• 31/01/2006

    Encontro e desencontro na busca da ‘terra sem mal’

    Paulo Suess


     


    Na origem deste ‘IV Encontro de Teologia Índia’ está o conflito entre sociedades indígenas e a sociedade dominante. O conflito desperta o sonho da ‘terra sem mal’. O ‘princípio do mal’ – os Mapuche o denominam ‘kaikai’ e os mitos de outros povos da América Central falam da ‘serpente devoradora’ – nos pressionou para realizar o encontro. No meio da ‘vida falsa’ – da vida alienada – não morre o sonho da vida na ‘divina abundância’. Se a terra – por motivos sociais (lutas internas), ecológicos (esgotamento do solo) ou teológicos (cataclismos, dilúvio) – não garante mais o bem-estar da vida, o povo Guarani procura um outro espaço para viver com dignidade e caminha em busca da ‘terra sem mal’.


     


    Viver com dignidade significa ter o suficiente para a prática da reciprocidade vivida na festa, na dança, na reza, no trabalho e na caminhada. A ‘divina abundância’ é resultado da partilha, não da acumulação. O mundo moderno conspira contra esse ‘modo de ser guarani’ (teko). O tekoha, o ‘lugar onde se dão as condições para ser guarani’, e o teko katu, o ‘ser autenticamente guarani’ estão ameaçados. O conflito confere ao mito contornos históricos e inspira a sua atualização política. O conflito, não a bonança, nos reuniu neste encontro e nos faz atualizar, historicamente, o nosso mito do “amor maior”.


     


    Mito e teologia têm funções sociais e linguagens semelhantes. Ambos explicam as origens do mundo e da humanidade, legitimam as condições de vida (morte, sofrimento, classes sociais, pecado) e alimentam sonhos, desejos e utopias de um mundo melhor. As diferentes condições de vida produzem diferentes utopias e exigem diferentes explicações mitológicas e/ou teológicas. Sociedades indígenas igualitárias que não acumulam nem excluem, exigem outras legitimações – outras teologias – que sociedades concorrênciais e acumulativas no interior do capitalismo neoliberal. O valor do tempo e do espaço em ambas as sociedades é muito diferente. Na aldeia guarani, a função prioritária do tempo não é o trabalho, mas o lazer. Onde a moeda do tempo não é o ‘dinheiro’, também o ‘tempo livre’ não é confundido com ‘preguiça’. Para muitos povos indígenas, a festa garante a redistribuição dos bens. A função básica do espaço – da terra – não é ‘propriedade’ para gerar lucro, mas ‘dom’ que garante o bem-estar com a vida.


     


    Se a teologia é uma instância que explica e legitima a vida concreta de cada sociedade, obviamente, as teologias de sociedades mais ou menos igualitárias, integradas e holísticas, e as teologias de sociedades marcadas por desigualdades estruturais e fragmentações profundas, são diferentes em suas metodologias, conteúdos e perspectivas. Só uma teologia que se entende como instância crítica no interior da sociedade dominante permite uma certa proximidade com a Teologia Índia. Essa teologia profética na sociedade estruturalmente desigual, propõe rupturas sistêmicas que apontam para a utopia de sociedades igualitárias. Contudo, não existem relações deterministas entre o impacto da realidade social sobre a teologia da respectiva sociedade. Mas, para iniciar um diálogo entre diferentes Teologias é importante não perder de vista os diferentes modelos de sociedade onde estas Teologias emergem. As diferenças, consideradas propriamente teológicas, muitas vezes, encontram neste chão social e histórico a sua explicação profunda.


     


    O primeiro encontro entre Teologias não acontece no terreno intelectual (conceito, identidade, verdade), mas vivencial, portanto, no caminho comum da busca da ‘terra sem mal’, no caminho que aponta para a utopia do Reino. As utopias dos diferentes projetos de vida que encontram seus reflexos nos respectivos mitos e teologias, são semelhantes e diferentes. Não é a utopia – o sonho da chegada – que une diferentes projetos de vida, mas sobretudo a busca comum do e no caminho. Nisso está o sentido profundo quando Jesus se autodenomina ‘caminho’ e não ‘chegada’. A possibilidade do encontro está na busca comum de ambas as partes. A afirmação unilateral do monopólio do caminho ou da verdade impossibilita o encontro entre iguais. A ‘chegada’ de um só aponta para o desencontro do monólogo. Na chegada de todos, o diálogo será substituído pela contemplação. O diálogo no caminho vive da própria fé e da soma de múltiplas esperanças.


     


    O argumento dos cristãos que o ‘Verbo encarnado’ é a última palavra, está correto. Para os seguidores de todas as religiões e denominações religiosas existe algo absoluto. Mas, a ‘última palavra’ dos cristãos não é hegemônica; não fecha o diálogo, nem dispensa a busca comum no caminho. Na hermenêutica do Verbo ninguém tem a última palavra. O acesso à última palavra é sempre um acesso através de penúltimas palavras que chamamos símbolos, metáforas, conceitos, modelos e paradigmas. Também a Teologia, o teo-logos, é apenas um holofote cuja luz ilumina seu objeto à longa distância. Embora que a verdade seja uma só, o nosso falar da verdade é fragmentado e complementar. Novamente é o conflito que forja o encontro. O ‘conflito das interpretações’ é o pressuposto para condições simétricas e históricas do diálogo no caminho. O ‘amor maior’ desmonta a assimetria social e a hegemonia da palavra. No diálogo da caminhada e na ruptura com o ‘kaikai’ sistêmico está a possibilidade do ‘bom encontro’ entre Teologia Índia e Teologia Cristã.


     


    (IV Teologia Índia Introdução, 6..5.2002)


     

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  • 31/01/2006

    Cuauhtlatoatzin Juan Diego, santo indio rebelde

    P. Eleazar López Hernández


    Centro Nacional de Ayuda a las Misiones Indígenas, Cenami.


     


    La visita actual de Su Santidad el Papa Juan Pablo II es una ocasión propicia para analizar y valorar la relación que la Iglesia ha establecido y ahora trata de renovar con los pueblos indígenas de México y del mundo entero.


     


    Las palabras de Juan Diego ante la Virgen de Guadalupe, cuando ella le mandó a la casa del obispo es bastante expresiva de lo sucedido en la historia: “Me envías a un lugar donde no ando y no paro” (Nican Mopohua 40). Es un hecho innegable que, a pesar de los buenos sentimientos de varios ilustres misioneros de la primera hora, el indígena y su mundo, sobre todo el religioso, no tuvieron cabida en los planteamientos evangelizadores de la Iglesia. El llamado “Diálogo de los Doce” en 1525 lo mostró claramente cuando, después de escuchar a los tlatoanis y tlamatinis aztecas que afirmaban que el Dios cristiano era el mismo Dios indígena, los recién llegados concluyeron el diálogo de manera tajante: “Os es muy necesario despreciar y aborrecer, desechar y escupir todos estos que agora tenéis por Dioses y adoráis, porque a la verdad no son Dioses, sino engañadores y burladores…”. [1] En la perspectiva colonial no podía haber concesión alguna frente a las creencias de un pueblo conquistado. La religión del vencedor era, en razón de los acontecimientos, necesariamente superior y había que imponerla como parte del nuevo modelo de sociedad.


     


    Durante la época colonial y hasta muy recientemente entrar en la Iglesia conllevó, de hecho, la renuncia total a los esquemas propios de fe dejando en la puerta de los templos cristianos los penachos, las plumas, los ayates, los cencerros, el tambor, los atuendos festivos, la lengua, en fin, hasta el alma propia para revestirse de lo nuevo a la manera del conquistador. Quienes se sometieron a esta lógica implacable, renegando de lo propio, ciertamente tuvieron que enfrentar a sus hermanos indios y muchos sucumbieron a manos de ellos en defensa de la nueva fe y por eso son santos para la Iglesia. Pero hoy cabe preguntarnos ¿es ese el único camino que la Iglesia presenta a los pueblos indios para acceder a Jesucristo y a su evangelio?


     


    Durante estos quinientos años ha sido muy difícil para la Iglesia entender, valorar y, sobre todo, asumir la alteridad indígena. Por eso en la mayor parte de este medio milenio de cristianización los indígenas no avanzamos significativamente en ella sino en los últimos 40 años. Nuestro ámbito de acción ha sido sobre todo el de la religiosidad popular que es muy amplia en expresiones y contenido pero se halla al margen o en la periferia de la vida eclesial. Durante mucho tiempo incluso la Virgen de Guadalupe, que es el núcleo central de la primera síntesis cristiano-indígena, fue aceptada en la Iglesia, pero sin Juan Diego, y con reiterados esfuerzos de despojarla de su contenido profundamente autóctono.


     


    En estos días el Santo Padre canoniza a Juan Diego y beatifica también a los mártires zapotecas de Oaxaca. Con ello está afirmando que también los indios somos capaces de llegar a los altares y ser modelos de vida para los demás, que es lo que significa la palabra ‘canonización’.


     


    Pero los santos en cuestión no tienen la misma connotación e importancia. Podemos decir que los mártires de Oaxaca, al igual que los niños mártires de Tlaxcala, son expresión de la vía clásica a la santidad en la Iglesia, por cuanto que son personas que se dejaron moldear sin reservas por la institución renunciando a su cultura, a su pueblo y hasta a su propia vida. Pero Juan Diego tiene otras características que lo hacen un modelo de santo muy diferente. El conoce la Iglesia y se hace cristiano cuando ya era una persona madura, casi un anciano: tenía 57 años. De modo que su identidad profunda, lo que los antiguos mexicanos llamaban “rostro y corazón”, no fueron moldeados por el contacto con la Iglesia, sino por la cultura y la fe prehispánica de su pueblo. Al bautizarlo la Iglesia no le dio la santidad, sino que consagró y ratificó, como obra de Dios, su bondad humana anterior a la presencia cristiana y su santidad de vida. Por tanto Juan Diego, así como transportó para el obispo las flores en su tilma, es decir, en su persona, llevó también a la Iglesia la santidad del pueblo indígena[2].


     


    Además Juan Diego no llegó a ser santo porque se sometió a la Iglesia e hizo sin chistar todo lo que le mandaron hacer, que es lo que algunos quisieran hacernos creer. Lo que en realidad pasó es que Juan Diego hizo que la Iglesia se plegara a la verdad y al proyecto indio; por eso le dice al obispo al entregarle las rosas: “para que veas la señal que tú pedías, para que creyeras en su voluntad {de la Señora del cielo}; y también para que aparezca la verdad de mi palabra y mi mensaje” (Nican Mopohua 106). Quien finalmente se aparece en el relato guadalupano es Juan Diego. Por eso la gente sencilla mira ese hecho como el gran milagro de nuestra reconstrucción como pueblo después de las barbaridades de la conquista, y por eso cuando no se le cree amenaza con el dicho popular: “Se te va a aparecer Juan Diego”. Y es que Juan Diego no fue al palacio episcopal para quedarse y contemplar a la institución, sino para sacar al obispo y llevarlo al Tepeyac (lugar de las creencias de su pueblo) y a Cuauhtitlán (lugar de sus ancestros), para construir con el pastor la teocalli o templo de Tonantzin, la Madre de todos los Dioses precolombinos (cf. Nican Mopohua 22) y Madre de nuestro Salvador y nuestro Señor Jesucristo (cf. Nican Mopohua 53). No se trata simplemente del acatamiento de la religión foránea, sino de la apropiación de su contenido más profundo dentro de los esquemas indios. No es, por tanto, la renuncia ni la sobrevaloración de lo propio sino el diálogo con la propuesta del otro para alcanzar la síntesis que hermane a ambos en un nuevo proyecto de vida.


     


    Juan Diego no es un santo fácil de manejar, como tampoco lo somos los indígenas de hoy que hemos ido conquistando, en la sociedad y en la Iglesia, los espacios necesarios para una participación madura y responsable. Lo que históricamente hizo Juan Diego como primer teólogo indio cristiano se ha convertido en símbolo de la resistencia indígena presente en toda nuestra historia patria y que recientemente ha hecho erupción en Chiapas, en Oaxaca, en Guerrero, en San Salvador Atenco. Juan Diego aparece ante nuestra gente como un santo rebelde e inconforme con el orden establecido, como un profeta aguerrido, un miembro del pueblo que “se puso águila” para salvarlo del caos producido por intereses foráneos. Por algo su nombre originario es Cuauhtlatoatzin, es decir, “respetable águila que habla”, porque él es, en verdad, el Tlatoani que el cielo nos envía. Por eso Juan Diego somos todas y todos los que resistimos al mal y luchamos por alternativas de vida digna.


     


    En consecuencia, canonizar a Juan Diego es reconocer la razón histórica que asiste a los pueblos indios en nuestra lucha de siglos: pueblos aplastados por las armas y por el poder de los hechos consumados, pero no vencidos en sus derechos humanos y colectivos en cuanto descendientes de los primeros pobladores de este continente. La Iglesia, aunque tardíamente, reconoce ahora que los valores y la santidad presentes en nuestras tradiciones y culturas, son resultado de la siembra hecha por el mismo Dios de la Biblia, de la Iglesia y de nuestros padres indios, y que tales valores y santidad indígena pueden no sólo entrar válidamente en la Iglesia sino ser modelo de vida para todos los cristianos. Esto marca el inicio de otro momento en nuestra historia, porque puede ser la base de una nueva relación de la Iglesia con los pueblos indios. Queda el compromiso de clarificar en lo concreto las relaciones eclesiales y pastorales que deben establecerse con quienes mantienen sus diferencias culturales y religiosas como parte de su identidad profunda.


     


    El Papa Juan Pablo II, desde su primera visita a México, inició en Cuilápan, Oaxaca (1979) con nuestros pueblos una relación que ha ido creciendo más y más. En las comunidades indígenas fue descubriendo a lo largo de sus posteriores contactos grandes valores humanos, culturales y religiosos, que él reconoció necesarios para la renovación de la sociedad y de la Iglesia.


     


    En Yucatán, en 1993, los descendientes de los primeros habitantes de México y del continente, aparecimos ante Juan Pablo II como los nuevos evangelizadores del mundo, porque “antes de que llegaran aquí los habitantes de otros continentes, vosotros habíais ya dado a esta tierra el sabor de las fatigas de vuestro trabajo y de vuestros sufrimientos, la riqueza de vuestras culturas ancestrales, de vuestros valores humanos, de vuestras lenguas. Pero con la fe cristiana todo ello recibió un significado nuevo y más profundo. Vosotros sois, pues, la sal de la tierra… porque habéis de contribuir a evitar que la vida del hombre se deteriore o se corrompa persiguiendo los falsos valores, que tantas veces se proponen en la sociedad contemporánea”. [3]


     


    En la IV visita papal a México (1999) los indígenas ocupamos un lugar preponderante en las palabras y gestos del Santo Padre. De modo que la relación del Papa Juan Pablo II con los pueblos indígenas ha ido en un crescendo cada vez más alto y profundo. Ahora, en su V visita, veremos la culminación de su obra con la canonización de Juan Diego, proponiendo el paradigma indígena como cánon o norma de vida para todos.


     


    Pero reconocer, convalidar y consagrar la vía indígena a la santidad, metiendo de lleno la perspectiva autóctona en la Iglesia no se puede reducir a actos simbólicos que exaltan los ánimos hasta el cielo, y luego se echan al olvido. Implicará, si queremos ser consecuentes, renovar en serio a la Iglesia desde dentro y asegurar la solidaridad cristiana y el acompañamiento pastoral efectivo a las luchas concretas de nuestros pueblos. Si las hermosas palabras y gestos simbólicos de estos días no se convierten en actitudes permanentes de vida y de servicio, los pueblos y la historia juzgarán a la Iglesia sin miramientos. Y entonces a la Iglesia se le aparecerá Juan Diego y, talvez, ya sin la Virgen, como dice el vulgo. Es el mismo desafío que se presenta al conjunto de la sociedad mexicana: Incorporar dignamente a quienes somos la raíz primera y el origen de la patria mexicana para que haya pronto un futuro que valga la pena.


     


    Es la hora de construir un México y un mundo donde haya lugar digno para todas y para todos. Esto implica necesariamente, para el Estado, el cumplimento de los acuerdos pactados con las comunidades indias, la aprobación de leyes, estructuras y mecanismos, que reconozcan y viabilicen la composición de un estado verdaderamente pluricultural y pluriétnico, y que respondan cabalmente a las exigencias de nuestros pueblos. Y para la Iglesia, la puesta en marcha de las decisiones conciliares sobre el surgimiento de las iglesias autóctonas, el decidido apoyo a los procesos indios dentro de la institución, como el diaconado indígena, la teología india, los ministerios autóctonos, la liturgia inculturada. Mientras esto no suceda, Juan Diego seguirá diciendo a Tonantzin Guadalupe: “Me envías a un lugar donde no ando y no paro”


     


    México, D. F. 30 de julio de 2002.


    __________


     


    [1] Fr. Bernardino de Sahagún, Colloquios, cap. V, 29


    [2] Es lo mismo que pasó en los primeros siglos de la Iglesia, cuando los creyentes expulsados de Judea se vieron dispersos por el mundo grecorromano y empezaron a relacionarse con personas de otras culturas y expresiones religiosas, en quienes encontraron valores humanos y espirituales dignos de encomio. San Gregorio Nacianceno, a propósito del bautismo de su hermana, que era una santa pagana, sostiene que ya que “toda sus vida era purificación y perfección … el bautismo no le dio la gracia sino la consagración” (Oraciones 8, 20: Patrología Griega 35, 812c; citado por la Comisión Episcopal para Indígenas de la CEM en los Fundamentos Teológicos de la Pastoral indígena, 1988, 35)


    [3] Juan Pablo II, Discurso a los pueblos indígenas en Xoclán, Yucatán, 11 de agosto de 1993.


     

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  • 31/01/2006

    A missão no canteiro de obras do Vaticano II

    Contexto e texto do Decreto “Ad Gentes”


    revisitado 40 anos depois de sua promulgação


     


    Paulo Suess


     


    Introdução


     


    Na origem do Concílio Vaticano II estão perguntas sobre a possibilidade de comunicar a mensagem cristã ao o mundo de hoje e de vivê-la com relevância para a humanidade. Como traduzir os artigos de fé, os sinais de justiça, as imagens de esperança e as práticas de solidariedade para os interlocutores “mundo” e “humanidade” que os consideram, em seu significado simbólico, incompreensíveis, em seu conteúdo, ultrapassados e, em sua aparência, folclóricos? As respostas do Vaticano II foram além das perguntas da época. Hoje, depois de 40 anos de caminhada pós-conciliar, a releitura dos documentos do Vaticano II, que colocou a missão no coração da Igreja, pode iluminar a reflexão teológica e reanimar a prática pastoral.


     


    1. Antecedentes históricos


     


    Os tratados de teologia do século XIX e da primeira metade do século XX mostram pouca preocupação com a missão como tema eclesiológico ou pastoral. “A afirmação pura e simples da competência da Igreja em todos os domínios tinha reduzido a idéia de missão à reivindicação, por parte da sociedade eclesiástica, dos seus direitos e dos seus poderes” (LE GUILLOU, 1965, p. 68). “Missão” não designava uma visão de Igreja local ou universal, mas uma atividade de resgate salvífico, por direito e dever, em terras longínquas, dirigida por centros europeus.


     


    Os documentos oficiais da Igreja Católica latino-americana do fim do século XIX e da primeira metade do século XX apontam para uma Igreja defensiva, predominantemente jurídica e voltada para si mesma. As Atas e Decretos do Concílio Plenário da América Latina, celebrado em Roma entre 28 de maio e 9 de julho de 1899, definem a “civilização” das “tribos que ainda permanecem na infidelidade” [n. 770] como meta, para a qual servem a “pregação evangélica” e o “estudo das línguas” como meio de administração dos sacramentos (cf. CONCÍLIO PLENÁRIO, Actas, 1906, itens 547s, 619, 627, 770-774). Muitas das deliberações pastorais daquele Concílio repetem os tópicos elencados 300 anos antes, na primeira fase de colonização, nos concílios de México e Lima.


     


    A “Pastoral Collectiva” e as “Resoluções e Estatutos” da Província Eclesiástica Meridional do Brasil, de 1901, assinadas pelos bispos de Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mariana, Petrópolis, Curitiba e Pouso Alegre, mostram uma Igreja que se romaniza a si mesma, sem nenhuma preocupação com os povos indígenas (cf. Pastoral Collectiva, 1902). A mesma despreocupação refletem as Cartas Pastorais, como aquela que o episcopado brasileiro escreveu por ocasião do Centenário da Independência (cf. Carta Pastoral, 1922); a mesma lacuna encontra-se nos 489 cânones do Primeiro Concílio Plenário Brasileiro, celebrado em 1939 no Rio de Janeiro (cf. CONCILIUM PLENARIUM BRASILIENSE, 1939). Mas, em cada ano dessa época, um povo indígena foi definitivamente exterminado.


     


    Com o fim das duas Guerras Mundiais, a ideologia colonial foi derrotada e a civilização ocidental começou a perder seu prestígio. O mundo pós-colonial passou a forjar também a descolonização da Igreja. Bento XV aponta na encíclica Maximum illud (1919) para aquilo que deveria ser “uma das preocupações principais” do trabalho missionário, “a formação e a organização de um clero indígena” [n. 14]. Pio XI ordena, em 1925, os primeiros seis bispos chineses. Um dos precursores da descolonização é Charles de Foucauld (1858-1916) que, com seus seguidores nos mais diversos movimentos espirituais e fundações religiosas, antecipava questões posteriormente articuladas em torno do paradigma da inculturação. Neste contexto pós-colonial da opção pelos outros emerge a opção pelos operários de um Joseph Cardijn, que em 1924 fundou na Bélgica a Juventude Operária Cristã (JOC), inspirando a Ação Católica com seu método da “revisão de vida” (ver, julgar, agir). Ele influenciou profundamente o Concílio, que conseguiu fazer uma “revisão da vida eclesial” e inspirou, posteriormente, a prática e a reflexão da pastoral latino-americana.


     


    A beatificação do padre Antoine Chevrier – 7 de outubro 1986, em Lyon -, fundador dos “Padres do Prado”, chamou a atenção para seu carisma, que apontou muito tempo antes do Concílio para um novo estilo de ser sacerdote, vivendo em comunidade, caminhando despojado no meio dos operários, dos imigrantes, dos favelados e dos camponeses do Terceiro Mundo, segundo o Espírito de Deus, contemplando Jesus nos lugares pobres do presépio, da cruz e da Eucaristia, evangelizando os pobres, e se integrando plenamente no presbitério da igreja local. O sucessor do padre Chevrier, Alfred Ancel, teve presença discretamente marcante durante o Concílio em favor de uma Igreja pobre e dos pobres.


     


    A criatividade e tenacidade dos movimentos litúrgico, bíblico e ecumênico abriram, muito antes do Vaticano II e, por vezes, na clandestinidade eclesial, perspectivas para a celebração da vida e para a leitura da palavra de Deus historicamente situada num horizonte escatológico de unidade eclesial.


     


    Por fim, não se deve esquecer a sobriedade missionária do movimento dos padres operários e da Mission de France, o despojamento de um Abbé Pierre, fundador do movimento dos maltrapilhos-construtores de Emaús, que já apontaram para a opção pelos pobres e pelos que mais sofrem. João XXIII, na encíclica Pacem in terris (1963), invoca a descolonização como um sinal de Deus no tempo [n. 42]. Nem sempre nas práticas pastorais eclesialmente reconhecidas, mas nos documentos o século XX é um século de transição lenta e, às vezes, contraditória de uma Igreja colonial e colonizadora para a subjetividade de Igrejas locais numa era pós-colonial.


     


    Nesse contexto de indecisão e transição, deve-se situar a declaração dos antropólogos que participaram, de 25 a 30 de janeiro de 1971, em Barbados, de um “Simpósio sobre a Fricção Interétnica na América do Sul”. Segundo eles, “o conteúdo etnocêntrico da atividade evangelizadora” das missões religiosas está baseado no “seu caráter essencialmente discriminatório” e na sua potência econômica, que fez as missões se converterem “em uma grande empresa de recolonização” (DECLARAÇÃO, p. 22s). Em virtude dessa análise, os antropólogos propõem “acabar com toda atividade missionária”. Como se percebe, o Vaticano II, que terminou em 1965, e o clamor pela descolonização da prática missionária não repercutiram imediatamente sobre as microestruturas das chamadas Missões, ainda presas ao seu passado colonial (cf. SUESS, 1989).


     


    2. Aggiornamento


     


    O anúncio do Vaticano II, na festa da conversão do apóstolo Paulo, dia 25 de janeiro de 1959, na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, tem um profundo significado simbólico. Data, lugar e pessoa escolhidos pelo Papa João XXIII apontam para o propósito de reconstruir uma Igreja com atitude de conversão; apontam para uma Igreja apostólica, cuja atividade missionária se torna responsabilidade redentora para com toda a humanidade, e para uma Igreja cuja identidade não é assegurada por muros, mas que se encontra a si mesma, exatamente, “fora dos muros”. Como colocar a Igreja em dia com o mundo e com uma nova consciência histórica, e inseri-la na realidade de hoje? Inserção na realidade, consciência histórica, contemporaneidade, sem concessões aos modismos, e visão utópica delineiam o campo semântico do aggiornamento.


     


    Com a eleição de João XXIII, em 1958, veio um papa que disse que a igreja não precisava de uma operação dogmática ou de mais severidade para com o mundo, mas de uma oxigenização pela vida cotidiana, pela realidade histórica e pelos sinais de Deus no mundo. A “substância da antiga doutrina do depositum fidei” está revestida de formulações sem chance de mediação pastoral para o mundo de hoje, dizia o Papa em seu discurso de abertura do Concílio, no dia 11 de outubro de 1962 (KLOPPENBURG, 1963, p. 310). Prefiro, dizia o Papa, o “remédio da misericórdia” ao da “severidade”. A Igreja precisa estar pronta para dar a razão de sua esperança, mas sempre com “mansidão e respeito” (1Pd 3,14). O melhor convite da Igreja à conversão do mundo é o amor aos pobres nos quais encontra a presença de Cristo (cf. GS 88a; LG 8c). O Papa João XXIII não é o criador solitário do aggiornamento, mas a sua expressão corajosa. Muitas experiências proféticas de aggiornamento passaram, antes de João XXIII, por momentos de suspeita, de proibições e desqualificações eclesiais. Ele tem o mérito de ter esperado na porta aberta da Igreja o retorno de muitos profetas silenciados. A coragem profética, que não é própria das instituições, fez João XXIII convocar um concílio com seu olhar voltado para “fora dos muros”.


     


    O aggiornamento exige, como todo o seguimento de Jesus, um discernimento. O autor da Carta a Diogneto, na segunda metade do século II, com uma alusão a textos no Evangelho de São João, formulou esse discernimento assim: “Os cristãos residem no mundo, mas não são do mundo” (A Carta a Diogneto, VI.3, cf. Jo 15,19; 17,11-16.). Como as pessoas podem estar no mundo, sem ser do mundo? Trata-se de uma presença significativa sem identificação ou acomodação. Abertura ao mundo e inculturação no mundo, como se diria mais tarde, não solucionam todas as tensões entre Igreja e mundo. Assumem os limites da presença dos cristãos no mundo, limites esses marcados, ao mesmo tempo, pela inserção e a não-identificação com o mundo. Como viver a contemporaneidade secular sem ceder à secularização?


     


    Poucos dias depois da abertura do Vaticano II, o debate sobre o aggiornamento se tornou bastante prático na adaptação da liturgia e na controvérsia sobre o latim como língua litúrgica e como língua franca no Concílio (cf. KLOPPENBURG, 1963, p. 94ss, 107ss). Helder Câmara já advertiu no segundo dia do Concílio que “provavelmente o latim será derrubado como língua oficial: grande número de bispos não consegue entender, sobretudo o latim falado por franceses e alemães… Virão depois as batalhas essenciais pela alteração dos esquemas” (CÂMARA, p. 4).


     


    3. Gênese do Decreto Ad Gentes


     


    Ao texto definitivo do “Decreto Ad Gentes sobre a Atividade Missionária da Igreja”, de 7 de dezembro de 1965, precederam sete documentos, que permitem acompanhar as lutas pelo significado do paradigma “missão” e o processo lento da construção de um consenso em torno de uma Igreja que não põe mais no centro o ter missões, mas o ser missionário.


     


    1) 23 propostas


    Quatro meses depois do anúncio do Concílio, o Papa João XXIII instituiu, na festa de Pentecostes, no dia 17 de maio de 1959, a Comissão Antepreparatória, presidida pelo cardeal Domenico Tardini, Secretário de Estado, para “conhecer opiniões”, pedir sugestões e “recolher conselhos” do episcopado, das Universidades Católicas, das Faculdades Pontifícias, das Congregações Religiosas e das Congregações Romanas, que depois deveriam ser sistematizados e encaminhados ao Concílio (cf. FOUILLOUX, 1996, p. 103ss). Entre a carta oficial de Tardini, do 19 de junho, e o fim da consulta, dia 30 de outubro de 1959, decorreu pouco tempo (cf. PAVENTI, p. 48ss).


    Antes e durante essa consulta da Comissão Antepreparatória “às bases” da Igreja, as Congregações Romanas já formaram comissões internas de estudo, com seus consultores e colaboradores próprios. Também a Propaganda Fide, ex-officio responsável para o debate missionário, constituiu, em 10 de novembro de 1959, uma comissão desse tipo.[1] Em 16 de fevereiro de 1960, Tardini pediu aos secretários das Congregações Romanas que preparassem até meados de março, na base do retorno da consulta e do próprio trabalho, propostas que a Comissão Antepreparatória deveria avaliar, a partir do dia 8 de abril. A comissão da Propaganda Fide elaborou 23 propostas, que entregou em 28 de março de 1960 ao cardeal Tardini. A Comissão Antepreparatória terminou seu trabalho, em 1º de maio de 1960, com a coleção de mais de cinco mil páginas.


     


    2) Prefácio e sete esquemas em forma de decretos


    A 5 de junho de 1960 iniciou-se a fase propriamente preparatória do Concílio. João XXIII instituiu nesse dia a Comissão Central com dez Comissões Preparatórias e três Secretariados que deveriam trabalhar sobre as propostas até então colecionadas. Os presidentes das dez Comissões Preparatórias eram sempre os prefeitos das respectivas congregações romanas (cf. KLOPPENBURG, v. 1, 1962, p. 56s). Essas presidências asseguravam o papel preponderante da Cúria Romana sobre o processo preparatório do Concílio. O Prefeito da Congregação pela Propagação da Fé (Propaganda Fide), cardeal Agagianian, patriarca armênio da Cilícia, foi nomeado Presidente da Comissão Preparatória das Missões.


    A Comissão “de Missionibus” estava integrada por 22 membros e 32 consultores. Na representação por nacionalidades sobressaem a Europa e o Norte (cf. BRECHTER, p. 10). Secretários adjuntos da comissão foram S. Paventi[2] e N. Kowalsky, ambos funcionários da Propaganda Fide. A sessão inaugural da Comissão Preparatória das Missões aconteceu no dia 24 de outubro de 1960, na Igreja da Propaganda Fide. Foram instaladas cinco subcomissões em torno dos seguintes assuntos: sacramentos e liturgia, governo nas missões e direito canônico, vida do clero e do povo, reforma na formação do clero e dos religiosos, ajuda dos fiéis às missões. Os resultados das subcomissões foram discutidos em duas sessões plenárias da Comissão Preparatória  das Missões, a primeira, de 17 a 26 de abril de 1961, e a segunda, de 20 a 30 de novembro de 1961. Para a segunda sessão plenária, uma nova subcomissão tinha dado a forma redacional aos trabalhos das diferentes subcomissões. Segundo as exigências dos representantes da Propaganda Fide, os textos tiveram de ser redigidos na forma canônica de “decretos”, com uma demonstratio e uma dispositio, respectivamente, e, obviamente, em latim.


    Numa última sessão dos secretários das subcomissões com os secretários adjuntos, Paventi e Kowalsky, no dia 2 de fevereiro de 1962, se conseguiu uma redação final do Prefácio. As divergências sobre o conceito “missão” eram grandes. Finalmente, no dia 6 de fevereiro 1962, o Prefácio e os sete esquemas de Decretos estavam na mesa da Comissão Preparatória Central que, em fins de março, os discutiu em várias sessões.[3]


     


    3) Prefácio e dois esquemas de decretos sobre as missões


    Depois das discussões da Comissão Preparatória Central, seu novo presidente, cardeal Confalonieri, alegou, que a maior parte dos Decretos do esquema “De Missionibus” coincide com documentos de outras Comissões e impôs cortes drásticos. Dos textos apresentados pela Comissão Preparatória das Missões, sobraram, com algumas modificações, apenas o Prefácio e o primeiro e o último dos sete esquemas (De Regimine Missionum e De Cooperatione Missionali). A esses dois capítulos foi integrado um texto sobre o apostolado dos leigos nas missões, vindo da Comissão Preparatória “De Apostolatu Laicorum” (cf. PAVENTI, p. 55s). Esse novo minidocumento formou o Schema decreti de missionibus (Prefácio e dois Esquemas de Decretos sobre as Missões), no início de junho 1962, e deveria ser enviado à apreciação dos padres conciliares.


    Em fins de julho de 1962, o secretário-geral do trabalho preparatório, Pericles Felici, enviou um volume com sete esquemas de “Primeira Série de Esquemas de Constituições e Decretos” à apreciação dos futuros padres conciliares. O documento da Comissão Preparatória para as Missões não fazia parte desse envio de documentos. A questão da missão não era prioritária nem urgente para a Comissão Preparatória Central. A Propaganda Fide lutava por sua própria sobrevivência e hegemonia, que estavam ligadas à sobrevivência da abordagem territorial das missões (“ter missões”), centralizadas e dependentes diretamente de Roma.


     


                4) Prefácio e dois esquemas sobre missão e cooperação


    Com a abertura do Concílio, no dia 11 outubro de 1962, terminou o mandato das Comissões Preparatórias. Além de alguns Secretariados, o Regulamento do Concílio previu 10 comissões conciliares, cada uma com 16 membros eleitos pelos padres conciliares e 9 membros (incluído o respectivo presidente) nomeados pelo Papa. Nessa primeira etapa do Concílio, entre 11 de outubro e 8 de dezembro de 1962, os padres conciliares rejeitaram todos os esquemas apresentados, menos o documento sobre a liturgia.


    Ao iniciar o Concílio, o cardeal Agagianian, da Propaganda Fide, foi nomeado presidente da Comissão das Missões. Ele elegeu Vítor Sartre e José Lecuona Labandibar como vice-presidentes e Saverio Paventi como secretário. Durante a primeira sessão do Concílio, Agagianian e os estrategistas da Propaganda Fide não convocaram a Comissão das Missões para nenhuma sessão de trabalho. Na aula conciliar e nos corredores, a Propaganda Fide recebeu críticas, sobretudo de bispos da África e da Ásia, que propuseram a transformação estrutural da Propaganda Fide num organismo de apoio econômico, sem poder jurídico.


    Depois do primeiro período do Concílio e do retorno dos padres conciliares às suas dioceses, o vice-presidente da Comissão das Missões, Sartre, e o secretário, Paventi, com alguns peritos que moravam em Roma, reuniriam-se no dia 18 de dezembro de 1962 para dar início a uma série de sessões de trabalho e discussões em torno de um quarto documento. Para as reuniões plenárias da Comissão das Missões, entre os dias 20 e 29 de março de 1963, membros e peritos receberam o Schema decreti de missionibus (De Regimine Missionum e De Cooperatione Missional: Prefácio e dois Esquemas de Decretos, com algumas modificações) como base para seu trabalho. Nas reuniões plenárias da Comissão das Missões houve pouco consenso. Pressionado pelo tempo, a Comissão aprovou uma estrutura semelhante à do terceiro documento. No dia 3 de julho 1963, esse quarto documento foi apreciado pela Comissão de Coordenação, que o devolveu com muitas críticas. Em seguida, com poucas modificações, esse quarto documento foi enviado aos padres conciliares para ser discutido na segunda etapa conciliar (cf. BRECHTER, p. 12s).


     


    5) Das missões


    Durante o segundo período do Concílio (29.9.-4.12.1963), novamente surgiram na Comissão das Missões, agora já em posse das críticas de alguns pareceres dos bispos, divergências insuperáveis. Nessa segunda etapa do Concílio, a Comissão Teológica decidiu integrar à “Constituição sobre a Igreja” um capítulo sobre natureza e índole missionária da Igreja (cf. Lumen gentium, 17). Em 10 sessões plenárias, a Comissão das Missões produziu um quinto documento (“De Missionibus”), aprovado em 3 de dezembro com ampla maioria da Comissão.[4] Em janeiro de 1964 foi aprovado pela Comissão de Coordenação e em seguida enviado aos padres conciliares, que deveriam dar um retorno até 31 de março de 1964. Apesar do tempo reduzido para a apreciação do documento nas bases diocesanas do mundo inteiro, chegaram 67 propostas para emendas, configurando um volume de 283 páginas. Cinco apreciações falaram em nome de suas respectivas Conferências Episcopais. Para o dia 4 de maio de 1964, estava marcada a próxima sessão plenária da Comissão das Missões. Até o início do terceiro período do Concílio (14.9.1964), nenhum documento específico sobre a atividade missionária foi discutido na aula conciliar.


     


    6) Esquema de 14 proposições sobre a atividade missionária da Igreja


    Antes de a Comissão das Missões poder apreciar as propostas de emendas dos padres conciliares e concluir o quinto documento, ocorreu – sob pressão do tempo e das prioridades estabelecidas – uma intervenção administrativa, que obrigou a Comissão das Missões a abrir mão do texto em processo de elaboração e produzir um sexto documento em forma de uma declaração de princípios. O que aconteceu?


    No dia 23 de abril de 1964, o secretário-geral do Concílio, Pericle Felici, publicou a decisão da Comissão Central de Coordenação de que, no interesse de uma concentração do trabalho, todos os textos ainda não discutidos na aula conciliar deveriam ser resumidos em “Proposições” e “Princípios”. Como Schemata propositionum deveriam, sem grandes discussões, ser apresentados aos padres conciliares para a votação. A Comissão das Missões estava diante da tarefa impossível de atender às expectativas do episcopado, de equacionar as divergências internas e de obedecer à Comissão Central.


    Sob a pressão de redigir um texto curto, a Comissão das Missões produziu um sexto documento, de poucas páginas, que recebeu o título “De activitate missionali ecclesiae”. Era composto de um prefácio e 13 apontamentos sobre a atividade missionária.[5] No dia 26 de maio de 1964, esse novo documento foi enviado ao cardeal Cicognani e no dia 3 de julho, aos padres conciliares.


    Depois do início do terceiro período do Concílio (14.9.-21.11.1964), a Comissão das Missões realizou ainda três sessões, ampliou os 13 apontamentos para 14, incluindo um item sobre a responsabilidade da Igreja universal com as missões, e preparou o texto para a votação dos padres conciliares. Apesar da intervenção, na aula conciliar, de Paulo VI, no dia 6 de novembro de 1964, em favor dessas 14 Proposições, a rejeição do texto pelos padres conciliares foi quase unânime (cf. KLOPPENBURG [org.], 1965, vol. IV, p. 298-316). Os leigos, dizia o Papa, “que fazem parte do real sacerdócio do povo santo de Deus, (…) ofereçam orações, práticas de piedade e auxílios materiais para generosa ajuda e conforto dos arautos do Evangelho”, que são, supostamente, os padres missionários. Mantém-se a hierarquia clerical também no interior dos “territórios de missão”: “sacerdotes” missionários, “auxiliares missionários de ambos os sexos, catequistas e os que oferecem às Missões auxílios concretos”. O “Decreto sobre o Apostolado dos Leigos” (AA) procurou corrigir essa visão. Tudo que o Papa disse refletiu o convencional estilo missionário da Propaganda Fide. A Igreja local, disse o Papa, ajuda as Missões elevando “fervorosas orações pelos missionários, reforçadas pelas esmolas e pelas boas obras” (KLOPPENBURG [org.], 1965, vol. IV, 299s). Logo, não só os bispos-missionários, mas a maioria dos padres conciliares rejeitariam esse texto-esqueleto, que, antes de ser derrotado na urna, foi retirado da aula conciliar. As mudanças precisavam de uma nova fundamentação teológica.


     


    7) Esquema de decreto sobre a atividade missionária em cinco capítulos


    No dia 16 de novembro de 1964, já no fim do terceiro período conciliar, a Comissão das Missões se reuniu numa sessão plenária e constituiu uma subcomissão para sistematizar as contribuições da aula conciliar.[6] No dia 20 de novembro, a subcomissão se reuniu pela primeira vez. Agagianian mandou avisar que não aceitaria o padre Congar como assessor da Comissão. A subcomissão justificou a escolha de Congar, que era da Comissão Teológica do Concílio. Na mentalidade da Propaganda Fide não coube uma nova eclesiologia. Depois de longas discussões, Congar foi aceito. A subcomissão decidiu se reunir de 12 a 27 de janeiro de 1965, no seminário dos Verbitas de Nemi, com os peritos Congar, Seumois, Grasso, Neuner e Glazik. Nessa reunião, os membros da comissão estiveram todos presentes. Dos peritos só faltou Ratzinger, que mandou sua contribuição por escrito. Schütte, como presidente da subcomissão, apresenta os quatro projetos existentes. O grupo toma, basicamente, o texto de Congar, que distingue entre a salvação dos indivíduos, sem intervenção formal da Igreja, e a Igreja como meio necessário à salvação.


    Agagianian, que chega no dia 12 de janeiro (1965), pronuncia-se novamente em favor do senso estrito da missão. Para ele, no dizer do padre Congar, o objetivo do documento que os padres conciliares deveriam aprovar, é, sobretudo, suscitar vocações missionárias e levantar fundos. No dia seguinte, 13 de janeiro, o grupo se divide em dois subgrupos. Um discute o Proemium (Introdução), que estará pronto no dia seguinte, e o outro, com Lecuona, Riobé, Neuner e Grasso, trabalha sobre o texto de Congar procurando incluir os pontos levantados no dia anterior. O novo texto é dividido em cinco capítulos: 1) Princípios doutrinários; 2) Obra missionária; 3) Os missionários; 4) Organização da atividade missionária; 5) Cooperação com os missionários (cf. KLOPPENBURG [org.], vol. V, 1966, p. 242). Em junho, esse texto é enviado aos padres conciliares para ser discutido na quarta e última sessão do Concílio.


     


    8) Nascimento do Decreto Ad Gentes


    A quarta e última sessão do Concílio começou em 14 de setembro de 1965.[7] Entre os dias 7 e 13 de outubro é discutido o novo texto sobre a atividade missionária. Cinqüenta padres conciliares tomaram a palavra. Um grupo significativo pediu a afirmação da necessidade da missão, apesar do reconhecimento da ”possibilidade de salvação sem conhecimento do Evangelho e sem pertença visível à Igreja” (KLOPPENBURG [org.], vol. V, 1966, p. 243). Pediu-se também uma sensibilidade especial para a questão ecumênica e as áreas de convivência com os não-cristãos. Giocondo Grotti, do Acre, chamou a atenção para o papel dos leigos na missão, e Pedro Arrupe, o superior-geral da Companhia de Jesus, para a cooperação missionária, para a colaboração com a construção da paz e para o encontro em direção aos povos afro-asiáticos com suas culturas e religiões ancestrais. No final desse debate, o texto passou pela votação de sondagem com uma aprovação de 2.070 contra apenas 15 votos.


    Para a próxima etapa, cinco subcomissões, uma para cada capítulo, trabalharam as sugestões de emendas de 193 padres conciliares. Já um mês mais tarde, nos dias 10 e 11 de novembro, a Comissão pediu 20 sufrágios sobre partes do texto que receberam muitas emendas (cf. KLOPPENBURG [org.], vol. V, 1966, p. 394ss). A maior parte das emendas foi aceita. O texto voltou depois à Comissão para a sua redação final. No dia 30 de novembro de 1965, a Comissão entregou aos padres conciliares o novo texto, pedindo 10 quesitos sobre as emendas feitas. Antes da promulgação, no dia 7 de dezembro de 1965, o “Decreto Ad gentes – Sobre a atividade missionária” recebeu o voto sim de 2.314 padres conciliares, contra apenas 5 votos não.


    No mesmo dia 7 de dezembro de 1965, foi promulgada a “Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo” (GS), a “Declaração sobre a Liberdade Religiosa” (DH), poucos dias depois da promulgação da “Declaração sobre as Religiões Não-Cristãs” (NA, 28.10.65). O lugar do “mundo”, da “missão”, da “liberdade religiosa” na Igreja foi disputado e discutido até o último momento do Concílio. E essa discussão continua até hoje pelas diferentes leituras desses textos em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992), e Roma, com o “Sínodo dos Bispos para a América” (1997) e a “Declaração Dominus Iesus” (2000), que procurou fechar um ciclo. Onde, para marcar a identidade, o Concílio derrubou paredes e colocou arbustos, a “Declaração sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja”, levantou novamente muros. Mas, a travessia continua, nem sempre em linha reta.


     


    9. Esquema dos textos que precederam Ad Gentes


     




















     


     


    NOME CONFIGURAÇÃO


     


     


    ELABORADO


    POR QUEM


     


     


    BASE DO DOCUMENTO


     


    QUANDO (elaborado e entregue)


     


    DESTINO


     


     


    1


     


    23 Propostas


     


    Comissão interna da Propaganda Fide


    – retorno da Consulta da Comissão Antepreparatória


    – propostas da Propaganda Fide


     


    – antes do Concílio


    – 28.3.1960


    Subsídio para a Comissão (Preparatória) das Missões


     


     


     


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  • 31/01/2006

    Romper o mal-estar na missão

    Os povos indígenas e a Igreja pós-conciliar[1]


    Paulo Suess


     


    A história da relação entre povos indígenas e Igreja é marcada por uma sucessão de ‘desconfortos’ que, aparentemente e em escala menor, continuam até hoje. A partir desta constatação se impõe a pergunta se esses desconfortos, no passado, eram evitáveis e hoje, olhando para o futuro, são corrigíveis.


     


    O ‘mal-estar na civilização’, segundo Freud, é expressão de uma ambivalência estrutural, proveniente de ideais de felicidade e prazer que nunca podem ser alcançados: “O programa de tornar-se feliz, que o princípio do prazer nos impõe, não pode ser realizado; contudo, não devemos – na verdade, não podemos – abandonar nossos esforços de aproximá-lo da consecução, de uma maneira ou de outra.”[2]


     


    Pode a missão escapar deste desconforto cultural e civilizatório embutido no cristianismo que quer, através do seu caminho de salvação, a felicidade de toda a humanidade, cuja realização está norteada pelo imperativo do ‘amor maior’. Como articular a totalidade quantitativa e qualitativa com o ‘amor maior’?


     


    Este amor, antes de admitir a prática de violência contra os outros, oferece a própria face e a própria vida. Limitar o caminho da felicidade ao próprio caminho sempre levará à exclusão ou ao impasse de forçar os outros à incorporação na própria felicidade.[3] A suposta auto-exclusão e infelicidade da maior parte da humanidade que não faz parte da felicidade padronizada pelo cristianismo tampouco tranqüiliza as consciências cristãs. Qualquer atitude – de não ter feito o suficiente para a incorporação do outro ou de ter feito por meios de poder e violência – causa sentimentos de culpa. Assim o cristianismo se torna bode expiatório e causador de culpa por tudo: pelo excesso de zelo missionário cujos vestígios se encontram ainda na ‘guerra santa’ e na ‘intolerância religiosa’ e pelo relaxamento do zelo missionário supostamente presente nos paradigmas da ‘evangelização implícita’, do ‘diálogo inter-religioso’ e na formula que considera todo ser humano um ‘cristão anônimo’.


     


    Por conseguinte, setores ‘zelosos’ e ‘relaxados’ são marcados por sentimentos de culpa e se acusam reciprocamente; uns pela violência dos meios aplicados, outros pela diluição e transferência de conteúdos para o campo social que lhes supostamente impede de pregar “todo o evangelho”. Ambos setores compensam seus sentimentos de culpa, muitas vezes, com discursos apologéticos e com ‘cara feia do sofredor pela causa’ que apontam para a escassez de felicidade em sua vida por falta ou por excesso de auto-estima.


     


    Estas são algumas questões de fundo deste texto: a prática da missão sem culpa, sem sacrificialismo que está sempre na origem de uma violência, afinal, “viver e não ter vergonha de ser feliz”. Também o tempo pos-conciliar não venceu ainda o mal-estar na missão. Ele é o ‘demônio’ que nos procura atacar pelas costas. O venceremos, não pela fuga, porque ele é mais rápido, nem pelo confronto, porque ele é mais forte, mas pelo diálogo e a razão da nossa esperança.


     


    1. O mal-estar


     


    Seis anos depois do Concílio Vaticano II, a declaração dos antropólogos que participaram, de 25 a 30 de janeiro de 1971, em Barbados, do ‘Simpósio sobre a fricção interétnica na América do Sul’, causou um mal-estar muito grande na comunidade missionária.[4] Segundo os antropólogos, “o conteúdo etnocêntrico da atividade evangelizadora” das missões religiosas está baseado:


     


    – no “seu caráter essencialmente discriminatório originado em uma relação hostil com as culturas indígenas que classifica como pagãs e heréticas”;


    – na “sua natureza vicarial” e advocatória (paternalista);


    – na sua potência econômica que fez as missões se converterem “em uma grande empresa de recolonização e dominação, em conivência com os interesses imperialistas dominantes”.


    Em virtude desta análise, os antropólogos propõem “acabar com toda atividade missionária” e exigem sua revisão radical. Os missionários devem:


    – “superar o herodianismo intrínseco à atividade catequizadora como mecanismo de colonização, europeização e alienação das populações indígenas;


    – respeitar as “culturas indígenas, pondo fim à longa e vergonhosa história de despotismo e intolerância”;


    – “acabar com a indiferença diante da constante espoliação de que os indígenas são objeto por parte de terceiros”;


    – “pôr um fim na disputa entre confissões e agências religiosas pelas almas dos indígenas” que “os divide e conduz a lutas internas”;


    – “suprimir as práticas seculares de ruptura da família indígena pelo internamento das crianças em orfanatos”;


    – “suspender imediatamente toda prática de deslocamento ou concentração de populações indígenas com fins de catequese ou assimilação”.


    Por fim, Barbados propõe medidas que hoje são amplamente respaldadas na prática pastoral:


    – o protagonismo dos povos indígenas na definição de seu destino;


    – a autodeterminação: “a libertação das populações indígenas ou é realizada por elas mesmas ou não é libertação”;


    – a organização indígena pan-americana e alianças com grupos oprimidos;


    – a assunção da vida indígena como uma das muitas “vias alternativas aos caminhos já transitados pela sociedade nacional”.


     


    O Encontro Ecumênico de Assunção, em março de 1972, com representantes de nove países, respondeu à Declaração de Barbados I (1971) e à sua proposta de uma moratória para a atividade missionária.[5] O Documento Final do encontro reconhece que “nossas Igrejas, mais de uma vez, têm sido coniventes ou instrumentalizadas por ideologias e práticas opressoras do homem”. Mas, segundo o documento, os erros históricos não anulam a razão de ser da Igreja, que tem a missão de “descobrir a presença de Deus Salvador em todo povo e cultura”. Por fim, os missionários reunidos em Assunção se comprometem a abrir espaço para o diálogo e a participação dos próprios índios na pastoral missionária que deverá visar uma “libertação integralmente humana e profundamente cristã”.


     


    De fato, não era difícil apontar missões cuja atuação, na época, confirmou as denúncias de Barbados. Ainda em 1978, o missionário e antropólogo Alcionílio Brüzzi Alves da Silva, por exemplo, insistiu no imperativo civilizatório da missão: “Em nossas freqüentes excursões de exploração e estudos desde 1947, temos não sem emoção nossa, verificado uma ânsia de civilizar-se por parte daqueles indígenas, ânsia que se traduzia algumas vezes no pedido insistente que ficássemos entre eles.”[6] O missionário que passou praticamente toda a sua vida profissional nas missões do Rio Negro (AM), afirma sem hesitação:


     


    “Praticamente as Tribos do Uaupés não apresentam religião alguma. E, conseqüentemente estão sob o peso asfixiante de crenças e práticas mágicas. Dispensa provas a vantagem de uma convivência longa (…) com pessoas de alta cultura e elevada religiosidade e moralidade, como os Missionários. E como são de lamentar-se os inconvenientes de contatos só com caboclos, semi-índios, semi-civilizados, marginais da civilização, da moralidade e da religião. (…) Quiçá melhor que o termo Catequese, se deva falar de um Processo Civilizador da Missão Salesiana do Rio Negro (MSRN).”[7]


     


    O objetivo e o efeito da passagem pela missão é assim descrito pelo missionário:


     


    “E voltam entre os seus ‘irmãos’ com a mente mais esclarecida, um conforto material maior, uma crença no Deus Criador do céu e da terra, Senhor, Juiz e Pai, e uma esperança de uma velhice menos triste, alentada pelas esperanças de uma vida futura feliz e sem termo.”[8]


     


    E a respeito dos destinatários preferenciais desta missão, o missionário defende antigas práticas:


     


    “Os maiores esforços devem ser dirigidos para a geração nova. Para esta a MSRN procurou criar no mais longínquo da selva amazônica um ambiente de civilização, onde, sem atritos, sem violência, o indígena vá assimilando, quase sem o perceber, uma civilização humana, cristã e brasileira. São os internatos, aos quais a criança, filha de pais indígenas, talvez se tenha apresentado mais nua na alma do que no corpo (…).”[9]


     


    A missão civilizadora é a missão das ‘melhores intenções’. “Erraram? Pode ser… Mas amaram!”, exclama o frei Leonardo Trotta, ao referir-se ao seus confrades mártires de Alto Alegre, e o padre geral, perguntado sobre a nota que ele daria aos seus confrades missionários do Maranhão, responde com generosidade: “dez com louvor”.[10] A missão civilizatória é, além de ser autocomplacente e apologética, também dispendiosa. Obras pesadas fazem parte de seu processo evangelizador:


     


    “Este processo exige despesas de milhões, que são subministrados, em parte, pelas Verbas oficiais e, em parte, pelas doações de instituições eclesiásticas ou particulares. Exige, porém, muito mais do que isto; exige (…) um espírito de sacrifício que muitas vezes, raia pelo heroísmo, sacrifício que só um intenso amor de Deus, o amor da Pátria e o senso da fraternidade humana podem suscitar e manter.”[11]


     


    A missão civilizatória silencia o elemento profético da evangelização e tenta resolver os conflitos na negociação ‘em alto nível’. Ela ganhou elogios dos governantes e reconhecimento das nunciaturas.[12] “O índio brasileiro, neste longínquo rincão de nossa pátria, não poderia ter melhor assistência”[13], avalia, em 19 de maio de 1974, o então presidente da Funai, general Ismarth de Araújo Oliveira, a Missão do Rio Negro. Silenciando os povos indígenas e jogando a sua memória de paixão e ressurreição no rio do esquecimento, a missão civilizatória evita os conflitos e endossa as explicações oficiais nas quais assassinatos se tornam ‘acidentes’ e conquistas, ‘encontros de culturas’.


     


    Esta prática missionária não foi a prerrogativa de um ou outro instituto missionário. Existiam nas Américas da época também outras missões que igualmente confirmaram as denúncias dos antropólogos de Barbados. Poder-se-ia apontar missões no Nordeste e de paróquias, no Sul do país, com sua pastoral de ‘bugres’. Hoje, setores significativos da Igreja desenvolvem uma nova pastoral no espaço conflitivo entre as pulsões de vida (Eros) e destruição (Tanatos). O mal-estar na missão não se limita ao mal-estar com determinados setores eclesiais que negociam a paz (o suposto ‘bem-estar’) com os poderes no interior dos sistemas ou ao mal-estar sobre o paternalismo das ‘boas intenções’. Também a ‘missão libertadora’, em outro nível, não escapa do mal-estar inerente à luta pela vida que exige ‘sacrifícios’. Tanto um ‘Lunkenbein acomodado’ como um ‘Lunkenbein sacrificado’ causa mal-estar.[14] Ainda diante do cadáver do missionário e do índio na Missão Bororo, uma religiosa exclamou: “O que dirão agora os nossos benfeitores!”


     


    Viver significa resistir contra a morte. As culturas são sempre culturas de resistência. E onde a missão se alia a esta resistência, exige abrir mão do aconchegante incesto eclesial, da menoridade auto-imposta (Kant) e da regressão prazerosa em benefício da exogamia, do caminho pelo deserto, da intervenção nos conflitos dos pobres, da presença nos confins do mundo, do cantar adulto em terra estranha. E quanto mais exogâmica a missão se torna, mais ela cria consciência de suas amarras endogâmicas, sistêmicas, incestuosas. No interior da Igreja, o ideal da exogamia missionária radical, Freud diria, o Eros, de uma ou outra maneira, fica sempre a meio caminho, por causa do Tanatos.[15] Eis o mal-estar na missão: a culpa pela incoerência pode-se transformar em apologia da mediocridade. O shalom, estacionado a meio caminho, pode-se tornar barbárie. A missão salvífica pode-se colocar a serviço da repressão. A missão exige um trabalho permanente de luto e de discernimento entre o desejo e os princípios de esperança e realidade.


     


    2. O novo enfoque do Vaticano II














     


    A pressão do mundo moderno e a abertura do Concílico Vaticano II (1962-1965) tiveram um impacto sobre o relacionamento entre Igreja e povos indígenas. Nem sempre o tempo pós-conciliar coincide com um tempo pós-colonial. Continuam até hoje práticas e mentalidades baseadas mais na eclesiologia do Vaticano I do que na Lumen gentium ou na Gaudium et spes do Vaticano II.


     


    O espaço deste texto não permite a reconstrução histórica da relação entre povos indígenas e Igreja do passado. Mesmo assim é memória da paixão e ressurreição dos índios crucificados na história. Ao resgatar a memória dos condenados da terra da esfera do privado ou do proibido, um texto teológico é sempre também um texto político de reconstrução histórica e projeção utópica.


     


    Mas os povos indígenas não são apenas ameaçados pelo simples esquecimento. Também a comemoração – a comemoração dos “500 anos” e o “jubileu 2000” podem servir de exemplo – pode ser uma maneira sofisticada e cultural de esquecimento. O culturalmente correto e lembrado, as respectivas ondas de uma época, o padrão de santidade que serve, em correspondência com determinadas prioridades políticas e espirituais de um pontificado, para as canonizações, e o mainstream da ciência são afluentes do rio Lete, rio do esquecimento. O que não foi publicado em inglês, de cinco anos para cá e em determinadas revistas de renome, recebe o carimbo do forget it.[16] Mártires e hereges, pobres e excluídos, outros e minorias que são a memória evangelicamente significativa de sua época, apontam para este imperativo de conveniência política do forget e delete.


     


    A Igreja do Vaticano II se entende essencialmente missionária (cf. Ad gentes 2 e 6, Lumen gentium 1) e, ao contextualizar-se na Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano de Medellín (1968), se tornaria explicitamente libertadora. A novidade do Concílio não estava na missionariedade como tal. Também a cristandade colonial hasteava a bandeira da missionariedade. Missão significava expansão territorial e incorporação jurídico-espiritual num espaço de plenitude salvífica, representado pela Igreja. A missão da cristandade é endogâmica, narcísica, eclesiocêntrica. Ela anunciava o Reino como uma extensão da Igreja.


     


    O Vaticano II, com sua compreensão da ‘natureza missionária’ da Igreja, transformou o olhar narcísico sobre si mesmo num olhar ad extra, sobre o mundo. A ‘essência missionária’ do Vaticano II é exogâmica. Ao enamorar-se com as necessidades concretas da humanidade, e compreendendo a humanidade como humanidade mutilada que clama, sobretudo nos pobres, por libertação, a Igreja gera novos filhos e filhas, não resultados de uma relação endogâmica e incestuosa com suas deformações de infantilidade e subserviência, mas filhos e filhas adultos e livres.


     


    Os pobres, na compreensão original do Concílio, não são apenas destinatários de uma opção, mas povo de Deus e sujeitos de uma nova evangelização.[17] A obra da redenção que Jesus Cristo realizou “na pobreza e na perseguição” (Lumen gentium 8), a Igreja realiza “no seguimento do mesmo caminho” (ibid.). Só a Igreja dos pobres é capaz de realizar o projeto de Jesus na pobreza e com os pobres. Nos pobres, “entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, a Igreja avança” (ibid.), se constitui povo de Deus e procura servir a Cristo.


     


    Na práxis missionária junto aos povos indígenas dos anos pós-conciliares e pós-Medellín se percebeu, que a categoria ‘os pobres’ precisava ser matizada, porque os povos indígenas não cabiam simplesmente como ‘os pobres dos mais pobres’ nesta abordagem. No campo teológico-pastoral emergiu – primeiramente contra uma certa resistência dos ‘clássicos’ da teologia da libertação, depois já com mais tolerância – a categoria do “outro” e da “alteridade” que tem como base material e espiritual, não a carência social, como a pobreza, mas a riqueza cultural dos sujeitos históricos, sempre ameaçada, mas também base de sua resistência histórica. A sobrevivência, resistência e continuidade históricas dos povos não tem por base a sua pobreza, mas seu projeto de vida, codificado em suas culturas. As culturas sempre são culturas de resistência, memórias da vida que venceu a morte, já que a vida só existe na resistência contra a morte.


     


    ‘Pobreza’ e ‘alteridade’ não devem ser confundidas, nem separadas. Os outros-não-pobres representariam a classe média ou alta que construiu o seu estatuto de classe à custa dos pobres e os pobres-não-outros seria a generalização de uma classe social, onde a diversidade de projetos de vida se tornaria um obstáculo e não uma contribuição para o bem comum e a libertação de todos. Para enfatizar essa vinculação se tem adotado o conceito ‘pobre-outro’ ou, mesmo falando somente dos pobres, deve-se sempre subentender a sua diversidade cultural de projetos concretos. Por isso, as Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano de Puebla (1979) e Santo Domingo (1992) – apesar de todas as ambigüidades da última – acrescentaram à ‘opção pelos pobres’ e à ‘Teologia de Libertação’ também as questões da inculturação, não como alternativa mas como complemento necessário. A comunidade eclesial nunca separou estes dois mistérios. A eucaristia é a memória do “Verbo que se fez carne” e do “mistério pascal”. O tempo solar de Natal aponta – no solstício da noite mais escura – para o processo da encarnação crescente. E na festa da lua cheia de Páscoa reflete a luz da libertação em Jesus Cristo sobre o mundo.


     


    3. A leitura do Vaticano II pelo Cimi


     


    Por causa da questão da terra e da cultura, o chão das aldeias indígenas é um sismógrafo que registra os mínimos tremores macroestruturais, sejam estes de natureza política, econômica ou religiosa. O Vaticano II foi um destes acontecimentos macroestruturais no interior da Igreja Católica que repercutiu fortemente nos microcenários pastorais. Suas intenções foram lentamente contextualizadas na América Latina em inúmeras conferências e encontros. O Vaticano II e, em seguida, a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (1968), em Medellín, ainda não tematizaram a ‘questão étnica’. Trataram, sim, da ‘promoção da cultura’ (Gaudium et Spes, 53-59), da ‘liberdade religiosa’ (Dignitatis Humanae), do ‘valor salvífico’ das religiões não-cristãs e do ‘diálogo’ com os seguidores de outras religiões (Nostra aetate, 2).[18] “Diálogo” é a palavra-chave do Vaticano II, como ‘libertação’ se tornou a palavra-chave de Medellín. O papa João XXIII, logo no início do concílio, em sua Carta Encíclica sobre a Paz dos Povos, de 1963, qualificou a descolonização dos povos como um “sinal do tempo”, que marca uma nova época.


     


    A auto-compreensão da Igreja pós-conciliar como “essencialmente missionária” permitiu um olhar mais concreto para o mundo e sua realidade.  E essa Igreja missionária se compreende como povo de Deus em peregrinação, constituída pelos pobres que anseiam por sua libertação. Na diversidade de suas culturas codificaram seus múltiplos projetos de vida. Através da inculturação nestes projetos, a comunidade missionária vive o seguimento de Jesus. Na inculturação, o mistério da encarnação se contextualiza – no tempo, no espaço e na convivência – como lugar teológico (Santo Domingo, 13). Este é o pano de fundo teológico da nova presença missionária junto aos povos indígenas que norteou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).


     


    Até o início dos anos setenta não existia uma pastoral indigenista de conjunto. A pastoral junto aos povos indígenas estava predominantemente sob a responsabilidade de prelazias, entregues a ordens e congregações religiosas. Estas, em sua maioria, obedeceram antes a lógicas congregacionais que a prioridades pastorais. Na época da fundação do Cimi, em 1972, a sociedade brasileira e as Igrejas locais, em seu conjunto, não acreditavam na possibilidade de que os povos indígenas poderiam ter um futuro próprio, como povos e nações.


     


    O documento-denúncia “Y-Juca-Pirama, o índio: aquele que deve morrer”, foi – na mesma semana em que o Estatuto do Índio saía publicado no Diário Oficial – uma resposta de bispos e missionários ligados ao Cimi à política indigenista do governo. Ao lado da denúncia figura o anúncio:


     


    “Nada faremos em colaboração com aqueles que visam ‘atrair’, ‘pacificar’ e ‘acalmar’ os índios para favorecerem o avanço dos latifundiários e dos exploradores de minérios” (…). Nosso trabalho não será ‘civilizar’ os índios”. (…) Chegou o momento de anunciar, na esperança, que, aquele que deveria morrer é aquele que deve viver”.[19]



     


    Na década desenvolvimentista dos anos 70, seguida pela década perdida dos anos 80, as palavras “civilização”, “progresso” e “desenvolvimento” exerceram ainda um certo fascínio e sua contestação era difícil. Geralmente, considerava-se a questão indígena uma “causa perdida”. Parecia lógico que o caminho indicado para o futuro dos 90.000 (segundo dados do governo militar da época) ou 180.000 índios, segundo o recenseamento do Cimi de então, seria a integração nos padrões culturais e jurídicos da sociedade nacional e a assimilação étnica e religiosa. A perspectiva de integração na sociedade classista dispensaria a demarcação das terras dos índios e a sua proteção específica, a perspectiva da conversão dispensaria o diálogo inter-religioso e a inculturação. A integração, na chamada comunidade nacional, tornou-se a nova modalidade do etnocídio.


     


    O povo Nambikuara foi vítima exemplar dessa política. A Funai, com seu presidente general Bandeira de Melo, retirou os índios de seu território que então seria atravessado pela BR-364. Retirados os índios, a Funai emitiu certidões negativas – atestados de que na região do vale do Guaporé não havia mais índios -, e a Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) chamava, através de incentivos fiscais, as firmas colonizadoras. Mas os Nambikuara voltaram para seu habitat. Entre 1968 e 1979, o vale do Guaporé foi distribuído entre 22 firmas agropecuárias. No Natal de 1971, equipes da FAB e da Funai tiveram de resgatar de helicóptero os índios dispersos pelo vale. Os que escaparam da fome, tiveram sarampo. Na epidemia, morreu toda a população Nambikuara menor de 15 anos. A notícia da “Biafra brasileira” correu pelas manchetes dos jornais.[20]


     


    Foi neste contexto, no contexto da construção da Transamazônica no governo do general Garrastazu Médici (1969-1974) e no contexto das denúncias de Barbados que o Cimi iniciou seu trabalho com a ‘opção pelos povos indígenas’, propondo a ruptura com o modelo desenvolvimentista em marcha e assumindo uma pastoral específica, integral e amplamente articulada. Uma solução justa da questão das terras dos povos indígenas exigiria mudanças profundas do modelo econômico e sócio-político vigente, com seus pilares de acumulação, autoritarismo e hegemonia política do economicamente mais forte. Obviamente, essa opção causou conflitos, não somente frente ao Estado, mas também no interior das Igrejas locais. Sobretudo a pergunta para onde caminhariam os povos indígenas dividiu os espíritos. O Cimi começou com um ato de fé e esperança no futuro dos povos indígenas num momento em que a política indigenista oficial e os setores articulados com o governo já deram a ordem de não ressuscitar o “paciente agonizante” na UTI do progresso. Os jornais falavam do ‘inevitável desaparecimento’ dos povos indígenas. Mesmo indo a pique a bordo de um navio – réplica daquela nau de Cabral – com mastro quebrado, a classe dominante levanta já 500 anos as suas taças com cachaça e sangue, dando vivas à morte dos índios sem terra.


     


    Cada um dos povos indígenas tem uma história traumática sobre o contato com a ‘comunidade nacional’ a contar. A partir de 1987, milhares de garimpeiros invadiram as terras dos Yanomami, desorganizaram a economia indígena, desarticularam sua cultura e depredaram o meio ambiente. Poluíram os rios com mercúrio e espalharam doenças e morte. Em dois anos, mais de 1500 Yanomami morreram. Aldeias inteiras desapareceram. Em agosto de 1987, o governo Sarney expulsou os missionários da Missão Catrimâni e as equipes médicas da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY). Eram as testemunhas que podiam denunciar o genocídio em andamento. Em 1988, diariamente pousavam mais de 100 pequenos aviões em pistas clandestinas no território dos dez mil Yanomami.


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  • 30/01/2006

    Nota da APOINME

    APOINME – ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO NORDESTE MINAS GERAIS E ESPÍRITO SANTO


     


    A Coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME) vem a público repudiar as declarações do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Mércio Pereira Gomes, veiculadas na imprensa no dia 12 de janeiro de 2006, onde nega o nosso direito originário, às terras que tradicionalmente ocupamos e gostaríamos de manifestar nosso apoio a todas as organizações indígenas e povos que foram agredidos, violados pelas declarações dessa figura insana.


     


    Essa declaração terra demais: “Até agora, não há limites para suas reivindicações fundiárias, mas estamos chegando a um ponto em que o Supremo Tribunal Federal terá de definir um limite”. Como disse o sertanista Sidiney Pssuelo, é a reprodução discarada do discurso daqueles que tradicionalmente invadem, destroem nossas terras e assassinam  nossas lideranças.


     


    Existem dados elevados sobre o número de mortes de índios no Brasil no ano de 2005, decorrentes, como diz a nota da COIAB, em sua maior parte da lentidão nos processos de regularização das terras indígenas, conseqüentemente da pressão  e atos de violência cometidos contra a população indígena por diversos  tipos  de invasores. É uma realidade incomoda para o governo, e a  divulgação de informações sobre esse elevado número de mortes de índios durante o ano de 2005, vem mostrando a sociedade brasileira e a comunidade internacional que a política indigenista desse governo, não somente fracassou, mas se rendeu aos encantos dos madeireiros, ruralistas e a uma tendência neoliberal antiindigena. O que presidente da Funai, Mércio Gomes, declarou à Agência de notícias Reuters, no dia 12 de janeiro de 2006, é a realidade nua e crua do tratamento que ele vem dispensando aos povos do Nordeste Minas Gerais e Espírito Santo, essa cartilha que esse individua vem seguindo, não poderia e nem deveria ser de um governo, que se diz popular e que elogiou a vitória de  Evo Morales (indígena recentemente eleito para governar a Bolívia).


     


    Nós da APOINME reafirmamos publicamente, o que a COIAB afirmou: “que as mortes de índios no Brasil, sejam pela violência praticada pelos invasores das Terras Indígenas ou pela incapacidade de definir e implementar políticas públicas eficientes e de qualidade nas áreas da saúde, da educação e da sustentabilidade para os povos indígenas são, sim, de responsabilidade do atual Governo, que esses anos de mandato esqueceu totalmente dos seus compromissos assumidos durante mais de 20 anos junto às lideranças e instâncias representativas dos povos indígenas”.


     


    Ao fazer a indagação “É terra demais” parece que o presidente da FUNAI está convocando os inimigos dos povos indígenas a serem mais cruéis nas suas investidas violentas. É uma atitude irresponsável, grosseira e desleal, a exemplo do que ocorrera no Espírito Santo com o povo TUPINIQUIM, que foi expulso de suas terra originárias, violentamente pela Policia Federal.


     


    Não adianta,depois de suas afirmações de que “E terra demais” querer se solidarizar com esse povo, pois as suas declarações apenas estimularam essa ação vil e de conseqüência desastrosa.


     


    O que vem acontecendo, é que o presidente da Funai é o maior responsável pela paralisação dos processos de regularização das terras indígenas desde fins de 2003. Ao concordar com medidas inconstitucionais como a redução da Terra Indígena Baú, do povo Kaiapó, no Pará e não dar providências ao caso crônico dos Kraô-Kanela no Tocantins, confirma sua disposição em se tornar o presidente da FUNAI que mais barrou processos de identificação e demarcação das terras indígenas no Brasil .


     


    A Coiab tinha razão quando discordou da indicação do antropólogo Mércio Gomes para a Presidência da Funai, e continua com a mesma razão,  pois, como diz a nota “agora ele próprio assumiu-se como inimigo declarado dos povos indígenas ao questionar o direito territorial desses povos, fazendo eco a interesses de fazendeiros, madeireiros e outros invasores interessados nas riquezas das terras indígenas e que anseiam a extinção física e cultural dos indígenas”.


     


    É inacreditável que um antropólogo não conheça os artigos 231 e 232 da CF 88 que reconhece o direito tradicional e cultural de produção e reprodução física dos povos indígenas e ainda fere com suas práticas a Convenção 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário. Portanto gostaríamos que o Governo de Luís Inácio Lula da Silva retire esse anti-indígena da FUNAI (órgão que deveria defender os povos indígenas) exigimos desse Governo políticas públicas que venham atender  os nossos anseios e que verdadeiramente regularize a situação fundiária de  todas as terras indígenas no Brasil. 


     


    Palmeira dos Índios, 27 de janeiro de 2006.


     

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  • 30/01/2006

    Lideranças indígenas do Cone Sul se reúnem em Encontro Continental

    Mais de mil lideranças indígenas vindas de todas as regiões do Brasil, além da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, estarão reunidas entre os dias 3 e 7 de fevereiro, em São Gabriel (RS), para lembrar os 250 anos da queda da resistência do povo Guarani contra os exércitos de Espanha e Portugal e seu líder, Sepé Tiaraju, durante a Assembléia Continental do Povo Guarani.


     


    “Os pajés mais velhos sempre disseram em suas histórias que iriam passar anos e anos, até que os Guarani se reagrupassem. O encontro é uma ótima oportunidade para retomarmos nossa história de luta e pensarmos o futuro”, afirma o cacique guarani, Mario Karai, terra indígena Cantagalo, localizado na região da grande Porto Alegre.


     


    O encontro pretende debater a questão indígena e as formas de enfrentar os desafios do dia-a-dia. Assim como gritou Sépe Tiaraju “Alto lá! Esta terra tem dono”, não só os Guarani como outros povos, têm ainda na terra a sua maior reivindicação. Só no Mato Grosso do Sul, calcula-se que ainda seja necessário regularizar mais de 190 terras indígenas do povo Guarani (Nhandeva e Kaiowá).


     


    Maurício da Silva Gonçalves, líder indígena da Comissão de Terra Guarani, diz que para seu povo Sepé é um símbolo de resistência e luta. “A referência do Sepé Tiaraju é muito importante para o povo Guarani, por que ele morreu lutando pelas terras, e ainda hoje são muitos Guarani lutando pelo seu espaço, pela sua terra”, acredita Maurício.


     


    Para antropólogos e indigenistas a falta de terra é a grande responsável pela desestruturação em diversos níveis das sociedades indígenas. A falta de onde retirar o sustento e o confinamento em pequenas terras levam a uma perspectiva de vida desanimadora, que produz uma situação de tensão, alcoolismo, alto nível de suicídios, desnutrição infantil e um ambiente sem dúvida violento. “Sem a terra é impossível a gente desenvolver nossa cultura e auto-estima”, diz Mario Karai. No ano passado 38 indígenas foram assassinados, maior número dos últimos 11 anos.


     


    Porto Alegre (RS), 30 de janeiro de 2006.


     


    Cristiano Navarro


    Assessoria de Imprensa do Cimi


    Telefone: (61) 9979 7059 – E-mail: [email protected]


     

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  • 30/01/2006

    Povo Oro Wari´ ocupa sede da Funai de Guajará-Mirim

    Mais de 120 pessoas do povo Oro Wari´ (Pakaa Nova), vindos das terras indígenas Lage, Ribeirão, Pacaas Novos e Sagarana, dos municípios de Nova Mamoré e de Guajará-Mirim (RO), ocupam desde sexta-feira passado, dia 27 de janeiro, a sede da Funai de Guajará-Mirim. Eles estão revoltados com o grave acidente acontecido no dia 25 de janeiro que resultou na morte de seis de seus parentes e deixou 17 feridos. O caminhão fretado pela Funai capotou carregando na carroceria sacos de castanha e em cima da carga 25 pessoas.


     


    Os Oro Wari´ reivindicam a prisão imediata do motorista Jéferson Alves Cabral, que não possui carteira de habilitação e estava sob efeito de bebida alcoólica. As lideranças responsabilizam o administrador da Funai de Guajará-Mirim, o Sr. Dídimo Graciliano de Oliveira, que em 30 anos de administração é conhecedor da situação e até hoje não adquiriu transporte adequado.


     


    As lideranças exigem a exoneração do administrador e de toda a sua equipe. O atual administrador também é acusado de encobrir abusos de funcionários da Funai com bebida, mulheres indígenas, roubo de madeira e descaso no atendimento na sede da Funai.


     


    Os Oro Wari’ reivindicam ainda a presença do presidente da Funai, exigem a nomeação de um novo administrador indicado por eles, assim como a aquisição de transporte para viajar com segurança até a cidade e comercializar seus produtos: caminhões, ônibus e barcos. As lideranças estão aguardando a vinda de mais pessoas das aldeias e garantem que só deixam a sede da Funai depois de terem as suas reivindicações atendidas. Vários setores da sociedade estão manifestando o seu apoio.


     


    Guajará-Mirim (RO), 29 de janeiro de 2005.


     


    Cimi Regional Rondônia – Equipe Guajará-Mirim


     

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  • 30/01/2006

    FSM: Família colombiana vive refugiada no Brasil

    Lilia Vargas – Refugiada política en Brasil.


     


    La Vía Campesina hoy cuenta con una campaña continental en contra de las políticas de criminalisación en contra de los movimientos sociales y sus dirigentes, política implementada desde los EUU con la mal llamada cruzada mundial contra el terrorismo, como mecanismo de desarticular los movimientos sociales a través de amenazas, persecución, desaparición forzada y encarcelamientos a los dirigentes luchadores de muchas organizaciones del mundo.


     


    Hoy tenemos un caso muy emblemático como la prisión de nuestro compañero FRANCISCO CORTES, dirigente campesino y defensor de los derechos humanos por mas de 22 años en Colombia que fue preso por la justicia boliviana el 10 de Abril 2003, 4 días después de haber llegado a este país, en una misión de acompañamiento a los movimientos indígenas y campesinos Bolivianos. Este prisión fue hecha con un burdo montaje dirigido des de de los EUU en Bolivia, acusándolo de ser un terrorista que estaría apoyando a Evo Morales, candidato de la república en esa época, esto muestra los grandes intereses que los EEUU siempre tuvo sobre Bolivia. Ya son más de 33 meses de prisión inocente y arbitraria de nuestro compañero como lo muestra la declaración del grupo de trabajo de en opinión de Mayo 26 del 2005 y el recién reconocimiento del cote para refugiados CONARE de Bolivia que le concede el reconocimiento como Refugiado en este país.


     


    La familia de Francisco Cortes hoy nos encontramos con reconocimiento del Gobierno brasilero como refugiados políticos, hoy somos una familia mas de tantas que debido a la guerra interna en nuestro país y por ser luchadores sociales nos encontramos exiliados al igual que mas de 1500 luchadores sociales Colombianos estamos en varios países del mundo.


     


    Estoy participando del Foro Social Mundial en Venezuela en el marco de la campaña continental de la Vía Campesina en defensa de los luchadores sociales hoy perseguidos por las políticas imperialistas, el foro social mundial es una espacio que nos permite a los movimientos sociales articular nuestras luchas como mecanismo de contrarrestar las políticas represivas de los estados.


     


    Lilia Vargas


    Para contato durante o FSM: [email protected]


     

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  • 28/01/2006

    FSM: o significado do território na visão de mundo dos povos indígenas


    No calendário do povo Kichwa, o primeiro dia do ano é aquele em que os relógios de sol localizados no centro do mundo não registram nenhuma sombra. O indígena Benjamin Inuca conta que o nome da capital do Equador, Quito, significa centro do mundo no idioma Kichuwa, falado pelo povo de mesmo nome que vive na região andina da América do Sul, em países como Equador, Colômbia e Peru. Para os Kichwa, o primeiro dia do ano é 20 de março e o ano dura as 13 voltas que a lua dá em volta da terra.

    Entre agosto e setembro, este povo planta milho e, como a fertilidade da terra é semelhante à fertilidade das mulheres, em 20 de setembro celebra-se a festa das mulheres. De setembro até dezembro, o milho começa a crescer e é necessário cuidar dele, assim como se cuida das crianças. Por isso, em 21 de dezembro celebra-se a festa das crianças. A data coincide com o dia do segundo solstício do ano.

    Em março, as plantações florescem e os frutos começam a nascer: é quando acontece a festa dos jovens, no período do primeiro equinóceo. Em junho, já é possível colher os primeiros frutos do milho plantado, e a festa da colheita é também a “festa das pessoas”.

    A organização do tempo e da vida para os Kichwa está profundamente ligada aos prazos da produção de alimentos e às atividades que são realizadas em suas terras, assim como acontece nas vidas de muitos outros povos indígenas de todo o continente americano. “Esta é a concepção sobre a qual queremos redescobrir esta discussão sobre territorialidade. Não é só falar da terra, mas de toda esta relação com a terra”, afirmou Benjamin Inuca, da Federação de Povos Kichwas da Serra Norte do Equador, em debate realizado por sua entidade no quarto dia do Fórum Social Mundial, que acontece em Caracas, na Venezuela.

    “Os espanhóis não conseguiram exterminar a nossa relação com a terra, mas transformaram nossas festas das mulheres e da fertilidade em festas das virgens, das Marias”, afirmou Inuca, que mostrou a proximidade das datas de outras festas católicas ás datas do calendário Kichwa, como o Carnaval a Páscoa, celebrados em período próximo ao da festa dos jovens daquele povo.

    No processo da colonização, enquanto o novo calendário e um novo idioma eram impostos, as terras onde os indígenas viviam foram sendo tomadas deles. Hoje, um dos problemas enfrentados pelos povos indígenas equatorianos é a criação de reservas ambientais nos locais onde eles ainda podem viver. “O governo diz que tem que declarar áreas protegidas para que os humanos não as toquem, para que sejam conservadas. Mas nós temos vivido nestas terras há centenas de anos e elas continuam conservadas”, afirma Benjamin Inuca, ao defender o direito de seu povo à terra.

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  • 27/01/2006

    Índios Kayapó questionam presidente da Funai

    Os índios Kayapó (Mebegokre) lançaram essa semana um manifesto, assinado por diversas lideranças da etnia. O comunicado responde às declarações de Mércio Pereira Gomes, presidente da Funai que, em entrevista a uma agência internacional de notícias, afirmou que no Brasil ‘ tem muita terra para pouco índio’.


     


    Na carta, os índios questionam firmemente os interesses de Gomes. “Já ouvimos políticos, garimpeiros, fazendeiros e posseiros falarem isso contra Nós, mas um presidente nunca poderia falar isso contra índios.  Você presidente veio para a Funai para defender os índios brasileiros, e não para prejudicar os índios. Já temos muito branco contra os índios (sic)”.


     


    Os Kayapó também defendem o sertanista Sidney Possuelo, exonerado de seu cargo na Funai por criticar as mesmas declarações de Gomes. “Assim sendo, estamos muito decepcionados com você, pois você, em vez de falar e defender os índios, você falou contra os índios e defende sua declaração para demitir o Sidney Possuelo, que vem defendendo os índios do Brasil.  Nunca falou que índio tem terra demais.  Você é que tinha que sair da Funai, porque você falou contra terra dos índios (sic)”.



     


    Veja aqui a íntegra do manifesto.


     

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