• 09/06/2015

    Encontro no Amazonas cobra do governo demarcação de terras indígenas no Norte

    Os povos Kokama, Kambeba, Kaixana, Mayoruna, Apurina, Paumari, Nawa, Mura, Maraguá, Tariana, Baré e Macuxi se reuniram nos dias 30 e 31 de maio, no estado do Amazonas, para tratar das demarcações de terras indígenas no norte do Brasil. Na foto, indígenas durante ocupação à sede da Funaio corrida no ano passado, em Manaus. 

    Para os indígenas, o governo federal desrespeita a Constituição Federal e tratados internacionais ao paralisar as demarcações no país, com outras pastas federais, caso do Ministério da Saúde, se negando a prestar serviços de saúde tendo como justificativa que determinadas comunidades não estão em terra indígenas.

    “Só no estado do Amazonas, existem mais de 80 terras indígenas sendo reivindicadas, que se quer tiveram iniciado o procedimento de demarcação”, diz trecho do documento final do encontro, que você pode ler na íntegra:

    Documento final do Encontro sobre Demarcação de Terras Indígenas

    Nos representantes dos povos Kokama, Kambeba, Kaixana, Mayoruna, Apurina, Paumari, Nawa, Mura, Maraguá, Tariana, Baré, Macuxi, reunidos no Centro de Formação Xare, nos dias 30 e 31 de maio de 2015, no Encontro sobre a Demarcação das Terras Indígenas, socializamos as lutas e desafios enfrentados pelas comunidades indígenas das regiões do Alto Solimões, Médio Solimões, Beruri, Lábrea, Nova Olinda do Norte, Autazes e Barcelos no Amazonas e rio Moa, no município de Mâncio Lima, no Acre. Foi socializada também a experiência de luta para a conquista de demarcação da Terra Indígena raposa Serra do Sol, localizada em Roraima, por duas lideranças Macuxi e feita uma análise mais ampla da política indigenista e da realidade amazônica.

    Denunciamos a omissão do governo federal na demarcação das terras indígenas como determina a Constituição Federal e a OIT. Numerosas comunidades indígenas, na região, anos a fio, vem reivindicando a demarcação de suas terras sem nenhuma resposta por parte da Funai. Só no estado do Amazonas, existem mais de 80 terras indígenas sendo reivindicadas, que se quer tiveram iniciado o procedimento de demarcação. Esta omissão por parte do governo federal coloca nossas comunidades numa situação de extrema insegurança e vulnerabilidade, expostas a violência dos invasores de todo tipo: madeireiros, garimpeiros, peixeiros e caçadores e outros que afrontam as nossas lideranças e desrespeitam nossas formas de vida e os nossos direitos. A não demarcação das terras tem sido usada inclusive como desculpa pela Sesai para negar a atenção a saúde das nossas comunidades. Ela deve ser responsabilizada judicialmente por esta renuncia aberta de suas atribuições legais. Essa atitude de discriminação para com nossas comunidades revela um profundo desprezo pela vida dos cidadãos indígenas.

    Exigimos respeito aos nossos direitos. Queremos que de forma imediata os procedimentos de demarcação das nossas terras sejam retomados, com a criação dos Grupos de Trabalho (GTs) da Funai para a identificação dos limites e a prática dos demais atos oficiais necessários para garantia de nossas terras.

    Reafirmamos a disposição das comunidades de lutar até que todas as terras indígenas na região tenham sido demarcadas, articulando entre nós, com nossas organizações e com movimento indígena de forma mais ampla e com outros setores da sociedade e a determinação de fazer o que for preciso para que este nosso direito, fundamental para o futuro de nossos povos, seja assegurado.

    Manaus, 31 de maio de 2015.

     

    Read More
  • 08/06/2015

    A CIDH condena assassinatos de indígenas no Brasil

    A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), divulgou uma nota cobrando que as autoridades brasileiras investiguem e punam os culpados pelos três assassinatos de indígenas defensores de direitos humanos no Maranhão e Bahia, que aconteceram no período de uma semana entre os meses de abril e maio. Eusebio Ka’apor foi morto em 26 de abril no território indígena Alto Turiaçu, em Maranhão; Adenilson da Silva, um Agente Indígena de Saúde do povo Tupinambá foi morto em 1º de maio, em Serra das Trempes no estado da Bahia e Gilmar Alves da Silva foi morto em 3 de maio quando andava de moto em direção à cidade de Pambú, no território indígena Tumbalalá, também na Bahia.

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) protocolou uma carta para mais de 20 órgãos, incluindo organismos internacionais, chamando a atenção para os fatos ocorridos e pedindo providências para os assassinatos das três lideranças indígenas (veja aqui). Até o momento nenhuma pessoa foi presa por nenhum desses crimes. Confira abaixo na, íntegra, a nota emitida pela CIDH:

      

    Washington, D.C. – A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condena os assassinatos de três indígenas defensores de direitos humanos nos estados do Maranhão e Bahia, no Brasil.

    De acordo com informação publicamente disponível, o líder indígena EusebioKa’apor foi morto em 26 de abril de 2015, por pistoleiros encapuzados que dispararam em suas costas, no território indígena do Alto Turiaçu, no estado do Maranhão. Como outros membros da sua comunidade, EusebioKa’apor participou de um movimento contra a presença de madeireiros ilegais em territórios indígenas, o que resultou no fechamento de todas as operações madeireiras ilegais na região em março de 2015. A informação disponível indica que o nome de EusebioKa’apor estava em uma lista de pessoas que iriam ser mortas pelos madeireiros.

    Ademais, de acordo com informação publicamente disponível, Adenilson da Silva, um Agente Indígena de Saúde do povo Tupinambá, foi morto em 1º de maio de 2015, por três atiradores encapuzados próximo à Serra das Trempes no estado da Bahia. A informação indica que, quando foi atacado, ele estava com sua esposa, seu filho de 1 ano de idade e sua filha de 15 anos de idade, e que sua esposa recebeu ferimentos de bala nas pernas e costas. Sua esposa e filho foram hospitalizados.

    A informação disponível também indica que o defensor de direitos humanos Gilmar Alves da Silva foi morto em 3 de maio de 2015. Ele andava de moto em direção à cidade de Pambú, localizada no território da comunidade indígena Tumbalalá, quando foi baleado por dois indivíduos não identificados que viajavam em um carro. As informações recebidas indicam que a polícia militar teria localizado o veículo e as armas utilizadas para matá-lo, mas que os autores ainda não foram presos.

    A Comissão Interamericana insta o Estado do Brasil a investigar esses assassinatos com a devida diligência, e a processar e punir os responsáveis. Nesse sentido, a Comissão insta as autoridades competentes a explorar todas as linhas lógicas de investigação, inclusive a possibilidade de que essas mortes foram motivadas pelas atividades destes líderes indígenas no seu papel de defensores de direitos humanos. A CIDH também insta o Estado a adotar medidas, sem demora, para proteger a vida e a integridade física dos povos indígenas e seus líderes e defensores de direitos, com atenção à sua identidade cultural, perspectiva e concepção de direitos.

    Atos de violência e outros ataques perpetrados contra os defensores de direitos humanos não só afetam as garantias que pertencem a cada ser humano; eles também prejudicam o papel essencial que os defensores de direitos humanos desempenham na sociedade ao deixar desamparados todos aqueles por quem estes defensores lutam. A CIDH insta o Estado do Brasil a tomar todas as medidas necessárias para assegurar que os defensores de direitos humanos possam realizar o seu trabalho de denúncia, acompanhamento e proteção, livres de ataques ou atos de violência que possam colocar em perigo a sua vida, integridade e segurança.

    A CIDH é um órgão principal e autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA), cujo mandado surge da Carta da OEA e da Convenção Americana sobre os Direitos Humanos. A Comissão Interamericana tem o mandato de promover a observância dos direitos humanos na região e atua como órgão consultivo da OEA sobre o tema. A CIDH está integrada por sete membros independentes, que são eleitos pela Assembleia Geral da OEA a título pessoal, sendo que eles não representam seus países de origem ou residência.

    Read More
  • 06/06/2015

    Porantim 376: Violenta e perversa realidade

    Mantida por mais de cinco séculos, a violência praticada contra os povos originários aumenta a cada ano. Esta edição traz dados e artigos publicados no Relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil – dados de 2014, que pretendem contribuir para o aprofundamento da reflexão sobre as causas e motivações dessas violações e, consequentemente, para o seu fim. Mantida por mais de cinco séculos, a violência praticada contra os povos originários aumenta a cada ano. Esta edição traz dados e artigos publicados no Relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil – dados de 2014, que pretendem contribuir para o aprofundamento da reflexão sobre as causas e motivações dessas violações e, consequentemente, para o seu fim.

    Read More
  • 06/06/2015

    Encarte pedagógico 5: Cosmovisão indígena e modelo de desenvolvimento

    Encarte pedagógico, voltado a professores e professoras, que acompanhou a edição 376 do jornal Porantim.

    Read More
  • 04/06/2015

    “Pararam as demarcações, mas nós não paramos e vamos avançar em defesa do nosso direito”, diz Getúlio Guarani e Kaiowá

    Entre o som sagrado dos mbarakas e as rezas dos Ñanderu e Ñandecy – líderes espirituais e rezadores – a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, entre os últimos dias 31 e 1º de junho, saiu dos corredores do poder em Brasília para conferir de perto a situação do povo Guarani e Kaiowá nos tekohas – lugar onde se é – do Mato Grosso do Sul. Com os parlamentares, representantes do Ministério Público Federal (MPF), Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

    As lideranças indígenas afirmaram que se a situação que vivem não mudar e as demarcações não acontecerem, os Guarani e Kaiowá iniciarão um processo de retomada geral de seus territórios. Getúlio, importante Ñanderu Kaiowá, após a fala de mais de 15 lideranças de acampamentos às autoridades, disse: “Hoje estamos chorando e morrendo. Eles pararam as demarcações, mas nós não paramos e vamos avançar em defesa do nosso direito”. A procuradora da República e coordenadora da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão da PGR, Deborah Duprat, afirmou que a situação dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul é “um absurdo contra a vida humana e a dignidade”.

    A visita oficial teve como objetivo coletar informações, relatos e ver de perto as denúncias que chegam periodicamente às autoridades envolvendo os constantes atentados contra o povo, alto índice de suicídio e mortandade, além de equacionar os lamentáveis eventos com a paralisação completa das demarcações de terras indígenas no Mato Grosso do Sul. O bispo de Dourados, Dom Redovino Rizzardo, esteve durante o dia 30 no tekoha Apyka’i e se comprometeu com a questão indígena e a demarcação dos territórios tradicionais dos Guarani e Kaiowá.     

    O grupo foi recebido em cores, palavras e relatos de cada Guarani e Kaiowá, em contraste com as dificuldades em preto e branco que vivem. Pulsaram séculos de história, cultura viva e resistência. A comitiva registrou aspectos de uma espécie de Estado de Exceção vivido pelos povos indígenas no Mato Grosso do Sul, onde os teores de uma verdadeira política de extermínio estão colocados em prática pelas forças locais ligadas ao agronegócio, com a conivência do governo brasileiro.

    O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, deputado Paulo Pimenta, declarou aos Guarani e Kaiowá: “Nós temos um compromisso. O que vi e senti me dá autoridade e conhecimento para avançar e não mediremos esforços quanto Comissão de Direitos Humanos para somarmos na luta diária de vocês e garantirmos os direitos dos povos indígenas”.

    Guyraroká, demarcação já!

    Localizado no limite dos municípios de Dourados e Caarapó, no tekoha Guyraroká beleza e dor se mesclaram na receptividade e nos rostos dos Guarani e Kaiowá. A dança e da reza conduziram os representantes da comitiva até uma maloca de capim. Abrigados da chuva, os visitantes puderam ouvir em uma só voz, durante alguns minutos, toda a comunidade gritar emocionada: “Demarcação de Guyraroká, homologação de Guyraroká, não a suspensão de Guyraroká”.

    Após os gritos cessarem, seu Tito e dona Miguela, com seus respectivos 95 e 80 anos, abriram as portas da história e da sabedoria tradicional para iniciarem oficialmente os relatos. Na roda, ouvindo atentos, indígenas de todas as idades mesclaram o “ontem” e o “hoje” com uma única esperança: ter uma boa notícia sobre o futuro de seu lugar no mundo, de seu tekoha.   

    O fato de um senhor de tão avançada idade ter de servir de testemunha viva pelos ataques sofridos por sua comunidade, já significa em si a dramaticidade da situação vivida pelo grupo de famílias de Guyraroká. Sofrem não apenas com as armas dos fazendeiros, mas em especial pelas mãos da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que aponta em suas decisões a possibilidade de não garantir o Guyraroká em sua demarcação. Tito, na língua materna, expressou com clareza: “Eu nasci aqui, não em qualquer outro lugar, mas aqui. Conheço cada palmo desta minha terra e agora sem nenhum palmo da minha terra querem me deixar. Caarapó, Dourados, Naviraí não eram cidades, não existiam, mas nós já tínhamos aqui nossa cidade, nosso tekoha. Aqui mora nossa história, tudo que somos, se rasgam um kuatiá (papel), não rasgam só processo, rasgam a gente ao meio, os bichos ao meio, o mato, todos nós”.

    Crimes ambientais, falta total de condições e políticas básicas de sobrevivência, relatos de perseguição, ameaças e agressões diretas pelos fazendeiros locais dão corpo ao contado por seu Tito e dona Miguela. “De tudo que nos falta (referindo-se à água, à saúde, ao saneamento), a única que pode nos trazer paz é a terra. Acabando a terra, acaba o mato. Sem ela nossas almas, nossos corpos ficam doentes. Sem ela não temos a cera das abelhas para batizar nossas crianças, o alimento para o povo, não podemos viver e passar nossa cultura”, disse Dona Miguela. 

    Enquanto os assessores coletaram depoimentos gravados de violações sofridas pelos indígenas, Paulo Pimenta traduziu em palavras o objetivo da viajem, palavras que seriam reforçadas e repetidas durante todas as paradas da comitiva: “Vir aqui, ouvir vocês é essencial, as vozes de vocês, o conhecimento de sua dura realidade nos concede autoridade, autoridade para defendermos os direitos dos povos indígenas, buscaremos investigação a respeito dos fatos narrados assim como buscaremos intervenções junto a todos os setores que atacam os direitos dos povos indígenas, não viemos aqui para viajar, viemos aqui em respeito e compromisso com a grave violação dos direitos dos povos originários”.

    Na terra indígena de Taquara, segunda parada da comitiva, os cantos e as danças tradicionais continuaram conduzindo os passos de cada um dos representantes. Logo nas falas da apresentação, pode-se sentir que as súplicas de apoio e denúncia do povo de Guyraroka tomariam forma de um brado indignado e cheio de dor. Denúncias de agressões, estupros, assassinatos, atentados, crimes ambientais e contra os direitos humanos foram levantados por todas as lideranças que fizeram uso da palavra.

    As lideranças e rezadores proferiram falas de repúdio contra a PEC 215, Portaria 303 da Advocacia-Geral da União (AGU), PL 227, PL 1216, suspensões de portarias declaratórias vindas da 2ª Turma do STF, mesas de diálogo do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, contra a implementação do Instituto Nacional de Saúde Indígena (INSI), e narraram aos presentes como a paralisação dos procedimentos de demarcação e desintrusão de seu território tem causado uma onda ininterrupta de violência por parte dos fazendeiros. Ernesto Verón pediu: “Levem daqui todo o sofrimento de um povo, tragam no retorno Justiça, porque aqui embaixo já deixamos de saber o que é Justiça há muito tempo, mesas de diálogo, enrolação, desculpas, isso já nos levou 25 anos sem nossa demarcação”.

    As lideranças presentes fizeram questão de denunciar os aspectos sombrios e criminosos que envolvem a estratégia ruralista assumida pela 2ª Turma do STF, o Marco Temporal. Os mais velhos contaram como testemunhos de como foram expulsos de seus territórios, inclusive muitos deles sendo levados para campos de concentração para que o esbulho de suas terras fosse consolidado.

    A procuradora da República Deborah Duprat afirmou que “hoje os crimes contra os povos indígenas são praticados pelos fazendeiros, mas não há duvida que os sejam praticados pelo Estado Brasileiro. Dentre os inimigos dos povos hoje, o mais terrível tem sido o judiciário. Há um impeditivo nas demarcações de parte do Executivo, mas também há impeditivos que partem do Judiciário, e é nosso compromisso com vocês buscar dar voz indígena aos processos, para que sejam ouvidos como nós ouvimos vocês. Buscaremos, junto com a Comissão de Direitos Humanos, dialogar com o STF, com os ministros e buscaremos espaços para que vocês também possam dialogar com eles, para demonstrar que certas decisões são absurdas, são crimes. Falando em crimes, também buscaremos junto à Comissão de Anistia reparação em relação ao Krenac e demais reformatórios pelos quais muitos de vocês passaram. Somaremos na 6ª Câmara as campanhas de Justiça aos povos indígenas”.

    Tey’i Juçu, um acampamento que resiste

    Ao cair da noite, a comitiva chegou ao acampamento indígena de Tey’i Juçu, uma retomada do povo Guarani e Kaiowá e lá foi recebida por inúmeras lideranças de 11 outros acampamentos e retomadas indígenas. Em uma grande reunião de Ñanderu e Ñandecy, foi iniciado um longo e belo ritual de acolhimento. Nas palavras de cada líder, o quadro de violência e violação foi intensificado – tanto em forma, quanto em quantidade. Foram registrados para além dos ataques diretos e assassinatos por parte dos fazendeiros, problemas graves sobre falta de educação, saúde, saneamento, falta total de alimentos e água potável. Ficou evidente que a raiz de toda a violência sofrida pelas famílias Guarani e Kaiowá dos diferentes tekohas é a falta de demarcação de seus territórios.

    Através dos acampados, que têm sua situação de drama humanitário potencializado pelas condições precárias de vida e moradia, a denúncia foi forte quanto ao engessamento da Funai e a rede de consequências das posições do Executivo e Legislativo, sentidas e sofridas pelos indígenas em situação de acampamento. Com apoio de antropólogos locais e professores universitários, que em solidariedade se juntaram aos indígenas para esperar a comitiva, foi relatado que a partir das últimas decisões de Brasília, hoje é quase impossível iniciar um estudo em área indígena. Levi Marques, antropólogo responsável por muitos dos relatórios que ainda não foram apreciados pela Funai, testemunhou: “Tudo está parado, interrompido, os “peguás” (divisão de estudos por bacias dos rios) não têm andamento há muito tempo. Anteriormente a Polícia Federal acompanhava o antropólogo a campo, hoje dizem que se necessita de ordem judicial. Neste emaranhado todo, quem perde são sempre os indígenas”.

    Deborah Duprat lembrou a todos que a Funai tem poder de polícia para dar continuidade aos estudos de terra, onde já foram constituídos os Grupos de Trabalho ou já exista disponibilidade dos profissionais. Em relação a falta de escola e estruturas de saúde, queixa de todos os acampamentos, a procuradora da República lembra que existem decretos específicos que asseguram aos indígenas direito pleno de acesso às questões básicas.

    Guayviry, luto ainda sem fim

    Na manhã seguinte, na aldeia de Guayviry, a comitiva ouviu as palavras de uma anciã Guarani e Kaiowá. A mãe de Nísio Gomes, cacique do Guayviry assassinado em 2011 por fazendeiros e um grupo de seguranças armados, abriu a reunião dizendo: “Queremos pelo menos os ossos de meu filho. Demarque nossa terra, ela é nossa, para pelo menos ter validade o sangue que ele derramou sobre a terra e acalmar nossa dor”. Genito Gomes convidou a todos e todas para que se dirigissem ao local em que Nísio Gomes foi assassinado, em 2011, numa pequena clareira do tekoha, ao som de um lamento doloroso das rezadoras. O crime foi explicado e revivido pelo povo de Guayviry.

    Após a fala de inúmeras lideranças, vindas de diversas terras do Sul do estado, foi lida uma carta endereçada à comissão de Direitos Humanos, entregue ao deputado Paulo pimenta pelas crianças da comunidade. Após o ato, compromissos foram firmados com os Guarani e Kaiowá.

    As falas de Debora Duprah, do deputado Paulo Pimenta e dos demais alinharam-se em dizer que não medirão esforços na busca pela reversão do quadro visto e vivenciado pela comitiva. Os órgãos presentes buscarão o diálogo com o Judiciário e que pretendem levar para campo os ministros do STF. Afirmaram que irão defender com força a anulação dos mecanismos de desmonte e alteração da Constituição, como a PEC 215, PL 1216, entre outras. O destravamento das demarcações, em especial naquilo que está com o Ministério da Justiça, e que imediatamente cobrarão das instâncias responsáveis as melhorias nas áreas de saúde, educação e moradia de todos os acampamentos.

    Daniel Velasquez, professor e liderança de Guayviry, representando todas as vozes dos Guarani e Kaiowa, disse que os indígenas estão felizes por terem encontrado aliados em meio a tantos agressores, mas que até que por respeito a vida não podem esperar mais. “É uma decisão do governo federal impedir a morte de nosso povo”, diz. Ava Kuarahy, de Kurusu Ambá, complementa dando vida à carta entregue às autoridades: “Nós não morreremos quietos, nem esquecidos. Até que consigamos nossos direitos e nossas terras de volta, vamos lutar e enterraremos todos nossos mortos na Esplanada dos Ministérios para que o mundo saiba o que está acontecendo. Vão, contem nossa história e nossa dor, sejam as armas da Justiça para acabar com essa situação. Nós não podemos esperar mais”.

    A comitiva partiu no horizonte acompanhada pelos olhos de muitos indígenas que esperam que do mesmo horizonte um dia possam deixar de ver a morte se aproximando, numa vida de cerco e violência, que só acabará com a demarcação de seus territórios.  

    Dom Redovino se compromete com os Guarani e Kaiowá

    Em ato solidário, Dom Redovino Rizzardo, bispo de Dourados, na manhã fria de sábado, 30 de maio, enfrentou a chuva forte e o barro do acampamento do Apyka’i para estar junto às famílias Guarani e Kaiowá, ouvir suas denúncias e se mostrar como anúncio de conforto e de esperança.

    Em torno dos barracos improvisados, as lideranças e famílias de Apyka’i relataram ao bispo todos os anos de sofrimento, as mortes de inúmeros indígenas do acampamento, as pressões, ataques e o desespero das familiais Guarani e Kaiowá frente ao iminente despejo anunciado – mais um.

    Uma das lideranças da comunidade explicou a Dom Redovino e aos missionários do Cimi presentes que a comunidade irá resistir a nova ordem judicial de despejo. Contou que hoje os Guarani e Kaiowá de Apyka’i sofrem pela possibilidade de expulsão de sua terra tradicional, e que não têm alternativa: dali não saem e estão dispostos a seguir até as últimas consequências. Explicaram ainda que o MPF ingressou com um pedido de aquisição de parte do território, por parte do governo federal, até que os estudos demarcatórios sejam concluídos. Por conta de um embargo de um juiz local, a questão não teve procedimento, acabando com as esperanças da comunidade de uma resolução pacífica para o problema.

    Dom Redovino ouviu o clamor dos Guarani e Kaiowá e acompanhou-os até o cemitério tradicional da comunidade, onde as rezas entoadas em idioma originário ecoavam pelo pequeno espaço de terra ocupado hoje pelos indígenas, ladeando um córrego e um pequeno rastro de mata, sobras da plantação de cana que divisa com o acampamento indígena.   

    Em anúncio, Dom Redovino falou à comunidade, que dentro de suas possibilidades buscará o diálogo com os setores do Judiciário e órgãos públicos cabíveis, colocando-se à disposição para trazer Justiça ao caso e evitar que a comunidade continue em seu sofrimento. Em meio ao desespero, a comunidade devolveu ao bispo sorrisos e gestos de afeto. Em meio a chuva e ao barro, as nuvens pesadas sobre Apyka’i abriram espaço para uma manhã de partilha e de esperança.                   

     

            

     

  • 03/06/2015

    “Não temos terra nem para enterrar nossos familiares mortos pelos fazendeiros”, diz liderança indígena à comitiva da CDH no Mato Grosso do Sul

    Não há como contar a história do Brasil sem dedicar vários capítulos aos povos indígenas do nosso país. Entretanto, a narrativa construída, ao longo dos séculos, não permitiu que os indígenas fossem os autores da sua própria biografia, elaborada, justamente, por aqueles que os enxergam como comunidades pouco civilizadas e, mais recentemente, como obstáculos à ganância infinita do agronegócio.

    Para verificar a real situação dos 45 mil Guarani-Kaiowá, que vivem no Mato Grosso do Sul, uma comitiva formada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Ministério Público Federal, Polícia Federal, Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Funai e do Conselho Indigenista Missionário se reuniu com representantes de mais de 20 aldeias indígenas. Às autoridades, foram relatados os casos de indígenas assassinados por jagunços na região, ameaças de morte a lideranças, omissão das autoridades policiais civis e militares e do Poder Judiciário, e foram feitas reivindicações pela demarcação das terras e melhores condições para saúde, educação e segurança.

    Nos últimos 11 anos, mais da metade de assassinatos de indígenas no Brasil ocorreram no Mato Grosso do Sul. Diante do quadro de violência, as lideranças clamam por justiça.  “Meu povo já tá cansado de esperar. Por que o assassino da nossa liderança não está na cadeia? questionou o cacique da Aldeia Potrero Guassu. Sobre a demarcação ele pediu o cumprimento da Constituição. “O homem branco fez a Constituição e não cumpre o que está escrito nela. Não fomos nós que escrevemos a Constituição”, cobrou.   

    Os pontos mais críticos de violência são nas áreas de retomada, locais que, originalmente, pertenciam aos indígenas, e de onde eles foram expulsos pelo governo brasileiro entre a década de 1940 e a década de 1970. Enquanto aguardam a demarcação de suas terras, os indígenas convivem com a violência e as intimidações dos fazendeiros da região. Em todo estado Mato Grosso do Sul existem 33 áreas de retomada.

    Segundo os indígenas, a demarcação das terras seria a solução para o fim da violência e para que as comunidades pudessem viver em paz. Mas, os processos de demarcação são demorados, como no caso da TI Taquara, que desde a década de 1990 tenta retomar os 9.700 hectares que possuíam quando foram expulsos pelo antigo órgão do Governo Federal, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), durante os anos de 1950. O conflito pela retomada acabou com a morte do cacique Guarani-Kaiowá Marco Veron, em 2003. O crime teve como mandante um fazendeiro.

    Situação semelhante ocorre na Aldeia Guyraroká, que espera pela demarcação há mais de 16 anos. Cacique Guyraroká, Papito Vilhalba conta que, além da violência, há também problemas no atendimento da saúde da comunidade. “Tudo foi devastado pelos fazendeiros, os rios estão contaminados pelo veneno, prejudicando nossa caça e alimentação. Pra piorar, nossa Aldeia só recebe a visita de um médico a cada 30 dias”, lamenta.

    Diante das condições verificadas, o Presidente da Comissão de Direitos Humanos, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) afirmou que todos os assuntos que foram tratados nas reuniões terão desdobramentos em Brasília. “Não há escolas nas aldeias, e onde há os alunos estudam no escuro. Na saúde, temos a mesma situação de precariedade. Existem mais de R$ 1 bilhão em recursos por meio de convênio para garantir a saúde dos indígenas, e aonde nós chegamos, não tem saúde”, observou Pimenta.

    O parlamentar afirmou que irá buscar com o Governo Federal ações que possam melhorar a infraestrutura dos Guarani-Kaiowá. “Nós vamos cobrar respostas do Governo. Vamos no Ministério da Educação saber por que não há escolas nas aldeias, vamos procurar o Ministério da Saúde, o Ministério da Justiça, o Supremo Tribunal Federal. Alguém tem que explicar o que está acontecendo”, comentou em tom de indignação o Presidente da CDHM.

    Carta à Comissão

    Durante a missão no Mato Grosso do Sul, foi apresentada a Carta dos Conselheiros da Aty Guasu ao Presidente da CDHM, deputado Paulo Pimenta. No texto, eles detalham a falta de infraestrutura e as condições precárias em que vivem, e fazem um apelo ao Governo pelo cumprimento da demarcação.

    Acompanhe trechos da Carta

    “Desde a invasão de nossos territórios, em 1500 temos enfrentado um desmonte permanente e continuo de nossos territórios tradicionais. No mato Grosso do Sul, para que o latifúndio pudesse prosperar, nos jogaram em Reservas apertadas, em reformatórios e campos de concentração indígena quando não mataram e destruíram povos e aldeias inteiras”.

    “Com isso temos vivido aqui no Mato Grosso do Sul, um cerco permanente de violência. Nós lideranças somos caçados dia e noite e para lutar pelos nossos direitos temos, mesmo que nos mantendo vivos, desistir de nossas vidas. Não podemos ter acesso às cidades, ter tranquilidade, nem pensar em futuro com nossos filhos e família. O numero de Guarani e Kaiowá mortos pelos fazendeiros ou pelo Estado permite comparações com tempos de guerra”.

    “Se o Governo cumprir a Constituição e demarcar nossos territórios tradicionais, resolverá a situação de massacre que estamos sofrendo, caso contrário só restará ao nosso povo a luta direta através de nossas retomadas e não recuaremos na luta pela nossa vida, mesmo sabendo que isso significa a morte de milhares de nosso povo”.

    Read More
  • 03/06/2015

    Kaingang cobram do Executivo aceleração nos processos demarcatórios e garantia de seus direitos

    A mobilização das lideranças Kaingang do Rio Grande do Sul (RS), em Brasília, entre os dias 25 a 27 de maio, bem como de lideranças de outras comunidades indígenas no Brasil, como de Mato Grosso do Sul (MS), reforçaram a luta dos povos pela garantia dos direitos indígenas no país. Na noite da última sexta-feira (29), depois de praticamente um ano (junho/2014), ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, assinou a portaria declaratória da área da Terra Indígena Guarani, no Jaguará em São Paulo.

    Ainda na semana em que os Kaingang estiveram em Brasília, um ato no Senado Federal reuniu a assinatura de 48 senadores se posicionando contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215. Com isso, mesmo sendo aprovada na Câmara, ao passar pelo Senado, diminui a chance de ser aprovada e consequentemente engavetada.

    Os Kaingang também estiveram reunidos com o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Miguel Rosseto. Na ocasião, foi entregue um documento com a avaliação do povo sobre a conjuntura política indigenista brasileira. Do executivo, eles cobram que sejam acelerados os processos de demarcação de território e assinaturas de portarias declaratórias.

    Segundo o documento, a reivindicação de informações sobre o andamento dos processos de demarcação já é antiga. Por isso, a delegação novamente exige da Presidência da República, do Ministério da Justiça e da Fundação Nacional do Índio (Funai) o cumprimento dos artigos 231 e3 232 da Constituição Federal. Nas reivindicações também estão a desintrusão da TI Rio dos Índios, o levantamento fundiário da TI Passo Grande da Forquilha e a publicação da portaria declaratória da TI Kandóia e da TI Irapuá.

    Também constam como reivindicações a conclusão dos laudos antropológicos e publicação dos relatórios das TI´s de Lajeado do Bugre, Xingú, Morro do Osso, Mato Castelhano e Carazinho. A criação dos Grupos Técnicos de Trabalho (GT) para a identificação de delimitação das TI´s Campo do Meio, Pontão, Faxinal e KetyjugTegtu (Santa Maria, Três Soitas) é mais uma das reivindicações .

    Outra questão bastante enfatizada pela delegação de Kaingangs foi a exigência da efetivação do atual presidente interino na Funai no cargo de presidente, dando a ele plenos poderes para cumprir a lei.

    Por fim, o documento ainda alerta que, caso não sejam vistos passos claros e concretos no sentido de atender as reivindicações, o povo Kaingang está organizado e articulado para realizar a autodemarcação e outras ações que visem assegurar o acesso a terra.

    Durante a visita, o grupo ainda participou de reuniões com a Funai, Ministério do Desenvolvimento Agrário e entregou documentos ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a revisão das decisões da 2ª Turma que anularam processos demarcatórios e portarias declaratórias.

    Read More
  • 03/06/2015

    Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo (SP), é declarada pelo Ministério da Justiça

     Na última sexta-feira (29), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, assinou a portaria declaratória da Terra Indígena Jaraguá, atestando a tradicionalidade da ocupação Guarani nos 532 hectares já reconhecidos como terra indígena pela Funai. A portaria, publicada no dia 1º de junho no Diário Oficial, avança uma etapa no processo de regularização fundiária; agora cabe à Presidência da República assinar a homologação da terra para consolidar a posse efetiva dos Guarani sobre seu território. Saiba mais.

    A assinatura da portaria, consequência de forte pressão dos Guarani, quebra o jejum de quase um ano sem nenhum movimento do Ministro da Justiça frente aos pedidos de declaração de TIs. A última, TI Paquiçamba, dos Yudja (PA), foi declarada como de posse permanente indígena em 2 de junho de 2014.

    Entretanto, apesar da portaria do ministro da Justiça, o processo de reintegração de posse da aldeia Itakupe, situada na TI Jaraguá, e movido pelo ex-deputado federal Tito Costa prossegue na Justiça. A Comissão de Terras Guarani Yvyrupa continua mobilizada contra o processo de reintegração de posse e reivindica agora a assinatura da Portaria da TI Tenondé Porã, localizada no extremo sul da cidade de São Paulo. Saiba mais.

    No próximo dia 18, quinta-feira, os Guarani estão convocando um ato público na Avenida Paulista, com essas pautas. A concentração será às 13h, no vão livre do Masp.

    Entenda o caso

    A TI Jaraguá foi reconhecida em 1987 com apenas 1,7 hectares de extensão, configurando-se como a menor TI no Brasil. A falta de espaço impede que os quase 700 indígenas que ali vivem exerçam o nhandereko – o modo de vida Guarani –, gerando a uma situação de grande vulnerabilidade social à comunidade. Essa situação foi agravada com a construção da rodovia dos Bandeirantes, em 1978. Além de cortar a TI ao meio, o alto fluxo de veículos provocou um aumento no número de acidentes e nos índices de violência da região.

    Em 2002, após muitos anos de luta e pressão do movimento indígena, iniciou-se o processo para a correção dos limites da TIs localizadas em São Paulo, de forma a adequar o espaço das aldeias à definição de terra indígena da Constituição de 1988: “as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições”.

    Dez anos depois, em 2012, no dia 19 de abril, a Funai aprovou o relatório que reconhece 15.969 hectares como parte da Terra Indígena Tenondé Porã e no ano seguinte, em 13 de abril de 2013, divulgou o relatório identificação da TI Jaraguá.

    Foto: Ato "O Jaraguá é Guarani", realizado no dia 27/7/2014, em frente ao TRF da 3ª Região, na Av. Paulista, em protesto contra os processos de reintegração de posse na TI Jaraguá

     

    Read More
  • 02/06/2015

    Sentença suspende licenças da usina São Manoel, mas não entra em vigor por aplicação de instituto jurídico da ditadura

    A Justiça Federal em Cuiabá sentenciou processo judicial sobre o licenciamento da usina hidrelétrica de São Manoel, no rio Teles Pires, na divisa entre o Pará e o Mato Grosso, suspendendo as licenças concedidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama)  por falta de estudos de impactos sobre os indígenas Kayabi, Apiaká e Munduruku, atingidos pela obra. Como em outros processos que discutem irregularidades em obras do governo federal na Amazônia, a sentença não vai entrar em vigor e a obra deve continuar, por conta da aplicação do instituto jurídico da suspensão segurança.

    Inserida no ordenamento jurídico pela ditadura militar, a suspensão de segurança permite a continuidade de obras e políticas consideradas essenciais pelo governo por razões de economia pública. No caso de São Manoel, logo após a concessão de liminar também pela Justiça do Mato Grosso, a Advocacia-Geral da União conseguiu a suspensão com a presidência do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília. Para o juiz Ciro José Arapiraca, a análise de toda a documentação do processo demonstra a ausência de estudos adequados sobre os impactos da usina nos indígenas, o que seria pressuposto lógico para o licenciamento do empreendimento.

    A barragem é uma das sete projetadas pelo governo para o rio Teles Pires e fica a menos de um quilômetro de distância da terra indígena Kayabi, uma das afetadas. Por causa das obras, já foram detectados graves impactos nas aldeias que ficam na área de influência, sem mitigações ou compensações previstas por conta da ausência dos estudos.

    A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), responsável pelos estudos, alegou na Justiça que os problemas apontados pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2013 – quando a ação foi ajuizada – já teriam sido sanados. Mas o juiz registra na sentença que a alegação não foi comprovada. “Registre-se que a EPE não fez juntar aos autos qualquer novo estudo ambiental da envergadura de um EIA [estudo de impacto ambiental], constando nele o ECI [estudo de componente indígena], o que evidencia que a referida empresa pública ainda não promoveu as obrigações que lhe competiam, ferindo os interesses ambientais e indígenas que merecem especial proteção, conforme determinação constitucional.”.

    A ação do MPF se baseia em pareceres da Fundação Nacional do Índio (Funai), autarquia do próprio governo federal responsável pela defesa dos direitos indígenas. De acordo com a Funai, os estudos entregues pela EPE sobre a usina eram incompletos e os programas apresentados à título de mitigação e compensação de impactos, “insuficientes”.

    Segundo a Funai, faltou planejamento para ações integradas em proteção territorial, proteção aos índios isolados, proteção à saúde, monitoramento participativo da qualidade da água, da fauna e das espécies de peixes. Falta também planejamento para ações integradas de gestão territorial e ambiental, de recuperação de áreas degradadas, de formação e capacitação, de comunicação social, de educação ambiental, geração de renda, valorização cultural do patrimônio material e imaterial, entre outros itens ausentes.

    Para o MPF, a falta de estudos e planejamento é ainda mais grave por se tratar de um processo de licenciamento que, segundo palavras da própria Funai, é marcado “por conflitos e tensões, e alguns confrontos diretos” e em que o estudo do componente indígena está sendo feito de qualquer maneira, “apenas para cumprir tabela”.

    Processo nº – 0013839-40.2013.4.01.3600 – 1ª Vara Federal em Cuiabá (MT)

    Foto: Mário Bordignon – Arquivo Cimi

    Read More
  • 02/06/2015

    No MA, Ka’apor sofrem ameaças diárias e Estado continua omisso

    Indígenas Ka’apor da Terra Indígena (TI) Alto Turiaçu, no Maranhão, continuam sofrendo ameaças e intimidações devido às denúncias de exploração madeireira no território. Na última sexta-feira (29) uma das principais lideranças do Conselho de Gestão Ka’apor, não identificada por razões de segurança, foi cercada por uma caminhonete e um carro pequeno, na estrada de acesso à aldeia Ximborendá (à qual pertencia a liderança assassinada Eusébio Ka’apor), saída do município de Santa Luzia do Paruá.

    O carro onde estava a liderança e outras duas pessoas foi perseguido pelos veículos desde a cidade até a entrada da aldeia, onde dispararam tiros. “Parece que atiraram pra cima, pra assustar mesmo. Aí eu acelerei o carro e atravessei bem rápido por um lugar onde tinha outros parentes trabalhando pra recuperar um bueiro da comunidade”, explica. Depois de passar pelo local onde os indígenas trabalhavam, os carros deixaram de segui-lo. “Se a gente estivesse de moto podiam ter matado”.

    Os Ka’apor relatam que na mesma semana dois indígenas foram abordados por três homens armados na estrada que liga o município de Araguaña ao povoado de Betel – onde suspeitam ser a localidade do assassino de Eusébio. Os homens teriam dito que trabalhavam com madeireiros que estão desmatando uma área dentro da TI e que tirariam a madeira no verão. “Disseram que não era pra gente falar nada para as lideranças que estão denunciando os madeireiros, senão vão invadir nossa aldeia com muitos tiros e ‘ matar todos os índios da aldeia’”, disse um dos indígenas.

    Três das oito áreas de proteção – criadas para impedir a entrada de madeireiros no território – foram desativadas nas últimas semanas devido às ameaças sofridas pelas 25 famílias que ocupavam as aldeias. “As pessoas tiveram que retornar para as aldeias de origem e a entrada para os agressores ficou livre, já estão extraindo a madeira da nossa floresta de novo”, explica uma liderança do Conselho de Gestão.

    Vulneráveis à ação de criminosos que devastam a TI, os indígenas cobram segurança dos órgãos públicos “Não podemos ficar esperando parecer das investigações do assassinato do Eusébio, precisamos de ações que nos dêem segurança para andarmos livremente no território e para cidade quando a gente precisar”, reforça uma das lideranças.

    Foto: Ruy Sposati

    Read More
Page 481 of 1236