• 29/02/2016

    Caciques do povo Terena de Miranda (MS) repudiam convocação de “falso cacique” para oitiva da CPI do Cimi

    Com o retorno das atividades da CPI do CIMI na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, após a recente decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, a Presidente da CPI, a Deputada ruralista Mara Caseiro (PMB), convocou o indígena Terena Fábio Lemes para ser ouvido na sessão do dia 24 de fevereiro de 2016.

    O referido indígena foi descrito pela CPI como sendo o cacique da Aldeia Argola, localizada na Terra Indígena Cachoeirinha, município de Miranda, MS. Para esta oitiva, foi determinado pela presidente Mara Caseiro que a sessão ocorresse em sigilo, pois o indígena alegou que estava sendo ameaçado.

    Após a notícia da convocação do indígena, oito caciques do povo Terena das Aldeias localizadas no município de Miranda produziram documento assinado (na imagem) repudiando a convocação do indígena Fabio Lemes, afirmando que o mesmo não é o cacique legítimo da Aldeia Argola, e sim o Terena Edson Candelário. Segundo os Caciques Terena o comportamento do Sr. Fabio configura-se como uma "falta de respeito (…), por se passar de cacique, sendo que ele não faz parte da liderança local”.

    O documento produzido pelos Terena foi recebido em 25/02/2016 pelo Chefe de Gabinete da Deputada Mara Caseiro, Sr. Clóvis Aparecido Motta, e as lideranças aguardam um posicionamento da parlamentar.

    Em relação à CPI do CIMI, diversas organizações dos movimentos sociais e indígenas de MS, além de outras regiões do Brasil e do mundo, já manifestaram publicamente seu repúdio e indignação pela sua instalação, pois entendem que a mesma tem sua natureza totalmente parcial e maculada pelos interesses políticos e pessoais de vários parlamentares, aliados da classe ruralista, especialmente dos deputados ruralistas Mara Caseiro e Paulo Correa, e trata-se de mais uma tentativa de criminalizar não só o CIMI, mas a todos e todas que se colocam na defesa dos direitos históricos e constitucionais dos povos indígenas e dos mais pobres.

    Segue abaixo o texto do documento elaborado pelos Caciques Terena de Miranda-MS:

    Miranda-MS, 24/02/16.
    Ao CPI DO CIMI.

    Senhor(a)
    Encaminho a Vossa Senhoria os nomes dos Caciques legítimos do município de Miranda-MS da aldeia (Cachoeirinha, Argola, Moreira, Passarinho, Babaçu, Lalima, Morrinho, Lagoinha e Mãe Terra ) devidamente assinados. Repudiamos a atitude do Senhor Fábio Lemes que se alto declara cacique da aldeia Argola, sendo que o legitimo cacique e o senhor Edson Candelário eleito pela comunidade citada no ano de 2014. Nos cacique somos representante legal, legitimo reconhecido pela nossa comunidade como porta-voz dela, diante desse fato do depoimento no CPI DO CIMI desse cidadão não aceitamos esse comportamento e a falta de respeito, principalmente por se passar de Cacique, sendo que, ele não faz parte da liderança local. Portanto exigimos que sejamos consultados e respeitados pelos órgãos competentes. Em anexo encaminho os nomes dos caciques legítimos. Na oportunidade aproveito meu apreço e sinceros agradecimentos. Respeitosamente,

    Cacique Marcos de Arruda, Aldeia Cachoeirinha.
    Cacique Edson Candelário, Aldeia Argola.
    Cacique João da Silva, Aldeia Lalima.
    Cacique Olicio da Silva, Aldeia Moreira.
    Cacique Antonio Marcos da Silva, Aldeia Passarinho.
    Cacique Joãozinho Felipe, Aldeia Lagoinha.
    Cacique Milton Raimundo, Aldeia Morrinho.
    Cacique Zacarias Rodrigues, Aldeia Mãe Terra.

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  • 29/02/2016

    Aty Guasu critica proposta da Funai de novas reservas e reafirma continuidade das retomadas

    Os Guarani e Kaiowá, sobretudo durante o século XX, foram retirados à força das terras em que viviam para serem amontoados em reservas. De forma cínica, as áreas desocupadas foram consideradas devolutas e então oferecidas pelo Estado brasileiro aos colonos vindos, sobretudo, da região Sul do país. Há cerca de 30 anos, os indígenas, atendendo ao pedido dos Ñanderu, decidiram retornar aos territórios tradicionais que lhes foram tirados décadas antes.

    O Conselho da Aty Guasu, principal instância política do povo Guarani e Kaiowá, fez memória deste erro desastroso do Estado brasileiro ao afirmar, depois de encontro realizado no tekoha de Pyellito Kue, no último dia 21, que não aceitará a recente proposta da Fundação Nacional do Índio (Funai) de criar novas reservas aos Guarani e Kaiowá, suspendendo todos os trabalhos, em estágios avançados, de demarcação das terras indígenas reivindicadas.  

    “Exigimos que a Funai e o governo respeitem a demarcação de nossas terras por tradicionalidade, mantendo os estudos e voltando imediatamente a garantir o andamento de regularização fundiária de todos os nossos tekoha. Exigimos também a imediata publicação do “Dourados- Amambai Peguá 1” e da “Terra Indígena de YpoíTriunfo” porque sabemos que os estudos já foram concluídos e o que impede a demarcação são decisões políticas”, diz trecho da Carta do encontro direcionada às autoridades brasileiras.

    Leia na íntegra:

     

    CARTA DO GRANDE CONSELHO DA ATY GUASU PARA AS AUTORIDADES BRASILEIRAS

    Há cerca de três anos, as famílias de Pyellito Kue escreveram uma carta e disseram ao mundo que estavam dispostas a abrir mão de sua própria vida para manter viva a luta pelo seu tekoha tradicional. Hoje, nós guerreiros e guerreiras do povo Guarani e Kaiowa, guiados pelos nossos Nanderu e Nandecy (rezadores e rezadoras tradicionais), e movidos pelo som de nosso mbaraka, viemos reencontrar as famílias resistentes de Pyellito e com elas durante os dias 20 e 21 de fevereiro realizamos uma reunião de nosso grande conselho da Aty Guasu.

    Assim como Pyellito, nós, representantes de todas as outras tekoha do Mato Grosso do Sul, continuamos afirmando que estamos dispostos a morrer pela luta pela libertação de todos nossos territórios ancestrais e que enquanto o governo não demarcar nossas terras não iremos recuar de nossas retomadas, nem mesmo um passo sequer.

    É inadmissível vermos e sentirmos que no povo de Pyellito viva confinado em 100 hectares, sendo que seu território já delimitado e publicado nos diários oficiais possui mais de 41.000 hectares. Enquanto nosso povo vive apertado, a exploração do agronegócio destrói o resto do mato, mata a Terra e polui os rios, nossos lares sagrados.

    Meditamos e refletimos sobre a situação de nossas terras, pois todos nós vivemos a mesma situação de Pyellito Kue. Hoje algumas de nossas terras estão nas mãos da Presidência da República, e ela não assina. Outras terras estão nas mãos do ministro da Justiça, e ele não declara. Enquanto isso, tanto da Presidência quanto do MJ vêm proibição de que a FUNAI possa publicar os relatórios de identificação e delimitação de mais de 50 territórios de nosso povo, que permanece em situação de acampamento, morrendo gente nas beiras de rodovias ou nos fundos das fazendas. Tudo isso porque o governo abraçou o agronegócio e decidiu segurar as demarcações favorecendo os ruralistas e o andamento da PEC 215.

    Além da exploração dos fazendeiros, vivemos no MS um verdadeiro Genocídio. Velhos, crianças, mulheres, todos estão nas miras dos pistoleiros que atacam à luz do dia. É lamentável que frente a esta realidade de desespero o presidente da Funai, o senhor João Pedro Gonçalves, dê entrevistas para redes públicas de comunicação e na internet afirmando que não existe Genocídio e que nosso povo não está morrendo. Isso nos enche de dor porque se trata de um deboche e de um profundo desrespeito com todos nossos lutadores e lutadoras que deram suas vidas em atos de coragem pelo nosso futuro e pelo futuro de nossos filhos.

    João Pedro, ao contrário, não demonstra coragem enquanto permanece parado e calado frente ao maior e pior desmonte que a Funai está sofrendo nas últimas décadas. Soubemos, sem poder acreditar, que para reduzir pagamentos e com certeza para manter o benefício do agronegócio, Dilma e o ministro da Justiça, José Cardozo, ordenaram que a Funai pague toda a conta.

    Querem cortar 40% das já miseráveis verbas da Funai e querem demitir 130 assistentes e fechar 30 CTL’s no Brasil. Com isso serão demitidos antropólogos e pessoas que têm papel fundamental junto a nossa tekoha. Dessa forma, além do genocídio da bala esta medida nos condena a sofrer o genocídio institucional abandonando nosso povo; junto a ele, um órgão de apoio sem estrutura para enfrentar condições desumanas de vida.

    Nós, lideranças Guarani e Kaiowa, decidimos que lutaremos com toda nossa força contra este desmonte criminoso.

    O governo deveria honrar a C.F de 1988, as convenções internacionais e seu compromisso com o nosso povo fortalecendo a Funai, ao invés de acabar com o órgão e jogar uma pá de cal sobre centenas de túmulos pelo Brasil. Se estes cortes ocorrerem, teremos que ocupar Brasília e reverter esta situação no pau e na luta.

    Como se não bastasse os ataques que a Funai sofre do resto do Executivo, João Pedro admitiu para coordenar as demarcações o senhor Valter Coutinho. Sabemos que Coutinho continua afirmando que “não existem terras tradicionais dos Guarani” e que “os estudos de Terra no MS devem parar e serem revistos”, que “os Peguá devem ser suspensos” e que “para os Kaiowa e Guarani devem ser criados reservas ou módulos de 500 a 2000 hectares”, desrespeitando nosso direito originário e constitucional da tradicionalidade.

    Com isso, se transforma em solução o que para nós sempre foi a origem de nossa desgraça. Em uma clara política de “prender morto”, Coutinho apresenta como solução as reservas que são as raízes de nossos problemas históricos e sociais. As posições de Coutinho não são de se estranhar. Nosso povo tem boa memória e conhecemos bem o seu nome. Nos anos 90 ele foi responsável pela demarcação de pequenas terras que hoje sofrem com a falta de espaço e também interveio diretamente contra outros processos de demarcação dos povos Guarani, como no caso de nossos parentes Mbya da terra de Morro dos Cavalos, em Santa Catarina.                                    

    Com Coutinho não queremos nem conversa. Exigimos a imediata remoção desse sujeito. Exigimos também que a Funai e o governo respeitem a demarcação de nossas terras por tradicionalidade, mantendo os estudos e voltando imediatamente a garantir o andamento de regularização fundiária de todos os nossos tekoha. Exigimos também a imediata publicação do “Dourados- Amambai Peguá 1” e da “Terra Indígena de YpoíTriunfo” porque sabemos que os estudos já foram concluídos e o que impede a demarcação são decisões políticas.

    Denunciamos também a Sesai. O órgão continua mentindo para o nosso povo e seus representantes dizem que não podem implementar medidas de saúde e saneamento em áreas de conflito fundiário. Por conta disso, duas crianças morreram em Kurusu Amba nos últimos meses. Isso acontece igualmente na educação, onde centenas de crianças ficam sem escola porque o estado do MS e os municípios usam a mesma desculpa. Ambos os órgãos contrariam as leis que garantem saúde e educação para todos por questões humanitárias, independentemente da situação da terra.

    Em relação aos ruralistas do Congresso Nacional, alguns juízes, alguns ministros da segunda turma do STF e dos parlamentares ligados ao agronegócio do MS agem como inimigos declarados dos povos indígenas, garantindo que o plano de mudar a Constituição e  acabar com nosso direito através de CPIs, PECs e o marco temporal, mas não triunfarão porque desde o nossos velhinhos até nossos filhos recém nascidos resistirão até a libertação definitiva de todos os nossos territórios, de nossa vida e de nossa cultura ancestral. Nem um passo atrás.

    Grande Conselho Aty Guasu do povo Guarani e Kaiowa

    Pyellito Kue, 21 de fevereiro de 2016

     

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  • 26/02/2016

    Funai e Incra em situação de abandono

    Num governo de coalizão à direita as causas sociais são, inegavelmente, aquelas mais drasticamente afetadas, especialmente quando se prioriza, nos cortes de recursos públicos, retirar os poucos benefícios destinados aos pobres para com eles alimentar o caixa da lucratividade política e preservar o sistema financeiro. Para a governabilidade de coalizão, se impõe o envolvimento de um governo democraticamente eleito à politicagem e aos interesses econômicos.

    Em tal contexto, a presidente da República Dilma Rousseff – assim como seu partido político -, com medo de definhar e afundar na areia movediça dos especuladores da economia, optou pela paralisação dos procedimentos de demarcações das terras indígenas e quilombolas. Um dos métodos adotados é a promoção do desmonte da Funai (Fundação Nacional do Índio) e do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) – alvos de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara dos Deputados. Não por coincidência, comandada pelos parlamentares Alceu Moreira (PMDB/RS) e Luís Carlos Heinze (PP/RS), os mesmos que disseram que indígenas e quilombolas são tudo o que não prestam.

    O governo federal, preocupado com a crise econômica e política, decidiu que deveria “enxugar as folhas de pagamentos” e cortar gastos. E começou, para não prejudicar o agronegócio e os ruralistas, pela Funai e pelo Incra. Apresento como exemplo o que o governo vem fazendo com o seu órgão indigenista. De acordo com o LOA 2016 (Lei Orçamentária Anual), o orçamento para 2016 será de R$ 533,7 milhões, mas com o anúncio inerente de que deste valor ainda será cortado 40%.

    Se destaca que este é o menor volume desde 2012, quando a Funai recebeu R$ 519 milhões. Em 2013, o orçamento do órgão foi de R$ 608 milhões. Em 2014, foi de R$ 589 milhões, e em 2015 foi de R$ 639 milhões. Relacionado ao orçamento do ano passado, o de 2016 representa uma queda de pelo menos 24% (já considerando a inflação de 2015 corrigida pelo IPCA).

    Entre as ações destinadas aos povos indígenas que mais sofreram reduções, está a que prevê a "Fiscalização e Demarcação de Terras Indígenas, Localização e Proteção de Índios Isolados e de Recente Contato". Em 2014, foram gastos R$ 28 milhões (valor corrigido pelo IPCA). Em 2015, em contrapartida, foram gastos R$ 15,6 milhões, uma queda de 44%.

    Junto aos cortes de recursos, vem sendo anunciado que 104 profissionais DAS, aqueles que trabalham por contrato, serão afastados, comprometendo, dessa forma, com a capacidade técnica do órgão. Entre os profissionais a serem descartados encontram-se, não por acaso, os antropólogos, que são os responsáveis pela qualificação das defesas jurídicas e pelo desenvolvimento de ações e políticas constituídas a partir de preceitos culturais e de tradicionalidade, pilares fundamentais a serem respeitados segundo a Constituição Federal de 1988. Além de mais de 30 CTL’s – Coordenadorias Técnicas Locais –, instâncias que garantem a implementação de algumas ações e serviços junto às aldeias.

    Concomitante ao descarte de profissionais, centenas de servidores do órgão indigenista estão prestes a se aposentar. Não há perspectivas de que sejam anunciados novos concursos públicos – os últimos ocorreram em 2007 e 2010, quando foram efetivados 730 novos servidores. O quadro atual de servidores é de pouco mais de 2 mil, sendo que, destes, 1300 ingressaram no órgão indigenista no período anterior à Constituição Federal de 1988.

    Ao longo dos últimos três anos, por ordem do governo, a Funai ficou estagnada e não demarcou nenhuma terra indígena. O mesmo ocorreu com o Incra no tocante aos territórios quilombolas. O desmonte destes dois entes do Estado trouxe à tona aspectos nefastos da política: as violações aos direitos individuais e coletivos dos povos indígenas, impondo que comunidades fiquem submetidas à miséria, às margens das estradas; ao confinamento em pequenas reservas ou nas áreas de preservação obrigatória, próxima ou mesmo dentro de fazendas, onde permanecem sem terra, sem alimentos, sem água potável, sem saneamento básico; à permanente situação de fome, onde as crianças, logo ao nascerem, são condenadas a viver sem uma alimentação adequada, crescendo desnutridas e vulneráveis a todo tipo de doenças. Lutam pela garantia de seus direitos constitucionais, sendo expostos a inimigos históricos, que ameaçam, perseguem, espancam e matam.

    Lamentavelmente os “donos da política” em nosso Brasil são aqueles que também se dizem “donos das terras” – os latifundiários que criam boi e plantam soja e milho transgênicos. E são, em síntese, aqueles que recebem os investimentos públicos – 187 bilhões no Plano Safra de 2015. O governo alimenta esse setor da economia para assegurar o que considera “produtores”, independentemente da localização geográfica, fundiária e as situações jurídicas das terras desses ‘donos’– se em terras públicas, terras indígenas, terras quilombolas, terras griladas, terras tituladas, terras arrendadas. Romper com essa lógica significa o estabelecimento de um confronto (político e econômico) com aqueles que mandam e que fazem as regras para os que governam.

    A opção política da presidente da República em governar a partir de alianças marcadamente eleitoreiras, mercantilistas e antiéticas impôs aos povos indígenas e quilombolas o esvaziamento do alcance dos seus direitos constitucionais. Mais grave, o governo passou a negociar estes direitos, inclusive chegando ao cúmulo de o Ministro da Justiça anunciar publicamente que os direitos dos indígenas precisariam ser ajustados. Ajustados, logicamente, aos interesses daqueles que efetivamente têm a máquina pública sob seus domínios.

    O governo, com essa nova concepção “dos ajustes de direitos”, quer que os povos e comunidades indígenas renunciem ao direito sobre terras já demarcadas. Incentiva, com isso, os conflitos entre indígenas/quilombolas e os ocupantes de suas terras. É importante destacar que muitos ocupantes de terras indígenas reconheciam a legitimidade das demarcações e aguardavam o pagamento das indenizações (justas e devidas), especialmente na região Sul do Brasil.

    A situação fundiária é inegavelmente o centro dos conflitos – demarcação e regularização das terras – e todos os demais aspectos da política assistencial (a ser prestada aos povos indígenas e quilombolas) estão condicionados às demandas fundiárias. Ou seja, o governo, quando negligencia o direito à terra, acaba fragmentando e fragilizando o alcance das demais normas legais que assegurariam uma política diferenciada e específica para as populações. Essa concepção de política, em prática no Brasil, impõe aos povos indígenas e quilombolas a pecha de que eles são “estorvo e ou penduricalhos”, e como tal precisam ser removidos ou excluídos.

    O desmonte da Funai e do Incra está efetivamente vinculado a estas concepções. A condição de subserviência do governo aos setores que promovem oposição aos direitos indígenas e quilombolas permite os incentivos, na vida cotidiana, do preconceito, da perseguição, da criminalização e do assassinato de lideranças que lutam pela terra.

    Para aniquilar com qualquer possibilidade de que os órgãos de Estado venham a executar as políticas de demarcação das terras, de sua proteção e fiscalização, o governo federal permitiu que no Congresso Nacional os ruralistas criassem uma CPI contra a Funai e o Incra, e, concomitantemente, limitará a capacidade de intervenção das Coordenações Regionais e das Coordenadorias Técnicas Locais.          

    Caracteriza-se, portanto, uma intencionalidade de inviabilizar as ações e serviços destinados a indígenas e quilombolas em nosso país. A Funai e o Incra tornam-se inertes. Fazendo alusão à vida cotidiana, estes órgãos são como doentes tratados por um sistema de saúde tão doente quanto, que não consegue ter alternativa a não ser colocá-los numa UTI sem condições de trazer a vida a quem clama por ela.

  • 25/02/2016

    Povos indígenas do Brasil: situação cada vez pior!

    O dia começa com a sessão de pinturas, muito lindas e harmônicas fazendo com que seus rostos e corpos sejam ressaltados pela beleza de seus cocares e colares.

    Vários compromissos na agenda: contato com lideranças de partidos, diálogos com ministros, passeata no eixo monumental até a Praça dos Três Poderes, entrega de documentos e participação de sessão do pleno no Supremo Tribunal Federal (STF), e no final do dia um duro diálogo e debate com os coordenadores da Secretaria Especial da Saúde Indígena (SESAI).

    Não precisou muito tempo para que os povos originários da região por onde começou a invasão se dessem conta de que a situação é mais grave do que imaginavam.

    Trouxeram a denúncia das violências que as comunidades Pataxó e Tupinambá do sul da Bahia estão sofrendo: queima de casas, prisões políticas, incêndio de ônibus escolar, agressões de agentes ambientais, desmatamento, poluição das águas, assassinato de lideranças (mais de 30 Tupinambá assassinados nos últimos quatro anos), poluição das águas, avanço desmedido da plantação de eucaliptos e outras monoculturas. Sofrem violência até daqueles que deveriam ser seus parceiros, como os agentes ambientais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).


    Depois dos dois primeiros dias de presença nas diversas instâncias dos três poderes, a avaliação da quase totalidade da delegação Pataxó e Tupinambá é de que tudo leva a crer que a realidade, desafios, violências e negação de direitos, levarão a uma piora da situação de vida e sobrevivência dos povos indígenas do país.

    Porém, apesar desse quadro aterrorizador, longe de desanimá-los, se transforma num veemente apelo à sociedade brasileira e seus aliados.

    Barrados novamente
    Os Pataxó e Tupinambá ficaram estarrecidos e indignados ao serem barrados na portaria da Câmara dos Deputados. “Casa do povo só no nome. Nós, primeiros habitantes dessas terras, continuamos sendo barrados como se fôssemos terroristas. Isso é inaceitável”, disse o cacique José Ailton Pataxó.

    Parlamentares que participaram de audiência sobre a UNPO (Organização das Nações e Povos Não Representados, sediada em Bruxelas), presidida pela deputada Janete Capiberibe, e da CPI da Funai e do Incra, lamentaram o ocorrido: “É uma situação lamentável, contra a qual não apenas nos insurgimos, mas que esperamos em breve poder reverter”.

    Em carta entregue aos ministros do STF, expressaram suas preocupações e fizeram apelos: “Estamos passando por um período de forte e violento ataque aos nossos direitos (…) Não aceitamos o marco temporal e não aceitamos a PEC 215. Não aceitamos também que o STF anule as demarcações já feitas e nem aquelas em curso, pois assim estarão nos matando, eliminando com o que sobrou de nós. Não somos nada sem a terra e o agronegócio quer nos eliminar e acabar com nossas florestas e nossos rios (…) Somos povos desta terra e dela não podemos sair. Por isso, pedimos ao Srs. Ministros e Sras. Ministras que não apliquem o marco temporal e que não anule a demarcação das nossas terras. Ela é nossa mãe e mãe não se vende. Nós queremos nossa mãe terra viva e para isso ela não pode ser tomada de nós povos indígenas” (Brasília, 24/02/2016).

    Funai sucateada, devastada e agonizante
    A delegação indígena divulgou ainda documento em que expressam seu repúdio ao processo de sucateamento e total falta de condições da Funai para cumprir suas obrigações de demarcar as terras indígenas e protege-las conforme determina a Constituição:

    “Não se trata de defendermos apenas a Funai, e sim de defendermos os nossos direitos conquistados a duras lutas. Sentimos um grande retrocesso de nossos direitos, não podemos nos calar e deixar que nos arranquem mais essa conquista”.

    “E onde está todo o debate da Conferência Nacional Indígena, momento em que foi reforçado por várias vezes, inclusive pela Presidente da República, a necessidade do fortalecimento da Funai?”

    A esperança não morre
    Por fim, os Pataxó e Tupinambá convocam os mais de 300 povos indígenas e a sociedade brasileira para que, unidos e solidários, possam enfrentar mais esse momento difícil na luta e garantia dos direitos dos povos originários dessa país.

    Egon Heck
    Cimi Secretariado Nacional
    Brasília, 25 de fevereiro de 2016.

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  • 25/02/2016

    Manifesto: Apib classifica governo Dilma como anti-indígena e denuncia desmonte da Funai

    Frente aos mais recentes acontecimentos envolvendo a política indigenista, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) divulgou nesta quinta-feira, 25, um manifesto denunciando o que chama de “graves retrocessos” em relação aos direitos dos povos indígenas.

    O tom da nota é de revolta e classifica o governo de Dilma Rousseff como anti-indígena. Os poderes Legislativo e Judiciário, formando a trinca colonial do Estado ao lado do Executivo, também foram alvos de crítica pela Apib – caso da cruzada da bancada ruralista contra a garantia constitucional de demarcação das terras tradicionais.

    Para a organização, o ano de 2016 começa apresentando ainda mais atos de violações do Estado contra os povos indígenas. Os recentes cortes orçamentários da Fundação Nacional do Índio (Funai), de acordo com a nota, farão com que os povos indígenas paguem a conta da crise econômica com seus direitos territoriais sublimados.  

    “A garantia dos direitos dos povos indígenas reconhecidos pela Constituição Federal e Tratados Internacionais que revogaram a ideologia do assimilacionismo é responsabilidade de todo o Estado. Por isso preocupa a ofensiva sistemática promovida principalmente pelo Legislativo e Executivo”, diz trecho do manifesto.

    Leia na íntegra:

     

    MANIFESTO CONTRA A POLÍTICA ANTI-INDÍGENA DO GOVERNO DILMA

    Os graves retrocessos propostos em relação aos povos indígenas nos distintos poderes do Estado, no último ano, configuraram um cenário nada promissor para 2016, ao constituírem, mais do que ameaças, realidades que vão se concretizando na perspectiva de suprimir efetivamente direitos e consequentemente de adotar políticas de Estado voltadas a negar a existência e continuidade dos povos indígenas enquanto coletividades étnica e culturalmente diferenciadas, portanto sujeitos de direitos que num Estado verdadeiramente democrático e numa sociedade plural seriam plenamente respeitados, promovidos e protegidos de forma diferenciada.

    A garantia dos direitos dos povos indígenas reconhecidos pela Constituição Federal e Tratados Internacionais que revogaram a ideologia do assimilacionismo é responsabilidade de todo o Estado. Por isso preocupa a ofensiva sistemática promovida principalmente pelo Legislativo e Executivo. Constitucionalmente, este último tem prerrogativas, mas que ele próprio está configurando com suas decisões e práticas uma política indigenista notoriamente anti-indígena. Política essa que vai totalmente na contramão das proposições e compromissos assumidos pela presidenta Dilma Rousseff no seu discurso diante cerca de 2000 lideranças indígenas de todas as regiões do país que participavam da I Conferência Nacional de Política Indigenista, realizada em Brasília – DF, entre 14 a 17 de dezembro de 2015.

    Deixando de lado algumas imprecisões ou inverdades, como a de que “a FUNAI foi reestruturada e que tem que ser aperfeiçoada”, que “a SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena) melhorou muita coisa” e que a Lei 13.123 da Biodiversidade favorece aos povos, a Presidenta afirmou, entre outras coisas:

    “A I Conferência Nacional de Política Indigenista é um marco histórico. A partir da Conferência, nós vamos construir uma sistemática de diálogo, de propostas e ações para que as políticas indigenistas sejam cumpridas em sua totalidade. Ver o que já foi feito, o que é necessário fazer, o que não é para fazer… Política assentada no reconhecimento da diversidade étnica, que respeite aos povos indígenas, seus territórios, cultura e saberes e que reconheça o protagonismo, a autonomiados povos indígenas para a tomada de decisões… Os povos originários são fundamentais para a construção da Democracia, de um país mais justo, mais plural, quando valoriza a contribuição desses povos indígenas na formação do país”.

    A presidenta assumiu o compromisso de: dar mais atenção à saúde indígena; instituir o Conselho Nacional de Política Indigenista como espaço de diálogo; fortalecer a FUNAI; criar a Rede Brasileira de Educação Superior Intercultural Indígena, para promover o acesso e permanência dos estudantes indígenas nas Universidades; promover a formação inicial e continuada dos professores indígenas; dar continuidade às demarcações, pois “Democracia é demarcação de todas as terras indígenas”.

    No entanto, a mandatária tão logo terminou a Conferência, em 29 de dezembro, encaminhou ao Congresso Nacional mensagem vetando integralmente o projeto de lei apresentado pelo Senador Cristovam Buarque (PL 5944/2013, n. 186/08 no Senado) que visava alterar a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) em dois artigos, a favor da educação escolar indígena, no sentido de “expandir a possibilidade do uso das línguas indígenas para além do ensino fundamental (o que, diga-se de passagem, já ocorre em vários lugares) e determinar que as avaliações educacionais considerem o caráter diferenciado da educação entre povos indígenas”.

    Mas é bem antes da Conferencia que o governo já vinha agindo contra os direitos indígenas. Em 2015, ele trabalhou intensamente no Congresso Nacional pela aprovação da Lei 13.123 da Biodiversidade (que tramitou como Projeto de Lei n.º 7.735/2014 e no Senado como PLC n.º 02/2015), a qual regulamenta o acesso e a exploração econômica da biodiversidade e da agrobiodiversidade brasileiras, bem como dos conhecimentos tradicionais associados. Deliberadamente, o Poder Executivo exclui do processo de elaboração do PL, sem qualquer debate ou consulta, representantes dos Povos Indígenas, Povos e Comunidades Tradicionais e Agricultores Familiares, favorecendo visivelmente o empresariado dos setores farmacêutico, de cosméticos e do agronegócio (principalmente sementeiros), em flagrante violação da Convenção n.º 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), do Tratado Internacional dos Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e Agricultura/FAO (TIRFAA) e da Constituição Federal. Só na fase de regulamentação, o Governo movimentou-se para envolver os detentores de conhecimentos tradicionais e outros representantes da sociedade civil.

    Ainda em 2015, contrariando a vontade de diversos povos e organizações indígenas, que além de terem lutado arduamente pela sua criação, reivindicam até hoje o efetivo funcionamento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), o governo encaminhou ao Congresso Nacional o PL 03501/2015, que “autoriza o Poder Federal a instituir serviço autônomo denominado Instituto Nacional de Saúde Indígena (INSI)”, órgão que o movimento indígena considera mecanismo de privatização da saúde indígena. Mais uma vez, contrariando o direito de consulta livre, prévia e informada dos povos indígenas, conforme estabelece a Convenção 169 da OIT.

    No mês de agosto de 2015, ministros do governo já tinham negociado com o Renan Calheiros e outros senadores a chamada Agenda Brasil, supostamente voltada a tirar o país da crise econômica, mas a custa de profundos retrocessos em questões socioambientais, rifando os direitos territoriais indígenas e a regulação ambiental, em favor, obviamente, do setor de mineração, do agronegócio e de obras do PAC.

    Somam-se certamente a todas essas medidas de flexibilização da legislação indigenista e ambiental – que o governo mantém em pauta – os impactos conhecidos da Portaria 303, a paralisia na demarcação das terras indígenas e a criminalização de comunidades e lideranças indígenas, inclusive a mando de invasores de terras indígenas sob olhar omisso do governo.

    Nesse contexto, fica difícil acreditar na mudança de rumo da política indigenista que implique no real fortalecimento da FUNAI, no funcionamento do Conselho Nacional de Política Indigenista e na implementação das 216 propostas priorizadas pela I Conferência Nacional de Política Indigenista, em torno dos eixos temáticos: territorialidade e direito territorial; autodeterminação, participação social e direito à consulta; desenvolvimento sustentável de terras e povos indígenas; direitos individuais e coletivos (educação, saúde etc); diversidade cultural e pluralidade étnica; direito à memória e verdade.

    O DESMONTE DA FUNAI

    Fica mais difícil ainda confiar no governo quando ele próprio, por meio do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), determina o desmonte do órgão indigenista, casual ou propositalmente na perspectiva almejada pela bancada ruralista, que teve que criar uma CPI da FUNAI e do INCRA para consumar os seus propósitos.

    O ano de 2016 começou com o anúncio de um corte de R$ 5 milhões no orçamento da FUNAI, que de R$ 144 milhões, totalmente executados em 2015, baixou para este ano a R$ 139 milhões, sem contar com os cortes que ainda poderão ser feitos. O governo quer ainda um corte de 13% nos DAS, o equivalente a 104 cargos na FUNAI, com impacto imprevisível na estrutura e no trabalho administrativo da instituição, tanto na sede quanto nas Coordenações Regionais. Concretamente, o Plano prevê a extinção de 41 Coordenações Técnicas Locais (CTLs) e 35 cargos de assistentes de coordenação, coincidentemente ocupados por indígenas. Esta nova proposta de reestruturação mais uma vez não foi discutida nem com as Coordenações Gerais da sede, nem com as Coordenações regionais e com os servidores, muito menos com os povos e organizações indígenas.

    A APIB reivindica do governo mais coerência entre seus propósitos – apregoados pela própria presidenta da República durante a I Conferência Nacional de Política Indigenista – e suas ações, que deveriam contribuir para o fiel cumprimento de suas prerrogativas constitucionais, para a devida proteção e promoção dos direitos indígenas.

    Por fim, a APIB conclama os povos e organizações indígenas, e os segmentos aliados da sociedade, para que continuem mobilizados na defesa desses direitos hoje gravemente ameaçados e atacados nos distintos âmbitos do Estado e por setores poderosos da sociedade brasileira.

    Pelo direito a continuarmos vivos enquanto povos.

    Brasília – DF, 24 de fevereiro de 2016.

    Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB Mobilização Nacional Indígena

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  • 22/02/2016

    “Sepé é um modelo de lutador em prol de uma terra que clama por respeito”

    No dia 9 de fevereiro, terça-feira de Carnaval, cerca 12 mil pessoas, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, participaram da 39ª Romaria da Terra, em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. No final de semana, ocorria no mesmo município o 10º Encontro Sepé Tiaraju, que reuniu cerca de 6 mil indígenas dos povos Guarani Mbya e Avá do sul do Brasil e da Argentina, Kaiowá e Ñandeva do Mato Grosso do Sul e do povo Kaingang.

    A celebração da Romaria, que teve como temática “Cuidar da terra, casa comum”, foi feita pelo arcebispo de Porto Velho (RO) e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Dom Roque Paloschi.

    Na cidade que é considerada o coração do latifúndio gaúcho, dom Roque lembrou aos romeiros o legado de Sepé Tiaraju, guerreiro Guarani que resistiu aos impérios de Portugal e Espanha e foi massacrado, ao lado de 1500 companheiros, na localidade da Sanga da Bica, também em São Gabriel. Dois dias antes, completavam-se 260 anos do assassinato de Sepé Tiaraju, conhecido popularmente como São Sepé e, segundo dom Roque, “canonizado pelo senso de fé do povo gaúcho”.

    “Sepé é um modelo de lutador em prol de uma ecologia, de uma Terra sem Males, de uma terra que clama por respeito e não ser envenenada”, afirmou Dom Roque. “São Sepé não fez guerra de conquista, apenas em seu direito legítimo de defender o seu povo, a sua história, a sua cultura, as suas tradições. Nós também estamos aqui porque não queremos guerra, mas queremos terra”.

    O simbolismo que carrega a história de Sepé Tiaraju entre os povos indígenas e as pessoas que ainda lutam pela terra e por seus direitos no campo foi também lembrado na celebração por Dom Roque. “Sepé é símbolo de todos aqueles e aquelas que deram suas vidas para o povo, para que o povo tivesse mais vida. Nestes 260 anos de martírio de Sepé e seus companheiros, muitos outros Sepés foram mortos pelos mesmos interesses econômicos”.

    Assista, abaixo, ao vídeo da fala de Dom Roque durante a 39ª Romaria da Terra, produzido pelo coletivo Correria:

    Carta da Romaria
    Na semana seguinte à romaria, foi divulgada a Carta da 39ª Romaria da Terra do Rio Grande do Rio Grande do Sul, que pode ser acessada clicando aqui.

     

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  • 22/02/2016

    Pataxó e Tupinambá em Brasília: continuando a luta

    Tudo começou há mais de cinco séculos. Quando o ávido Cabral já estava meio desanimado de chegar às Índias, foi surpreendido por um monte. Não se conteve e gritou: “Terra à vista”! Lá em terra, do alto do Monte Pascal, os índios Pataxó também gritaram: “invasores à vista”. Depois daquele instante fatídico, não tiveram mais sossego. A invasão se consolidou e a violência só aumentou! Os Tupinambá forma exterminados aos milhares. Só a resistência, sabedoria e espírito guerreiro é que possibilitou a  sobrevivência.

    Hoje, uma delegação de 44 caciques e guerreiros estão novamente em Brasília. A capital federal, no planalto central, ainda meio sonolenta, com as pernas bambas, depois de um longo recesso que se prolongou até depois do carnaval, aos poucos vai retomando suas lutas e disputas políticas. Os índios não poderiam estar ausentes. E simbolicamente refazendo os caminhos da resistência, os Pataxó e Tupinambá são a primeira delegação neste início de ano a chegar em Brasília. Além de algumas agendas e denúncias sofridas nos últimos dias e anos, também estarão lutando contra a PEC 215, o PL 1610, o sucateamento da Funai, a portaria 303 da AGU e outros projetos anti-indígenas em pauta no Congresso e no Executivo.

    Neste início de 2016, eles foram vítimas de contínuas violências ligadas particularmente às suas lutas pela terra, retorno a territórios tradicionais (retomadas) e questões de terras que vão se arrastando por anos e décadas.  É um longo e secular calvário.


    De cabeça erguida
    Diante da conjuntura agressivamente anti-indígena, as reações nos debates não foram desanimadoras, pelo contrário, quanto maiores os desafios, mais cresce a união e a resistência. “Não podemos esmorecer, baixar a cabeça. Pois é isso que nossos inimigos querem. A situação não está brincadeira. Somos vigiados 24 horas por dia. O governo quer acabar com nós índios. Somos povos resistentes e nos reforçamos com Deus, presente em nossas lutas. A batalha vai ser grande. Mas não vamos baixar a cabeça. Espancaram guerreiros nossos, prenderam e nos ameaçam permanentemente. Estamos em luta pelos nossos direitos”, afirmou com firmeza e convicção um dos caciques.

    Com grande confiança e autoestima, os 44 Pataxó e Tupinambá, representantes de 45 comunidades indígenas do sul da Bahia, estão em Brasília para dar continuidade às lutas pelos direitos dos povos indígenas e de suas comunidades. “Enquanto tiver fôlego de vida, estaremos lutando. Se estava ruim, pior vai ficar. Isso nos leva a uma união maior para os enfrentamentos desse ano que começa”, expressou uma das lideranças.

    Desta vez veio um número expressivo de jovens, que, segundo os caciques, têm que ir assumindo a luta, pois os velhos caciques já estão com menos forças. “A juventude não é o amanhã, é o agora”.


    A mãe terra está gritando
    “Os povos indígenas estamos gritando pela mãe terra. Temos uma preocupação grande com a mãe terra. Ela está gritando. Os rios estão secando, as matas sendo derrubadas, as fontes envenenadas. Não estamos sendo ouvidos. É uma tristeza”, lamentou um dos caciques.

    Eles reconhecem que o aumento da confecção de artesanato está levando comunidades indígenas a também pressionarem e destruírem a floresta. Precisam discutir alternativas econômicas menos agressivas à natureza.

    “Sendo que, a Federação Indígena das Nações Pataxó e Tupinambá [FINPAT] está mobilizando uma comitiva de 44 caciques e lideranças das etnias Pataxó e Tupinambá, em viagem a Brasília, com objetivo de dialogar com autoridades do Governo Federal, na perspectiva de soluções nos processos de regularização fundiária das Terras Indígenas da região. Assim como, lutar pela defesa dos Direitos Indígenas, fortalecimento do órgão indigenista brasileiro e políticas de ações de desenvolvimento social”.

    Em carta aberta à população, o movimento de articulação do povo Pataxó manifesta ”esperança de termos nosso direito territorial reconhecido após a publicação do estudo para demarcação no diário oficial da União no final de julho, [que] deu lugar ao medo e temor constante. Estamos sendo vítimas de agressões verbais, físicas, constrangimentos diariamente, e principalmente sentindo um completo abandono dos órgãos do Estado que tem o dever de garantir a ordem e a paz”.

    Texto: Egon Heck / Fotos:Laila Menezes/Cimi
    Cimi Secretariado Nacional

    Centro de Formação Vicente Canhas, 22 de fevereiro de 2016

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  • 22/02/2016

    STF suspende reintegração de posse anunciada para esta segunda em Tajasu Iguá

    O Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu no domingo (21) a liminar de reintegração de posse contra os Guarani Kaiowá do tekoha – lugar onde se é – Tajasu Iguá, no município de Douradina (MS). A polícia havia anunciado que o despejo seria feito esta segunda-feira, e os indígenas já haviam afirmado que resistiriam em sua terra tradicional.

    Acatando ao recurso ingressado pela Funai na quinta-feira (18), a decisão do presidente do STF, Ricardo Lewandowski, suspendeu a liminar do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), que determinava a reintegração de posse à empresa Agropecuária Helena Hossri. A empresa reivindica na Justiça a área das fazendas Coqueiro e Santa Helena, incidentes sobre a terra indígena.

    A decisão do presidente do STF, que ainda deve ser referendada pelo pleno do Supremo, garante a permanência das cerca de 23 famílias do tekoha Tajasu Iguá sobre seu território tradicional até que o processo de reintegração transite em julgado, e permite que os indígenas aguardem o término do processo de demarcação vivendo sobre uma parte de sua terra.

    Polícia militar esteve na área
    Na decisão que concedia a reintegração de posse à empresa Agropecuária Helena Hossri, o juiz da 1ª Vara da Justiça Federal de Dourados (MS) havia ordenado que, caso a Polícia Federal – legalmente responsável por lidar com questões ligadas a povos indígenas – se recursasse a cumprir o mandado de reintegração de posse, a Polícia Militar deveria realizá-lo mesmo que sem a presença dos federais.

    Segundo os indígenas de Tajasu Iguá, a Polícia Militar havia entrado na área da retomada, na quinta-feira, fotografando as pessoas e as casas da comunidade.

    Retomada
    Em julho de 2015, um grupo de famílias Kaiowá retomaram 75 hectares do tekoha Tajasu Iguá. Após a ocupação, os indígenas sofreram um ataque violento de pistoleiros, mas conseguiram permanecer na área.

    A área retomada é parte da Terra Indígena Lagoa Rica/Panambi, já identificada, delimitada e reconhecida pelo estado brasileiro em 2011. Após a publicação do relatório, a demarcação ficou suspensa por três anos, em função de uma disputa judicial instaurada pelo Sindicato Rural de Itaporã. Em 2014, o TRF-3 determinou que os procedimentos demarcatórios deveriam ser retomados, cancelando a suspensão. Totalizando 12,1 mil hectares, a homologação, contudo, nunca foi concluída, e os indígenas ocupam menos de 350 hectares da área total.


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  • 19/02/2016

    Guarani Kaiowá: PM esteve em aldeia com despejo marcado

    Segundo indígenas, a Polícia Militar (PM) esteve nesta sexta, 19, no tekoha Tajasu Iguá, comunidade Guarani Kaiowá ameaçada de despejo. Os indígenas permanecem no local e afirmam que irão resistir à ação policial, prevista para ser realizada na próxima segunda, 22, conforme anunciado pela Polícia Federal (PF).

    Também na quinta, a Fundação Nacional do Índio (Funai) recorreu da decisão de primeira instância, por meio de um pedido de suspensão de segurança, para que seja cassada a decisão do juiz da 1a. Vara da Justiça Federal de Dourados (MS).

    Em decisão incomum, o juiz da 1a. Vara ordenou que, caso a PF – legalmente responsável por lidar com questões ligadas a povos indígenas – “se recursar-se” a cumprir o mandado de reintegração de posse, a PM deverá realizá-lo mesmo que sem a presença dos federais. As informações são das lideranças Guarani Kaiowá do local.

    Segundo uma liderança indígena, a Polícia Militar entrou na área da retomada, fotografando as pessoas e as casas da comunidade.

    Retomada
    Em julho de 2015, um grupo de famílias Kaiowá retomaram 75 hectares do tekoha Tajasu Iguá. Após a ocupação, os indígenas sofreram um ataque violento de pistoleiros, mas conseguiram permanecer na área.

    A área retomada é parte da Terra Indígena Lagoa Rica/Panambi, já identificada, delimitada e reconhecida pelo estado brasileiro em 2011. Após a publicação do relatório, a demarcação ficou suspensa por três anos, em função de uma disputa judicial instaurada pelo Sindicato Rural de Itaporã. Em 2014, o Tribunal Regional Federal, 3ª Região (TRF-3) determinou que os procedimentos demarcatórios deveriam ser retomados, cancelando a suspensão. Totalizando 12,1 mil hectares, a homologação, contudo, nunca foi concluída, e os indígenas ocupam menos de 350 hectares da área total.

    Leia mais:
    Guarani Kaiowá: polícia anuncia despejo para segunda-feira

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  • 19/02/2016

    Indígenas realizam 1ª Marcha pela Educação Escolar Indígena no Amazonas

    Por volta das sete horas da manhã de quinta (18), mais de 800 indígenas iniciaram a Marcha pela Educação Escolar Indígena, em Manaus. Eles eram de 24 povos vindos de 26 municípios do interior do Amazonas. A partida se deu no Centro Cultural Povos da Amazônia, localizado no Polo Industrial de Manaus. No percurso eles teriam agendas na Secretaria de Estado da Produção Rural (Sepror), na Secretaria de Estado da Educação (Seduc), na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), na Secretaria Municipal de Educação (Semed), no Instituto Federal de Educação (Ifam) e na Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

    No dia anterior, eles haviam se reunido no Parque do Mindu, na Zona Centro Sul de Manaus, onde finalizaram os documentos a serem entregues para as instituições por onde passaram.

    Antes dos trabalhos em grupo, eles tiveram um momento para análise da conjuntura, do qual participaram o Secretário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto, Silvio Cavuscens (Secoya) e João Neves (Coiab).

    O evento foi organizado pelo Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (Foreeia), com apoio de várias entidades. O pesquisador e diretor do Departamento de Ações Afirmativas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e um dos organizadores da Marcha, Gersem Baniwa, destacou que foi a primeira manifestação construída e financiada pelos próprios professores indígenas do Amazonas. “Isso tem grande importância para o movimento porque afirma nossa autonomia e tem o potencial de fazer o movimento avançar e se fortalecer cada vez mais”, diz Gersem.

    Gerência da Educação Escolar Indígena
    O professor Alcilei Vale Neto, do povo Mura, deverá assumir a Gerência da Educação Escolar Indígena da Secretaria de Estado da Educação do Amazonas (Seduc). A garantia foi dada pelo titular da pasta, Rossieli Soares da Silva, na tarde da última quinta-feira (18), durante reunião da qual participaram aproximadamente 400 indígenas, após a da 1ª Marcha pela Educação Indígena do Amazonas, em Manaus.

    A reunião aconteceu no auditório da Seduc. Os indígenas aguardavam desde a manhã pelo Secretário Rossieli Soares, com quem haviam agendado com antecedência a reunião em que pretendiam discutir vários temas, dentre os quais a nomeação de um Gerente da Educação Escolar apontado pelos professores e demais lideranças indígenas. Na hora marcada, o Secretário não se encontrava. Os indígenas foram informados que ele teria viajado para Brasília e que voltaria no final da tarde. Os participantes da Marcha, então, decidiram acampar no local até a chegada do Secretário.

    O secretário Rossieli Soares prometeu atender a maioria das reivindicações dos indígenas, ponderando que algumas não seriam possíveis, pois não seriam de competência de sua pasta ou implicariam em gerar custos para o Estado, como a transformação da Gerência da Esducação Escolar Indígena em Diretoria. Alcilei Vale Neto, novo gerente da Esducação Escolar Indígena, é membro da Organização dos Professores Indígenas Mura (Opim) e professor há quase 20 anos em Autazes (AM).


    Movimento e autonomia
    “A mobilização que aconteceu foi muito importante, porque cria as condições para se avançar na questão da educação escolar diferenciada. Para isso, lutamos para que garantir dois pilares essenciais: melhorar o quadro físico das escolas, que é uma vergonha, e transformar a educação escolar indígena em uma educação bilíngue, de fato específica e diferenciada para cada povo”, afirma o professor Gersem Baniwa.

    Para evidenciar os problemas físicos que a educação indígena enfrenta no Amazonas, Gersem cita que 630 das 1000 escolas indígenas do estado ainda não tem prédio, funcionando de forma precária e deixando 70 mil crianças sem escola.

    A 1ª Marcha pela Educação Escolar Indígena no Amazonas aconteceu pouco tempo depois do veto da presidenta Dilma Rousseff ao Projeto de Lei (PL) 5.954-C, de 2013, que poderia fortalecer o uso de línguas indígenas nas escolas e universidades, assim como de métodos próprios de aprendizagem e avaliação.

    “Perdemos a batalha, mas não a guerra”, afirma Gersem. “A lei poderia ter fortalecido o direito dos povos indígenas à educação diferenciada e ao uso de suas línguas, mas o veto a ela não derruba a obrigação de que instituições respeitem o que já está estabelecido na Constituição”.

    Um dos saldos positivos da Marcha realizada nesta semana, para Gersem, foi a retomada da organização do movimento indígena no Amazonas, tendo a autonomia como um princípio fundamental.

    “Os professores que vieram para a marcha trouxeram pajés, trouxeram agentes de saude. Eles entenderam que, para avançar na educação, precisa-se avançar como movimento. Conseguimos trazer 800 indígenas para Manaus, mesmo com todas as dificuldades de deslocamento que existem aqui e basicamente com financiamento nosso, dos próprios indígenas. Queremos voltar a dar nossos passos, há quase duas décadas não fazíamos uma mobilização como essa”.

    A compreensão sobre a importância de articular as diferentes demandas e reivindicações dos povos foi um dos frutos desta mobilização. Como resultado disso, o Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (Foreeia) passou a incluir também a temática da saúde indígena, ampliando seu escopo.

    “As autoridades nos receberam, foi um bom começo. Vamos marcar de perto, ano a ano. Vamos continuar batalhando”, afirma o professor Gersem Baniwa.

    J. Rosha/Assessor de Comunicação do Cimi Norte I e Tiago Miotto/Assessoria de Comunicação do Cimi

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