• 27/05/2015

    Em Manaus, entidades promovem semana dos povos da Amazônia

     Na próxima segunda-feira (1º) moradores da comunidade Parque das Nações, na Zona Oeste de Manaus, onde moram cerca de 300 famílias indígenas, receberão representantes de várias entidades para discutir as causas e desafios para os povos deslocados para as cidades na Amazônia. O debate acontece das nove às 16 horas e abre a Semana dos Povos da Amazônia, evento promovido pela Articulação pela Convivência com a Amazônia (Arca).

    O evento tem por finalidade facilitar a articulação entre setores sociais, povos indígenas, comunidades tradicionais e organismos pastorais, por ocasião das comemorações do 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. Visa ainda aprofundar o debate sobre temas de interesse comum, para fortalecer o projeto do Bem Viver, inspirado na experiência histórica dos povos da Amazônia que trata de um caminho alternativo à perspectiva desenvolvimentista, saqueadora e predatória em curso no país.

    A Semana dos Povos da Amazônia acontecerá de 1 a 4 de junho com a realização de vários eventos e encerrará com a divulgação de um documento final onde os representantes das entidades e movimentos sociais apresentarão os resultados dos debates.

    Na quarta-feira (3), das 8h30 às 12h30 será realizado o seminário com o tema “Modelo energético e o Bem Viver dos povos da Amazônia”. Entre os debatedores estarão o procurador federal Fernando Merloto Soave, do Ministério Público Federal no Amazonas, o professor Célio Bermann, do Instituto de Energia e Ambiente da USP, Neuzete Paulo Afonso, moradora de área afetada pela barragem de Santo Antônio (RO) e uma liderança indígena. O seminário terá como moderador o sociólogo Ivo Poletto, assessor do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social. O evento, que conta com o apoio do Centro de Ciências do Ambiente (CCA/Ufam, acontecerá no auditório Sumaúma, na Faculdade de Ciências Agrárias no Mini Campus da Ufam

    Confira a programação da Semana dos Povos da Amazônia:

    Dia 1º

    Horário: 9h às 16h

    Debate: Os povos deslocados para as cidades na Amazônia, causas e desafios.

    Local: Parque das Nações Indígenas – Tarumã, Manaus.

     

    Dia 2/6

    Manhã e tarde

    Horário: 8h30 às 17h

    Encontro da Arca – Socialização e estratégias de articulação

    Local: Cefam – Av. Joaquim Nabuco, 1023 – Centro


    Dia 3/6

    Manhã

    Horário: 8h30 às 12h30

    Seminário: Modelo energético e o Bem Viver dos povos da Amazônia.

    Mesa: Dr. Fernando Merloto Soave – MPF/AM; Prof. Célio Bermann – professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP; Neuzete Paulo Afonso – moradora de área afetada pela barragem de Santo Antônio (RO); Liderança indígena; Moderador: Ivo Poletto – Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social

    Local: Auditório Sumaúma – Mini Campus/Ufam(Faculdade de Ciências Agrárias)


    Dia 4/6

    Divulgação de documento da Arca.

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  • 26/05/2015

    Nota Pública do Povo Apinajé sobre apreensão de trator em área reivindicada

    Nós caciques e lideranças do povo Apinajé reunidos e mobilizados na aldeia Patizal, nos dia 24, 25 e 26 de maio de 2015 para tratar da questão dos desmatamentos do entorno da terra Apinajé, vimos a publico por meio de esta nota esclarecer, para sociedade, órgãos públicos e imprensa os motivos e razões que nos levaram a fazer apreensão de um trator e uma moto serra que estavam sendo utilizados para realizar serviços de limpeza e preparação de terreno em área desmatada na fazenda Dona Maria no município de Tocantinópolis (TO), (possivelmente para o plantio de eucaliptos e/ou soja). O fato ocorreu na manhã do dia 25/05/2015.

    Portanto antes de qualquer especulação é necessário o conhecimento e análise mais aprofundada dos fatos a partir de uma conjuntura política, social e ambiental mais ampla e detalhada dessa questão que envolve a demarcação de nossa terra tradicional.

    a) A citada área desmatada é parte de nosso território tradicional e está sendo reivindicado por nosso povo desde 1985;

    b) No momento existe um processo tramitando na Funai/BSB que trata da revisão e reconhecimento desta área que ficou de fora da demarcação de 85;

    c) A comunidade Apinajé não foi ouvida, consultada e nem considerada no processo de licenciamento desse empreendimento potencialmente destruidor da biodiversidade do cerrado e impactante para nossa comunidade;

    d) O empreendimento está destruindo locais sagrados, provocando a fuga de animais e ameaçando as nascentes dos Ribeirões Cruz, Estiva e Betania, os dois últimos dentro da área já demarcada;

    e) A Funai/BSB e o IBAMA não foram notificados e nem participaram do processo de licenciamento conduzido pelo NATURATINS;

    f) A Constituição Federal do Brasil não está sendo observada e nem cumprida pelos órgãos ambientais e licenciadores do Estado do Tocantins.

    Ressaltamos que as terras indígenas são para usufruto das comunidades indígenas e propriedade da União, portanto cabe o Estado brasileiro demarcar, proteger e fazer respeitar todos seus bens. Entretanto, nesse momento não existe Fiscalização e Proteção de nosso Território que é responsabilidade da Funai.

    Diante dos fatos expostos acima solicitamos da Funai/BSB, MPF-AGA, IBAMA e NATURATINS:

    a) O imediato embargo e paralisação de qualquer atividade de desmatamento e carvoaria em andamento no entorno de nosso território já demarcado;

    b) A Funai/BSB através de sua Procuradoria (jurídica) passe a atuar de forma mais firme e permanente nessa questão do desmatamento do entorno da T.I. Apinajé, especialmente no caso da fazenda Dona Maria;

    c) Que a Funai retome imediatamente o processo de revisão de limites da área Gameleira;

    d) Que a Funai/CRAT de Palmas-TO acelerem imediatamente os procedimentos visando efetivar a Fiscalização e Monitoramento da Terra Apinajé e seu entorno com a com finalidade coibir atividades ilícitas praticadas por indivíduos não-indios e empresas.

    Informamos que os equipamentos (trator, moto serra, ferramentas e combustível) apreendidos encontram se guardados na aldeia Patizal. E que os mesmo não estão sendo depredados, usados ou arruinados e que serão entregues ao proprietário logo que seja realizada reunião com os órgãos públicos mencionados acima para resolver essa questão.

    Terra Indígena Apinajé, 26 de maio de 2015

    Associação União das Aldeias Apinajé-PEMPXÀ

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  • 26/05/2015

    Manifesto contra PEC 215 recebe assinatura de 42 senadores

    Na tarde desta terça-feira (26), no Senado, um grupo de parlamentares e lideranças indígenas divulgou um manifesto, assinado por 42 senadores, contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/2000. A adesão de mais da metade dos integrantes do Senado ao documento indica que, se a proposta chegar ao plenário da casa, há grande chance de ser derrubada.

    O manifesto foi assinado por integrantes de forças políticas de todo o espectro político. Constam na lista nomes como o do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o presidente do PSDB e ex-candidato à Presidência, Aécio Neves (MG), João Capiberibe (PSB-AP), Romero Jucá (PMDB-RR), Jáder Barbalho (PMDB-PA) e Walter Pinheiro (PT-BA).

    A PEC está hoje numa Comissão Especial na Câmara. Se for aprovada no colegiado, segue para o plenário, onde precisa ser aprovada por 2/3 dos 513 deputados, em dois turnos. Só depois de aprovada no plenário da Câmara, passaria ao plenário do Senado, onde, para ser aprovada, precisa de 2/3 dos votos dos 81 senadores, em dois turnos de votação. Se não alcançar esse número de votos, o projeto deverá ser arquivado.

    “É isso que queremos: que o Senado possa declarar o seu apoio em defesa dos povos indígenas e da democracia. Temos mais abertura no Senado do que na Câmara dos Deputados. O Senado nunca deu tanta atenção à causa indígena como está fazendo agora. Se a PEC 215 for aprovada na Câmara, quando chegar ao Senado acreditamos que perderá força”, declarou Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

    “A PEC 215 é uma inversão de péssimo gosto e cria um mal estar entre os povos indígenas e quilombolas de todo o país. Ela vai acabar com todos os direitos conquistados dessas populações. Os senadores que assinaram esse abaixo-assinado se mostraram constrangidos e contrários à PEC 215. A nossa expectativa é que a Câmara dos Deputados paralise a tramitação dessa PEC, que é recusada pela maioria dos senadores”, afirmou o senador Capiberibe, que articulou o manifesto.

    PEC 215

    Uma das principais bandeiras da bancada ruralista, a PEC transfere do governo federal para o Congresso a atribuição de oficializar Terras Indígenas, Territórios Quilombolas e Unidades de Conservação (parques, reservas, estações ecológicas). Se aprovada, na prática a PEC deverá paralisar de vez o processo de oficialização dessas áreas protegidas, além de abri-las ao agronegócio, à exploração hidrelétrica e minerária, entre outras atividades econômicas. O projeto também permitiria revisar os processos de regularização dessas áreas. A PEC é considerada grave ameaça aos povos indígenas, comunidades tradicionais, às florestas nativas, aos recursos hídricos e ao equilíbrio climático.

    As áreas protegidas são criadas com base em estudos técnicos e científicos, elaborados por especialistas altamente capacitados para esse tipo de avaliação. No caso das Terras Indígenas, segundo juristas e especialistas, a demarcação é apenas um ato administrativo que ratifica o direito originário dos índios à terra, consagrado na Constituição. Não faria sentido, portanto, submeter a oficialização dessas áreas ao crivo político de maiorias temporárias no Congresso, muitas vezes influenciadas por financiadores de campanha com interesses privados.

    O manifesto foi divulgado numa pequena coletiva na tarde desta terça (26) e tem o apoio de movimentos sociais e organizações da sociedade civil, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o Instituto Socioambiental (ISA), entre outros.

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  • 26/05/2015

    Um mês após assassinato de indígena no MA, madeireiros não foram intimados e voltam a invadir território Ka’apor

    “O pessoal tá insistindo que tem a ver com madeira e eu insisto que não tem”, declarou o delegado da Polícia Federal Fabrízio Garbi sobre o assassinato da liderança Eusébio Ka’apor, no Maranhão. Após 30 dias da emboscada que vitimou o indígena de 46 anos com um tiro nas costas, a Polícia Federal não abriu inquérito pra investigar o assassinato e as crescentes ameaças contra outras lideranças indígenas, responsáveis pela proibição da atividade madeireira dentro da Terra Indígena (TI) Alto Turiaçu.

    “A PF, mesmo sem ter acesso aos autos, quer confirmar o latrocínio. Isso é um absurdo, todos os documentos e depoimentos são unânimes em afirmar a relação do crime com a exploração madeireira. Acredito que há um esforço para deslegitimar a luta dos Ka’apor contra os madeireiros”, diz Rosimeire Diniz, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no Maranhão.

    Uma das lideranças Ka’apor encarregadas do Conselho de Gestão do povo – instância administrativa organizada pelos indígenas que monitora a educação, saúde e proteção territorial – relata que as intimidações e ameaças de morte são constantes e que madeireiros voltaram a desmatar a TI. “Estão invadindo tudo de novo, tão tirando madeira de duas áreas já, lucrando com nossa floresta. Eles viram que a gente tá fraco por causa da morte do Eusébio, com medo de morrer também”.

    O Ministério Público Federal (MPF) no estado havia requisitado a instauração do inquérito e realização de diligências à Polícia Federal no dia 4 de maio, “por entender, a princípio, que se trata de um evento a ser averiguado na esfera federal, ante o histórico de conflitos locais e a possível relação com disputas atinentes aos direitos indígenas”, disse o procurador Galtienio da Cruz Paulino, que realizou oitivas com cinco indígenas nas últimas duas semanas, mas ainda não intimou nenhum dos madeireiros citados nos depoimentos.

    O inquérito tramitou inicialmente na Polícia Civil do município de Zé Doca, mas foi transferido para a capital São Luís depois que os indígenas reiteraram as denúncias sobre corrupção de algumas autoridades locais à Secretaria de Segurança Pública do Maranhão.

    A Fundação Nacional do Índio (Funai), questionada sobre as providências, declarou que enviou após o assassinato o coordenador Regional do órgão no estado  “para realizar o diálogo com a comunidade indígena, colher informações e explicar os procedimentos investigatórios de competência dos órgãos de segurança pública”. Disse ainda que acionou o Departamento de Polícia Federal no Maranhão.

    O delegado Fabrízio Garbi, que atua no combate ao crime organizado na PF, afirmou que nos ofícios recebidos da Funai, onde consta o depoimento de um funcionário do órgão ao delegado José Henrique, da Polícia Civil no município de Zé Doca, “não se constatou nada que tem relação com a comunidade ou com a exploração madeireira. Trata-se de uma tentativa de roubo. O funcionário tomou declarações da testemunha do assassinato no dia 27 e foi ouvido no dia 28 na Policia Civil”.

    “A Funai mandou esse funcionário, que não tem nenhum vínculo com os Ka’apor, lotado em Santa Inês, pra fazer um novo Boletim de Ocorrência colocando a versão do latrocínio. O B.O. já tinha sido feito no dia anterior [27/4] pelo enfermeiro da Sesai, e não falava nada disso”, explica um representante do Conselho de Gestão Ka’apor. A reportagem teve acesso aos dois Boletins, ambos registrados na Delegacia Regional de Zé Doca. O primeiro, assinado por um técnico de saúde da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) no dia 27/4 às 12h15, relata que “dois indivíduos numa motocicleta, aguardavam a vitima passar, então ao avistarem a vítima, o alvejaram com um tiro”. No B.O. registrado pelo funcionário da Funai dois dias após o crime (28/4, às 16h28), surge a versão do latrocínio, com a afirmação de que os dois indivíduos “ao avistarem a vítima anunciaram o assalto”.

    Os indígenas acreditam que há uma confluência entre Funai, Polícia Federal e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), para afastar qualquer ligação do crime com a exploração madeireira dentro da Terra Indígena Alto Turiaçu, e que isto se daria devido ao processo que condenou esses órgãos, em janeiro de 2014, à implantação de postos de fiscalização nas TIs Alto Turiaçu, Awá Guajá e Caru. “Como já sofreram essa condenação da Justiça Federal e não cumpriram, é melhor desfocarem o crime dos madeireiros, porque isso afasta a responsabilidade desses órgãos e evita uma nova condenação”, disse o representante do Conselho de Gestão, que pediu para não ser identificado devido às ameaças de morte que vem recebendo.

    Em resposta aos questionamentos da reportagem, a Funai declarou que a denúncia encaminhada pelo órgão à Polícia Federal "explicitou o histórico de conflitos entre indígenas e madeireiros na região, a fim de subsidiar a investigação da possível relação entre o contexto local e o crime ocorrido" e afirmou que "a indicação das características [de latrocínio] por parte de representante da Funai, não isenta os órgãos de segurança pública de analisar o caso e enquadrá-lo à luz da legislação vigente, visto que não compete à Funai tipificar o crime, mas repassar aos órgãos de segurança os elementos e provas para as investigações e inquéritos policiais".

    Para os Ka’apor as evidências são claras: “Se queriam roubar, por que só mataram o Eusébio e não levaram a moto?”, questiona um dos indígenas. “Eles estavam de tocaia esperando a pessoa certa pra matar, porque naquele dia pararam outras três pessoas mais cedo, que também passavam de moto, mas deixaram ir embora”, completa. José Henrique, o delegado da Polícia Civil à frente do inquérito no início das investigações, disse à reportagem, no dia 12 de maio, que depois de ouvir a testemunha do crime e outros indígenas, estava trabalhando com a hipótese de “relação com os madeireiros, conflito que se intensificou há um ano e meio, desde que os indígenas começaram a proteger o território mais ativamente. Sabemos dos ataques aos indígenas, mas a competência dessa investigação é da Polícia Federal, que ainda não veio à região”, explicou.

    Comunidade ameaçada

    Cinco indígenas já foram ouvidos pelo MPF e ao menos três pela Polícia Civil. Todos narram ameaças sofridas em decorrência da proibição da exploração madeireira dentro da TI Alto Turiaçu. Há dois anos os Ka’apor têm fortalecido o processo de autofiscalização e vigilância territorial da TI. Ao menos oito aldeias foram criadas em pontos estratégicos, para evitar a volta dos invasores, e em março deste ano os indígenas conseguiram, por conta própria, o fechamento de todos os ramais utilizados pelos madeireiros.

    No entanto, após a morte de Eusébio, dois ramais foram abertos e duas das oito aldeias de proteção tiveram que ser abandonadas pelos indígenas. “Disseram que se a gente não saísse eles iam chegar atirando e queimando nossas coisas”, conta a liderança de uma dessas  aldeias, localizada nas proximidades do  município de Centro do Guilherme. “Madeireiros estão entrando direto, principalmente em Santa Luzia [do Paruá], Nova Olinda [do Maranhão]… Mataram Eusébio pra gente ficar com medo e desistir de proteger a floresta. A gente fecha um ramal e eles abrem outro… as outras aldeias continuam lá, mas seria preciso muito mais, só que o governo federal não dá estrutura pra gente”, explica um dos indígenas responsáveis pelas operações de fiscalização.

    Em depoimento ao MPF, um dos filhos de Eusébio disse que foi cercado pelo madeireiro M. logo após a morte do pai, quando chegava ao município de Santa Luzia do Paruá. De acordo com seu relato, um  homem mandou que parasse o carro, no qual transportava o corpo de Eusébio de volta pra aldeia, e disse que “quem era pra morrer era o A. e o C. [outros indígenas]”. Ele conta ao MPF que naquele momento poucas pessoas sabiam do assassinato.

    Os Ka’apor estranham o fato de nenhum dos madeireiros citados nos depoimentos terem sido intimados a depor. No dia 3 de maio, acompanhados de um jornalista da Repórter Brasil que produziu reportagem sobre o assassinato, dois indígenas estavam em um restaurante no município de Santa Luzia do Paruá quando o madeireiro M. questionou um deles sobre quem era motorista do carro em que estavam, e tirou fotografias do veículo. Outro madeireiro teria feito o mesmo minutos depois, e chegou a dizer “Avisa pro A. [outro indígena] que da próxima vez ele que vai morrer”. O relato consta no depoimento de uma das lideranças indígenas ao MPF. No documento, o Ka’apor cita outros dois madeireiros, que ameaçaram um terceiro indígena no município de Araguanã, “alertando-o” sobre a contratação de pessoas para matarem lideranças que proíbem a extração de madeira na Terra Indígena.

    “Sempre sofremos violência aqui, porque proibimos que eles lucrassem com a exploração do nosso território. Agora eles estão mais fortes que nunca, armados até os dentes”, relata uma liderança Ka’apor, que ressalta o recrudescimento das ameaças contra os membros do Conselho de Gestão. “De sexta-feira (22) pra cá recebemos recados de emboscadas e tocaias nas entradas das aldeias; um Ka’apor foi perseguido de carro; no sábado, flagramos caminhões carregados com madeira transitando livremente pela BR-316 – em plena luz do dia, o que não víamos há pelo menos dois meses; além das serrarias, que estão funcionando normalmente em Santa Luzia do Paruá, Centro do Guilherme, Maranhãozinho e Governador Nunes Freire”, denuncia.

    O delegado Fabrízio Garbi disse que a Polícia Federal  “investiga continuamente” a extração ilegal de madeira naquela região, e que se for identificada qualquer relação entre o assassinato e o conflito com madeireiros, o inquérito deve ser entregue “no estado em que estiver” à PF, que assumiria as investigações. “Diante de tanta insistência de que o crime teria relação com os madeireiros, pedi uma cópia do inquérito à Polícia Civil. Se for constatada qualquer relação, já podemos começar a investigar”, disse após ser questionado sobre as ameças relatadas pelos indígenas.

    Depois da morte de Eusébio, os Ka’apor não receberam nenhum tipo de proteção do Estado. “Não tem como a gente se defender. Estamos com medo de que aconteça de novo, nossas famílias não querem que a gente saia na cidade. Tenho seis filhos, eles ficam preocupados ‘pai, o pessoal tá procurando você aí, dando recado’… Mas a gente não pode ficar parado, vamos continuar lutando”, diz uma liderança do Conselho de Gestão do povo.

    Fotos:
    1 – Comunidade reunida dias após o assassinato – Ruy Sposati
    2 – Eusébio durante protesto contra exploração madeireira – Arquivo Cimi
    3 – Ka’apor temem outra tragédia, mas dizem que continuarão lutando – Ruy Sposati
    4 – Indígenas flagraram caminhão transportando madeira no sábado (23) na rodovia BR-316

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  • 26/05/2015

    Indígenas do Rio Grande do Sul fecham via em Brasília e garantem audiência com ministro

    Após dois meses tentando marcar uma audiência com os ministros Miguel Rosseto, chefe da secretaria geral da Presidência da República; Patrus Ananias, do Desenvolvimento Agrário; e José Eduardo Cardozo, da Justiça, o grupo de lideranças Kaingang, do Rio Grande do Sul, que chegou esta semana em Brasília, fechou as vias de acesso ao eixo monumental, na altura do Palácio do Planalto. “Ficaremos aqui até marcarem o dia e hora que nos receberão”, afirmou Luiz Salvador, cacique Kaingang.

    Os indígenas formaram um cordão humano fechando as vias e segurando faixas exigiam que a presidente Dilma Rousseff retome as demarcações das terras indígenas. A segurança do Palácio tentou negociar para que eles liberassem o trânsito e aguardassem enquanto se tentava marcar a audiência, argumentando que aquela ação atrapalhava apenas a população. Em resposta, o cacique contestou:

    “Você diz que os índios que estão atrapalhando? Isso é discriminação contra a minha pessoa. A gente não disse que vocês estavam atrapalhando quando chegaram aqui há 500 anos. Vocês tem que atender as nossas demandas, o governo brasileiro deve isso para a população indígena. Quantos mil indígenas o governo brasileiro não matou para tomar as terras? Vocês venderam politicamente as terras do Brasil, não fomos nós que vendemos. A terra é nossa, é isso que vocês têm que entender”.

    Enquanto um grupo de assessores ainda tentava negociar um espaço na agenda do ministro Rosseto, a tentativa para liberação das vias continuou. Insistiam para que os indígenas aguardassem fora das pistas com a justificativa de que estavam tentando conseguir um espaço na agenda do ministro. Luiz Salvador, então, continuou: “Resolve o problema, não precisa nos enrolar, enrolado nós já estamos. Vocês tomaram todo o país para manter esses latifundiários. Vocês não estão atacando na Amazônia Legal, os grandes madeireiros estão tomando conta daquelas terras. A água boa que você toma é por causa dos povos indígenas. Olha a usina que estão construindo, hoje o povo de São Paulo sofre com isso e são os índios que estão fazendo maldade? Atendam as nossas demandas”.

    Como resultado desta manifestação, que parece ser a única via possível para conseguir serem ouvidos, a audiência com o ministro Rosseto ficou agendada para hoje (26), às 15 horas, no próprio Palácio do Planalto. Os ministros Patrus Ananias e Eduardo Cardozo foram convidados, porém não garantiram a presença. O grupo de Kaingang liberou as pistas assim que obteve a confirmação.

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  • 25/05/2015

    Povo Kaingang chega em Brasília para cobrar direitos dos povos indígenas

    Uma delegação de 43 indígenas do povo Kaingang, do Rio Grande do Sul, está em Brasília esta semana (25/5) para uma série de agendas com Executivo, Legislativo e Judiciário. A PEC 215, as últimas decisões da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) e a paralisação das demarcações das Terras Indígenas estão entre as principais reivindicações do grupo.

    Durante a manhã de hoje (25) o grupo se reuniu para debater a atual conjuntura política da situação indígena no Brasil e definir a agenda de compromissos junto aos poderes políticos e instituições. A delegação recebeu uma carta dos povos do Mato Grosso do Sul (MS) que estiveram na capital na semana passada, cumprindo uma agenda de reuniões para tratar dos mesmos assuntos em âmbito nacional.

    A carta apresenta o resultado da visita dos povos do MS e oferece apoio ao povo Kaingang em sua luta, articulando as comunidades dos dois estados em ações que se mostrem necessárias na luta pela garantia dos direitos indígenas. Na carta também consta o posicionamento do ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, em reunião com o grupo, e a carta de repúdio a essa postura que os povos do MS protocolaram no ministério da Justiça (MJ), Presidência da República, Casa Civil e Secretaria Geral da Presidência. (Veja a carta aqui)

    Outro ponto bastante enfatizado na reunião foi a situação da Fundação Nacional do Índio (Funai), que há cerca de dois anos conta apenas com um presidente interino, demonstrando o descaso do Executivo com o órgão. Os indígenas exigem a efetivação do atual interino, Flávio Chiarelli, e não aceitam a indicação de um gestor político.

    Ainda durante a reunião, o secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto, falou sobre elementos da realidade vivida pelos povos indígenas no Brasil. “Uma conjuntura que ameaça de forma muito dura os direitos e a vida dos povos originários, inclusive dos Kaingang”, esclareceu.

    Sobre a PEC 215, ficou evidenciado entre as lideranças presentes, que ela é um instrumento do Legislativo, por meio do qual os grupos e setores anti-indígenas, ligados especialmente ao agronegócio, com representação de deputados federais do Rio Grande do Sul, atuam contra os direitos indígenas. Esses grupos não se limitam ao Legislativo, mas atuam também em outras instâncias de poder, inclusive junto ao Poder Judiciário.

    Audiências com representantes do Executivo, visita ao Congresso Nacional e ao STF estão presentes na agenda da delegação que pretende, além abordar aspecto da pauta nacional, apresentar e discutir demandas específicas de sua região.

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  • 22/05/2015

    Indígenas do MS fazem vigília contra recentes decisões do STF

    A delegação composta por 53 indígenas dos povos Terena, Guarani-Kaiowá, Guarani-Ñandeva e Kinikinau, do Mato Grosso do Sul (MS), realizou uma vigília na noite de ontem (21), em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), para protestar contra recentes decisões da 2ª Turma que anulam duas portarias declaratórias e um decreto de homologação de três terras indígenas. Compunham a delegação lideranças de duas dessas terras que tiveram seus processos revistos pelo STF: Guyraroká, do povo Guarani-Kaiwoá, e Limão Verde, do povo Terena. Com velas acesas, eles ficaram das 18h às 22h, realizando rituais, danças e rezas no local.

    Além das citadas, a Terra Indígena (TI) de Porquinhos, no Maranhão (MA), do povo Canela-Apãniekra também teve o seu processo demarcatório anulado. Outros processos similares ainda tramitam e aguardam uma decisão do STF. Os ministros Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Teori Zavascki, Celso de Mello e Dias Toffoli, que compõem a 2ª Turma, basearam a decisão na tese do marco temporal. Segundo esta interpretação, as terras não seriam indígenas porque os povos não estariam vivendo nelas em 5 de outubro de 1988, quando a Constituição Federal (CF) foi promulgada. No entanto, se eles tivessem sido expulsos de suas terras, o que configura o esbulho, os povos  teriam assegurado o direito a elas.

    Na decisão relativa à TI Limão Verde, o ministro Teori Zavascki, caracteriza o conceito jurídico de esbulho. Segundo ele, para configurar uma situação de esbulho, os indígenas, mesmo tendo sido expulsos, deveriam estar, na data da promulgação da CF, disputando a posse da terra via conflito de fato ou travando disputas judiciais.

    Essas três decisões são extremamente perigosas para os povos indígenas, primeiro, porque retiram direitos constitucionais garantidos dos povos que foram expulsos de suas terras antes dessa data e, segundo e bastante grave, abrem precedente para que inúmeras terras já demarcadas possam ter seus processos revistos,

    Essas decisões também mantêm uma cultura de exclusão dos povos indígenas, ignoram cinco séculos de violações e, principalmente, violências praticadas nos últimos 60 anos contra eles e, por outro lado, beneficiam justamente os setores que mais possuem interesse nessas terras e, por isso, vêm exterminando lideranças nas mais diversas comunidades. “É um ato desumano, querem o extermínio dos povos indígenas”, lamentou uma das lideranças Terena presentes em Brasília esta semana.

    Os processos ainda precisam passar pelo pleno do Supremo para serem validadas, porém, esse resultado já apresenta consequências negativas para os povos indígenas. Vários tribunais estão baseando suas decisões nessa nova postura do STF. Mesmo a decisão precisando passar ainda pelo pleno do STF, ela já está gerando jurisprudência em casos de processos que envolvem o uso da terra. Em Santa Catarina, por exemplo, o Tribunal Regional Federal da 4ª região, com base nessas decisões, anulou uma portaria declaratória do ministro da Justiça referente à Terra Indígena Araçaí, do povo Guarani.

    No caso da Terra Indígena Guyraroká, um dos seus moradores, o seu Tito Villalva, conta que participou de todo o processo demarcatório. Nascido em 1920 naquelas terras, ele cresceu, se criou e casou ali. De acordo com ele, Wilson Galvão foi o primeiro fazendeiro que comprou a terra, antes ali era tudo aldeia. Em 1998, seu Tito e mais 234 pessoas retomaram a região.

    Seu Tito acompanha de perto todo o processo de demarcação de Guyraroká, desde os primeiros estudos até hoje. Ele conta que muita gente da região foi entrevistada, garantindo que a comunidade indígena sempre viveu ali. O processo correu até a fase da publicação da Portaria Declaratória pelo Ministério da Justiça, ficou faltando a homologação e desintrusão. “Quando será demarcada nossa terra?”, é o que questiona seu Tito. Ninguém na comunidade sabe explicar porque a terra ainda não foi demarcada, já que estava tudo certo e garantido com o processo.

    Uma das lideranças do povo Terena, de Limão Verde, Odir Cardoso, explicou que a visita a Brasília é para defender as terras do Mato Grosso de Sul de uma forma geral. Porém, a vigília no STF é uma maneira de chamar a atenção para o que está acontecendo no Judiciário. “É surpreendente o que vem acontecendo na 2ª Turma com essas decisões. É um desrespeito o parecer em favor do fazendeiro em cima de uma terra já homologada”, desabafou.

    Odir considera que essas decisões são como declarar o genocídio não só do povo em Limão Verde, mas em todas as áreas demarcadas no Brasil. “Essas decisões abrem portas para que isso aconteça”, ressaltou. “Estão declarando guerra, terá derramamento de sangue. Com todas essas atitudes (as decisões do Supremo, a tentativa de emplacar a PEC 215, a paralisação das demarcações de terra pelo Executivo e o abandono da Fundação Nacional do Índio – Funai), caminhamos para a extinção do povo Terena e de todos os povos indígenas”, lamentou a liderança Terena.

    Os 53 indígenas optaram por protestar contra o STF por entenderem que essas decisões, hoje, configuram o maior risco para os povos indígenas do Brasil. De acordo com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, as portarias declaratórias não estão sendo assinadas “para a própria proteção dos índios”, uma vez que existe a possibilidade das partes envolvidas entrarem com recurso para derrubar a decisão do ministro. Devido a essa postura contraditória , as demarcações estão paradas, inclusive os 12 processos que estão em sua mesa e não têm nenhum impedimento administrativo ou judicial.

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  • 22/05/2015

    Indígenas Krenyê e Gamela denunciam descaso da Funai e Dsei no Maranhão

    Nessa segunda-feira (18), lideranças indígenas dos povos Gamela e Krenyê, além de agentes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), estiveram no Ministério Público Federal do Maranhão, requerendo adoção, em caráter de urgência, de medidas que garantam os direitos destes povos.

    De acordo com os indígenas, a Fundação Nacional do Índio (Funai), não vem cumprindo os acordos estabelecidos, a exemplo da decisão judicial expedida em 2013 pelo Juiz Federal José Carlos Madeira, que obriga a Funai a comprar uma terra para o povo Krenyê, construir um poço artesiano e fornecer cestas básicas. Posteriormente, o Juiz também impôs à Funai “Constituir um Grupo Técnico para destinação de meios necessários para assistência de alimentação, água potável, saúde e moradia ao grupo, para que possam aguardar com segurança a conclusão dos trabalhos de demarcação”. Até o momento, foi criado o GT, o relatório circunstanciado foi produzido, entregue à Funai em Brasília, mas não foi publicado. Poucas cestas foram entregues, estas quando chegam, duram em média 15 dias e depois o povo se vira como pode e, a situação do fornecimento de água não foi regularizada. Os indígenas têm que dar um jeito de comprar.

    Em audiência realizada na 5ª Vara de Seção Judiciária do Maranhão, em abril de 2014, a Funai alegou que era complicado  construir o poço por não ser competência dela e pelo fato da Chácara Krenyê não ser terra indígena. O Juiz deliberou que: “Fica reconhecida a Chácara Krenyê até a instalação da Reserva Indígena Krenyê, como área legalmente indígena de sorte a merecer integral proteção por parte da Funai e dos demais órgãos de proteção aos índios.” Mas, segundo os indígenas, o que tem acontecido, é que eles estão abandonados à própria sorte, vivendo em situações precárias, sem condições mínimas de sobrevivência. Denunciam ainda que o Coordenador Regional da Funai ,de nome Daniel Cunha, sequer os atende.“Ele nunca atende se a gente telefona, e se vamos pessoalmente pra conversar, nunca encontramos ele, ele já conhece os nossos números, para atender só se a gente ligar de um número diferente”. Diz revoltado o Krenyê Raimundo Nonato.

    Apesar disso, os órgãos competentes continuam descumprindo a decisão judicial e não atendem os Krenyê. Diante da inércia da Funai, o próprio povo arriscou sua vida para procurar a terra e por pouco não foi enganado.  Na audiência ocorrida no dia 29 de agosto de 2014, a Funai se comprometeu em publicar um Edital para compra de terra dos Krenyê, o que não foi feito até o momento. Os indígenas estiveram em Brasília, por ocasião do Acampamento Terra Livre, ocorrido em abril deste ano e ouviram do Coordenador do Departamento de Proteção Territorial (DPT) da Funai que não há recurso garantido no orçamento para a referida compra. Os indígenas alegam que funcionários do órgão diziam a eles que era mais rápido comprar a terra, do que lutar pelo território tradicional. Depois de tanto esperar, entendem que estão sendo enganados.

    A situação do abastecimento de água para o povo nunca foi regularizada e nem o poço artesiano foi construído. Contudo, no parecer técnico da Advocacia Geral da União (AGU), do dia 6/8/2014, em resposta à AGU, o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Maranhão respondeu que o abastecimento de água havia sido regularizado. Nesse mesmo parecer a Funai informou dispor de R$ 20 mil e se comprometeu em passar este recurso para o Dsei, que tinha a obrigação legal de construir o poço. No entanto, os indígenas não têm informação se esse repasse aconteceu de fato, o que sabem é que o poço artesiano nunca foi construído. “Se não fosse o Cimi e a Pastoral Indigenista de Grajaú, não sei o que seria de nós, estamos morrendo de fome e sede, vivemos em apenas 1 hectare de terra, não dá para tirar o sustento do chão. O que plantamos e colhemos é muito pouco, precisamos de mais espaço.” Lamenta Genecy Timbira.

    Outra luta travada pelos Krenyê é para conseguir uma vaga no Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi). Vaga essa, que é um direito enquanto povo específico, garantido pela Constituição Federal e pela Legislação da Política de Saúde Indígena. Mas, até agora, este direito também lhes foi negado. O Dsei/MA é de responsabilidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), o controle social se dá por meio do Condisi, que garante, ao menos no papel, a participação dos indígenas na elaboração da política de saúde indígena no âmbito do Dsei. Mas o que ocorre na prática é que a relação dos indígenas com esses gestores é muito tensa, permeada por problemas na gestão e aplicação dos recursos.

    O povo Indígena Krenyê, originário da Pedra Salgado, hoje município de Vitorino Freire, mora na Chácara Krenyê, Aldeia São Francisco, localizada a 6 km do município maranhense de Barra do Corda, em 1 hectare de terra, comprado com recursos próprios. Durante muitos anos, viviam perambulando pela periferia da cidade, sem nenhuma assistência dos órgãos públicos responsáveis em dar atendimento aos indígenas, sendo vítimas de todo tipo de preconceito e discriminação.

    Na reunião dessa segunda–feira (19) com o procurador Alexandre Soares, ficou definido que ele vai enfatizar a necessidade de marcar audiência com o juiz Carlos Madeira para reforçar a cobrança aos órgãos que têm a obrigação legal de prestar assistência aos povos indígenas e não o fazem.

    Povo Gamela

    Problemas semelhantes enfrentam o povo Gamela no município de Viana, Maranhão, que há séculos sofre um processo de negação pelo Estado brasileiro, o que permitiu a invasão e grilagem de seu território. Segundo lideranças do povo Gamela, por volta de 1968 foi efetuada uma fraude cartorial que transferiu a terra como herança a particulares, possibilitando a venda de parcelas do território com registros cartoriais fraudulentos.

    Durante décadas, eles resistem contra a apropriação privada do seu território e contra a negação da identidade étnica por parte do Estado brasileiro. Para enfrentar o extermínio, foi preciso silenciar por muitos anos, mas em 2013, o povo insurgiu-se na luta pelo reconhecimento de sua identidade étnica e em 2 de agosto de 2014, realizou a Assembleia de Autodeclaração. A Ata dessa Assembleia foi protocolada junto à Funai em Brasília e na coordenação Regional em Imperatriz. Mas, até agora, o órgão não se manifestou quanto ao registro do povo Gamela no Cadastro de Povos Indígenas do Brasil.

    Em audiência realizada em 2014 com a Coordenação Técnica local da Funai em São Luís, a coordenadora prometeu que até o final do ano faria uma visita técnica ao território. A visita foi agendada para os dias 26 a 30 de dezembro. O Povo estranhou a data, mas concordou. No dia 25, Natal, a visita foi cancelada. Naquela ocasião e em outros momentos, a Funai alega que não dispõe de carro para o deslocamento da equipe de técnicos. Enquanto isso, os indígenas são privados da assistência específica e diferenciada de órgãos como Sesai, Secretaria de Estado de Educação do Maranhão (Seduc) e Previdência Social, como determina a Constituição Federal. O mais grave é que enquanto as comunidades esperam a boa vontade da Funai, o povo Gamela tem seu território invadido, os babaçuais e guarimanzais são destruídos, os caminhos são interrompidos com cercas elétricas por grileiros e as suas lideranças são ameaçadas.

    “Como se não bastasse a privação dos nossos direitos, a Prefeitura resolveu construir um lixão dentro do território e pretende construir um matadouro. Tudo isso porque a Funai, que deveria nos proteger, não resolve nosso problema, usando sempre a desculpa esfarrapada que não tem carro para vir até nós”, denuncia Cal Gamela.

    É vergonhoso como o Estado brasileiro vem tratando os povos indígenas, em especial este povo. Primeiro, pela negação da existência e resistência do povo. Segundo, pela ausência de resposta a uma exigência legítima. “Esse processo de violência sofrido pelo povo Gamela é o mesmo processo que sofrem todos os povos tradicionais, em especial no Maranhão, com constantes ameaças de morte, conflitos fundiários e a impunidade reinante”. Analisa Sandra Araújo, assessora jurídica e agente da Comissão Pastoral da Terra.

    Diante da grave situação e do descaso por parte da Funai, o próprio Povo, o Cimi e a CPT estão cobrando do MPF, em caráter de urgência as seguintes medidas:

    *Notificação da Funai para a realização imediata do registro do povo Gamela no Cadastro dos Povos Indígenas do Brasil;

    *Criação do Grupo de Trabalho para identificação e delimitação do Território Gamela;

    * Notificação dos demais órgãos públicos responsáveis pela efetivação das políticas públicas específicas e diferenciadas;

    *Notificação dos órgãos fundiários, estadual (Instituto de Colonização e Terras do Maranhão – Iterma), e federal (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra) de processo de identificação e delimitação do território do povo Gamela;

    *Agendamento de audiência do povo Gamela com Funai, Sesai/Dsei/Condisi e Seduc/MA na procuradoria.

    Para o Conselho Indigenista Missionário, essa negação dos direitos aos povos Krenyê e Gamela é absurda e tendenciosa, uma vez que nem a decisão judicial é cumprida. E se nada for feito, a situação pode perder o controle. “Existe uma má vontade dos órgãos competentes em atender os povos indígenas, sobretudo na questão territorial. Por outro lado, atendem sem medida os ruralistas e fazem vista grossa para os invasores de terra indígena. Se a Funai e o Dsei não tomarem uma atitude de imediato, os indígenas prometem tomar outras providências, pois estão cansados de tanta conversa e já estão perdendo a paciência” Conclui Gilderlan Rodrigues, do Cimi.

    Foto: Rosimeire Diniz/Cimi MA

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  • 22/05/2015

    Justiça revoga compra de área para comunidade Guarani-Kaiowá de Apyka’i

    O juiz federal substituto Fábio Kaiut Nunes, da 1ª Vara da Justiça Federal de Dourados, revogou liminar concedida pela juíza da mesma vara, Raquel Domingues do Amaral, que determinava à União a compra de 30 hectares de terra com fundamento no artigo 26 da Lei nº 6001/73 para a comunidade indígena Curral do Arame (Tekoha Apika’y), às margens da BR-463 em Dourados (MS).

    Sem a proteção inicialmente conferida, volta a valer uma ordem de reintegração de posse contra o grupo, que ocupa atualmente pequena área de mata dentro do território reivindicado pela comunidade, na Fazenda Serrana. A decisão também considerou extinto o processo ajuizado pelo Ministério Público Federal em Dourados, que pedia a compra da área enquanto não for finalizada a demarcação da Terra Indígena Apika’y pela Funai, atualmente em curso.

    A decisão cita a impossibilidade do “Judiciário dar ordem à Presidência da República para que desaproprie a área em questão. Logo, reputo que a imposição de obrigação, tal como requerida pelo Ministério Público Federal, é impossível. Sendo o objeto impossível (apesar de sua raridade no ordenamento jurídico brasileiro), tem-se aqui um caso de carência de ação, causa de extinção do processo sem julgamento do mérito”. Com isso, após o trânsito em julgado da ação (decisão definitiva do próprio juiz), o processo deverá ser arquivado. O MPF estuda recurso contra a decisão.

    A decisão liminar revogada, de 18/12/2014, determinou a compra dos 30 hectares de terra “para que seus membros (da comunidade indígena) possam viver em segurança e com dignidade. Trata-se, antes de tudo, de uma questão humanitária”. Para o julgador anterior, o objeto da ação proposta pelo Ministério Público Federal são as terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas, a que eles têm “direito originário” (anterior à demarcação).

     

    Em recurso contra ação do MPF, governo federal alegou que indígenas estão em área com "acesso a água potável"

    Permanece válida outra decisão judicial, que determinou ao Departamento Nacional de Trânsito (DNIT) a instalação de redutores de velocidade, sinalizadores de asfalto e placas de sinalização próximo ao acampamento indígena Curral do Arame.

    Em 4 anos, 8 índios morreram atropelados na rodovia, 5 deles da mesma família, sendo 3 em um período de apenas um ano. Para a Justiça, a não adoção de medidas preventivas põe em risco a segurança, a integridade física e a vida dos índios, o que representa afronta à dignidade da pessoa humana. Com a atual decisão, os indígenas voltam a residir às margens desta mesma rodovia.

    Outro pedido desta mesma ação ainda não foi julgado, a indenização de R$ 1,4 milhão em danos materiais e morais coletivos, pela omissão da Administração Pública em evitar novos acidentes.

    Curral do Arame: miséria cercada de cana por todos ao lados

    A comunidade indígena de Curral do Arame é uma das mais miseráveis de Mato Grosso do Sul. Os guarani-kaiowá vivem em barracos improvisados, sem instalações sanitárias e acesso a energia elétrica, cozinham em fogões improvisados o pouco alimento que conseguem, e utilizam água imprópria para o consumo humano, que coletam em um riacho da região, contaminado por agrotóxicos de lavouras do entorno. Esta situação de vulnerabilidade já dura 12 anos. Oito membros da comunidade já foram vítimas de atropelamentos.

    A área de terra reivindicada pelos indígenas de Curral do Arame está abrangida pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em 12 de novembro de 2007 pelo MPF e a Funai, para a demarcação das terras de ocupação tradicional indígena na região centro-sul de Mato Grosso do Sul.

    Para o MPF, mesmo passando por dificuldade e enfrentando violência, “os indígenas insistem motivados pela profunda ligação material e espiritual com a terra de seus antepassados. A resistência desta pequena comunidade, ao longo desses anos, por si só, já comprova esta ligação”.

    Segundo estudo antropológico da Funai, os índios da comunidade foram expulsos de suas terras tradicionais para a expansão da agricultura e da pecuária. Parte desta população foi recrutada para trabalhar em fazendas da região como mão de obra barata até que se tornaram “incompatíveis” com a produção.

    Os índios resistiram em deixar suas terras, ocupando áreas de reserva legal de propriedades rurais, mas foram obrigados a fugir após a morte do patriarca da família, Hilário Cário de Souza, em 1999, atropelado por funcionário da fazenda que ocupava.

    Desde então, os guarani passaram a viver na fina faixa de domínio da rodovia, em barracos improvisados, em frente à terra que reivindicam como tradicional. Além das precárias condições estruturais, o acampamento indígena Curral do Arame já foi queimado duas vezes, a última em grande incêndio ocorrido na região em 2013.

    Clique aqui para saber mais sobre Curral do Arame.

    Referência processual na Justiça Federal de Dourados:

    Ação de compra de área: 0001297-68.2014.403.6002

    Ação de indenização por atropelamentos: 0001291-61.2014.4.03.6002

    Fotos: MPF/MS

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  • 21/05/2015

    Em audiência com ministro da Justiça, indígenas de MS repudiam “mesas de diálogo” propostas por Cardozo

    A delegação de 53 lideranças indígenas do Mato Grosso do Sul tiveram nessa quarta-feira (20) um encontro com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Esperavam respostas concretas com relação à assinatura das 12 portarias declaratórias que estão sob sua mesa.  Queriam também saber o porquê da paralisação total dos procedimentos de regularização das terras indígenas. Além disso, queriam saber quais são as iniciativas para dar segurança às comunidades e suas lideranças, que estão sendo diariamente ameaçados de morte. Grassa na região total impunidade em que matadores de índios viram heróis. Pediram também que o atual presidente interino da Fundação Nacional do Índio (Funai) seja efetivado no cargo.

    O ministro Cardozo, escutado atrás das falaciosas “mesas de diálogo”, repetiu em exaustão que o clima não está bom, e que não vê nenhuma ação viável a não ser essas mesas, que os índios qualificam como enganação: “ Para nós a vida é um sonho rápido que fica em algum lugar entre a fome e a bala do fazendeiro. Até quando, senhor ministro? Quando na história deste país tivemos uma “conjuntura” favorável a nós? Tudo que temos são nosso direitos, e exigimos seu cumprimento”, insistiram as lideranças em documento entregue ao Ministério da Justiça na manhã desta quinta-feira (21).

    Mensalão do diálogo

    As aludidas mesas de diálogo são, pelos povos indígenas, comparados às mesadas dos invasores, ou a um mensalão de lucros fáceis e abundantes, com a exploração das terras e recursos naturais das terras indígenas há décadas. “Os latifundiários e os poderosos, senhor ministro, não querem diálogo, mas a nossa morte. Basta lembrar os inúmeros massacres e extermínio de nossos povos, caracterizando um genocídio e holocausto dos povos nativos e originários deste continente e do nosso país”.

    Estarrecidos e indignados, os povos indígenas do Mato Grosso do Sul afirmam na carta: “Ao descumprir com suas obrigações e com as atribuições do órgão que representa, negando-se a dar continuidade aos procedimentos demarcatórios, o senhor não nos deixa outra escolha se não partirmos para a retomada de nossos territórios, questão que tentamos impedir deixando nossas famílias e nossos afazeres e vindo até Brasília buscar o diálogo com o senhor”.

    Retornaremos

    Em tom indignado, a liderança do Ypoy desabafou dizendo ao ministro que talvez não volte, pois poderá ter sido assassinado, mas virão outros lutadores, até que a terra seja demarcada. Na carta ao ministro reiteram: “Até lá saibam que não aceitaremos as mesas de diálogo, não seremos enganados de novo. Desta nossa reunião não ficamos com nada se não a certeza de que para nós não existe a possibilidade no momento de termos respeitados nossos direitos previstos na Constituição Federal de 1988. Infelizmente é isso que temos para levar a nosso povo em nosso retorno”.

    Ao final das duas horas de exposição da dramática situação dos povos, aldeias e acampamentos indígenas no estado, campeão de violência contra os povos indígenas, e da irredutibilidade do ministro da Justiça de fazer avançar os processos de demarcação das terras e outras providências, o encontro terminou em mais uma frustração: “É uma pena que sintamos que em nome das “mesas de diálogo” a possibilidade de diálogo com o Executivo está acabando, senhor ministro, e como dissemos para o senhor, a inércia nas demarcações só nos deixam uma escolha, retomar nossas terras por meio da única força que temos. Se isso acontecer morreremos.”

    Na carta protocolada nesta manhã no Ministério da Justiça, os índios manifestam sua revolta, mas acreditam nas forças de seus guerreiros e ancestrais, para continuarem a luta até a vitória final.

    Veja a carta na íntegra

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