no Hospital de Palmeira dos Índios, inicialmente diagnosticado pelo médico de plantão com suspeita de infecção intestinal, onde foi medicado e enviado para casa; em consequência do aumento das dores, foi levado de volta ao hospital, onde sofreu uma intervenção cirúrgica, que acabou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e no falecimento. Do ponto de vista médico, fica aí a interrogação por que não foi feito imediatamente o exame específico para identificar a real causa do sintoma.

     

    Em quase três décadas de convivência, testemunha-se o grande lutador e defensor dos direitos indígenas, que organizou a Associação Indígena Xukuru Kariri, tornou-se militante do Partido dos Trabalhadores (PT), defendeu uma assistência de qualidade da saúde indígena, dirigiu o Conselho Indígena de Saúde Indígena de Alagoas e Sergipe, além de ter dedicado a vida à luta pela demarcação do território tradicional Xukuru Kariri.

     

    Gecivaldo faz parte de uma geração de guerreiros indígenas que lutou pela garantia dos direitos indígenas, destacando-se o pajé Miguel Celestino, João Tomás Pankararu, Quitéria Celestino, Maninha Xukuru Kariri e os Xukuru de Ororubá (PE), Xicão e Chico Quelé, como tantos outros que dedicaram suas vidas à defesa dos seus povos.

     

    Em sua trajetória de vida, destacou-se pela sua capacidade política de organização interna e de diálogo com outros grupos indígenas e com a sociedade nacional. De forma coerente com os seus princípios, manteve-se firme na defesa da terra, da saúde, da educação e de projetos de desenvolvimento agrícola. Duas características destacam-se em sua atuação política: o compromisso firme com as causas dos povos indígenas e a habilidade na condução dos conflitos e negociação com os seus interlocutores.

     

    Avaliando a sua história de vida, como esposo dedicado, pai carinhoso e militante dócil, Gecivaldo deixa um legado de experiência para os presentes e para as futuras gerações. No seio familiar, preparou o filho Gecinaldo Xukuru, professor e liderança indígena, para continuar o seu legado. Observa-se que, com o pai ele aprendeu o compromisso com a defesa dos direitos indígenas e a firmeza na retomada da terra, memória que, junto com os seus parentes e aliados, o dará força e habilidade política na condução das lutas Xukuru Kariri e dos povos indígenas do Brasil.

     

    Os povos indígenas do Brasil perdem um líder, especialmente o povo Xukuru Kariri, como tantos outros que voltaram para o seio da Mãe Terra, mas ganharam a memória de um herói vencedor e um ente mítico que entra no mundo sagrado da cosmologia espiritual dos Encantados, de onde irá dirigir e conduzir a vida e as lutas do povo Xukuru Kariri.

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  • 26/11/2013

    Pyelito Kue: “esgotou a nossa paciência”

    Ruy Sposati, de Dourados (MS)

    Mais de um ano depois da dramática carta da aldeia-acampamento Pyelito Kue, na fronteira do Mato Grosso do sul com o Paraguai, os Guarani Kaiowá lançam novo documento denunciando a sistemática omissão do governo federal na demarcação das terras indígenas do Mato Grosso do Sul.

    "Nós queremos que eles [governo brasileiro] cumpram a sua palavra. Eles falam que vão fazer. Nós já ficamos esperando. E eles não estão cumprindo, não estão chegando e não vem para demarcar a nossa terra", afirma o novo documento.

    Frente às declarações públicas de fazendeiros sobre financiamento de seguranças privados para reagir às retomadas indígenas, os Kaiowá de Pyelito Kue afirmam que não desistirão da luta pela demarcação de Pyelito, e que não esperarão mais "de braços cruzados", afirma a comunidade na nova carta. "Nós gritamos que esgotou a nossa paciência (…). Imediatamente precisamos ocupar de volta nosso tekoha".

    Os indígenas exigem a presença da Força Nacional e da Polícia Federal para garantir sua segurança, mas concluem: "se houver algum pedido de liminar ou reintegração de posse, já vamos deixar bem claro que a guerra será declaratoriamente (sic)".

    Nada mudou

    Dois anos após a retomada de 1 hectare de seu território tradicional, pouca coisa mudou na vida da comunidade. Continuam sem escola, sem saúde e sem terra para plantar, confinados entre fazendas de gado, debaixo de barracos de lona.

    Em 8 de janeiro, a Fundação Nacional do Índio (Funai) aprovou as conclusões dos estudos de identificação e delimitação da Terra Indígena Iguatemipegua I, que abrange os Tekohá – terras tradicionais – Mbarakay e Pyelito Kue, reconhecendo como de ocupação tradicional do povo Guarani Kaiowá uma área de 41,5 mil hectares.

    Logo após a publicação do relatório, a comunidade se posicionava: a aprovação deste havia sido uma vitória de sua luta – e, no entanto, ainda viviam sob os mesmos 1 hectare de terra. À luz de quase um ano de publicação do relatório de identificação da área, a resposta governamental manteve os ares de pirofagia política, em detrimento de uma ação efetiva que solucionasse os conflitos e fizesse valer a Constituição Federal.

    Primeira carta

    Escrita à mão em 8 de outubro de 2012 por um jovem estudante Kaiowá – numa folha pautada e em português, após uma longa conversa entre os membros da comunidade – o documento questionava uma decisão judicial de reintegração de posse que retiraria os indígenas daquele um hectare de terra, retomado há quase um ano pelas famílias de Pyelito.

    A carta foi entregue, na manhã do dia 8, a membros do Conselho do Aty Guasu, organização política dos indígenas Guarani e Kaiowá, num trecho da estrada vicinal que leva ao acampamento. Não havia sido possível aos indígenas chegarem à aldeia, em função de um bloqueio dos proprietários e arrendatários da fazenda que incidem sobre o território reivindicado pelos indígenas. À tarde, o Aty Guasu publica em seu perfil do Facebook a carta que sacudiria o Brasil e o mundo e reposicionaria os Guarani Kaiowá e o universo indígena na pauta do dia da imprensa, do governo e da sociedade.

    Mobilização

    O documento provou o poder de mobilização social dos indígenas e a solidariedade geral da sociedade envolvente. Milhares de pessoas saíram às ruas, no Brasil e no mundo, em defesa da demarcação dos territórios tradicionais dos Kaiowá e Guarani; centenas de cartas foram escritas ao governo. Parlamentares, intelecutais e ativistas, muitos deles pelas primeira vez, travaram contato com a luta dos indígenas do Mato Grosso do Sul.

    Apesar do apoio e reconhecimento alcançados pelos Kaiowá, o cotidiano da comunidade permaneceu bastante violento. Menos de um mês depois do lançamento da carta, uma indígena de Pyelito Kue foi estuprada por oito pistoleiros, que a amordaçaram e apontaram uma faca em seu pescoço, enquanto a violentavam. Um sem-número de intimidações e ataques à comunidade foram relatados pelos indígenas às autoridades. Em abril, um fazendeiro cuja propriedade incide sobre Pyelito entrou com um pedido de interdito proibitório da Justiça Federal de Naviraí.

    Leilão

    Fazendeiros do Mato Grosso do Sul irão leiloar "de galinha a vaca OP [gado de Origem Pura]" para financiar a luta contra indígenas. Organizado por associações de criadores de gado e produtores rurais do estado, os recursos arrecadados no chamado "Leilão da Resistência", anunciado para o dia 7 de dezembro, serão destinados a ações de combate às ocupações de terras por indígenas no estado.

    Indígenas e organizações sociais lançaram uma carta aberta à presidenta Dilma Rousseff exigindo uma intervenção federal no Mato Grosso do Sul, acusando proprietários rurais de estarem "organizando força paramilitar para atentar contra a vida de coletividades e contra o Estado de direito no Brasil”.


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  • 26/11/2013

    Nota dos Guarani da Terra Indígena Araçá’i: “Não aceitamos acordos políticos em troca de nossa terra tradicional”

    Nós Guarani da terra indígena Araçá´í denunciamos as manobras políticas que estão sendo arquitetadas por parlamentares de Santa Catarina, com o intuito de impedir o avanço da demarcação de nossa terra tradicional, pressionando o Ministério da Justiça, a Fundação Nacional do Índio para não demarcar nossa terra. Além disso, tentam nos convencer de que mudarmos para uma outra área provisória é a melhor saída. Com isso instigam, promovem e fomentam, nas regiões, manifestações contrárias a demarcação de nossa terra, alimentando o ódio e o preconceito da sociedade contra nós.

    Denunciamos as estratégias desses políticos de estarem organizando estas ações. A última ofensiva é um acordo assinado sem nossa presença, na compra de uma área em Bandeirantes, no extremo oeste. Não admitimos este acordo feito, coordenado pelo deputado estadual Dirceu Dresch e o secretário da Agricultura do Estado de Santa Catarina, João Rodrigues. Lutamos e sempre lutaremos pela nossa terra tradicional, localizada nos municípios de Saudades e Cunha Porã.

    A postura anti indígena desses políticos, que até recentemente estavam na oposição e se manifestavam favoráveis aos nossos direitos, tem, no nosso entender, duas possíveis explicações: primeiro, querem transformar a questão indígena em palanque eleitoral para as eleições  de 2014, com isso arrebanhar os votos de uma grande parcela da população que não aceita os povos indígenas como sujeitos e cidadãos detentores de direitos (preconceito histórico existente na região); segundo, políticos considerados de esquerda não compreendem, e talvez nunca compreenderam a  realidade cultural de nossa região e a que tudo indica, não têm firmeza ideológica acerca  da sociedade que se pretende construir e conseqüentemente são cooptados aos interesses econômicos e políticos.

    Reivindicamos nossa terra tradicional desde 1998, sofrendo situações extremas ao longo destes quinze anos: desde a retomada que fizemos e a expulsão que sofremos de nossa terra no ano 2000, até a proibição judicial de retornar ao estado de Santa Catarina no mesmo período. Desde 2001, estamos vivendo sob 08 hectares da terra indígena Toldo Chimbangue, do povo Kaingang, no município de Chapecó. O reduzido espaço ocupado não permite o cultivo suficiente para garantir a alimentação na aldeia. Com isso, a dependência da assistência dos órgãos governamentais é acentuada.  Entretanto, esta assistência tem sido falha e as conseqüências são visíveis.

    A maior responsabilidade por essa situação de violência é do Governo Federal que, além de não realizar a demarcação de nossa terra, vem assumindo abertamente e sem pudor uma política desenvolvimentista que converte o meio ambiente, as terras, as águas, as matas, as pessoas em recursos disponíveis para exploração.

    Nos, guarani do Araçá´í, exigimos que a Funai faça a demarcação física de nossa terra. E que o Governo do estado de Santa Catarina assuma de uma vez por toda a responsabilidade sobre o erro cometido no passado, regulamentando uma lei que já foi aprovada na Assembléia Legislativa de nosso Estado.

    Caso o Governo Federal mantenha uma atitude de descaso e omissão diante da grave situação vivida pelo nosso povo, será diretamente responsabilizado pelas violências e por qualquer confronto que por ventura venha a ocorrer.

    Comunidade Guarani do Araçá´i

    Terra Indígena Toldo Chimbangue

    26 de novembro de 2013.

     

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