• 19/08/2016

    Definida comissão e grupos de trabalho do Fórum por Direitos e Combate à Violência no Campo

    Uma comissão composta por representantes da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) está responsável por definir estratégias e mecanismos de trabalho do Fórum por Direitos e Contra a Violência no Campo.

    Essa foi a principal deliberação da primeira reunião após a reinstalação do colegiado, que reúne representantes da sociedade civil, movimentos sociais e instituições do poder público, com o objetivo de facilitar a troca de informações sobre o tema e a incidência junto aos poderes Executivo, Judiciário e o Parlamento. Durante o encontro – sediado na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) – também foi definida a criação de grupos de trabalho dedicados à questão da violência no campo, da criminalização de movimentos sociais, do sistema de justiça e dos obstáculos no acesso ao direito à terra.

    A proposta do Fórum é articular estratégias diante do agravamento da violência no campo – que somente neste ano, vitimou 36 trabalhadores rurais, de acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra. A situação se torna pior diante da fragilidade dos programas federais de proteção a pessoas ameaçadas e do aumento da criminalização dos movimentos sociais, por meio do uso de instrumentos como a Lei de Organização Criminosa (Lei Nº 12.850/2013).

    Também houve relatos da utilização de acórdão do Tribunal de Contas da União (TCU) para a exclusão de participantes de mobilizações sociais como beneficiários dos assentamentos da reforma agrária. A PFDC irá intermediar reuniões do Fórum com o TCU, para esclarecimento da questão.

    Durante o encontro, a procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat, também anunciou medidas adotadas com base nas primeiras deliberações do Fórum. Entre elas, pedido de informações ao ministro interino da Justiça, Alexandre de Moraes, acerca das razões que levaram à edição da Portaria 611/2016 – que suspendeu, por 90 dias, a realização de diversas despesas no âmbito do Ministério da Justiça e Cidadania –, e a solicitação à Casa Civil acerca da atual estrutura, condições de funcionamento e continuidade de políticas, programas e ações relativas à reforma agrária, à delimitação das terras dos remanescentes das comunidades dos quilombos e determinação de suas demarcações e à promoção do desenvolvimento sustentável dos agricultores rurais familiares.

    Saiba mais 

    Inspirado em experiência da década de 1990, o Fórum por Direitos e Contra a Violência no Campo ressurge como agente articulador dos diversos segmentos afetados pelo encolhimento dos espaços de diálogo e pela desarticulação de estruturas voltadas à questão do campo. A reativação do Fórum foi deliberada durante encontro promovido pela PFDC, a Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais do Ministério Público Federal e mais de 50 representantes de organizações da sociedade civil e de movimentos de indígenas, camponeses, pescadores, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
     

    Foto: Mídia Ninja

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  • 18/08/2016

    Incêndio na TI Arariboia aumenta e se aproxima de região dos Awá-Guajá isolados; Ibama se reúne com os Guajajara

    O incêndio que há pouco mais de 30 dias consome a Terra Indígena Arariboia, na região central do Maranhão, não diminuiu: segue crescendo. Indígenas Tenetehar/Guajajara lutam contra o fogo, mas afirmam que precisam de mais brigadas e apoio do Ibama. A situação se torna ainda mais dramática porque desde quarta-feira, 17, o incêndio “está descendo rumo aos isolados” – os Awá-Guajá em situação de isolamento voluntário.

    “A cada dia o incêndio aumenta mais. São muitos animais mortos, árvores antigas destruídas e a mata se acabando em cinzas”, informa Silvio Guajajara. Na terça-feira, 16, o Ibama enviou duas viaturas da PrevFogo, um departamento do órgão ambiental estatal destinado ao combate a incêndios em terras indígenas e áreas de proteção socioambiental. “Ainda é muito pouco. Pra combater esse fogaréu aqui precisa de mais apoio”, explica o Guajajara.

    Nesta quarta o Ibama esteve reunido com os Tenetehar/Guajajara na aldeia Zutiwa. Conforme as lideranças indígenas informaram o objetivo seria o de fazer um levantamento do que será preciso para combater o fogo e traçar um planejamento de ação das brigadas. O incêndio segue concentrado nas regiões das aldeias Angico Torto e Zutiwa, agora se espraiando para parte da área de perambulação dos Awá isolados. “Nos preocupa porque eles não tem como combater o fogo e só fazem fugir. Precisam de nossa ajuda porque é incêndio, madeireiro… tudo danando neles”, diz Silvio Guajajara.

    Em outubro de 2015, conforme monitoramento do Greenpeace, o incêndio florestal já tinha consumido cerca de 190 mil (45%) dos 413 mil hectares que constituem a TI Arariboia. “Tá queimando nos mesmos lugares e em lugares novos. Se ano passado perdemos praticamente a metade da terra pro fogo, esse ano vamos perder ainda mais se nada for feito pelo Ibama”, afirma o indígena. Uma campanha nas redes sociais organizada pelos Guajajara tenta alertar a sociedade para o que está acontecendo.

    Ao menos duas outras terras indígenas estão com focos de incêndio em outros pontos do país: a Terra Indígena Rio Formoso, do povo Chiquitano, em Tangará da Serra (MT), onde brigadistas indígenas lutam contra as chamas ao lado do Corpo de Bombeiros, e na Terra Indígena Xerente, município de Tocantinia (TO). O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou mais de 53 mil focos de queimadas e incêndios florestais no país até o último dia 5.

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  • 18/08/2016

    Grupo Krepym Katejê ameaça acampar na Seduc-MA depois de esperar três dias por reunião com secretário

    Um grupo de Krepym Katejê está há três dias em São Luís (MA) na porta da Secretaria Estadual de Educação tentando algo que se tornou comum aos povos indígenas do estado: uma reunião com o secretário Felipe Costa Camarão para que ele cumpra com os compromissos da Seduc com a Educação Escolar Indígena Diferenciada. “É um descaso tremendo a gente estar aqui tendo que mendigar algo que é de nosso direito. O secretário assinou compromisso com a gente, mas não tem palavra”, desabafa Fábio Krepym Katejê. O indígena afirma que se Camarão não recebê-los, o grupo acampará na sede da Seduc.

    Para as lideranças indígenas, o fim de um longo ciclo da família Sarney e seus aliados no Governo do Estado poderia significar, com Flavio Dino e uma coligação popular, mais atenção às questões indígenas. “Parece igual mesmo. O governo e o secretário dizem que dialogam com os povos, mas que diálogo é esse de deixar a gente com a cara na porta tendo nas mãos os compromissos por eles não atendidos?”, diz o Krepym Katejê. O grupo que está em São Luís é da Terra Indígena Geralda do Toco Preto; lá existem duas aldeias: Sibirino e Toco Preto.

    Existe uma escola em cada aldeia e uma média de 50 alunos e alunas entre ambas. Bilingues, os Krepym Katejê são falantes da língua Timbira – comum ao tronco linguistico Macro-Jê no Maranhão, com excessão dos Gamela. Em nenhum mês deste ano o dinheiro da Seduc para a merenda caiu na conta das escolas., conforme Fábio Krepym Katejê. No ano passado, o recurso chegou a cada três meses ou mais. “Estamos fazendo coleta na aldeia para garantir a merenda. Sem contar que a merenda quando chega vem abaixo da demanda, faltando comida”, diz o indígena.  

    Na aldeia Sibirino, a escola tem apenas uma sala: nela amontoam-se alunos e alunas do primeiro ao quarto ano. Não há banheiro, cozinha, espaços pedagógicos ou salas de professores e direção. Na aldeia Toco Preto é um pouco melhor: tem uma sala a mais para as mesmas classes. “O secretário se comprometeu com a gente, assinando documento que escrevemos, em regularizar o envio do recurso da merenda e reformar as escolas com mais salas, espaços, enfim, com tudo que é preciso”, reclama Fábio. O pagamento dos professores e professoras também estão atrasados.

    Os Krepym Katejê reivindicam ainda o compromisso do governo de contratar seis professores para as classes de quinto ao nono ano, dois zeladores, duas merendeiras e toda sorte de equipamentos para as escolas: 80 carteiras escolares, bebedouros, panelas, pratos, lousas, freezers, ar-condicionado. “São pedidos para o funcionamento básico destas escolas. A demanda vem de alguns anos, não é nova. Estivemos reunidos com a Seduc, com o governo, com a Funai. Queremos que eles cumpram com o dever. Dinheiro de merenda não é carimbado? Cadê esse recurso?”, enfatiza Fábio Krepym Katejê com grande indignação por aquilo que considera descaso, falta de palavra e compromisso do governo estadual com os povos indígenas. 

    Seduc não atendeu, MPF sim   

    Sem alternativa para sensibilizar Camarão, os Krepym Katejê se dirigiram ontem, dia 17, ao Ministério Público Federal (MPF) e denunciaram a postura do secretário. Argumentaram aos procuradores que no dia 10 de julho deste ano a Seduc se comprometeu com o povo a atender as demandas da Educação Escolar Indígena Diferenciada. Até o momento, porém, nada foi feito. Sobretudo no que tange o pagamento da merenda, que ainda não foi realizada conforme o calendário escolar do povo, além do pagamento dos professores e professoras. 

    “Acontece que decidimos que se o secretário não nos receber vamos acampar na Seduc. Não aceitamos um tratamento como pessoas de quinta categoria, que não merecem respeito, atenção, cuidados e detentoras de direitos. Ninguém nessa vida merece ser tratado assim”, afirma Fábio Krepym Katejê. No MPF os indígenas aproveitaram ainda para solicitar aos procuradores ajuda para que a Secretária Especial de Saúde Indígena (Sesai) perfure um poço na aldeia – promessa também antiga – e que a Funai crie uma Coordenação Técnica Local (CTL) na Terra Indígena Geraldo do Toco Preto. “Temos uma situação lá muita invasão madeireira. Precisa de fiscalização e que a Funai nos apoie para criar uma Guarda Florestal e assim proteger as nossas matas”, encerra o Krepym Katejê.

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  • 18/08/2016

    MPF/MS: Fazendeiros são presos por envolvimento em ataque a indígenas em Caarapó (MS)

    O Ministério Público Federal (MPF), por meio da força-tarefa Avá Guarani, obteve a prisão preventiva de proprietários rurais envolvidos na retirada violenta de indígenas da Fazendo Yvu, em Caarapó (MS). O ataque aconteceu em junho deste ano e resultou na morte de um índio e na lesão de outros nove por arma de fogo.

    Os mandados foram cumpridos na manhã hoje (18) por agentes da Polícia Federal (PF) em Dourados, Campo Grande, Caarapó e Laguna Caarapã, que também realizaram buscas e apreensões. De acordo com as investigações, os fazendeiros teriam envolvimento direto com o ataque e podem incorrer nos crimes de formação de milícia privada, homicídio, lesão corporal, constrangimento ilegal e dano qualificado.

    Segundo o MPF, a decretação das prisões preventivas visa à garantia da ordem pública e objetiva evitar novos casos de violência às comunidades indígenas da região – que já sofreram novo ataque, em 11 de julho, o qual deixou outros três índios feridos, dois deles, adolescentes.

    Demora injustificada


    As investigações da força-tarefa Avá Guarani iniciaram logo após a morte de Clodioude Aquileu Rodrigues de Souza, alvejado por dois disparos de arma de fogo, um no abdômen e outro no peito. Em 05 de julho, a Justiça Federal de Dourados deferiu requerimento do MPF e expediu os mandados de prisão, que, por mais de 40 dias, aguardaram o cumprimento pela Polícia Federal.

    Para os integrantes da força-tarefa Avá Guarani, a demora na execução da determinação judicial é reflexo da falta de priorização da questão indígena pelo Executivo em todo o país. “Apesar da morte de um índio e da lesão de outros nove, foi necessário aguardar 44 dias para que os responsáveis pela violência fossem presos. Se não houvesse essa demora injustificada, ao menos seria possível evitar o segundo ataque à comunidade, que feriu três indígenas”.

    Relembre o caso


    No dia 12 de junho, índios da comunidade Tey Kuê, da etnia Guarani-Kaiowá, ocuparam a Fazenda Yvu, em Caarapó (MS)- ) – que incide sobre a Terra Indígena Dourados Amambaipeguá. No dia seguinte, agentes da Polícia Federal foram notificados da ocupação por fazendeiros que os levaram até o local. Os policiais não encontraram reféns e foram informados pelos indígenas de que o proprietário poderia, em 24h, retirar o gado e seus pertences do local. Sem mandado de reintegração de posse, os PFs retornaram a Dourados.

    Frustrados da expectativa de que os policiais retirariam os índios do local, os proprietários rurais que foram presos hoje e mais 200 ou 300 pessoas ainda não identificadas, munidas de armas de fogo e rojões, se organizaram para expulsar os índios à força do local em 14 de junho. De acordo com testemunhas, foram mais de 40 caminhonetes que cercaram os índios, com auxílio de uma pá carregadeira, e começaram a disparar em direção à comunidade.

    De um grupo de 40 a 50 índios, oito ficaram feridos e um veio a óbito. Dos indígenas lesionados, um deles continua internado.

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  • 18/08/2016

    Conselho Terena se prepara para a 9ª Grande Assembleia do povo

    O Conselho do Povo Terena, organização tradicional de Mato Grosso do Sul, formado por caciques e lideranças de retomada, se prepara para a 9ª edição da Grande Assembleia Terena, que acontecerá nos dias 15 a 18 de novembro de 2016, na Aldeia Bananal, Terra Indígena Taunay-Ipegue, Mato Grosso do Sul.

    Tendo como objetivo geral congregar os caciques, lideranças de retomadas, rezadores, mulheres e a juventude indígena em torno da luta pelo território tradicional, a assembleia irá pautar temas como a educação escolar indígena, sustentabilidade e meio ambiente, saúde nas comunidades e políticas públicas em geral que são afetas as comunidades indígenas.

    Durante a Assembleia Terena acontecerá o “II Encontro de pesquisadores indígenas com suas lideranças” destinado ao estudante, pesquisador e profissional indígena que deseja apresentar para as lideranças sua pesquisa e trabalhos realizados na universidade. De igual modo, o espaço está aberto a pesquisador não-indígena que desejar apresentar trabalho desenvolvido junto à comunidade indígena.

    O Conselho do Povo Terena é organização tradicional indígena formado por lideranças indígenas que nos últimos anos fizeram o enfrentamento na luta pela demarcação de terras indígenas. Além das grandes assembleias, o Conselho Terena tem atuado na defesa judicial dos direitos dos povos indígenas.

    O Conselho do Povo Terena integra a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB e tem assento na Organização das Nações Unidas – ONU.

    Confira programação:

    Programação

    Dia 15/11 – Terça-feira

    17:00 hs – Chegada das lideranças

    18:00 hs – Janta

    19:00 hs – Abertura com a mesa dos Caciques e Lideranças indígenas
    Apresentação de rezas e danças tradicional Terena, Guarani Kaiowá, Kinikinau e Kadiwéu  

    Dia 16/11 – Quarta-feira

    8:00 – 11:30 Mesa 1: Territórios Tradicionais
    Mesa com as lideranças e representantes da FUNAI, APIB, Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União, Advocacia Geral da União, Procuradoria Especializada da Funai, Ministério da Justiça e Conselho Indigenista Missionário).

    13:30 – 17:30 Mesa 2: Sustentabilidade e Meio Ambiente
    Mesa destinada a debater a sustentabilidade nas comunidades indígenas e a proteção ao meio ambiente

    20 hs – II Encontro de pesquisadores indígenas com suas lideranças
    Este encontro destina-se ao estudante, pesquisador e profissional indígena que deseja apresentar para as lideranças sua pesquisa e trabalhos realizados na universidade. De igual modo, o espaço está aberto a pesquisador não indígena que desejar apresentar trabalho desenvolvido junto à comunidade indígena.

    Dia 17/11 – Quinta-feira

    8:00 – 11:30 Mesa 3: Educação escolar indígena
    Mesa das lideranças com os professores, acadêmicos e pesquisadores indígenas

    13:30 – 17:30 Mesa 4: Saúde Indígena em Mato Grosso do Sul
    Mesa das lideranças com representante da SESAI, CONDISI, conselhos locais de saúde e profissionais da área da saúde.

    Dia 18/11 – Sexta-feira

    8:00 – 11:30 Mesa 5: Informes da CNPI e Encaminhamentos 

    Documento Final e encaminhamentos
    Encerramento

    Encontro de Pesquisadores Indígenas com suas Lideranças

    Será realizado no dia 16 de novembro de 2016, dentro da 9º Assembleia do Povo Terena, na Aldeia Bananal – Terra Indígena Taunay-Ipegue, Mato Grosso do Sul.

    O espaço está aberto a todo estudante, pesquisador e profissional indígena que deseja apresentar para as lideranças sua pesquisa e trabalhos realizados na universidade. O espaço está aberto também para pesquisador não indígena que desejar apresentar trabalho desenvolvido junto a comunidade indígena.

    A apresentação oral terá duração de 10 minutos e poderá ser feita em formato de banner ou slides. Os trabalhos recebidos serão avaliados por uma comissão de pesquisadores indígenas e organizados por temáticas, a saber: Movimento Indígena e Território; Educação e Antropologia; Saúde e Alimentos; Sustentabilidade e Meio Ambiente. Aqueles que desejarem poderão ainda apresentar relatos de experiência.

    Os trabalhos deverão ser enviados em documento Word e poderão ser em forma de texto completo ou resumo expandidos.

    Prazo de envio: dia 11 de novembro de 2016. 

    Endereço para envio: [email protected]

    Obs.: Para as lideranças que não tem acesso a internet, bastará apenas a manifestação oral e a qualquer tempo para ter direito de apresentar seu trabalho ou relato de experiência.

    Informações:
    Email: [email protected]

    Realização:
    Conselho do Povo Terena

    Apoio:
    Aty Guasu Guarani Kaiowá
    Fundação Nacional do Índio – FUNAI
    Ministério Público Federal – MPF
    Conselho Indigenista Missionário – CIMI

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  • 18/08/2016

    “Com lei, sem a lei, apesar da lei e contra a lei, os povos indígenas sempre estarão na luta”

    “O encontro reforçou aquilo que demais precioso os povos indígenas possuem: seus jovens, que continuarão a luta dos mais velhos pela Terra Sem Males. Também foi um momento de intercâmbio: se nas décadas de 70 e 80 ocorriam as Assembleias Indígenas, onde os povos se conheciam e trocavam experiências, hoje a juventude faz algo semelhante”.

    As palavras de Ângelo Bueno, missionário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), resumem o Encontro da Juventude Indígena do Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará e Amapá ocorrido entre os dias 11 e 14 de agosto, em Manaus (AM). Às voltas com problemas dos mais variados na Amazônia, os jovens se debruçaram sobre discussões envolvendo “grandes projetos de morte”, caso do REDD, mega empreendimentos, grilagem de terras, invasão madeireira nos territórios, agronegócio e a exploração petrolífera.

    "Projetos estes que afetam diretamente o modo de vida de nossos povos, violando nossos direitos, através das criações das PEC 215/00, PEC 409/01, PEC 2540/06, PL 1610/96, PL 4059/12, PL 490/07, PL 2057/91, PL 4750/12 e o Marco Temporal que vem nos atacando nesses últimos tempos”, diz trecho da Carta Aberta do encontro. Outra ponto discutidos pelos jovens é a afirmação dos costumes e crenças diante do Estado e da sociedade que a todo momento os interpela negando a eles tais direitos. 

    "Atualmente estamos sofrendo violências e violações de nossos direitos constitucionais.  Buscamos justiça pela vida, fortalecendo nossos costumes, crenças e tradições protegendo nossas terras e territórios”, diz outro trecho da Carta, que pode ser lida na íntegra abaixo:

      

    CARTA ABERTA DOS JOVENS INDÍGENAS DA AMAZÔNIA

    “Com lei, sem a lei, apesar da lei e contra a lei, os povos indígenas sempre estarão na luta” (Povos Indígenas do Norte).

    Nós juventude indígena Macuxi, Puruborá, Tembé, Karajá, Kayapó, Jaminawá, Mayoruna, Mura, Dessana, Galibi Marworno, Deni, Kaxinawa, Arapiun, Munduruku, Wapichana, Arara e Maraguá, dos estados do Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará e Amapá, nos reunimos entre os dias 11 a 14 de agosto de 2016, no Centro de Formação Xare, Manaus – AM, no Encontro da Juventude Indígena com a presença dos parceiros do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB e da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira – UMIAB, com objetivo de compartilhar experiências, vivências nas nossas aldeias e socializar nossas lutas.

    Nós juventude indígenas trouxemos nossas realidades e desafios vivenciados em nossos territórios que não são poucos, que às vezes nos desanimam, mas que pelo contrario nos fortalece para defender os nossos Direitos originários  garantidos pela Constituição Federal de 1988.

    A Amazônia, atualmente é palco de grandes projetos de morte como: REDD, Mineração, Hidrelétricas, Agronegócio, Madeireiros, Petroleiros, Grileiros, projetos estes que afetam diretamente o modo de vida de nossos povos, violando nossos direitos, através das criações das PEC 215/00, PEC 409/01, PEC 2540/06, PL 1610/96, PL 4059/12, PL 490/07, PL 2057/91, PL 4750/12 e o Marco Temporal que vem nos atacando nesses últimos tempos.

    Nós jovens indígenas de diferentes povos da Amazônia Brasileira, fortalecidos pela nossa união, por meio do intercâmbio de saberes tradicionais  entre os diferentes povos, principalmente com os mais velhos, estamos aqui reafirmando nosso compromisso e responsabilidade de dar continuidade as nossas lutas no que se refere a questão Territorial, Educação e Saúde, já iniciadas por nossos antepassados.

    Atualmente estamos sofrendo violências e violações de nossos direitos constitucionais.  Buscamos justiça pela vida, fortalecendo nossos costumes, crenças e tradições protegendo nossas terras e territórios. Não queremos a criminalização das nossas Lideranças, a exploração de nossas terras, rios, florestas e lagos, denunciamos o massacre dos nossos povos, e a postura colonialista do governo e do Estado.

    Assim gritamos juntos: “Estamos aqui, estamos vivos, nós somos, vivemos nossas culturas, somos povos , nossa  existência está aqui ainda, temos nossa  força, não são vocês que vão nos derrubar, viemos para somar, pois juntos somos mais” (Romário Puruborá).

    Fotos: Cimi Regional Norte I

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  • 17/08/2016

    Povo Mura mobiliza-se por direitos no Amazonas


    “Temos sido tratados como um povo do passado, mas hoje estamos aqui como sujeitos do presente e com uma visão do futuro”. Assim o professor Everton Marques Mura definiu o ato realizado no dia 10 de agosto na altura do quilômetro 92 da rodovia AM-240, que liga a sede do município de Autazes a Manaus, a capital do Amazonas.

    Durante sete horas, mais de 400 Mura de seis aldeias bloquearam a estrada para cobrar dos governos municipal e estadual o cumprimento de compromissos assumidos há vários anos, além de defender a demarcação e desintrusão das terras.

    Em 2009, o Governo do Estado do Amazonas anunciou a construção de uma escola de nível médio na aldeia São Feliz. A construção foi iniciada, mas há dois anos está parada. O mato vai tomando conta da área construída. Situação idêntica vivida pelos moradores da aldeia Cuia, onde também a vegetação adentra nos compartimentos que deveriam ser salas de aula.

    Outra promessa não cumprida pelas autoridades estaduais foi o asfaltamento de uma estrada na comunidade São Felix, com pouco mais de um quilômetro de extensão, construída para dar acesso às balsas que fazem a travessia de veículos até a sede de Autazes no período de enchente, normalmente entre janeiro e julho. No local existem sítios arqueológicos, alguns dos quais teriam sido destruídos durante a construção da via. Sem o asfalto, a estrada torna-se de difícil acesso para veículos e pedestres durante a época das chuvas.

    Fim da discriminação

    A manifestação é continuidade de um ato realizado no dia 1º de agosto, onde os indígenas reivindicavam também o fim da discriminação e a regularização dos serviços de moto-taxi feitos pelos indígenas. “Eu vi muitas vezes indígenas serem humilhados pelos funcionários das balsas. Eles impediam os indígenas que atravessar”, relata Everton Mura. A estrada que leva à cidade de Autazes tem 96 quilômetros e é interrompida pelo rio Autazes. A travessia é feita em pequenos barcos e por um serviço de balsas. Em acordo com a Prefeitura local, os indígenas passam a ter acesso pelas embarcações sem nenhuma restrição.

    O acordo põe um ponto final na discriminação, diz o Tuxaua Ilair Mura, da aldeia São Félix.


    Governo do estado ausente

    Na primeira manifestação, ocorrida no dia 1º, o presidente da Fundação Estadual do Índio – FEI, Raimundo Atroari, prometeu levar resposta do Governo do Estado em vista das reivindicações dos indígenas. No entanto, o presidente da FEI se limitou a dizer por mensagem de celular que o governador não poderia atender, pois encontrava-se doente.
    A resposta irritou os indígenas. A partir daquele momento, sem qualquer diálogo por parte das autoridades estaduais, a estrava foi interditada por tempo indeterminado. À tarde, o comandante da Polícia Militar de Autazes informou que acionaria a Polícia de Choque para desbloquear a via em vista da decisão firme dos indígenas.

    O bloqueio foi suspenso por volta das 16 horas depois que o prefeito de Autazes, Tomé Filho, assumiu o compromisso de pessoalmente levar o pleito dos indígenas ao Governador do Estado, com garantia de audiência com os representantes indígenas para tratar das reivindicações.


    Os Mura hoje

    A população Mura é de aproximadamente 12 mil pessoas. Eles vivem nos municípios de Autazes, Careiro da Várzea, Careiro Castanho, Manaquiri, Borba e Nova Olinda do Norte.

    Ao longo dos anos foram divididos pelo latifúndio, pela política e pela religião. Atualmente, não falam mais a língua, estão lutando para recuperar suas tradições e pela demarcação de suas terras. Em todas, praticamente, enfrentam a invasão de búfalos, que destroem suas roças, avançam nas comunidades e causam danos de toda sorte. Na aldeia São Félix, há dois anos, uma criança ficou bastante ferida por causa de choque elétrico. Um fazendeiro da localidade colocou uma cerca elétrica no interior da aldeia.

    Mulheres não recuam

    Na batalha pela garantia dos direitos e contra a discriminação, as mulheres tiveram uma atuação firme, que garantiu um desfecho digno para um povo cuja história é marcada por bravura na resistência contra a colonização. Enquanto alguns líderes relutavam em bloquear a rodovia, impedindo acesso de veículos, as mulheres não recuaram e fizeram o bloqueio acontecer. Sob calor intenso, com pouca água e sem alimentação, elas permaneceram e incentivavam os homens a seguir com a manifestação

    Texto e fotos: J. Rosha/Cimi Norte I

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  • 17/08/2016

    Relatório revela alto grau de insegurança alimentar e nutricional entre Guarani e Kaiowá


    Na tarde desta terça (16), foi lançado o relatório “O Direito Humano à Alimentação Adequada e à Nutrição do povo Guarani e Kaiowá – um enfoque holístico”, produzido pela Fian Brasil em parceria com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O documento, divulgado em evento na Faculdade de Ciências da Saúde, da UnB, em Brasília, analisa as violações de direitos e as causas da extrema situação de insegurança alimentar e nutricional entre os Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul.

    O relatório apresenta dados avassaladores: entre as três comunidades indígenas pesquisadas – os tekoha Ypo’i, Kurusu Amba e Guaiviry – a situação de insegurança alimentar é de 100%. Ou seja, todas as famílias Guarani e Kaiowá das três comunidades indígenas pesquisadas sofrem com algum grau de insegurança alimentar, índice que analisa o acesso a alimentos em quantidade e qualidade adequadas por comunidades e grupos sociais. Para entender a particularidade e a gravidade da situação, cabe a comparação com o mesmo índice no Brasil: na totalidade do território brasileiro, a insegurança alimentar é de 22,6%.

    Clique aqui para acessar o relatório “O Direito Humano à Alimentação Adequada e à Nutrição do povo Guarani e Kaiowá – um enfoque holístico”

    Outros índices apontados pelo levantamento dão conta da situação de extrema vulnerabilidade e violações de direitos básicos que os Guarani e Kaiowá vivenciam no Mato Grosso do Sul.

    O estudo verificou que 42% das crianças menores de cinco anos sofriam de desnutrição crônica, apresentando baixa estatura para a idade. O mesmo índice, se consideradas as crianças indígenas de todo o Brasil, é de 26%; e, se consideradas as crianças não indígenas, o índice, ainda grave, cai para 6,8% – um número seis vezes menor do que entre as comunidades Guarani e Kaiowá pesquisadas.

    A desnutrição aguda em crianças menores de cinco anos, que apresentam baixo peso para sua idade, é também alarmante entre os Guarani e Kaiowá. Ela atinge 9,1% das crianças pesquisadas e chega a ser cinco vezes maior do que entre as crianças não indígenas, entre as quais este índice é de 1,8%.


    Os Guarani Kaiowá Eliseu Lopes, liderança de Kurusu Amba, e Genito Gomes, de Guaiviry, participaram do lançamento do relatório, na UnB, em Brasília.

    Sem terra, a fome

    As três comunidades abrangidas pela pesquisa são retomadas – terras recuperadas recentemente no processo de luta dos Guarani e Kaiowá pela demarcação de seus territórios tradicionais. Confinados entre muitas pessoas em pequenas reservas, impossibilitados de vivenciar seu modo de vida tradicional e cansados da demora do Estado brasileiro para demarcar seus territórios, os indígenas partem para a retomada de partes de suas terras tradicionais, dominadas por grandes fazendas produtoras de soja, cana de açúcar ou gado para exportação.

    Nas retomadas, muitas vezes em áreas que o próprio Estado já reconheceu, os indígenas sofrem com a dificuldade de acesso à água, praticamente nenhum espaço para produzir, cercados pelo veneno das monoculturas e pressionados pela constante violência e pressão de fazendeiros e pistoleiros.

    “O direito humano à alimentação e à nutrição adequadas se realiza quando se consegue superar todos os obstáculos que existem para você conseguir o alimento, e isso é um processo bem longo. Identificamos duas causas estruturantes que acabam impactando no direito humano à alimentação adequada. Uma é o direito ao território e tudo que decorre da falta de acesso a ele, e uma outra é a questão da identidade cultural dos povos indígenas. Se estes povos estivessem em seus territórios plantando soja, eles não sofreriam as violações que sofrem, porque eles querem o seu território para utilizar de acordo com sua identidade. Ser índio hoje, e ser índio no Mato Grosso do Sul, é um fator determinante para as violações de direitos”, afirma a secretária geral da FIAN Brasil, Valéria Burity.

    O relatório destaca que “os povos indígenas seguem com péssimos indicadores em relação a direitos humanos fundamentais como alimentação e nutrição, saúde, água, renda, entre outros. Essas violações decorrem diretamente da negação do seu direito ao território tradicional, do direito à sua identidade cultural e da inadequação ou omissão de políticas públicas articuladas e específicas”.

    Tal percepção é reiterada pelas falas de Eliseu Lopes, liderança Guarani Kaiowá do tekoha Kurusu Ambá, e Genito Gomes, liderança de Guaiviry, que participaram do evento de lançamento do relatório.

    “O nosso principal problema, entre os Guarani e Kaiowá, é a questão do acesso aos nossos territórios. Por isso que muitos passam fome e dificuldades. Estamos sendo massacrados por todos os lados. Nas retomadas, as famílias não tem acesso a água potável, e os fazendeiros jogam veneno nos rios, o que não deixa de ser uma forma de nos despejar”, afirmou Eliseu Lopes durante o evento na UnB.

    “Temos um conjunto de violências e violações que se retroalimentam e agravam ainda mais essa situação, e a desnutrição entre os indígenas se dá nesse contexto”, aponta o secretário executivo do Cimi, Cleber Buzatto. “Esses dados apresentados têm relação com a violência vigente que se dá pela falta de espaço, de território para a produção de alimentos e para a sobrevivência física e cultural deste povo, e se dá num processo de luta também deste povo para reaver ao menos parte de seu território esbulhado. Num contexto de agravamento, especialmente no Mato Grosso do Sul, dos ataques violentos às comunidades”.


    Genocídio e violência contínua

    Entre agosto de 2015 e julho de 2016, foram mais de 30 ataques paramilitares registrados contra comunidades Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, inclusive contra Kurusu Amba e Guaiviry. Estes números incluem também ataques químicos, com despejo de veneno em acampamentos indígenas, e o recente Massacre de Caarapó, que resultou na morte do indígena Clodiodi de Souza e deixou outros seis gravemente feridos.

    A própria história pessoal das lideranças duas comunidades pesquisadas é marcada pela violência do agronegócio e aponta a relação que existe entre a insegurança alimentar e as outras violações de direitos dos povos indígenas: em 2007, a rezadora Xurite Lopes, com 70 anos, foi morta por pistoleiros em Kurusu Amba; em 2011, Nísio Gomes foi morto a tiros no tekoha Guaiviry.

    “Entre os Guarani e Kaiowá, das 390 vítimas desse processo de violência e confinamento nos últimos dez anos no Mato Grosso do Sul, 16 foram lideranças sumariamente executadas na luta pela terra”, afirma Matias Rempel, missionário do Cimi – regional Mato Grosso do Sul.


    Violações articuladas

    Os dados da pesquisa foram colhidos em 2013, com base em visitas a 96 domicílios nas comunidades indígenas de Ypo’i, Guaiviry e nos dois núcleos de Kurusu Ambá, onde residiam, à época, 360 pessoas, com grande predomínio de jovens – 46% dos indígenas com idade inferior a 15 anos.

    O estudo considerou o direito humano à alimentação e nutrição adequadas em duas dimensões, dando atenção tanto ao direito de estar livre da fome quanto ao direito a uma alimentação e nutrição adequadas.

    Em 86,7% dos domicílios pesquisados, a insegurança alimentar, conforme os critérios da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar e Nutricional (EBIA), era moderada (58,7%), quando há falta de alimentos entre os adultos, que deixam de comer para priorizar a alimentação das crianças, ou grave (28%), quando adultos e crianças sofrem com a restrição de alimentos.

    Em 76% dos domicílios a pessoa entrevistada afirmou que, no mês anterior a setembro de 2013, houve ocasião em que crianças e jovens da casa passaram um dia todo sem comer e foram dormir com fome, porque não havia comida na casa.

    Além da falta de espaço nas retomadas – em 2013, por exemplo, 80 famílias do tekoha Guaiviry viviam em aproximadamente 79 hectares – a produção de alimentos é prejudicada pela falta de condições, com ausência de acesso a sementes e assistência técnica.

    O estudo identificou que, nas três comunidades, a situação precária da vida sem a efetiva demarcação do território tradicional complementa e determina a realidade de insegurança alimentar, com muitas das famílias vivendo sob barracos de lona e com severa dificuldade de acesso a água potável, em função da contaminação dos rios próximos por agrotóxicos utilizados pelas fazendas que estão sobrepostas às terras indígenas.

    A falta de ação do Estado

    Além da questão da demarcação dos territórios tradicionais, o estudo apontou outras violações do Estado brasileiro em suas atribuições de respeitar, proteger e promover os direitos humanos entre os Guarani e Kaiowá, diretamente relacionadas à situação de insegurança alimentar e nutricional.

    Entre elas, estão a falta de proteção contra os ataques paramilitares, contra o desmatamento e o uso de agrotóxicos nas terras indígenas já identificadas ou em processo de identificação e contra a discriminação que os indígenas sofrem. Além disso, o relatório aponta também a não concretização do direito à educação, à saúde, o sucateamento de órgãos públicos e a falta de políticas públicas que atendam à comunidade.

    A manutenção dos indígenas sob uma situação de dependência de programas emergenciais, como cestas básicas, segundo o relatório, também viola a promoção do direito à alimentação e nutrição adequadas – é necessário criar condições para que os povos “possam recuperar a capacidade de se alimentar e ter acesso a outros direitos por conta própria, quando forem capazes de fazê-lo”.

    Nesse sentido, outra grave violação identificada pela pesquisa são as restrições impostas aos indígenas para o acesso ao programa Bolsa Família. Apesar de todas as famílias pesquisadas atenderem aos critérios para integrar o programa social, menos de 40% tinham acesso efetivo à transferência de renda à época da pesquisa.

    Outro dado alarmante: 22% das famílias estavam com o acesso ao Bolsa Família suspenso, sendo que, em 41,5% dos domicílios onde o programa foi suspenso, a situação era de fome – ou, em termos técnicos, insegurança alimentar grave. Em muitos dos casos, a bolsa foi suspensa por falta de documentos ou porque as crianças das famílias em questão não estavam frequentando a escola.

    O problema, entretanto, é que o acesso à educação nas retomadas também é dificultada. No caso de Kurusu Amba, por exemplo, não há escola, e as crianças precisam buscar outras aldeias ou o município de Coronel Sapucaia, onde os indígenas são bastante discriminados.

    A pesquisa identificou, ainda, que 31% das famílias não tinha renda própria e nem recebia recurso de programas sociais.

    “Em sua maioria, [os Guarani e Kaiowá] estão ilhados em pequenos espaços de terra, acuados por monoculturas que demandam uso intensivo de agrotóxicos, sem condições de plantar, caçar, pescar ou realizar outros atos de sua cultura”, afirma o documento em suas considerações finais.

    O relatório conclui que este quadro grave de violação ao direito humano à alimentação e nutrição adequadas só será revertido “se houver, em primeiro lugar, a garantia do seu território e, além disso, a adequação de políticas públicas, elaboradas, geridas e executadas de maneira participativa, que lhes permitam viver de acordo com sua cultura e tradição, o que, a propósito, é mandamento constitucional”.

    “De 2000 a 2016 morreram 28 pessoas no Guaiviry, todas no tekoha. Eu não quero mais ver meu povo morrendo, nem minha comunidade sofrendo. Não teria acontecido isso, se a gente estivesse todo mundo unido, teria mais força. Se todos pensarem mais no futuro, na vida do outro, vai ser melhor para nós, a vida de todos vai ser melhor”, afirmou Genito Gomes, ao fim do evento. “O que nos resta hoje é nossa resistência”, concluiu Eliseu Lopes.

    Texto e fotos: Tiago Miotto/assessoria de comunicação – Cimi

  • 16/08/2016

    1 mil fecha Seduc de PE por criação da categoria de professor indígena e contra municipalização da educação  

    A Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco amanheceu nesta terça-feira, 16, fechada aos servidores públicos pela ocupação de 11 povos indígenas do estado iniciada na manhã de ontem; está completamente paralisada. “A sede da Seduc permanecerá trancada até que a nossa pauta de reivindicações seja respondida em reunião com o secretário (Fred Amanço) e o governador (Paulo Câmara)”, informa Pretinha Truká, liderança da Comissão de Professores e Professoras Indígenas de Pernambuco (Copipe).  O estado concentra uma das cinco maiores populações indígenas do país, com pouco mais de 45 mil indivíduos compondo 12 povos distintos (IBGE, 2010). 

    O tradicional Encontrão da Copipe ocorre este ano na ocupação das instalações da Seduc, na capital Recife. No final da noite de ontem, já com todas delegações vindas do Sertão e Agreste na Seduc e com a Assembleia de Abertura do Encontrão, a contabilização de indígenas presentes chegou a 1 mil – a ampla maioria composta por professores e professoras. A decisão pela ocupação, com tempo indeterminado, ocorre pelo o que o cacique Marcos Xukuru do Ororubá chama de “pauta reprimida” e a professora Elisa Pankararu complementa como “tentativa de retrocessos” pelo governo estadual. Motivos que levaram os indígenas a decidirem sair da Seduc apenas com o atendimento integral da pauta apresentada. 

    No documento entregue ao governo, os indígenas exigem a criação da categoria de professor e professora indígena para que assim o concurso público para a categoria possa ser feito. “O Legislativo precisa aprovar a criação da categoria, então o governo do estado elaborou um Projeto de Lei para enviar aos deputados estaduais. Ninguém sabe onde está o PL, e um poder empurra a responsabilidade para o outro”, ressalta Marcos Xukuru. Por essa razão os indígenas querem uma reunião com Amanço, Câmara e o presidente da Assembleia Legislativa, Guilherme Uchoa (PDT). 

    Pretinha Truká explica que a criação da categoria de professor indígena é uma reivindicação antiga da Copipe. “Estamos há 16 anos trabalhando com mini-contratos. A criação da categoria daria regularização e estabilidade para os profissionais, além de afirmar nossa identidade enquanto povos indígenas”, afirma. A indígena Truká explica que anualmente os professores e professoras vivem assombrados pelas demissões e a falta de pagamentos. Este ano, diz Pretinha, há centenas de professores e professoras que não receberam os salários por falta de recontratação – um decreto não permite que um professor seja contratado mais depois de seis anos, o que prejudica diretamente a qualidade do ensino ofertado nas aldeias. 

    Em Pernambuco, mais de 1 mil professores e professoras atuam em escolas indígenas que atendem mais de 10 mil alunos. “Os atrasos dos salários perpassam a questão dos mini-contratos. Todo ano isso acontece”, ressalta. Elisa Pankararu lembra ainda que profissionais indígenas cedidos pelos municípios passam pela mesma situação. A Seduc não só sabe dos problemas, como evita resolvê-los na opinião das lideranças. O presidente do Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena, o cacique Zuka Kambiwá, lembra que em seu povo a Seduc afirma que em uma escola atuam 20 professores quando apenas 11 trabalham; por outro lado, a secretaria tem em seus registros que em outra escola existem apenas 190 alunos quando 400 assistem regularmente a aulas. 

    “É muita inoperância. Temos como comprovar nossos dados, levantados mensalmente e com critérios definidos por especialistas, mas eles se negam a ouvir. Então a merenda chega errada, o transporte não é pago… enfim, uma cadeia de problemas surge”, diz Zuka. Quanto ao Conselho Estadual, o cacique denunciar que o governo "tem esvaziado e não conseguimos encaminhar. Os representantes não comparecem. Chegamos em Recife e discutimos apenas com alguns representantes da sociedade, habituais aliados. Chamamos de ‘sala das lamentações’ o local dessas reuniões. Temos mais de cinco reuniões que o governo não comparece”. 

    A Coordenadoria da Educação Escolar Indígena, pasta da Seduc, tem sido mais habitual nos encontros. Todavia, sem nenhum poder de decisão ou encaminhamento das demandas. “E aí temos outra questão a tratar com o governo: a Coordenadoria e o Conselho Estadual precisam ser fortalecidos. Nós defendemos e reivindicamos ambos, mas para ter poder de influência real na política pública. O que não acontece”, analisa o cacique Marcos Xukuru do Ororubá. Para a liderança, é preciso que o governo estadual garanta o controle social das políticas para o direito ser efetivado.  

                 

    O retrocesso da municipalização 

    Em 2012, o Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Básica, órgão do Ministério da Educação, baixou a Resolução 05, atualizando a Resolução 03 de 1999. Em síntese, a normativa confere a responsabilidade pela oferta da Educação Escolar Indígena aos estados, podendo ser oferecida pelos municípios por regime de colaboração e com a anuência dos povos indígenas. A Resolução se tornou um marco na luta dos povos indígenas pela Educação Escolar Indígena Diferenciada. Depois de ser responsabilidade da Funai, sendo transferida na década de 1990 para os municípios, os indígenas passaram a discutir a educação apenas com uma representação governamental e livre do coronelismo regional que entendia as escolas indígenas apenas como rurais, e não diferenciadas. 

    “Acontece que o estado de Pernambuco nunca se organizou e não criou ordenamentos jurídicos próprios. Agora o estado afirma que a demanda da Educação Escolar Indígena é muito grande e quer devolver aos municípios: se é grande demais para o estado, imagina para os municípios que não possuem estrutura técnica e financeira. Os povos indígenas não querem voltar para eles”, afirma Pretinha Truká. “Imagina você negociar direitos de educação diferenciada com grileiros, fazendeiros e coronéis que dominam as prefeituras e nos ameaçam, nos matam e criminalizam por conta da luta pela terra? O estado pode dar conta, mas não dá porque não quer”, questiona Elisa Pankararu. 

    A liderança da Copipe explica que os povos indígenas do Brasil defendem um sistema próprio de educação para os povos indígenas. Durante a Conferência Nacional de Educação, em 2009, foi aprovada a construção desse sistema. Porém, o Ministério da Educação não deu sequência às consultas, encontros e audiências. “Só aceitamos sair do estado se for para entrar nesse sistema próprio. Do contrário, não queremos andar para trás, não aceitamos retrocessos e isso é inegociável”, avisa Pretinha Truká.

    “Queremos políticas públicas"

    Salsicha, sanduíches e sucos industrializados. “Isso é o que nossas crianças recebem como merenda nas escolas quando nas aldeias há centenas de famílias agricultoras. Não pedimos merenda, mas uma política pública para a merenda”, ataca o cacique Neguinho Truká. Para a liderança o governo do estado deveria pensar em políticas públicas, não apenas em atender demandas – o que também não acontece.

    “Se o governo decide comprar os alimentos da agricultura familiar, os alunos teriam macaxeira, todo tipo de banana, hortaliças, legumes, frutas, arroz, feijão, carnes de galinha de capoeira e bode. A alimentação seria saudável, tradicional e geraria renda para as famílias. Nós indígenas somos agricultores por natureza. Crescemos aprendendo a plantar e ensinamos isso aos nossos filhos. Pensar nessa cadeia é política pública e incentiva a prática tradicional. Estamos aqui reivindicando isso”, salienta cacique Neguinho. Hoje apenas 20% da merenda escolar é fornecida pelos próprios indígenas ao estado. Percentual baixo e que o movimento indígena pretende levar à totalidade. 

    Para o cacique o caso se repete com o transporte escolar. Os povos foram obrigados a renovar a frota de veículos utilizados para tal fim e “a gente cumpriu, mas o governo estadual não deu sua contrapartida de arrumar as estradas e nem os motoristas estão sendo pagos. Fomos chamados a cumprir o nosso dever. E os direitos? O governo segue sem respeitar nosso cronograma diferenciado, que tem um ano letivo diferente nas aldeias, e não olha de forma cuidadosa pra gente”, encerra cacique Neguinho Truká. 


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  • 16/08/2016

    “A nossa dor é uma só. Por isso devemos nos juntar para defender a nossa Mãe Terra!”


    A nossa dor é uma só. Por isso devemos nos juntar para defender a nossa Mãe Terra!
    Joanita Apinajé

    Diante das ameaças aos direitos indígenas e aos seus territórios, pelas inúmeras ofensivas dos donos do capital e do latifúndio, que continuam fazendo vitimas para roubar as terras e devastá-las em nome de um falso desenvolvimento econômico, que só trás dor, sofrimento e morte para os povos da terra.

    Frente ao avanço destes projetos de morte, que tem como centro e pivô o PDA-MATOPIBA, que avança aceleradamente com sua destruição, acabando com o Cerrado, seus rios e riquezas naturais.

    O CIMI Goiás/Tocantins na sua XXII Assembleia Regional celebrada de 10 a 12 de agosto, na chácara Dona Olinda, na cidade de Araguaína-To, reafirma seu compromisso em defesa da vida dos povos indígenas e dos seus territórios, nesta atual conjuntura, que é, mais do que nunca, contrária aos direitos constitucionais dos povos originários. Principalmente pelas proposições legislativas que tramitam no Congresso nacional, assim como também de leis estaduais que ameaçam o Cerrado, isentando de licenciamento ambiental os projetos implementados no estado do Tocantins, como a Lei 2.713/2013.

    Manifestamos nosso incondicional apoio às lutas pela demarcação de seus territórios, na preservação de suas culturas e espiritualidades como fontes de sabedoria, resistência e teimosia na construção do Bem Viver.

    Questionamos a precariedade das políticas públicas que são implementadas nos povos indígenas, que não respeitam á diversidade cultural e organização social de cada povo, e  com sua omissão e falta de profissionalismo, provoca sofrimento e dor nas comunidades indígenas.

    Expressamos nosso repúdio à implementação do PDA-MATOPIBA, que é a morte para o Cerrado e seus povos. Este plano será o acirramento dos conflitos fundiários no estado do Tocantins, trazendo o aumento de violências e morte no campo.

    Como sinal de que o MATOPIBA já está semeando o conflito e a morte no campo, denunciamos a morte do Luis Jorge de Araujo, da Comunidade Boqueirão, no município de Wanderlândia, que foi assassinado no dia 05 de agosto.

    Solidarizamos-nos à família do nosso irmão e pedimos justiça e punição aos assassinos.

    A resistência, teimosia e sabedoria dos povos indígenas nos fortalecem para continuar firmes no nosso compromisso com a causa indígena e com todas as causas do Reino, na defesa da nossa casa Comum.

    Acreditamos que somando as nossas lutas e sonhos dos nossos irmãos do campo e da cidade, faremos brotar o direito e a justiça para todos os povos. E inspiradas no Magistério da Igreja, continuaremos a reafirmar na nossa missão de sermos “Igreja advogada da justiça e defensora dos pobres, acreditando que se não há esperança para os pobres, não haverá para ninguém.” (cfr. DA 395).

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