• 18/09/2014

    Indígenas Pykobjê-Gavião enfrentam invasão e ameaças de madeireiros em seu território

     

    No dia 10 de setembro, quatro indígenas Pykobjê-Gavião da Terra Indígena Governador, município de Amarante do Maranhão foram ameaçados por madeireiros. Os indígenas voltavam do município de Grajaú pela estrada vicinal que liga o município de Amarante a Sitio Novo, quando viram na estrada um caminhão carregado de aroeira (madeira nobre usada na fabricação de antibióticos). Os indígenas pediram ao motorista parar o veículo, mas não tiveram o pedido atendido.

    Um motoqueiro que vinha fazendo a escolta do caminhão afirmou que o veículo é de propriedade do Sena (sargento de Polícia Militar e vereador em Amarante), que a madeira transportada não era proveniente da TI Governador, mas do povoado Piripiri, cerca de 40 km de Amarante do Maranhão.                  

    Com o intuito de confirmar se de fato a madeira não era proveniente da TI, os indígenas solicitaram ao motoqueiro que mostrasse o local de onde eles tinham tirado a madeira. Após isso, os indígenas ligaram para a aldeia avisando as lideranças do ocorrido e solicitaram que um grupo confirmasse se a madeira apreendida não era da terra indígena. Num momento de distração das lideranças, o motoqueiro fugiu do local e avisou o sargento Sena que os indígenas tinham apreendido o caminhão.

    Os indígenas ainda estavam no local onde o caminhão foi apreendido quando o sargento Sena chegou com quatro homens supostamente armados. Os indígenas foram encurralados e tiveram apreendido seu celular, no qual continha registros fotográficos da retirada ilegal de madeira, bem como, do caminhão. Os quatro homens armados ainda ameaçaram os indígenas.

    Segundo os indígenas, o sargento Sena salientou que os Pykobjê-Gavião podem até apreender seu caminhão se o encontrarem dentro da terra indígena, mas fora ele não aceitaria.

    Os indígenas ficaram totalmente vulneráveis frente aos homens armados, mas não esboçaram reação por estarem desarmados. Quando as outras lideranças chegaram ao local não encontram mais os madeireiros e decidiram ir buscar o celular que tinha sido levado por sargento Sena. Ao encontrar sargento Sena, os indígenas pediram para ele entregar o celular.  O mesmo foi entregue, mas não continha mais as provas da retirada de madeira.

    As lideranças foram à delegacia de polícia em Amarante para registrar o boletim de ocorrência, não conseguiram, segundo os indígenas, os policiais de plantão recusaram-se a fazer o boletim, alegando que o delegado não se fazia presente.

    O clima na região é tenso. As lideranças indígenas continuam lutando contra a invasão madeireira em seu território e temem por seus filhos que necessitam estudar na cidade.

    A terra fica a 750 km de São Luís, capital do estado, e tem pouco mais de 42 mil hectares, onde vivem cera de mil indígenas, divididos em seis aldeias. O novo processo de demarcação da terra foi iniciado em 2007 e interrompido em 2010 por conta da ação de fazendeiros de Amarante que não deixaram o grupo técnico da Funai concluir os trabalhos o que tem deixado os indígenas vulneráveis a invasões em seu territórios.

    Vale ressaltar que os Pykobjê-Gavião vêm lutando contra a exploração ilegal de madeira em seu território há vários anos. Por sua resistência, os indígenas já tiveram as aldeias invadidas duas vezes e sofrem com ameaças de novas invasões, mas continuam firmes. Infelizmente, o órgão responsável pela proteção do território não tem atuado de forma contundente no apoio a luta contra a invasão madeireira no território do povo Pykobjê-Gavião. Os indígenas são enfáticos ao afirmar que se não houver uma política de proteção do território, vai haver novos conflitos, porque eles não vão aceitar a invasão de seu território.

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  • 17/09/2014

    Dom Pedro Casaldáliga recebe título de Doutor Honoris Causa da PUC-SP

    Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Felix do Araguaia (MT), foi homenageado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), na manhã desta quarta-feira (17), com o título de Doutor Honoris Causa. Por motivos de saúde, o bispo pediu ao padre e coordenador geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep), José Oscar Beozzo, que o representasse na outorga do doutorado na universidade.

    Pastor, poeta e escritor, Dom Pedro marca a Igreja da Amazônia, do Brasil e da América Latina pelo seu profetismo, fidelidade aos pequenos, sem temor às perseguições e às ameaças de morte. Comprometido com o resgate do testemunho e da memória perigosa dos/as mártires, levantou em Ribeirão-Cascalheira, no Mato Grosso, próximo ao lugar onde foi assassinado em sua presença o padre João Bosco Penido Burnier, o Santuário dos Mártires da Caminhada, onde se realiza periodicamente (atualmente a cada 5 anos) a Romaria dos Mártires.

    Sua profunda espiritualidade e apego ao evangelho alimenta seu destemor na defesa dos povos indígenas, posseiros/as, lavradores/as sem-terra e quantos se encontram ameaçados pela injustiça dos poderosos.

    Na foto ao lado, Dom Pedro (sentado) cumprimenta Dom Tomás Balduíno, morto em maio deste ano: mais de meio século de lutas na aposta rebelde da esperança. 

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  • 17/09/2014

    RS: Movimentos em defesa dos direitos humanos e pelo fim da criminalização das lutas sociais

    Diante de recentes episódios envolvendo a criminalização das lutas sociais no Rio Grande do Sul, acompanhada de preocupantes violações aos direitos humanos, com o destaque indigenista para as prisões e agressões sofridas pelo povo Kaingang em pleno direito de reivindicação de seus territórios tradicionais usurpados, movimentos sociais e organizações circularam um manifesto, que segue na íntegra: 



    EM DEFESA DA GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS E PELO FIM DA CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS E LUTAS SOCIAIS DO RS


    As organizações sociais, os movimentos populares, as lideranças e sujeitos de direitos ligados a diferentes populações, comunidades e segmentos de luta, reunidos na Caravana dos Defensores e Defensoras dos Direitos Humanos de Porto Alegre, realizada no dia 06 de setembro de 2014, na sede do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (SIMPA), vem a público manifestar a defesa incondicional dos direitos humanos das populações e segmentos sociais que vivem em situação de marginalização, violência e exclusão, bem como manifestar sua indignação com relação à criminalização que os movimentos e organizações sociais populares e suas lideranças vêm sofrendo nas diferentes frentes de luta no Estado do RS.

    Ao tratar da realidade vivida pelas populações, comunidades e sujeitos de direitos; da atuação do Estado no que se refere aos instrumentos de defesa/proteção e das políticas de promoção dos direitos humanos; da capacidade de organização e mobilização das lutas e movimentos sociais, bem como do empoderamento das populações e comunidades específicas e suas lideranças, as manifestações apresentadas e colhidas ao longo deste encontro, mostram que direitos humanos e direitos cidadãos (constitucionais) básicos parecem inalcançáveis para uma parcela significativa da população. Neste sentido, manifestamos e denunciamos:

    o interesse do capital imobiliário incidido sobre os territórios, promovendo a remoção e exclusão das populações e dos povos de direito dos seus territórios;

    – a omissão e a conivência do Estado em relação à violação dos direitos das populações e dos povos nos territórios tradicionais;

    -o genocídio dos de Baixo, do povo negro e a segregação racial, geracional e social das populações e povos em nível mundial (refletido também no âmbito local);

    – a violência policial e estatal contra populações discriminadas, marginalizadas e criminalizadas;

    – a ineficácia das políticas públicas efetivas na garantia dos direitos humanos básicos das populações, povos e segmentos marginalizados: comunidade LGBT, populações de rua, comunidades quilombolas e povos indígenas, etc.;

    – a criminalização das lutas e de ativistas dos movimentos sociais, como forma de desmobilizar a sociedade, as populações e os povos em defesa de seus direitos;

    – a responsabilização do governo do estado, na pessoa do secretário estadual de habitação, Marcel Frison e aliados, pela desarticulação de comunidades e territórios ocupados, além de atentados contra lideranças e indivíduos que resistem ao processo de higienização provocado pela especulação imobiliária;

    – o conluio entre poderes públicos para garantir o interesse de empresas e a intensificação dos processos de remoção, sendo que só no último mês ocorreram duas remoções de comunidades (Avipal e Dois Irmãos), ambas comunidades atingidas e desconstruídas pelos mesmos atores políticos;

    – a tentativa de cooptação de movimentos sociais pelo Estado, visando garantir os interesses econômicos de empreiteiras, imobiliárias e demais corporações industriais e comerciais;

    – a parceria entre o governo do estado e universidades gaúchas com a Elbit (empresa Israelense que trabalha com sistemas de segurança e armamentos), que possui relação direta com o genocídio do povo palestino;

    Ao mesmo tempo, defendemos e exigimos:

    – a defesa dos direitos e o reconhecimento da identidade das populações, povos e comunidades nos seus territórios;

    – o compromisso dos governos com a legalização, titulação e demarcação dos territórios dos povos indígenas, comunidades quilombolas e comunidades urbanas;

    – a retomada dos territórios como direitos reconhecidos e conquistados pelos povos e comunidades tradicionais (indígenas e quilombolas), bem como das populações e comunidades urbanas;

    – a mobilização e unificação das organizações sociais em torno de agendas comuns em defesa dos direitos dos povos, populações e segmentos marginalizados e criminalizados da sociedade;

    – a manutenção da articulação da resistência e das iniciativas coletivas em defesa dos direitos humanos e contra toda forma de violência e criminalização;

    – a elaboração de uma carta de moção ao governador do estado exigindo o afastamento imediato do secretário de habitação, Marcel Frison, e assumindo o compromisso de colocar no cargo pessoa íntegra e com compromisso aos direitos humanos das populações atingidas;

    – o arquivamento imediato dos processos criminais com cunho político, dos inquéritos judiciais e das investigações ideológicas praticadas contra ativistas de movimentos sociais;

    – o apoio à luta nacional que visa a desmilitarização das polícias;

    – a formação de grupos de estudos temáticos para compreender o contexto da luta, resultando em oficinas, teatro e atividades diversificadas nas comunidades atingidas com o propósito de fortalecer a luta pelos territórios;

    – a efetivação de um Estado laico de fato, onde os cidadãos tenham o direito à livre expressão, opção e credo, sem qualquer tipo de discriminação e perseguição, com espaços de participação efetivos a este debate;

    – o investimento de recursos para o sistema habitacional e a urbanização dos territórios para garantir os direitos mínimos de dignidade das populações e povos atingidos;

    – a extinção de iniciativas que visem retrocessos com relação aos direitos territoriais dos povos, comunidades e populações, como é o caso da PEC 215 e outras propostas inconstitucionais semelhantes;

    – a ruptura imediata dos contratos entre o governo do estado do Rio Grande do Sul e as universidades gaúchas UFRGS, PUCRS, UFSM e UNISINOS com a empresa israelense Elbit, representada no país através da subsidiária AEL Sistemas;

    Por fim, manifestamos que não abandonaremos a luta e não vamos recuar nenhum passo na defesa e garantia dos direitos humanos dos povos, comunidades e populações!

    Subscrevem este manifesto,

    Ação de Rua Arquipélago; Amencar; Bacupari; Bloco de Luta pelo Transporte 100% Público; Boca de Rua; Caminho das Águas/ Ilhéus Ecológicas; Cáritas/RS; Centro Franciscano Pedro Chaves Barcellos; CIMI Sul (Conselho Indigenista Missionário); Comitê Popular Contra o Estado de Exceção; Comitê Popular da Copa (ANCOP); Comunidade Indígena Morro do Osso (Kaingang); CRDH/ Avesol; Frente Quilombola/RS; Gapa-RS; Ilhéus Ecológicas; IDHESCA; Manifesto POA;  Mov. LGBT; Movimento Autônomo Utopia e Luta; Movimento Nacional da População de Rua; Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH); Movimento Negro Unificado (MNU); MPG, Professores de Goiás; Ocupação Progresso; Ocupação Sete de Setembro; PPDDH – RS; Parrhesia Erga Omnes; Quilombo dos Machado; Rede Macumba de Comunicação; Resistência Urbana; SIMPA; Stop the Wall; Teatro In-Visíveis; Vila Dique.

    CARAVANA DOS DEFENSORES E DEFENSORAS DE DIREITOS HUMANOS POA/RS.

    Porto Alegre, 06 setembro de 2014.

  • 17/09/2014

    Nota do Cimi sobre a Atenção à Saúde Indígena

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), uma vez mais, manifesta-se publicamente contra a pretensão do governo federal de criar uma estrutura paraestatal para executar as ações e serviços no âmbito da saúde indígena. O argumento usado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) nas reuniões dos conselhos distritais de saúde indígena (Condisi), sobre o novo modelo proposto pelo órgão para a Atenção à Saúde Indígena, e que se resume na criação do Instituto Nacional de Saúde Indígena (INSI), é de que não existem propostas alternativas, e que o Cimi está simplesmente fazendo a crítica pela crítica sem apresentar soluções. Esta afirmação demonstra um profundo desconhecimento e injustiça contra os povos indígenas, ignorando completamente suas lutas e o conteúdo político-transformador contido na formulação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), propostos pelas Conferências Nacionais de Saúde Indígena, desde o ano de 1986. No intuito de fazer justiça à histórica luta dos povos, apresentamos, em caráter propositivo, uma breve memória das conquistas e propostas do movimento indígena na área da saúde.

    A construção do modelo de atenção à saúde indígena

    A construção do modelo de atenção diferenciada à Saúde Indígena é uma das propostas mais inovadoras nas políticas públicas no país, e considerada por muitos o embrião para a reorientação da política indigenista com base em critérios geográficos e culturais adequados à realidade dos povos indígenas. Este direito vem sendo conquistado através de uma luta incessante protagonizada pelo movimento indígena, desde a aprovação da Lei Arouca que instituiu os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), em 1999, e da Política Nacional de Atenção a Saúde das Populações Indígenas (PNASPI), em 2002.

    A criação da SESAI

    A SESAI também é fruto da mobilização do movimento indígena, que ao longo dos anos foi construindo o entendimento de que seria necessária a criação de uma instância que gozasse de maior autonomia política e financeira para assumir a gestão da saúde indígena. Desde a sua criação em 2010, a SESAI teve seu orçamento incrementado significativamente, enquanto em proporção inversa se observava a piora acentuada dos indicadores de saúde e da qualidade da assistência em todos os Distritos Sanitários Indígenas do país. A atual gestão da SESAI poderia ter realizado o Concurso Público para provimento dos cargos da área administrativa dos distritos desde o primeiro ano de sua criação, conforme compromisso assumido com o movimento indígena. Preferiu, no entanto, manter o modelo da terceirização, possibilitando a continuidade dos escândalos de corrupção, como no caso do aluguel de veículos e aeronaves e na compra de medicamentos, devido às ingerências políticas e a relação promíscua com fornecedores dos serviços.

    Para efetivar a autonomia administrativa e financeira dos DSEIs é preciso apenas dispor dos recursos humanos adequados e de uma gestão eficiente, o que garantirá realizar as licitações e os demais procedimentos administrativos necessários à correta e transparente utilização dos recursos públicos. A alegação da SESAI de que estes procedimentos inviabilizam a saúde indígena não tem nenhum fundamento, pois as licitações são utilizadas por todos os órgãos públicos do país, e existem mecanismos legais para garantir a excepcionalidade da saúde indígena. A verdade é que não existe vontade política de resolver o problema, pois boa parte dos cargos de chefia da SESAI em âmbito nacional e distrital são preenchidos a partir de critérios partidários e fisiológicos.

    A defesa do concurso público específico e diferenciado

    Após o concurso público destinado a preencher as vagas de servidores no Distrito Sanitário Yanomami, em 1996, realizado pela FUNASA de forma indiferenciada e sem respeito aos parâmetros culturais dos povos indígenas, o Núcleo Interinstitucional de Saúde Indígena de Roraima (NISI-RR) apresentou a proposta de realização de outro Concurso Público Específico e Diferenciado, com requisitos como regionalização, participação indígena e critérios de adequação cultural. Estas propostas foram aprovadas em diversas conferências e estão contempladas nos critérios propostos pelo Ministério Público Federal no Termo de Conciliação Judicial (TCJ) que procura resolver a precarização das formas de contratação dos recursos humanos adotadas hoje pela SESAI. 

    A necessidade da autonomia administrativa e financeira dos DSEIs

    A autonomia administrativa e financeira dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) é um dos princípios fundamentais do modelo proposto nas conferências e na Política Nacional de Saúde Indígena, promovendo a execução de programas e ações adequados às realidades locais e regionais, adaptando as questões logísticas e administrativas às especificidades geográficas, epidemiológicas e culturais de cada distrito. A efetivação desta autonomia precisa ser construída em médio e longo prazo, inclusive com a mudança dos marcos legais que limitam o reconhecimento da especificidade cultural de cada povo. Este processo fica totalmente inviabilizado com a criação do INSI, de abrangência nacional.  

    A formação dos agentes indígenas de saúde

    O Programa de Formação Profissional para Agentes Indígenas de Saúde implementado de 2000 a 2004 em todos os distritos do país foi construído de forma participativa, envolvendo lideranças indígenas e diferentes instituições, coordenado pela professora Ena Galvão, de reconhecida competência no Ministério da Saúde, com base na pedagogia construtivista e comunicação intercultural. Este programa foi concluído de forma pioneira pelo Distrito Sanitário Indígena do Leste de Roraima, depois de sete anos de cursos modulares realizados nas próprias comunidades com uma carga horária total de mais de 1.200 horas, tendo certificado um grupo de 374 alunos provenientes de todas as etnias e pólos-base do DSEI, em uma parceria que envolveu o Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a Escola Técnica de Saúde do SUS (ETSUS).

    De todos os aspectos da atenção à saúde dos povos indígenas, sem dúvida o mais importante é a Medicina Tradicional Indígena, usada há milênios pelos povos indígenas através de seus pajés, xamãs, curadores e parteiras tradicionais, assim como no conhecimento disseminado em todas as comunidades sobre o uso das plantas medicinais, regimes alimentares e rituais de cura. Este trabalho pode ser significativamente potencializado através da formação e integração da medicina tradicional com os profissionais de saúde indígenas, através de uma política de formação e regularização profissional a ser implementada nos níveis básico, técnico e superior, como prevê a Política Nacional de Atenção à Saúde Indígena, mas que até hoje tem sido totalmente negligenciado pela SESAI.

    O sistemático boicote à consolidação do subsistema

    Desde o início da implantação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI-SUS), houve forte resistência por parte dos grupos políticos que tradicionalmente controlam os órgãos públicos, alegando que seria impossível aprovar uma legislação diferenciada em relação aos povos indígenas, por representar uma proporção ínfima da população e sem expressão político-partidária. Esta é a mesma alegação utilizada hoje pelos tecnocratas da SESAI ao argumentar pela inviabilidade de um Concurso Público Específico e Diferenciado para os recursos humanos da Saúde Indígena no país, a partir de bases legais a serem estabelecidas com a participação do Ministério Público Federal e do Congresso Nacional.

    O artifício usado pela atual coordenação da SESAI para esconder a sua incapacidade na gestão da saúde indígena é propor uma alternativa que desconsidera todo o acúmulo construído ao longo das últimas décadas pelo movimento indígena, apresentando a privatização do subsistema como solução mágica para todos os problemas vividos pelas comunidades. Para isto, procura difundir entre os conselheiros e lideranças indígenas a idéia de que não existem alternativas possíveis, e de que a autonomia administrativa e financeira dos distritos, a contratação de profissionais indígenas por meio de Processo Seletivo Diferenciado, e o provimento de profissionais para os distritos através de um Concurso Público Específico e Diferenciado são inviáveis, o que já foi desmentido pelo Ministério Público Federal.

    A 6ª Câmara do Ministério Público Federal (MPF) reconheceu em documento recente que a proposta de criação do INSI e a forma como a SESAI tentou impor a sua aprovação junto aos povos indígenas, fere os princípios constitucionais do Sistema Único de Saúde (SUS) e o direito à consulta prévia, livre e informada assegurado pela Convenção 169 da OIT. Anteriormente, muitas organizações indígenas do país já haviam se manifestado de forma contundente contra esta proposta, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME) e Articulação dos Povos Indígenas do Sul (ARPINSUL), entre outras.

    O Cimi alerta para a discrepância que o INSI provocará na política de saúde pública do país, gestada e executada a partir de regras constitucionais e da lei 8080/1990, que consolidaram o Sistema Único de Saúde (SUS). Também o Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, quando criado pela Lei Arouca, foi vinculado ao SUS, devendo a política de saúde indígena ser também gestada e executada pela União e não por organizações ou empresas privadas.

     

    No entender do Cimi, o governo federal pretende implantar dentro da atual legislação uma anomalia jurídica para com ela eximir-se de responsabilidades quanto à política de saúde para os povos indígenas, transferindo-a para setores e empresários da saúde como se ela fosse uma espécie de negócio. Além disso, causa preocupação os aspectos orçamentários embutidos nas mudanças pretendidas no âmbito desta política de saúde. Observa-se que os recursos financeiros têm sido ampliados de modo significativo para a saúde indígena nos últimos anos, passando de aproximadamente 350 milhões para mais de 1 bilhão de reais, e com o modelo proposto serão gestados e administrados por empresas que não estarão submetidas aos mecanismos dos órgãos de fiscalização e do controle social, ficando inclusive o Ministério Público Federal desprovido de competência para atuar com a temática da atenção à saúde indígena caso o INSI seja criado.

    Nesse contexto, o Cimi manifesta sua estranheza em relação aos ataques que vem sofrendo por parte de alguns integrantes do Fórum de Presidentes dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena (FPCondisi) – leia aqui. Em nenhum momento a entidade fez qualquer referência à atuação deste fórum, por outro lado, todas as críticas do Cimi direcionadas ao governo federal, de modo particular à SESAI, estão sendo tomadas pelo FPCondisi como se fossem suas e, ao respondê-las, tem assumido a defesa incondicional da SESAI, do governo e da proposta de criação do INSI.

    Mais estranho ainda é o fato dos referidos ataques serem extensivos a organizações indígenas, legítimas representantes do movimento indígena brasileiro, como se pode constatar em nota publicada no dia 12 de setembro. Tem-se a impressão que o FPCondisi está exercendo uma espécie de “controle social invertido”, ao invés de controlar as ações do governo, está tentando impedir as organizações indígenas e as entidades indigenistas de exercerem seu papel de informar os povos indígenas sobre os assuntos de seus interesses e externarem suas posições críticas frente às iniciativas governamentais.

    Por fim, o Cimi reitera seu posicionamento em defesa de um modelo de atenção à saúde indígena que respeite as propostas historicamente construídas pelo movimento indígena, propostas estas que são totalmente inconciliáveis com a realidade de terceirização hoje existente, feitas por intermédio de Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Osip) e Organizações Sociais (OS), frutos da política implantada pelo governo FHC e continuada pelos governos do presidente Lula e da presidente Dilma. Da mesma forma, são também inconciliáveis com a perspectiva privatista representada na proposta de criação do INSI, pelas razões acima expostas.

     

    Brasília, DF, 17 de setembro de 2014

    Conselho Indigenista Missionário – Cimi

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  • 15/09/2014

    Leilão da usina de São Luiz do Tapajós: o governo mentiu para os Munduruku

    Indígenas Munduruku exigem que o governo revogue a decisão de realização de leilão da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós em dezembro e que seja realizada a consulta prévia aos ameaçado de acordo com a Convenção 169 da OIT

    Carta do povo Munduruku ao governo federal

    Nós Munduruku estamos indignados com o governo. Nos dias 2 e 3 de setembro, guerreiros e guerreiras Munduruku e outras populações ameaçadas pelo projeto de construção de usinas no rio Tapajós, tiveram uma reunião com o governo federal, representado por pessoas da Advocacia Geral da União, Ministério do Planejamento, Secretaria Geral da Presidência da República, FUNAI, Ministério da Justiça e Ministério de Minas e Energia. A reunião foi convocada pelo governo para discutir a Consulta Prévia, Livre, Informada e Consentida prevista na Convenção 169 da OIT, depois que a Justiça Federal obrigou o governo a cumprir a Convenção.

    Os Munduruku explicaram ao governo que estavam preparando uma formação sobre a Convenção 169, porque o assunto é muito complexo, e que só depois disso vão decidir quando e como será feita a consulta. Este é o direito que temos, garantido pela Convenção 169, e o governo se comprometeu de fazer o dialogo com nós de acordo com OIT e respeitar a nossa decisão no  processo de dialogo.

    Na sexta feira dia 12 de setembro, ficamos sabendo que o governo publicou no Diário Oficial da União que fará o leilão da usina de São Luiz do Tapajós no dia 15 de dezembro deste ano.

    Ficamos muito bravos com o fato de a presidente Dilma, o Gilberto Carvalho, o Paulo Maldos, o Nilton Tubino, o Tiago Garcia, representantes de ministérios e outras autoridades dizer que iam respeitar o direito do povo Muduruku, e depois parece que este compromisso não vale nada. Agindo assim  o governo não esta cumprindo suas  palavras, não está agindo com boa fé e não está respeitando a Organização Internacional do Trabalho

    Sabemos que a consulta é previa e deve ser feita antes de qualquer decisão sobre a usina. Como o governo quer fazer o leilão em dezembro? O governo mentiu para os Munduruku? O governo está jogando no lixo a Convenção 169 da OIT? O governo não tem palavra, não tem honra? O que o governo tem a nos dizer?

    Mais uma vez o governo demostra que não quer fazer dialogo com nós. Exigimos que seja anunciado no Diário da União que o leilão não vai ser feito e que será realizada a consulta livre, prévia, informada e consentida com o povo Munduruku e todos os ribeirinhos e demais populações que estão ameaçadas pelo projeto das usinas no rio Tapajós, como prevê a Convenção 169. Exigimos que o governo cumpra o acordo que fez conosco, e que não se comporte como traidor, enganador e mentiroso em um assunto que diz respeito à sobrevivência e dignidade do nosso povo.

    Movimento Munduruku Ipereg Ayu, Jacareaganga, 13 de setembro de 2014

    Sawe!!!!!!

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  • 15/09/2014

    Carta pública da Apib aos candidatos e candidatas à Presidência da República

    A relação do Estado e da sociedade brasileira com os povos indígenas, mesmos com os novos paradigmas constitucionais que colocaram fim ao integracionismo, reconhecendo o caráter multiétnico e pluricultural do Brasil, em 1988, tem sido marcada por princípios e práticas colonialistas, autoritárias, racistas, preconceituosas e discriminatórias, subestimando a sociodiversidade e a contribuição dos mais de 300 povos indígenas, falantes de 274 línguas, e dos territórios indígenas ao país.

    Ao invés de efetivar os direitos indígenas assegurados pela Carta Magna (Artigos 231 e 232), sucessivos governos tem se dobrado aos interesses do capital, dos setores vinculados ao agronegócio, às mineradoras, às madeireiras, às empreiteiras e grandes empreendimentos que impactam as terras indígenas, e outros tantos empreendedores, que visam a apropriação e exploração descontrolada dos territórios e das riquezas neles existentes: os bens naturais, os recursos hídricos, a biodiversidade, o patrimônio genético e os conhecimentos e saberes milenares dos nossos povos. Em razão dessa perspectiva os nossos povos tem sido considerados entraves e empecilhos ao (neo) desenvolvimento, que governantes e donos do poder econômico querem implementar a qualquer custo. Ataques sistemáticos, de regressão e supressão dos direitos indígenas verificam-se nos distintos poderes do Estado e na sociedade, notadamente nos grandes meios de comunicação.

    A flexibilização ou mudança na legislação indigenista e ambiental está em curso por meio de Projetos de Lei (PL 1610, da mineração em terras indígenas, PL 7735/2014, do Patrimônio genético, entre outros), Emendas constitucionais (PEC 215, PEC 038 etc.), Portarias (Portaria 303, Portaria 419, Minuta de Portaria para mudar os procedimentos de demarcação das terras indígenas), Decretos (Decreto 7957). Ao mesmo tempo, lideranças e comunidades indígenas que lutam na defesa de seus direitos à terra são criminalizadas, vítimas de assassinatos, prisões arbitrarias e ameaças de morte.

    Diante dessa realidade, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, vem de público apresentar aos candidatos e candidatas à Presidência da República, as considerações abaixo, querendo saber se estes terão de fato compromisso para reverter o atual quadro de ameaças aos direitos dos povos indígenas assegurados pela Constituição Federal, pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), incorporada há 10 anos ao arcabouço jurídico do país e outros tratados internacionais assinados pelo Brasil, como a Declaração da ONU sobre os direitos dos povos indígenas. Ao mesmo tempo que assumem o compromisso político de colocar a questão indígena na centralidade das políticas do Estado, atendendo as seguintes reivindicações:

    Demarcação de todas as terras indígenas. Há um passivo de mais de 60% das terras indígenas não demarcadas, situação que gera conflitos desfavoráveis para os nossos povos. A demarcação implica em instalar grupos de trabalho, publicação de relatórios, portarias de identificação, portarias declaratórias, demarcação física, homologação e registro em cartório o na Secretaria de Patrimônio da União (SPU).

    Proteção, fiscalização e desintrusão das terras indígenas, assegurando condições de sustentabilidade aos nossos povos, na perspectiva da segurança e soberania alimentar, e considerando a especificidade étnica e cultural de cada povo e território indígena. Que a efetivação da Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial em Terras Indígenas – PNGATI, se torne realidade para todos os nossos povos e que seja garantido o reconhecimento da categoria profissional e remuneração justa dos Agentes Indígenas Ambientais e Agroflorestais Indígenas.

    Com relação ao tema da demarcação, são inúmeros os povos que estão em estado de vulnerabilidade, mas é preciso resolver com urgência o caso crítico dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, principalmente os Guarani Kaiowá, submetidos a um processo vil de etnocídio e extermínio a mando de fazendeiros e representantes do agronegócio, sob olhar o omisso e por vezes conivente dos governantes de turno. Para cumprir com a responsabilidade de demarcar e proteger as terras indígenas, é preciso que o governo fortaleça a Fundação Nacional do Índio – Funai, sucateada até o momento e objeto de ataques por parte dos inimigos dos povos indígenas.

    Inviabilização de todas as iniciativas anti-indígenas que buscam reverter ou suprimir os direitos constitucionais dos povos indígenas no Congresso Nacional (PECs, PLs), sob comando da bancada ruralista aliada a outros segmentos como o da mineração e o das igrejas fundamentalistas, que se apoiam mutuamente até para atacar a cultura e espiritualidade dos nossos povos.

    Impulsionar uma agenda positiva que alavanque a efetivação do texto constitucional, por meio da tramitação e aprovação da lei infraconstitucional – o Novo Estatuto dos Povos Indígenas – que deverá nortear todas as políticas e ações da política indigenista do Estado.

    Aprovação, ainda, do Projeto de Lei e efetivação do Conselho Nacional de Política Indigenista, instância deliberativa, normativa e articuladora de todas essas políticas e ações atualmente dispersas nos distintos órgãos de Governo.

    Aplicação da Convenção 169 em todos os assuntos de interesse dos povos indígenas, tanto no âmbito do Executivo como no Legislativo, assegurando o direito ao consentimento livre, prévio e informado, baseado nos princípios da boa fé e do caráter vinculante do tratado, para superar práticas autoritárias que tem minimizado este direito ao equiparar a consulta a reuniões informais, oitivas ou eventos de informação. Foi assim no caso do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte e assim quer se fazer com relação ao Complexo do Tapajós e outros tantos. É necessário restituir aos povos indígenas a sua autonomia e o exercício de seus mecanismos próprios de deliberação e que sejam respeitadas e fortalecidas as suas organizações e instâncias representativas, para o diálogo democrático, franco e sincero com o Estado.

    Implementação efetiva do Subsistema de Saúde Indígena para superar o atual quadro de caos e abandono em que estão as comunidades indígenas. Só em 2013, foram registradas as mortes de 920 crianças indígenas por doenças curáveis, situação que poderia ser evitada se houvesse de fato uma política de atendimento de qualidade. É fundamental para o desenho e implementação da política a participação plena e o controle social exercido rigorosamente pelos próprios povos e comunidades e suas instancias representativas, conforme estabelece a Convenção 169, a fim de evitar a reprodução de práticas de aliciamento, divisionismo, corrupção, apadrinhamentos políticos, precariedade ou ausência de atendimento humanizado. É igualmente muito importante que o subsistema garanta o respeito e valorização dos conhecimentos e saberes da medicina tradicional indígena (Pajés, parteiras, plantas medicinais) e o reconhecimento da categoria profissional e remuneração justa dos Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e Agentes Indígenas de Saneamento (AISAN).

    Garantia de acesso de todos os indígenas à educação de qualidade, específica e diferenciada, de forma continuada e permanente, nas aldeias, na terra indígena ou próxima da mesma, conforme a necessidade de cada povo, com condições apropriadas de infraestrutura, recursos humanos, equipamentos e materiais, respeitando o projeto político-pedagógico próprio, calendário e currículo diferenciado, conforme a tradição e cultura dos nossos povos e de acordo com a resolução 03 do Conselho Nacional de Educação (CNE).

    Que o MEC crie junto aos Estados escolas técnicas profissionalizantes, amplie o ensino médio e programas específicos de graduação para os povos indígenas, assegurando ainda o ensino científico integrado com os conhecimentos tradicionais para os estudantes indígenas, a realização de concurso público específico e diferenciado para os professores indígenas, a valorização, reconhecimento e remuneração justa da categoria de professores indígenas, o reconhecimento dos títulos dos estudantes indígenas formados no exterior, a participação dos povos e organizações indígenas na implementação dos territórios etnoeducacionais. Que seja garantido ainda a permanência dos estudantes indígenas nos cursos regulares de ensino superior, e que se avance do sistema de cotas, ainda limitado, a um programa realmente específico de acesso dos indígenas a esse ensino.

    Garantir no âmbito do Ministério da Cultura a participação de indígenas no Conselho Nacional de incentivo à cultura e a criação de uma instancia específica, com equipe técnica e orçamento próprio, para atender as demandas da diversidade e promoção das culturas indígenas.

    Compromisso com o fim da criminalização, o assassinato e a prisão arbitrária de lideranças indígenas que lutam pela defesa dos direitos territoriais de seus povos e comunidades. É preciso influenciar o poder judiciário e orientar a polícia federal para que respeitem as nossas lideranças enquanto lutadores por seus direitos e não os trate como quaisquer criminosos, agilizando, em contrário a punição dos mandantes e executores de crimes cometidos contra os povos e comunidades indígenas.

    Disponibilização, por parte do Ministério do Planejamento e Gestão Orçamentária dos recursos públicos necessários para a implementação efetiva destas políticas e ações voltadas aos nossos povos e comunidades, de tal forma que os planos e metas estabelecidas sejam alcançadas.

    O compromisso dos governantes com a implementação desta agenda constituirá um marco de superação de todas as mazelas e atrocidades cometidas até hoje, depois de 514 anos da invasão europeia, contra os nossos povos, tornando realidade o paradigma constitucional que colocou fim ao indigenismo integracionista, etnocêntrico, autoritário, paternalista, tutelar e assistencialista, para restituir a autonomia aos nossos povos, a condição de sujeitos políticos e de povos étnica e culturalmente diferenciados, em prol do fim do Estado colonial e de uma sociedade realmente democrática, justa e plural.

    Reafirmamos finalmente a nossa determinação de fortalecer as nossas alianças, solidariedade e lutas conjuntas com outros segmentos e movimentos do campo cujos territórios também estão sendo visados pelos donos do capital:  quilombolas, pescadores artesanais, camponeses e comunidades tradicionais.

    Brasília, 14 de setembro de 2014.

    Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB

     

  • 12/09/2014

    INSI é recusado por lideranças indígenas durante Assembleia do Cimi Sul

    Reunidos em Assembleia na cidade de Passo Fundo (RS) entre os dias 8 e 10 de setembro, missionários do Cimi e lideranças indígenas debateram criminalização dos povos indígenas e o caso das lideranças Kaingang da Terra Indígena Kandóia, condenadas publicamente pela Polícia Federal antes mesmo de conclusão do inquérito.

    A proposta de criação do Instituto de Saúde Indígena também foi analisada. “No entender do Cimi Sul o parecer do Ministério Público Federal acerca da proposta do Instituto Nacional de Saúde Indígena – INSI é esclarecedor, pois retoma o direito Constitucional dos povos indígenas a uma assistência amparada num modelo de atenção que esteja sob a responsabilidade do Estado Brasileiro, rompe com a possibilidade da privatização da política e denuncia que princípios basilares da democracia e do respeito aos povos indígenas estão sendo negados, especialmente no que tange as diretrizes da consulta prévia, livre e informada dos povos e da transparência”.

    Leia na íntegra:

     

    Documento Final da XXXVIII Assembléia Regional do Cimi Sul

    O Conselho Indigenista Missionário – Regional Sul realizou entre 08 e 10 de setembro de 2014 sua XXXVIII Assembleia Regional na cidade de Passo Fundo, Rio Grande do Sul. Participaram da assembleia, missionários e missionárias dos estados do RS, SC, PR e SP e lideranças indígenas das terras Kandóia/RS, Campo do Meio/RS, Toldo Chimbang/SC, Toldo Imbu/SC, Morro do Osso/RS, Canta Galo/RS

    Os missionários, missionárias e lideranças analisaram a realidade vivida pelos povos Guarani e Kaingang no sul do Brasil e frente a uma conjuntura de fortes desmontes e ataques aos direitos dos povos originários reafirmaram o compromisso e missão pela defesa da vida e dos direitos.

    O tema central do encontro, “A criminalização dos povos indígenas”, foi debatido a partir dos relatos e testemunhos das lideranças indígenas. Ficaram evidentes que os povos estão sendo vítimas das mais variadas práticas de violências, perseguições e racismo desencadeado tanto pela grande mídia, setores da sociedade e por entes dos poderes estatais. Os depoimentos das lideranças, em consonância com a análise dos missionários e missionárias, confirmam que o aumento drástico das violações aos direitos humanos cometidas contra os povos indígenas são conseqüências diretas da paralisação das demarcações de Terras Indígenas e das ações e tentativas de desmontes dos direitos constitucionais dos povos originários.

    A política indigenista no país deixa clara a opção do governo pelas políticas desenvolvimentistas, especialmente pelo agronegócio e pelos setores que historicamente se contrapõem aos direitos indígenas, latifundiários, empresas de mineração, empreiteiras entre outros. Ao mesmo tempo foram desencadeadas campanhas, especialmente através dos meios de comunicação, que promoveram a discriminação e as mais variadas formas de racismo, intolerância e criminalização das comunidades e lideranças que lutam pela demarcação de suas terras ancestrais.     

    Em relação ao caso mais agudo e grave desta criminalização, o Cimi Sul denuncia que Lideranças da Terra Indígena Kandóia estão sendo condenadas publicamente pelo órgão de investigação, a Polícia Federal. O delegado Mário Vinicius Soares de Moraes se manifestou, através dos meios de comunicação, apontando, sem indiciamento, sem denúncia e sem manifestação do Poder Judiciário, que mais de 20 indígenas serão responsabilizados e condenados por crimes de assassinato.

    O Cimi Sul alerta para a gravidade das manifestações públicas dos agentes policiais de investigação, pois não cabe a eles condenar, e muito menos se manifestar, através da imprensa, sobre um processo de investigação que se encontra em segredo de justiça, pois tem sido negado aos advogados dos acusados a possibilidade de terem acesso ao inquérito.

    O Cimi Sul repudia tal prática, pois a atribuição de julgamento é do Poder Judiciário e não se pode admitir que agentes policiais se dirijam à imprensa para submeter pessoas a  uma condenação social, antes mesmo do início do processo judicial. No entender do Cimi Sul esta postura é inconseqüente, pois incita a população contra os indígenas Kaingang e os condenam sem julgamento.

    Nós missionários, missionárias e as lideranças indígenas, analisamos também a proposta que vem sendo apresentada pelo Ministério da Saúde de criação de um Instituto de Saúde Indígena – INSI, que visa alterar o modelo de atenção à saúde indígena em vigor e estruturado num subsistema específico e diferenciado com responsabilidade do Estado por um ente paraestatal e que pretende impor a política de terceirização e privatização da assistência.

    No entender do Cimi Sul o parecer do Ministério Público Federal acerca da proposta do Instituto Nacional de Saúde Indígena – INSI é esclarecedor, pois retoma o direito Constitucional dos povos indígenas a uma assistência amparada num modelo de atenção que esteja sob a responsabilidade do Estado Brasileiro, rompe com a possibilidade da privatização da política e denuncia que princípios basilares da democracia e do respeito aos povos indígenas estão sendo negados, especialmente no que tange as diretrizes da consulta prévia, livre e informada dos povos e da transparência.

    O Conselho Indigenista Missionário, frente a esta conjuntura, reafirma seu apoio incondicional pela defesa dos direitos indígenas.

    CIMI SUL

    PASSO FUNDO, 11 DE SETEMBRO DE 2014.

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  • 12/09/2014

    Rio Juruena leva Balduíno Loebens para os braços do pai

    "Foi localizado, no início da noite do último dia 08, o corpo do padre. Balduíno, no rio Juruena, próximo a Castanheira, vários quilômetros abaixo do local onde foi encontrado seu barco e um chinelo. Balduíno estava desaparecido desde o dia 7. Uma equipe de bombeiros, índios e voluntários estavam realizando as buscas desde ontem", em notícia da Rádio Nazaré de Juína (MT).

     Grande tristeza a perda desse companheiro! Durante tantos e tantos anos, subindo e descendo o Juruena, e agora se afoga naquelas águas. Rio Juruena amigo e companheiro de tantas andanças o acolheu, o envolveu em suas águas e o entregou ao Deus da VIDA.

    Balduíno morava em Fontanillas, cidade próxima às aldeias do povo Erikbaktsa, onde por mais de 50 anos trabalhou e se comprometeu com a luta desse povo na defesa de sua terra e de sua cultura. Balduíno falava correntemente a língua rikbaktsa!

    Devido ao festival de pesca, que acontecia em Fontanillas ele resolveu passar a semana nas aldeias e… parece que coincidentemente visitou todas as aldeias mais próximas, como que se despedindo.

    No último dia 7 não apareceu em uma das aldeias, onde tinha combinado de ir almoçar. Preocupados, os índios saíram à sua procura e… encontraram o barco intacto, com tudo dele dentro e… Balduíno desaparecido.

    Logo bombeiros e policiais e os indígenas saíram a sua procura. No dia seguinte encontraram um pé de chinelo e só no sábado, à noitinha, quatro rikbaktsa encontraram seu corpo boiando…

    O corpo foi levado para Juína e logo o caixão foi colocado na catedral. A multidão do povo que o conhecia muito ali foi chegando, e os rikbaktsa em grande número fizeram um ritual muito significativo. Emoção e homenagens a essa vida entregue pela causa dos povos indígenas.

    Sobre o caixão estavam os pertences encontrados no barco: a rede, o remo, o chapéu de palha, uma camisa. Também o material de celebração da missa: o cálice e o folheto da liturgia.  E, muito sugestivo, o pé da sandália azul encontrado no rio. Símbolo de suas andanças, de sua inculturação, de sua missão “pé no chão”, de sua simplicidade e despojamento.

    Irmã Lourdes Christ falou em nome do CIMI e fez um retrospecto muito bom e sugestivo da vida dele, do tempo da luta pela terra, da repressão que sofreu, da presença e respeito à cultura dos povos e desses últimos anos empenhado na cura através de ervas medicinais. 

    Hora de mistério, mas de certeza de que esse testemunho de vida coerente e de extrema simplicidade e serviço torna-se semente de novos compromissos evangélicos. 

    João Inácio Wenzel assim escreve sobre a vida e a missão de Balduíno:

    Balduíno Loebens, lutador incansável pela vida dos povos das florestas. Sua partida súbita traz à memória seu testemunho de inúmeras passagens:

    1- Da cultura sulista aos costumes indígenas das florestas amazônicas;

    2- Do modo colonialista de evangelizar ao modo de presença libertadora junto ao povo Rikbaktsa;

    3- Da evangelização sacramentalista à evangelização inculturada, de valorização e afirmação dos valores;

    4- Da perseguição aos pajés à promoção de seus encontros para fortalecer suas práticas tradicionais como fonte de equilíbrio e saúde da comunidade indígena;

    5- Dos métodos de saúde tradicional de tratar as suas mais de 60 malárias e da saúde da comunidade, aos métodos naturais, homeopáticos e fitoterápicos de cuidado da saúde;

    6- Das grandes estruturas para a presença testemunhal e focal”.

    O rio Juruena foi uma das suas grandes companhias. Conhecia sua força e fraqueza, suas armadilhas e seus segredos. Um dia, em tempos de ditadura e forte repressão, o arrancaram do barco para um grande interrogatório de intimidação. Hoje, em tempos aparentemente mais tranquilos, o rio o acolheu em seus braços para a sua passagem derradeira.

    Feliz Páscoa, Balduíno!

     

  • 12/09/2014

    Páscoa nas águas do rio Juruena

    É com pesar que a família cimiana comunica a perda de um de seus mais antigos membros, Pe. Balduíno Loebens, jesuíta que por mais de 40 anos se dedicou aos povos indígenas do noroeste de Mato Grosso, em especial ao Povo Rikbaktsa.

    Presença querida entre os Rikbatsa, inculturou a presença da Igreja entre os povos indígenas atuando de forma exemplar na defesa e cuidado com a saúde a partir da medicina alternativa, valorizando os conhecimentos do próprio povo. A evangelização inculturada efetivada por Pe. Balduíno sempre buscou a valorização e afirmação dos valores da cultura indígena. Incentivou e atuou no fortalecimento dos pajés, tendo articulado e promovido com os Rikbaktsa diversos encontros buscando reafirmar e fortalecer as práticas tradicionais de medicina e cura. Com o conhecimento acumulado durante anos de pesquisa e atendimento aos indígenas desenvolveu métodos naturais a partir da fitoterapia e homeopatia, conhecimento que o levou a atender também a não indígenas na região.

    No processo de demarcação das terras indígenas na região chegou a ser retirado de um ônibus no qual viajava e foi covardemente agredido, o que não o demoveu de sua convicção de defender os direitos dos indígenas.

    Pe. Balduíno conhecia muito bem as águas do rio Juruena. Pilotando muitas vezes sozinho sua voadeira realizou inúmeras viagens para visitas aos indígenas Rikbaktsa ao longo deste rio. Conhecia cada curva, cada cachoeira e pedreira deste rio que agora o acolheu e realizou sua passagem para a vida eterna.

    Com toda a família Cimi, com os padres Jesuítas, com os Rikbaktsa e todos os povos indígenas da região noroeste de Mato Grosso queremos agradecer a Deus pelo dom da vida de Pe. Balduíno.

    Neste momento em que alguns querem enterrar a ‘saúde indígena’, que seu exemplo de dedicação e crença nos conhecimentos tradicionais dos povos ilumine nossa prática. 

    Secretariado Nacional do Cimi

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  • 12/09/2014

    Cimi NE lamenta a morte, em Alagoas, de cinco indígenas vítimas de acidente automobilístico

    “O trem que chega é o mesmo da partida…”

    Consternada e em luto, a equipe do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste, em nome de toda a organização, presta solidariedade às famílias e aos povos dos cinco indígenas que morreram em fatal acidente automobilístico ocorrido nesta quinta-feira, 11, na BR 101, altura do município de Rio Largo, região metropolitana de Maceió, Alagoas.

    Os indígenas se dirigiam à sede da Funai, em Maceió. Welton Mendonça de Farias Kariri Xocó, coordenador regional da Funai, cacique Plaki-ô e Antônio José Filho, filho do cacique, ambos do povo Karapotó, Rosivan dos Santos, José Wilton Tavares Vieira Silva e Dionari Luiz Feitosa, sendo estes três últimos também do povo Kariri Xocó, foram as vítimas desta tragédia.

    Na ocasião do acidente, as lideranças desempenhavam seu trabalho em prol da vida dos povos indígenas de Alagoas. Encontraram a morte, mas deixando na memória dos que ficam e custam a entender as arguras da travessia ao universo insondável da morte, agora iniciada pelos cinco, um realejo de alento para a luta dos originários desta terra.

    Certo de que agora serão validos pelo Toré incandescente dos Encantos de Luz e abraçados pela misericórdia de Padre Cícero, o Cimi se põe em oração aos que ficam com a dor da perda e segue impassível na luta junto aos povos indígenas pelos tempos do Bem Viver, com terra e pão, objetivo da luta dos cinco indígenas que nos deixam para povoar a vida eterna.      

      

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