• 17/03/2006

    Prefeito de Chapecó é condenado por Racismo



    A 4ª Seção do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região confirmou ontem (16/3) a condenação do prefeito de Chapecó (SC), João Rodrigues, pela prática de racismo. Ele deverá prestar serviços à comunidade por dois anos e quatro meses, pagar multa de 10 salários mínimos e prestação pecuniária no valor de um salário mínimo mensal pelo prazo da pena, a ser revertida em prol das vítimas, seus dependentes ou entidade assistencial.


     


    O atual prefeito responde à ação penal por ter feito declarações contra indígenas no programa de televisão SBT Verdade, do qual era apresentador, em 1999. Segundo consta no processo, Rodrigues teria proferido palavras desonrosas à dignidade e à reputação dos índios, bem como incitado a prática de abuso de autoridade contra estes pela polícia local.


     


    Na época, estava havendo conflito pela posse de terras entre indígenas e colonos na região oeste (Seara, Nonoai e Iraí) de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul.


     


    Em sua defesa, o réu alegou que “apenas comentou os fatos, ou seja, as invasões de um aeroporto e de uma fazenda por índios em dois municípios do Rio Grande do Sul”. “Em nenhum momento houve incitação ao preconceito ou discriminação da raça indígena”, alegou a defesa.


     


    Durante o julgamento de hoje, o relator do processo, desembargador federal Paulo Afonso Brum Vaz, citou a denúncia do Ministério Público Federal em que são transcritos trechos do que Rodrigues teria dito durante o programa. Frases como: “A indiada dificulta o processo (…), trabalhar, muito pouco, não são chegado ao serviço”, “os índios assumem, vira um capão desgraçado no ato, não cultivam” e “índio tem terra, mas não planta, é mais fácil roubar, tomar de alguém que plantou e se dizer dono, depois que colhe abandona toda a fazenda e vão invadir outra”.


     


    Para Brum Vaz, “a ‘manifestação de pensamento’ do acusado, efetivamente, desvela seu propósito de discriminar determinada etnia, muito embora disfarçada em suposta crítica”. “Nada mais deflui das palavras do réu senão seu desprezo e preconceito em relação à população indígena”, diz o magistrado. Ao concluir sua argumentação, Brum Vaz frisou que o estilo de vida “primitivo” dos índios, que se caracteriza pelo convívio com a natureza, não deve ser visto como uma demonstração de preguiça ou desinteresse pelo trabalho, mas como uma cultura, com significado antropológico, que deve ser protegida. O relator foi acompanhado em seu voto por todos os desembargadores componentes da 4ª Seção (seis votos). O réu poderá recorrer da decisão.


     

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  • 17/03/2006

    MPF/MA quer que a Funasa realize nova Conferência

    O Ministério Público Federanl no Maranhão pediu, liminarmente, que a Justiça Federal determine à Fundação Nacional de Saúde (Funasa) a realização de uma nova Conferência Distrital de Saúde Indígena no Maranhão, em tempo hábil para garantir a participação dos delegados na Conferência Nacional de Saúde, que vai acontecer entre os dias 28 e 31 de março deste ano. O procurador da República Juraci Guimarães Júnior quer que a Funasa adote todas as medidas necessárias à participação dos delegados que vão eleitos nessa nova Conferência Distrital, na Conferência Nacional de Saúde Indígena.


     


    A 4ª Conferência Nacional de Saúde Indígena, é parte integrante da 12ª Conferência Nacional de Saúde. Suas finalidades são avaliar a situação de saúde nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) e do Subsistema Indígena no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme previsto na Lei 9.836/99, que complementa a Lei Orgânica de Saúde. Além disso, a conferência propõe diretrizes e ações para promover a saúde dos povos indígenas com controle social.


     


    Entenda o caso – Com o propósito de garantir a participação representativa dos usuários de saúde indígena – principais interessados nas políticas públicas de saúde desenvolvidas no âmbito do SUS -, ficou estabelecido que a 4ª Conferência Nacional de Saúde Indígena seria realizada em três etapas: local, distrital  e nacional.


     


    Embora as normas relativas à realização das etapas estivessem previstas em regimento, inclusive o cronograma, a Funasa, responsável pela realização, resolveu descumpri-las frontalmente. A fundação resolveu dar prosseguimento às irregularidades, promovendo, nos dias 6 e 7 de fevereiro de 2006, a Conferência Distrital de Saúde Indígena.  Convidou algumas lideranças (que não representavam a totalidade das etnias) para participar na qualidade de delegados, mesmo diante da necessidade de que estes fossem escolhidos pela comunidade, na etapa local – que não foi realizada pela Funasa.


     


    Em razão das irregularidades gritantes, que espelhavam a falta de representatividade dos delegados, diversas lideranças indígenas manifestaram o seu descontentamento. Algumas delas, em forma de protesto, chegaram a bloquear a Ferrovia Carajás, conforme noticiado amplamente pela imprensa.


     


    O Ministério Público Federal, em 14 de fevereiro deste ano, recomendou à Coordenação Regional da Funasa e ao Distrito Sanitário Especial Indígena no Maranhão que anulassem a Conferência Distrital de Saúde Indígena e convocassem uma nova, com ampla divulgação a todos os povos indígenas do estado. As providências deveriam ter sido tomadas em tempo suficiente para que os participantes pudessem formular propostas e escolher delegados.


     


    Nos dias 21 e 22 de fevereiro, foram realizadas reuniões na Coordenação Regional da Funasa, com lideranças indígenas e com o  Ministério Público Federal. Nas reuniões, ficou acordado que seria realizada uma nova Conferência Distrital, no período de 16 a 18 de março deste ano. O DSEI/MA comunicou ao DESAI e ao Comitê Executivo da 4ª Conferência Nacional de Saúde Indígena a decisão de cancelar a Conferência Distrital de Saúde Indígena anterior, e de realizar uma outra, de forma extraordinária.


     


    Quando as coisas pareciam estar tomando rumo, eis que surge um novo problema: a Funasa, em reunião realizada no último dia 7 de março, voltou atrás, informando aos indígenas que não seria possível realizar a nova conferência distrital, alegando problemas regimentais.


     


    Diante desse fato, o Ministério Público Federal, em busca de uma solução consensual para a questão,  manteve diversos contatos, entre eles com o Conselho Nacional de Saúde. No entanto, em resposta, foi afirmado que o Conselho, em reunião realizada em 9 de março, havia considerado insuficientes os argumentos e justificativas apresentadas pelo DSEI/MA; por isso, considerou válida a III Conferência Distrital.


     


    Com essa decisão, a Funasa que, já vinha demonstrando desinteresse na realização de uma nova Conferência Distrital conforme as normas relativas à representatividade dos seus participantes, resolveu cancelar, definitivamente, a Conferência Distrital programada para ocorrer no período de 16 a 18 de março, mesmo diante da manifesta nulidade da Conferência Distrital realizada em fevereiro. 


     


    Sérvulo Neves


    Assessoria de Comunicação


    Procuradoria da República no Maranhão


    Tel: (98) 32137155/88056275


    E-mail: [email protected]


     

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  • 16/03/2006

    Nota de Repúdio

    “Todos os Lins e Albuquerque são oriundos de portugueses e alemães. Não são oriundos de tribo indígena”. (Belarmino Lins, Presidente da Assembléia Legislativa do Amazonas, em 15/03/2006).


     


    O Conselho Indigenista Missionário – Cimi, Regional Norte I (AM/RR), vem a público repudiar as declarações do presidente da Assembléia Legislativa do Amazonas, Belarmino Lins (PMDB). Em matéria divulgada pelo jornal A Crítica (Pág. A5, de 16/03/2006),  ele evocou um argumento racista para expressar a condição de superioridade de sua família e sustentar a prática de nepotismo em seu gabinete – prática esta repudiada pela sociedade brasileira.


     


    Na condição de representante do povo e oriundo de uma região marcada pela presença expressiva de populações indígenas, o presidente da Assembléia Legislativa incorreu em prática de racismo. A concepção da superioridade racial, na história recente da humanidade, serviu para subjugar e exterminar milhões de pessoas.  No Brasil, ao longo de cinco séculos, essa concepção alimentou a discriminação contra os indígenas, incentivou violências de toda sorte, inclusive genocídio, muitas vezes com respaldo do Estado Brasileiro.


     


    Nos dias de hoje em todo o país, muitos indígenas são perseguidos, agredidos,  violentados e até desassistidos pelos órgãos públicos por causa da discriminação praticada por alguns servidores que deveriam respeita-los.


     


    As organizações indígenas e seus aliados já conhecem o posicionamento do deputado Belarmino Lins e do grupo político que ele representa. Não foram poucos os pronunciamentos contrários aos direitos dos povos indígenas, sobretudo no que diz respeito à terra – e em particular às terras indígenas localizadas na região do Alto Solimões. A demarcação daquelas terras nos anos 90 foi alvo de ataques por parte do grupo político a que pertencia o atual presidente da Aleam.


     


    O Cimi Norte I solidariza-se com os povos indígenas e reitera seu irrestrito apoio na luta pelo respeito aos seus direitos. Soma-se, também, a todos os segmentos da sociedade amazonense contrários à prática de nepotismo e que exigem dos representantes do povo uma postura política ética e de respeito a todos os cidadãos, independentemente de crença, cor, raça ou religião, dentre tantos outros atributos que possam resultar em exclusão política e social.


     


    Manaus (AM), 16 de março de 2006.


     


    CIMI NORTE I – AM/RR

    A coordenação

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  • 16/03/2006

    Informe nº 707 – Cimi denuncia abandono na saúde

    Uma realidade de total abandono e precariedade no atendimento a saúde indígena em todo País foi denunciada hoje em nota pública pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).


     


    Na nota divulgada, um levantamento da situação de calamidade em diferentes estados descreve as condições do atendimento à saúde indígena em todo País. “No estado do Tocantins, nos últimos cinco meses, morreram 15 crianças do povo Apinajé, em função de diarréia, vômito, gripe e febre. No Mato Grosso do Sul, morreram dezenas de crianças Guarani-Kaiowá devido à desnutrição. No Pará sete crianças do povo, Munduruku morreram vítimas de infecções intestinais. No Amazonas, as organizações indígenas vêm denunciando de forma sistemática o descaso nos serviços de saúde e o alastramento de doenças infecto-contagiosas. Em Roraima, entre os Yanomami, os índices de malária voltam com intensidade, em função do abandono nas ações preventivas em saúde, especificamente nos serviços para o combate ao mosquito transmissor da doença. No Acre, 10 crianças Kaxinawá, do Alto Purus, morreram em conseqüência da diarréia. Nos estados do Sudeste e do Sul, foram registrados dezenas de casos de desnutrição em crianças Guarani e Kaingang, com casos de mortes em aldeias que, na sua maioria, encontram-se localizadas em pequenas áreas de terras devastadas pelo processo colonizador. No Mato Grosso, o governo assistiu passivamente a morte de crianças Xavante, da terra indígena Marawatsede. Esta área, já demarcada e homologada, continua fora do domínio do povo Xavante, invadida por fazendeiros da região. No estado do Maranhão, 14 crianças da aldeia Bananal morreram em 2005, e em janeiro de 2006, foram registradas mais seis mortes, as causas foram diarréia e desnutrição. Em Rondônia, a ausência de uma intervenção consistente por parte da Funasa tem causado o alastramento de doenças infecto-contagiosas, a exemplo das hepatite tipos B e C”, descreve o Cimi.


      


    Mesmo nos estados em que os povos indígenas encontram-se articulados e suas organizações têm tido maior controle social sobre a assistência na área de saúde, o Cimi verifica o total sucateamento dos equipamentos médicos e dos veículos que atendem as comunidades.


     


    Pedindo providências urgentes, a entidade indigenista aponta como as princiapis causas do colapso a terceirização das políticas de assistência, iniciada no governo FHC e aprofundada no governo Lula, o esvaziamento da política de saúde e o fim da autonomia administrativa conquistada pelos distritos como os principais fatores que motivaram o colapso no atendimento.


     


    Segundo a nota, “nos últimos anos a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) tem provocado inúmeros atritos com o movimento indígena organizado, ao promover o rompimento unilateral de parcerias inicialmente estabelecidas e sua substituição por instituições totalmente alheias ao campo indigenista, como ‘associações universitárias’ e ONGs, bem como prefeituras municipais. As ocupações das sedes da Funasa em praticamente todas as regiões, demonstra a inconformidade dos povos indígenas com a política de assistência em curso”.


     


    Ainda recai sobre a Funasa , a denuncia de ter restringido “a participação organizada dos povos indígenas, monopolizou todo o processo preparatório de IV Conferência Nacional da Saúde Indígena nas regiões, não possibilitando que a Comissão Intersetorial de Saúde Indígena e que as organizações indígenas e indigenistas participassem deste processo, o que gerou dúvidas sobre a Conferência, prevista para ocorrer este mês”. Para o Cimi “a IV Conferência Nacional de Saúde Indígena só terá legitimidade quando houver a participação efetiva dos povos e organizações indígenas e indigenistas”. Leia o Documento na íntegra acessando o site do Cimi


     


     


    Responsável por atentado contra cacique Xukuru e assassinato de lideranças será julgado


     


    O autor confesso da chacina que deixou mortas as lideranças José Ademilson Barbosa da Silva Xukuru e Josenilson José dos Santos Atikum, José Lourival Frazão, mais conhecido como Louro Frazão, irá a juri popular, no dia 22 de março de 2006 no fórum da cidade de Caruaru, interrior de Pernambuco.


     


    As lideranças foram mortas com tiros na cabeça em uma emboscada, quando faziam a segurança do cacique do povo Xukuru, Marcos Luidson, em fevereiro de 2003. Meses antes do crime, que revoltou entidades defensoras de direitos humanos de todo Brasil, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos havia solicitado que o Estado Brasileiro fizesse a proteção física de Marcos, que vinha sofrendo ameças de morte por parte de grupos político e ecônomicos que tem interesse em suas terras.


     


     


     

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  • 16/03/2006

    Saúde Indígena: Uma Realidade de Abandono

    O Conselho Indigenista Missionário vem a público manifestar sua apreensão e preocupação com a realidade de abandono a que as comunidades indígenas estão submetidas, de modo especial no que se refere à política de assistência à saúde.


    No estado do Tocantins, nos últimos cinco meses, morreram 15 crianças do povo Apinajé, em função de diarréia, vômito, gripe e febre. No Mato Grosso do Sul, morreram dezenas de crianças Guarani-Kaiowá devido à desnutrição. No Pará sete crianças do povo, Munduruku morreram vítimas de infecções intestinais. No Amazonas, as organizações indígenas vêm denunciando de forma sistemática o descaso nos serviços de saúde e o alastramento de doenças infecto-contagiosas. Em Roraima, entre os Yanomami, os índices de malária voltam com intensidade, em função do abandono nas ações preventivas em saúde, especificamente nos serviços para o combate ao mosquito transmissor da doença. No Acre, 10 crianças Kaxinawá, do Alto Juruá, morreram em conseqüência da diarréia. Nos estados do Sudeste e do Sul, foram registrados dezenas de casos de desnutrição em crianças Guarani e Kaingang, com casos de mortes em aldeias que, na sua maioria, encontram-se localizadas em pequenas áreas de terras devastadas pelo processo colonizador. No Mato Grosso, o governo assistiu passivamente a morte de crianças Xavante, da terra indígena Marawatsede. Esta área, já demarcada e homologada, continua fora do domínio do povo Xavante, invadida por fazendeiros da região. No estado do Maranhão, 14 crianças da aldeia Bananal morreram em 2005, e em janeiro de 2006, foram registradas mais seis mortes, as causas foram diarréia e desnutrição. Em Rondônia, a ausência de uma intervenção consistente por parte da Funasa tem causado o alastramento de doenças infecto-contagiosas, a exemplo das hepatite tipos B e C.


    Ao quadro de mortalidade infantil e do alastramento de doenças, somam-se dezenas de óbitos de adultos por malária, tuberculose e hepatite. Doenças essas que deveriam estar erradicadas em nosso país, mas que pela omissão do Estado e pelo fracasso de suas políticas voltadas para a assistência à saúde, às atividades produtivas e pela paralisia nos processos de demarcação das terras indígenas e falta de proteção destas terras, tornam-se devastadoras.


    Mesmo nos estados em que os povos indígenas encontram-se articulados e suas organizações têm tido maior controle social sobre a assistência na área de saúde, verifica-se o total sucateamento dos equipamentos médicos e dos veículos que atendem as comunidades. Em diversas localidades, funcionários são obrigados a cruzar os braços devido ao atraso no pagamento de seus salários, a exemplo do que acontece no Distrito Sanitário Yanomami.


    A situação é de uma gravidade sem precedentes e exige do poder público providências enérgicas e ações contundentes para combater a fome, a desnutrição e as doenças causadas por parasitoses, por mosquitos e a intensificação das endemias e epidemias. Ao contrário disso, assiste-se a omissão e a negligência do órgão responsável pela assistência à saúde indígena, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), entregue a grupos políticos e usada como instrumento de aliança política. A Funasa tem sido morosa na implementação de projetos de saneamento e de construção de postos de saúde nas aldeias em todo o Brasil, bem como na perfuração de poços para assegurar água potável nas comunidades. A falta de água de qualidade nas comunidades indígenas é um desencadeador de doenças que poderiam ser facilmente evitadas.


    Esta realidade tem, na sua essência, vários fatores:


    1) A terceirização das políticas de assistência, iniciada no governo FHC e aprofundada no governo Lula, com o agravante de que no atual governo foram estabelecidos acordos políticos em todos os estados com as oligarquias locais, que historicamente se contrapõem aos interesses e direitos dos povos indígenas;


     


    2) O esvaziamento da política de saúde, que vinha sendo estruturada com a participação dos povos indígenas, entidades indigenistas e universidades, desde os anos 80 e que começava a se consolidar através da implantação do Sub-Sistema de Atenção a Saúde Indígena, iniciado em 1999. Este Sub-Sistema tem por base os Distritos Sanitários Especiais Indígenas.


     


    3) Os graves retrocessos, no processo iniciado para a consolidação do Sub-Sistema, começaram em 2003 com a publicação da Portaria de nº 70, assinada pelo presidente da Funasa. Esta portaria acabou com a pouca autonomia administrativa conquistada pelos distritos, passando toda a responsabilidade para as coordenações regionais do órgão. Foi também revogado o dispositivo que determinava que as indicações para as coordenações regionais e as chefias dos distritos, deveriam ser apenas de técnicos do Ministério da Saúde, dando início a um loteamento político sem precedentes na gestão da saúde no país. Cabe ressaltar que boa parte destas indicações políticas atende a interesses de grupos políticos, ficando demonstrado que as indicações a cargos de chefia da Funasa dependem dos ventos conjunturais da governabilidade.


    Nos últimos anos a Funasa tem provocado inúmeros atritos com o movimento indígena organizado, ao promover o rompimento unilateral de parcerias inicialmente estabelecidas e sua substituição por instituições totalmente alheias ao campo indigenista, como “associações universitárias” e ONGs, bem como prefeituras municipais. As ocupações das sedes da Funasa em praticamente todas as regiões, demonstra a inconformidade dos povos indígenas com a política de assistência em curso.


    As etapas locais e distritais de preparação da IV Conferência Nacional de Saúde Indígena, já realizadas na maioria dos distritos, são também reveladoras das contradições e da situação de crise que atravessa este modelo de assistência em todo o país. A Funasa, com o intuito de restringir a participação organizada dos povos indígenas, monopolizou todo o processo de discussões ocorrido nas regiões e não possibilitou que a Comissão Intersetorial de Saúde Indígena e que as organizações indígenas e indigenistas participassem deste processo, o que gera dúvidas sobre a legitimidade da IV Conferência Nacional, prevista para ocorrer este mês.


    Recentemente o Fórum Nacional de Presidentes de Conselhos Distritais de Saúde Indígena encaminhou denúncia ao Ministério Público Federal sobre as graves deficiências na gestão da saúde indígena. Muitas lideranças indígenas têm se manifestado favoráveis à criação de uma Secretaria Especial de Saúde Indígena para uma gestão mais democrática e efetiva do sub-sistema, a viabilização da autonomia administrativa e financeira para os Distritos Sanitários Indígenas, e o estabelecimento de um efetivo controle social em todas as instâncias da saúde indígena.


    Diante de tudo isso, o Cimi entende que o governo brasileiro terá que reformular a política de saúde em curso, tendo como referência as diretrizes gerais da II Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1993, possibilitar o controle social sobre as ações do órgão responsável pela saúde indígena, bem como disponibilizar recursos financeiros e humanos adequados para atender de forma digna e responsável as comunidades indígenas de todo o país. Entende também que a IV Conferência Nacional de Saúde Indígena só terá legitimidade quando houver a participação efetiva dos povos e organizações indígenas e indigenistas.


     


     


     


    Luziânia (GO), 16 de março de 2006.


     


     

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  • 13/03/2006

    D. Pedro Casaldáliga recebe Prêmio Internacional Catalunha

    Dom Pedro recebeu o Prêmio Internacional Catalunha. O prêmio,  criado em 1989 pela Generalitat da Catalunha, é o reconhecimento aos grandes criadores, cuja obra cultural, científica ou humana constitui um exemplo para a humanidade. Entre as 238 candidaturas que concorreram ao XVIII Premio Internacional Catalunha o júri decidiu outorgá-lo a Dom Pedro por seu meritório trabalho entre os mais desvalidos, em especial os indígenas e lavradores sem terra, com os quais colaborou para a transformação sócio-econômica do Mato Grosso.


     


    O presidente da Catalunha, Pasqual Maragall, entregou o prêmio a Dom Pedro numa cerimônia realizada em São Félix do Araguaia dia 9 de março.



     


    O prêmio consiste em uma soma em dinheiro e na escultura “A chave e a letra” de Antoni Tápies. Entre os que foram agraciados anteriormente estão Karl R. Poper Jacques-Yves Cousteau, Václav Havel, Calude Lév-Strauss. É a primeira vez que o prêmio é concedido a uma personalidade da América Latina.


     

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  • 10/03/2006

    As lágrimas da Aracruz e a coragem das mulheres camponesas

     


     


    “Jamais esperava este tipo de violência”,


    afirmou de um hotel de luxo em São Paulo, o presidente da empresa Aracruz Celulose, Carlos Aguiar, ao jornal Zero Hora de hoje.


     


     


     


     


     


    No dia 20 de janeiro deste ano, a empresa Aracruz Celulose S/A mobilizou helicópteros, bombas, armas e 120 agentes da Polícia Federal do Comando de Operações Táticas (COT), vindos de Brasília, para destruir duas aldeias e expulsar 50 pessoas dos povos Tupiniquim e Guarani de sua terra tradicional, no município de Aracruz (ES).


     


     


     


    Sem sequer receber uma ordem de despejo, os Tupiniquim e Guarani foram surpreendidos com o violento ataque. A ação, que resultou na prisão arbitrária de duas lideranças e deixou outras 12 pessoas feridas, teve todo o apoio logístico da empresa Aracruz Celulose S/A. Os 120 agentes da Polícia Federal receberam hospedagem e utilizaram o heliporto e os telefones da multinacional.


     


     


     


    Durante a ação ilegal da Polícia Federal – condenada inclusive pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados –, tratores da multinacional  destruíram totalmente duas aldeias Tupiniquim e Guarani. Todas as casas foram derrubadas e muitos índios não puderam retirar seus pertences de dentro delas.


     


     


     


    No noticiário das grandes empresas de mídia, não se viu nenhuma mãe Tupiniquim ou Guarani com seus filhos chorando, nenhum ministro do governo condenando a ação ou mesmo o dono da empresa lamentando a violência.


     


     


     


    Mas se por aqui as grandes empresas de mídia não repercutiram o crime cometido pelo aparelho repressor do Estado e a empresa Aracruz Celulose S/A, a família real da Suécia resolveu vender suas ações da multinacional devido às denúncias e fortes pressões contra a violação de direitos humanos cometidos e o desrespeito ao meio ambiente no Brasil.


     


     


     


    Mesmo com as denúncias de desrespeito aos direitos indígenas e ao meio ambiente, a gigante multinacional ainda conta com vultuosos recursos do BNDES. Recentemente foi noticiado que a empresa Aracruz Celulose S/A será beneficiada com mais de R$  297 milhões de recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). O empréstimo, segundo os movimentos sociais, deverá resultar na perda de pelo menos 88 mil postos de trabalho. Essa informação também não foi repassada à opinião pública nacional.


     


     


     


    O povo vai à frente


     


     


    “Deu aquele medinho na mulherada, ao sair do ônibus. Depois que viram as primeiras indo destruir … foi muito lindo”, declarou a militante camponesa gravada por uma câmera escondida do Jornal Nacional de ontem.


     


     


     


    Avançando sobre valores que representam dois pilares do capitalismo, a tecnologia e a propriedade privada, claro que a belíssima ação das mulheres camponesas contra o laboratório da Empresa Aracruz Celulose S/A seria rechaçada por rapinas e oportunistas, principalmente pelos que se guiam pelo calendário eleitoral. Mas é assim que avançam as lutas populares no Brasil. O povo organizado vai à frente tomando porrada de todos os lados e respondendo as urgências do dia-a-dia , enquanto busca aqui, ali e acolá os seus aliados – hoje tão difíceis de serem encontrados.


     


     


     


    Agora, quem acredita que os movimentos sociais podem utilizar as grandes empresas de mídia para se comunicar com a sociedade, ou é muito ingênuo, ou tem pretensões políticas conservadoras não declaradas. Imagine se os movimentos sociais pautassem suas agendas e ações, a partir das possíveis repercussões nas grandes empresas de mídia? Demarcação de terra indígena e reforma agrária, sem retomada e ocupação de terras, não existem.


     


     


     


    Cristiano Navarro, Jornalista do Conselho Indigenista Missionário


     






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  • 10/03/2006

    Omissão da Funasa

    O Cimi – Conselho Indigenista Missionário – vem a público repudiar o relatório divulgado pela Funasa-Fundação Nacional de Saúde, em relação à morte de 15 crianças Apinajé de aldeias do município de Tocantinópolis-TO. O relatório, divulgado em 08 de março, é vazio e inconclusivo, transparecendo a falta de compromisso da Funasa com a busca de soluções para o problema e com a política de saúde indígena no Estado.


     


    De acordo com dados da própria Funasa, no período de janeiro de 2005 a fevereiro de 2006, 15 crianças Apinajé morreram vítimas de desidratação e diarréia aguda, sendo que oito delas somente nos primeiros meses de 2006. Entretanto, apesar do número de mortes ter dobrado em 2006, em relação a todo o ano de 2005, a Fundação insiste em ressaltar em seu Relatório que este é um problema “normal” que ocorre em um período crítico do ano.


     


    Ressaltamos que embora a Funasa tenha enviado uma força-tarefa para investigar e diagnosticar a causa das mortes, esta permaneceu menos de 15 dias nas 14 Aldeias Apinajé. Além do curto período de permanência nas aldeias não foram realizados os exames laboratoriais das amostras coletadas para exames de coprocultura e parasitológico. Ao divulgar um Relatório que não utiliza o resultado de exames que poderiam diagnosticar os agentes causadores das mortes das crianças, a Funasa demonstra que não fez uma investigação séria e compromissada, e  um total desrespeito aos Povos Indígenas.


     


    Precariedade


     


    O Cimi acompanha cotidianamente a situação dos Povos Indígenas do Tocantins, sendo  perceptível a falta de responsabilidade da Funasa em relação a saúde indígena.  Atualmente os serviços de saúde e saneamento básico das Aldeias do Estado, aí incluso as Apinajé, são precários, faltando desde  profissionais qualificados à estrutura física e logística.


     


    Durante a IIª Conferência Distrital de Saúde indígena, realizada em Palmas, em dezembro último, o coordenador regional da Funasa, Carlos Patrocínio, afirmou que há um profissional de saúde para cada 26 indígenas no Estado. Porém na Aldeia São José, onde ocorreu o maior número de mortes, havia apenas um Agente de Saúde Indígena e um técnico de enfermagem para atender uma população de mais de 600 pessoas. Sendo que o técnico de enfermagem permanecia nas aldeias apenas de segunda a sexta-feira, ficando a cargo do Agente de Saúde Indígena o atendimento durante o fim de semana, executando este, inclusive procedimentos para o qual não é preparado, como a administração de medicamentos.


     


    Além da deficiência de recursos humanos, muitas aldeias sequer possuem postos de saúde, e os poucos existentes estão sucateados, sem equipamentos e condições de trabalho adequadas para o oferecimento de serviços de Saúde. Existe ainda a deficiência de meios de comunicação entre as aldeias e os pólos base de saúde, como a ausência de rádios, e falta de meios de transporte para o deslocamento dos indígenas para municípios com melhor estrutura.


     


    Comprometimento


     


    Nesses últimos anos o Cimi constatou a total falta de compromisso da gestão atual com a implementação de uma política de saúde pública específica para as comunidades indígenas. Apesar da legislação sobre saúde indígena determinar que a Funasa é o órgão responsável pela gestão, implementação, execução e fiscalização das ações de saúde indígena, o que ocorre atualmente é a transferência de responsabilidade para terceiros.


     


    A ausência de compromisso é evidenciada por fatos como o desvio, em 2005, de recursos que seriam utilizados na construção de 79 banheiros na aldeia São José, para a Vila dos Pescadores, do município de Tocantinópolis. Houve ainda, dentre outros casos, a contratação de falsos profissionais como o suposto médico, Alexandre Gonçalves que atuou em 2004 na Aldeia Karajá de Xambioá, no Pólo Base de Santa Fé, e o falso enfermeiro Valdivino, que trabalhou com o povo Javaé, no Pólo Base de Formoso do Araguaia.  


     


    Até o momento o que existe é uma total ausência de critérios técnicos para a contração de profissionais para a saúde indígena no Tocantins. O fator determinante para a contratação destes tem sido os interesses e acordos políticos-partidários, o que resulta na falta de identificação  com a comunidade indígena e na prestação de serviços insatisfatórios.


     


    A violência praticada na saúde indígena no Estado é grave, resultando na morte de crianças por doenças totalmente preveníveis, como as Infecções Respiratórias Agudas (IRA) e Diarréia. Se a Funasa cumprisse a missão para a qual foi criada, realizando regularmente, um trabalho de educação em saúde, prevenção e saneamento básico; e se este fosse intensificado no período de aumento sazonal destas patologias, presume-se que, estas crianças certamente não teriam morrido.


     


     A partir de tais fatos o Cimi vem a público cobrar que a Funasa assuma de fato, a responsabilidade em relação à saúde indígena e ao mesmo tempo solicitar um acompanhamento e fiscalização por parte do Ministério Público Federal.


     


    Palmas, 09 de março de 2006.


     


    Conselho Indigenista Missionário – Regional GO/TO


     

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  • 09/03/2006

    Homens armados invadem aldeia na Raposa Serra do Sol

    O Conselho Indígena de Roraima – CIR, recebeu denúncia através de radiofonia do Centro de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol, informando que seis homens armados invadiram a aldeia Cumanã I, na manhã desta quinta-feira, 9 de março.


     


    A informação foi repassada pelo tuxaua Tedir Alves, vice-coordenador da região de Surumu, e atualmente responsável por uma equipe de vigilância do Centro de Formação para evitar que o local seja novamente invadido, destruído e queimado, como ocorreu em 17 de setembro de 2005.


     


    O tuxaua comunicou que a aldeia foi invadida por seis não índios armados de revolveres. “Eles já entraram na comunidade atirando para o alto”, informa Tedir. Segundo o relato, os moradores da aldeia estavam cercados e não podiam deixar o local. O tuxaua disse também que os homens haviam ameaçado atear fogo nas casas.


     


    O Departamento Jurídico do Conselho Indígena de Roraima, através da carta n.224/06, formalizou às 12 horas de hoje, a denúncia do tuxaua Tedir Alves à Funai e à Polícia Federal. A carta solicita que os órgãos federais enviam agentes para averiguar a situação e evitar novos conflitos.


     


    Às 16 horas o administrador substituto da Funai, José Raimundo, informou ao CIR que na manhã desta sexta-feira uma equipe da Funai e da Polícia Federal vai até as aldeias Cumanã I e Nova Vitória averiguar a denúncia.


     


    A proximidade do dia 15 de abril e, a conseqüente retirada dos invasores faz aumentar a tensão em toda a Raposa Serra do Sol, principalmente nas áreas mais próximas às lavouras de arroz irrigado. Após a homologação, os rizicultores prometeram resistência armada a qualquer tentativa de retirada compulsória da terra indígena.


     


    Conselho Indígena de Roraima


     

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  • 09/03/2006

    Informe nº 705: Povo Tupinambá vem a Brasília cobrar demarcação de suas terras

    Depois de duas retomadas realizadas nos últimos 20 dias, um grupo de 13 lideranças do povo Tupinambá de Olivença vieram à Brasília para pressionar a Funai na publicação do laudo antropológico para identificação e delimitação de sua terra tradicional.


     


    Liderados por seus três caciques, Maria Valdelice Amaral, Alício Francisco Amaral e Rosivaldo Ferreira, que representam as 23 comunidades com uma população superior a 5000 pessoas, o grupo Tupinambá tem hoje uma audiência com o presidente da Funai, Mércio Gomes.


     


    Na reunião os Tupinambá devem ouvir a posição do órgão indigenista oficial sobre o laudo antropológico, concluído em novembro do ano passado pela antropóloga Suzana Viegas. No levantamento feito pelos Tupinambá, o calculo é que o seu território tenha cerca de 42 mil hectares, se estendendo pelos municípios de Ilhéus, Una e Buararema.


     


    As fazendas Limoeiro, de 700 hectares, e Cachoeira, de 878 hectares, foram retomadas de forma pacífica respectivamente nos dias 18 de fevereiro e 4 de março. Na fazenda Limoeiro, 300 Tupinambá encontraram uma terra praticamente abandonada, onde trabalhavam apenas três famílias. Na fazenda Cachoeirinha, 150 Tupinambá retomaram a terra que também se encontrava praticamente abandonada. Os nove meeiros que ali trabalhavam não resistiram. No entanto, os Tupinambá encontraram armas de fogo com os meeiros e as entregaram à Polícia Federal. O desinteresse nas fazendas já foi manifestado pelos invasores das terras. “Os fazendeiros já disseram pra gente que estão interessados em se desfazer das terras, por que sabem que são nossas”, afirma o cacique Alício Francisco Amaral.


     


    Além destas duas fazendas, duas outras, de 20 e 200 hectares, foram retomadas em outubro do ano passado. Somadas as terras, o povo Tupinambá têm retomados atualmente 1800 hectares.


     


    Atendimento a saúde


     


    A necessidade urgente do reconhecimento da terra está ligada à um outro problema: a falta de assistência médica. Segundo as lideranças Tupinambá, a Funasa tem se negado a atender pacientes nas áreas retomadas, alegando não trabalhar em área de conflito. Sem o serviço de ambulância, muitos enfermos têm passado por dificuldades. “As coisas estão tranqüilas, não há conflito com os fazendeiros. Mas mesmo que estivéssemos em conflito, onde já se viu a Funasa se negar a atender nosso povo?”, afirma a cacica Maria Valdelice.




     


    Situação dos Suruaha pede solução urgente do poder público


     


    O Cimi Regional Norte I (Amazonas e Roraima), divulgou nota à imprensa tratando dos últimos acontecimentos envolvendo o povo indígena Suruaha. Segue abaixo, na íntegra:


     


    Em vista dos últimos acontecimentos envolvendo o povo indígena Suruaha, relacionados ao tratamento de duas crianças fora da aldeia e ao papel assumido pelos órgãos públicos para o enfrentamento dessa situação que envolve também a presença na área do Cimi – Conselho Indigenista Missionário e da JOCUM – Jovens com uma missão, consideramos oportuno os seguintes esclarecimentos:


     


    1. O Cimi, alertado sobre a iminência de um massacre dos Suruaha por sorveiros exploradores da terra indígena, deslocou uma equipe para a área em 1978 que estabeleceu o primeiro contato com este povo em maio de 1980. Avaliando que a qualidade de vida do povo Suruaha era melhor do que a das demais populações da região, a atuação da equipe se deu junto aos ribeirinhos com objetivo de esclarecer a população envolvente sobre os direitos indígenas e, junto a Funai, para que fossem tomadas as providências para a demarcação do território indígena e sua proteção.


     


    2. Em 1983, sob a alegação de fazer o “contato oficial” com os Suruaha,  a Funai abriu um varadouro (picada) desde o rio Cuniuá – habitado pelos ribeirinhos – até o centro das malocas Suruaha. O Coordenador da expedição, Sebastião Amâncio, questionado sobre a responsabilidade da Funai na construção dessa via de acesso direto a área indígena, expondo a população Suruaha a toda sorte de doenças,  garantiu que já havia feito contato com um grupo missionário que possivelmente poderia se transferir para a região. Dois anos depois chegou o Jocum que se estabeleceu na boca desse varadouro.


     


    3. A postura do Cimi desde o primeiro momento foi a de garantir que o povo Suruaha tivesse assegurado seu direito à terra, cultura e liberdade de decidir seu futuro. Como tem feito historicamente em relação a todos os povos indígenas do país, o Cimi também solicitou providências dos órgãos públicos quando a integridade física e cultural do povo Suruaha estava ameaçada. Por isso, em 2000 informou o Ministério Público Federal sobre as tentativas do Jocum de interferir no mundo simbólico Suruaha motivado pelas suas convicções religiosas.  Preocupado com as repercussões negativas desse fato sobre a organização social desse povo  Igualmente informou ao MPF sobre a retirada em abril de 2005 pelo Jocum das crianças e de seus familiares para tratamento em Porto Velho e, posteriormente para São Paulo.


     


    4. A intervenção do MPF e a repercussão desses fatos resultaram numa atuação maior da Funasa que assumiu a responsabilidade com o tratamento das crianças e está buscando organizar sua presença na área evitando as ações pontuais de saúde feitas somente de helicóptero.


     


    5. O Cimi, em diferentes espaços e momentos, forneceu ao poder público informações sobre a real situação do povo Suruaha para embasar as providências que devem ser tomadas, favorecendo uma avaliação criteriosa sobre o papel dos diferentes atores envolvidos.


     


    6. Considerando a delicada situação em que se encontra o povo Suruaha, nesse momento fragilizado por um aumento no número de suicídios e submetido a enormes transtornos decorrentes de interferências externas agressivas a cultura, o Cimi – que desde o primeiro contato assumiu um compromisso com a vida desse povo – manterá o seu papel de aliado, pois está em jogo o futuro de todos os Suruaha. Espera que este povo tenha seu modo de ser respeitado e possa ter o controle sobre sua vida, inclusive para estabelecer as alianças necessárias para assegurar seus direitos fundamentais.


     


    Brasília, 9 de março de 2006.


     


    Cimi – Conselho Indigenista Missionário


     

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