“A força do grande capital e do agronegócio encaminha os povos indígenas para o extermínio”, afirma Dom Roque Paloschi
Entre os “desafios fundamentais” da atuação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que há mais de 40 anos intervém em defesa dos povos indígenas, um deles “é o de contribuir para que a articulação e a mobilização dos povos em defesa de suas vidas sejam fortalecidas e que a solidariedade da sociedade brasileira a estes povos seja ampliada. Enfrentar as perseguições decorrentes dessa opção em defesa da vida dos povos indígenas também se tornou um importante desafio, especialmente a partir da ‘CPI do Cimi’ criada pela Assembleia Legislativa e conduzida por fazendeiros e deputados do estado de Mato Grosso do Sul”, diz Dom Roque Paloschi, novo presidente do Cimi, à IHU On-Line.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail e publicada no último dia 23, Dom Roque Paloschi enfatiza que é preciso “ampliar as denúncias, nacional e internacionalmente, deste conjunto de violências e violações que estão sendo cometidas contra os povos indígenas no Brasil, demonstrando quem são e quais os objetivos dos responsáveis por este processo”.
Depois de dez anos à frente da Igreja de Roraima, Dom Roque Paloschi foi nomeado pelo Vaticano como novo arcebispo de Porto Velho. “Vou para a nova missão na Igreja de Porto Velho com a consciência de que preciso ser um irmão entre irmãos e irmãs. Estamos no mês missionário e fomos acalentando em nossa Igreja essa consciência de que missão é servir. Peço a graça de Deus de poder abraçar os caminhos da Igreja que está em Porto Velho com muita humildade e docilidade”, conclui.
Dom Roque Paloschi, gaúcho de Lajeado, foi bispo de Boa Vista, Roraima e, recentemente, foi nomeado arcebispo de Porto Velho, Rondônia, e também neste ano foi eleito presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), e acompanhou de perto a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Confira a entrevista:
IHU On-Line – Como foi sua experiência como bispo de Roraima? Quais questões centrais marcaram a sua atuação à frente da Igreja em Roraima?
Dom Roque Paloschi – Foram dez anos marcados pela rica experiência de uma Igreja marcada pela perseguição, difamação e calúnias, mas que contou sempre com a solidariedade das demais Igrejas Particulares do Brasil, através do Regional Norte I da CNBB e de modo muito especial pela presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Uma igreja que passou pela grande tribulação, mas foi também uma Igreja marcada pelo testemunho heroico e profético de muitos missionários(as), mas também catequistas, animadores e jovens que não se apequenaram diante da cruz. A Diocese de Roraima procurou ficar ao lado dos povos indígenas, na busca de seus direitos. Podemos destacar também a generosidade de muitas famílias, religiosos e dioceses do Brasil ou de outros países, que acolheram o convite e abraçaram a missão aqui entre nós. Certamente motivados pela Campanha da Fraternidade de 2007 com o lema: “Vida e emissão neste chão”. Creio também que outra questão importante foi o empenho de todos os cristãos católicos na busca da autossustentação, numa bela caminhada da Pastoral do Dízimo, além da Fundação da Fazenda Esperança como uma porta aberta para acolher tantas pessoas marcadas pela dependência química. A Escola de Teologia Pastoral com o curso regular em Boa Vista todos os sábados pela manhã e dois seminários por semestre à noite, e desenvolvendo em dois polos no interior com um fim de semana intensivo por mês, tem ajudado nossos agentes de Pastoral a viver com mais paixão a missão e o ser católico. Outro passo que estamos dando em âmbito de Diocese é a criação da Cáritas Diocesana.
IHU On-Line – Como será sua transição de Roraima para Porto Velho, agora como arcebispo? Quais questões imagina que serão mais urgentes para serem tratadas em Porto Velho?
Dom Roque Paloschi – “Caminhando se abre caminho”. Vou para a nova missão na Igreja de Porto Velho com a consciência de que preciso ser um irmão entre irmãos e irmãs. Estamos no mês missionário e fomos acalentando em nossa Igreja essa consciência de que missão é servir. Peço a graça de Deus de poder abraçar os caminhos da Igreja que está em Porto Velho com muita humildade e docilidade. Peço a compaixão de Deus para não ser indiferente diante do grito de crianças machucadas já na sua tenra idade, o grito de jovens dizimados pela violência e pelas drogas, o grito de mulheres vítimas da violência muitas vezes dentro da própria família. Enfim, o grito dos crucificados de hoje. Não tenho respostas prontas aos desafios que a Igreja de Porto Velho precisa enfrentar, não carrego nenhuma varinha mágica, mas carrego o sonho de construirmos juntos caminhos de esperança e paz junto aos povos que vivem lá.
IHU On-Line – Quais são suas principais preocupações e desafios à frente do Cimi hoje?
Dom Roque Paloschi – Os povos originários do Brasil enfrentam ataques violentos por parte de setores político-econômicos ligados especialmente às grandes corporações, nacionais e multinacionais, do agronegócio, da mineração, da logística e da madeira, que buscam o controle das suas terras para explorá-las. Esses grupos político-econômicos não se preocupam com a Vida, com o cuidado com a terra comum. Buscam cegamente o lucro e o acúmulo privado. O Cimi, junto e como aliado dos povos indígenas, em defesa da vida destes povos, contrapõe-se a estes ataques. Muitos desafios decorrem deste contexto. Um deles diz respeito à importância de se ampliar as denúncias, nacional e internacionalmente, deste conjunto de violências e violações que estão sendo cometidas contra os povos indígenas no Brasil, demonstrando quem e quais são os objetivos dos responsáveis por este processo. Um desafio fundamental é o de contribuir para que a articulação e a mobilização dos povos em defesa de suas vidas sejam fortalecidas e que a solidariedade da sociedade brasileira a estes povos seja ampliada. Enfrentar as perseguições decorrentes dessa opção em defesa da vida dos povos indígenas também se tornou um importante desafio, especialmente a partir da “CPI do Cimi” criada pela Assembleia Legislativa e conduzida por fazendeiros e deputados do estado de Mato Grosso do Sul.
IHU On-Line – Quais são os desafios atuais em relação à questão indígena no país hoje?
Dom Roque Paloschi – Creio que a resposta anterior nos ajuda, mas os povos indígenas enfrentam uma luta desigual, a força das grandes corporações vem solapando os direitos conquistados com a Constituição Cidadã de 1988. Podemos dizer que em todo o país os povos indígenas estão rodeados pelo latifúndio e pelas Propostas de Emendas à Constituição (PEC), que são subterfúgios para desmontar as conquistas. Sentimos que falta uma posição mais decidida do governo central. A força do grande capital e do agronegócio procura encaminhar os povos indígenas para o extermínio.
IHU On-Line – Qual é a atual situação dos índios Yanomami que vivem em Roraima? Quais são as principais dificuldades que eles enfrentam?
Dom Roque Paloschi – O povo Yanomami não está fora do contexto dos demais povos originários do Brasil, mas de modo particular eles enfrentam um avanço cada vez mais acentuado do garimpo clandestino, com a consequência de que muitas das doenças que chegam são fatais à saúde deste povo. A saúde indígena está deixando muito a desejar. Não se faz saúde indígena só removendo os doentes até a capital, é fundamental as ações básicas nas malocas. Também a questão da educação indígena passa por um grande processo de discussão.
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Não ao Genocídio dos Povos Indígenas.
O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou no último dia 15, liminar na Ação Cível Originária (ACO) 2762, ajuizada por um cidadão do município de Palhoça (SC) com o objetivo de declarar a nulidade da demarcação de Terra Indígena Morro dos Cavalos (SC). O relator apontou que não estão presentes os requisitos para a concessão da medida cautelar: plausibilidade jurídica (fumus boni iuris) e risco de dano pela demora (periculum in mora). A decisão foi publicada ontem (26) no sítio eletrônico do STF.
Bispos, leigos/as, religiosos/as e organismos do Regional Noroeste da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunidos na 9ª Assembleia Geral deste Regional (que abrange as dioceses de Rondônia, Acre e Sul do Amazonas), realizada entre os dias 16 e 18 de outubro de 2015, em Porto Velho, no estado de Rondônia, divulgaram documento final em que manifestam preocupação com as ameaças de violência à população do campo e aos agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT), aos indígenas e aos indigenistas e seus respectivos órgãos, como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), às organizações dos povos indígenas da Amazônia e outras entidades comprometidas com a dignidade, a paz e a justiça.
A fala do deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC) na reunião da Comissão Especial da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, realizada na última quarta-feira (21) continua causando reações entre os povos indígenas. Além de afirmar que povos indígenas do seu estado são favoráveis à PEC 215, ele teria utilizado a expressão “índio genérico” para se referir aos indígenas. No dia seguinte (22), os povos Xokleng Laklãnõ, Kaingang e Guarani, as três etnias que ainda resistem em Santa Catarina, divulgaram uma Carta Aberta à População em que explicitaram repúdio à declaração do parlamentar. 
O desabamento do teto do refeitório no local de alojamento das delegações brasileiras que participam do I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI) é realmente lamentável. Ocorrido neste sábado (24) pela manhã, resultou em três funcionários feridos. Como consequência, as refeições foram preparadas e servidas de modo precário em locais improvisados.
É deprimente estar na feira de artesanato indígena, coordenado pelo Sebrae, e me deparar com uma jovem que está vestida com uma roupa diferente que não caracteriza nenhum povo indígena. Usava um cocar indígena e estava de prontidão frente a um painel simplesmente para posar para fotos com visitantes. Me aproximei dela e perguntei de que povo era. Ela respondeu: “não sou indígena, sou modelo”. Fiquei estarrecida com tamanho desrespeito. Quantas mulheres indígenas lindas ocupam aquele espaço e não são vistas, muito menos consideradas pelos organizadores do evento. Contrataram uma modelo para posar de índia!!!.”
Na semana em que acontece a abertura do I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, lideranças denunciam na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), o genocídio de seus povos em várias regiões do Brasil e, principalmente, no Mato Grosso do Sul. Neste mesmo estado, na Assembleia Legislativa, foi instalada a “CPI do Genocídio”.
No sistema capitalista de produção a humanidade só tem sentido se estiver a serviço das coisas. Da mesma forma, os trabalhadores em geral só são considerados como produtores de coisas que, por sua vez, farão a riqueza daqueles que são os donos dos meios de produção. A vida da pessoa que produz coisas para os donos das empresas ou das terras não tem a menor significação. Ela só vale enquanto estiver em condições de produzir e gerar lucro. Se não estiver girando essa roda, a pessoa em si não importa. Essa é uma verdade inquestionável dentro do sistema capitalista. E é por isso que pessoas como os índios, por exemplo, não tem a menor importância para quem defende esse sistema. Para essas pessoas, o índio é um inútil, não produz coisas, não garante lucro, logo, é passível de ser exterminado.
Por isso os deputados querem fazer passar a PEC 215. Com essa mudança na Constituição, eles poderão – representando os interesses dos latifundiários – reverter demarcações já feitas e impedir que novas demarcações sejam efetuadas, expulsando os indígenas de seus territórios históricos ou não permitindo que eles se mantenham nas terras originárias. Para esses senhores e senhoras que representam os poderosos, no Brasil não existem mais índios, eles são pessoas “índios genéricos”, como disse um representante de Santa Catarina, Valdir Colatto (PMDB). E o que significa essa expressão? O que seria um “índio genérico”? Alguém que não é mais índio, ou alguém que só aparenta ser? Para o deputado, índio genérico seria aquele que fica usando celular e o verdadeiro é o que está escondido na mata. Ou seja: para ele, bem como para seus parceiros, qualquer um desses “índios” é um problema. Tanto o que está na mata, atrapalhando o progresso, como o que usa celular, porque está se apropriando de um equipamento de “branco” para fazer a luta.
O certo mesmo era que todos os trabalhadores e toda a gente empobrecida se juntassem na defesa das causas particulares para que dessa defesa nascesse a força para mudar o todo. Hoje são os índios que estão ameaçados, amanhã seremos nós, e cada um em particular. Quando a Câmara define que a universidade pública pode cobrar pela pós-graduação, ela está colocando à margem milhares de nós. Quando decide que mulher estuprada não pode abortar, coloca à margem outras milhares de pessoas. Quando insufla o ódio religioso, a mesma coisa e assim por diante. A lógica do poder é dividir aqueles que podem ser os potenciais inimigos. Eles que lutem entre si. Enquanto isso eles avançam. 
Reunidos no município de Chapadinha, no Maranhão, nos dias 17 e 18 deste mês, aproximadamente trinta mil romeiros e romeiras participantes da 12ª Romaria Estadual da Terra e das Águas denunciaram também no documento final “as desigualdades provocadas pelo modo de produção capitalista; um modelo dito de "desenvolvimento" que estimula sonhos e privatiza os lucros; que expulsa e inviabiliza a permanência das comunidades tradicionais, dos povos indígenas, das famílias de camponeses e camponesas, das quebradeiras de coco, dos ribeirinhos, dos praianos nos seus territórios. E abre as portas para o empresariado fechando os olhos para as necessidades do povo”.