• 21/02/2006

    Estrutura

    O Centro de Formação Vicente Canhas é uma chácara com 22 mil m2, constituída de módulos conjugados, com independência das áreas (refeitório, dormitórios, auditório…).



    Refeitório e cozinha com equipamentos industriais.


    O Centro possui:
    – 01
    auditório com capacidade para 200 pessoas;
    – 02 auditórios, cada um com capacidade para 80 pessoas;
    – refeitório;
    – dormitórios com capacidade para 170 pessoas;
    – capela;
    – sala de televisão e vídeo;
    – churrasqueira;
    – lavanderia;
    – secretaria com computadores ligados a internet, copiadora e impressoras;
    – quiosque para eventos culturais;
    – salas individuais para pequenas reuniões e trabalhos em grupo;
    – área verde;
    – quadra de vôlei e campo de futebol.



    Quiosque para atividades festivas e culturais.

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  • 21/02/2006

    Localização e contato

    Nosso endereço: Rua Uberlândia, Quadra 11 Lote 21 – Chácaras Marajoara A – Jardim Ingá – Luziânia/GO


    Telefone: 61 36151427


     

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  • 21/02/2006

    Porque Centro de Formação Vicente Canhas


    Vicente em seu corpo franzino,


    Carregava idéias e ideais fortes.


    Sonhava, com os Pareci, Enawenê-Nawê


    E outros tantos povos indígenas,


    Com quem conviveu, o sonho grande


    E radical, de um Brasil diferente,


    Mais igual e de justiça,


    A partir das diferentes culturas e povos,


    Um país plural.


    Seu testemunho e pensamento,


    Incomodavam os acomodados,


    Na Igreja, na missão, na sociedade,


    Nas estruturas e amarras do capital.


    Não se deixou aprisionar,


    Lutou e relutou,


    Sonhou, viveu e construiu um novo horizonte.


    Foi assassinado por seu compromisso


    Com a vida e futuro dos povos indígenas.


    Vicente Canhas nasceu em Albacete, Espanha, no dia 22 de outubro de 1939.


    Foi morto dia 6 de abril de 1986, na terra


    Dos índios Enawenê-Nawê.


    Neste Centro de Formação buscaremos dar
    Continuidade e forma a seus sonhos e lutas.

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  • 21/02/2006

    Demarcação adiada

    Adital – Uma carta divulgada pela Comunidade Guarani do Morro dos Cavalos, na quinta-feira, 16, denuncia que passados 27 meses do prazo legal para a publicação da portaria do Ministério da Justiça que declara os limites de sua terra, denominada Morro dos Cavalos, em Santa Catarina, o Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, devolveu o processo à Funai (Fundação Nacional do Índio). O objetivo seria esfriar a pressão que vinha sofrendo pela demarcação e continuar atendendo ao Governo do Estado e aos ruralistas catarinenses.


     


    Agora, por causa dessa decisão, a Funai terá que nomear outro antropólogo para responder as demandas do ministro. Esse trabalho poderá demorar até um ano. Enquanto a terra não está demarcada, a comunidade ocupa cerca de três hectares num morro íngreme, ao lado da BR-101, uma das rodovias mais perigosas do país. “Sem condições de produzir alimentos, vivemos de cestas básicas doadas por voluntários e do artesanato”, ressalta a carta.


     


    Segundo informações do diretor de Assuntos Fundiários da Funai, Artur Nobre Mendes, a atitude de Bastos foi baseada em uma decisão anterior do Tribunal de Contas da União, que solicitava ao Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transporte (DNIT) novos estudos ambientais e sociais para o projeto de duplicação da BR-101, que corta a terra indígena. No entanto, a decisão do Tribunal, publicada no Diário Oficial da União em 12 de maio de 2005, refere-se somente à questão dos custos da duplicação, e não à terra Guarani. “Entendemos que a devolução do relatório foi apenas uma desculpa para se livrar da pressão e ganhar mais tempo, já que se trata de ano eleitoral e uma assinatura poderia desagradar possíveis aliados nas eleições”.


     


    Desde que o Governo Federal criou uma Comissão Especial em âmbito estadual, que avalia as demarcações de terras indígenas em Santa Catarina, em setembro de 2004, nenhuma terra foi demarcada no Estado, segundo os indígenas. A comissão é composta pelos setores contrários à demarcação da terra indígena, como o Governo do Estado e representantes do agronegócio.


     


    Devido a acordos feitos com o Governo do Estado, amplamente divulgados em jornais de circulação estadual, o ministro comprometeu-se a não assinar as portarias que declaram os limites das terras indígenas no Estado e criou a Comissão Especial para decidir sobre as demarcações, “atitude totalmente inconstitucional e ilegítima, porque a demarcação de uma terra indígena é de competência Federal”.


     


    Em agosto de 2005, 22 meses após o vencimento do prazo legal, a comunidade indígena iniciou uma campanha de pressão pela demarcação da terra. Mais de 10 mil cartas, entre cartões postais e e-mails, foram enviados ao Ministério da Justiça. Em dezembro de 2005, o cacique Arthur Benite esteve em Brasília, no Ministério da Justiça, conversando com o secretário especial do ministro, que teria se comprometido a agilizar o processo. “No entanto, para surpresa de todos, o processo foi devolvido à Funai. Nossa comunidade decidiu continuar a campanha de pressão ao ministro”.



     

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  • 20/02/2006

    Carta aberta para a Sociedade

    Comunidade Tupinambá de Olivença


     


    Nós indígenas legítimos da Aldeia Tupinambá de Olivença, vimos pela presente carta informar a toda sociedade brasileira, que, diante do descaso que o governo brasileiro vem fazendo com o nosso povo Tupinambá de Olivença (não dando assistência a nosso povo na saúde, na educação diferenciada indígena e principalmente no atraso do processo de regularização do Território Indígena de Olivença) que é p grande causador dos homicídios e mortes da nossa gente. Decidimos tomar ás medidas cabíveis, ocupando uma fazenda abandonada de aproximadamente 750 hectares de extensão (FAZ  LIMOEIRO).


     


    Por este motivo pedimos o apoio e a compreensão de toda a sociedade, por essa nossa decisão. E permaneceremos até que se regularize esta situação.


     


    ”Somos povos sofridos, massacrados, quase exterminados é desapropriados do nosso território tradicional”.


     


    Atenciosamente


     


    Maria Valdelice Amaral de Jesus


    Cacique


     

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  • 20/02/2006

    Dois meses intensos: apreensão, organização e vitória

    Acampamento Terena – Mãe Terra


     


    Os guerreiros se abraçam, cruzam-se os olhares, lágrimas de alegria e emoção escorrem lentas pelos rostos bronzeados. É a comemoração da vitória na justiça, suspendendo a reintegração de posse. Era tarde de véspera dos dois meses do retorno a parte do território tradicional, que os invasores passaram a chamar fazenda Vitória, no município de Miranda, no Pantanal sul mato-grossense. Vitória da resistência, vitória da liberdade, vitória da união e organização. “Terena unido jamais será vencido!”.


     


    Amanhece o dia 28 de janeiro. No céu nuvens pesadas anunciam que a água virá em forma de benção da vitória e da esperança. Alegria contagiante. Celebrar e agradecer é preciso. Aos poucos o acampamento, com mais de duzentas famílias em seus barracos cuidadosamente erguidos com palha e fé, começa se agitar. É dia especial. Amigos do Cimi, aliados desde a primeira hora, virão trazer seu abraço alegre e solidário.


     


    A chuva cai intensa. A terra absorve rapidamente a água. As árvores se inclinam e acenam ao ritmo do vento. As palhas dos ranchos fazem escorrer a água, mantendo secos os corações ardentes. É a homenagem da natureza.


     


    Após o almoço guerreiros, mulheres, crianças, jovens, idosos pintados, com suas vestimentas de ritual, arcos e flexas, bordunas dirigem-se ao centro do acampamento da aldeia, que fica em frente ao símbolo da invasão e destruição, a sede da fazenda.


     


    O ritual do bate pau e as falas emocionadas


     


    Além da arte expressa nas pinturas os Terena acampados vão também se tornando exímios apresentadores de seus rituais tradicionais, como o bate pau. Depois da apresentação dos homens, também as mulheres fazem uma bonita apresentação de dança ritual. E a terra do terreiro Terena do acampamento aldeia vai se tornando compactado com o deslizar ritmado dos pés. Além de muito bonito, o ritual é carregado de emoção. No final, um gesto de gratidão a pessoas e entidades aliadas. Entrar na dança ritual e depois ser erguido pelos guerreiros com suas as varas do bate pau, é um gesto de profundo simbolismo e emoção que jamais se esquecerá. É tornar-se profundamente comprometido com essa luta, em que se constrói um novo momento na história do povo Terena: a recuperação da terra, da vida, da esperança, de um novo projeto de futuro.


     


    As falas das lideranças expressam toda a alegria do momento de comemoração dos dois anos de retomada com a vitória de uma batalha, nesta longa e árdua guerra pela recuperação da mãe terra. E todos falam com muito orgulho e altivez. “Jamais vamos sair daqui, nunca mais confinados… Estamos aqui com orgulho, pois estamos brigando por nossos direitos, em cima de nossa terra… Estamos numa luta, não estamos num acampamento. Nossos guerreiros estão dispostos a derramar o sangue, se preciso for, por esta terra. Não estamos lutando por coisa pequena. Aqui no Mato Grosso do Sul, 36 mil hectares é muita luta”.


     


    Seria possível desfilar um grande número de falas com cheiro de chão molhado, regado com suor, alegria, certeza e muita convicção da vitória. Chamo atenção para a crescente e importante participação das mulheres, que talvez tenha menos oratória, mas cada palavra por elas expressa cala fundo no caminhar do acampamento.


     


    Vencendo o medo e celebrando  vitórias – “e o sonho tornou-se realidade”


     


    Depois de dois meses, o acampamento Mãe Terra Terena já escreveu uma bonita página na história recente deste povo. Após o gesto corajoso inicial, de apenas 28 famílias, agora já estão no local em torno de duzentas famílias, com aproximadamente setecentas pessoas. Isso demonstra que a cada dia que passa, se está mais próximo da reconquista definitiva deste pedaço do território tradicional Terena. Houve momentos muito difíceis, com capangas dos fazendeiros ameaçando, dando tiros em direção do acampamento, até a liminar de despejo, que hora está afastado por nova decisão judicial. Não foram poucos os momentos de indecisão e medo, de dúvidas e incertezas. Mas aos poucos todos esses fantasmas estão sendo vencidos.


     


    É bonito ver a criançada correndo e brincado com a liberdade e alegria expressa nos olhares. É contagiante perceber os barracos brotando como cogumelos por entre algumas árvores e um lindo horizonte. É gratificante sentir que uma nova vida e esperança brotam dos rostos e corações reanimados pelo cheiro novo da terra.


     


    É momento de celebrar, agradecer ao Deus da vida e a todos os espíritos que animam a luta, o caminho já feito, os passos dados com firmeza e garra, o horizonte livre que desperta a cada amanhecer.


     


    Campo Grande, janeiro de 2006.


     


    Egon Heck e Izaura Vieira


     


    Cimi – Regional Mato Grosso do Sul


     

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  • 20/02/2006

    Sucuri’y: o símbolo do absurdo

    “Porque para ter nosso direito à terra temos que morrer?”


    (Liderança Kaiowá Guarani da TI. Sucuri’y)


     


    Girando os olhos o que se vê é apenas soja começando amarelar. Uma cerca separa as pequenas plantações de mandioca dos Kaiowá Guarani, do mar de soja. Confinados há quase 10 anos, os quase 200 Kaiowá Guarani que ali vivem em seu tekoha, expressam sua crescente revolta diante do absurdo: aprisionados em sua própria terra de 535 hectares, dos quais as cercas dos fazendeiros apenas lhes permitem permanecer em 64,4 hectares. Não se trata de um dos quase 200 tekoha reivindicados pelos Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul. Sucuri’y é um dos exemplos mais absurdos de como são tratados os direitos constitucionais desse povo à sua terra. Essa terra indígena teve seu procedimento administrativo de regularização totalmente concluído em 2001, quando a terra, demarcada e homologada pelo presidente FHC, foi registrada no Departamento de Patrimônio da União e no livro de registro de imóveis no município de Maracajú.


     


    Razões da revolta


     


    “Eu soube que os fazendeiros, através de seus advogados,  estão querendo tirar o registro da nossa terra do livro aí em Maracaju”, diz indignada uma das lideranças presentes a mais uma das reuniões da comunidade. “Já estamos aqui fechados nesse pedacinho da nossa terra há quase dez anos. Estamos como num chiqueiro. Será que vamos ter que agüentar isso até quando?”, pergunta indignado outro Kaiowá Guarani. “Agora vão fazer nova perícia. Quantos estudos e provas vão ter que arrumar ainda para reconhecer essa terra que é nossa? Eu nasci na beira aí do rio, meus pais estão enterrados aí. Será que eu sou um fantasma?”, exclama outro revoltado. “Aqui não temos mais lugar nem pra fazer uma rocinha. Estamos em quarenta famílias aqui e tem muitas que são da nossa gente e não podem vir porque não tem lugar nem para plantar umas mandiocas, milho, amendoim,batata, banana, feijão ou arroz. E o fazendeiro continua todo ano enchendo quase quinhentos hectares da nossa terra com soja, jogando veneno em nós. Será que isso é certo? Até quando vamos ter que agüentar isso?”, pergunta com voz cansada e revolta contida, um dos líderes da comunidade.


     


    Esperar agindo


     


    “Estamos no início de mais um ano. Vamos ver se em 2006 nossa terra vai ficar liberta para nós. Não é possível que vamos ter que ficar aqui olhando nossa terra ser cada vez mais encharcada com venenos, nossas águas poluídas e nossas crianças sofrendo com os venenos e passando necessidade. Vamos ainda esperar um pouco os prazos que o procurador Charles falou que ainda tem para o processo ser julgado e nós podermos tomar conta da nossa terra. Mas a gente vai ficar acompanhando bem esses prazos da perícia e depois queremos logo que o juiz de Dourados dê a decisão sobre essa ação que estão deixando a gente confinado nesse cantinho da nossa terra”.  Essa espera ativa e vigilante é o resultado das discussões da comunidade Kaiowá Guarani de Sucuri’y, após mais um dia de estudo, debate e decisões sobre seus direitos.


     


    Esperançosos estão começando mais um ano de luta pela sobrevivência e dignidade. Algumas pequenas melhoras já conseguiram. Acaba de estar sendo construído um posto de saúde, e a bomba de água para abastecer a caixa d’água já está funcionando porque a energia já chegou até aí, depois de muita briga. “Agora queremos também luz nas nossas casas”, exigem. O projeto para levar a energia elétrica através do programa Luz para Todos, já está aprovado. Só estão estranhando a demora para executar os serviços.


     


    E assim vai iniciando mais um ano de luta e esperança nesse exemplo absurdo do que está se passando com as terras Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul.


     


    Terra Indígena Sucuri’y, 19 de fevereiro de 2006.


     


    Egon Heck


    Cimi – Regional Mato Grosso do Sul


     

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  • 20/02/2006

    Tupinambá de Olivença retomam parte do território reivindicado na região da Sapucaieira, Município de Ilhéus, Bahia

    Esta terra sempre teve dono


     


    Cerca de 200 índios Tupinambá de Olivença retomaram em 19 de fevereiro de 2006 a fazendeira Limoeiro, de cerca de 700 hectares. A área retomada fica a cerca de 40 km da sede do município de Olivença, sendo um local de difícil acesso. A situação até a manhã de hoje (20/02) tem sido tranqüila. Não houve resistência do  fazendeiro e algumas famílias de trabalhadores que se encontravam no local saíram de forma pacífica. A fazenda Limoeiro produz cacau e seringa e já foi alvo de ocupação por trabalhadores rurais da região, sendo mas o Incra não a desapropriou pelo fato de ter sido externada reivindicação dos Tupinambá e da Funai em relação às terras.


     


    Cansados de esperar a morosidade da Funai, os Tupinambá estão identificando e retomando o seu território.


     


    Os Tupinambá no sul da Bahia eram conhecidos como “Caboclos de Olivença” até a década de 90, quando reiniciaram a luta pelo reconhecimento étnico e territorial. Em 2000, foram muitos bem recepcionados na Conferencia Indígena em Coroa Vermelha, o que lhes deus muita força e animação na luta. Em 2004 a Funai cria um Grupo Técnico para a identificação do território. Os antropólogos Suzana Viegas e Jorge de Paula são os encarregados pelo relatório, que é entregue à Funai em Brasília em 2005, sendo  que até o momento os índios não tiveram acesso ao trabalho. Já forma feitas diversas visitas a Brasília para a conclusão e a devolução do relatório, sem que a situação seja alterada.


     


    Atualmente, os cerca de 3000 Tupinambá de Olivença  vivem em pequenas glebas de terra, nos município de Ilhéus, Una e Buerarema. Para sobreviver, trabalham “na diária” para os fazendeiros de cacau, seringa, piaçava e gado e de pequenos serviços nas periferias das cidades de Ilhéus e Una.  Estão divididos em três grandes regiões: Os Acuípes, onde o cacique é Alicio Amaral; Olivença, tendo como cacique Valdelice Amaral e na Serra do Padeiro, onde o cacique chama-se Rosivaldo.


     


    Os Tupinambá, hoje participam ativamente do Movimento Indígena Regional, estando presentes em todas as mobilizações dos povos indígenas do Sul e Extremo sul da Bahia, lutando por terra, políticas públicas diferenciadas e pela garantia dos direitos indígenas em geral. 


     


    Ao comunicar a ação de retomada neste dia 19, solicitam a ajuda e solidariedade todos os parentes e aliados nesta luta pela sua sobrevivência física e cultural do povo Tupinambá no sul da Bahia, e reafirmam  ESTA TERRA SEMPRE TEVE DONO – Os Tupinambá. 

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  • 20/02/2006

    O Documento de Participação da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho

    Apresentação e comentário analítico


     


    Agenor Brighenti


     


    Abstract


     


    Neste estudo, num primeiro momento, o autor apresenta o conteúdo do Documento de Participação da Va. Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe e, num segundo, faz um comentário analítico do texto. Quanto à apresentação, segue­se a estrutura do Documento, elencando sob os títulos do próprio texto os seus conteúdos, de forma telegráfica e indicando o número correspondente. Quanto à análise, o autor faz três tipos de comentário: um sobre a ordem dos conteúdos e o enfoque metodológico; outro, sobre os conteúdos dos cinco capítulos do texto; e, um terceiro, sobre a relação do Documento com a tradição latino­americana, a qual, historicamente se reivindica de uma ‘recepção criativa’ do Concílio Vaticano II. O objetivo destas reflexões, segundo o autor, é contribuir com a participação das comunidades eclesiais na preparação da Va. Conferência, cujo tema central é o discipulado e a missionariedade.


    A Va. Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, convocada para abril­maio de 2007 em Aparecida (Brasil), se insere no elenco das quatro anteriores: Rio de Janeiro (1955), Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992). Ela tem como tema: Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida. “Eu sou Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A exemplo das demais, ela não pretende ser apenas uma reunião de bispos, mas uma assembléia da Igreja na América Latina e no Caribe, à qual conflua a participação e a colaboração de todas as Igrejas Locais, através de suas respectivas Conferências Nacionais. O presente e intitulado Documento de Participação tem como finalidade animar e orientar a participação das comunidades eclesiais na preparação desta Va. Conferência, cujo tema central é o discipulado e a missionariedade.


    A contribuição das comunidades deverá ser dada a partir do preenchimento de algumas fichas, até novembro de 2006.  Na seqüência, a partir da compilação das contribuições, a ser elaborada pelas Conferências Episcopais Nacionais, se redigirá um Documento Síntese, que será ponto de partida para o trabalho dos Bispos na Va. Conferência.


    As reflexões deste estudo se inserem neste tempo privilegiado e importante de preparação. Buscam contribuir com dois objetivos concretos: primeiro, oferecer uma apresentação sintética do conteúdo do Documento de Participação, visão de conjunto dos temas tratados; segundo, fazer um comentário analítico do Documento, chamando atenção sobretudo para os seus limites e vazios, uma vez que se trata de procurar enriquecê­lo.


     


    Os dois objetivos serão objeto dos dois pontos que seguem.


     


    I ­ Apresentação sintética do Documento de Participação


     


    Para a apresentação do Documento, seguimos sua estrutura, elencando sob os títulos do próprio texto os seus conteúdos, de forma telegráfica e indicando o número correspondente. Vamos ao texto.


    Introdução


    ­ O Documento de participação busca suscitar a participação mais ampla possível nesta etapa de preparação, nesta hora da graça e de orientação pastoral.


     


    I. O anseio de felicidade, verdade, fraternidade e paz (1­20)


     


    A. Um anseio universal


    (1) Somos todos buscadores e peregrinos da felicidade: no mais profundo de nosso ser há fome de amor e de justiça, de liberdade e verdade, sede de contemplação, de beleza  e de paz, ambição de plenitude humana, ânsia pelo lar e pela fraternidade.


    (2) O que buscamos supera totalmente as dimensões e as possibilidades de vida neste mundo, abrindo caminho para nossa sede de Deus e vocação para o céu.


    (3) Contudo, já neste mundo somos cada vez mais felizes à medida em que formos imagem e semelhança de Deus ­ o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a comunidade das três pessoas felizes.


    (4) Na história da humanidade, todavia, pessoas e povos se extraviam, perseguindo sua realização por caminhos errados.


     


    B. À luz da revelação


    (5) A revelação ilumina os anseios mais profundos de nosso ser.


    (6) No AT, Deus se manifesta como Senhor da História, Legislador e Juiz.


    (7) Com Abraão e os patriarcas, conclama ao amor e ao respeito fraterno, sem ídolos, sem misérias nem escravidões.


    (8) Em Moisés, deu­nos o dez mandamentos, ainda hoje caminho para a felicidade.


    (10) Pela encarnação-morte-ressurreição, Jesus se fez nosso Caminho.


    (13) As Bem­aventuranças são o código da felicidade e sustentam nossa esperança nas tribulações.


    (14) Para viver as Bem­aventuranças, nos fez apóstolos, testemunhas e colaboradores dele e para isso nos enviou o Espírito Santo.


    (15) O seguimento implica abraçar a cruz de Cristo, em que o sofrimento é oferta filial.


    (16) O cristianismo nasceu e se espalhou como Boa Nova para a humanidade.


    (17) Como Boa Nova surgiram as primeiras comunidades, depois de Pentecostes.


    (18) Apesar das perseguições, o cristianismo se expandiu na antiguidade como verdadeira explosão de alegria, corrente de fé, sabedoria e esperança.


    (19) Na delegação de Jesus aos apóstolos ­ “Ide e fazei que todos os povos se tornem discípulos”, a Igreja foi muito mais além das fronteiras do Império Romano.


    (20) O cumprimento da delegação de Cristo foi acompanhado pelo martírio, na alegre esperança de acompanhá­lo no céu.


     


    II. Desde a chegada do evangelho à América Latina e ao Caribe vivemos nossa fé com gratidão


     


    A . Nossos povos receberam a bênção do encontro com Jesus Cristo (21-30)


    (21) Por sábio e bondoso desígnio da Providência divina, chegou até as terras deste Continente esta corrente de amizade com Deus, de vida nova e de promoção humana, iniciada por Jesus Cristo e que o Espírito Santo impulsiona ao longo dos séculos.


    (22) Encontro precedido pela presença de Deus, em ‘sementes do Verbo’, em muitos valores, que predispunham à recepção mais pronta do Evangelho.


    (23) A Virgem de Guadalupe ajudou a abrir as portas do coração dos povos autóctones para Jesus Cristo.


    (24) Nosso radical substrato católico foi estabelecido e dinamizado por uma legião missionária de bispos, religiosos e leigos.


    (25) Contudo a evangelização teve luzes e sombras, como atestam Bartolomeu de las Casas, Juan de Zumárraga, Vasco de Quiroga, Juan Del Valle, Julián Garcés, José de Anchieta, Manoel da Nóbrega e tantos outros.


    (26) A própria evangelização constitui uma espécie de tribunal de acusação para os responsáveis por aqueles abusos.


    (27) Solidarizamo­nos com a dor dos conquistados, submetidos à escravidão, conforme já pediu perdão o Papa João Paulo II (holocausto desconhecido).


    (28) Tempos dolorosos também foram as crises do séc. XIX e princípios do XX (Igreja perseguida). O Vaticano II iria renovar o dinamismo evangelizador.


    (30) Principalmente a partir de Medellín há uma nova etapa  de nossa história, em que a Igreja busca contribuir com a construção de uma nova sociedade.


     


    B. Uma Igreja viva, fermentada pela experiência da graça de Deus (31-35)


    (32) A herança recebida, no Continente da Esperança, compromete a Igreja a dar uma resposta alegre e missionária aos que buscam sentido.


    (33) As peregrinações do Papa João Paulo II constituíram um marco indelével.


    (34) Sinais de esperança, que mostram que a semeadura de Deus cresce: 90% da população crêem em Deus; as alegres celebrações litúrgicas e a vida das paróquias, de suas comunidades de base e dos movimentos eclesiais; a piedade e religiosidade populares; as paróquias missionárias; esforços da Igreja, nos quais participam religiosos e religiosas, na Nova Evangelização, com dedicação aos pobres; as grandes instruções dadas por João Paulo II, convocando­nos ao encontro do Cristo vivo e a globalizar a solidariedade; a participação dos leigos (ministros da Palavra, catequistas); as escolas de formação inicial e contínua de diáconos permanentes; a pastoral da juventude; a pastoral vocacional, inserida em pastoral orgânica diocesana, em estreita vinculação com a pastoral familiar e da juventude; a pastoral da família, santuário da vida; a pastoral dos presbíteros, com encontros em pequenas comunidades; a pastoral social: opção pelos pobres, libertação, conteúdo evangélico e teológico da libertação; o espírito de comunhão, participação e co-responsabilidade, manifestado nas Cebs, ministérios leigos e conselhos pastorais; o autofinanciamento das Dioceses; o diálogo ecumênico e inter­religioso, em especial com as comunidades judaicas.


     


    III. Discípulos e missionários de Jesus Cristo (36-93)


     


    (36) Em Puebla, João Paulo II chamou a atenção sobre a verdade de Jesus Cristo, da Igreja e do homem.


    (37) Essa verdade remete à identidade da vocação e missão cristãs, na realidade do Continente, que ultimamente o CELAM através do estudo sobre as ‘megatendências’ de nosso tempo e sobre a globalização buscou dar maior clareza.


    (38) O tema da Va. Conferência coloca­se nesta perspectiva.


     


    A. Pelo encontro com Jesus Cristo vivo (39-43)


    (39) O encontro com Jesus Cristo é raiz, fonte, ápice da vida da Igreja e fundamento do   discipulado e da missão.


    (40) Jesus Cristo é e será sempre a verdadeira novidade, que supera todas as expectativas da humanidade.


    (42) O encontro vital com o Senhor nos introduz nas dimensões mais profundas da vida.


    (43) Va. Conferência: oportunidade para refletir sobre a profundidade de nosso encontro com Jesus Cristo vivo e sobre a intensidade de nosso ardor missionário.


     


    B. Discípulos de Jesus Cristo (44­65)


    (44) Na perspectiva da Nova Evangelização, com relação às demais Conferências, é necessário dar um passo a mais: chegar ao indivíduo que responderá aos grandes desafios de nosso tempo.


    (45) Discípulo de Jesus Cristo é aquele que, repleto de assombro, recebeu o Senhor.


    (46) A primeira experiência do discípulo consiste no chamado pessoal que Jesus lhe faz, na vontade de segui­lo, de assemelhar­se a ele e de vincular­se a uma comunidade de fiéis, na qual discerne sua missão na Igreja e na sociedade. 


    (49) A escolha e o chamado de Cristo requer ouvidos de discípulo.


    (50) Uma resposta de amor a um chamado de amor


    (51) Em que o discípulo entra em comunhão de vida e missão com Jesus Cristo.


    (52) Comunhão plena se dá na Eucaristia.


    (55) Formação do discípulo, consiste em fazer­se discípulo da Palavra (56)


    (58) Na vivência sacramental, o discípulo de Jesus encontra a presença e a ação salvífica.


    (59) Um itinerário de iniciação cristã comporta várias etapas: anúncio da Palavra, acolhimento da mesma e conversão, profissão de fé, efusão do Espírito Santo e acesso à comunhão eucarística.


    (64) Maria de Nazaré, a primeira e mais perfeita discípula que, desde a encarnação, gravou em seu coração o Evangelho.


    (65) Em Maria encontramos todas as características do discipulado: escuta amorosa e atenta, obediência sem limites à vontade do Pai e fidelidade até à cruz.


     


    C. Discípulos em comunhão eclesial (66-77)


    (66) O chamado cria entre os discípulos comunidade fraterna.


    (69) Uma comunidade unida é condição para a formação do discípulo: casa e escola de comunhão e solidariedade.


    (70) O discípulo não pode viver sem o domingo, no encontro com a Palavra e a Eucaristia.


    (71) A comunhão dos discípulos mostra sua unidade por meio da diversidade e da pluralidade, recordando que é imagem do Deus Uno e Trino.


    (72) A tarefa de construir a comunhão eclesial realiza­se de modo orgânico por meio dos diversos ministérios, carismas e serviços, na colaboração de todos.


    (73) Papel especial têm as diferentes formas de movimentos e associações, em que a vida paroquial e a diocesana devem expressar seu caráter de ‘comunidades de comunidades e movimentos’.


    (74) A identidade e missão do presbítero se fundamentam no encontro com Jesus Cristo vivo e seu seguimento desenvolve­se na vivência de comunhão presbiteral com o Bispo e se projeta na caridade pastoral.


    (75) No caminho do discipulado, a vida consagrada tem uma missão insubstituível, com coração não dividido, “estar com Jesus e pôr­se, como ele, a serviço de Deus e dos homens”.


    (76) Para essa tarefa, se requerem projetos de formação exigentes e diferenciados para todos: bispos, presbíteros, diáconos permanentes, consagrados e leigos.


     


    D. Discípulos para a missão (78-93)


    (78) “Ele me ungiu para evangelizar”. “Como o Pai me enviou, eu também vos envio”.


    (79) O caráter missionário de cada discípulo: “Ide e fazei que todos os povos se tornem meus discípulos”.


    (80) Pelo sentido de pertença a uma comunidade, o discípulo assume a edificação e a missão da Igreja.


    (82) A experiência de conversão do discípulo, prepara­o para dar testemunho diante daqueles que foram batizados e impele­o a sair ao encontro dos que têm sede de Deus e não conhecem seu rosto.


    (83) Ser missionário implica respeito aos diversos grupos culturais: indígenas, afro­descendentes e imigrantes, buscando uma inculturação maior da liturgia.


    (84) Para isso, é necessário pobreza de espírito para peregrinar pelos caminhos das bem­aventuranças, na perspectiva do ‘abaixamento de Jesus’.


    (85) O discípulo é chamado a permanecer no amor de Cristo, de modo especial, em seu amor misericordioso e preferencial pelos pobres, urgido que está a viver a autêntica solidariedade.


    (86) Especial atenção merecem os construtores da sociedade, chamados a desprezar estruturas marcadas pelo pecado e a trabalhar por uma nova ordem social, mais justa, eqüitativa e includente.


    (87) Outras urgências: a defesa da vida, desde a concepção, e da família, a participação política, a defesa do direito ao trabalho, a distribuição eqüitativa dos bens.   


    (88) Os discípulos de Jesus Cristo são chamados a viver e a propor outro caminho: o da dignidade   humana e da liberdade, da participação, da solidariedade e da austeridade de vida.


    (89) Diante da resistência de nossa cultura ao mistério da Cruz, voltar a tomar a cruz e seguir o Mestre.


    (90) Enche nosso coração de gratidão a fidelidade de irmãs e irmãos da América Latina e do Caribe, que fizeram do século XX, um século de mártires.  


    (91) Outro campo prioritário para o discípulo de Jesus é a busca de unidade entre todos os que cremos em Cristo (trabalho ecumênico)


    (92) Sobre a Igreja na América Latina e no Caribe incumbe também o chamado à missão ‘ad gentes’, missionários que levem a Boa Nova de Jesus Cristo a outros povos e continentes.


     


    IV. No início do Terceiro Milênio


     


    A. Vivemos em meio às dores de parto de uma nova época (94-111)


    (94) A América Latina e o Caribe são desafiados pelas mudanças religiosas, éticas e, em geral, culturais, que marcam as dores de parto de uma nova época.


    (95) Ao nosso redor, há sinais do crepúsculo de uma era da humanidade que termina e do amanhecer de uma nova época.


    (96) Há novos fenômenos que convidam a um discernimento.


    (97) O primeiro dado dessa mudança, é que conseguiu­se adentrar no macrocosmo (conquista espacial) e no microcosmo (investigação genética).


    (98) A relação com a natureza também mudou: temos consciência da inter-relação e interdependência dos seres entre si, uma realidade que o ser humano deve aceitar e respeitar.


    (99) Na promoção de uma autêntica ‘ecologia humana’, é preciso tomar consciência que a família sofre embates muito fortes.


    (100) O matrimônio é violentado por sua desvinculação da procriação e pela separação entre amor e sexualidade.


    (101) Muda também o sentimento sobre a identidade e missão da mulher: da maternidade abrem­se espaços ao mundo social, sem ser mera competição com o homem.


    (102) Há a mudança da revolução industrial à sociedade do conhecimento e da informação.


    (103) Os avanços, entretanto, nem sempre são a serviço do ser humano, por isso, crescem as desigualdades entre os que possuem o capital (dinheiro e informação) e os mais pobres. Cresce o número dos marginalizados.


    (104) Estas mudanças afetam a busca da verdade e, com ela, a busca dos comportamentos éticos. Tende­se a pensar que verdadeiro é aquilo que agrada, dá prazer e favorece o consumo, caindo­se numa ética individualista, fundada na ‘minha verdade’.


    (105) Há tendência de emancipar a liberdade em relação à verdade e ao bem.


    (107) Há uma consciência contrária a discriminações mas, com freqüência, alheia à verdade e ao bem.


    (108) O atual processo de mudança provoca profundo desenraizamento, gerando grande insegurança, desconcerto e, por vezes, angústia.


    (109) Há novas tendências no campo religioso, como o emocionalismo e novos fundamentalismos.


    (110) Diante disso, a proposta cristã é a revelação de Deus em Jesus Cristo, ‘centro do cosmo e da história’.


    (111) A mensagem de esperança é Jesus Cristo que vence pela cruz.


     


    B. A globalização, um desafio para a Igreja (112-123)   


    (112) Nesta mudança de época, a globalização é um fenômeno real e complexo.


    (113) Características importantes: comunicação mundial, enriquecimento do saber, avanço tecnológico, velocidade das mudanças, geração de novos paradigmas.


    (114) A globalização tem aspectos negativos, mas será aquilo que dela fizermos. 


    (115) A globalização, além de produzir efeitos de integração, é acompanhada de assimetrias.


    (117) Simultaneamente ao processo em curso, podemos constatar outro processo a partir da base, de defesa de  identidade cultural, da natureza, das organizações e grupos humanos que se sentem ameaçados, criando­se extensas redes de defesa dos direitos, de consumo, de produção, de intercâmbio, de financiamento etc.


    (118) A globalização econômica gera riqueza, mas também pobrezas e marginalizações diversas.


    (119) A ameaçadora degradação ambiental, faz do continente uma das regiões menos eqüitativas do mundo; a brecha entre ricos e pobres se amplia e mantém a grave injustiça social, que freia o possível desenvolvimento humano de milhões de habitantes.


    (120) A globalização dos meios de comunicação social modela as mentalidades e as culturas, operando mudança de valores.


    (121) Há uma alteração da identidade cultural de quase todos os povos: promove­se o culto ao eu, ao dinheiro e ao prazer.


    (123) É crescente a mobilidade humana, tanto interna como internacional.


     


    C. As esperanças e tristezas de nossos povos nos interpelam (124-139)


    (125) O fenômeno da globalização e o avanço das comunicações permitiu uma abertura maior ao mundo, produzindo no seio dos povos uma ruptura crescente em relação ao seu patrimônio cultural, seus valores tradicionais e seu estilo de vida.


    (126) Em nossos países,  continua sendo escandalosa a persistência da pobreza, da miséria e do desemprego, em um subcontinente formado majoritariamente por cristãos, ainda que persistam entre os pobres grandes virtudes, como a solidariedade.


    (127) Tornou­se presente em muitos países o protesto por uma justa incorporação dos povos originários aos benefícios e à condução da sociedade, o que implica respeito por sua cultura e por formas ancestrais de organização.


    (128) As novas reformas educacionais denotam um claro reducionismo antropológico, uma vez que concebem a educação em função da produção, da competitividade e do mercado.


    (129) O Estado encontra dificuldades para promover o bem comum, pressionado pelos sistemas financeiros e pelas corporações transnacionais.


    (130) Há um majoritário apreço pela democracia formal, com deficiente penetração da democracia como cultura da participação, da solidariedade e da subsidiariedade.


    (131) O cansaço frente à fraqueza dos governantes, há tendência a aplaudir o surgimento de líderes messiânicos ou caudilhos de estilo populista.


    (132) No desenho das políticas de Estado, não prima a concepção cristã de autoridade, acompanhada de vida sóbria e zelo pelo bem comum.


    (133) É palpável a crise das instituições políticas de representação e o surgimento de uma sociedade civil organizada de outras formas, assim como a decadência e atomização dos partidos políticos, sem identidades programáticas.


    (134) Este fenômeno vem associado à perda da credibilidade dos servidores públicos, gerando ingovernabilidade e os escândalos de corrupção.


    (135) A corrupção pública e privada aumentam de modo alarmante, favorecidas pela impunidade e o enriquecimento ilícito, freando o crédito e o investimento honesto.


    (136) Há uma educação deficiente para o trabalho honesto e para o exercício da co-responsabilidade e das responsabilidades cívicas básicas.


    (137) Grave deteriorização em alguns países é produzida pela produção de drogas e o narcotráfico, alimentados pela demanda em países desenvolvidos, fruto da tolerância e até da legalização do consumo.


     (138) Diversos grupos guerrilheiros se alimentam do narcotráfico, do seqüestro e de negócios encobertos, cuja contra­partida é o terrorismo de Estado.


    (139) Há escassa consolidação e desenvolvimento dos processos democráticos, retardando a integração da América Latina e do Caribe.


     


    D. Os católicos e a Igreja, também diante de outros desafios (140-158)


    (141) Permanece o substrato católico de nossa cultura, mas encontra­se ameaçado pela sociedade globalizada.


    (142) Esta seiva católica se expressou em uma rica religiosidade e piedade populares, com profunda confiança na Providência, no Espírito Santo, no Cristo Crucificado, em Maria, nos santos e no papa.


    (143) Presente igualmente no sentido de família, de hospitalidade, de solidariedade nas desgraças, no sentido de justiça e no respeito pela vida.   


    (144) Há uma nova valorização da religião como um bem social importante.   


    (145) Entretanto, nas últimas décadas se observam uma diminuição da fé, um enfraquecimento do compromisso com a Igreja; uma mentalidade que, na prática, prescinde de Deus na vida, marcada pelo relativismo, pelo pragmatismo e pelo hedonismo.


    (146) Emerge com renovada força um laicismo militante, que nega aos crentes manifestarem publicamente suas convicções e agirem de acordo com elas.


    (147) Constata­se uma agressividade nova, aberta ou latente, contra a Igreja, sobretudo na liberalização dos costumes e das leis.


    (148) O fracasso da cultura moderna e de uma pastoral que sustente e alimente a identidade católica, deram lugar a um agitado mercado de alternativas religiosas e um proselitismo contra a Igreja católica.


    (150) Quanto à presença da Igreja, custa-nos ser profetas e apresentar Jesus e o Evangelho de modo propositivo e contradizer as ameaças.


    (151) A Igreja se torna presente na sociedade por meio de suas formas habituais de evangelização: paróquias, CEBs, movimentos eclesiais (desintegrados), institutos de vida consagrada, escolas­universidades.


    (152) No social, destacam­se a promoção e a defesa dos direitos humanos, individuais e sociais ou políticos, acompanhamento aos povos indígenas, formação dos cidadãos para a construção da democracia, a ação social em áreas como educação, saúde, moradia, pastoral carcerária etc.


    (153) A Igreja vê com preocupação a violação dos direitos dos imigrantes, refugiados e deslocados.


    (154) Descuidamos da formação dos leigos para o ordenamento das realidades temporais, pois apresentam fracas convicções éticas que os incapacita de cumprir no mundo sua responsabilidade com coerência cristã; não se pautam pela Doutrina Social da Igreja.


    (155) Nos últimos dez anos houve uma diminuição no número de católicos, em alguns países em até 10%.


    (156) Entre os leigos, debilita­se a recepção dos sacramentos, especialmente do matrimônio e assiste­se a uma dessacralização do domingo, o que urge uma formação catequética mais ampla e profunda.


    (157)  O êxodo de católicos para comunidades pentecostais denota a busca de uma experiência comunitária mais estreita, para evitar a solidão e o isolamento, bem como de uma expressão religiosa mais emotiva e a oportunidade de maior protagonismo em comunidades menores.


    (158) Para essas pessoas que abandonaram a Igreja, é necessário encontrar novas formas e expressões de presença e participação na comunidade.


     


    V – Para que nele nossos povos tenham vida (159-174)


    (160) Em meio às promessas de Deus, ficamos surpreendidos com a escolha que Deus faz de nós e o envio que, com força crescente, tornamos nosso para sermos luz do mundo e sal da terra, instrumentos de sua justiça, misericórdia e paz. Somos convocados a tomar resolutamente em nossas mãos a missão que ele nos entrega, para que “nele nossos povos tenham vida”.


    (162) A Igreja sabe que sua missão prolonga na historia a missão de Cristo, incorporando a vida, a paixão e a ressurreição de Cristo.


    (163) A vida nova em Cristo nos incorpora à comunidade dos discípulos e dos missionários de Cristo, à Igreja.


    (164) Nossos povos têm sede de vida e de felicidade em Cristo.


    (167) Queremos superar misérias e carências dos habitantes de nosso continente, com uma dedicação preferencial aos mais atormentados e contribuir para a formação de pessoas capazes de governar e de motivar para o compromisso com o bem comum.


    (168) Urge promover uma cultura da vida pelo respeito à vida, pela gestação de famílias que sejam santuários da vida.


    (169) O documento está aberto para receber muitas propostas de todos os países, contribuições que devem ser enviadas pelas Conferências episcopais.


    (173)  A Va. Conferência quer impulsionar uma Grande Missão continental.


    (174) Os Atos dos Apóstolos nos oferece a experiência de diferentes ‘estilos de missão’, que são modelos que nos servem também no terceiro milênio.


     


    II ­ Comentário analítico do Documento de Participação


     


    Uma vez visto o Documento, através de uma apresentação de forma sintética e telegráfica, o que evidentemente não dispensa sua leitura, vamos tecer agora alguns comentários analíticos, com a finalidade de ajudar no seu estudo. A partir da visão de conjunto dos conteúdos, vejamos qual é a proposta de fundo do Documento e o seu enfoque, ou seja, qual é sua visão de mundo, de ser humano, de Igreja, em resumo, qual é a sua teologia subjacente. O que se pretende com isso, não é influenciar nas decisões das comunidades eclesiais em seu processo de participação na preparação da Va. Conferência, mas simplesmente ajudá­las a refletir sobre os conteúdos e, assim, capacitá­las a enriquecer o Documento. O próprio CELAM chama atenção na introdução do texto, que o Documento de Participação ‘não é o esboço do documento final’, mas apenas ‘um convite incompleto’, à espera da contribuição de todos.


     


    Nesta abordagem analítica do Documento, também sintética, teceremos três tipos de comentários: um, sobre a ordem dos conteúdos e o enfoque metodológico; outro, sobre os conteúdos dos cinco capítulos do texto; e, um terceiro, sobre a relação do Documento com a tradição latino­americana, a qual, como sabemos, historicamente se reivindica de uma ‘recepção criativa’ do Concílio Vaticano II.


     


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  • 20/02/2006

    E as demarcações de terras indígenas?

    TENDÊNCIAS/DEBATES


     


    E as demarcações de terras indígenas?


    JECINALDO BARBOSA CABRAL


     


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    O Estado brasileiro é lento na demarcação de nossas terras. São reconhecidas só com pressão dos povos e do movimento indígena


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    A legislação brasileira, por meio da Constituição de 88 e de acordos internacionais firmados pelo país, como a convenção 169 da OIT, assegura aos povos indígenas o direito ao usufruto dos territórios que tradicionalmente ocupam e determina que cabe à União demarcá-las. Para nós, povos indígenas, o direito à terra é garantia de sobrevivência, de espaço para a reprodução de nossas formas de vida e para a construção de projetos coletivos de futuro.


     


    No entanto, o Estado brasileiro é lento na demarcação de nossas terras. Elas são reconhecidas apenas depois de muita pressão dos povos e do movimento indígena. Nos últimos sete anos (1998-2004), uma média de 14 terras indígenas por ano teve seus limites declarados pelo Ministério da Justiça. Considerando que 628 terras indígenas ainda precisam ser demarcadas ou ter seus limites revistos, se o Brasil mantiver essa média, precisaremos de mais 45 anos para reconhecer todas as terras indígenas do país, segundo dados do Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas.


     


    Os números contradizem as afirmações do presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes, de que as demarcações de terras indígenas estão chegando ao fim.


     


    Outros dados contrariam o discurso oficial: na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a média de terras declaradas por ano caiu para seis. A lentidão nos processos de demarcação das terras está diretamente relacionada às escolhas políticas feitas pelo governo federal, pois é fruto da pressão da base de sustentação do governo no Congresso.


     


    O governo Lula não poderia contrariar as demandas de políticos que são também fazendeiros, sojicultores, criadores de gado, e, a esses grupos, que há séculos mantêm sua força na definição da política institucional do país, não interessa que seja garantida aos povos indígenas a posse das terras que tradicionalmente ocupam.


     


    O exemplo mais nítido desses acordos vem de Santa Catarina, onde a articulação de políticos estaduais e proprietários rurais contra os direitos indígenas levou à criação de uma inconstitucional Comissão Especial, que, sob a desculpa de analisar os processos de regularização de terras indígenas, atua para impedir as demarcações desde setembro de 2004. Os membros da comissão divulgam, nos meios de comunicação regionais, que há um acordo entre o governo catarinense e o governo federal para a não-demarcação de terras antes de um parecer da comissão. Movimentação semelhante ocorre em Mato Grosso.


     


    Uma das quatro reivindicações apresentadas durante o “Abril Indígena” -mobilização que reuniu mais de 700 lideranças de 89 povos na Esplanada dos Ministérios, em abril deste ano- foi a demarcação de 29 terras que se encontravam no Ministério da Justiça, aguardando terem seus limites declarados para que pudessem ser demarcadas. Os prazos legais já então estavam ultrapassados. Passados sete meses da solicitação, apenas cinco terras foram declaradas.


     


    Já a Funai criou, durante todo o ano de 2005, um único Grupo Técnico (GT) para iniciar os estudos antropológicos que levam à identificação e delimitação de terras indígenas. Para outras 16 terras, foi iniciada a realização de diagnósticos ou foi publicada apenas uma “portaria de fundamentação da identificação”, no lugar de serem criados GTs. Em vez de utilizar os passos administrativos determinados pelo decreto 1.775/ 96, que regula o processo de demarcação das terras indígenas, a Funai ignora a legislação e aumenta a burocracia. Tudo para atrasar as demarcações.


     


    Ao mesmo tempo, o órgão concede longas prorrogações de prazo para entrega dos relatórios antropológicos de identificação das terras. O prazo para o relatório sobre a terra Tapeba, no Ceará, foi prorrogado por 638 dias; o do povo Tumbalalá, na Bahia, por 308 dias, e os Karitiana, em Rondônia, vão ter que aguardar mais 306 dias para a entrega do estudo sobre suas terras.


     


    Como conseqüência imediata da paralisia das demarcações, constata-se o crescimento do número de conflitos pela posse nas terras indígenas, expondo comunidades e lideranças indígenas à violência dos invasores. Em 2003, foram 33 índios assassinados. Em 2004, foram 30 mortes, e, em 2005, já ocorreram 33 homicídios.


     


    Diante desse contexto, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas, que reúne uma dezena de organizações indígenas e entidades indigenistas, reivindicam a conclusão dos processos administrativos paralisados.


     


    É fundamental que a população brasileira se solidarize com os povos indígenas para que este cenário seja imediatamente revertido, garantindo a esses povos o direito às suas terras tradicionais, necessárias à sua reprodução física e cultural.


     


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    Jecinaldo Barbosa Cabral, 29, indígena do povo Sateré-Mawé, é coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), que atualmente exerce a Secretaria-Executiva do Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas.


     

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