• 11/03/2016

    Seis aldeias Pataxó podem sofrer despejo na semana que vem

    Seis aldeias do povo Pataxó podem sofrer uma reintegração de posse na semana que vem, no extremo sul da Bahia. A ação movida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão ambiental do governo brasileiro, visa a retirar os indígenas de dentro de parte do Parque Nacional do Descobrimento. O parque incide sobre a Terra Indígena (TI) Comexatibá, já identificada e delimitada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) como terra tradicional do povo Pataxó.

    A ação de reintegração de posse está marcada para acontecer entre os dias 14 e 18 de março, na próxima semana. Hoje pela tarde, agentes da Polícia Federal já estiveram na região e, segundo informações obtidas pelos indígenas, na segunda-feira (14) deve haver uma reunião entre as polícias para planejar a ação de despejo.

    Seis das dez aldeias do povo Pataxó que compõem a TI Comexatibá ficam na área sobre a qual incide o parque e serão alvo da reintegração de posse. São as aldeias Monte Dourado, Alegria Nova, Cahy, Gurita, Tibá e Pequi.

    Despejo pode ser o segundo na mesma Terra Indígena em dois meses

    Parte das aldeias Cahy e Gurita fica fora da área do Parque Nacional do Descobrimento e, em janeiro, elas foram alvo de um violento despejo executado pela polícia, decorrente de outra ação de reintegração de posse contra os indígenas. Na ocasião, as casas dos indígenas foram destruídas, muitas delas ainda com seus pertences, e 75 famílias ficaram desalojadas até a decisão de reintegração ser suspensa – o que aconteceu três dias depois da ação.

    A TI Comexatibá – anteriormente conhecida como Cahy-Pequi – fica no distrito de Cumuruxatiba, município de Prado (BA) e teve seu Relatório Circunstanciado publicado pela Funai no dia 27 de julho de 2015. Nesta data, 28 mil hectares foram identificados e delimitados como pertencentes ao território tradicional dos Pataxó, e o passo seguinte – ainda aguardado – deve ser a publicação da Portaria Declaratória do Ministério da Justiça, para então ser feita a homologação e regularização do território.


    Conflito com órgão ambiental

    O ICMBio considera que os indígenas pressionam os recursos naturais do Parque Nacional do Descobrimento e colocam em risco a conservação da biodiversidade na área, em função de práticas culturais tradicionais como a extração de materiais para o artesanato e a alimentação, a caça e a agricultura de subsistência.

    “A gente tem toda a semente da biodiversidade ali para a gente reproduzir, e o órgão ambiental, desde a época que foi instalado, não fez nada para a reprodução daquilo ali, que é nosso. Então, a gente que tem essa preocupação. A gente vem lutando com o governo para ele entender que a gente tem a preocupação, os meios e técnicas para cuidar daquilo ali”, afirma Mandỹ Pataxó, da coordenação da TI Comexatibá, para quem os indígenas podem contribuir muito para a manutenção e a preservação da mata conservada na região.

    “Em momento algum, o ICMBio quis diálogo, nesses treze anos de reocupação [dos indígenas na área], porque a gente já habitava ali antes da Brasil Holanda expulsar as famílias na base da bala”, ressalta o indígena, fazendo referência à indústria extrativista Brasil Holanda (ou “Bralanda”), da qual o governo comprou a área sobreposta à terra indígena onde fica hoje o parque, com a finalidade de fazer dela uma unidade de conservação ambiental.

    “Criou-se o Parque sem nenhum contato com as populações tradicionais para averiguar qual a situação de quem habitava ali, passando por tudo isso como forma de queima de arquivo. Esse órgão ambiental não criou o diálogo com a gente para parceria de desenvolvimento ambiental na área e vem caluniando a gente, como se a gente fosse os destruidores da mata”, finaliza Mandỹ Pataxó.

    Delegação em Brasília

    Em fevereiro, os povos Pataxó e Tupinambá do extremo sul da Bahia estiveram em Brasília, lutando por seus direitos. Além de realizar uma marcha na Esplanada dos Ministérios, os indígenas realizaram uma série de reuniões com órgãos do governo para reivindicar a demarcação de seus territórios e o acesso a direitos básicos como saúde e saneamento.

    Na ocasião, buscaram também o diálogo com o Ministério do Meio Ambiente, com a finalidade de resolver o conflito com o ICMBio. Na semana passada, haveria uma reunião com os indígenas na Casa Civil para tratar do tema, mas ela acabou sendo cancelada.

    “Fomos os primeiros povos a serem contatados e estamos sendo os últimos a serem ouvidos”, afirmou, na ocasião, Mandỹ Pataxó (veja no vídeo abaixo). “Dali que surgiu toda a violência”.

    Gestão compartilhada é recomendação do MPF

    Na vinda a Brasília, os indígenas também protocolaram denúncia junto a diversos órgãos públicos e governamentais, onde denunciam a pouca fiscalização do ICMBio quanto às violações que acontecem na área de conservação e a falta de diálogo com os indígenas.

    Em agosto de 2015, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública na qual exigia celeridade do governo federal para concluir a demarcação da TI Comexatibá.

    Na peça, o MPF afirma que a morosidade do Poder Público para concluir a demarcação e dos órgãos do governo em encontrar solução para o impasse “tem contribuído para a proliferação dos conflitos na região do extremo sul da Bahia”.

    O MPF aponta que a melhor solução para o conflito referente ao Parque Nacional do Descobrimento é a criação de um Plano de Administração Conjunta pois os povos indígenas “compartilham a constatação de que a sua continuidade como povo está a depender também da integridade ambiental das terras ocupadas, a qual constitui critério fundamental para a definição de saúde, dignidade e bem-estar de seus membros”.

    A decisão de reintegração de posse que dever ser cumprida na semana que vem contra os Pataxó foi tomada em 18 de novembro de 2015 pelo Juiz Federal Alex Schramm de Rocha, da Subseção do Tribunal Regional Federal da Primeira Região de Eunápolis (BA).

    Até o momento, a Funai – que é representada judicialmente pela Advocacia-Geral da União, responsável por representar também o ICMBio – ainda não ingressou com ação judicial para suspender a liminar de reintegração de posse contra os indígenas, de maneira que o prazo segue oficialmente correndo.

    Duas ordens de reintegrações de posse durante visita da ONU

    A reintegração de posse na TI Comexatibá é a segunda que está programada para ocorrer enquanto a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos e as Liberdades Fundamentais dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, visita o Brasil. 

    Uma outra ação de reintegração de posse, esta contra o povo Guarani e Kaiowá da Terra Indígena Taquara, no Mato Grosso do Sul, deve ocorrer até o dia 17 de março – último da visita da relatora ao Brasil.

    Nos dois últimos dias, Tauli-Corpuz esteve visitando comunidades indígenas no estado do Mato Grosso do Sul. No final de semana, ela estará na Bahia, onde conhecerá a situação das aldeias do estado antes de seguir viagem para o Pará e retornar, então, para uma coletiva de imprensa em Brasília (clique aqui par saber mais sobre a visita da relatora ao Brasil).

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  • 11/03/2016

    Acampamento Guarani Kaiowá sofre ataque a tiros após visita da ONU

    Pistoleiros a cavalo e em caminhonetes realizaram dois ataques a tiros contra os indígenas Guarani Kaiowá do tekoha Kurusu Ambá, no município de Coronel Sapucaia (MS), fronteira com o Paraguai. O primeiro ataque ocorreu na última quinta, 10, poucas horas depois da comunidade ter recebido a visita da Relatora Especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos e as Liberdades Fundamentais dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz. O segundo ataque ocorreu na tarde desta sexta, 12. Ninguém ficou ferido. Os indígenas aguardam a chegada das forças de segurança pública no local.

    Segundo a liderança indígena Ava Jeguaka Rendy Ju, após a saída da comitiva da relatora – que chegou ao acampamento escoltada por três viaturas da Polícia Rodoviária Federal e Polícia Federal, além da própria segurança da ONU -, um grupo de homens armados a cavalo se aproximou da cerca que separa a área retomada da fazenda Madama, propriedade rural que incide sobre o território reivindicado, e disparou tiros contra um dos rezadores da comunidade.

    "Meu pai estava levantando uma casinha, quando ouviu um tiro. Depois eles começaram a disparar mais e meu pai saiu correndo com medo", relata Rendy Ju. No dia seguinte, à tarde, jagunços a cavalo e mais duas caminhonetes também se aproximaram da área retomada pelos indígenas, e novamente dispararam tiros contra os Kaiowá. "Não dormimos bem essa noite, estamos vigiando tudo. Nós não aguentamos mais denunciar isso. Tem que prender eles, desarmar eles. A Força Nacional tem que vir pra cá", pede o indígena.

    Em 31 de janeiro, os três acampamentos que compõem o Kurusu Ambá sofreram um ataque violento de pistoleiros em ao menos três caminhonetes, que atacaram a tiros os indígenas e incendiaram todos os barracos da comunidade. Em junho de 2015, Kurusu foi vítima de um ataque semelhante. Desde 2007, quatro lideranças do tekoha foram assassinadas no contexto da luta pela terra.

    Nesta quinta e sexta-feira, Tauli-Corpuz visitou comunidades Guarani e Kaiowá em conflito fundiário, e também teve um encontro com lideranças Terena em Campo Grande. Além do Mato Grosso do Sul, a relatora irá visitar comunidades indígenas nos estados do Pará e da Bahia.

    Outra aldeia Kaiowá também visitada pela relatora, o tekoha Taquara, no município de Juti, pode ser despejado ainda durante as agendas da ONU no Brasil, que terminam dia 17.


    Histórico

    Há quase uma década, o tekoha Kurusu Ambá está em processo de identificação e delimitação. Com os prazos estourados, o relatório de identificação sobre a área deveria ter sido publicado pela Funai em 2010, segundo Termo de Ajustamento de Conduta estabelecido pelo Ministério Público Federal em 2008. No entanto, o relatório foi entregue pelo grupo técnico somente em dezembro de 2012, e ainda aguarda aprovação da Funai de Brasília.

    Neste período, além dos ataques, os indígenas tem sofrido uma série de ações judiciais de reintegração de posse, que visam garantir a permanência dos proprietários rurais no local. Em março de 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a decisão de reintegração de posse contra Kurusu Ambá, garantindo a permanência das famílias em parte da área.

    Desde 2007, quatro indígenas foram assassinados no local – uma delas, a rezadora Xurite Lopes, de 70 anos, na mesma fazenda Madama. Nenhum inquérito sobre os assassinatos foi concluído. Os assassinos nunca foram levados a julgamento.

    O contexto conflituoso com fazendeiros dificulta, também, o acesso à saúde dos indígenas. Em janeiro deste ano, uma criança faleceu por falta de atendimento médico, segundo os indígenas. A comunidade também sofre uma grave insegurança alimentar, passando fome e bebendo água contaminada.


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  • 11/03/2016

    Agropecuarista foi condenada a devolver as vantagens obtidas com plantio em Terra Indígena no RS

     

    A Justiça Federal de Carazinho/RS recebeu nesta quarta-feira, dia 9, o pedido promovido pelo Ministério Público Federal (MPF) de Passo Fundo/RS, para o cumprimento da sentença proferida na ação civil pública n° 5003075-76.2012.4.04.7118. De acordo com a decisão judicial, que foi confirmada pelos tribunais superiores, a ré arrendou ilegalmente terras indígenas da Reserva Indígena de Nonoai, bem como articulou a concessão de financiamentos a indígenas, obtidos por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), utilizando os recursos em seu próprio benefício.

    A sentença condenou a ré a não mais celebrar qualquer contrato ou negócio jurídico com indígenas, lideranças indígenas ou grupos indígenas da Comunidade Indígena Nonoai, tendo por finalidade a prática de qualquer atividade agrícola em terras da Reserva Indígena de Nonoai, seja qual for o nome jurídico que se empreste ao contrato ou negócio jurídico, bem como a abster-se de plantar, colher ou praticar qualquer ato relacionado com a agricultura dentro da Reserva Indígena de Nonoai, pessoalmente ou por intermédio de pessoas a seu mando.

    A ré também foi condenada a pagar a quantia de R$ 1.178.460,00, a ser atualizada desde dezembro de 2008, a título de indenização em favor do Grupo Indígena de Nonoai, por danos materiais decorrentes do uso indevido das terras indígenas.

    Além do pagamento de indenização pelo uso indevido das terras indígenas, a sentença determinou a quitação de 125 empréstimos bancários em nome dos indígenas, e a indenização da comunidade por danos morais no valor de R$ 125.000,00, a serem atualizados, em decorrência da inscrição indevida de 125 índios no Serasa, pela inadimplência dos aludidos contratos.

    De acordo com o procurador da República Ricardo Gralha Massia, “agora o Ministério Público Federal está apurando outros casos de arrendamentos ilegais nas terras indígenas, para a responsabilização penal e civil de agricultores que estejam nessa mesma situação, e a identificação de indígenas que estejam organizando e facilitando esse tipo de prática”.

    Assessoria de Comunicação Social/Procuradoria da República no Rio Grande do Sul

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  • 10/03/2016

    Em plena visita da ONU, Justiça ordena despejo de comunidade Guarani e Kaiowá

    Cerca de 80 famílias Guarani e Kaiowá do tekoha – lugar onde se é – Taquara, no município de Juti (MS), estão ameaçadas de despejo. Depois de decisão da Justiça Federal no fim de fevereiro, reintegração de posse contra indígenas pode ocorrer durante visita da relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos e as Liberdades Fundamentais dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, ao Brasil.

    O desembargador Hélio Nogueira, do Tribunal Regional Federal da Terceira Região, anulou decisão anterior favorável à comunidade indígena, determinando a reintegração de posse de parte da fazenda Brasília do Sul, que incide sobre o território já identificado e delimitado como de ocupação tradicional do povo Guarani e Kaiowá.

    Ao todo, a Terra Indígena (TI) Taquara possui 9.700 hectares já reconhecidos e publicados no Diário Oficial da União pela Funai e declarados pelo Ministério da Justiça em 2010, por meio de Portaria Declaratória que está sob contestação judicial. A Fazenda Brasília do Sul, que é objeto da reintegração de posse, incide totalmente sobre a terra tradicional indígena e teve parte retomada pelos indígenas em 2003, ocasião em que o cacique Marcos Veron foi morto por jagunços.

    Em janeiro de 2016, os indígenas ampliaram a retomada do tekoha Taquara sobre a fazenda Brasília do Sul. A decisão da primeira instância havia garantido a permanência da ocupação indígena em 1.581 hectares sobre os quais a fazenda incide. Com a nova decisão do desembargador Hélio Nogueira, em segunda instância, proferida no dia 19 de fevereiro, o território garantido pela Justiça para a ocupação pelos Guarani e Kaiowá nesta área volta a ser reduzido a 96,8 hectares.

    A reintegração de posse foi notificada aos indígenas na quarta-feira (2), e o prazo para que a ação seja cumprida é o dia 17 de março, último dia da visita da relatora da ONU sobre direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, ao Brasil.


    Visita da relatora da ONU ao Brasil

    A relatora Victoria Tauli-Corpuz está no Brasil desde segunda-feira (7) e, nesta quinta, iniciou sua viagem ao Mato Grosso do Sul, para conferir a situação de comunidades indígenas no estado. Ela vem ao Brasil para verificar a situação dos povos indígenas e conferir se as recomendações feitas pelo relator anterior, que esteve no país em 2008, foram cumpridas (saiba mais). Além do Mato Grosso do Sul, até o dia 17 de março ela deve visitar comunidades indígenas nos estados do Pará e da Bahia, antes de retornar a Brasília para uma coletiva de imprensa.

    Na terça-feira (8), a relatora participou de uma audiência na Câmara dos Deputados, organizada pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara (saiba mais aqui). Na ocasião, o Secretário Executivo do Cimi, Cléber Buzatto, entregou à relatora um informe sobre os casos mais recentes de violência contra o povo Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, dando conta de pelo menos 20 ataques com uso de violência e cinco utilizando agentes químicos (veja aqui).

    Na quarta-feira (9), Victoria Tauli-Corpuz teve uma reunião com representantes do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) em Brasília, onde foi informada a respeito de violações contra os povos indígenas no Brasil e recebeu um relatório elaborado pelo Conselho, que cita alguns dos principais casos de violência ocorridos nos últimos anos.

    Nos próximos dias, a relatora deve visitar comunidades indígenas Guarani e Kaiowá e de outros povos no Mato Grosso do Sul, antes de seguir viagem para os outros estados e retornar a Brasília para uma coletiva de imprensa. Em setembro, o relatório com as conclusões e as recomendações de Tauli-Corpuz será encaminhado ao governo brasileiro e ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.

    Fotos: Ruy Sposatti/Assessoria de Comunicação do Cimi

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  • 09/03/2016

    Fazendeiros tentaram impedir encontro de relator da ONU com indígenas Guarani e Kaiowá em 2008

    Indígenas que estiveram presentes na última visita da Organização das Nações Unidas (ONU) no Mato Grosso do Sul, em 2008, relembram ataque de fazendeiros a uma reunião privada do relator James Anaya com lideranças Guarani e Kaiowá na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

    Entre os dias 18 e 25 de agosto de 2008, o indígena apache e Relator Especial da ONU para os Direitos e as Liberdades Fundamentais dos Povos Indígenas, James Anaya, visitou os estados do Amazonas, Roraima e Mato Grosso do Sul para escrever um relatório o desempenho do Brasil na proteção dos direitos humanos ligados à população indígena.

    No dia 24 de agosto daquele ano, Anaya foi ao Mato Grosso do Sul para uma reunião fechada entre o relator e cerca de 200 lideranças Guarani e Kaiowá, em Dourados. Originalmente, o encontro estava previsto para ocorrer em um auditório da UFGD localizado no centro da cidade.

    Sabendo da agenda da ONU na região, cerca de 500 fazendeiros realizaram um protesto também no centro da cidade em defesa da propriedade privada, contra os estudos antropológicos e a demarcação de terras indígenas na região.

    Segundo a liderança Kaiowá Anastácio Peralta, o local de encontro com o relator da ONU precisou ser mudado, em função da perseguição dos fazendeiros. "Eles iam atrás da gente no lugar onde tentávamos nos reunir com o relator. Então a gente acabou indo para um auditório no outro campus da UFGD, perto do aeroporto", explica.

    A mudança havia sido feita secretamente, para evitar o encontro entre fazendeiros e indígenas. Os produtores rurais, contudo, descobriram o local da reunião e foram novamente ao encontro do grupo, tentando invadir o auditório onde ocorria a atividade.

    Houve confronto entre fazendeiros e Polícia Federal, que fazia a escolta do relator da ONU e impediu a entrada dos produtores rurais no local. "Foi muito tenso. Não sabíamos se eles estavam atrás de alguma liderança indígena ou se eles queriam inviabilizar o encontro. Mas o James Anaya pode ver na frente dele um pedaço da tensão que a gente sente aqui", conclui o indígena.

    Visita da relatora da ONU ao Brasil

    Oito anos depois da visita de James Anaya, a nova relatora especial da ONU sobre direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, vem ao Brasil para verificar a situação dos povos indígenas e conferir se as recomendações feitas pelo relator anterior após a sua visita foram cumpridas (saiba mais). Ela chegou ao país na segunda-feira, 7, e permanece até o dia 17 de março. Neste período, ela deve visitar comunidades indígenas nos estados do Mato Grosso do Sul, Pará e Bahia.

    Na terça-feira (8), a relatora participou de uma audiência na Câmara dos Deputados, organizada pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara (saiba mais aqui). Na ocasião, o Secretário Executivo do Cimi, Cléber Buzatto, entregou à relatora um informe sobre os casos mais recentes de violência contra o povo Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, dando conta de pelo menos 20 ataques com uso de violência e cinco utilizando agentes químicos (veja aqui).

    Na quarta-feira (9), Victoria Tauli-Corpuz teve uma reunião com representantes do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) em Brasília, onde foi informada a respeito de violações contra os povos indígenas no Brasil e recebeu um relatório elaborado pelo Conselho, que cita alguns dos principais casos de violência ocorridos nos últimos anos.

    Nos próximos dias, a relatora deve visitar comunidades indígenas Guarani e Kaiowá e de outros povos no Mato Grosso do Sul, antes de seguir viagem para os outros estados e retornar a Brasília para uma coletiva de imprensa. Em setembro, o relatório com as conclusões e as recomendações de Tauli-Corpuz será encaminhado ao governo brasileiro e ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.

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  • 08/03/2016

    Em reunião na Câmara dos Deputados, relatora da ONU manifesta preocupação com retrocesso dos direitos indígenas no Brasil

    Na tarde desta terça-feira (8/03), a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM) realizou uma reunião com a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz. A reunião integra o roteiro de atividades previstas para a visita da relatora da ONU no Brasil, que ocorre entre os dias 7 e 17 de março e que contará com visitas a comunidades indígenas nos estados do Pará, Mato Grosso do Sul e Bahia.

    Indígenas, quilombolas, entidades indigenistas e deputados da Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas participaram da atividade desta terça. A relatora da ONU ouviu a manifestações de indígenas, de entidades indigenistas e de parlamentares e manifestou preocupação com os riscos de suspensão de direitos indígenas no Brasil.

    Na mesa coordenada pelo presidente da CDHM, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), o representante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Paulino Montejo, afirmou à relatora que os povos indígenas estão preocupados no Brasil com “o ataque sistemático de todos os Poderes do Estado contra os direitos indígenas, na perspectiva de um assustador plano etnocida e quem sabe genocida”.

    O representante da APIB mencionou a criminalização, os assassinatos e a perseguição sofrida por lideranças indígenas em todo o país e criticou o desmonte da Funai, que teve o corte de 114 cargos técnicos e o fechamento de pelo menos 41 coordenações técnicas locais anunciados pelo governo, dificultando ainda mais a atuação do órgão indigenista oficial, situação que se agrava com o fato de que cerca de 500 funcionários estão em vias de se aposentarem, conforme Paulino. “O concurso que está para acontecer não vai contemplar nem a metade dos cargos que estão sendo cortados”, afirmou.

    Ele também citou que no âmbito do Poder Legislativo há pelo menos 182 propostas anti-indígenas, dentre as quais a mais preocupante é a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que pretende transferir do Poder Executivo para o Legislativo a prerrogativa de fazer as demarcações de terras indígenas e, assim, inviabilizá-las na prática.

    Violência inaceitável contra os povos indígenas no Brasil

    O Secretário Executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cléber Buzatto, chamou atenção para o número inaceitável de assassinatos de lideranças indígenas no Brasil. “São mais de 750 lideranças indígenas assassinadas nos últimos dez anos, grande parte delas diretamente em função da disputa pela questão fundiária, e a outra parte em função da falta de terras para os povos indígenas”, afirmou.


    O Secretário Executivo do Cimi também registrou a situação difícil enfrentada pelos indígenas isolados no Brasil, a respeito da qual foi entregue um documento para a relatora (clique aqui para ler).

    “A própria Funai e o Cimi também tem dados que registram a existência de pelo menos cem grupos que vivem em situação de isolamento, muitos deles correndo risco iminente de serem extintos por completo, em função também do avanço das frentes de expansão do agronegócio no país e  outras iniciativas relativas a grandes empreendimentos na região amazônica”, afirmou Cléber.

    Também foi entregue à relatora da ONU um levantamento em relação aos ataques paramilitares contra as comunidades Guarani e Kaiowá nos últimos meses. Conforme o levantamento realizado pelo Cimi, desde agosto de 2015 foram pelo menos 20 ataques diretos contra comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul, por meio de disparos e outras formas de violência física, além de pelo menos cinco ataques com agentes químicos (clique aqui para ver o informe).

    Além destes documentos, também foram entregues edições do Relatório Violência contra os povos indígenas no Brasil (veja aqui a última edição), uma publicação sobre Empreendimentos que impactam terras indígenas e o Manifesto por uma educação descolonial e libertadora, sobre a educação escolar indígena no Brasil.

    Paralisia e criminalização

    O presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Antonio Carlos de Souza Lima, que também compôs a mesa, afirmou que existe em relação aos direitos dos povos indígenas uma “paralisia interessada” no Poder Executivo, um quadro de “ignorância sistêmica” no Judiciário e um “processo ativo de desconstrução dos direitos reconhecidos constitucionalmente no âmbito do Congresso Nacional”, chamando atenção para a criminalização constante de indígenas e, recentemente, também da categoria profissional dos antropólogos por meio da CPI da Funai e do Incra, instrumento dos ruralistas para “demonstrar” por vias tortas e com base em laudos forjados que a demarcação de terras indígenas ocorre de forma criminosa no Brasil.

    Enquanto a reunião com a relatora da ONU ocorria no Anexo II da Câmara dos Deputados, uma sessão da CPI da Funai e do Incra ocorria no mesmo prédio, em uma sala ao lado.


    No plenário, indígenas também pegaram o microfone para expressar suas preocupações e relatar as duras situações que enfrentam atualmente. O indígena Cao Gamela relatou a situação de insegurança que o povo Gamela vive no Maranhão, após a realização de retomadas de parte de seu território tradicional. “A gente está vivendo em um lugar cheio de jagunços, e o estado do Maranhão e o Estado brasileiro têm virado as costas”, disse Cao.

    “O que dói mais é a impunidade”, afirmou Rosane Kaingang. “Os inquéritos sobre os indígenas mortos em conflitos não foram concluídos, eles foram arquivados”, criticou a indígena, que também chamou a atenção para os tratados internacionais que foram assumidos pelo país e que vêm sendo cotidianamente desrespeitados pelo Estado brasileiro, a exemplo da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

    “Povos indígenas jamais podem ser considerados obstáculos”

    Victoria Tauli-Corpuz, que é indígena do povo Kankana-ey Igorot, das Filipinas, afirmou que veio ao Brasil a convite do governo, mas que também teve peso a pressão das próprias comunidades e organizações indígenas. “Estou aqui para entender melhor como os povos indígenas estão vivendo no Brasil e como os órgãos responsáveis estão lidando com essa questão”.

    A relatora também manifestou preocupação com a possibilidade de retrocesso nos direitos dos povos indígenas no Brasil, especialmente com a proposta da PEC 215 e as recentes decisões do poder judiciário que abrem precedentes para a restrição desses direitos.

    “Quais são as chances para os povos indígenas se esse poder for para o Legislativo?”, questionou. “Se o Congresso é dominado basicamente por interesses que gostariam de adquirir as terras para seus próprios interesses, então haveria poucas chances de as populações indígenas terem seus direitos a suas terras reconhecidos e protegidos. Essa é uma preocupação muito séria minha”, afirmou Tauli-Corpuz.


    Ela manifestou também a sua preocupação com a segurança das lideranças indígenas no país e das próprias comunidades indígenas nas regiões onde os conflitos são mais intensos, como o Mato Grosso do Sul. “Os ataques que vem sendo feitos não são aceitáveis”, afirmou.

    Após ouvir as manifestações de indígenas e de parlamentares, Victoria Tauli-Corpuz ressaltou que os povos indígenas não podem ser considerados “obstáculos” ao desenvolvimento do país. “Povos indígenas jamais podem ser considerados obstáculos ao desenvolvimento. Eles contribuem para o desenvolvimento nacional do Brasil e também para superar a crise ambiental que o mundo está enfrentando hoje”.

    Visita ao Brasil

    Em sua visita ao Brasil entre os dias 7 e 17 de março, além das agendas em Brasília, a relatora da ONU sobre direitos dos povos indígenas irá conferir a realidade de comunidades indígenas nos estados de Mato Grosso do Sul, Bahia e Pará. Victoria Tauli-Corpuz também vai checar o cumprimento das principais recomendações feitas pelo último relator especial, James Anaya, que visitou o Brasil em agosto de 2008. Em setembro, o relatório com as conclusões e as recomendações de Tauli-Corpuz será encaminhado ao governo brasileiro e ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.

     

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  • 07/03/2016

    Relatora especial da ONU para direitos indígenas inicia visita ao Brasil nesta segunda

    A relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, faz visita ao Brasil, entre 7 e 17 de março, para identificar as violações aos direitos e dificuldades enfrentadas pelos indígenas no Brasil. Além da capital Brasília, ela visitará os estados de Mato Grosso do Sul, Bahia e Pará.

    Na terça-feira (8/3), às 14h30, no Plenário 9 do Anexo II da Câmara, a relatora irá participar de uma reunião na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. No dia seguinte, a partir das 9h, volta ao Congresso Nacional para participar de uma audiência na Comissão de Direitos Humanos do Senado. No último dia da visita, Tauli-Corpuz fará uma coletiva de imprensa na Casa da ONU, em Brasília.

    Tauli-Corpuz também vai checar o cumprimento das principais recomendações feitas pelo último relator especial, James Anaya, que visitou o Brasil em agosto de 2008 (clique aqui para ler o relatório anterior, em inglês). Em setembro, o relatório com as conclusões e as recomendações de Tauli-Corpuz será encaminhado ao governo brasileiro e ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.

    “Avaliarei a implementação das recomendações feitas por meu predecessor, incluindo um seguimento sobre o caso da Raposa Serra do Sol, os estatutos e as propostas de emendas relativas aos povos indígenas, a demarcação e a proteção das terras indígenas, o impacto dos projetos de desenvolvimento de grande escala, bem como as atualizações relativas à saúde dos indígenas”, observou a relatora, que é do povo indígena Kankana-ey, Igorot, na região de Cordilheira nas Filipinas.

    Entre as diversas questões a serem analisadas pela relatora, está a situação dos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, povo que tem sofrido com a morosidade na demarcação de suas terras tradicionais e as violências praticadas por invasores de suas terras. Ainda na segunda (7) à noite, está prevista a participação de Tauli-Corpuz numa vigília pelos Guarani e Kaiowá, no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília.

    As violações aos direitos de povos indígenas ligadas à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte também devem entrar na pauta da relatora, assim como a situação dos indígenas Tupinambá, no sul da Bahia. Também será analisado o caso da Terra Indígena (TI) Raposa Serra do Sol, em Roraima, outra área que concentra casos de violência perpetrados por não indígenas interessados no território indígena.

    Tauli-Corpuz irá se reunir com representantes do governo, organizações da sociedade civil, militantes e instituições atuantes no fortalecimento de direitos indígenas. O documento produzido a partir da visita, além de relatar a situação dos direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos indígenas, vai conter recomendações ao governo brasileiro para aumentar o reconhecimento e a proteção dos direitos dos povos indígenas.

    “É relevante a vinda de uma relatora da ONU para monitorar a situação dos direitos dos povos indígenas no Brasil, que estão num quadro de retrocesso, pelo menos nos últimos cinco, dez anos”, analisa Érika Yamada, relatora de Direitos Humanos e Povos Indígenas da Plataforma de Direitos Humanos (Dhesca) Brasil.

    Relatoria da ONU
    A Relatoria Especial sobre Direitos dos Povos Indígenas da ONU foi criada em 2001 pela Comissão de Direitos Humanos da organização em virtude das inúmeras formas de discriminação e violações de direitos dos povos indígenas ao redor do mundo.

    Victoria Tauli-Corpuz é uma liderança indígena do povo Kankanaey Igorot, das Filipinas. Ela presidiu o Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas entre 2005 e 2010 e, há trinta anos, seu trabalho tem como foco a criação de organizações e movimentos envolvidos com povos indígenas, mulheres, o aumento da consciência social e mudanças climáticas.

    Para mais informações e solicitação de imprensa, entre em contato com Hee-Kyong Yoo (+41-22-917-9723 / +41-79-201-0119 durante a visita/ [email protected]) ou escreva para [email protected]
     
    Informações adicionais à imprensa no Brasil: Centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio) / Gustavo Barreto: (21) 2253-2211 / 98185-0582 / [email protected]

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  • 04/03/2016

    [Vídeo] Pataxó e Tupinambá do extremo sul da Bahia: “Os primeiros a serem contatados, os últimos a serem ouvidos”

    Na semana passada, entre os dias 22 e 26 de fevereiro, uma delegação dos povos Pataxó e Tupinambá do extremo sul da Bahia esteve em Brasília, dando início ao ano de lutas pelos direitos dos povos indígenas na capital federal.

    A primeira delegação indígena a cumprir agendas e manifestar-se por seus direitos e territórios tradicionais em 2016 em Brasília, simbolicamente, trouxe os povos que historicamente habitam a região onde deu-se o primeiro contato com os invasores portugueses, mais de 500 anos atrás.

    “Fomos os primeiros povos a serem contatados e estamos sendo os últimos a serem ouvidos”, afirma Mandỹ Pataxó, da coordenação da Terra Indígena (TI) Comexatibá. “Dali que surgiu toda a violência”.

    Ainda em luta pela terra

    A delegação trouxe à capital do país 48 indígenas dos povos Pataxó e Tupinambá, representando sete terras indígenas e 39 aldeias Pataxó e a Terra Indígena Tupinambá de Belmonte. Em todas estas terras, a luta pela demarcação efetiva dos territórios tradicionais destes povos ainda está presente, e a violência decorrente da demora na conclusão dos processos demarcatórios também.

    Na TI Comexatibá, por exemplo, uma violenta reintegração de posse feita pela polícia em janeiro deste ano resoltou na destruição completa da aldeia Cahy, com todas as casas e até a escola colocadas abaixo por tratores. A TI Comexatibá já é reconhecida e delimitada pela Funai, o que não foi suficiente para garantir um mínimo de segurança jurídica para os indígenas.


    Conflitos com órgão ambiental do governo

    Além disso, sobreposto a esta mesma área está o Parque Nacional do Descobrimento, mantido pelo Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade (ICNBio). Ironicamente, depois de séculos desta região sendo mantida e preservada pelos indígenas, a ICNBio quer a expulsão dos Pataxó da região, também por meio de ação de reintegração de posse e sem sequer buscar diálogo com o povo tradicional.

    A mesma situação de conflito com o órgão governamental repete-se em outra área Pataxó, a TI Barra Velha, que passa por processo de ampliação de seus limites e sobre cujo território incide o Parque Nacional Monte Pascoal. Por isso, entre as agendas dos indígenas em Brasília, esteve uma reunião com o Ministério do Meio Ambiente, onde tentaram a abertura de um diálogo com o governo para a solução do conflito.


    “Os povos indígenas estão atentos”

    Na manhã do dia 24, os Pataxó e Tupinambá do extremo sul da Bahia realizaram uma marcha na Esplanada dos Ministérios até a Praça dos Três poderes, reivindicando a demarcação de seus territórios tradicionais, contra a PEC 215 e o marco temporal.

    Em Brasília, acompanharam também uma sessão da CPI da Funai/Incra, capitaneada pelos ruralistas com a finalidade de deslegitimar a Funai e o Incra para inviabilizar a demarcação de terras tradicionais indígenas e a titulação de terras quilombolas.

    No Supremo Tribunal Federal (STF), os indígenas também protocolaram cartas pedindo aos ministros que respeitem os direitos indígenas e não utilizem a tese do “marco temporal” em seus julgamentos, como já aconteceu em três ocasiões. O marco temporal – incorporado à PEC 215 – determina que só podem ser demarcadas como terras tradicionais aquelas que estivessem sob posse dos indígenas em 5 de outubro de 1988, o que desconsidera todas as violações sofridas antes da Constituição de 1988 e a falta de autonomia dos indígenas até então.


    Por fim, os indígenas tiveram também reuniões com o presidente da Funai e com a Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena (Sesai), onde reclamaram da falta de estrutura para os atendimentos de saúde e, especialmente, no caso dos Pataxó, da falta de água potável que tem atingido as aldeias, em função das práticas agressivas do agronegócio e do plantio de eucaliptos.

    “A gente achava que ia ter impacto sobre a água em 20, 40 anos, mas os poços artesianos da região estão secando, córregos no centro da mata já não tem mais água. Rios que eram de grande influência e grande volume de água hoje estão cortados no meio com um fiozinho que você atravessa num passo”, afirma Mandỹ Pataxó.

    “Essa vinda nossa é para marcar que os povos indígenas estão atentos”, afirma Aruã Pataxó, presidente da Federação Indígena dos Povos Pataxó e Tupinambá do extremo sul da Bahia.

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  • 03/03/2016

    “O Matopiba significa a morte e nós lutamos em defesa da vida”

    Nos dias 25 e 26 de fevereiro, povos indígenas, comunidades quilombolas, dioceses, organizações e movimentos populares realizaram em São Luiz (MA) o primeiro Seminário do Maranhão sobre o Matopiba, com a finalidade de discutir sobre o programa e seus impactos socioambientais no bioma cerrado.

    O Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba (PDA Matopiba) foi capitaneado pela ministra ruralista Kátia Abreu (PMDB) e, na prática, significa a expansão da fronteira agrícola sobre o que resta de cerrado no Brasil. Segundo dados da Embrapa, o programa deve compreender 73 milhões de hectares dentro do bioma cerrado, numa delimitação territorial dentro da qual existem 28 terras indígenas, 42 unidades de conservação, 865 assentamentos e 34 quilombos.

    O Matopiba foi criado oficialmente por meio do Decreto Presidencial nº 8447, de maio de 2015, e compreende partes dos territórios dos estados do Maranhão (MA), Tocantins (TO), Piauí (PI) e Bahia (BA).

    No Maranhão, conforme a carta, o Matopiba vai impactar diretamente 14 unidades de conservação, 15 terras indígenas, 400 assentamentos e 23 quilombos, atingindo os biomas Cerrado (91%), Amazônico (7%) e Caatinga (2%).

    Na carta do Seminário, os povos, comunidades, dioceses e organizações analisam que o Matopiba apronfudará os conflitos agrários. “Ele significa a morte e nós lutamos em defesa da vida”, afirma a carta, que destaca que o Matopiba coloca em risco o acesso à água de toda a população e a sobrevivência de diversos povos e comunidades tradicionais.

    Buscando alternativas para o estado, a carta do Seminário sobre o Matopiba exige a regularização dos territórios, com a Reforma Agrária, a titulação dos territórios quilombolas e a demarcação das terras indígenas.

    Leia, abaixo, a carta na íntegra:


    CARTA ABERTA À SOCIEDADE DO I SEMINÁRIO DO MARANHÃO SOBRE O MATOPIBA

    Nós, participantes do I SEMINÁRIO DO MARANHÃO SOBRE O MATOPIBA, reunidos nos dias 25 e 26 de fevereiro de 2016, em São Luís-MA, com o objetivo de compreender melhor o Programa e seus impactos socioambientais no bioma cerrado, constatamos que:

    1. É um Plano de Desenvolvimento Agrícola – PDA, que significa a modernização agrícola para os estados do MA, TO, PI, e BA, totalizando 143 milhões de hectares de terra, dos quais 23.982.346 hectares, 72,25%, no MA, impactando diretamente 14 unidades de conservação, 15 terras indígenas, 400 assentamentos e 23 quilombos. Essa área atinge no Maranhão os biomas:  Cerrado (91%), Amazônica (7%) e Caatinga (2%).

    2. No bioma cerrado, nossa Casa Comum, “berço das águas” encontram-se os maiores aquíferos do planeta, as nascentes das três bacias hidrográficas da América do Sul (Amazônia/Araguaia – Tocantins, São Francisco e Prata), povos indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco, sertanejos e a mais rica biodiversidade brasileira.

    3. Este Plano faz parte da consolidação do sistema capitalista dirigido pelas grandes empresas (Suzano, CargilI, Bunge), agências (FMI, OMC) e bancos internacionais, subjugando o Estado brasileiro aos interesses do capital. Nesse sentido, medidas governamentais fortalecem esse sistema, como a reforma do Código Estadual de Florestas sem a devida publicidade e envolvimento dos principais atingidos; a criação da Lei n. 10.276 de 2015, que representa os interesses diretos do MATOPIBA e do agronegócio no Estado do Maranhão; e ainda a conivência dos órgãos públicos com a destruição do meio ambiente.

    4. O MATOPIBA aprofundará os conflitos agrários, pois só no ano de 2014 foram registrados 123 conflitos por terra e território, dos quais 66,67% desses na região do Cerrado. Nesse contexto, a concentração da terra, o êxodo rural e a violência contra populações do campo, das cidades, das águas e das florestas tende a aumentar, diminuindo a disponibilidade dos bens da natureza essenciais para nosso Bem Viver.

    5. O povo, no tempo de Jesus, identificou o poder do Império Romano simbolizando-o como uma besta fera que destruía a diversidade de comunidades e os seus modos de vida (cf Ap 13, 1-18). Nos tempos de hoje, o MATOPIBA se assemelha a esse monstro que se apodera do nosso cerrado, transformando-o em mercadoria para aqueles que sempre se beneficiaram dos recursos naturais, em detrimento da maioria dos maranhenses. Conscientes da trágica realidade que essa besta fera causará, exigimos: a regularização dos territórios, com a Reforma Agrária Popular, a titulação dos territórios quilombolas e a demarcação das terras indígenas.

    6. Diante do exposto, reafirmamos nossa postura contrária a implantação desse empreendimento e o nosso compromisso com a resistência e insurgência dos povos e comunidades que lutam em defesa dos direitos fundamentais, seus modos de vida e de produção que se realiza em harmonia com a natureza. Acreditamos nos princípios do Bem Viver fundamentados nas tradições dos povos indígenas, quilombolas e em outras comunidades tradicionais e na tradição bíblica cristã (cf Ap 21, 1-7 e Ap 22, 1-5) que valoriza a diversidade de culturas no campo e na cidade; defendemos que a soberania das populações tradicionais seja respeitada, criando as condições necessárias para a reprodução da vida no campo.

    Lutaremos e convocaremos toda a sociedade, assim como fizeram as Primeiras Comunidades Cristãs (cf. Ap 7,1-17), a empenhar-se conosco criando uma grande unidade, incidindo e pressionando os governos locais, estadual e federal, a fim de que o MATOPIBA seja enterrado, pois ele significa a morte e nós lutamos em defesa da vida.

    São Luís, 26 de fevereiro de 2016.

    Representantes das dioceses de Brejo, Balsas, Grajaú, Bacabal, Caxias, Coroatá, São Luís, do Regional NE V – CNBB.
    Povos Indígenas Krikati, Krenyê e Ramkokamkrá/Canela
    Moquibom – Comunidades quilombolas de Triangulo, Cruzeiro, Santa Maria
    Comissão Pastoral da Terra – Regional Maranhão
    Conselho Indigenista Missionário – Regional Maranhão
    Cáritas Maranhão
    Pastoral da Criança
    Pastoral da AIDS
    CEBI
    CEBS
    Irmãs de Notre Damme
    Sociedade Maranhense de Direitos Humanos
    Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MA
    Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco – MIQCB

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  • 29/02/2016

    A volta às aldeias Tupinambá e Pataxó

    “Voltaremos para as nossas bases, mais encorajados e mais conscientes de nossas responsabilidades, como povos indígenas, quanto a gravidade da crise no país e nossa responsabilidade em contribuir com a construção de alternativas que passem por maior justiça social, desconcentração da renda e novas formas de exercício de poder, que evitem a vergonhosa corrupção e malversação do dinheiro público”.

    Conforme a Federação das Nações Indígenas Pataxó e Tupinambá – FINPAT,  articuladora da presença da delegação indígena em Brasília, “esperamos ter dado nossa contribuição com a luta dos povos indígenas pelos nossos direitos.

    Nesse momento crítico da história do nosso país, estaremos mobilizados e dando nossa contribuição com as transformações necessárias, para que esse seja de fato um país para todos. Esperamos ampliar nossas alianças e solidariedade com as populações tradicionais e setores que lutam pelas mudanças profundas e urgentes. Voltamos para nossas comunidades e aldeias com o coração esperançoso e a certeza de que as nossas ações, contatos, debates, diálogos, pressões e enfrentamentos tornaram esse primeiro momento de mobilização nacional dos povos indígenas, neste novo ano. Lutar sempre, essa  é a nossa disposição”.

    Voltam para casa um pouco decepcionados com a burocracia e a falta de posições políticas claras e decisões efetivas diante das situações dramáticas de violências e desrespeito aos seus direitos constitucionais e originários, especialmente com relação aos seus territórios. É lamentável que funcionários de diversos órgãos fiquem uns jogando as responsabilidades para outros, resultando em omissões criminosas e violências estruturais: “Funai, Incra, Ibama, ICMBio e Sesai deveriam ter, no mínimo, o bom senso de dialogar sobre as suas posturas com relação aos nossos direitos e agirem de forma convergente e coerente”.


    Terras Indígenas e a sobreposição de Unidades de Conservação

    Uma das denúncias que vieram fazer, mais uma vez, foi relacionada ao Parque Nacional do Descobrimento (PND) e o Parque Nacional do Monte Pascoal. Dois espaços históricos e para os indígenas Pataxó, simbólicos e sagrados.

    Em documentos entregues durante os últimos anos reafirmaram as denúncias: “Os crimes que sofremos com as irregularidades permitidas pelo órgão fiscalizador estão atingindo diretamente nossos direitos originais em nossa terra e ao nosso sangue. Crimes como a garimpagem dentro da reserva, contrabando de animais silvestres, fazendas que não tem limite e desmatam tanto na reserva como nas áreas clandestinas das fazendas; serrarias ilegais operam à luz do dia sem nenhuma fiscalização do ICMBio atual; a mineradora  Monte Pascoal está em atividade degradatória extraindo o caulim e afetando os lençóis freáticos de nossas bacias hidrográficas; o eucalipto que ate lei municipal existe e a justiça não acontece; onde está a monocultura está secando todas as nossas nascentes de nossa região e novos plantios estão sendo feitos e nenhuma providência tem sido tomada para mudar essas ações criminosas”.

    No documento entregue às autoridades os Pataxó pedem que sejam punidas as violências e difamações cometidas por agentes do órgão ambiental, “que durante todo o processo que discute a terra indígena, dupla afetação e uma suposta gestão partilhada da Área do Parque Nacional do Descobrimento, vem nos ignorando e criando situações para expor a nossa imagem como se nós fossemos os destruidores e não eles”.

    Essa situação de sobreposição de unidades de conservação em terras indígenas se dá em várias regiões do país. Infelizmente, uma mentalidade muitas vezes preconceituosa impede de se fazer um processo de diálogo igualitário e respeitoso, com a valorização do conhecimento e sabedoria com relação à preservação ambiental.
    Ficou agendado com o ministro da Casa Civil um encontro para o dia 4 de março,  com a presença de uma delegação Pataxó e responsáveis pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação Biológica).


    O drama da falta de água nas aldeias

    A situação é calamitosa em algumas aldeias Pataxó e Tupinambá por falta de água para consumo da população. Quando tem é poluída, sem condições de ser aproveitada. As denúncias e soluções urgentes foram exigidas dos órgãos responsáveis pelo saneamento básico nas aldeias e mais precisamente a SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena). A ineficácia desse órgão diante dos clamores por soluções imediatas deixou os índios revoltados.

    Ficou mais uma vez a promessa da coordenação da SESAI de visitar as aldeias para perceber a gravidade da situação, e propor medidas urgentes, pois “a população não sobrevive sem água”.

    Uma das medidas estruturais sugeridas é a recuperação ambiental como única saída para que se volte a ter água de boa qualidade, de forma permanente.

    Egon Heck
    Cimi Secretariado Nacional
    Centro de Formação Vicente Canhas, 26 de fevereiro de 2016

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