• 07/02/2006

    “A dominação, agora, vem pelas multinacionais”, diz Stédile

    Em ato realizado na coxilha de Caiboaté, em São Gabriel, indígenas rezam pelos Guarani mortos e apontam a ganância econômica como causa pela perda de suas terras. Dirigente camponês afirma que a dominação apenas se modernizou.  


     


    A programação do acampamento em memória aos 250 anos de morte de Sepé, que acontece em São Gabriel (RS), começou bem diferente nesta segunda-feira (06/02). Às sete horas da manhã, as cerca de cinco mil pessoas que participam do encontro visitaram a Coxilha de Caiboaté, local em que 1.500 índios guaranis foram mortos pelas tropas espanholas e portuguesas em 10 de fevereiro de 1756 – batalha que deu fim às guerras guaraníticas e aos Sete Povos das Missões.


     


    No local, guaranis kaiowá, do Mato Grosso do Sul, rezaram pelas almas dos índios mortos. Ao mesmo tempo, traziam faixas reivindicando a demarcação das terras, sem a qual não haverá o fim da violência contra os povos indígenas. Truká, Xukuru e Pankaruru dançaram o “toré”, celebração típica das etnias.


     


    Logo depois, lideranças indígenas, quilombolas e camponesas manifestarem-se sobre a importância do resgate da história de resistência das Missões e do povo guarani. “Cortaram nossos galhos e nossos troncos, mas não conseguiram matar nossa luta”, afirmou o kaiowá Anastácio Peralta. Maurício Guarani, cacique da reserva indígena do Cantagalo, em Porto Alegre (RS), falou em tupi-guarani e depois em português. Para ele, ir até o local em que seus antepassados foram massacrados é um fato muito importante e muito triste também. “Fico triste porque essa terra, um dia, foi dos guaranis. Mas por ganância econômica dos europeus, ela foi tirada de nós”, argumenta.


     


    A crítica às ações de dominação dos países ricos também foi o tom das declarações de João Pedro Stédile, integrante da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “A dominação apenas se modernizou. No passado, vinha com canhões e à cavalo. Hoje, ela chega por meio da televisão e do dinheiro”, ressalta.


     


    As multinacionais, que detêm grande parte do dinheiro em circulação no mundo e se expandem cada vez mais nos países pobres, foram apontadas como os símbolos desse imperialismo. “Agora, eles não precisam mais de cavalos para roubar nossa água; eles vêm com a Nestlé. É a Monsanto, a Cargill, entre outras, que querem acabar com as nossas sementes e trazem tecnologias perigosas. A dominação, agora, vem pelas multinacionais”, afirma Stédile.


     


    Acampamento


     


    Instaladas no Parque Tradicionalista de São Gabriel, os cinco mil participantes estão divididos em quatro acampamentos: o indígena, da juventude, da Via Campesina e dos Quilombolas. A juventude foi o primeiro a iniciar suas atividades, no dia 03. Na manhã de sábado, 4, os 700 jovens presentes assistiram a uma palestra sobre a história dos Sete Povos das Missões e de Sepé Tiaraju, dando prosseguimento com grupos de estudos durante a tarde. A organização do Acampamento da Juventude é um dos pontos altos da estrutura: os participantes são divididos em sete grupos, remetendo às sete reduções que formavam as Missões. Essa divisão é a que organiza desde os grupos de estudo e de discussão até as refeições.


     


    Programação do dia 07/02


     


    No último dia do acampamento, acontece a marcha de encerramento. Os participantes sairão do Parque Tradicionalista e vão até a Sanga da Bica, no centro de São Gabriel, local da morte de Sepé Tiaraju. Os indígenas também irão redigir uma carta, na qual vai constar as reivindicações dos povos. A juventude encerra o seu acampamento com a formulação de um calendário de lutas. A Via Campesina e os Quilombolas também terminam suas atividades.



    Read More
  • 07/02/2006

    Geólogo pretende encontrar ossadas de índios guarani mortos

    Ronaldo Fontoura, assessor de Meio Ambiente do municípios de São Gabriel (RS), escavações arqueológicas ajudam a refazer a história do Estado. O geólogo pretende encontrar as ossadas dos Guarani mortos pelos europeus. 


     


    Um projeto pioneiro pretende encontrar as ossadas dos 1.500 índios guarani mortos por portugueses e espanhóis na Batalha de Caiboaté, em São Gabriel (RS). Com recursos próprios, Ronaldo Fontoura, geólogo e assessor de Meio Ambiente do município, vem estudando, há cinco anos, o solo da coxilha em que ocorreu o último confronto entre os índios missioneiros e os europeus. “Não quero encontrar somente os ossos, mas também utensílios e as armas de guerra guarani. Afinal, através das escavações, podemos refazer a história do Estado”, argumenta.


     


    Fontoura conta que há mais de 70 anos atrás, havia cruzes de madeira que marcavam os locais em que os índios estavam enterrados. No entanto, o proprietário da área retirou-as, substituindo por uma grande cruz de cimento, que permace até hoje. A coxilha é um lugar alto e cheio de voçorocas (valas decorrentes de erosão), ideal para os índios se esconderem. “A tática dos guarani era de guerrilha. Devido à fragilidade deles frente aos exércitos português e espanhol, misturavam-se nas matas e escondiam-se nas voçorocas, de onde lançavam os ataques”, relata.


     


    Um fato histórico pode ajudar o geólogo a encontrar as ossadas. Por ser um solo duro, poucos guarani foram enterrados em buracos. A maioria deles foram cobertos com terra de um banhado próximo ao local. “O solo original da coxilha é amarelo, mas onde foi utilizada a terra de banhado, há uma camada preta superior”, afirma. Em escavações-piloto, o geólogo encontrou três sítios arqueológicos.


     


    Fontoura pretende levar o projeto para o Ministério da Educação, a fim de buscar recursos e regularizar as escavações. Tudo que conseguir encontrar na coxilha será colocado no museu a ser construído em São Gabriel , cujo desenho foi planejado pelo arquiteto Oscar Niemeyer.



     

    Read More
  • 06/02/2006

    ABA decide “retirar a indicação de nomes para a composição do Conselho Indigenista da Funai na gestão 2006-2007”

    Brasília, 3 de fevereiro de 2005


     


    A Sua Excelência o Senhor


    Márcio Thomaz Bastos


    Ministro da Justiça


    Brasília, DF


     


    Senhor Ministro,


     


    Cumprimentando-o cordialmente, vimos informar que dada a conjuntura política iniciada com as declarações do Presidente da Fundação Nacional do Índio, Mércio Pereira Gomes, nesse mês de janeiro, a Associação Brasileira de Antropologia decidiu retirar a indicação de nomes para a composição do Conselho Indigenista da Funai na gestão 2006-2007.


     


    Respeitosamente,


     


    Míriam Pillar Grossi


    Presidente da Associação Brasileira de Antropologia


     


    c.c: Dr. Mércio Gomes


    Presidente da Funai


     

    Read More
  • 06/02/2006

    Newsletter nº 700

    COURT DECISIONS GUARANTEE THAT THE TERENA CAN REMAIN IN THE CACHOEIRINHA INDIGENOUS LAND


     


    The Public Prosecutor’s Office (MPF) in Mato Grosso do Sul has obtained a decision from the Federal Regional Court (TRF) which suspends the temporary repossession orders and guarantees the Terena people the right to remain in part of the Cachoeirinha indigenous land, situated in the municipality of Miranda (MS).


     


    The area, which is part of the Terena people’s traditional territory, as has been recognized in an anthropological study carried out by the National Foundation for Indigenous People (Funai), was repossessed on 28 November 2005, when the indigenous people, motivated by the demarcation process having ground to a standstill, and by the shortage of land intended for the community’s productive activities, decided to occupy it.


     


    As a consequence of this action, the ranchers Jorge Ferreira Gonçalves and João Proença de Queiroz each filed a repossession suit, requesting a temporary injunction and obtained decisions, in the 1st instance, which determined that the indigenous community was to withdraw from the reoccupied area. These injunctions were suspended at the request of the MPF in Mato Grosso do Sul.


     


    According to the MPF-MS staff, the federal judge, Higino Cinacchi, summoned from the TRF 3rd Region maintained that, in cases like these, there was no call for a temporary injunction based on “pure application of the Civil Code,” and because it is necessary to use constitutional law, since the land in question is tied in with an administrative demarcation process. “What can be seen as being under discussion here, and which may be guaranteed, on repossession, to be ownership of private property, cannot however be the object of a temporary injunction, since the existence of an administrative process at the institutions responsible, even though it is incomplete, transfers the question from the civil rights protection sphere to that of constitutional law,” he claimed in his decision.


     


    The indigenous people have asked Funai for seeds, machines and diesel oil to intensify the planting of foodstuff in the repossessed area where, according to the leader Ramon Terena, around 800 people live. “We want to plant 200 hectares with crops in order to escape from this situation of not having any way of producing,” the leader said. They have also demanded the presence of vehicles for transporting the sick and goods.


     


    PATAXÓ HÃ-HÃ-HÃE PEOPLE REOCCUPY LANDS TO PREVENT THEIR REPOSSESSION


     


    Since 23 January the Pataxó Hã-Hã-Hãe people have occupied eight repossessed ranches in the municipality of Itaju do Colônia, in the South of Bahia. This mobilization was started in reaction to an announcement, by the Federal Police, of compliance with the temporary land repossession order for two ranches that were repossessed in October last year. The Federal Court decision which allows for eviction was taken in December 2005. The indigenous people have also been trying to use legal means to suspend this order but on Wednesday, 1 February, the TRF in Brasília upheld the decision taken in the 1st instance.


     


    A Military Police officer told Funai that the indigenous people were programmed to be evicted from the ranches repossessed in 2005 on February 10. Furthermore, three of the eight ranches occupied last week have already been the object of court decisions which can soon be transformed into repossessions, because the lands are the object of legal protection measures petitioned by the ranchers, who had already foreseen the possibility of occupation.


     


    Pataxó leaders were in Brasília this week and got Funai to commit to a meeting with the presence of the Institution’s Director for Land Issues, Artur Nobre Mendes, a federal judge, Pedro Holiday, ranchers, attorneys and the local Funai administrators. The meeting will be held on Friday, February 3, in Ilhéus, with the prospects of coming to an agreement between the indigenous people and the ranchers through the payment compensation for improvements, which may make it feasible for the occupants to leave the indigenous land.


     


    In parallel, another group of indigenous people have been in the city of Salvador this week, demonstrating and visiting public institutions and universities with the aim of drawing attention to their situation and sensitizing the population to the land dispute question.


     


    In the early hours of 1 February, a car transporting men and a woman, who had been stung by a scorpion, to the city of Itaju da Colônia, was stopped by gunshots. Nobody was hurt. In view of the threats, the indigenous people say that they are willing to bring down an energy distribution tower which runs through the indigenous land.


     


    Cimi missionaries are worried about the health of around 600 people who take part in the repossessions, because they are camped in pastures, where there is very little native vegetation and no drinking water. “During the day, the scalding heat obliges them to consume the water from  a small stream which, besides polluted, consists of brackish water and is the same as that used for cattle consumption. It is, therefore, unsuitable for human consumption. Several diseases have already appeared amongst them,” says Haroldo Heleno, a Cimi missionsry. “The Funasa medical team has refused to attend the indigenous people there, arguing that it is a conflict zone. The situation is very serious and we are in contact with the Funasa District Sanitation Office in Salvador, trying to come to an agreement,” he completed.


     


    Context – The Pataxó Hã-Hã-Hãe land was demarcated in 1937 by the Indigenous People’s Protection Service (SPI), which was, at the time, the official institution for dealing with indigenous people. From the 1940s on, the very same SPI started the illegal process of leasing out the indigenous lands which culminated, in 1976, with the deeds to these lands being handed to the ranchers by the Government of the State of Bahia. In 1982, the Pataxó got organized and started to take back the lands that had been invaded. In the same year, Funai asked the Federal Supreme Court (STF) to declare the deeds that had been issued by the State of Bahia, null and void. Since that time, 24 years ago, the Hã-Hã-Hãe have been waiting for the STF to judge their case so that they can go back to living on their lands.


     


    Brasília, 2 February 2006.


     


    Cimi – Indianist Missionary Council


     

    Read More
  • 06/02/2006

    Reencontro da nação Guarani

    No início de 2005 surgiu a idéia de se realizar um encontro amplo dos diversos grupos e subgrupos da nação Guarani, presente em pelo menos cinco países da América do Sul. Era um sonho ousado e distante, porém não impossível. E aos poucos a idéia foi se difundindo pelas centenas de aldeias Guarani no Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia e Uruguai.


     


    Logo no início da Assembléia Continental Guarani, um minuto de silêncio. Em nome dos Guarani anfitriões, Maurício, do Rio Grande do Sul, pede silêncio pela memória de Sepé Tiaraju. Quase mil Guarani e representantes de outros povos indígenas silenciam. Foi um minuto também para a memória dos mil e quinhentos Guarani assassinados pelos exércitos de Espanha e Portugal e dos milhares de membros desta numerosa nação indígena que foram mortos pelos diversos interesses econômicos e políticos até hoje.


     


    Estava se iniciando, ou continuando, esse rico processo de construção de uma nova união e solidariedade entre o povo Guarani, dividido por estados nacionais, resistente apesar da discriminação e das diversas formas de dominação econômica, política, cultural e religiosa.


     


    Não foram poucos os obstáculos vencidos até chegarem a São Gabriel, ao local em que Sepé Tiaraju foi assassinado. A falta de condições para poderem se deslocar a mil ou até dois mil quilômetros foi um dos problemas.


     


    Ao rumarem para as cochilhas do atual Rio Grande do Sul, Brasil, onde fica parte importante da República Guarani dos Sete Povos do século 18, os Guarani fizeram um caminho importante na reconstrução da memória e da história de um povo de muita fartura e liberdade. Hoje, lamentavelmente, esse povo tem um dos menores índices de terra de todos os povos indígenas. Por entenderem que a terra não foi feita pelos homens, e que portanto ninguém poderia se apossar individualmente dela, pois ela é a mãe que possibilita a sobrevivência da vida, eles buscaram não enfrentar os invasores e procuraram os locais onde pudessem continuar a viver bem como Guarani. Neste processo, tiveram quase todas as suas terras tomadas pelos gananciosos latifundiários e donos do agronegócio. Este será um dos principais temas debatidos durante esse reencontro da grande Nação Guarani.


     


    Vencidos os mil e um obstáculos, agora é o momento de socializar as lutas e alegrias, celebrar as vitórias e avançar na construção da solidariedade e união do povo Guarani, neste local onde Sepé Tiaraju foi assassinado, e volta a viver com seu povo.


     


    Egon Heck – Cimi MS


     

    Read More
  • 06/02/2006

    Jovens discutem legado das missões

    Neste sábado, dia 4, os jovens acampados debateram o legado das missões para a população brasileira, com assessoria do irmão Antonio Cechin e do deputado estadual Frei Sérgio Gorgen.


     


    Gorgen destacou três pontos principais desta herança. O primeiro foi a experiência de uma sociedade justa. “Nos legam a utopia de algo que foi colocado em prática: os sonhos de uma sociedade justa não são só desejos, mas podem ser concretizados”, afirmou.


     


    O segundo ponto importante é que os indígenas deram ao país a possibilidade de ser formado por povos distintos, com visões de mundo distintas, e de sermos um povo multiétnico e pluricultural. Para Frei Sergio, esta visão se choca com todo o preconceito que fomos ensinados a ter desde pequenos, quando aprendemos a esconder as raízes indígenas presentes na grande maioria das famílias do Brasil. Desta percepção decorre o terceiro legado das missões e dos indígenas apontado pelo palestrante, que é a capacidade de luta e resistência: “Quando nós vemos o que fizeram Sepé e os 1.500 Guarani que foram mortos, sabemos que somos descendentes de lutadores”, afirmou.


     


    No mesmo momento, na tenda ao lado, mais de mil indígenas do povo Guarani apresentava-se e contavam, uns aos outros, em idioma Guarani, os desafios que enfrentam a cada dia para terem terras para viver a seu modo e para seguirem vivendo a seu modo.


     


    Em momentos diferentes e de formas distintas, o irmão Antonio Cechin e o jesuíta Bartolomeu Meliá, que também participou das atividades dos jovens, repetiram a idéia de que aquilo que um país faz com suas minorias, ele acaba fazendo com toda a sua população, e que o respeito às minorias é um ponto central para democracias verdadeiras. Antonio Cechin disse, como exemplo, que se aos indígenas não é dado o direito ao acesso à terra, isso também acaba acontecendo com os camponeses. “O termômetro de uma democracia é o modo como ela trata as populações indígenas”, afirmou Meliá.


     


    Na segunda parte da atividade, os jovens dividiram-se em grupos a fim de discutir e apontar quais os legados do povo Guarani a todos os outros povos. As respostas foram variadas, indo desde as contribuições nas melodias, instrumentos musicais e nas danças de rodas até a relação não-predatória de coexistência com a natureza. A autonomia do povo Guarani em relação aos jesuítas das Missões foi o ponto de discordância entre os jovens.


     


    Mas foram a disciplina, a coletividade e a resistência dos índios missioneiros marcaram as opiniões da juventude. Para os jovens reunidos na Assembléia, a sociedade construída nas missões jesuítas era caracterizada pela divisão do trabalho, e homens e mulheres tinham os mesmos direitos e deveres. Também não havia nenhum tipo de hierarquia social: caciques e os índios que não eram chefes tratavam-se com o mesmo respeito, sem qualquer tipo de privilégio. “Os índios Guarani nos deixaram o respeito à terra-mãe e à natureza e a certeza de que não precisa ser branco ou europeu para ser ‘civilizado’”, concluiu o grupo de jovens da Pastoral da Juventude de Santa Cruz do Sul.


     


    Raquel Casiraghi – Via Campesina e Priscila D. Carvalho – Cimi


     

    Read More
  • 06/02/2006

    Jovens discutem desemprego e acesso à educação

    Buscar incentivo na organização dos Sete Povos das Missões e na resistência de Sepé Tiaraju para enfrentar os problemas atuais. Essa é a temática que permeia todos os espaços do Acampamento da Juventude. Setecentos jovens do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Paraíba e de outros países, como a Argentina, reúnem-se em São Gabriel a fim de estudar a história das Missões e discutir os principais problemas enfrentados pela juventude, tanto do campo quanto da cidade.


     


    Cláudia Teixeira, do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD) e integrante da comissão organizadora, aponta o desemprego e o acesso restrito à educação como os desafios a serem superados pela juventude. “Na cidade, o jovem pobre não consegue estudar porque tem que trabalhar para sustentar a família. Mas também não consegue melhores empregos porque não têm estudo. A exclusão vem de todos os lados”, relata.


     


    No campo, a situação não é diferente. Julio Lobos, da organização campesina Mocase, da Argentina, conta que a falta de recursos e de políticas públicas para o agricultor familiar expulsa os camponeses de suas terras. “Os pequenos agricultores argentinos, em sua maioria, não conseguem vender o que produzem. Esse problema econômico faz com que o camponês vá para a cidade, engrossando as periferias”, argumenta. Assim como no Brasil, a terra argentina se concentra nas mãos de poucos. “Na Argentina, a terra é muito concentrada, o que deixa diversos camponeses sem terra. Por isso lutamos pela reforma agrária”, afirma.


     


    Dos jovens presentes, 70% são ligados a organizações camponesas, principalmente às pastorais. Os outros 30% são meninos e meninas do movimento hip hop, catadores de material reciclável, trabalhadores desempregados, militantes do movimento da luta pela moradia, entre outros. Para Cláudia Teixeira, a diversidade de organizações envolvidas no acampamento demonstra o êxito do encontro. “O acampamento vai ser um marco para a organização da juventude. Precisamos, agora, unir reivindicações de luta em comum e expandir as nossas bandeiras”, salienta.


     


    As atividades do Acampamento da Juventude foram iniciadas nesta sexta-feira, dia 03, com reuniões de apresentação dos participantes e de suas organizações. Tendo como base a coletividade, tarefas como limpeza, comunicação e segurança são divididas entre os participantes. A organização do acampamento reproduz a divisão dos Sete Povos das Missões. Nos dias 05 e 06 os jovens analisam a conjuntura do país e trocam experiências sobre suas realidades, e terminam as atividades no dia 07, com um calendário de atividades.                


     


    Raquel Casiraghi – Via Campesina


     

    Read More
  • 06/02/2006

    Diversidade marca os acampamentos de São Gabriel

    A diversidade de línguas, culturas e rituais é o fator marcante das atividades que marcam os 250 anos de morte de Sepé Tiaraju em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. De um lado, quase 2 mil índios guarani, kaingang e charrua de todo o Brasil e de outros países como Paraguai, Uruguai e Argentina trazem em seus rituais e danças a luta pelo direito de viver. De outro, jovens – campesinos ou urbanos – e quilombolas discutem suas realidades em reuniões.  Apesar das diferenças, a reivindicação desses povos passa a ser mesma: a posse de suas terras e moradias e o acesso aos seus direitos, na construção de uma sociedade mais igualitária e não-excludente.


     


    Instalados no Parque Tradicionalista de São Gabriel, os cinco mil participantes estão divididos em quatro acampamentos: o indígena, da juventude, da Via Campesina e dos Quilombolas. A juventude foi o primeiro a iniciar suas atividades, no dia 03. Na manhã de sábado, 4, os 700 jovens presentes assistiram a uma palestra sobre a história dos Sete Povos das Missões e de Sepé Tiaraju, dando prosseguimento com grupos de estudos durante a tarde. A organização do Acampamento da Juventude é um dos pontos altos da estrutura: os participantes são divididos em sete grupos, remetendo às sete reduções que formavam as Missões. Essa divisão é a que organiza desde os grupos de estudo e de discussão até as refeições.


     


    Cada acampamento tem a sua organização e comunicação próprias, com exceção da limpeza e da segurança do parque, que são feitos por todos os participantes do encontro. No parque também há um posto de pronto-socorro mantido pelo setor de saúde da Via Campesina com ervas medicinais. Agricultores vendem produtos coloniais e livreiros comercializam livros, revistas e jornais.


     


    No entanto, são os povos indígenas que se destacam no parque. Em todos os caminhos estão eles vendendo artesanato, cantando e falando em diversas línguas. Além de índios dos povos Guarani, Kaingang e Charrua, do Rio Grande do Sul, também foram ao encontro os Guaranis-Kaiowá e Nhandeva, do Mato Grosso do Sul, e os Guarani do Espírito Santo. Atualmente os Kaiowá sofrem processo de despejo de suas terras e os guaranis, do Estado capixaba, enfrentam um confronto histórico com a multinacional de celulose Aracruz. Do Paraguai e da Argentina vieram guarani e, do Uruguai, os Charrua.


     


    Mesmo sendo de locais diferentes, as situações se mostram bem parecidas. A falta de políticas públicas voltadas à saúde e educação nas aldeias, a demarcação das terras e a inexistência de projetos que desenvolvam a independência das aldeias despontam como os principais problemas enfrentados pelos índios. Nas conversas com os indígenas, são recorrentes as histórias de muitas crianças morrendo de fome e desnutrição nas aldeias. Assim como a reivindicação pela terra e melhores condições de vida – o que eles tinham antes da invasão européia.


     


    A diversidade também acompanha a programação cultural. Músicas e danças nativistas, camponesas e indígenas, constituem as atrações.             


     


    Raquel Casiraghi – Via Campesina


     

    Read More
  • 05/02/2006

    Entrevista com Bartomeu Melià na Assembléia Continental Guarani



    O jesuíta Bartomeu Melià estuda o povo Guarani e convive com ele há mais de 50 anos, tendo contato especialmente com os grupos que vivem no Paraguai. Logo antes de conceder entrevista a este boletim, Melià havia feito uma fala na plenária onde estavam reunidos os indígenas, na Assembléia Continental Guarani. Comunicou-se com os indígenas em idioma Guarani, que ele fala fluentemente. Na entrevista, perguntamos a ele qual tinha sido sua mensagem aos participantes. “Eu disse que estava muito feliz. Falei que provavelmente é a primeira vez na historia que há uma reunião assim de todas as etnias Guarani, e que não se precisa ter vergonha de ser Guarani, de manter a tradição. O que não quer dizer que tem que só manter como estão. Se querem escola, que seja uma escola que não seja um instrumento para ficar fora de si mesmo”, relatou.


     


    A divisão entre etnias que ele cita refere-se aos grupos que fazem parte do complexo cultural Guarani, que se dividem, segundo os antropólogos, em pelo menos três grupos: os Kaiowá, Nhandeva, M’Bya.


     


    Veja abaixo trechos da entrevista:


     


    Qual a importância desta reunião Guarani?


    Se alguém pensar que vai sair daqui vai sair uma confederação Guarani, pode ser que saia, mas provavelmente não é isso que vai sair.


    O que tem importante nessa reunião é que para muitos deles é a primeira vez que escutam o discurso na língua do outro, é uma ocasião de se encontrarem juntos, de se escutarem, de verem que os problemas de um são os problemas de outro. Agora, a assembléia não é como a nossa assembléia, com compromisso de conclusões, do que vai ser criado.


     


    O povo Guarani que está aqui na Assembléia Continental é descendente de Sepé Tiaraju?


    Os descendentes de Sepé se misturaram com a população gaúcha primitiva. Os povos das missões eram Guarani, mas sempre houve grupos que ficaram fora das missões, na selva, todo o tempo colonial e da independência. E agora, neste momento de crise, eles reaparecem porque não há mais selva e eles têm que enfrentar esta situação onde o seu modo de vida praticamente está sendo impossível. Mas eles estão enfrentando a barra, com muito mais criatividade do que nós mesmos. É uma situação difícil. É como um pingüim se adaptar ao calor. Eles conseguem, mas tem muito sofrimento. São um povo não apenas resistente, mas persistente.


     


    Como o Sr. percebe o diálogo da cultura Guarani com outras culturas?


    Eles são muito mais abertos do que nós para aprender as coisas dos outros, eles dialogam com a gente. O dialogo intercultural não somos nós que fazemos, são eles. Quantos de nós falamos Guarani? E quantos deles sabem português? A maioria. Eles aprendem, mas também estão escolhendo não sair do modo de vida deles. É uma escolha positiva, não é porque não saibam sair, é que não querem sair.


    Estes povos são exemplos pra nós de dialogo intercultural, que não e botar água no vinho e fazer uma coisa que não é nem água nem vinho. Diálogo cultural é beber água e beber vinho. Para fazer esse diálogo, o Guarani não precisa deixar de ser Guarani. Pelo contrário, se ele deixar de ser Guarani, acaba o diálogo intercultural.


    Essa frase pode parecer sensacionalista, mas os Guarani são muito modernos. Um mundo sustentável segundo o nosso modelo é impossível. Já estamos percebendo que isso não vai pra frente.Esperava-se tudo do petróleo, e o que está dando? Guerra, problema.


    O Rio Grande do Sul se manteve com suas matas limpas, com seus arroios limpos, com isso tudo o que nos achamos que é a riqueza dos Guarani. E muito mais no Paraguai e na da Argentina. Graças ao povo Guarani.


    O modo de vida Guarani em grande parte é bastante moderado. Claro que agora tem os jovens, tem problemas, mas todos nós temos problemas.


     


    Quais as diferenças entre os grupos Guarani?


    Hoje mesmo, vocês não percebiam, mas cada um dos que falava era de uma língua ligeiramente diferente, pelo sotaque, pelas formas de expressão. Eles têm coisas diferentes, ainda que sejam pequenas. A religião é diferente em cada grupo. Para uma comparação, é como se alguém falasse: eu sou mais católico e os outros são mais protestante, mas a estrutura é a mesma. O que faz a grande unidade do povo Guarani – e de todos os povos indígenas -, é que são uma economia do dom. Nada é vendido ou comprado, tudo é distribuído. Quem tem prestígio é aquele que sabe dar. Nas missões, era essa a economia que existia. Não entrou dinheiro, não circulava moeda, todo mundo recebia de acordo com as suas necessidades. Essa economia era a força das missões jesuítas


     


    E como era a relação dos Guarani com as missões? Como ficava a questão religiosa?


    Eles eram cristãos fazia 150 anos, mas eles de certo modo recriaram uma cultura que continuava sendo Guarani, embora não fosse a religião Guarani tradicional. Requer um certo tempo explicar isso. Sepé parecia estar muito satisfeito com a Igreja nas cartas que enviaram ao rei da Espanha. “Nós temos igreja de pedra, casa de pedra, ervais, algodoais” diziam nas cartas. Na época, até tecnologicamente eles estavam muito pela frente de Espanha e Portugal. Eles tiveram gráfica, que demorou mais 100 anos para existir em Buenos Aires e 150 anos no Brasil. Publicavam os próprios livros em Guarani. Eles faziam sinos de bronze, instrumentos musicais, até a sua própria arte. Quando havia guerra na Colônia de Sacramento[atualmente Uruguai], eram os Guarani que iam defender a Coroa espanhola, e por isso que eles diziam: nós fizemos tanto pela Coroa espanhola e agora eles querem que nós deixemos todas estas cidades. Para comparar, até o gado quando é expulso de sua terra ele ataca.


     


    Ainda que fosse um espaço positivo, a Missão tinha problema de imposição religiosa?


    Não era tanto imposição. Foi uma atração. Houve sobretudo três imposições fortes, que aparentemente não têm nada a ver com religião, mas que chegam até ela. Foram o abandono da antropofagia, o vestir, e deixar a poligamia. Mas mesmo a poligamia não foi assim da noite para a manhã, foi um pouco assim… aliás, era não era geral, era mais dos chefes.


    E, efetivamente, eles trocaram de religião. Mas, também, a nova religião trazia muita musica, e você sabe o quanto os Guarani gostam de musica, de dançar. A língua, foi o missionário que foi convertido â língua Guarani, que chegou a ser uma língua, podemos dizer, culta, escrita, normalizada.


    O sistema econômico da reciprocidade se manteve. As coisas eram vendidas, mas fora da missão. O produto que era vendido entrava já em forma de produto. As vezes tinha que comprar tecido, papel, papéis pra musica, alguns instrumentos mais sofisticados. Mas isso era comprado pela venda de praticamente quatro produtos: a erva mate, o fumo, algodão e couros. Mas era o excedente, depois de satisfeita as necessidades internas, que era vendido.


    Não é como a nossa exportação, que se o povo passa fome mas a exportação de gado dá mais proveito, exportamos o gado sem problema.


    Os Guarani pensavam: Por que nos vamos ter que deixar o que já temos, tinha custado trazer pedras, fazer as construções. Era um bem da comunidade. Sepé e outros lideres resistiram durante 3 anos a fazer a Guerra, e enquanto houve essa guerra de guerrilha eles estavam vencendo. Mas chegou um momento que parecia que os brancos sõ entendiam a linguagem da Guerra.


    Sepé Tiaraju talvez teve o erro de querer fazer batalha como se fosse exército grande, e ai exército contra exército eles foram esmagados.


    E temos que reconhecer que os Jesuítas se omitiram. Alguns pensaram que era uma guerra sem sentido, que não iam poder ganhar. Estavam a favor dos índios, mas não sentiram a capacidade deles lutarem. E tinha também que diziam que os Jesuítas tinham formado uma república, um Estado dentro do Estado, que não obedeciam mais nem ao Rei de Portugal nem ao rei da Espanha, e se eles entrassem na Guerra eles iam comprovar isso. Era uma chantagem.


     


    O Sr. Pode falar sobre as terras Guarani no Paraguai?


    A terra Guarani é uma miséria. Como aconteceu no Brasil, os índios perderam a terra sem perceber. Eles estavam no mato, depois chega um dia alguém com um papel dizendo que a terra é deles, e não se pode dizer em que momento foi isso. Não tem um só livro de história que conte isso. 


    No Paraguai a desorganização até do cartório é tão grande que ninguém mais sabe quem foi o último dono. Essas transferências de posse da terra se fizeram sobretudo no tempo do [Alfredo] Stroessner [ditador paraguaio] . Havia terras de 2 milhões de hectares. Hoje, as grandes terras são vendidas aos brasileiros, que são quem paga melhor, depois dizem que não sabiam que ali viviam índios. É uma novela de terror.


    No melhor dos casos, se deixa as coisas como estão. Agora, reconhecer as terras dos índios, não. Em alguns casos, e isso foi muito errado, se comprou terras para os índios. Como comprar terras que já eram deles? a igreja católica, outra religião e algumas ONGs fizeram isso. Ms isso não vai muito longe, porque não temos capacidade de pagar o que paga uma empresa brasileira.  


     


    O Sr. é um dos maiores estudiosos da cultura Guarani. O que te levou a se dedicar a estes estudos?


    Isso de maior não tem importância, é uma coisa ruim da nossa cultura. Agora, o que me levou a estudar foi uma série de circunstâncias. Eu estou no Paraguai faz 51 anos, desde 1954. Naquele tempo, muita gente dizia que o Guarani não tinha futuro, que em 20 anos ninguém mais ia falar Guarani. O padre nos disse que só íamos prosseguir os estudos se aprendêssemos Guarani. Isso muda a vida da gente. Desde pequeno eu sou bilíngüe, minha língua não é o espanhol, é um dialeto do Catalão, e sem perceber, com isso você domina duas culturas. Quando eu aprendi o Guarani foi uma terceira visão. Isso e extraordinário. Por isso aprender uma língua, sobretudo quando você tem menos de 25 anos, é um exercício que nenhuma universidade vai te dar. Depois que eu voltei da França, em 1969, eu queria saber o que era o Guarani. Eu sabia a língua, mas não sabia o que era o indígena Guarani do mato. Tive sorte que houve um grande pesquisador paraguaio que praticamente me tomou como seu filho, seu herdeiro. Ele me introduziu perto dos índios Guarani. Todas as oportunidades que eu tinha, eu ia para o mato.


     


    SOBRE O ENCONTRO


     


    Acampamento


    Instaladas no Parque Tradicionalista de São Gabriel, os cinco mil participantes estão divididos em quatro acampamentos: o indígena, da juventude, da Via Campesina e dos Quilombolas. A juventude foi o primeiro a iniciar suas atividades, no dia 03. Na manhã de sábado, 4, os 700 jovens presentes assistiram a uma palestra sobre a história dos Sete Povos das Missões e de Sepé Tiaraju, dando prosseguimento com grupos de estudos durante a tarde. A organização do Acampamento da Juventude é um dos pontos altos da estrutura: os participantes são divididos em sete grupos, remetendo às sete reduções que formavam as Missões. Essa divisão é a que organiza desde os grupos de estudo e de discussão até as refeições.


    Atividades até terça-feira, dia 7


    As atividades seguem até a próxima terça-feira.


    Na segunda-feira, o acampamento da Via Campesina realiza análise de conjuntura e pretende relacionar a luta dos camponeses com a luta travada por Sepé pela terra.. Pela manhã ocorrem palestras e, à tarde, serão realizados grupo de estudos.


    O acampamento da juventude mantém a discussão em grupos para propor alternativas para os problemas que vivenciam os jovens.


    Os indígenas também terão um dia de propostas de encaminhamentos para resolver os problemas apontados no debate dos dois primeiros dias.


    No dia 7 as atividades serão encerradas com uma marcha que irá da entrada de São Gabriel até o local onde Sepé foi morto, chamado Sanga da Bica. Para ver a programação completa dos encontros e as atividades festivas de encerramento visite www.projetosepetiaraju.org.br.


     


     

    Read More
  • 05/02/2006

    Sepé Tiaraju representa mudanças sociais, diz pesquisadora

    “Cada vez mais, a figura de Sepé se afasta das facções conservadoras da sociedade e se aproxima dos movimentos sociais do campo e dos excluídos em geral”. Essa é a análise da pesquisadora Ceres Brum, professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Maria (RS). Ceres abriu as atividades do Acampamento da Via Campesina nesta manhã (05/02), abordando o processo da transformação da figura histórica de Sepé Tiaraju em mito.

    Para
    a professora, a história de Sepé ainda não terminou de ser contada. “Como todo mito, as pessoas buscam a sua figura e trajetória no passado, a fim de encontrar soluções para os problemas atuais. E é isso o que está ocorrendo com Sepé Tiaraju”, argumenta. A literatura foi a primeira a mitificar o líder indígena. Basílio da Gama, em seu livro “O Uraguai”, escrito no século XVIII, já apontava Sepé como uma das figuras principais nas guerras guaraníticas. Mas foi o poeta gaúcho João Simões de Lopes Neto, em um século depois, que cultuou a figura do índio, relacionando-o à luta do povo por sua terra.

    Foi atribuído à Sepé tal sentimento de revolucionário que, na década de 50, pesquisadores do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul embargaram a construção de um monumento em homenagem a Sepé. “Estávamos em plena Guerra Fria, marcada pela disputa entre capitalismo e socialismo. Setores da sociedade tinham medo de que a figura de Sepé chegasse aos movimentos populares, devido ao tom revolucionário da sua luta”, conta Ceres.

    Outro ponto que chama a atenção é, mesmo depois de 250 anos de morte, a diversidade de pessoas que o líder indígena ainda inspira é grande e chega a ser contraditória. A pesquisadora utiliza, como exemplo, os movimentos sociais do campo e ao latifundiários tradicionais, dois setores que envocam junto de si a luta travada pelo guarani. Na marcha da Via Campesina em São Gabriel, em 2003, os camponeses seguravam um estandarte com a imagem de Sepé, enquanto os agricultores ligados ao agronegócio carregavam faixas utilizando a frase histórica do índio: “Alerta, essa terra tem dono”. Apesar de Sepé ser uma figura que consegue alcançar um grande número de pessoas, são os movimentos sociais e as organizações indígenas que potencializam a figura revolucionária dele. “Devido ao movimentos sociais e aos indígenas, Sepé representa hoje a mudança do sistema atual de pobreza e de exclusão. Uma mudança que ocorreu, de certa forma, no passado [nas Missões], e continua até hoje”, afirma Ceres.     

    Acampamento


     


    Instaladas no Parque Tradicionalista de São Gabriel, os cinco mil participantes estão divididos em quatro acampamentos: o indígena, da juventude, da Via Campesina e dos Quilombolas. A juventude foi o primeiro a iniciar suas atividades, no dia 03. Na manhã de sábado, 4, os 700 jovens presentes assistiram a uma palestra sobre a história dos Sete Povos das Missões e de Sepé Tiaraju, dando prosseguimento com grupos de estudos durante a tarde. A organização do Acampamento da Juventude é um dos pontos altos da estrutura: os participantes são divididos em sete grupos, remetendo às sete reduções que formavam as Missões. Essa divisão é a que organiza desde os grupos de estudo e de discussão até as refeições.


    Atividades até terça-feira, dia 7


     


    As atividades seguem até a próxima terça-feira.


    Na segunda-feira, o acampamento da Via Campesina realiza análise de conjuntura e pretende relacionar a luta dos camponeses com a luta travada por Sepé pela terra.. Pela manhã ocorrem palestras e, à tarde, serão realizados grupo de estudos.


    O acampamento da juventude mantém a discussão em grupos para propor alternativas para os problemas que vivenciam os jovens.


    Os indígenas também terão um dia de propostas de encaminhamentos para resolver os problemas apontados no debate dos dois primeiros dias.


    No dia 7 as atividades serão encerradas com uma marcha que irá da entrada de São Gabriel até o local onde Sepé foi morto, chamado Sanga da Bica. Para ver a programação completa dos encontros e as atividades festivas de encerramento visite www.projetosepetiaraju.org.br.

    Read More
Page 1097 of 1234